A Change In the Wind
1 Prólogo
Solidão.
A solidão me protege. Sempre foi assim, sempre mantive esse pensamento em mente. Para muitos pode ser algo sombrio e triste, mas pra mim é real. Concreto. Sólido. Sempre esteve ali, sempre irá estar. Sendo ela sua única certeza durante muito tempo, você acaba aceitando e no meu caso, até gostando. Amo essa ausência de tudo, de estar consigo mesmo. Não há espaço para ilusões ou distrações. Coisas que as pessoas parecem gostar e ao contrario delas, que preferem estar cercada de babaquices eu prefiro me concentrar no que realmente importa.
Tire sentimentos, sensações, emoções... Tudo isso nos cega, não nos deixa enxergar o que realmente é importante. Por isso a pessoas se enganam em tudo e acabam sendo miseráveis apenas por não terem enxergado certas coisas.
Patético. Perder tanto tempo com outro ser humano tentando agradar, entender, amar? Não, impossível entender isso.
As pessoas parecem gostar de disturbar as relações, dificultar as coisas. É tudo muito simples e banal, fora que tudo isso tem uma importância gigantesca para todo mundo. Essas coisas são secundarias pra mim, eu não procuro e muito menos necessito disso. Relacionamentos são distrações. Tiram seu foco!
Ao dizer que a solidão me protege impõe que eu seja um estranho. Bom, depende do que é ser normal. E mesmo que seja eu não me importo com essa avaliação da minha pessoa. Não que eu seja um bastardo sem sentimentos, apesar de um bom tempo da minha vida ter acreditado não ser realmente parte da minha família, eu pesquisei e sou. É óbvio que possuo sentimentos e os executo com muita precisão. Estupidez seria expô-los toda hora, o tempo inteiro como a grande maioria faz. Chega a ser ridículo o quão entediante isso se torna.
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Alguns anos atrás...
Era abril.
Numa tarde fria de domingo em uma casa do subúrbio, comum como às outras, havia dois garotos que ali se encontravam. Tornando-a diferente com suas simples existências. Enquanto todos aproveitavam o restante do fim de semana, Mycroft revisava umas matérias, pois teria provas importantes durante a semana toda. Apesar de já estar bem ciente de todas elas, queria dar uma ultima olhada pra garantir.
“Então... o Graham não estava disponível hoje, querido irmão?”
Sherlock disse com um tom divertido ao passar pelo corredor e ver seu irmão mais velho sentado na cama, com uma dúzia de livros espalhados por ela e com outro bem próximo aos olhos.
Ele não parecia se importar com a presença do mais novo ali, até que ouviu aquele nome e o tom de Sherlock. Isso já bastou para lhe tirar a concentração, gostava de ignorar seu irmão, pois sabia o quanto isso o irritava, mas seus confrontos eram bem mais divertidos. Rolou os olhos e olhou para Sherlock por cima do livro...
“Bem triste não ter vida social não é mesmo, queridíssimo irmão?” Dando ênfase ao adjetivo num tom sarcástico, continuou... “Já lhe disse mil vezes que o nome é Gregory! Não seja pirralho, oh... desculpe, esqueci que você é pirralho.” Deu um sorriso debochado e voltou para seu livro.
Sherlock manteve seu olhar no irmão, seus olhos estavam escuros assim como o mar fica quando esta por vir uma tempestade. Adentrou o quarto e encostou-se a uma estante cheia de livros, oposta a cama, cruzou os braços.
“Auto-suficiente. Não irei me desculpar por não ser tão mundano quanto você.” Disse no mesmo tom de deboche que o outro. Arqueou uma de suas sobrancelhas e abriu um sorrisinho de lado, cínico... “Pensei que você o chamasse de Greg. Hm... não acha um pouco intimo? E não seja ridículo, você não é tão mais velho assim do que eu!”
Mycroft retirou completamente os olhos do livro e o pousou sobre a cama. Empurrou todos os livros que estavam sobre a mesma com o pé e fitou seu irmão. Tão imaturo, infantil, de certo modo inocente, forte a sua maneira, amável mesmo que não demonstrasse e... Sozinho. Mycroft o conhecia como ninguém e mesmo com a relação distorcida entre os dois, ele o amava. Da sua forma, da forma em que eles estabeleceram. Mesmo que não mostrasse, ele realmente se importava com seu irmão mais novo. Na verdade, acreditava ser o único que ainda olhava por ele e então se sentia como um escudo para ambos. Tinha que ser. Seus pais eram ausentes, sempre estavam viajando a trabalho e se estivessem em casa, não fariam tanta diferença. Ele os culpava pelo o abandono, pelo peso que era ser a única pessoa presente na vida de seu irmão, pelo vazio que sempre o assombrou, por ter que se virar sem auxilio, teve que aprender a lidar com tudo. Não queria que todo esse peso caísse sobre Sherlock, então ele o carregava sozinho, mesmo sabendo que o mais novo era afetado de uma forma ou de outra.
Ele se ajeitou sobre a cama e deu uma risada sobre o primeiro comentário de Sherlock. “Auto Imbecil isso sim! Você diz como se fosse algum ser superior, se esqueceu, você também é humano. Um humano estranho, mas ainda sim...” Sorriu para si mesmo ao ver Sherlock resmungar e rolar os olhos. “Oh, sim... Eu o chamo de Greg, mas pra você é Gregory mesmo. Ah, por favor, Sherly mesmo que tivesse a minha idade, ainda sim seria um pentelho.” Se aconchegou ainda mais em sua cama, vitorioso.
O mais novo juntou os dentes com força após ouvir seu irmão o chamar daquela forma. “Pelo amor! Não me chame assim... é nojento!”
“Nojento? É um apelido, bem carinhoso pra você saber...” Balançou a cabeça positivamente.
“Sim, nojento porque saiu da sua boca!” Sherlock fez uma careta e balançou o rosto tentando se livrar dessa memoria.
“Aha! Então se fosse outra pessoa, você gostaria... Sherly?” Repetiu o apelido demoradamente.
“Cale a boca!” Sherlock se aproximou e se deitou sobre os livros esparramados pelo chão, fechou os olhos e suspirou.
“É uma pena eu ser sua única distração, na verdade não. Sei que você gosta, eu sei...” Disse calmamente e se deitou na cama.
“Ohhh... Mhm, demais! Estou anestesiado de tanta felicidade.” Fingiu alegria e praticamente gritou a ultima palavra.
O mais velho pegou umas folhas que estavam ao seu lado e as amassou, formando bolas. Virou de lado na cama e jogou as mesmas no rosto do mais novo. Soltou uma gargalhada ao ver a reação de Sherlock e entre risos disse... “Pare de me fazer perder tempo. Sabe que estou ocupado, caia fora!”
Sherlock afastou os papeis de seu rosto e como que se lembrando de algo limpou a garganta “Hey...” Chamou a atenção de Mycroft. “Você que é imbecil!” Sorriu e logo voltou a ficar sério. “Pelo o que eu vi você só esta engordando mais nessa cama... Acho que o Graham vai te trocar.” Se sentou sobre os livros que se encontravam abaixo de suas pernas e ficou encarando suas capas.
Mycroft suspirou fundo. “Cai fora!” Disse firme, mas Sherlock estava muito interessado em um de seus livros de química. Percebendo o desinteresse do irmão, Mycroft pegou seu Ipod e deu play em uma música, cantando junto...
“You got no friends to call your own, no one ever calls you on the telephone you sit at home all day alone, you’ve got no friends to call your own no one ever calls you on the telephone, all you ever do is bitch and moan…” Enfatizou a ultima frase e se sentou na cama, mexendo o corpo conforme o ritmo da música.
Sherlock olhava Mycroft irritado, pensando no quanto ele era ridículo. Levantou-se com o livro de química nas mãos e se aproximou da cama, empurrou seu irmão fazendo-o cair pra trás e bater a cabeça na parede atrás de si. Dessa vez Sherlock riu e disse bem alto por conta da música... “Gavin deve estar com outra pessoa. Pensando em você é que ele não esta, acredite.” Ele estava saindo do quarto quando o viu ainda sentado na cama, passando a mão na cabeça e gritando “CAIA.FORA!” Sherlock saiu do quarto batendo a porta e ouvindo algo bater sobre ela por dentro. Provavelmente um livro arremessado por seu irmão.
Já no corredor a caminho de seu quarto, ele sorria. Seu irmão era realmente difícil, irritante, se achava o melhor, melhor que ele! Era um arrogante, mas Sherlock amava suas discussões, seus momentos. Mesmos que fossem ruins, pois Mycroft estava lá. Sabia que toda sua implicância era proteção, ele o entendia de certa forma. Seu sorriso se fechou ao se lembrar da letra da música, não por seu irmão cantar pra ele, mas pensou no que ela dizia. Sentiu algo se retorcer dentro de si, uma agonia, uma sensação ruim. Bloqueou tudo o que estava sentindo, como sempre fazia. Fechou os olhos com força e soltou o ar lentamente, entrou em seu quarto e passou as mãos entre a capa do livro, seu olhar brilhou ao ver uma reação química bem desenhada. Isso ele compreendia. Amava, ansiava por desvendar como se fosse um crime.
Um dia, uma tarde...
Dois irmãos.
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