Não existe nada particularmente especial sobre Cecília.

Seus cabelos negros e escorridos mal conseguem ficar presos nas tranças que ela tanto ama, mas isso não a impede de tentar o penteado todos os dias. Seus olhos são escuros como dois botões, cobertos por pálpebras monólidas lisas que mal pareciam se dobrar ao abrir e fechar, e carregados de uma curiosidade afiada capaz de deixar até mesmo o mais capaz e apaixonado dos professores desconfortável.

— E o que veio antes dos dinossauros, tia? — Ela perguntara uma vez quando tinha seis anos, durante uma aula de ciências em que aprendiam sobre os longos trilhões de anos que se antecederam à humanidade.

— Antes dos dinossauros tínhamos pequenos répteis e insetos andando pela Terra durante o período paleozoico. — A professora respondera, ainda com um sorriso agradável no rosto enquanto tentava traduzir o conhecimento em palavras simples para que Cecília e seus colegas entendessem.

— E antes? — Cecília repetira a pergunta sem hesitar nem dar tempo para a pobre professora se aprofundar mais na explicação.

— Antes tínhamos os primeiros anfíbios e a vegetação que começava a-

— Mas e antes?

— Peixes! Antes tínhamos peixes e-!

— E antes?

— Bactérias, Cecília! Criaturas tão pequenas que-

— E antes?

Depois disso, a professora de bochechas vermelhas mandara Cecília sentar do lado de fora da sala por cinco minutos como punição por interromper a aula.

:i:

Mas, claro, você não quer saber disso. Cecília não tem seis anos hoje, e não tinha quando se envolveu com o Reino pela primeira vez. Apenas acreditava que essa era uma história engraçada, e uma boa maneira de lhe fazer entender o caráter forte que ela tem desde bem antes de nossos caminhos se cruzarem.

Acredito que se lembra das Crianças Adormecidas. Todos os Reais lembram, creio eu. Sobre como centenas, milhares de jovens ao redor do mundo caíram em um sono profundo –ou “coma”, como foram anunciados pelos seus médicos e jornais mundanos– sem nenhum motivo aparente. Nenhuma doença, nenhum acidente, nenhuma deficiência, nada que pudesse justificar o que estava acontecendo.

No início, ninguém realmente percebeu. Eram só duas ou três crianças em cantos diferentes do mundo. Apenas quando o número cresceu e se espalhou que as pessoas começaram a realmente se preocupar. Crianças adormecidas passaram a ter que ser internalizadas, ou correriam o risco de morrer por desidratação e desnutrição.

Naquela época, Cecília tinha onze anos.

Meia década se passara desde o episódio da sala de aula.

Quando a conheci, seus olhos encaravam os próprios tênis surrados e trazia um pequeno vaso de flores brancas em mãos. Brancas, tais quais as paredes limpas de um hospital, a blusa de um uniforme escolar, e o jaleco de um médico.

Estava visitando sua melhor amiga, Jéssica, que adormecera três dias antes.

Cecília odiava tudo o que estava acontecendo desde antes de realmente entender.

Odiara ir para a escola e ver que sua melhor amiga e parceira no crime não estava na sala.

Odiara os sorrisos nervosos e desculpas rasas que os professores lhe deram quando questionara o paradeiro da amiga.

Odiara ligar para o celular de Jéssica durante o intervalo apenas para ter a mãe dela atendendo o telefonema e dispensando a garota com um simples “ela está passando mal” e desligando antes que Cecília pudesse pedir por mais detalhes.

Odiara como todos os adultos pareciam entender muito bem o que estava acontecendo, mas ainda assim recusavam-se a lhe explicar.

Odiara que apenas Sofia, sua querida irmã mais velha e única a lhe tratar de igual para igual, fora a única a ter a decência de lhe informar sobre Jéssica ter adormecido e hospitalizada. Ainda assim, o fato de que levara três dias para dizer-lhe isso não fez Cecília ficar menos chateada.

Também odiava hospitais em geral. O cheiro estranho e leve não mescla com o ar já pesado do ambiente insípido.

E, agora que visitava uma amiga querida que já não sabia quando iria ver acordada novamente, tinha mais um motivo para odiar todo aquele ambiente.

:ii:

Novamente, peço perdão pela minha dificuldade em manter o foco, principalmente tratando-se de um episódio tão importante tal qual o dia em que conheci Cecília. Existe tantos detalhes nessa história que quero lhe contar, a narrativa chega a ser um fardo pesado até mesmo para um deus.

O que precisa saber é, Cecília já não gostava de hospitais, e todos os sentimentos negativos que vinha cultivando nos dias anteriores só fizeram sua visita mais desconfortável do que já estava destinada a ser.

Eu estava visitando as crianças adormecidas no hospital, observando seu estado, procurando uma forma de resolver toda essa bagunça. Cheguei a pedir ajuda ao meu irmão, Hipnos. Afinal, ele é o deus do Sono. Ele que cuida do aspecto mais físico da coisa.

Mas quando perguntei se sabia o que estava acontecendo, e se não poderia acordar todas as crianças adormecidas, ele simplesmente deu de ombros.

— O que está acontecendo não é algo que posso resolver, — disse após um longo bocejo. — É um problema em Demos Oneiroi. Não fosse assim, já teria resolvido há muito tempo.

Ainda hoje me pergunto se ele estava sendo sincero naquele dia, ou se simplesmente não queria se envolver diretamente com nossos problemas. Talvez os dois.

De qualquer forma, o resultado foi o mesmo. Tinha que tentar resolver aquilo de outra forma.

E foi naquele momento que Cecília entrou junta de seu pai, Leandro, mãos segurando o pequeno vaso de flores brancas com força. Passou direto por mim, invisível como eu estava, direto para a cama direto para a janela.

Lá jazia Jéssica, melhor amiga e parceira no crime de Cecília. Seus cabelos densos e enrolados haviam sido presos em dois coques por algum parente, penteado que Jéssica sempre amara. O som do medidor de batimentos cardíacos formava uma estranha e melancólica sinfonia junto ao som das outras várias máquinas ligadas às outras crianças.

“Pelo menos ela não estava acordada quando injetaram o soro”, Cecília pensou enquanto observava o líquido transparente. “Ela sempre odiou injeções”.

— É tão estranho, papai. — Fungou. — Olha só o rosto dela! É tão óbvio que só está dormindo. Por quê ela ainda não acordou?

— Não sei, minha flor. — Leandro respondeu com pesar, e pôs a mão em um dos ombros da filha em um gesto de conforto. — Mas médicos do mundo todo estão procurando uma solução para isso.

— Se tantos médicos estão trabalhando nisso, por quê nenhum ainda encontrou a resposta?

— Talvez porquê ainda não encontraram a pergunta certa. Às vezes é só uma questão de-

Antes que pudesse terminar de responder, seu celular vibrou no bolso da calça. Cecília observou atentamente enquanto ele retirava o aparelho do bolso, checava o número e saia do cômodo após um “volto já” rápido.

E então Cecília se viu sozinha em um quarto com uma dúzia de crianças adormecidas, algumas enfermeiras e um deus do sonho que não sabia estar ali.

A garota suspirou com pesar ao olhar mais uma vez para a amiga adormecida. Sentou-se na cadeira perto da maca e colocou o vaso de flores no pequeno criado, junto com alguns cartões e outras flores. No chão, uma cesta com doces e bichinhos de pelúcia.

— Você é popular até mesmo enquanto dorme. — Cecília brincou, dedos nervosos desmanchando e refazendo uma das tranças. — Se quer minha opinião, acho que esses presentes não fazem muito sentido. Não é como se você estivesse acordada para aproveitar. Talvez eles sejam para confortar a sua mãe, mas nenhum deles tem o nome dela. Isso é meio injusto com a tia Tina, não acha?

Pausa. Seria silêncio, não fossem os sons que mediam as batidas de vários corações.

— A escola tem sido chata sem você lá. — Ela continuou. — Ainda mais porque nunca fui tão boa quanto você em fazer amigos. As outras meninas meio que não têm um motivo pra falar comigo agora, e me ignoram.

Algo naquela singela e melancólica cena chamou minha atenção. Simplesmente não conseguia deixar de prestar atenção, mesmo sabendo que tinha uma tarefa a fazer ali.

“Talvez porque ainda não encontraram a pergunta certa”. Aquela frase ressoou em minha mente. Talvez eu não estivesse fazendo a pergunta certa. Caso estivesse, talvez teria encontrado a resposta antes que a situação tivesse se agravado tanto.

Todavia, não conseguia imaginar que outras perguntas eu poderia fazer. Mesmo quando conseguia, envolvia quebrar antigos tratados entre alguns de meus irmãos e eu.

O que não queria dizer que outras pessoas não poderiam fazê-las por mim. No momento, Cecília parecia ser a melhor escolha.

Então com a Cecília decidi ir.

Assumi a aparência de um médico que passara direto por mim ao sair da sala. Alto, magro, careca e com a pele negra. Assim que Cecília me viu pela primeira vez.

Aproximei-me dela e gentilmente coloquei uma mão em um de seus ombros.

— Está tudo bem? — Perguntei. — Precisa de alguma coisa?

— Só que ela acorde. — Cecília respondeu com uma fungada. — Mas não acho que você saiba como fazer isso, não é?

— Não. Ainda não. — Admiti, com mais honestidade em minhas palavras do que realmente gostaria. — Mas não se preocupe. Quando perceber, tudo estará bem. Mas até lá...

De um dos bolsos do jaleco, tirei um pequeno objeto. Uma pequena chave que assume uma forma diferente para cada pessoa que a usa. Para Cecília, assumiu a forma de um lápis violeta com a ponta de cristal.

— Continuaremos em busca das respostas. — Completei ao oferecer a chave para ela.

Cecília encarou o objeto, apenas um lápis para seus olhos curiosos. Perguntava-se o significado daquilo, porquê aquele homem estaria oferecendo um lápis a ela. Comecei a questionar minha decisão de manifestar-me fisicamente para ela, e não ter feito algo mais sutil, como largar a chave perto dela e esperar que sua curiosidade natural fizesse o resto.

No fim, Cecília acabou aceitando meu presente, ainda que com suas suspeitas. Olhou o lápis de perto, rolou com ele nas mãos um pouco e olhou para mim novamente.

— O que é isso?

— Um presente. — Disse. — Para que não perca a esperança.

Cecília emitiu um som com os lábios fechados, olhou para o lápis mais uma vez e o colocou no bolso da calça com um “obrigada” baixo.

Leandro voltou de sua ligação e acenou para mim com a cabeça, acreditando que eu era realmente um pediatra.

— Temos que ir, filha. — Disse para a filha com a voz baixa. — Vamos.

Cecília acenou com a cabeça e pegou a mão do pai para sair. Quando afastaram-se o bastante, abandonei a forma que tinha tomado e voltei a observar as crianças em minha forma invisível.

Se eu soubesse que ela iria olhar para trás antes de sair pela porta, teria esperado um pouco mais antes de desaparecer.

Notas finais
Obrigada por ler ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.