A Chave Do Segredo - Dark Mystery
19 Capítulo 18
Notas iniciais
Capítulo 18
Londres, Inglaterra.
Dias atuais.
Lauren.
Não sabia onde me encontrava. Tudo estava na mais repleta escuridão, sem qualquer vestígio da lua cheia que deveria brilhar no céu. Não. Nem mesmo no plano terreno me encontrava. Parecia ser um lugar mais além, mais para... Baixo.
Tremi com tal pensamento e dei passos hesitantes, sempre para frente. O frio fazia com que me abraçasse, como se esperasse que algum calor trespassasse com o atrito.
E realmente, esquentou. Com esquentou eu quero dizer, ficou bem quente.
E então nada mais estava tão escuro assim. Flamas brilhavam por meu caminho, e se eu apertasse os olhos, enxergaria sombras ardendo dentro delas. Sombras que emitiam um gemido gutural, que me fazia tapar as orelhas como uma criança assustada.
Comecei a correr, querendo escapar das chamas e das sombras que clamavam por perdão. Céus! Onde me encontrava?!
Mordi o lábio com força e quase tropecei em meus próprios pés, o que sempre me acontecia quando estava nervosa.
Parei um instante para respirar, mas fiquei muito próxima de uma chama. Suas labaredas, que mais pareciam mãos cobiçosas para me puxarem para dentro, chamuscaram meu braço. Dei um grito, que se sobrepôs ao da criatura que queimava perto de mim.
Porém, me assustei mais com a voz. Era familiar. E me acusava.
— Foi sua culpa. Eu não deveria estar aqui. A culpa é sua!
Arfei, descobrindo de quem era a voz. Do bandido que matei, ou melhor, do bandido que não salvei. Não fora eu que puxara o gatilho da arma, fazendo-a disparar e acertar a bala em cheio em seu peito. Não era culpada, ou era?
— Não foi minha culpa. — sussurrei e recebi um rosnado como resposta.
Céus, o que eu fizera?!
— Você me matou. Isso foi o que você fez! — gritou ele.
Ele podia ler minha mente agora?! Esperava desesperadamente que não. Mas não esperei para descobrir, saí correndo, me esquivando de mais piras incandescentes, que tentavam me puxar para dentro delas.
Gritei quando por pouco não caí em um abismo, ao que me parecia ser infinito. A escuridão estava à minha frente e eu não conseguia mais ver qualquer coisa que fosse. Portanto, não conseguia mais perceber se alguém vinha sorrateiramente para me empurrar.
Sim, aquele lugar era o inferno.
Tentei escutar algum som ao meu redor, qualquer coisa que me indicasse que havia outro alguém ali. Alguém pronto para matar-me. Controlei minha respiração e tentei me acalmar, depois me assegurei de que ninguém estava por perto.
Reparei que vestia um vestido negro, com espartilho. Era fino e estava chamuscado na barra, devido aos meus tropeços por entre as chamas. Examinando-me, não percebi que uma pessoa se aproximava. Foi só quando senti seus braços envoltos da minha cintura que soltei um berro — que repercutiu por toda a imensidão.
Virei-me e dei de cara com um homem alto, mas não pude vê-lo, já que o mesmo estava com um manto negro que lhe cobria as feições. Tentei me soltar de seus braços forte, esmurrando-o e continuando a gritar.
Mas ele apenas ria. Uma risada que era capaz de fazer esquecer-me do calor das chamas há pouco.
— Quem é você?! — gritei e bati fortemente em seu peitoral.
— Sua morte. — respondeu com a voz gélida. — Sou sua morte.
— Isso não é real. — falei mais para mim mesma, não querendo me convencer que, de fato, estava no Mundo Inferior.
— Ah, com certeza é! Você pode não morrer agora, mas daqui a pouco estará caindo em meus braços, doce Lauren.
Franzi a testa. Como ele sabia meu nome?
— Em breve você dormirá comigo. Um sono eterno. — pela sua voz estava sorrindo.
— Nunca. — sussurrei, questionando-me quando seria esse “em breve”.
— Mas por enquanto — continuou como se eu não tivesse dito nada. — pode voltar para os braços de qualquer um dos garotos que estão atrás de você.
Ele riu e me empurrou.
Gritei ainda mais, enquanto caía em uma descida sem fim.
Acordei assustada no chão duro e frio. A chuva dera uma trégua, mas eu continuava completamente molhada. Não só de água, mas acreditava que de suor também. Ainda podia sentir minha pele queimando ao encontrar as chamas do abismo em que fora jogada.
Aliás, o que diabos foi aquilo? Um sonho? Mas parecera-me tão real... Gemi e me levantei, cambaleando um pouco. Ok, não um pouco, mas muito. Eu teria caído de bunda no chão se mãos fortes não tivesse me segurado.
— Vai me explicar o que estava acontecendo, ou vamos ter que fazer um jogo de adivinhações? – Derek me perguntou. Minha mão voou para boca, evitando o grito agudo que sairia por meus lábios.
— Derek! – exclamei, meu coração batendo descompassadamente. – Por Deus, que susto! Não faça mais isso se não quer que eu morra do coração!
— Susto? – revirou os olhos negros. – Imagine o que eu levei então quando vi você correndo igual a uma louca desvairada pela chuva? Sinceramente, no que estava pensando?
— Não sei. – respondi com sinceridade. – O pior é exatamente isso. Eu não sei o que aconteceu, por que eu saí daquele jeito. Acredite, eu não queria acabar molhada como estou.
— Hm... Agora que reparei bem, essa camiseta fica perfeita em você... – dei-lhe uma cotovelada nas costelas. Derek riu e me abraçou, suspirando em alívio. – Fiquei preocupado.
— Por quê? – franzi minha tez.
— Pensei que havia te machucado. Você estava chorando e parecendo perdida. E depois, correu. Rápido. Muito mais do que eu, e olhe que ninguém ganha de mim em uma corrida.
Uau. Era ótimo saber que se eu precisasse correr dele, morreria tentando.
— Você não me machucou. – respondi com doçura. – Desculpe-me por ter te assustado. Eu também fiquei. Comecei a chorar sem motivo algum e... Não sei, mas eu precisava sair de lá. Não suportava sequer olhar em sua cara... Não era eu.
Derek franziu a testa e encarou-me gravemente, como se eu estivesse louca. Dei um sorriso fraco e lhe afaguei a bochecha, que se inclinou e corou-se com o meu toque. Por que ele não podia ser daquele jeito o tempo inteiro? Tão simples?
Porque você também gosta do complicado.
— Está com frio? – sussurrou. Assenti e ele se separou de mim, tirando a habitual jaqueta de couro e repousando-a em meus ombros. – Vamos voltar, então.
— Você vai ficar comigo hoje? – eu não queria dormir sozinha. Tinha medo dos pesadelos que poderia ter caso ele não ficasse comigo. Ou pior, de quem eu procuraria.
— Se você permitir... – mais uma vez meneei que sim. Fui recompensada com seu sorriso tímido e tranquilo. Derek nunca me pareceu tão sereno, exceto quando dormia. – Você é minha, docinho, está entendendo?
Quando não disse nada, Derek se aproximou e eu não me afastei. Continuei parada observando o céu. Agora o sol já havia nascido e brilhava, embora seu brilho não me fornecesse qualquer calor.
— Para sempre minha. — sussurrou em meu ouvido, e mordeu o lóbulo de minha orelha.
Fechei os olhos e deixei que seus lábios tocassem os meus. Suas mãos passeavam por meu corpo, emanando o calor que eu tanto apreciava. Meus pensamentos começaram a ficar mais desconexos, até que não pensava em mais nada, senão no seu corpo colado ao meu.
— Para sempre. — afirmei.
— Até que a morte nos separe.
Tremi com suas palavras mas não o contradisse. Derek estava certo. A morte era a única coisa que podia nos separar.
Ou assim pensávamos.
Acordei aconchegada aos braços fortes de Derek e dei um pequeno sorriso. Dormira rapidamente durante o caminho de casa e nem vira que ele me colocara na cama. Toquei-lhe a pele e senti sua textura macia.
— Já acordou? – perguntou-me. Virei-me para ele e vi que ainda estava de olhos fechados.
— Você tem um sono bem leve, não é? – acariciei sua bochecha e seus olhos negros abriram-se para mim. Queimavam.
— Óbvio. Você pode estar querendo algo tanto quanto eu quero... – suspirou. – Um cara pode sonhar.
Dei risada e revirei meus olhos. Derek sorriu, cortando minha respiração. Deus, por que ele tinha de ser tão belo? Escondi meu rosto em seu ombro, tremendo enquanto ele mexia em meus cabelos. Será que minhas manhãs seriam daquele jeito agora?
— Por que está corando? – de alguma forma, meu rosto foi parar em suas mãos. – Hm... Eu adoro essa cor.
— Podemos... Er... Levantar? – joguei longe minhas cobertas e tentei escapar da força que ele tinha sobre mim. E não só da física.
— Só se eu puder passar outra noite aqui. – Derek respondeu.
Sorrindo, fui ao banheiro. As palavras que eu queria dizer quase me escaparam pela boca. Oh, Derek, eu te amo!
Mal notei uma bola de pelos marrons correndo para fora do quarto.
Já no colégio, corri de encontro à Megan assim que a encontrei num canto, parecendo meio perdida. Cutuquei-a e sua cabeça voltou assustada para mim. Franzi minha testa. O que estava acontecendo?
— Megs? – chamei-a. – O que foi? Está machucada?
— Ahn... Não. – minha melhor amiga balançou sua cabeça negativamente. – Só estou com um mau pressentimento... É bobagem, não ligue para mim.
— Mau pressentimento com o quê? – meu estômago apertou. – O que você acha que irá acontecer? Algo... Comigo? É Derek?! Ele vai tentar me matar?
— Lauren, Lauren, pare! – Megan segurou meus ombros. – Não sou uma vidente, ok? Não sei o que está acontecendo... Mas não acho que seja com relação ao Derek. Sinceramente... Eu me sinto até calma agora quando você está com ele.
— Hein? Mas ontem mesmo... – fiquei confusa e fiz uma pausa. – Você...
— Eu sei, eu sei. Mas depois que eu parei para pensar... Ele ainda me causa arrepios, é claro, mas não sei explicar... Olhe, agora mesmo ele está te encarando. Não, não se volte para ele. – ela impediu-me antes que eu pudesse virar-me. – E seus olhos não demonstram alguém que está planejando alguma coisa para ter matar, mas o contrário.
— O contrário? – arqueei minha sobrancelha.
— Ele te ama, Laury. Acho que quer te salvar.
— Mas ele não pode, Megan! – segurei-me para não gritar. – Se eu não morrer...
— Ele morre, Laury. Derek sabe disso tão bem quanto nós duas. Não acho que ele se esqueceu.
Minha boca abriu-se com o horror. O que ela estava me dizendo? Que ele...
Não!
***
Londres, Inglaterra.
Dias atuais.
Cameron.
Ele puxou todo o ar como se estivesse queimando. Seus olhos azuis se abriram, encarando o teto branco e estéril. O que acontecera? Que sonho fora aquele? Pelo menos, nada tão inútil quanto os seus outros. Esse tivera algum significado. Uma mensagem lhe fora dada.
Sem Lauren, sua vida não existiria. Literalmente.
***
Londres, Inglaterra.
Dias atuais.
Morrigan.
— Tudo pronto? — perguntei.
A pessoa de cabelos escuros à minha frente sorriu maliciosamente, me respondendo com uma voz doce.
— Tudo mais do que pronto.
Dei um pequeno sorriso.
— Ótimo. Então vá e impeça a mais nova idiotice que a garota cometerá. Prejudicará meus planos imensamente. — falei e suspirei.
— Não se preocupe, Morrigan. Tudo vai dar certo e seus planos continuarão os mesmos.
Seu sorriso era confiante enquanto transformava-se em uma gata, em minha frente.
— Obrigada, Brooke. — ironizei.
A gata de pelos marrons avermelhados saiu correndo.
***
Londres, Inglaterra.
Dias atuais.
Lauren.
— Derek, quero falar com você. – chamei-o, puxando seu braço.
— O que foi, Laury? Vamos nos atrasar para a próxima aula. – seus olhos negros não estavam em mim. Segurei seu queixo e fui perfurada por seus sentimentos conflitantes.
— Como se você se importasse, não é? – bufei baixinho. – O que eu tenho a dizer é mais importante que uma aula de Matemática.
— Por que esse ódio para com os números? Sabe, eles são a base de tudo, se você for pensar...
— Por favor, me diga que você não está pensando em fazer qualquer besteira. – interrompi-o. — Tipo, como...
— Matar-me? – Derek revirou os olhos. – Relaxe, docinho.
— O que isso quer dizer para mim?
Mas ele não me respondeu. Já estava longe demais e nem se eu corresse conseguiria alcançá-lo. Por que Derek era assim tão escorregadio? Talvez não fosse ele, mas sim o nosso relacionamento.
E eu estava com medo por ambos.
Cheguei em casa cansada. Não vira Derek pelo resto do dia e isso estava me matando. O que diabos aquele garoto estaria fazendo agora? Megan plantara uma dúvida em minha mente que eu não gostaria de ter. Droga, droga!
Brooke pulou em cima de mim e instantaneamente senti-me culpada. Eu não estava dando tanta atenção a ela quanto deveria. Fiz carinho e cocei entre suas olheiras. Ela miou e se roçou em mim.
— O que você quer, menina? – bocejei. Por que estava tão cansada? Não me lembro de estar assim há pouco tempo...
E não consegui deter-me. Fechei meus olhos e, ainda acariciando Brooke, adormeci.
— Laury! Olhe para mim... Para baixo! – gritou uma voz. Meus olhos que estavam voltados para um céu azul turquesa, foram para baixo e avistaram minha gatinha de pelos amarronzados.
— Brooke! É a terceira vez que tenho um sonho com você! – gritei. — Como faz para isso acontecer?
— Faço isso porque é o único modo que posso falar com você! E não há tempo para explicar-lhe o modo como isso acontece... É só meu poder como sua Guardiã, certo? – assenti com a cabeça. – Agora, me escute com atenção. Você precisa ir àquela casa onde o conheceu... Onde conheceu Derek.
— Por quê? – meu coração começou a bater descompassadamente. – O que ele vai fazer? Por que lá?
— Só vá para lá, Lauren! Rápido. – e o sonho se partiu em milhares de fragmentos confusos.
Quando acordei, Brooke não estava mais comigo e nem em lugar nenhum. Também não tentei procurá-la mais a fundo. O que deveria fazer é correr para a casa do amigo de Cameron e encontrar Derek.
Naquele momento, não pensei em mais nada. Nem no fato de Brooke ter-me avisado que ele corria perigo, como se, no fim, isso não acabasse sendo bom para que eu continuasse vivendo.
Nunca descobri como consegui chegar àquele lugar. Da última vez que estivera ali, Megan nos levara. Mas de algum modo, eu soube. E agora estava correndo pela chuva, querendo parar Derek no que quer que ele estivesse fazendo.
Fui uma grande surpresa quando encontrei Cameron dentro da casa, e não meu namorado.
— Came? – perguntei. Ele estava de costas para a entrada, encarando um fogo cintilante de uma lareira de pedra. – Onde está Derek?
Minha voz tremeu e eu estava com medo. Não por mim, mas por Derek. Será que Cameron fizera alguma coisa com ele? Ok, isso era bobagem. Como se um garoto humano pudesse sequer ameaçar Derek.
— Lauren? O que você está fazendo aqui? E por que diabos Derek estaria nesse lugar? – sua testa franziu-se. Inspirei lentamente. Por que Brooke me mandara para essa casa?
— Eu... Cameron, desculpe. Eu não sei o que deveria estar fazendo aqui, mas... Bem, esqueça. Eu já estou indo.
— Não! – ele gritou e caminhou alguns passos em minha direção. – Digo, você está completamente molhada. Não quer se sentar perto do fogo? Não quero que você fique doente.
— Ela não vai. – uma voz nos disse à porta. – Docinho, posso saber o que está fazendo aqui?
Virei-me e me atirei aos braços do menino parado na soleira. Seus braços me apertaram e nem percebi que estava tremendo. Ah, eu estava com tanto medo... Megan dissera-me que ele poderia matar-se. Embora não conseguisse visualizá-lo cometendo suicídio... Eu tive medo de perdê-lo.
Ah, mas como seria quando eu tivesse de morrer?
— Eu pensei que você estava em perigo. – desgrudei-me dele. Derek bufou.
— Docinho, por favor. Eu sei me cuidar... Mas ao que parece, você não. – ele olhou para cima, para Cameron.
— Como soube que eu estava aqui? – questionei.
— Tenho meus contatos... Agora, será que podemos ir embora? Trouxe uma muda de roupas. Está no carro.
— Com essa chuva vocês não vão poder partir. – Cameron disse, suspirando. Senti-me mal por ele. – Quer dizer, ela não vai poder ir. Você pode ir para o inferno se quiser. Não me importo.
— Por que ela não pode ir? Quem irá impedir? – mordi meu lábio e sutilmente me coloquei na frente de Derek, impedindo-lhe a passagem.
— Eu. Ou você pensa que vai matá-la novamente nessa estrada escorregadia?
Quando notei que Derek estava para ultrapassar-me e socar o rosto de Cameron, decidi intervir.
— Vamos ficar os três. Acho que não demorará muito para a chuva passar.
Sim, eu tinha esperança.
Cameron lançou-me um olhar magoado e odiei-me por não poder consolá-lo. Por não poder amá-lo do modo como amava antes. Infelizmente, meu coração parecia estar preso a outra pessoa.
Mas quanto mais eu pensava nisso, mais acreditava que deveria ser assim. Que Derek e eu fomos feitos um para o outro, como se isso realmente fosse possível.
Era tudo o que mais queria no mundo.
***
Londres, Inglaterra.
Dias atuais.
Derek.
Não, a chuva não passara. Já era tarde da noite, mas nada parecia que faria a torrente de água diminuir. Isso era péssimo, uma vez que Derek fora ali justamente para arrancá-la de perto de Cameron.
Sua mãe lhe avisara. Não entendeu seus motivos, mas estava imensamente agradecido.
Será que tudo mudou? Hm... Ainda não poderia manter esperanças de que isso houvesse acontecido, mas cada nervo seu desejava que tivesse ocorrido um milagre. Neste momento, no entanto, já estava mais do que feliz em poder ter Lauren em seus braços.
Ele colocou-a na cama, tirou seus tênis ainda encharcados e a cobriu, logo após deitando-se a seu lado e dando-lhe um beijo. Lauren tinha um doce sorriso na cara e já dormia como um anjo. Ela era um anjo, seu anjo da perdição, e era seu direito de contemplá-la.
Derek observou-a dormindo por mais alguns minutos até que ouviu passos pesados na escada. Suspirou e se virou para a porta. Cameron encostou-se ao batente da mesma e o encarou com olhos que transmitiam sua raiva.
— O que você está fazendo aqui? — Derek perguntou.
— Me pergunto a mesma coisa com relação a você. O que está fazendo aqui? — Cameron disse rispidamente. Estava farto de Derek, que só o fazia ficar nervoso e lhe retirar a única coisa que ainda o mantinha vivo.
— Vendo-a dormir. — respondeu e passou a mão nos cabelos longos de Lauren.
— Tire suas mãos dela! — sussurrou Came com ódio. — Não toque nela.
— E quem vai me impedir de tocá-la? Você?! — o garoto riu baixinho, fazendo o possível para não acordar Lauren, que não tinha mais o sorriso no rosto.
— Sim. Serei eu. — Cameron aos poucos foi se aproximando e o corpo de Derek ficou tenso, pronto para atacá-lo.
— Por favor, garoto. Não me faça rir e acordá-la. — falou ele.
— Vou te matar. — sussurrou Cameron.
— Nossa, mas que medo. — Derek revirou os olhos. — Sério, não me faça tremer de medo. — deu mais uma risadinha e depois o encarou incisivamente. — Não me faça te matar. Você não tem chance contra mim.
— Acredite, eu tenho muitas. — e com essas palavras, pulou para cima de Derek, o arrancando de cima da cama. Laury se mexeu, porém não acordou.
Os dois saíram do quarto e Derek prensou Cameron contra a parede do corredor, acertando-lhe um soco na boca. O outro revidou, acertando-lhe na altura do estômago.
A raiva era tanta que a briga demorou para acabar, mas quando ambos já estavam bem machucados, e sangrando, se separaram. Olharam para o quarto onde a garota que amavam repousava e depois se encararam cheios de ódio novamente.
Teriam continuado se a cama não estivesse rangendo um pouco, com os movimentos inquietos dela e se sua voz não murmurasse alguma coisa que nenhum dos dois podia entender.
— Não toque mais nela. — Cameron disse.
— E você saia do meu caminho. Ou vai se arrepender. — ameaçou Derek. Ambos se viraram e seguiram para direções opostas do corredor. Teriam que limpar-se e estancar o sangramento, feito por múltiplos socos.
E os dois tinham seus próprios planos para a noite.
***
Londres, Inglaterra.
Dias atuais.
Lauren.
Acordei ouvindo passos próximos, provavelmente no corredor. Queria voltar a dormir — na verdade, não sabia o porquê de ter acordado por meros passos -, mas um sentimento de aflição, mesclado com adrenalina, tomava conta de mim, como se eu precisava sair correndo do quarto agora mesmo.
Estiquei o braço, tentando encontrar o corpo quente de Derek, mas a outra ponta da cama de casal estava fria e vazia. Franzi a testa e joguei de lado os lençóis que me cobriam.
Os passos tinham parado e cheguei a questionar-me se não fora coisa de minha imaginação. Mas apurando meus ouvidos, escutei outro ruído. Ergui-me da cama e meus pés desnudos tocaram o chão. Provavelmente Derek tinha tirado meu All Star enquanto dormia.
Caminhei lentamente até o interruptor e o liguei, porém nada aconteceu. A luz tinha acabado. Engoli em seco, lembrando-me de várias cenas de filmes de terror — os que eu tanto amara em outra época — em que tudo acontecia assim. Podia ter até a sensação de que se me virasse agora, um espírito estaria pronto para agarrar-me e trazer-me para si.
Sabia que estava ficando louca, mas as imagens de vários assassinatos passavam por minha mente. Balancei a cabeça, estando certa que nada me aconteceria, que ninguém me mataria. Não esta noite.
Só tinha uma pessoa que desejava minha morte. Mas ela também desejava outra coisa de mim: meu amor. Sinceramente, eu duvidava muito que fosse Derek fazendo aqueles barulhos, até porque é fácil para ele caminhar sem fazer qualquer espécie de ruído.
Decidi sair para averiguar o que quer que fosse. Por certo não seria nada, apenas alguns fuzis queimados, só isso. Abri a porta e a penumbra era total. Não conseguia ver nada, nem o que estava à minha frente.
Fui caminhando cegamente, apalpando a parede e tentando não esbarrar em nada que estivesse em meu caminho. Tentei também estar esperta, caso alguém estivesse atrás de mim. O sonho que tivera me ensinou a ser mais cuidadosa com o que pode estar próximo a mim.
Desci as escadas com cuidado e parei na sala fria. Abracei-me e tentei apertar os olhos para ver alguma coisa, porém a negrura era total e eu continuava caminhando às cegas. Meu estômago revirou-se e o mesmo sentimento que tivera no quarto voltou a apossar-se de mim ao mesmo tempo em que ouvia mais sons próximos.
Guiei-me pelo barulho e cheguei a ver uma sombra mais negra do que a mais repleta escuridão. O vulto correu do meu olhar, mas pude perceber que tinha alguma coisa nas mãos, e eu tinha certeza que não queria saber o que era.
Coloquei a mão na boca para represar o grito agudo que soltaria. Tinha alguém aqui, e não duvidava nada que suas intenções não fossem nada boas. Não duvidava nada que queria me pegar e matar-me.
Senti um frio na espinha e dei mais alguns passos hesitantes, tentando sair dali e fugir para o carro de Derek. Trancar-me-ia lá dentro e logo daria a partida. Meu namorado podia muito bem ir embora sozinho... Ou pior, estar envolvido nisso.
Tentei retornar para a escada, mas torpecei no sofá, que rangeu e me entregou. Fiquei em silêncio por alguns segundos, ouvindo todos os sons ao meu redor.
Houve um momento de hesitação. Percebi isso pelo silêncio que tomava todo o local, mas depois ouvi que alguém corria em minha direção com o objeto que tinha nas mãos há pouco erguido.
Gritei e consegui desvencilhar-me por pouco. A lâmina tocara apenas o forro do sofá. Céus! Estava mesmo tentando me matar. Pulei do sofá no mesmo instante em que a pessoa avançava para mim novamente. Era um jogo de caça, e eu esperava não ser caçada.
Corri para o hall de entrada. Queria chegar até a porta e sair, pelo menos a lua guiaria meus passos e eu conseguiria ver quem estava me perseguindo.
Mas quando cheguei até a fechadura, a mesma estava trancada e a chave não se encontrava em lugar nenhum. Desesperei-me e comecei a jogar um monte de tralhas no chão.
Tinha que sair dali o mais rápido possível. Meu assassino se aproximava e talvez eu não conseguisse mais esquivar-me no último minuto. Tateei às cegas e encontrei algo metálico, que parecia ser um chaveiro. Dei graças a Deus, ou o que quer que tenha me ajudado, e experimentei a primeira das quatro chaves, mas não essa destrancou a porta. Quando estava prestes a testar a segunda, o assassino veio mais uma vez para mim.
Sempre hesitando. Sempre demorando em seus golpes.
Dei um chute na virilha bem na hora em que a lâmina retinia para mim. Ele gemeu e largou a faca. Não tendo tempo para pegá-la, também a chutei para longe. Arfei quando senti o sangue escorrendo de uma ferida em meu pé esquerdo. Baixei meus olhos até os dele. Eram negros e a única coisa que podia notar de seus traços.
Mas não me importei com a dor, apenas testei a segunda chave e a porta se abriu. Rapidamente saí de dentro da casa correndo e mancando para a chuva que lá caía. Uma névoa subia pelo chão e a lua estava encoberta pelas nuvens, como se nada mais pudesse dar errado.
— Droga! — gritei para o céu.
A escuridão era a mesma da de dentro da casa, porém a névoa só piorava tudo. Qualquer pessoa podia se esconder nela e me atacar em qualquer direção. De onde estava, não podia nem ver se a figura ainda estava caída no chão ou se já tinha se reerguido. Eu esperava que não, para meu próprio bem.
Mordi com força meu beiço e fechei os olhos, tentando apurar todos os meus outros sentidos, já que o da visão não me adiantaria muito nestas circunstâncias. Foi então que senti alguma coisa segurar meus braços. Dedos molhados.
— Lauren – era a voz de Derek. Não sabia se suspirava de alívio ou de medo. – corra!
Não vi se ele estava me seguindo ou não. Só sei que eu corri para bem longe daquele lugar.
E no final, acabei lembrando-me de Brooke. Fora ela que tramara isso? Lágrimas escorreram por meu rosto enquanto, cada vez mais, eu aceitava que tivesse sido traída.
Porém, também não me esqueci da cor dos olhos do meu assassino: negros. Isso eu conseguiria distinguir mesmo na mais repleta escuridão. Eram olhos familiares.
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