A Cidade das Sombras
2 O Diabo está nos detalhes
Notas iniciais
Minha primeira aventura com ikuto agora faz parte de sua lenda. Na verdade, você já deve estar familiarizada com a história. Nos últimos seis anos, ouvi essas histórias vezes sem conta — em festas, em aviões, até no banheiro feminino da Bergdorf. Sempre que as pessoas sacodem a cabeça em descrença e se recusam a reconhecer um grão de verdade, eu tenho que rir. Porque eu estava lá. E embora tenha circulado por anos, esta história em particular continuar a ser mais verdade do que ficção. Só estou aqui para lhe dar os detalhes.
A história começa na Escola Atalanta, no Upper East Side de Manhattan, não muito tempo depois de minha descoberta da Cidade das Sombras. Eram dez para as três. Faltavam dez minutos para as férias de inverno e para as duas semanas de liberdade. Com tão pouco tempo faltando no relógio, foi o inferno na terra. O que havia começado com alguns cochichos cautelosos entre amigas se transformara em uma balbúrdia de tremer os tímpanos que estava começando a ameaçar a paz e a tranqüilidade das outras salas de aula em nosso corredor.
Nossa professora, a Srta. Jessel — que tinha uma semelhança surpreendente com a Branca de Neve e demonstrava um senso infeliz da moda ao combinar as roupas -, tentou restaurar a ordem várias vezes. Mas foi preciso o aparecimento da diretora, uma velha dura e cheia de rugas cuja idade estimávamos em 105 anos, para calar nossa boca e nos devolver às carteiras.
— Meninas — disse a diretora com um olhar de desaprovação para a Srta. Jessel. — Não temos muito tempo. Por que não tentamos algo um pouco mais produtivo do que guinchar como um bando de selvagens? Nos próximos dez minutos, gostaria de circular pela sala e que cada uma de vocês me dissesse o que pretende ser quando crescer.
Se me lembro corretamente, a maioria de nossas respostas ou era incrivelmente chata, ou completamente ridícula. Dylan Handworthy queria ser uma socialite. Rebecca Gruber, que tinha cabelo crescendo em lugares incomuns, achava que queria ser amestradora de ursos. Eu disse à turma que pretendia ser uma bióloga marinha que estaria lulas-gigantes e recebi um aceno de aprovação da cabeça da diretora.
A última pessoa a responder estava sentada nos fundos da sala, escondida atrás de Lizzie Fitzsimmons, que estava num surto de crescimento tal que só pararia quando ela chegasse à oitava série e tivesse 1,80m.
— Você, no fundo — disse a diretora. — Não pense que pode se esconder. Diga-me. O que quer ser quando crescer?
— Perigoso — disse a pessoa escondida, sem um segundo de hesitação. Todo mundo na turma se virou para a carteira dela. Ali, atrás de Lizzie, estava um garoyo que ninguém se lembrava de ter visto antes. Por um momento eu tive certeza de que a ouvira mal.
— Desculpe — disse a Srta. Jessel com um sorriso complacente na cara. — Acho que eu e a diretora não entendemos o que você disse.
O garoto ficou pé.
— Quando crescer, quero ser perigoso.
A diretora e a Srta. Jessel trocaram um olhar.
— Qual é o seu nome, querido? — perguntou a diretora em um tom que indicava que ela ia ficar de olho no menino.
— tsukiomy ikuto- respondeu o garoto com simplicidade e, como se seguisse uma deixa, a sineta tocou.
Bastou uma frase simples para ikuto me pegar de jeito. Quem era ele, eu queria saber, e de onde vinha? Por que ele queria ser perigoso? E — mais importante — como conseguiu freqüentar a Escola Atalanta sem chamar a atenção de ninguém?
A Escola Atalanta era o tipo de escola particular onde todo mundo conhecia todo mundo. Não só isso, mas todo mundo sabia o que seus pais faziam, quanto ganhavam, em que tipo de casa você morava e se seus sapatos eram de marca mesmo ou só uma cópia vagabunda. Já na primeira séria, cada aluna recebia um de dois rótulos: ou era uma menina que tinha cérebro, ou uma menina que tinha tudo. As alunas bolsistas iam para a escola em ônibus que saíam de partes da cidade onde não se andava à noite. Elas ficavam em silêncio, eram estudiosas e claramente estavam fora de seu elemento. As meninas ricas, por outro lado, tinham empregadas francesas, sobrenomes famosos e carros com motorista que esperavam por elas na esquina. Suas mensalidades possibilitavam que as bolsistas recebessem uma educação de primeira — um fato que as meninas ricas adoravam citar sempre que tinham oportunidade.
De todas as meninas da Atalanta, eu era a única que não tinha um rótulo. Meu bisavô inventara a meia-calçacontroltop — um golpe de gênio diabólico que podia ter mantido minha família gorda e feliz por gerações. Mas, como teve uma vida de rico ocioso, ele queria uma coisa melhor para o filho único. Pegou sua vasta fortuna e colocou cada centavo em um fundo que daria a cada um dos descendentes uma educação de primeira — e mais nada. Graças a meu bisavô, eu podia ser aluna da escola mais exclusiva de Manhattan, mas não podia pagar por um corte de cabelo decente.
Isso porque o velho foi superesperto. Nem o filho dele nem minha mãe, a única neta, herdaram o amor que ele tinha pelo dinheiro. Eles não tentaram fazer carreira empresarial. Não economizaram seus centavos nem investiram com sensatez. Em vez disso, simplesmente tiraram vantagem do fundo e ficaram na escola a vida toda, aceitando alguns bicos aqui e ali para cobrir o custo de alimentação, vestuário e material de leitura. Quando eu tinha 12 anos, minha mãe tinha três doutorados e meu pai estava trabalhando no segundo. Pelo que sei, nenhum dos dois tinham emprego.
Dada minha formação familiar incomum, as outras meninas na escola não sabiam o que fazer de mim. Para as meninas que tinham tudo, eu não era exatamente uma sanguessuga como as bolsistas, mas com meus sapatos baratos e cabelo cortado em casa, eu certamente não era uma delas. As meninas com cérebro, por outro lado, me consideravam uma pateta. Elas não estavam muito longe da verdade. A realidade é que, ao contrário de meus pais, eu achava que ir à escola era uma completa perda de tempo.
Muito antes de chegar à quinta série, eu sabia que tinha coisas melhores em que pensar do que gramática ou divisão aritmética. Eu tinha passado os primeiros 12 anos de minha vida em um apartamento grande e dilapidado, perto da Universidade de Nova York, que minha mãe e meu pai encheram de livros sobre cada tema que se podia imaginar. Havia pilhas deles em cada cômodo, alguns parecendo sustentar as paredes e outros equilibrados de forma tão precária que ameaçavam desabar e nos soterrar em uma avalanche de conhecimento acumulado. Cada armário fora convertido em uma espécie de minibiblioteca, cada uma delas dedicada a um determinado assunto. No banheiro, havia livros de história do encanamento, cloaca romana, répteis aquáticos da América do Norte, coprólitos e Freud. Os armários da cozinha guardavam volumes acadêmicos que cobriam o uso do veneno ao longo dos séculos e textos médicos dedicados a escorbuto, gota e flatulência.
O único tema que faltava a nossa biblioteca era cuidados infantis. (Meus pais não achavam as crianças muito interessantes.) Então, em vez de ter um relacionamento com o Dr. Seuss, eu me eduquei em temas que descobri sozinha. Aos 12 anos, eu ainda era meio preguiçosa nas tabelas de multiplicação, mas me considerava uma especialista em pelo menos cinco tópicos:
1. lulas-gigantes
2. sacrifícios humanos entre os astecas e maias
3. plantas carnívoras
4. abdução alienígena
5. mitologia grega
Depois de ter topado com a Cidade das Sombras, eu tinha um trabalho árduo com um novo tema e meus estudos me mantiveram ocupada durante o longo e solitário inverno que se seguiu ao primeiro aparecimento de ikuto
Durante dias, estudei o Vislumbres de Gotham e saqueei a biblioteca de meus pais até que o chão do meu quarto estivesse coberto de torres catalogadas de livros e eu ficava apenas com uma estreita passagem da porta até a cama. Passei horas e horas enroscada numa cadeira, lendo cada história de Nova York que eu encontrasse, até que meus olhos ficavam tão cansados que as palavras se misturavam numa algaravia. E no entanto, independentemente de quantos livros eu examinasse, superficialmente ou não, a Cidade das Sombras continuava a fugir de mim. Descobri centenas de mundos subterrâneos — embaixo de Paris e de Roma, até sob pequenas aldeias na Turquia. Mas os historiadores e cientistas afins pareciam concordar que Nova York sempre cresceu acima do chão e nunca se humilhou a cavar túneis.
Por fim, desesperada por um pouco de ar fresco, deixei meus livros para trás e parti numa busca da Cidade das Sombras. A princípio, eu planejava deixar de lado meu próprio bairro, imaginando que não haveria nada nas ruas conhecidas que pudesse ter escapado de mim. Mas no momento em que passei pela portaria do meu prédio, comecei a ver uma cidade diferente.
Cada quarteirão por onde eu passava dava uma pista da Nova York dos tempos me que a Cidade das Sombras floresceu. Observando as pessoas na rua enquanto cuidavam de sua vida, falavam ao celular ou corriam para devolver presentes de Natal de que não gostaram, percebi que eu podia enxergar coisa que eles não viam. Bem acima de minha cabeça havia anúncios desbotados de empresas de carruagem extintas e tratamentos com óleo de serpente, a tinta ainda fracamente legível nas laterais dos prédios antigos. Um poste enferrujado para amarrar animais, que não via um cavalo há um século, montava guarda solenemente na frente de uma pequena casa de tijolos aparentes. Até os paralelepípedos que espiavam pelo asfalto eram uma prova de um mundo que agora era invisível para todos, exceto para alguns eleitos.
Quando era mais nova, sempre me senti meio traída por não ter nascido com poderes sobre-humanos, como a capacidade de parar o tempo ou controlar o clima. Eu até teria me contentado com uma coisa mais simples, como a percepção extra-sensorial. Mas naquele dia, enquanto eu andava pelas ruas de Nova York, comecei a perceber que eu finalmente descobrira meu dom especial. De alguma forma, em troca de meus dias de leitura, eu adquirira a capacidade ver coisas que não existiam mais. Bastava semicerrar os olhos e eu podia imaginar a cidade que existira 150 anos antes de eu nascer.
O que foi um lugar escuro e perigoso que não era nada parecido com a Nova York que eu conhecia. Não havia arranha-céus nem postes de luz, só filas e mais filas de pequenas construções de tijolos aparentes, todas afundadas na lama preta que sufocava e se espalhava pela cidade. Porcos monstruosos trotavam junto a carruagens puxadas a cavalo, parando aqui e ali para remexer as pilhas de lixo que ladeavam as ruas. Ratos e moleques meio desnutridos espreitavam em cada sombra, esperando por uma oportunidades de dar o bote. Pude ver a sujeira, ouvir os chamados dos vendedores ambulantes e praticamente sentir o cheiro dos "quartinhos". Mas, para grande decepção minha, a única coisa que sempre continuava oculta era a Cidade das Sombras.
Por uma semana, fiz pouco mais do que vagar pelas ruas, anotando tudo o que tinha deixado passar por 12 anos. Espiei por janelas, pulei cercas e enchi três cadernos de espiral com observações e esboços. Se eu não tivesse a cara de uma garotinha inocente, minhas atividades certamente teriam atraído suspeita, mas pouca gente parecia dar por minha presença. Seus olhos passavam por mim como se eu não fosse mais perigosa do que um hidrante ou uma lata de lixo.
* * *
Em um final de tarde, indo para casa depois de um dia inteiro de investigações, passei por uma loja solitária na Segunda Avenida. O céu estava inchado de neve e o vento disparava pelas ruas, erguendo pilhas de filhas mortas e girando-as em tornados frenéticos. As luzes da loja piscaram por um momento, tempo suficiente para atrair minha atenção e dirigi-la a uma vitrine desgastada na frente da loja, onde havia vários mapas antigos sob uma grossa camada de poeira.
Dois dos mapas eram conhecidos. Eu tinha visto cópias na biblioteca dos meus pais. Um, de quase 2 metros de extensão, mostrava a ilha de Manhattan como devia ser duzentos anos atrás, quando o gado ainda pastava no terreno no qual um dia seria construído o Empire State Building e um esgoto a céu aberto fluía pelo que hoje é o Canal Street. O segundo mapa mostrava um trecho pequeno das velhas ruas holandesas que serpenteavam pela extremidade sul da ilha, girando e volteando com pouco sentido. Um terceiro mapa estava mais perto da vitrine, mas tão escurecido de sujeira que era impossível identificá-lo. Movida pela curiosidade, entrei na loja, esperando ver o mapa de perto.
Uma mulher do tamanho de uma criança estava sentada em um banco atrás do balcão da loja, as pernas cruzadas delicadamente, embora estivessem a 60 centímetros do chão. O cabelo, que tinha a cor e a textura de um enorme coelho empoeirado, estava afastado do rosto por dois óculos grandes que se empoleiravam no alto da cabeça. Quando pedi para ver o mapa da vitrine, ela sorriu e pulou do banco. Não perguntou qual mapa eu queria ver, nem quis saber por que uma menina da minha idade devia ter em mãos o que certamente era um objeto raro e dispendioso.
Fiquei desnorteada com a minha sorte, vendo a metade superior do corpo da mulher desaparecer enquanto ela se esticava para dentro da vitrine para pegar o mapa. Quando saiu, ela levou o plástico aos lábios com afetação e soprou uma nuvem de poeira pela vitrine antes de me passar o mapa.
Eu nunca tinha visto nada parecido. Em vez de um mapa de Manhattan, era a planta do que pareciam três filas de casinhas, cada fila conectada por um longo corredor.
— Sabe o que é isso? — perguntou a mulher num forte sotaque russo. Seus olhos escuros piscaram com malícia.
— Não — admiti.
— É o Cemitério de Mármore.
— É mesmo? — perguntei, fingindo estar interessada. Em geral, não acho cemitérios muito fascinantes, mas eu tinha questões mais prementes a considerar.
- Eu preciso mesmo ir para casa — eu disse com a maior educação possível. Meus pés doíam de andar pela cidade o dia todo e eu tinha certeza de que a mulher era maluca.
— Mas só levará um minuto — alegou ela. — Fica muito perto daqui.
— Tudo bem — murmurei, fechando meu casaco e indo para a porta.
— Ah, não — a mulher riu como uma garotinha — Não precisa ir. Você virá comigo até o depósito. É o melhor lugar para ver o cemitério.
Na maior parte do tempo, eu não via necessidade de obedecer a adultos de cuja sanidade eu duvidava. Mas eu estava convencida de que a mulherzinha era peculiar mas inofensiva, então a segui por uma frágil escada em espiral.
O cômodo na sobreloja estava apinhado de livros até o teto e tinha uma semelhança extraordinária com o quarto dos meus pais. A mulher, que se apresentou como Verushka quando subíamos a escada, levou-me a uma janela dos fundos do prédio.
— Lá está ele — disse ela, apontando pela janela. — O Cemitério de Mármore.
Empurrei uma caixa de dicionários mofados de francês para abrir caminho e me coloquei diante da janela. Abaixo de nós, havia um terreno baldio do tamanho de um campo de futebol. Estava encravado no meio do quarteirão e era cercado por um muro alto que impedia o avanço dos prédios em volta. Eu tinha andado pela Segunda Avenida milhares de vezes e nunca desconfiei de que uma coisa tão incrível pudesse existir atrás das lojas e prédios da rua.
— Cadê os túmulos? — perguntei, procurando pelas lápides.
— Embaixo da terra, é claro. — Verushka riu. — Está vendo os quadrados de mármore na grama? São as entradas para as câmaras mortuárias. Há dezenas de tumbas embaixo da terra. É uma aldeia dos mortos.
— Como posso descer lá? — perguntei, emocionada por ter descoberto um caminho para baixo das ruas.
— Não pode. Só as famílias dos mortos têm permissão para entrar no Cemitério de Mármore... E ninguém é enterrado lá há muitos anos. Mas você pode sair pela escada de incêndio se quiser ver melhor.
Abri a janela do depósito e fui atingida por uma rajada de vento gelado. A saída de incêndio balançava de um lado a outro. Olhei para Verushka, que sacudiu a cabeça, decepcionada.
— Não se pode pescar quando se tem medo da água — repreendeu-me.
Eu bati a cabeça no batente da janela enquanto me arrastava para a escada de incêndio e por alguns segundos fiquei tonta. Depois que consegui focalizar no cemitério abaixo, descobri que era difícil imaginar que um espaço tão impressionante pudesse permanecer escondido no meio de Manhattan. A relva era de um tom surreal de verde, daquele que se vê nos castelos escoceses, a cor mais nítida graças à monotonia das cercanias.
Enquanto eu arfava maravilhada, o som inconfundível de uma chave em uma fechadura ecoou pelo cemitério. Da escada de incêndio eu podia ver tudo, menos um pequeno trecho que estava abaixo de meus pés. Ajoelhando-me, espiei pelas barras de ferro e vi alguém abrindo o portão que escondia o cemitério do alvoroço da Segunda Avenida. Um parente de morto, pensei a princípio, mas havia alguma coisa no tamanho e na cor incomum do cabelo da pessoa que quase me tirou o equilíbrio e me fez cair de lado da saída de incêndio. O portão se fechou e a pessoa desapareceu de vista. Embora não tenha visto seu rosto, quando me arrastei de volta ao depósito eu estava convencida de que a pessoa em questão era ninguém menor do que ikuto.
— Tinha um menino no cemitério — sussurrei para Verushka.
— Que estranho — observou ela, sem mostrar nenhum sinal de surpresa.
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