A Christmas Tale
1 Véspera de Natal
Paris, 1850
O vento assoviava conforme batia na porta da frente. Era incrível como eu, do terceiro andar, poderia ouvir perfeitamente o barulho que ele fazia quando se encontrava com a madeira crua da porta. Levantei da cama um pouco insatisfeito de ter sido acordado horas antes do habitual por aquele maldito vento. Não bastava ser a semana de véspera de natal, ou ter aquele cheiro no ar insuportável das plantas que eram usadas para fazer as guirlandas dessa época, eu ainda tinha que acordar duas horas mais cedo porque ventava lá fora.
Arrastei-me por minhas pantufas até meu guarda-roupa e logo saí de lá vestindo uma roupa estupenda, porém suspirando cansado por saber que ninguém saberia apreciá-la de certa maneira.
Joshua, meu fiel mordomo, me esperava ao lado de fora de meu quarto com o jornal do dia às mãos e um sorriso forçado no rosto. O velho homem de cabelos já grisalhos trabalhava comigo há anos, desde pequeno quando servia meus pais. Depois da grande briga da família, o mordomo havia resolvido servir somente a mim. Meu fiel escudeiro todos os dias, doente ou não, disposto ou não, estava no mesmo lugar vestindo as mesmas vestes com o mesmo sorriso nos lábios e o jornal em mãos.
- Bom dia, Sr. Hummel. – Dizia a voz rouca.
- Bom dia, Joshua. Como sabia que eu já estaria acordado?
- Dons de um velho empregado. – Sorriu torto. – O café já lhe espera e o carro está pronto para sair. E seu irmão ligou ontem à noite, depois do senhor já ter ido dormir.
- O que ele disse?
- Que espera que este Natal você possa aparecer na casa de seu velho pai, porque esse pode ser seu último. Que as portas estarão abertas e... – O interrompi.
- É, mesma coisa de sempre. – Rolei os olhos. – Se voltar a ligar, o diga que não tenho tempo pra confraternizações. A fábrica está a todo vapor, e se quisermos terminar os vestidos até o dia do natal, preciso ficar em cima dos funcionários preguiçosos. Incrível como essa gente usa o Natal como desculpa para ficar preguiçosa.
- Como quiser, Sr. Hummel. – O homem abaixou a cabeça antes de voltar a falar. – E-eu queria lhe pedir um favor.
- ...Um favor? – Parei de descer as escadas por alguns instantes e encarei o funcionário, que tinha a cabeça ainda baixa e os olhos esperançosos.
- Sim. Queria pedir o dia de Natal de folga, senhor. Minha filha deu a luz há alguns meses e essa é a única oportunidade de eu ver meu neto antes que ela parta novamente para a Nova Londres.
- Eu não sabia que você tinha família, Joshua.
- Eu raramente os vejo, o senhor sabe como é, o trabalho requer muito de mim. E eu não posso reclamar porque o salário que o senhor me dá é generoso o suficiente para colocar comida na mesa. – Pude ver as rugas daquele homem pela luz do sol que nascia lentamente no canto da cidade, atrás das montanhas.
- Sinto muito, Joshua. Mas o dia de Natal pra mim é como qualquer outro e eu preciso de você cuidando da casa, provavelmente estarei na fábrica observando os funcionários trabalharem.
- T-tudo bem, senhor. Desculpe-me por perguntar.
Assenti e me direcionei a cozinha para tomar meu café antes de entrar no carro me dirigindo à fábrica. As ruas começavam a ficarem lotadas, as lojas tentava repor a vitrine conforme o estoque ia saindo de presentes... Eu nunca havia entendido o Natal. Desde que me lembro, só acho uma data onde as pessoas dão desculpa para não trabalharem. O pior é ter que pagar um dobrão a mais pela hora dos funcionários nesse dia tão normal como os outros.
Meu motorista, qual sequer sei o nome, estacionou em frente a fabrica de vestidos. A loja Hummel’s Dresses é a mais conhecida de Paris, e encomendamos até para a realeza de Nova Londres. Conhecida pelos tecidos finos e pela ótima costura, a fábrica não pode fechar um dia da semana sequer por causa da grande demanda. As costureiras trabalham das quatro da manhã até meia noite, ganhando um dobrão a hora de trabalho (dois dobrões na véspera de natal).
Antes de entrar na fábrica, fui abordado por um homem maltrapilho com as vestes rasgadas.
- Bom dia, senhor. Você não teria um dobrão pra me ajudar?
O olhei dos pés a cabeça antes de respondê-lo com minhas finas palavras:
- Tenha misericórdia, homem! Tome um pouco de vergonha na cara e vá trabalhar. Não basta ter que me pedir dinheiro ainda tem a audácia de me fazer olhá-lo com essas roupas? Bons eram os tempos da velha monarquia, onde caras como eu ficavam longe de gente como você. E agora saia da frente da minha loja, além de espantar clientes, nunca se sabe quando a Rainha pode aparecer. Vá, saia, xô!
O homem derrubou algumas lágrimas e logo saiu andando para longe. Suspirei aliviado e entrei na loja que ficava à frente da fábrica de tecidos e vestidos. Ao me verem entrar, os funcionários foram prontamente até mim.
- Bom dia, Sr. Hummel. – Falaram em coro.
Ignorei todos em fila e andei até os fundos. Assim que passava pelos pequenos escritórios, meu assistente financeiro passou a caminhar junto comigo.
- Bom dia, Sr. Hummel. Bela roupa.
- Obrigado, Blaine. — Blaine era um jovem rapaz, filho de Joshua, que se dedicava ao emprego igual ao pai. Nunca pedia folga e honrava os horários, além de ter um ótimo gosto para roupas (na teoria, pois usava trapos iguais aos do homem que encontrei mais cedo). – Quais as notícias de hoje?
- Três costureiras faltaram, mas foram substituídas logo em seguida. Devo seguir o procedimento padrão?
- Sim, rua! – Rolei os olhos. Funcionários que não cumpriam horários eram demitidos sem piedade. – E quem são as substitutas?
- Minhas irmãs, estavam livres e cobram apenas um dobrão por hora, senhor.
- Ótimo. Se são de sua família, são confiáveis. – Parei no topo da escada, observando as mulheres no andar de baixo tecendo os fios e costurando os saiotes do vestido. Observei Blaine rapidamente e ele tinha as sobrancelhas do topo da cabeça, curioso. – Algo o incomoda?
- Meu pai já deve ter lhe perguntado, mas... – O interrompi.
- Sim, já. E como já neguei o dia de folga à seu pai, acho que você está livre nesse dia. Não vou prender duas pessoas da mesma família em uma noite que provavelmente é importante pra vocês. – Blaine deu um sorriso encantador. – Porém não espalhe, você é o único de folga.
- Muito obrigado, senhor!
- Mas você trabalhará na virada do ano. – O adverti e o sorriso logo se desfez, assentindo ao mesmo tempo. Blaine abaixou a cabeça e sumiu pelo longo corredor com sua prancheta debaixo do braço.
Aproveitei a manhã para contabilizar o lucro do mês. Dezembro era o mês mais rico da Hummel’s Dresses, com tantos feriados e tantas donzelas prontas para um novo vestido de um corte mais moderno e mais colorido que o antigo. Separei alguns sacos de dobrões para levar ao cofre quando ouvi um estardalhaço no andar de costura.
Uma moça havia se cortado com a agulha da máquina quando foi trocar a linha, sujando todo o tecido de sangue. Ela chorava compulsivamente para Blaine, implorando.
- Você deveria implorar a mim. – Falei enquanto chegava à mesa de costura da mulher. – E mesmo assim, seria inútil. – Peguei o tecido estragado em mãos. – Tão inútil como você! Você sabe quantas pessoas se matariam para ter uma oportunidade como a sua? Você não apenas estragou o tecido, como também me tirou do serviço e fez a fábrica inteira parar por conta do seu showzinho.
- S-senhor H-hummel, e-eu...
- Gaguejar não adiantará nada. Qual seu nome?
- G-georgia.
- Você está demitida. Pode acertar com Blaine o valor do vestido. E tenha certeza que mancharei seu nome em todas as fábricas de tecido da região, assim você não arruinará nenhuma igual fez comigo. – Dei de costas ao ouvir os prantos da mulher.
Eu não entendia o que era tão difícil. Raramente encontrava algum funcionário bom, compromissado com o serviço a ponto de se esquecer da família por um salário gordo e satisfatório. Blaine e Joshua eram exemplos de empregados dedicados, e pertenciam à mesma família.
Não aconteceram nenhuns outros fatos na fábrica naquele dia. Alguns vestidos foram vestidos e outros encomendados. Juntei alguns sacos de dobrões que estavam na loja e levei até o carro. Assim que saí uma última vez da loja, já de noite, ouvi alguns berros ali perto.
- O senhor é um monstro! – Dizia um velho homem vindo até mim com uma vassoura em mãos. – Minha filha desperdiçou anos de sua vida costurando e tecendo para o senhor, e por um simples erro, ela fica lhe devendo cem dobrões. O senhor não tem família, o senhor é horrível! – O homem vestia um avental sujo e o reconheci de longe, era o dono da feira da região. Respirei fundo e respondi-lhe a altura.
- Cada um cuida do que entende. No dia que o senhor entender de vestidos, tecidos e fios, você poderá até opinar nas decisões que eu dou. Porém enquanto ainda for um pobre e velho vendedor de verduras, só tem o direito de ficar calado e abaixar a cabeça quando eu passar. Entendido?
- O senhor não tem coração! – Resmungou.
- Aprendi muito tempo atrás que o coração é a fraqueza do homem. Agora volte para suas cenouras e beterrabas, das quais o senhor entende, e deixe de opinar nos negócios de um homem bem sucedido. Agradeça por eu não convencer o prefeito de caçar o registro de sua barraca imunda de frutas!
Olhei uma última vez ao homem com lágrimas em minha frente e subi ao carro, dando o caminho até o banco onde depositaria os dobrões que havia ganhado nas últimas semanas. Suspirava tentando entender qual era o problema das pessoas, em desobedecerem ao patrão ou levantarem a voz para pessoas acima do nível delas. Qual era o problema que tinham que não entendiam que ele era Kurt Hummel, e que não podia perder tempo com gentalha?
O plano era chegar em casa depois do depósito do dinheiro, deitar em seus lençóis de ceda e dormir até a manhã seguinte para, novamente, ir até a fábrica inspecionar o serviço imundo das funcionárias. Porém eu ainda não sabia o que a noite planejava pra mim.
E foi naquela noite que conheci o fantasma do natal passado.
Fale com o autor