A Chance

25 Capítulo 24


Olá! –Lúcia entrando no quarto de Hugo. Ela fecha a porta e os encara, indignada — O que está acontecendo aqui?

Beatriz entrega o papel e a caneta para a enfermeira que sai logo em seguida, deixando os três sozinhos.

— Hugo foi liberado – responde Beatriz, calmamente.

—Isso é ótimo – comemora Lúcia se aproximando da cama sorrindo. Ela coloca a bolsa em cima da cama e entrega umas roupas para Hugo — Trouxe suas roupas, se vista para gente ir, ok?

— Lúcia,eu não irei com você... – Hugo pegando as roupas. Ele olha para Beatriz — A Bia me levará, mas muito obrigado por tudo que tem feito.

— Como assim? – pergunta Lúcia, perplexa. Ela dá um sorriso sem graça para Hugo — Achei que tínhamos combinado que iria para casa comigo – ela olha para Beatriz e a acusa — Achei que tivéssemos um acordo. Pelo visto, sua palavra não vale nada.

— A ideia foi minha – responde Hugo, sério — Fui eu quem pediu para que ela me deixasse ir para casa dela.

— Por quê? – pergunta Lúcia, surpresa.

— Porque ela é a única pessoa de quem eu lembro...– responde Hugo olhando para Beatriz. — Sem contar que ela é a minha esposa...

— Ex-esposa – corrige Lúcia, chamando atenção de Hugo para si.

— Ela é a pessoa que mais me conhece. Ficamos juntos por catorze anos, então com certeza têm todas as minhas memórias, já que estava em todas elas – argumenta Hugo.

— Mas ela não estava nos últimos meses – retruca Lúcia apontando para Beatriz

— É melhor eu sair e deixar vocês sozinhos – comenta Beatriz abrindo a porta.

— Não Beatriz! – recusa Hugo, sério. Ele encara Lúcia— Você está certa, a Beatriz não estava nos últimos meses, mas você não estava nos últimos catorze anos. Eu vou para casa dela e quando eu quiser saber dos últimos meses, prometo procurar você.

— Mas Hugo... – reage Lúcia, chorosa.

— É melhor você ir, pois preciso trocar de roupa e sair desse hospital – sugere Hugo ignorando Lúcia.

Ela tenta tocá-lo, mas ele se levanta e vai para o banheiro, deixando as duas sozinhas. Lúcia passa a mão na boca e diz:

— Você é ardilosa... – acusa se aproximando de Beatriz— Fez com que eu ficasse de guarda baixa e atacou na primeira oportunidade.

— Pode ter certeza que essa situação me agrada tanto quanto a você, mas a minha casa ainda é dele e não posso, nem pretendo recusar. Ele só vai ficar lá por um tempo, tenho certeza que voltará correndo para os seus braços ,assim que se lembrar.

— Isso se você não envenená-lo contra mim. – responde Lúcia com desprezo.

— A casa estará aberta para quando ele quiser te receber – comenta Beatriz — Você acreditando ou não, não faz a menor diferença. Eu vou esperá-lo lá fora, para que possam se despedir.

Beatriz sai do quarto,pega seu telefone liga para Leninha avisando que está indo com o Hugo, ignorando completamente a curiosidade da empregada. Assim que desliga, sente uma ponta de dúvida se está fazendo a coisa certa ao levar Hugo para casa.

****

Leninha abre a porta do duplex, acompanhada pelo olhar maravilhado de Hugo que não parece acreditar que morou no apartamento. Assim que chega à sala, caminha para a sacada, a fim de admirar a vista da praia. O vento toca seu rosto, o fazendo fechar os olhos em direção ao sol. Por algum motivo àquela cena faz Beatriz esboçar um sorriso nos lábios, sente como se por alguns instantes tudo tinha voltado a ser como era antes. “Como era antes?” pergunta Beatriz ficando séria.

— Aqui é lindo. – elogia Hugo, despertando Beatriz de seu pensamento — Essa vista de frente para a Barra da Tijuca. Sabe, essa é a minha praia preferida.

— Eu sei – responde Beatriz se aproximando da sacada. “Realmente a vista é maravilhosa”, pensa Beatriz admirando a paisagem da praia repleta de banhistas.

— Claro que sabe – Hugo vermelho, sem encarar Beatriz — Esse seria o lugar que eu escolheria para morar.

— E você escolheu – afirma Beatriz sorrindo. Aponta para baixo — Na verdade, dois andares abaixo. Minha mãe nos convenceu a comprar esse aqui, pois assim não teríamos vizinhos e a cobertura seria nossa.

— Agradeça a ela por mim. – pede Hugo, feliz — Melhor, convide sua mãe para vir aqui, assim posso agradecer pessoalmente.

—Você realmente perdeu a memória – comenta Beatriz, fazendo Hugo encará-la, confuso — Digamos que vocês dois não são bons amigos... Estão mais para inimigos eternos.

— Nossa... – exclama Hugo,surpreso. — Sua mãe é a sogra clássica , então?

— Se clássica for sinônimo de não conseguir ficar no mesmo ambiente que você, sem humilhá-lo – explica Beatriz fingindo seriedade — Sim, ela é.

— Ahahahahahaha – gargalha Hugo. Ele olha para ela e comenta — Você é engraçada, sabia? Agora entendo porque eu me casei com você!

— Sou sincera – responde Beatriz sorrindo, enquanto toca no ombro de Hugo. Ela deixa o sorriso sumir aos poucos, quando nota que tocou em Hugo e tira a mão. Dá um sorriso tímido e diz — Vamos, tenho de mostrar onde você vai dormir.

— Eu poderia dormir aqui fora – comenta olhando pela última vez a paisagem.

— Você também já disse isso antes – murmura Beatriz dentro da sala de forma inaudível.

Hugo entra na sala com as mãos no bolso de sua calça jeans, afastando a camiseta preta de manga curta. Ele observa o espaço, enquanto Beatriz aponta as direções.

— Por baixo da escada, temos o escritório, daquele lado à sala de jantar, cozinha e copa. Subindo as escadas, os quartos – explica olhando para cima. Ela sobe os primeiros degraus e diz — Vou te mostrar seu quarto.

Hugo sobe com ela até a segunda porta do corredor, onde Beatriz abre mostrando o maravilhoso quarto bege.

— Aqui é o quarto de hóspedes – informa entrando — Você ficará aqui... Por enquanto.

— Nossa! Esse é só o quarto de hóspedes? – Hugo sentando na cama — Isso é maior que a minha casa.

— Eu pedi para Leninha colocar as roupas que ainda tinham aqui, no guarda roupa. Não são muitas, mas já pedi para o Antônio, nosso motorista, comprar novas, amanhã. O banheiro é naquela porta — – Beatriz indicando — Qualquer coisa que precisar, chame a Leninha ou a mim. O Antônio o levará para onde quiser.

— Se esse quarto é desse tamanho... – comenta Hugo maravilhado , tocando os lençóis brancos. Ele deita e então observa Beatriz, curioso — Como é o nosso? Quer dizer... O seu?

— É maior – responde Beatriz sorrindo.

— Legal – comenta Hugo olhando para o porta retrato vazio que se encontra no criado-mudo — Posso te fazer uma pergunta?

— Claro que sim – responde Beatriz arrumando os cabelos.

— Eu gostaria de ver uma foto da minha mãe recente para colocar aqui, você tem alguma? – pergunta Hugo segurando o porta retrato.

—Está no meu quarto – responde abrindo a porta — Vou buscar.

Beatriz vai até seu quarto, entra no closet e pega uma caixa de madeira, onde estão todas as fotos soltas. Assim que sai do closet, toma um susto com a presença de Hugo.

— Esse quarto é gigante! – exclama Hugo. Ele olha para cara de assustada de Beatriz e pede — Desculpa... Eu não sabia se podia vir com você...

—Está tudo bem... – responde Beatriz, vermelha.

Ela revira a caixa procurando a foto, enquanto Hugo pega uma delas. É a foto dos dois dançando no casamento. Ele fica triste observando a foto.

— Nós parecíamos tão felizes.Eu gostaria de ter essa memória de volta – comenta Hugo tocando na foto — Eu perdi uma vida com você...

— Mas irá recuperar e acabará percebendo que não foi nada demais – responde Beatriz pegando a foto de volta e entrega outra — Toma... Essa é a mais recente.

— Formatura com a minha rainha – fala Hugo lendo o verso da foto com a expressão confusa. Ele vira a foto: Era sua mãe o abraçando em sua formatura da faculdade. Nota que ela usa um lenço na cabeça e está muito debilitada — Essa é a mais recente?

— É a última que sua mãe deixou tirar – responde Beatriz fechando a caixa — Ela não gosta muito de tirar fotos e com o tempo, ela ficou irredutível.

—E ela ainda está doente? – questiona Hugo apontando para o lenço na cabeça de sua mãe.

— Não mais .

—Não vejo a hora de vê-la pessoalmente – olhando feliz para a foto.

— Hugo... – chama Beatriz entrando no closet para guardar a caixa — Eu tenho aula agora,será que você se importaria...?

—Eu vou para o quarto – responde Hugo, sem graça. Ele vai para a porta e vira o corpo mostrando a foto — Obrigado pela foto, significa muito para mim.

— De nada — responde Beatriz sorrindo.

Mal Hugo fecha a porta do quarto, Beatriz desaba na cama. Ela não acredita que conseguiu passar àquelas horas com o Hugo sem brigar. Percebe que ele está diferente. “Ele me lembra como era há muito tempo... no começo. Será que ele realmente perdeu a memória? Será que é só coisa da minha mãe? Um dia de cada vez ,Beatriz... Esse foi só o primeiro”.

****

Beatriz chega a casa e percebe que todas as luzes estão desligadas. Sobe e passa devagar pelo quarto de Hugo e não há nenhum barulho. “Talvez esteja dormindo”, conclui indo para o seu quarto. Ela abre a porta, toma um banho, veste uma camisola rosa transparente, se joga na cama e em poucos minutos, seu computador começa a chamar: era Flávio. Passaram-se dias desde a última conversa e ela não esperava que ele fosse ligar. Atende sentando na cama e a única coisa que aparece na tela é o rosto de Flávio sorrindo.

— Oi, meu amor –Flávio — Tudo bem?

— Sim... Um pouco cansada – responde Bee, séria — O Hugo saiu hoje do hospital... Como você está?

— Com saudades... Ainda bem que ele não vai ficar na sua casa.

— Pois é, Flávio eu queria falar... – começa Beatriz buscando forças para contar a verdade.

— Essa é uma das coisas que me incomodaria muito. Ele tem de ficar longe daí e deixar você viver sua vida.

—Eu sei, mas...

—Sabe acho que foi bom ele ter perdido a memória, assim ele não te perturba e pode também seguir em frente, sem mágoas.

—Concordo, porém...

— Eu ficaria desapontado se soubesse que ele ia ficar ai. Você não foi tão longe para retroceder. – comenta Flávio observando a cara constrangida de Beatriz — Desculpe-me pela minha atitude com o Jorge, eu já falei com o Pedro e está tudo resolvido. Fui impulsivo, eu sei. Mas quando ouvi o que ele falou para você, como te tratou, o sangue subiu – Flávio, apressado.

— Tudo bem – afirma Beatriz sorrindo.

— Não está tudo bem – nega Flávio com o rosto preenchendo a tela de Beatriz — Eu quero te pedir desculpas por aquele dia, mas não sei do que gosta... Exceto...

— O que é? – pergunta Beatriz, curiosa — Por que esta tão perto da câmera?

— Promete não rir? – pergunta Flávio, vermelho.

— Prometo tentar – responde Beatriz

Ele se afasta aos poucos e Beatriz arregala os olhos, não acreditando no que está vendo: Flávio está com orelhas de coelho e uma sunga de couro preta, só. Foi difícil para ela não rir quando ele virou e mostrou o pompom branco preso.

— Gostou? – pergunta de costas erguendo os braços — Me perdoa?

— Sem dúvida você está perdoado – responde Beatriz, sem graça — Bonita roupa.

— Não é só isso... – Flávio apertando o controle remoto e deixando que "You can leave your hat on" inundasse o quarto de Beatriz. Ele se afasta mais um pouco — Eu treinei todos esses dias, mas sei que não sou um profissional... E se me pegarem serei preso, mas isso é para você, por você.

Flávio passa a mão lentamente pelo peitoral no ritmo da música, com um sorriso safado. Deixa as mãos tocarem o começo da sunga enquanto rebola, mordendo os lábios. Ele se vira mexendo o pompom, fazendo Beatriz rir. Ele joga as orelhas de coelho e pisca para a tela.

Alguém bate na porta, interrompendo a performance de Flávio.

— Deve ser a Leninha – comenta Beatriz, levantando da cama — Vou ver o que ela quer, já volto.

— Tudo bem –Flávio desligando a música.

Beatriz abre a porta e Hugo aparece tímido.

— Oi... Desculpa te incomodar, mas eu estou meio perdido e está tudo escuro lá embaixo... Onde é a cozinha? Eu queria beber um pouco de água.

— Tudo bem ... – sussurra Beatriz se escondendo atrás da porta — Eu vou só colocar meu roupão e já levo você.

— Tudo bem – responde Hugo observando a porta se fechar.

— O que a Leninha queria? – pergunta Flávio, sério, deitado na cama.

— Ela precisa de ajuda... Parece que o cano da cozinha estragou e inundou tudo – mente Beatriz colocando o roupão de costas para o computador — Já volto.

— Te espero –Flávio.

Beatriz abre a porta com um sorriso sem graça no rosto e vai até a cozinha com Hugo.

— O copo está no armário e a água é ali –Beatriz apontando para o Filtro elétrico — Sirva-se à vontade.

— Obrigado – agradece Hugo pegando o copo e indo em direção ao filtro — Desculpa se te atrapalhei.

— Tudo bem .–Beatriz encostada na pia.

Hugo bebe água tranquilamente ,enquanto Beatriz o observa pensando quando foi que parou de imaginar Hugo de volta em sua casa. Em nossa casa…depois de tanto tempo. pensa Beatriz. Hugo afasta o copo dos lábios, satisfeito. Ele se aproxima de sua esposa, colocando seu rosto de frente para o dela. Beatriz o encara,sente a respiração de Hugo bem próxima o que a faz prender a respiração ,conforme ele se aproxima. Então ele sorri e roça o braço no dela,colocando o copo na pia.

— Eu vou subir, até amanhã. – sussurra Beatriz.

— Até amanhã, Bia– Hugo sorrindo.

Beatriz sobe as escadas apressada e entra no quarto, fechando a porta. Quando olha para o PC, sua chamada foi desligada. Há apenas um recado de Flávio.

“Oi meu amor. Meus clientes me convocaram para uma reunião urgente. Continuo amanhã. Te amo. Sempre seu Flávio."

Beatriz fecha o notebook um pouco triste por não ter se despedido de Flávio. Porém, as palavras dele a respeito de Hugo a fazem questionar se deve contar para ele que seu ex- marido está em sua casa.