A Change In the Wind

6 Quinto Capítulo


Notas iniciais
Antes de passar a noite em claro por assistir filme de terror, decidi atualizar aqui!

Sherlock e Mycroft não trocaram muitas palavras depois daquela notícia. Dois natais seguidos eles passaram sem seus pais, estavam mais acostumados em passar sem eles e até preferiam dessa maneira. Violet e Charles Holmes quase não se encontravam em casa, por conta do trabalho ambos viviam longe de seus dois filhos. Nem sempre as coisas foram assim, antigamente, eles poderiam se considerar uma família como todas as outras; estavam presentes na vida um do outro.

Charles ocupava um cargo importante no governo, Violet exercia uma função interna também ligada ao mesmo. Não que tomassem a decisão de sempre estar fora, mas o fato era que eles estavam! No começo a mãe de Violet ficava com os garotos e após falecer Mycroft se recusava a ter um estranho ficando com os dois, não poderiam leva-los para o trabalho por causa de seus estudos e na grande maioria das vezes os projetos eram fora do país. Nunca ficaram meses direto sem voltar para a casa, voltavam um fim de semana mesmo que fossem passar alguns meses sem aparecer. Mas aqueles laços não estavam separados por quilômetros e sim por sentimento. Toda essa ausência havia afetado efetivamente a relação dos quatro.

Sherlock estava sentado em frente ao balcão da cozinha e comia algumas coisas que seu irmão colocava em um prato.

"É seu último aviso. Faça o seu próprio prato, já está bem grandinho..." Mycroft advertiu, adentrando novamente na geladeira.

"Não vejo o motivo. Vou comer as mesmas coisas que está colocando, só pegue uma porção maior." Sherlock disse entediado, pegando uma uva e pondo-a na boca, continuou... "Assim os dois ganham. Eu me alimento e você segue a dieta."

Mycroft fechou a geladeira e adicionou mais alguns itens ao seu prato que agora estava com seu irmão. Sentou à sua frente e puxou o prato, aproximando-o de seu corpo. "Mantenha a boca fechada ao comer. Regra primordial de educação."

Ao ver o sorriso falso se formar no rosto do irmão, Sherlock começou a mastigar de boca aberta e fazer sons exagerados. Levou uma mão até o prato e pegou uma maça, que logo caiu de sua mão ao ser derrubada pelo mais velho a sua frente.

Mycroft começou a dar tapinhas no rosto de Sherlock... "Feche a boca!" Sua mão ganhou mais força ao falar.

"Me obrigue!" Sherlock não fechou a boca nem ao falar, retirou a mão de Mycroft de seu rosto e começou a contorce-la. Inclinou seu corpo para frente e ameaçou deixar cair o que estava em sua boca no prato. Com sua mão livre, Mycroft estendeu-a sobre o rosto de Sherlock o afastando.

"Oh, como é bom acordar e ver isso... Amor e carinho." Kevin entrou na cozinha e apanhou a maça que se encontrava no chão. Se aproximou dos dois e apertou o nariz de Sherlock fazendo-o se afastar, lavou a maça e jogou a pra ele que pegou no ar.

"Casa errada." Mycroft e Sherlock responderam em uni som.

Kevin sorriu e se sentou ao lado de Mycroft, pegando seu copo de suco. "Então..." Bebeu um pouco do liquido e devolveu o copo ao seu dono que já fazia uma cara não muito simpática. "Quando seus pais vão chegar?"

"Ainda essa semana. Não disseram o dia..." Mycroft respondeu um tanto distante e finalmente pegando algo de seu prato pra comer.

"Novidade seria se eles dissessem." Sherlock disse baixo, comendo sua maça.

Kevin percebeu o clima estranho que agora pairava entre eles. "Vai ser bom." Olhava de Sherlock para Mycroft, mas ambos pareciam não se importar. "E espero que já tenham comprado meus presentes de natal. Não quero que aconteça igual ano passado..."

"O que quer dizer, igual ano passado? Te dei um ótimo vinho! Não é minha culpa se não sabe como apreciar uma safra magnífica." Mycroft olhava pra janela e um pequeno sorriso transparecia em seus lábios.

"Eu até poderia, se seu irmão aqui não tivesse usado para se embebedar! E aquele boné foi vergonhoso, Sherlock!"

"Você disse que gostava..."

"Não daquela cor! Quem usa um boné verde? Não um verde qualquer, mas um verde naquele tom!"

"Combina com seus olhos." Sherlock sorriu e Kevin jogou algumas uvas em sua direção.

Sherlock começou a arremessar uvas na boca de Kevin como se estivessem jogando basquete, ouviram a porta abrir e alguém entrar logo Greg já estava na cozinha se juntando aos três. Mycroft suspirava e se perguntava o que estava fazendo ali.

"Hei emburrado!" Greg se aproximou de Mycroft e beijou sua testa carinhosamente, recebendo um beijo em seu rosto. "Quantas você conseguiu acertar?" Agora ele se dirigia a Sherlock que respondeu levantando três dedos e aproximou as uvas de suas mãos, o convidando. "Se prepare para perder, criança!"

Kevin se posicionou melhor para que eles pudessem ter uma disputa justa, Mycroft terminava de comer e estava com os pensamentos fora dali. Sherlock e Greg estavam muito concentrados em acertar o alvo até que Kevin teve um ataque de risos pelas caretas que os dois faziam. Sherlock continuou jogando uvas em seu amigo que pegava as caídas no chão e as jogava em cima dele de novo, Greg se afastou dessa batalha entre dois guerreiros e se voltou ao seu namorado que ainda mexia em seu prato e seu olhar era distante, Mycroft ao notar que ele se aproximava apoiou a cabeça em seu peito e o abraçou.

Kevin jogou suas últimas uvas em Sherlock e apontou com a cabeça para o casal do seu lado. Dava para ouvir seus sussurros mas não distinguir as palavras ditas, roubou o prato de Mycroft e sorriu para o seu amigo arqueando as sobrancelhas. Observando os dois e depois da sua repulsa Sherlock se afastou um pouco, sentou na cadeira e captou o que Kevin queria lhe informar. Lembrou da conversa que os dois tiveram à noite e pela primeira vez pôde ver o casal presente com outros olhos.

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Noite anterior.

Mesmo usando minhas melhores táticas para desviar Kevin desse assunto ridículo em que ele insiste em falar, eu falhei porque ele acaba de entrar no banheiro e disse que quando sair eu não vou poder escapar! Juro que até pensei em ficar com Mycroft e bem quando eu preciso que ele esteja em casa, ele sai. Imprestável.

Juntei minhas mãos e as posicionei abaixo do queixo, fechei os olhos. Não sei mais para qual assunto recorrer, é claro que teria que ser relacionado ao tal de Paul... Kevin realmente se animava ao falar sobre ele, mas eu já tinha fingido muito prestar atenção no que ele falava com certeza ele já tinha percebido. Talvez eu pudesse aprofundar mais o assunto e fazer uma dedução de como ele provavelmente é, o problema é que eu já estou exausto de ouvir o Kevin falar sem parar! Mesmo que eu o ignore aquele zumbido no meu ouvido incomoda. Deve ter sido por isso que Mycroft saiu e eu não o culpo. Se eu conseguir lembrar das várias coisas que o Kevin disse sobre esse cara, talvez eu consiga montar uma dedução plausível e ent-

“Não, não e não! Sai agora dessa casa, buraco, castelo mental... Sei lá do que você chama, mas sai agora ou então eu não vou parar de falar, bem aqui do seu lado porque eu sei que você consegue me ouvir, seu pateta!” Como se ele já não tivesse falado o bastante.

“Palácio mental, Kevin. Quantas milhões de vezes eu vou ter que dizer? E caso eu estivesse, você não conseguiria me desconcentrar...” Ele pulou na cama e sentou ao meu lado, fazendo caretas e uma imitação muito errada de mim falando.

“Bla bla bla, eu não tô nem aí!” Kevin se ajeitou na cama e fixou seu olhar em mim. “Então, o Greg já sabe dessa sua perversão pelo amigo dele?” Empurrei-o para fora da cama e ele caiu no colchão que estava no chão. Puxei os lençóis cobrindo meu corpo e me deitando na cama.

“Olha, eu não sei o que se passa nessa sua mente entediante mas não está acontecendo nada. Agora, você pode apagar a luz porque eu realmente estou cansado de ouvir sua voz!”

“Sherlock...” Ele também estava deitado agora, mais calmo. “Não preciso ser um gênio pra saber que tem sim algo, então por favor pare de enrolar e me conte logo.” Suspirei profundamente e tentei organizar meus pensamentos.

“Eu não estou flertando com o John. Eu nem o conheço! Se está se referindo ao olhar, sabe muito bem que faço isso com todo mundo. Eu analiso as pessoas. Não tenho super poderes, isso leva um tempo e com o John foi assim. Se bem que tem algo nele, alguma coisa que eu não consigo ver! Mesmo sendo comum como ele é, ainda existe algo que eu não consegui decifrar. E você sabe como todo mundo reage quando eu digo o que deduzi sobre eles, mas com o John foi diferente. É como se ele me olhasse de outra maneira. Ah, sim... Talvez eu o ache atraente. E não comece com essas idiotices, pois você acha metade do mundo atraente!” Quando terminei de falar, percebi que dizia mais pra mim do que para o Kevin. Como uma confissão que eu nem mesmo tinha estabelecido na minha cabeça.

“Hm. Você acha o John atraente?” Após um tempo ele me respondeu, parecia estar pensando em alguma coisa... Respondi murmurando um ‘uhmmm’. “Legal, já é um começo! A gente pode falar com o Greg...”

Não.

“... Ele deve saber os horários do John na faculdade. Aí você aparece em um intervalo que ele tiver...”

Não mesmo.

“... Vai se aproximando! Sei que é difícil pra você, mas aí fala todas essas coisas chatas que você sempre diz! Ele tem cara de quem gosta sabe? E até gostou que deduzisse ele! Apesar de que eu não percebi se ele gosta de caras. Só o vi com a Sarah e as meninas estão sempre de olho nele...”

Definitivamente bissexual, então.

“...Só dá pra saber se tentar! Ele não vai te bater por isso. Já sei, o Greg descola isso pra gente, mais fácil...”

Espera, tentar o que? Mas que merda!

"Kevin!" Gritei o fazendo se calar. "O Greg não vai fazer nada porque ele não vai saber disso. Nem ele, nem o John e nem ninguém! Você está me ouvindo?" Não estava falando tão alto, só o bastante para que o Kevin realmente prestasse atenção em mim.

"E porque inferno você não quer que ele saiba?"

"Eu não vejo razão para que o namorado do meu irmão saiba que eu acho um dos amigos dele... Apreciativo."

"Não ele, Sherlock! O John, eu tô falando do John! E apreciativo?" Kevin ergueu um pouco a cabeça para que pudesse me olhar, com aqueles olhos que transmitiam diversão e um pouco de surpresa.

"Precisamente."

"Uma ova que ele é apreciativo! O que você quer mesmo é entrar nas cal-" O calei jogando um travesseiro em seu rosto.

"Não seja patético!" Rolei os olhos e me ajeitei sobre a cama.

"E você não seja cínico..." Eu? Ao olhar para Kevin vi que ele também havia se deitado e olhava para o teto, com as mãos juntas sobre o estomago. Ele continuou... "Tudo bem, você não vai fazer nada. Mas, nunca pensou como deve ser poder dividir sua vida com alguém? Digo, como o Mycroft tem o Greg. Você convive com eles, dá pra ver o quanto se importam um com o outro, não é uma relação superficial, é real Sherl. Nunca passou pela sua mente super fantástica como deve ser, ter uma relação assim?" Do mesmo jeito em que eu tinha dito aquelas coisas sobre John como uma confissão indireta, Kevin estava fazendo a mesma coisa.

"Tento prestar o mínimo de atenção quando eles estão por perto..."

"Não, é sério. Nem tudo é assim como você pensa, sabia? Tem coisas que você só vai realmente sentir, quando presenciar, viver. Não está tudo em probabilidades, do seu cérebro, da sua razão. Nem leve pra outro lado, sei que não vai e sabe o quanto te admiro, Deus sabe quantas vezes eu já não desejei ser mais assim como você, mas..." Ele suspirou profundamente e continuou... "Você tem que se permitir. Você nunca se deixou com ninguém com quem já tenha estado. Até com o Victor, só se permita. O John parece um cara legal, de verdade, não estou dizendo isso por ser ele mas porque tem que ser alguém legal para te fazer sentir um merda por ser tão cruel." Sabia que ele estava sorrindo, só pelo jeito de sua fala.

Como você pode responder a algo em que nem ao menos tenha pensado? Nunca me imaginei com alguém, assim dessa forma. Muito menos ficava observando meu irmão com o seu namorado se agarrando. Eu entendi o ponto de vista do Kevin, talvez eu deva prestar mais atenção. E mesmo que seja o John, que me faz sentir coisas estranhas ultimamente, nunca me imaginei ao seu lado. Experimentos poderiam me ajudar a ver tudo isso, me dar uma direção de onde começar e para onde ir, da mesma maneira que eu fiz há uns anos atrás quando quis entender melhor relações sexuais. Mas, por algum motivo eu me vetava na mesma hora em que esse pensamento se formou... John não é meu experimento.

Meu.

Estava feliz por Kevin ter me mostrado tudo isso, que eu não estava enxergando. Agora pelo menos eu não estava me sentindo não contrariado por minhas novas sensações. Mas, queria quebrar seus dentes por ele ter implantado esses pensamentos de mim e John juntos.

"Está tão sentimental hoje, Kev. Mais que todos os dias, isso é incrível." Me inclinei um pouco e apanhei meu travesseiro. "Caso eu mude de ideia, você será o privilegiado a saber." Ele assentiu e me empurrou para trás me fazendo deitar na cama. "Desligue a luz e tente ficar quieto até amanhã."

"Boa noite pra você também." Kevin desligou a luz e se deitou, não sem antes me dar um tapa na testa. "Idiota."

Com os pensamentos que estavam em minha mente, sabia que iria ter o sonho mais ridículo da minha vida.

Por alguma razão desconhecida, eu não sonhei com o John.

Notas finais
Espero que gostem! Beijos :*