A Chance
30 Capítulo 29
Hoje, nós teremos o último tópico da vida do Hugo, no qual a Beatriz é narradora. – informa Manuela encarando Beatriz
— Qual o tema desse último tópico? – pergunta Beatriz, preocupada. Ela se força para não olhar para o Hugo a quem está evitando ao máximo desde a última sessão.
— Digamos que esse é um tópico bastante controverso, mas que ajudou alguns pacientes a recuperarem a memória – responde Manuela — É sobre as brigas e a separação.
— Como isso ajudaria o Hugo a lembrar? – questiona Beatriz, irritada — Como lembrar algo ruim, o ajudaria? Isso não trará nenhum benefício.
— Eu acredito que o bloqueio dele esteja diretamente relacionado aos últimos acontecimentos – argumenta Manuela — Esse é o último tópico Beatriz, prometo que estará livre da participação do tratamento após essa sessão.
— Se ela não quer mais ajudar... Eu entendo – inervem Hugo, encarando Beatriz piedosamente — Acho que não precisamos desse tópico, pois todas essas lembranças devem ser difíceis para ela que já ajudou bastante. O fato é que não voltou a minha memória e acho que nunca voltará.
— Beatriz, vamos tentar. Só dessa vez? – pede Manuela — Eu prometo que depois dessa sessão, procurarei outras pessoas que possam ajudá-lo. Será difícil, mas darei o meu jeito. Só te peço que continue por hoje.
— Então se prepare – avisa Beatriz encarando Hugo — Essas memórias serão as mais difíceis de superar.
****
Dez anos antes...
— Eu disse que a vista daqui era ma-ra-vi-lho-sa! – exclama Miranda abrindo as portas da sacada do duplex localizado na Barra da Tijuca. Ela puxa a filha pelo braço e a conduz para fora — Olha esse espaço! Dá para chamar umas dez pessoas e todas ficarem aqui, confortavelmente. E o melhor : A vista da praia da Barra. Exatamente do jeito que você queria.
— É muito bonita – elogia Beatriz sorrindo. Ela se vira em direção ao esposo e pede — Venha aqui, amor.
— É lindo mesmo – comenta Hugo, admirado — Eu dormiria por aqui se pudesse.
— Bom, então eu escolhi o ideal – Miranda que abre sua bolsa e tira um envelope, entregando para Hugo —Aqui está o contrato para compra do imóvel. O proprietário é muito amigo da nossa família e deu um desconto extraordinário. Uma oferta nunca antes feita por nenhum apartamento como esse.
— A gente ainda está escolhendo – retruca Hugo, relutante. Ele balança o envelope — Não me leve a mal, Miranda, mas eu também gostei daquele, dois andares abaixo e tenho certeza que sairá mais em conta, mesmo com essa proposta...
— Como pode saber, se nem abriu o envelope? – questiona Miranda, irritada — Por um acaso você é médium?
— Mamãe – repreende Beatriz — Ele tem direito de escolha.
— Ele pode escolher depois que abrir o envelope – retruca Miranda.
— Abra o envelope – pede Beatriz para Hugo. Ele abre cuidadosamente e lê o documento, depois de um tempo ele arregala os olhos e encara Beatriz que fica curiosa. Ela tira o papel da mão de Hugo e exclama! — Como assim? Ele nos deu o apartamento?
— Não... – nega Miranda sorrindo — Lógico que ele não seria tão generoso assim com um duplex de dois milhões. Eu e seu pai compramos para vocês. Afinal, vocês não querem começar a vida em um cafofo que mal dá para os dois entrarem juntos. Não se esqueça de que prometeu fazer minha filha feliz... Esse seria um bom começo.
— Obrigado, Miranda – agradece Hugo tirando o contrato das mãos de Beatriz. Ele a encara, bravo — Mas não queremos esmola. Nós planejamos comprar algo dentro das nossas condições, esse está muito fora do orçamento.
— Esmola? Você acha mesmo que um duplex desse é uma esmola? – questiona Miranda com desprezo — Estou lhe fazendo um favor, seu ingrato!
— Mas eu não quero nada seu! – retruca Hugo.
— Você merece a sarjeta onde morava, mas a minha filha não merece ser carregada com você! –provoca Miranda — Quer saber, você não me engana com essa sua atitude de pobre orgulhoso. Se acha que vou me ajoelhar para que aceite esse apartamento, vá sonhando!
— E quem disse que eu quero esse seu favor? – questiona Hugo, irritado. Ele olha para Beatriz estendendo a sua mão e completa— Vamos, amor. Eu disse que era uma péssima ideia trazer sua mãe junto.
— Você vai com ele, Beatriz? – pergunta Miranda com um olhar pretensioso — Tem certeza que é essa opção que irá tomar?
— Hugo... – chama Beatriz segurando na mão de seu marido — Vamos considerar, pelo meu pai. Eu tenho certeza que ele não teve má intenção.
— Com certeza, não – afirma Miranda.
— Mas Bia... – Hugo, inconformado.
— Mamãe, deixe-nos a sós – pede Beatriz, séria. Assim que a mãe sai, continua — Você está próximo de receber mais uma promoção. Se recusar, meu pai ficará mal... Não sei... Eu acho que não deveria recusar...
— Mesmo que eu consiga a promoção – diz Hugo — Olha o tamanho desse lugar! Não sei se darei conta de bancar tudo isso.
—Eu trabalho também. Assim podemos pagar juntos...
—Amor, você acabou de perder o bebê, ninguém vai querer contratá-la agora e se aceitarmos, as contas serão imediatas.
—Hugo... – interrompe Beatriz encarando o esposo. Ela sabe exatamente o que dizer para convencê-lo a aceitar a proposta. Sorri e continua, fazendo seu marido tocar em sua barriga — Aqui seria um ótimo lugar para criarmos nossos filhos.
— Eu sei – concorda Hugo sério, acariciando a barriga de Beatriz— mas…
— Mas nada, Hugo – recusa Beatriz colocando a mão nos lábios dele — Eu sei o que é melhor para nós dois.
****
— Contas, contas e mais contas!!!! – esbraveja Hugo entrando em casa com vários envelopes na mão. Ele fecha a porta e resmunga — Eu sei o que é melhor para nós dois...
— Oi, querido – cumprimenta Beatriz aparecendo na sala com um vestido de gala preto. Ela dá um beijo em seu esposo e pergunta — Como foi o serviço?
— Foi péssimo, mas pelo menos essas coisas – Hugo entregando para Beatriz — Sempre me motivam a não desistir.
— Contas... – comenta Beatriz ignorando o conteúdo de todos os envelopes ao jogá-los no sofá.
— Aonde você vai vestida assim? – pergunta Hugo, curioso.
— NÓS vamos ao jantar Beneficente que a minha mãe marcou para hoje. Para qual estamos atrasados – responde, ajeitando a gravata do marido — Por isso, se vire e vamos indo.
— Outro jantar? – questiona Hugo — Mas eu nem jantei... Eu queria tanto comer a comida da minha esposa. Ela é tão boa.
— Sei – debocha Beatriz, pois tem total conhecimento do gosto horrível que sua comida tinha, graças a sua inexperiência — Mesmo que quisesse, não comeria minha comida hoje. Aliás, acho que nunca mais.
— Por quê? O que houve? – pergunta Hugo.
— A Leninha é oficialmente a nossa empregada – revela Bia, orgulhosa. Ela segura no braço do marido — No caminho eu te conto como convenci a minha mãe a ceder a Helena para gente.
— Não – recusa Hugo tirando o braço — Por que você fez isso?
— Porque nós precisávamos de uma empregada – responde Beatriz arqueando a sobrancelha — Esqueceu que estou limpando a casa sozinha e fazendo comida, que sei que é péssima. Estamos gastando muito com comida pronta.
— Você tem uma diarista te ajudando – recorda Hugo.
— Sim, mas ter uma empregada em tempo integral é melhor. Eu te disse – retruca Beatriz, irritada — Eu disse isso milhões de vezes.
— Mas esse é um péssimo momento – nega Hugo, bravo — A gente mal está dando conta de pagar as contas, da lua de mel, da decoração, o condomínio, água, luz, telefone, internet, t.v.por assinatura e você me agrega mais despesa.
— Eu sei – admite Beatriz — Por isso minha mãe vai pagar a Leninha até nos livrarmos de algumas contas.
— Não! – explode Hugo se afastando, irritado— Eu não quero mais dedo da sua mãe em nossa vida!
— Por quê? – pergunta Beatriz, indignada — Ela só quer ajudar, Hugo.
— Ajudar? – questiona Hugo encarando o rosto de sua esposa,incrédulo— Se ela quisesse ajudar, não nos faria ficar em um lugar como esse! Que a gente nem consegue pagar!
— Eles só quiseram ajudar, seu ingrato – retruca Beatriz, nervosa — Bem que a minha mãe disse que você era assim...
— Assim? Assim como? – questiona Hugo com as mãos na cintura.
—Quer saber, esqueça o que eu disse – responde Beatriz ajeitando o vestido — Temos um evento para ir, para o qual já estamos atrasados.
— Responda a minha pergunta – exige Hugo, sério.— Diga-me , como eu sou.
— Já que está tão curioso para saber... Você é um orgulhoso que só pensa em si. O mundo tem que girar ao seu redor, ou nada feito! Por isso nossa vida é assim!
— Agora é culpa é minha – comenta Hugo — Como sempre!
— Sim, você não vê que estou me matando aqui dentro, fazendo de tudo para a casa ficar confortável para você. E você não pensa nenhum pouco em mim!
— Foi pensando em você que viemos parar nisso aqui! – explode Hugo apontando para todos os lados — E você quer me afundar ainda mais.
— Esse casamento é feito só por você mesmo! Eu sou apenas uma empregada para você!
— Chega! – Hugo indo em direção a porta — Eu vou dormir fora hoje... Tô cheio dessa casa!
— Isso vai lá. Pode ir! – grita Beatriz andando em direção ao quarto — Obrigada por estragar a minha vida.
— Sempre às ordens — grita Hugo, batendo a porta.
****
— Oi, Beatriz – cumprimenta Jorge abrindo a porta — Entre.
Beatriz entra nervosa, encontrando marido sentado no sofá com as mãos na cabeça.
— Oi, meu amor – Beatriz fala sentando ao lado dele. Ela beija a mão de Hugo e diz — Desculpe-me, você está certo.
— Não meu amor, você está – Hugo beijando o rosto de Beatriz — Me desculpa. Eu não queria ter saído de casa.
— Promete que não vamos mais brigar? – pergunta Beatriz.
— Prometo. Nunca mais – garante Hugo antes de beijar usa esposa.
****
Oito anos antes...
— Diga-me quando? – questiona Hugo irritado entrando no quarto — Quando nós teremos filhos?
— Não sei, Hugo – responde Beatriz tirando os brincos. Ela o encara pelo espelho de sua penteadeira — Não me sinto pronta para isso ainda.
— Mas você disse que tentaríamos mais– recorda Hugo — Eu vejo meus amigos com filhos, seus colegas de faculdade com filhos, até a filha da sua empregada teve filhos. A gente está casado há tanto tempo e não temos nenhum.
— Só que eu desisti!– confessa Beatriz — Já disse isso há uma hora. Pare de me encher com esse assunto, droga!
— Ótimo – exclama Hugo,desapontado. Ele vai em direção a porta, dizendo — Quer saber, não vou mais te amolar com nada...
— Isso mesmo, vai para a casa dos seus amigos – incentiva Beatriz entrando no closet — Vê se não esquece de levar a sua escova dental. Hoje eu terei uma ótima noite de sono com a cama só para mim.
— Que bom. Espero que não vá atrás dos meus amigos! – esbraveja Hugo abrindo a porta — Fui!
****
Seis anos antes...
— Tenho uma novidade – começa Beatriz chamando atenção de Hugo — Vou começar a trabalhar com caridade.
— Desde quando Caridade é profissão, Beatriz? – questiona Hugo jantando ao lado de sua esposa.
— Eu serei paga para acompanhar a mamãe – responde Beatriz colocando os talheres em seu prato — Pelo menos poderei ajudar com as despesas e comprar o que eu quero. Comprar roupas...
— Quer dizer que você não tem o suficiente? – questiona Hugo largando seu talher — Você acabou de trocar todo o seu guarda roupa.
— Mas isso eu só consigo fazer a cada um ano – argumenta Beatriz — E tem muitas peças que saem de moda em meses. Eu quero ter meu dinheiro para aumentar a frequência da troca do meu guarda roupa.
— Eu queria ser Analista Sênior, mas como pode ver, não podemos ter tudo o que queremos –satiriza Hugo — Isso para mim se chama futilidade.
— Muito obrigada Hugo, por achar que eu sou fútil – reage Beatriz — Quando morrer você será canonizado.
— Mas é a minha opinião – defende-se Hugo.
— A minha opinião é que você é mão de vaca, avarento de marca maior – xinga Beatriz jogando o guardanapo no prato — Você me prometeu o mundo e não me deu nada. Quer saber, vou para casa da minha mãe.
****
Quatro anos antes...
— Por que toda vez em que eu me candidato a promoção, sua mãe começa a puxar meu tapete? – comenta Hugo deitado na cama.
— Aff, lá vem você culpar a minha mãe. Você sabe que a minha mãe não é a única que decide quem vai ser promovido – responde Beatriz ajeitando seu travesseiro.
— Mas ela faz a minha caveira – alega Hugo. Ele a encara — E seu pai já está nas últimas. Se for sua mãe quem ficará com tudo... Eu estarei perdido. Terei de procurar outro emprego.
— Vamos brigar mesmo por conta do seu achismo? – questiona Beatriz,irritada.
— Sim, vamos. Até você concordar que eu estou certo! – afirma Hugo.
— Quer saber? Vou dormir no quarto de hóspedes, pois estou sem disposição de agüentar essa sua birra – alega Beatriz se levantando da cama.
—Mas...
— Boa noite, Hugo – finaliza Beatriz fechando a porta.
****
— Por que, Beatriz? Por que raios você deu a representatividade de suas ações para sua mãe? – questiona Hugo entrando com Beatriz em casa — Agora eu nunca vou crescer dentro da empresa.
— O que você queria? – pergunta Beatriz, irritada — Me diz o que queria que eu fizesse?
— Não sei... Contratasse alguém – sugere Hugo erguendo os ombros.
— Por que você não diz a verdade: Você queria me representar! – acusa Beatriz, brava.
— Não seria uma má ideia – responde Hugo, pensativo — Eu sou seu marido e estou sustentando essa casa, sozinho. Achei que tivesse consideração por mim.
— Minha mãe me avisou disso. Você está ficando ambicioso demais – afirma Beatriz abrindo a porta do quarto.
— Eu? E quanto a sua mãe? – pergunta Hugo andando atrás dela — Eu sou sempre o único que não presta por aqui.
— Nossa, tadinho de você. Um rapaz humilde – provoca Beatriz antes de entrar no closet.
— Chega! – esbraveja Hugo jogando o abajur em direção a porta do closet . Observa sua mulher voltar em choque diante da tamanha violência que acabara de presenciar e então percebe que passou de todos os limites. Ele abaixa a cabeça, pedindo — Desculpe-me , Bibi... eu não queria...
— Você jogou um abajur em mim? – questiona Beatriz caminhando em direção ao marido, transtornada.
— Não foi em você, eu queria acertar a parede... Desculpe-me – pede Hugo mais uma vez.
— Vá embora da MINHA casa, agora! – ordena Beatriz
****
Um ano antes...
Hugo entra em casa e joga as chaves no aparador. Ele tira a gravata e joga no chão, indicando ser mais um dia difícil no serviço. Ele entra no quarto e Bia está terminando de passar o hidratante em seus braços para dormir sentada de frente para a penteadeira. Ela o encara pelo espelho, nervosa.
— Então, como foi? – pergunta Beatriz.
— Como você acha que foi?
— Acho que você conseguiu finalmente sua vaga no conselho e agora podemos finalmente viajar para qualquer lugar, sem você reclamar que estamos gastando dinheiro com bobagem. –responde Bibi sem muito ânimo.
— Eu não consegui a vaga – revela Hugo parando atrás de Beatriz. Ele toca no pescoço da esposa— O voto da sua mãe foi decisivo e mais uma vez fui boicotado… Como sempre.
— Não é como sempre – corrige Beatriz encarando o marido pelo espelho — Ela ainda está sofrendo com a perda de papai.
— Você pode dar todas as desculpas que quiser a ela – alega Hugo, sério — Só o que eu quero entender como você teve a coragem de aceitar que o voto dela fosse contra mim. Antes que minta, saiba que ela contou a todos, que você não me quer no Conselho. Seja sincera: Por que você fez isso? Por que não me quer no Conselho?
— Eu não acho que esteja preparado para o cargo – responde Beatriz, nervosa se levantando da cadeira — Por isso que meu voto, representado pela minha mãe foi contra.
— Eu não estou preparado? EU? Eu, Hugo, seu marido, não estou preparado? – questiona Hugo, nervoso — Você esqueceu o quanto eu venho trabalhando por aquela empresa. Se ela está crescendo foi graças aos meus planejamentos estratégicos funcionarem! Você melhor que ninguém sabe disso. Eu passei os últimos anos dentro da minha sala, sempre pensando no que era melhor para o grupo. Deixei de sair com você, com o pessoal da firma, de relaxar... Tudo, eu deixei tudo em prol da firma. E você me diz que eu não estou preparado?
— Eu sei que fez tudo isso, mas se você fosse escolhido, iria ficar mais preso à empresa do que já está – argumenta Beatriz, nervosa —Gostaria de ver você mais em casa e isso também pesou para que eu fosse contra.
— Você só pode estar brincando, não é? – questiona Hugo, transtornado. Ele passa a mão no rosto e continua dizendo — Me diz o que eu faria se ficasse em casa? Aposto que não sabe, mas eu sei. Ficaria sozinho, assistindo televisão ou qualquer coisa do gênero, enquanto você estaria andando com a sua mãe atrás de algum projeto social. Então me diz por que eu deveria ficar em casa?
— Para relaxar – responde Beatriz, intimidada — Eu ficaria aqui com você... O máximo que eu pudesse.
— Mas eu não quero ficar em casa! – rebate Hugo — Eu quero trabalhar e sei que estou preparado para aquele cargo
. — Mas a mamãe me disse que você não está indo tão bem... Como diz para mim – argumenta Beatriz.
— Lógico... Tinha que ter o dedo dela por aqui – Hugo, sarcástico.
— Olha, eu não vou à empresa, então não tenho como saber – defende-se Beatriz — O jeito é confiar no que a minha mãe me diz.
— Quer dizer que você prefere confiar na sua mãe a mim? – explode Hugo jogando os porta-retratos no chão — Quer dizer que prefere confiar em uma mulher que fez de tudo para nos afastar a confiar em mim, seu marido? Nós estamos juntos há pelo menos 13 anos e você me diz que sua mãe tem razão a meu respeito... – Ele se aproxima de Beatriz e pergunta — Você confia em mim?
— Confio... Claro que confio Hugo que pergunta é essa? – questiona Beatriz, nervosa — Eu sempre confiei em você...
— Mas não o bastante para votar a meu favor, não é? – questiona Hugo. Ele toca a camisola de Beatriz — Para estar ao meu lado... Para me amar, como eu te amo...
— Eu confio em você... Eu me casei com você – rebate Beatriz tocando na mão dele fazendo-o parar.
— Mas eu nunca serei bom o bastante... – encosta a testa na de Beatriz — Nunca chegarei aos seus pés... Ou ao tipo de cara que você imaginou que eu seria... Que amaria...
— Isso não é verdade... Eu amo você – Beatriz tocando o rosto de Hugo.
— Ama mesmo? – pergunta Hugo, sério.
— Sim – responde Beatriz.
— Então prove – desafia a empurrando devagar — Me dê um filho.
— Se isso o fará ficar mais em casa... – responde Beatriz — E desistir de batalhar pelo cargo e ficar em casa, te darei o filho que deseja.
— Eu não consegui o cargo... Então quero começar a tentar ter esse filho, agora – conclui segurando a Beatriz pelos braços e a conduzindo para a cama de costas.
— Agora? – pergunta Beatriz — Agora eu não estou no clima. Vamos deixar para depois...
— Eu cansei de deixar para depois, será agora – determina Hugo apertando o braço de Beatriz — Eu quero agora.
— Calma Hugo, não é assim. Eu não quero agora, você está me machucando.
— É assim – Hugo a empurrando e pulando em cima dela — Eu cansei de esperar por você e das suas desculpas. Agora eu quero e vou ter o que eu quero. Doa em quem doer.
— Me solta – pede Beatriz, nervosa tentando se levantar — Sai de cima de mim, Hugo. Tá me assustando...
— Não! – recusa Hugo levantando a camisola de Beatriz — Só vou sair daqui quando eu quiser. Cansei de aceitar tudo o que você quer, agora é a minha vez.
— Para, Hugo! Sai de cima de mim! Me solta!!! Para com isso!!! – grita Beatriz, desesperada — Como você ousa? Me solta!!! Seu monstro!!!! EU odeio você!!! Odeio você!!! Me solta!
— Sabia – comenta Hugo se levantando, deixando Beatriz, confusa— Sabia que era isso que você sentia... Era só pressionar você mais um pouco que a verdade iria aparecer –ele se levanta e vai em direção ao banheiro. Beatriz senta na cama — O nosso casamento acabou, hoje.
****
Vidros e retratos quebrados, roupas pelo chão e um silêncio quase absoluto no quarto. Pode-se dizer que um furacão passou por ali. O cenário veio se repetindo com maior frequência durante os últimos meses e já não espantava mais os vizinhos e nem os moradores.
Aliás, os moradores estão presentes na cena caótica, cansados e pensativos. Beatriz está sentada na cama de cabeça baixa e Hugo está próximo à porta do banheiro, encostado, com seus olhos fechados.
Outrora aquele cenário significava mais uma incrível e tórrida noite de amor, mas agora representa somente o ódio de ambos.
— Eu quero o divórcio… Eu preciso do divórcio… Eu preciso viver novamente – comenta Hugo, quebrando o silêncio. Ele decide se aproximar daquela mulher com quem a pouco tivera uma briga terrível. Ajoelha-se na frente dela e olha fixamente em seu rosto...
Fale com o autor