A Cidade de Prata
14 Capítulo XIII
A fumaça das primeiras cargas de explosivo subia preguiçosa no céu azul do sertão, riscando o ar parado com colunas cinzentas que tremeluziam sob o sol implacável. O som das explosões reverberava pelas colinas, um trovão que parecia zombar do silêncio reverente que a cidade perdida mantivera por séculos.
Rômulo estava de pé bem no centro da antiga praça, observando com olhos semicerrados o que restava da grandiosa fachada do que acreditavam ter sido um templo. Colunas de calcário amarelado adornadas com inscrições desgastadas e esculturas corroídas pelo tempo agora estavam cobertas de trincas onde Ebony cuidadosamente colocava cargas de C-4. Elena, suada e coberta de poeira, enrolava os fios com mãos firmes, ignorando o peso do que faziam.
— Cuidado com essas cargas — Alertou Rômulo, embora o tom não fosse de preocupação pela preservação histórica, mas pelo sucesso de sua tarefa — Não quero ver pedras voando sobre nossas cabeças.
Elena soltou um breve “sim, senhor” e continuou. Os olhos dela, tão vivos nos dias anteriores quando exploravam cada detalhe da arquitetura romana, agora estavam opacos, quase ausentes. Talvez fosse o choque de ter de destruir aquilo que, por formação, aprendera a amar. Mas não ousava se opor. Não depois do que viram Rômulo fazer com Ian. E Daniel e Lucas, soterrados vivos, serviam como o lembrete cruel do destino que aguardava quem questionasse demais.
Ebony terminava de fixar as cargas aos pés da coluna da praça. Colocou a mão sobre a pedra e olhou para a estátua de Júlio César lá no alto por um instante, como se pedisse desculpas. Então recuou e sinalizou para Rômulo.
— Pronto. Tudo preparado aqui.
Rômulo sorriu largo. Era um sorriso perturbador, sem calor algum. Ele girou lentamente sobre o próprio eixo, contemplando a cidade que tantas vidas e séculos haviam levado para ser construída.
— Sabem o que isso significa? — Disse ele, quase em êxtase — Significa que quando a história olhar para este momento, não encontrará ruínas romanas aqui para contestar a nossa soberania. Não haverá esculturas, não haverá moedas, não haverá fundações. A Itália jamais saberá. — Ele pensou em algo e abriu um sorriso — E o Manuscrito 512 vai voltar a ser exatamente o que sempre foi: um faz-de-contas.
Ele inspirou fundo, inflando o peito como quem aprecia um vinho raro, absorvendo o cheiro acre do explosivo.
— E nós? Seremos os guardiões do último segredo. Eu, herdeiro legítimo da coroa portuguesa, terei restaurado o equilíbrio que os republicanos traidores destruíram.
Elena não respondeu. Ebony também ficou em silêncio, apenas assentindo com o queixo. Rômulo parecia não notar ou não se importar com o peso do que dizia.
— Me dê o isqueiro, Ebony.
O negro puxou o isqueiro do bolso e inclinou-se, entregando-o a Rômulo. O empresário caminhou até a ponta do cordame e acendeu-o. O estopim chiou, cuspindo faíscas, correndo apressado em direção aos cartuchos que serpenteavam pelas bases dos prédios antigos. Rômulo deu as costas, recuando para a estrada de acesso à cidade e abrindo os braços como um maestro.
— Realmente é um lugar muito lindo, mas já não tem mais por que existir. — Ele soltou, triunfante — Adeus, cidade perdida.
O primeiro estrondo foi tão poderoso que o chão tremeu sob seus pés. Um clarão engoliu o fórum, atirando blocos enormes a metros de distância. Uma nuvem de poeira ascendeu com fúria, envolvendo-os num nevoeiro sufocante.
Logo vieram as explosões secundárias, num efeito dominó: o templo despencou sobre si mesmo, telhas e frontões despedaçados se misturando num coro brutal de estilhaços. As colunatas desmoronaram como dominós, erguendo labaredas breves à medida que as cargas incendiavam o material orgânico que persistira ao longo dos séculos — vigas, madeiras ressecadas, raízes que haviam invadido as paredes. As casas mais baixas caíam uma sobre a outra em sequência, desfazendo-se em pó quase instantaneamente.
O som era ensurdecedor. Cada batida ecoava pelo vale como o rugir de um deus vingativo. Pássaros se ergueram em bandos desorientados, enchendo o céu de pontos negros. Alguns passavam tão baixo que quase tocavam seus ombros.
Rômulo fechou os olhos, o rosto voltado para cima, o corpo tomado por uma estranha beatitude. Quando o som das detonações cessou e ele tornou a abri-los, toda a cidade estava irreconhecível. Onde antes havia construções imponentes, colunas ornamentadas e a figura de um imperador, restava um amontoado disforme de entulho, como se gigantes tivessem brincado de empilhar ossos de pedra.
— Magnífico — Sussurrou.
Elena engoliu em seco. Seu rosto estava molhado, não apenas de suor, mas de lágrimas que ela não se dera o trabalho de limpar. Ebony passou o braço pesado pelos ombros dela, num gesto que tentava oferecer algum consolo para uma emoção que viera de forma inesperada.
— Está feito. — Disse ele, a voz rouca.
— Sim. Está feito. — Rômulo girou sobre os calcanhares, subitamente cheio de energia. — Agora vamos. Vamos voltar para os veículos e contactar nosso piloto. Quero sair deste buraco o quanto antes.
Desceram pela rua principal da cidade, que ainda exalava o cheiro acre de fumaça e pedra queimada. As pegadas que haviam deixado antes sumiam em pequenas crateras ou sob entulho. Era como se eles mesmos nunca tivessem estado ali.
Quando chegaram ao arco do triunfo semiarruinado que marcava a entrada da cidade — agora meio tombado após o tremor das explosões — Rômulo parou por um instante, lançou um último olhar sobre o que restava da metrópole esquecida, e então virou as costas sem hesitar. Elena, porém, voltou-se uma última vez, murmurando algo inaudível, como uma prece a deuses antigos que não mais escutavam.
—X—X—X—
As explosões ao longe estremeceram as montanhas ao redor e sacudiram Daniel como se ele fosse uma folha seca. O chão tremeu, as paredes retumbaram num trovão prolongado, pedras se soltaram do teto em cascatas. O ambiente ao redor dele estava quente, carregado de poeira e cheiro acre de pólvora, quase o sufocando.
Após a detonação da entrada da caverna, por um instante tudo foi só um redemoinho de rochas e um som lancinante, que estourava nos tímpanos e reverberava no crânio. Então vieram a escuridão e o silêncio absoluto — pesado, incômodo, quase sólido — quebrado apenas por pequenas pedrinhas que ainda rolavam em algum canto. Agora, as explosões longínquas vinham para despertá-lo e trazê-lo de volta à realidade.
Quando enfim recobrou a consciência, Daniel permaneceu imóvel por vários segundos, o coração disparado, cada batida doendo como se fosse a última. Então ergueu o rosto, tossindo, os olhos ardendo com a poeira espessa que preenchia a galeria. Não havia mais nenhum sinal de luz de onde havia sido a entrada. Apenas escuridão total.
Acionou o botão da lanterna pregada no colete e a lâmpada brilhou forte, clareando uns bons 3 metros à frente. Uma nuvem de partículas dançava no feixe amarelo. Arfando, ele voltou o foco para Lucas, que estava de olhos fechados, o peito subindo e descendo em ritmo irregular.
— Lucas… ei, tá me ouvindo? — Daniel sussurrou, temendo erguer a voz e provocar novos desmoronamentos.
Lucas abriu um olho, depois o outro, um filete de sangue escorrendo do canto da boca.
— Claro… — Tentou sorrir, mas foi um esgar fraco — Até parece… que ia te deixar sozinho pra… bancar o herói.
Daniel soltou uma risada curta, nervosa, que saiu quase como um soluço. Limpou o suor e a poeira do rosto de Lucas com a manga, sem saber ao certo o que mais fazer. O sangue continuava a escorrer do ombro ferido, mas ao menos o amigo estava consciente.
Daniel manteve Lucas recostado na parede úmida enquanto rasgava um pedaço da própria camiseta para improvisar um curativo. As mãos dele tremiam, mas conseguiu amarrar uma tira de pano ao redor do ombro ensanguentado do amigo. Pressionou com força, arrancando de Lucas um gemido rouco.
— Eu sei… eu sei… Aguenta só mais um pouco, tá? Preciso que fique comigo. — Murmurava, a voz quase quebrando — Agora preciso pensar num jeito de prender bem esse curativo.
Lucas fechou os olhos com força, respirando fundo. Quando voltou a abrir, havia algo decidido em seu olhar.
— Tem silver tape… na minha mochila. — O assistente anunciou — Ela deve ter caído lá na entrada…
— Ótimo. Vai servir. — Daniel assentiu.
— Me ajuda… a levantar… — Lucas pediu.
— Não. — O arqueólogo protestou — Você não tem condições…
— Me ajuda, porra. — O amigo o interrompeu — Não vou… ficar largado… esperando morrer.
Daniel engoliu em seco e passou o braço pelas costas dele, levantando-o devagar. Lucas cambaleou, mas conseguiu firmar as pernas. Aos poucos, caminharam de volta na direção de onde ficava a entrada da caverna e logo constataram o que mais temiam: a explosão havia derrubado grandes blocos de pedra sobre a abertura. Grandes demais para que conseguissem movê-los.
Fingindo não estar pensando sobre isso naquele momento, Daniel clareou o ambiente ao redor procurando a mochila de Lucas. Encontrou-a caída num canto e logo tratou de resgatá-la. Um pequeno rolo de silver tape estava em um dos bolsos externos, e o arqueólogo o pegou como quem recebe um prêmio. Voltou até o amigo e reforçou o curativo em seu ombro, cobrindo a tira de pano que estancava o sangramento com a resistente fita impermeável.
— E agora, Daniel? — Lucas conseguiu questionar, com um tom de voz triste — O que vamos fazer?
— Nós vamos sair daqui. — O arqueólogo respondeu com firmeza, apontando para o fundo da caverna — Essas minas antigas sempre costumam ter mais saídas além da principal. Existe uma boa chance de que haja um veio que termina do outro lado da montanha.
Lucas soltou um riso sem humor.
— Sorte não tá sendo… o forte da gente hoje.
— Mesmo assim, é nossa única opção. — Disse Daniel, com uma confiança teimosa na voz — Vamos descer devagar.
Daniel pegou outra lanterna na mochila de Lucas e deu-a ao amigo. Não fazia sentido carregar peso dali em diante, então escolheu deixar a mochila por ali mesmo. Mal havia se colocado de pé para ajudar o assistente a se levantar também quando um lamento sofrido lhe chegou aos ouvidos. Era fraco, mas ele tinha certeza do que tinha ouvido.
Vasculhando o ambiente ao redor com o facho da lanterna de novo, viu de onde provinha aquele som. Era Ian, caído entre dois blocos de pedra mais atrás. Por algum milagre ele não tinha sido soterrado na explosão, e agora agonizava pelo tiro que levara. Daniel se aproximou, avaliando a cena. A bala o atingira bem no osso esterno, e se ele não morrera de imediato então seu coração havia sido evitado por milímetros. Mesmo assim, ele não ia durar muito tempo ali.
— Lucas. — Chamou — Você consegue caminhar sozinho?
O assistente o encarou, surpreso.
— Você está… pensando… em levá-lo?
— Estou. — Daniel confirmou — Não podemos deixá-lo aqui e fingir que não vimos.
Lucas refletiu por alguns segundos, mas por fim consentiu.
— Está certo. — Ele fez um gesto com a mão — Além disso… Não foi ele que… atirou na gente.
Daniel se abaixou sobre Ian, verificando seus sinais.
— Ian? Consegue me ouvir?
O outro abriu os olhos de leve. numa reação fraca, mas foi o suficiente para Daniel confirmar que ele tinha o notado.
— Nós vamos procurar outra saída dessa caverna. — Ele anunciou — E eu vou levar você comigo, ok?
O arqueólogo se abaixou e apalpou de leve a coluna de Ian, constatando que o tiro não a partira em duas. Terminou de rasgar sua camiseta e fez outro curativo improvisado para estancar o sangramento do outro, utilizando também o resto do rolo de silver tape para segurar o curativo no lugar. Era o melhor que podia fazer naquelas condições.
— Vou te levantar, ok? — Daniel anunciou, passando o braço pelas costas do outro — No três. Um, dois… Três. — E levantou, puxando Ian consigo.
O outro soltou um gemido de dor, sua expressão facial denunciando que muito provavelmente desmaiaria em breve. O tempo urgia contra eles.
— Pronto? — Daniel perguntou a Lucas.
O amigo fez que sim.
— Vou me… esforçar. Não pretendo… morrer aqui.
Lucas ajeitou seus óculos no rosto e empunhou a lanterna, apontando-a caverna adentro. Lentamente, pôs-se a andar, sendo seguido de perto por Daniel, que trazia um Ian morimbundo a tiracolo.
Cada passo era um esforço doloroso, os pés escorregando no solo pedregoso. A escuridão era quase total, rompida só pelo facho vacilante das lanternas de Daniel e Lucas, que iluminavam estalactites distantes e fragmentos de prata nas paredes.
Chegaram a um ponto onde o túnel se abria num declive. A ladeira era traiçoeira, cheia de pedras soltas e rampas naturais escorregadias. Neste ponto Daniel achou prudente ir à frente, testando o solo, depois voltou para ajudar Lucas e Ian. Em alguns pontos quase caíram juntos, se segurando nos salientes úmidas das paredes.
Conforme iam adentrando a montanha o ar ficava mais frio, o cheiro de mofo substituído por algo mineral, quase ferroso. Então Daniel ouviu. Um som distinto, como água correndo — bem mais forte e constante que o gotejar que acompanhava desde a explosão. O coração acelerou. Aceleraram o passo, dobrando uma curva estreita, e deram de cara com o que parecia um pequeno rio subterrâneo. A água corria límpida, cintilando fraca à luz da lanterna, contornando grandes blocos de pedra antes de desaparecer numa curva adiante.
— Merda… — Disse Lucas. — Como vamos passar… disso?
Daniel depôs Ian no chão com cuidado e se aproximou da beira. A corrente não parecia violenta, mas era firme o suficiente para arrastar sedimentos. Ainda assim, seria impossível carregar Ian por ali sem risco.
— Vamos ter que seguir o curso da água — Respondeu — Rios subterrâneos às vezes buscam uma saída para o ar livre, é o caminho natural. Se tiver uma fenda que chegue à superfície, a gente tem chance.
Lucas soltou um suspiro tenso, mas assentiu. Daniel ergueu Ian de novo e foram andando rente à margem, com a lanterna varrendo as paredes, à procura de alguma passagem mais segura. O rio parecia conduzi-los cada vez mais para dentro da montanha.
Por um bom tempo avançaram quase em silêncio, quebrado só pelas respirações pesadas e os gemidos de Ian. Então chegaram a um ponto onde o teto baixava tanto que precisaram se agachar. Ali, o leito do rio afundava de repente, formando um pequeno remanso antes de desaparecer sob uma enorme laje de pedra. O curso d’água continuava por baixo, invisível, o som das corredeiras abafado.
— Droga… — Daniel olhou ao redor, mas não havia outra continuação do túnel — Ele segue por baixo.
Lucas girou o feixe da lanterna para o outro lado procurando outro corredor, inconformado. Foi quando notaram. À frente de onde estavam, por baixo da laje de pedra e alguns metros adiante, havia uma claridade tênue iluminando o curso d’água, faiscando como mercúrio líquido. Não era a luz da lanterna — era mais fria, esbranquiçada, e parecia vir de cima.
— Olha ali. Deve ter uma abertura lá… — Apontou Daniel, a voz rouca de excitação misturada a medo.
Lucas o encarou, arfando incerto.
— Não sei se estou… em condições… de mergulhar.
O arqueólogo foi até ele.
— Ei! Você disse que não queria morrer aqui. E não vai. — Ele segurou o amigo pelos ombros, o encarando de volta de forma intensa — Nós vamos nos esforçar até o limite, e vamos sair daqui juntos. Juntos. E daqui a algumas semanas vamos estar bebendo um vinho e jogando conversa fora lá em casa enquanto rimos desse perrengue. Está me ouvindo?
O assistente sustentou o olhar intenso do amigo, querendo acreditar nele com todas as forças que lhe restavam.
— Eu… acredito em você, Dan.
Daniel sorriu.
— Ótimo. Então se prepara.
— Eu… eu não vou… — Ouviram uma voz dizer além deles.
Se viraram e perceberam que Ian estava tentando falar. Daniel foi até ele.
— Ei, olha pra mim — Chamou, segurando o rosto dele. — Não vamos te deixar para trás. Não temos motivo pra isso.
Mas o outro balançou a cabeça em negativa.
— Não. — Sussurrou, arrastado — Vão vocês… Eu não…
— Não. — Daniel finalizou, firme — Há uma abertura mais adiante, rio abaixo. Nós vamos mergulhar, e você vai ficar entre nós dois. Vamos te guiar até o outro lado. Não solta, entendeu?
Mas Ian balançou a cabeça mais uma vez, soltando um gemido. Seus olhos, quando focaram Daniel, estavam cheios de pânico. Lucas se levantou, mesmo cambaleante, e fez que sim, apertando o braço bom no ombro de Ian. O especialista em comunicações respirou ofegante, lágrimas escorrendo pelo rosto sujo, mas não protestou mais.
Deram um jeito de se erguer juntos, num grupo disforme, e Daniel foi o primeiro a entrar no rio. A água gelou instantaneamente suas pernas, subindo pela cintura. O choque roubou-lhe o ar, mas forçou-se a avançar. Lucas entrou em seguida, puxando Ian. Os três mergulharam de uma só vez, quase ao mesmo tempo.
A correnteza pegou-os mais forte do que Daniel imaginara. Foi como ser arrastado por um bicho vivo, que enrolava em torno de seu corpo e o puxava com força para frente. A água entrou pela boca e pelo nariz, queimando a garganta. O arqueólogo tentou manter Ian próximo, segurando a mão dele, mas sentiu a pressão separar seus dedos.
Foi tudo confuso. Luzes tremeluziram acima e depois sumiram. Havia bolhas, sombras e o rugido do rio. Daniel sentiu o mundo girar e seu corpo bater contra alguma coisa — talvez uma rocha — depois foi cuspido para fora da montanha. Por um instante se sentiu flutuando no ar, como se a gravidade tivesse simplesmente deixado de existir, mas logo em seguida despencou e sentiu-se caindo dentro d’água novamente. Batendo os braços de forma desordenada e clamando desesperadamente por ar, voltou à superfície sentindo os pulmões queimando. Emergindo desajeitadamente e engolindo ar em grandes golfadas, percebeu-se flutuando em uma grande lagoa. O céu resplandecia azul acima dele, como se lhe desse boas-vindas de volta à vida.
Olhando em volta, viu uma movimentação desordenada debaixo d’água mais à frente. Nadando depresa, encontrou Lucas lutando para se manter na superfície também.
— Lucas! Irmãozinho! — Chamou, agarrando-o pelos ombros — Lucas, você está bem?
O assistente cuspiu água aos borbotões e tossiu. Quando conseguiu respirar também, respondeu:
— Eu só… quero… ir pra casa.
— Nós vamos. — Daniel assegurou, passando o braço por baixo do outro para mantê-lo boiando — Nós conseguimos, amigo. Estamos fora da caverna.
O rio subterrâneo que corria pela caverna desembocava numa vultuosa cachoeira, que agora rugia por trás deles como uma saudação à bravura que haviam tido. Lucas conseguiu esboçar um sorriso fraco ao contemplar a imensa queda d’água.
— Conseguimos mesmo…
E então Daniel se lembrou. Girou o corpo, procurando desesperado.
— E o Ian? — Ele não via mais nenhum movimento por ali além deles — Ian!
Lucas também varreu o espelho d’água com os olhos injetados. Mas não havia nem sinal dele. A superfície tremia com pequenas ondas, devolvendo apenas o eco de seus gritos. Daniel mergulhou de novo, vasculhando o fundo, mas não encontrou nada além de pedras lisas e frias. Voltou à tona ofegante, o peito doendo. Lucas olhava fixamente para o centro do lago.
— Ian! Ian…
Mas o silêncio respondeu, pesado como uma lápide. Eles ficaram ali, flutuando, lado a lado, até a certeza do pior se instalar como chumbo em seus ossos.
Finalmente, Lucas encostou a mão no ombro de Daniel.
— Ele se foi, Dan... Se foi.
Daniel sentiu uma estranha emoção lhe subindo pela garganta e deixou-se chorar. Não por Ian. Ou talvez também por Ian. Mas principalmente por tudo a que ele e Lucas haviam sido submetidos. A descoberta da cidade, a descoberta da mina, a revelação de Rômulo, o tiro em Lucas, as explosões, tudo rodando em sua mente de maneira vertiginosa e deixando seus nervos em polvorosa. O som de seu choro misturava-se ao murmúrio constante do rio, agora seguindo seu curso indiferente, levando o corpo de Ian para algum abismo onde jamais o encontrariam. Lucas conseguiu reunir um último rompante de forças e deu duas braçadas na água para se aproximar de seu amigo, confortando-o com sua presença e tentando, talvez, dar a entender que tudo ficaria bem agora.
Por fim, juntos e exaustos, os dois amigos começaram a nadar para a beira do lago, onde pedras planas formavam uma espécie de margem. Cada braçada era um esforço sobre-humano, mas continuaram, um sustentando o outro, até conseguirem firmar os joelhos no cascalho raso.
Quando finalmente se arrastaram para fora da água, estavam tão exauridos que apenas se deixaram cair sobre a rocha quente, respirando como náufragos.
Daniel fechou os olhos por um instante, tentando segurar o soluço. Ali, deitados lado a lado, cobertos de hematomas, lama e sangue seco, sentiam mais do que nunca o peso daquilo tudo — das ruínas, das conspirações, das vidas que se perderam na escuridão daquela montanha.
Ainda assim, estavam vivos. E sabiam que, de algum modo, teriam que continuar.
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