Notas iniciais
Esse conto foi criado a partir de um sonho que tive, que me deu inspiração para escreve-lo.

Nessa cidade ninguém ri, chora, ama, odeia, pensa ou demonstra qualquer outro tipo de sentimento. Isso acontecia, porque eles haviam perdido ‘’aquilo’’ em seus corações.

Eu não me lembro bem de como tudo aconteceu ou como as pessoas ficaram desse jeito, mas tudo que me lembro era de ter visto um grande clarão no céu como aqueles produzidos por tempestades, mas não parecia ser algo natural, alias eu nem me recordo se estava chovendo ou não naquele dia, só sei que depois de ver aquilo não havia mais nada em minha memória sobre o ocorrido.

Agora, como eu posso explicar o que eu chamava como ‘’aquilo’’ que as pessoas haviam perdido? Eu não sei bem como dizer, mas isso seria o que representava a personalidade de cada um, em outras palavras, eu diria que era a nossa alma.

A sociedade foi crescendo assim ‘’sem alma’’. Muitos acabaram se acostumando, outros se sentiram melhor sem ela. Não haviam mais aqueles valores sociais que ditavam as regras de comportamento social, as pessoas eram extremamente individualistas, solitárias e...Eu não diria tristes, porque eles não tinham mais sentimentos, mas era algo que causaria calafrios e uma sensação de desconforto em alguém possuísse ‘’aquilo’’

Aqui, acabou se tornando símbolo de moda, poder, riqueza e beleza não ter ‘’aquilo’’. Nenhuma família que fosse rica ou de prestigio poderia permitir ter ‘’aquilo’’, por isso sempre que uma criança nascia, lhe davam uma droga para que pudessem extrair ‘’aquilo’’, enquanto ela ainda era novinha e não havia desenvolvido direito o que tinha. Você pode achar estranho depois de tudo o que contei o fato de ainda existirem casamentos nessa cidade, mas não se deixe enganar, ninguém fazia isso por amor, nunca houve amor entre ninguém, apenas interesse.

Na minha sincera opinião eu estava vivendo em uma sociedade zumbi! Não como aqueles dos filmes de terror que são mortos vivos e saem devorando tudo que fosse vivo, mas zumbis em suas atitudes e comportamentos, eles se deixavam levar mais pelo carnal do que pelo racional ou emocional. Pareciam animais vivendo sob seus instintos primitivos.

Eram poucos os que ainda conservavam sua humanidade, eu não saberia dizer quantos, ate porque nunca havia visto alguém que fosse igual a mim por lá. Não sei bem como explicar, mas isso dentro de mim não havia morrido, lutava para sobreviver como uma vela acesa em meio a total escuridão.

Eu gostava de ter ‘’aquilo’’, para mim era como um tesouro muito precioso, pois era lá que estava a minha humanidade. Eu tinha tanto medo de que descobrissem o meu segredo. Precisava fingir mesmo que não gostasse. Eu não sei o que iria acontecer comigo se descobrissem. Meu Deus! Como estou com medo! Sinto-me tão sozinha, não consigo encontrar ninguém que seja como eu.

Infelizmente o que tanto temia havia acontecido, meu segredo fora descoberto por uma mulher. Ela exclamou espantada quando descobriu e disse que iria me dar um remédio para me curar. Ela falava como se eu tivesse alguma doença. Eu não poderia permitir que isso acontecesse! Precisava fugir! Não posso deixar ninguém me encontrar! EU TENHO QUE SAIR DESSA CIDADE!

Isolei-me de tudo e de todos, estava completamente só, mas pelo menos ainda tinha a minha luz interior e era isso que importava. Eu precisava sobreviver até conseguir encontrar um lugar onde o Sol brilhasse. Eu...Eu...Não sei quanto tempo se passou desde então...Eu apenas sobrevivia como podia.

Acordei com um barulho! Meu Deus não pode ser! Eles haviam me encontrado! Tentei fugir mas eles conseguiram me pegar e me fizeram dormir. Acordei em uma cama de hospital, tentei me levantar, mas haviam amarras nos meus braços, pernas, cintura e pescoço. Fiquei desesperada, eu gritava por ajuda, mas nada aconteceu.

De repente surgiram umas pessoas, elas vestiam jalecos brancos e tinham um sorriso macabro no rosto. A maneira que me olhavam, com aqueles sorrisos, era agonizante, porque ate então ninguém havia sorrido, mas o que eu via era doentio. Eles pareciam felizes com meu sofrimento. Comecei a chorar e gritar, mas isso não os fazia ir embora, ao contrário, eles se divertiam ainda mais.

''Nós só queremos te ajudar!.’’

Eles me deram algo para beber, eu recusei, mas haviam tubos em minhas veias por onde entrava um liquido desconhecido. Eu sentia que estava perdendo algo, uma coisa da qual gostava muito estava indo embora, mas eu não consigo mais me lembrar o que era...eu acho que...

Quando acordei, eles ainda estavam lá e disseram:

‘' Não se sente melhor? Isso não doeu nada, mas você é muito teimosa. Bem não importa mais, agora você é uma de nós!’’

Eu não sentia nada, absolutamente nada! Agora eu era como os outros e fazia jus á cidade onde morava. E você forasteiro, se algum dia for numa cidade e nela só existir trevas e ninguém falar com você, nem sequer te olhar por mais que tente cumprimentar alguém. Esqueça. Fuja! Saia de lá o mais rápido possível! Não olhe para trás e nem pense em voltar! Porque se o fizer eles vão te pegar e fazer a mesma coisa que fizeram comigo. Vão tirar a sua alma e você se tornará um novo morador da nossa cidade.

Sabe o que é mais divertido? É que se isso acontecer eu estarei entre aqueles que vão te operar. Mas não se preocupe, prometo que não vai doer nada, mas só se te comportar direitinho, está bem? Vai ser divertido!

Notas finais
O que acharam? Por favor, deixem seus comentários.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!