O dia seguinte amanheceu completamente cinzento e frio, raios se precipitando pelo céu como em um aviso que choveria. Para Juliet, porém, aquilo apenas ajudava em seu bom humor: adorava frio, chuva e tempos como aquele, portanto não foi nem um pouco difícil acordar às 7:30 da manhã em pleno sábado para seu ensaio do balé. Suzana, por outro lado, demorou no mínimo meia hora apenas para levantar. Enquanto Juliet já estava em pé,Suzana roncava e babava, dormindo abraçada à seu ursinho de pelúcia; quando finalmente acordou, Juliet já estava no banho e, quando finalmente resolveu que estava um pouco mais acordada e um banho lhe faria melhor, Juliet já se trocava.

Vestiu as meias calças, o collant e a saia do balé, guardou as sapatilhas na mochila – não poderia sair na rua com aqueles sapatos, fora que iria estragá-los –, colocou seu tênis grande, preto com estrelas rosas, velho e lindo da Adio e, por causa do tempo, vestiu um casaco cinza com capuz e zíper aberto. Enquanto tirava uma barrinha de cereal da mochila – odiava comer muito antes de dançar –, colocando-a nas costas em seguida, sentou na cama e esperou por Suzana. Algumas vezes, lembrava das cenas da noite passada, de Dougie, em como ele estava estranho... e, automaticamente, Juliet apanhou o celular da mochila e encarou a tela esperançosa. Não tinha nada ali, além da foto dela com suas amigas que era o papel de parede do fundo de tela do celular. Dougie não estaria acordado àquela hora, nem que sua casa estivesse pegando fogo. E, por mais que soubesse que ele não a ligaria, pelo menos não naquele momento, Juliet continuou mexendo em seu celular como se estivesse ainda esperando por sua ligação. Entrou na galeria de fotos que tinha, vendo uma por uma... e ali, sem saber, achou uma foto de Dougie. Ele parecia segurar a câmera com a mão direita, enquanto fazia sinal de ‘jóia’ com a mão esquerda e fazia uma careta. Quando ele havia tirado aquela foto? E ela nem havia visto.Juliet sorriu e, apertando rapidamente alguns dos botões do celular, voltou à tela do aparelho, que agora aparecia a mesma foto de Dougie que havia visto. Sem perceber, passou pelo menos dois minutos sem parar encarando aquela imagem, rindo sozinha.

– Eu me odeio nesses collants, sério, eu pareço uma criancinha! – Suzana apareceu à porta do banheiro, o cabelo pingando e molhando sua roupa e o chão do quarto, uma fumaça quente saindo do local. – Do que você tá rindo, troxona?

– Nada – Juliet disse rapidamente, fechando o celular e encarando a amiga. – E você só parece uma criancinha porque você é baixinha, Suzana. Agora vamos logo.

– Ah, obrigada pela parte que me toca – A garota ironizou, estirando o dedo para a amiga enquanto apanhava sua mochila já pronta do chão. – E porque você fica super fofa e eu pareço uma... retardada que quer tentar dançar balé? Eu to com vergonha de andar assim na rua!

– Você fica super linda, amiga – Juliet começou, rolando os olhos enquanto ria e empurrava a amiga para fora do quarto. – E a gente só vai pegar o táxi e pronto, estamos lá. Ninguém vai te ver. VAI!

– Não, magina, ninguém vai me ver, apenas milhões de pessoas que são loucas e trabalham em pleno sábado em pleno centro de Londres! – Suzana reclamou, fazendo gestos exagerados com as mãos, quase acertando Juliet com sua mochila, enquanto deixava-se ser arrastada. – Ai cara, porque você fica tão bonitinha com essa roupa? E sua meia calça rosa até combina com o Adio!

– Suh?

– Você não quer tirar seu tênis pra ver se fica bom em mim também? Aí a gente troca...

– Suzana?

– Porque imagina se eu encontro alguém conhecido na rua! Que mico, pelo amor de deus!

– Suzana!

– AH, que foi?

– CALA A BOCA E ANDA!

Juliet, sem esperar, entrou no elevador e apertou o botão, segurando a risada. Suzana havia parado para encarar a amiga como se realmente estivesse ofendida, e só saiu do ‘transe’ quando viu a porta do elevador se fechando e saiu correndo para que pudesse entrar.

– Alguém já te disse que você é extremamente temperamentalista e grossa? – Suzana perguntou incrédula, assim que, após uma corrida ridícula enquanto tentava ao mesmo tempo alcançar o elevador e equilibrar a mochila em apenas um ombro, conseguiu parar arfando ao lado de Juliet.

– Alguém já te disse que você parece uma pata correndo?

Suzana fechou a cara e cruzou os braços, emburrada demais para continuar falando, e Juliet abafou o riso quando viu o elevador parar e alguns adultos entrarem. Minutos depois, um pequeno barulhinho seguido de uma luzinha avisou que eles haviam finalmente chegado ao térreo e, quando todos saíram, Juliet seguiu a pequena multidão de adultos depois de sussurrar para Suzana:

– Vamos logo, não é como se você fosse encontrar o Jones por aqui à essa hora!

Juliet virou a tempo de conseguir ver o rosto de Suzana transformar-se tão rosa quanto seu collant do balé, mas não viu a amiga a seguindo para fora do elevador.

– Ah Suzana, pára com isso e vamos logo! – Juliet reclamou, puxando o braço da menina para fora e rindo enquanto voltava a empurrá-la para fora do apartamento.

xx

– Dougie, você precisa contar à ela logo! – Harry disse pelo que sentiu ser a décima segunda vez no dia.

Dougie e ele haviam pedido quinze minutos de ‘folga’ do estúdio e ido buscar café para eles e os outros que continuavam lá, discutindo músicas e as gravações. Dougie se sentiu extremamente aliviado quando, em um momento em que nada que não se relacionava à Juliet não entrava em sua cabeça, Harry pareceu perceber e o chamou para acompanhá-lo ao Starbucks. Gostava de saber que poderia contar com Harry para aquele tipo de coisa, pois Tom iria ficar tão feliz em saber daquilo quanto ficou quando soube que Dougie havia sido o cara que beijara Juliet no baile.

– Eu sei que eu tenho, eu só não sei como – Dougie repetiu ao amigo, ocupado demais encarando cabisbaixo o caminho por onde andava para perceber o olhar de pena que Harry havia lhe lançado.

– Olha cara, eu sei que é difícil, mas ela vai preferir ouvir isso de você – Harry continuou, apertando o casaco cinza contra o corpo numa tentativa falha de evitar o vento e a garoa gelada. – Você realmente acha que o Tom não vai querer contar à ela? Eles são como irmãos. Até mesmo eu pensei em contar à Juh quando recebemos aquela notícia do Fletch, mas aí... bem, tem você, né.

– Como assim, “tem eu”? – Dougie perguntou, levantando a cabeça pela primeira vez em toda a conversa.

– Dougie, por mais que ela tenha à mim e ao Tom como melhores amigos para contá-la tudo, você acha que ela vai preferir ouvir isso de mim, doFletcher ou do próprio namorado dela? – Harry concluiu, lançando mais uma vez o olhar de pena à Dougie, fazendo-o se arrepender de ter levantando a cabeça.

Por mais que soubesse que Harry estava certo, que tudo que ele havia dito era verdade, Dougie não concordou ou disse nada para acrescentar. Haviam chegado à esquina da Abbey Road e logo adentraram o Starbucks, agradecendo por não estar tão cheio quanto normalmente.

– Café, certo? – Harry perguntou, vendo Dougie concordar com a cabeça e virando-se para encarar agora o atendente. – Me vê um Latte, moço, e... o que você quer, Dougie?

– Um Mocha – Dougie respondeu rapidamente, observando enquanto Harry repetia o que ele havia dito segundos antes. – Hey Harry, espera... quando nós vamos ver as meninas hoje?

– Eu disse pra Eliza vir nos ver no estúdio ainda hoje – Harry respondeu sem tirar os olhos do dinheiro em que contava para pagar os cafés. – Por quê?

– A Juh vai também?

– Provavelmente.

– Certo – Dougie concordou, apreensivo, sem tirar os olhos da tela do celular. – Anh, Harry?

– Sim?

– Pede mais um Caramel Macchiato e um muffin de blueberry, por favor? – Dougie pediu, levantando o olhar da foto que antes encarava no celular e encontrando o olhar confuso do amigo. – Favorito da Juh... – Completou, sorrindo fraco e dando de ombros ao que Harry riu.

– Se for assim, me vê um cookie gigante de chocolate e um Vanilla Latte, por favor – Harry pediu ao atendente, rindo com Dougie e também dando de ombros. – Favorito da Eliza...

Após pagarem, apanharem as sacolinhas de comida e as bebidas, saírem do estabelecimento e em seguida terem que voltar por terem esquecido os cafés dos outros no estúdio, Harry e Dougie estavam finalmente caminhando pelas ruas geladas de Londres de volta para a Abbey Road.

– Harry, você já... – Dougie começou, hesitando quando viu o olhar de Harry o mirar. – Você já contou pra Eliza sobre... você sabe...

– Não – Harry respondeu em um sorriso triste, enquanto brincava com o papel da sacolinha de comidas que levava. – Eu também to pensando em como contar, sabe... digo, não que eu precise contar, entende? – Continuou, fingindo não se importar e corando por fingir tão mal. – Ela só é minha amiga, não é como se eu tivesse que contar à ela ou nada do tipo, e...

– Claro que não, Harry, claro que não – Dougie concordou ironicamente, rindo da cara que Harry fazia e em seguida recebendo um leve soco no braço do mesmo por tê-lo feito corar ainda mais. – Mas você... você gosta dela, não gosta?

Harry não respondeu a pergunta por imediato, e apenas quando alcançaram a porta do estúdio, ele parou em frente à Dougie e suspirou, a fumaça nevoada causada pelo frio saindo de sua boca.

– Eu gosto dela, sabe Dougie, eu realmente gosto, e... você sabe como eu sempre tive uma queda por ela, mesmo quando ela ainda era metida, e agora que eu tenho minha chance... eu sei que é injusto, deve ser principalmente pra você também, mas eu... eu vou esperar por ela, sabe? E eu só... eu espero que ela faça o mesmo também.

Dougie não sabia se era por causa do frio ou pelas palavras, mas observou o rosto de Harry se tornar cada vez mais rosado enquanto ele lhe lançava um olhar triste, concordava vagarosamente com a cabeça e finalmente se virava para adentrar o estúdio, deixando Dougie sozinho no frio, pensando.

I guess the most that I can do is make a call and tell you the truth

Sing the words in melody and hope that you'll believe me

Here’s another song for you, so this one, this one makes two

Still don't know where to begin, I’ll just leave it at this

Dougie enfiou a mão no bolso fundo da calça jeans e tirou de lá seu celular. Encarou, pela centésima vez apenas naquele dia, a foto do fundo de tela. Ela que havia tirado, ele lembrava perfeitamente bem desse dia. Não que fosse há muito tempo atrás, mas parecia que qualquer e todo momento que passava com ela era registrado em sua memória de modo diferente e mais especial comparado em como as outras lembranças eram.

I’m sure you always feel my eyes on you

but I hope that you will never feel unwanted

Wait for me to move out west

It’s ok if you don't

I hope you know you’re my favorite thing about the west coast

I wish I stayed, I hope you wait

So here I am

Counting down the days ‘til California comes

Era ainda no começo do namoro, segundo dia, na verdade, e ela havia roubado o celular do bolso dele, começando então uma ‘guerrinha’ pela grama na tentativa de Dougie conseguir seu aparelho de volta. Ele fazia cócegas e ela ria, ria sem parar, e fazia ele sorrir sem parar também. E então ela parou de rir, ficou de repente séria, e Dougie instantaneamente parou de lhe fazer cócegas. Os dois ficaram se encarando, um nos olhos dos outros, como se dissessem tudo por ali sem nem precisar de palavras. E então ela o beijou, o agarrou pelo pescoço e o beijou. E, quando ela parou de beijá-lo, começou a rir novamente, e foi naquele momento em que havia tirado a foto. Ela estava rindo gostosamente, enquanto ele apenas sorria e lhe beijava a bochecha ao mesmo tempo, sem saber que daquela cena sairia uma das fotos mais bonitas que já vira na vida.

This is the least that I can do

You know I’m bad at calling you

The best way I can accept the lonely words I miss you

I’ll say it but I’m sure you knew

You’re what I look most forward to

Coming back to where I’ve been, I’ll just leave it at this

E, quase que sem pensar, Dougie digitou os números que seus dedos mais conheciam.

– Alô?

Era a voz dela.

– Juh? – Ele chamou, incerto sobre o que iria dizer agora.

– Oi Dougie! – Ela respondeu, parecendo feliz e ainda assim cansada.

– Você ta bem?

– Ah, to sim, é que eu acabei de sair do ensaio do balé – Ela continuou, sem esperar para que ele respondesse. – Você e os meninos tão no estúdio, né? Eu e a Eliza vamos passar aí daqui a pouco, eu só preciso de um banho. Credo, odeio ficar suada!

Dougie ouviu-a rindo e não conteve uma risada baixinha também, apesar de triste.

– Aconteceu alguma coisa, amor? – Ela perguntou, obviamente percebendo o silêncio do namorado.

Mas Dougie continuou sem responder, apenas sorriu. Ela nunca havia o chamado de amor. Aliás, nunca ninguém havia o chamado de amor a não ser por sua mãe, e, acredite, não era a mesma coisa.

– Não, eu só queria ouvir sua voz – Ele respondeu rapidamente, sorrindo quando ouviu a namorada rir com alguém que berrava ao fundo: “aw, que meigo, gente!” – Quem ta aí?

– A idiota da Suzana – Ela respondeu, fazendo Dougie rir ao que as duas meninas começaram uma pequena ‘discussão’ do outro lado da linha.

– Amor, eu tenho que ir, o idiota do Danny ta me sinalizando aqui ou seja lá o que ele ta fazendo pra eu entrar – Dougie finalmente disse, assim que percebeu um Danny pulando e mexendo os braços de dentro do estúdio, pelo vidro, para que ele visse.

– Falando da idiota fêmea, chega o idiota macho – Ela comentou baixinho, fazendo Dougie rir ainda mais quando ela começou a berrar e reclamar que havia sido violentada. – Não me bate, Suzana! É o Jones que curte um masoquismo, não eu! – E, após mais risadas, berros, barulhos de pessoas correndo e em seguida uma porta batendo, Dougie pôde ouvir a voz da namorada novamente. – Desculpa amor, eu tive que me trancar no banheiro pra Suzana não me perseguir e me bater.

– Certo – Dougie concordou, ainda rindo enquanto imaginava a situação.

– Bom, não vou te segurar mais porque senão o Jones vai resolver ficar igual à Suzana, o que eu não duvido, e querer te bater também. Nos vemos daqui alguns minutos?

– Como se você tomasse banho em alguns minutos, né Juliet?

– Hey, você quer ser o próximo a apanhar também?

– Desculpe.

– Acho bom!

Os dois riram e ficaram alguns minutos em silêncio.

– Bom, então até daqui a pouco, amor.

– Até.

Os dois ficaram novamente em silêncio, como se não quisessem desligar, e antes que ela pudesse mesmo o fazer, Dougie berrou ao telefone.

– JUH!

– OOOOOOPAAAAAA, OI?

– Eu... te amo.

– Eu também te amo, Dougie.

I’m sure you always feel my eyes on you

but I hope that you will never feel unwanted

if you feel unwanted...

Wait for me to move out west

It’s ok if you don't

I hope you know you’re my favorite thing about the west coast

I wish I stayed, I hope you wait

So here I am

Counting down the days ‘til California comes...

Notas finais
me perdoem a demora ç.ç
eu tou sem tempo ç.ç