A Change In the Wind
2 Primeiro Capítulo
Acordei com uma luz forte batendo em meu rosto, me revirei sobre a cama amaldiçoando Mycroft. Ele fazia isso sempre, abria as cortinas do meu quarto bem antes de amanhecer, pois sabia o quanto odiava a claridade da manhã... Pensei em que horas o bastardo acordava apenas para fazer isso. Respirei bem fundo e esfreguei as mãos sobre o rosto, fitei o teto por tempo indeterminado. O barulho na cômoda ao lado da cama me despertou, o celular vibrava insistente, estiquei meu braço preguiçosamente e atendi sem ao menos ver quem era. Afinal, não havia muitas opções.
“Fala...”
“Vejo que acordou de bom humor... Te acordei?” Era Kevin.
Kevin Smith era a pessoa mais próxima de mim, além do meu irmão. Mesmo me bloqueando do mundo ele encontrou um meio de se aproximar... Acho que assim como a maioria das pessoas, nos aproximamos por apreciarmos coisas parecidas. Kevin não era como eu em muitos aspectos, mas mesmo assim nos dávamos bem. Não se excluía das pessoas, se afastava delas ou as ignorava como eu costumava fazer, mas por motivos desconhecidos ele se mantinha por perto. Nos conhecemos a 4 anos, em uma aula de química. Os dois mais aplicados da turma, no começo eu apenas suportava sua presença, mas com o passar do tempo eu comecei a gostar de ter ele por perto.
“Na verdade não. Já tinha acordado, graças ao meu irmão...” Bufei ao lembrar. “O que houve?”
“As cortinas?” Ouvi sua risada e rolei os olhos. “Bom, pensei em ir caminhando para colégio hoje. Na verdade só faltam duas semanas pra tudo acabar então uma reta final saudável seria legal. O que acha?” Entendi na hora o que isso significava.
“Eu acho... Acho não, acredito que seu pai tenha cortado suas caronas matinais para de algum modo te fazer amadurecer pra vida universitária. Ou tenham brigado.” Disse entediado já me trocando.
“Err... As duas coisas. Te conto melhor durante a caminhada, pode ser?” Sua ansiedade foi maior agora.
“Sua opção é melhor do que a do ônibus então...” Já totalmente trocado sai do quarto pegando algumas apostilas pelo chão do corredor.
“Obrigado pelo elogio!” Ouvi uma porta bater, aparentemente já estava saindo.
“Não é um elogio, apenas uma observação.” Joguei a mochila sobre a cama e fui ao banheiro, liguei o viva voz e deixei o aparelho em cima de umas roupas no chão.
“Aham, certo. Passo por aí daqui uns 15 minutos, coma alguma coisa dessa vez...”
“Já estarei pronto.” Terminei de escovar os dentes e me abaixei perto do aparelho para apanhar uma toalha. “E não me encha.” Ouvi sua risada abafada e desliguei.
Durante nosso tempo de amizade, sempre me intrigou o fato de Kevin ser mais próximo de mim do que os outros com quem falava. Não era amigável, simpático, sorridente ou aberto para que ele se sentisse confortável de compartilhar seus interesses, na maioria das vezes eu realmente nem me importava com nada. Não enxergava a importância naquilo tudo. Kevin era óbvio assim como os outros, mas nesse ponto eu não conseguia decifrar. Depois de quatro anos seria bom perguntar?
Não pensava muito sobre isso, mas quando pensava não conseguia achar resposta adequada. Após terminar de me arrumar, desci as escadas e vi a TV ligada em um canal de noticias.
“Bastardo folgado...” Mesmo não estando em casa, Mycroft conseguia me irritar. Vi alguns de seus cadernos sobre o sofá e joguei todos no chão, pisando em um deixando uma marca. Sorri de lado e peguei minhas coisas, abri meu caderno que era onde escrevia algumas melodias e revisei cada uma detalhadamente, abri a porta ainda com o caderno nas mãos e a tranquei. Não precisei andar muito para encontrar Kevin. Ergui os olhos e pude ver que a alguns passos lá estava ele. Era poucos centímetros mais alto que eu, seus cabelos ruivos e menos ondulados do que os meus, seus olhos eram num tom mel esverdeado, sua pele era clara em um tom diferente da minha e seu corpo era parecido com o meu, mas ainda assim forte. Qualquer um estranharia seu pedido para caminhada, como se estivesse fora de forma.
“Disse que passaria lá, apressadinho.” Kevin disse com um tom divertido, mas podia ver tristeza em seu olhar. “Compondo de novo, uh? Vai finalmente frequentar as aulas de violino então?”
“Já estava pronto, pra que eu iria esperar até que chegasse?” Agora andávamos lado a lado e eu guardei o caderno na mochila. “Sabe muito bem que não frequento aulas e não irei começar agora. Acredito estar mais avançado que os professores.” Kevin tinha o olhar perdido, mas parecia querer manter a conversa para se animar. Observava tudo, mesmo sem fixar meu olhar em apenas um ponto.
“Sempre amável.” Olhou de canto pra mim e sorriu, o olhei e mantive o olhar por algum tempo até ele continuar. “Oh, ok então sabichão. Qual é a do seu irmão com as cortinas?” Perguntou curioso.
“Só mais uma babaquice que ele costuma praticar. Tão patético! Depois eu quem sou o infantil, tsc...” Passamos por um casal que estavam abraçados e pareciam bem apaixonados. Se não fosse pela traição de ambos, talvez não seria tão embaraçoso. Só talvez.
“Mycroft é realmente uma figura! Gosto dele...” Ao dizer isso, meu olhar se encontrou com o dele e acredito que consegui transmitir minha repulsa apenas com o olhar. “Ahhh vamos, ele não é tão ruim assim. São coisas de irmão, queria ter um pra encher.” Ele me empurrou devagar para o lado, eu apenas rolei os olhos e voltei a minha posição inicial ao seu lado.
“Não diga isso. Você se arrependeria...”
“Qual é! Eu seria o Mycroft de alguém, pense que emocionante!” Ele começou a rir e foi minha vez de empurra-lo. “Ok, ok. Hei... Você poderia tocar para o seu amigo aqui qualquer dia. Me animaria...” Seu olhar entristeceu.
“Não componho musicas para te animar, Kev.” Sabia que isso o faria me olhar e eu sorri de leve quando ele o fez. “Qual o problema com seu pai?” Um vento forte bateu sobre nós e eu encolhi um pouco, levando minhas mãos aos bolsos da blusa.
“Aposto como você já sabe...” Disse com um tom de duvida.
“Claro, mas não os detalhes. Não estava lá, lembra?” Quis encorajar sua confissão porque eu realmente sentia que aquilo o perturbava e estava começando a me incomodar.
“Palhaço...” Riu ainda triste. “Ele sabe... Hm acho que descobriu. Ou sempre soube e resolveu dar uma de pai do ano e dizer de uma vez.”
“Ele sempre soube. Mas, o que ele te disse?” Não que fosse visível para todos, mas é claro que pessoas próximas percebem. Ainda mais um pai tradicional que espera seu filho de 18 anos trazer uma típica namorada para casa.
“Que essas coisas não são normais. É uma fase, vai passar. Devo tentar me enturmar mais com as garotas. Talvez não tenha jeito com elas, mas não significa que eu não goste delas. Estou na idade de me sentir perdido, falou pra eu pensar direito e logo perceberia que ele esta certo.” Balançou a cabeça negativamente. “Claro que ele esta certo sobre a minha sexualidade. Como em tudo na vida dele, sempre certo.” Suspirou. “Panaca.”
“Ele esta certo sobre algumas coisas.” Disse calmo e ele me olhou com surpresa. “Seu pai já teve nossa idade e já passou por isso. Ele apenas sobrepõe a própria opinião, indicando que você seja como ele, o que não é o caso. Pensa saber como você é, seus sentimentos e ações... Ele tenta te orientar, assim como todos os pais, mas esta fazendo de forma errada.” Concluí e vi que Kevin me olhava atentamente.
“Forma errada? Ele me faz sentir como merda por eu apenas tentar ser... Eu mesmo!” Desabafou se alterando um pouco. Após respirar fundo, ele continuou... “E mesmo concordando com o que você disse isso não muda nada. Ele não entende Sherl, nunca vai entender...”
“Ele não precisa entender, apenas respeitar. Não se perturbe tanto com isso, daqui menos de 2 meses você vai estar em totalmente outro mundo. E o que ele pode fazer, te matar por ser gay? Por favor...” Estava ficando sem paciência mas Kevin riu do meu comentário. Seu pai era realmente um panaca.
“Claro, ele vai aceitar tudo isso sim... Em um dos meus sonhos, talvez.” Ele hesitou um pouco antes de perguntar... “Como seus pais reagiram com Mycroft?” Ele me olhava com curiosidade, como se eu fosse resolver um dos maiores problemas da humanidade.
“Sinceramente eu não sei. Nunca os vi brigando ou nem mesmo comentando sobre isso. Acho que estão muito ocupados para notar ou até se importar.” Estava prestando mais atenção no chão sobre nossos pés do que em nossa conversa, percebi que não era mais uma calçada qualquer. Já estávamos andando em frente à faculdade que Mycroft frequentava e que logo eu e Kevin também estaríamos.
“Sorte a de vocês.” Ele disse logo se corrigindo. “Por eles não se importarem, quer dizer... Ahh! Você me entendeu.” Dei de ombros, não me importava. Não mais. Kevin estava pensativo e sabia sobre o que ele traria para a conversa. “Ei! Você ficou com um garoto naquela festa de fim de ano, uns dois anos atrás! Qual seu nome mesmo? Começava com R... não é?”
“Com R, Kevin? Mesmo? Pense mais um pouco...” Sabia que ele não se lembraria. “Victor! Seu nome era Victor. Porque esta falando sobre isso agora? Já te contei tudo o que havia pra se contar.”
“Você é como eu...”
“Eu não rotularia dessa maneira. E eu já fiquei com meninas, caso não se recorde.”
“Mas com Victor foi diferente. Você mesmo disse... caso não se recorde.” Ele repetiu minha ultima frase e arqueou as sobrancelhas. Foi minha vez de ficar pensativo.
Há uns 2 anos atrás eu e Mycroft decidimos ir a uma festa que um de seus amigos estava dando no fim de ano. Não porque eu era social e popular, nem meu irmão apesar de ter influência... Fomos porque passar outro fim de ano na casa dos amigos dos nossos pais que a gente nem ao menos conhecia seria muito mais que deprimente. Nós não éramos nem tão próximos dos nossos próprios pais, imagine de seus amigos metidos a inteligentes? Mycroft gostava da atenção, do local e das conversas sem nexo que mantinha com os convidados, mas dessa vez ele quis inovar. Na verdade, quis passar com Gregory seu melhor-amigo-namorado-confidente-mega-entediante. Não era a melhor solução, mas preferi ir até lá com ele a ficar com meus pais, e então o conheci lá.
Victor Trevor.
Ele era dois anos mais velho do que eu, tinha minha altura, cabelos castanhos curtos e sua pele era levemente morena. Seu corpo não era fino como o meu, era forte e seus olhos eram esverdeados. Nossa conversa começou por eu estar perto da mesa de bebidas e ele logo falou sobre uma delas, como eu não me familiarizava muito sobre o assunto ele me explicou algumas coisas. Gostava mesmo é do efeito que elas me causavam, me anestesiavam. Ele gostava dessa mesma sensação e me mostrou outras coisas que também me dariam o mesmo efeito... Depois de algumas doses de tequila, eu realmente me entreguei aquele olhar.
Lembro que Greg teve que segurar bem Mycroft para ele não socar Victor, pelo fato das drogas não podia ser eu já havia usado antes então deveria ser por ele estar me beijando. Ele não era drogado ou coisa do tipo, estava apenas se divertindo experimentando coisas e me escolheu para compartilhar esse momento, eu não me importei. Victor era interessante e mesmo depois da festa continuamos a nos ver, confesso que ele me fez sentir coisas que nunca havia pensado existir. O maior tempo que passei ao lado de alguém, como numa relação foi ao seu lado. Me deixei levar pelo seu olhar intrigante, sua atenção, o interesse que ele mostrava ter sobre qualquer ação minha. Mas Victor era comum.
Ele ansiava pelo comum, tudo aquilo que vivenciamos era algo que ele planejava, deseja ter como um conto de fadas. Comodidade era o que ele queria e eu não me contentaria com isso, nunca. Nem por ele, não podia vetar tanto assim o que queria pra mim por sua causa. Era ele que queria tudo isso e não eu! Victor entendeu, sei que desde o começo ele soube que eu não era como ele, apesar de sermos muito parecidos em muitas coisas... Ele tinha esperança que eu visse as coisas como ele, que aceitasse, mas eu não pude. Tudo com ele foi bom, mas eu não me sentia feliz, somente... Bem. Não guardou magoas, não era de seu caráter. No fim, sei que ele entendeu ser o melhor, afinal não podia estar com ele o prendendo a mim sendo que outra pessoa poderia fazer dele alguém bem mais feliz. Alguém que pode dar o que eu nunca vou poder.
Saí de meus pensamentos quando vi que eu e Kevin estamos parados em frente à entrada da faculdade, ele estava a minha frente. “Foi diferente e só.”
“Não se culpe... Você fez o que achou ser certo e realmente, você não estava feliz. Estava entusiasmado, mas não feliz.” Kevin olhava em meus olhos com sinceridade.
“Eu não me culpo.” Pisquei para ele, era meu modo de dizer que estava tudo ok. Vi seu conhecido sorriso pairar sobre mim toda vez que tinha essa atitude e me lembrei de algo... “Tenho uma pergunta, se importa?”
“Sim.” Ele disse sério, mas logo soltou uma risada. “É claro que não! O que você ainda não decifrou e precisa da minha humilde opinião?”
“Não é opinião, só você pode me responder na verdade.” Tirei a mochila das costas e a deixei pendurada por apenas um de meus ombros. “Porque você é meu amigo? Digo... existem pessoas mais adequadas para se ter amizade, não?”
Ele abriu mais os olhos e só me observou por um breve instante. “Uau! Eu sou tão insuportável assim pra você não querer minha amizade?” Falou brincando, mas no fundo eu senti que ele queria uma resposta.
“Estou falando sério! Não sou uma pessoa fácil de lidar, de conviver. Outros poderiam ser melhores amigos do que eu, só não entend-” Kevin me interrompeu.
“Não me trate como fez com Victor, Sherlock.” Ele me advertiu, jogando sua mochila no chão próximo a seus pés. “Você é meu amigo, me sinto bem com você. Vai me dizer que esperou 4 anos para me fazer essa pergunta?”
“Não, não é isso. Eu só não entendo... Sou bem cretino, pode dizer. E eu não te trato muito bem também, então...”
“Não é como se você me maltratasse Sherlock, você só é indelicado na maior parte das vezes.” Concordei com ele balançando a cabeça. “E eu sei que você esta me perguntando isso por se achar estranho demais ate pra ter amigos, mas a verdade é que não é. Não é um E.T, um ser de outro mundo. Você é meu amigo porque realmente quer, não porque tem interesse em algo ou quer alguma coisa em troca. Por você não ser como os outros é que eu sou seu amigo, os defeitos que acha ter são o que te tornam melhor, melhor do que os outros. E mesmo você me dando muitos motivos para eu querer te esmurrar ainda é um bom amigo...”
Seu olhar estava calmo e eu olhei no fundo de seus olhos, procurando algo que contrazia com o que ele disse. Não havia.
“Eu aprecio mesmo a sua presença. E obrigado por não ter me esmurrado até hoje...” Sorri para ele que sorriu de volta.
“Não agradeça, ainda posso mudar de ideia!” Fiz cara de surpresa e ele sorriu ainda mais. “Além do mais, acho que você é a pessoa mais inteligente que conheço ou que um dia irei conhecer.”
“Agora você só esta querendo engrandecer o meu ego...”
“Como se isso fosse possível...” Ambos rimos. Kevin era uma pessoa incrível! Não tinha aquele olhar ofensivo, sua presença era sutil e não agressiva. Mesmo que ele não enxergasse isso, eu podia ver o quanto ele era bom. Não havia pressão em nossa amizade, ela era simplesmente simples. Era o suficiente pra mim, só queria saber se também era para ele.
Quando olhei para dentro do prédio, vi que de lá saia Mycroft com um de seus braços por cima dos ombros de Gregory, que o abraçava de lado. Eles conversavam animadamente, mas havia outra pessoa junto a eles... Ao lado de Greg. Era mais baixo que os dois, sua pele era clara também e seu corpo era bem desenhado, tinha os cabelos curtos e loiros, seus olhos eram azuis como o céu e ele ria junto com os dois. Mesmo o olhando de longe, senti uma sensação estranha tomar meu corpo... Algo desconhecido por mim.
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