A Chance
26 Capítulo 25
Beatriz terminava seu café da manhã na sala de jantar, quando Sônia chegou ao apartamento. Ela dá um sorriso para amiga que está sentada.
— Bom dia – cumprimenta Sônia dando um beijo na bochecha de Beatriz.
— Bom dia, Sô – Beatriz apontando para a cadeira ao lado — Como você está?
— Estou bem – responde Sônia, sentando na cadeira de madeira — Desculpe-me não ter vindo aqui antes,mas estou terminando de decorar minha casa e está uma loucura.
— Tudo bem, eu tenho certeza que ficará um luxo – comenta Beatriz sorrindo — Se precisar de ajuda, pode contar comigo.
— Justamente por isso que eu vim até aqui: Gostaria de contratar os seus serviços, aceita? – pergunta Sônia, animada.
— Tudo bem, mas não precisa me contratar. Eu realmente preciso praticar o que estou aprendendo no curso e fazer isso para você será um prazer – explica Bee, sorrindo. Então ela fica séria e pergunta — E o Jorge, mudou de opinião a respeito de ajudar o Hugo?
— Não. Na verdade, ele está com sérios problemas no serviço... Ele não me falou muito, mas ao que tudo indica, seu chefe está de perseguição – responde Sônia servindo o suco de morango.
— Você não acha estranho... –começa Beatriz bem devagar — Ele se recusar a ver o Hugo? Ou ao menos ligar para ver como está o amigo?
— Eu acho sim, Bibi. Tanto que farei de tudo para que ele visite o Hugo lá no hospital. – responde Sônia limpando os lábios no guardanapo.
— Não vai encontrar ninguém lá – Hugo entrando passando pela mesa de camiseta cinza e samba calção azul-escuro.
Sônia encara Beatriz, perplexa, enquanto Hugo vai em direção à cozinha. Assim que ele sai da sala, Sô dá um empurrão no braço da amiga.
— O que ele está fazendo aqui? – sussurra Sônia com os olhos arregalados — Você não me disse que ele iria para a casa da Lúcia?
— Ele ia– responde Beatriz, baixo. Ela conta para amiga à conversa que teve com o Hugo — Então eu acabei cedendo. Eu concordo com ele, mas isso é apenas para ajudá-lo, nada mais.
— Tem certeza que ele perdeu a memória? – questiona Sônia sussurrando.
— Ele elogiou a minha mãe ontem – responde Beatriz no mesmo tom, erguendo os ombros.
— Isso não prova muita coisa – alega Sônia sussurrando.
— De qualquer forma, hoje virá uma psicóloga avaliar o caso dele – revela Beatirz olhando em direção a porta– Shhhh, ele está vindo.
— Bom dia – cumprimenta Hugo com um copo na mão sentando à frente de Sônia.
— Bom dia, Hugo. Acho que você não vai se lembrar, essa é a... – Beatriz apontando para a Sônia que está com a mão erguida.
— Não me apresente Bibi. Ele deve se lembrar de mim – interrompe Sônia desafiando Hugo — Não é mesmo, Hugo?
— Pelo tom dos cabelos, você deve ser Fernanda Monte Negro, ou a Ferrugem. Acertei? – Hugo mostrando uma leve irritação.
— Sim. Meu nome é Sônia – responde a ruiva, intimidada — Desculpe-me, eu só queria ter certeza...
— Que eu não estou mentindo sobre a minha perda de memória – completa Hugo com a expressão séria — Você não confia em mim, mesmo com o passar dos anos... Isso me mostra que eu devo ter sido um canalha todo esse tempo.
— Hugo, desculpa. Eu confio em você,mas é estranho que tenha perdido justamente os anos em que passou com a Beatriz –defende-se Sônia gesticulando com as mãos — Eu não sou mais aquela garota que você conheceu. A gente conversou e nos acertamos. Eu até sou casada com um amigo seu, graças a você.
— Qual amigo? – pergunta Hugo arqueando a sobrancelha, parecendo não acreditar naquela conversa.
— O Jorge. Vocês são amigos há anos – responde Sônia sorrindo.
— Não se lembrará dele, Hugo, pois vocês foram amigos na faculdade – informa Beatriz.
— Tudo bem. Eu fiz faculdade, então? – pergunta Hugo, curioso.
— Sim, mas vamos deixar as recordações para quando a psicóloga chegar – propõe Beatriz.
— Tudo bem – responde Hugo, conformado. Ele pega um dos pães da cesta e corta. Fica incomodado com os olhares das duas mulheres— Eu vou comer no quarto,pois não estou acostumado a comer com pessoas me olhando.
— Pode ficar aqui – pede Beatriz se levantando — Eu vou conversar um pouco com a Sônia na sala de estar a respeito de sua casa nova. Coma à vontade.
— Obrigado – agradece Hugo dando um sorriso tímido.
Sônia acompanha Beatriz com o rosto intrigado, incomodando a Beatriz.
— Diga logo – Beatriz andando — Seus olhos estão quase saltando do seu rosto.
— É impressão minha, ou o Hugo está diferente? – pergunta Sônia apontando para a mesa.
— Eu também notei isso – admite Beatriz — Ele parece realmente como era antes.
— Ele realmente parece ter perdido a memória –comenta Sônia, conformada.
— Eu só terei certeza mais tarde, com a chegada da psicóloga. – responde Beatriz, pensativa — Bom, preciso saber de todos os detalhes da sua casa. Se precisar de ajuda, conte comigo.
****
Hugo senta no sofá ao lado de Beatriz, nervoso com a visita da psicóloga. A mesma pediu que a sessões fossem feitas na residência de Beatriz, para que o ambiente fosse o mais confortável possível.
— Tem certeza que ela vem? – Hugo pela décima vez em meia hora.
— Sim – responde Beatriz sorrindo.
— Qual o nome dela?
— Manuela – responde Beatriz olhando para Hugo. Ela toca em seu ombro— A Antonieta disse que ela se interessou muito pelo seu caso e já realizou diversas pesquisas a respeito da amnésia retrógrada ser apenas um bloqueio emocional.
— Dona Beatriz – Leninha entrando na sala. Beatriz afasta sua mão de Hugo, encarando a empregada. — A Doutora Manuela chegou.
— Pode trazê-la a sala, por gentileza – pede Beatriz sorrindo. Ela olha para Hugo e comenta — Vai dar tudo certo.
Em poucos minutos a psicóloga aparece na sala. Aparenta ser mais jovem que Beatriz, seus cabelos negros estão arrumados em um coque , usa uma blusa amarela, combinando com a calça social preta. Ela sorri , estendendo a mão em direção aos dois.
— É um enorme prazer conhecê-los – diz Manuela, cativante.
— O prazo é nosso – responde Beatriz cumprimentando a psicóloga. Ela indica a poltrona — Por favor, sente-se.
— Obrigada – agradece Manuela sentando. Ela entrelaça os dedos e continua — Eu gostaria de iniciar a nossa sessão explicando como será o meu trabalho com relação ao Hugo. Estudei seu caso minuciosamente e percebi que nos últimos meses, você sofreu algumas mudanças trágicas. O que indica que a sua amnésia pode ter sido causada por um bloqueio emocional. Dito isso, iremos trabalhar da seguinte forma: A cada sessão iremos analisar as lembranças que as pessoas próximas possuem de você. No caso, a única pessoa é a Beatriz, certo? — pergunta, esperando um aceno positivo que veio logo em seguida. Ela continua — Beatriz contará todos os detalhes,por isso peço que seja da forma mais imparcial possível, de todos os fatos desses anos em que esteve com você. Depois, sugiro que outras pessoas também participem dessas sessões. Ao final de cada sessão, trabalharei todas as emoções de Hugo e a forma de lidar com elas. Espero que isso ajude a recuperar sua memória. Alguma dúvida, antes de prosseguirmos?
— Não – responde o ex- casal.
— Ótimo – pega um caderno e uma caneta – Farei algumas perguntas antes de começarmos. Eu gostaria de saber quais são as últimas lembranças que possui?
— Eu me lembro da virada, de ter beijado a Beatriz e ter ficado feliz por isso – Hugo, nervoso — Lembro-me de ter ido para casa, dado um beijo na minha mãe que assistia televisão e ido dormir, pois trabalhava aquele dia. E depois eu acordei no hospital com a Lúcia que é minha atual ...namorada, eu acho... segurando a minha mão...
— Certo – Manuela anotando. Ela encara o Hugo e pergunta — Como reagiu a isso?
— Eu fugi e acabei encontrando a Beatriz. Eu me senti aliviado por encontrar com ela.
— Muito bem – Manuela apontando para Beatriz — Você sabe que foram casados?
— Sim – responde Hugo que encara Beatriz e sorri — Ela quem me contou.
— Beatriz, espero que esteja pronta para as sessões – informa Manuela encarando Bia — Vou precisar de todos os detalhes que puder lembrar, e que seja imparcial. Será cansativo. Quando não quiser falar, peço que me avise antes.
— Tudo bem. Estou me consultando com uma psicóloga para lidar com a situação – responde Beatriz.
— Muito bom – elogia Manuela sorrindo — Então, vamos começar a sessão. Beatriz comece me contando quando foi que voltaram a se ver.
— Dois meses após o ano novo, na faculdade. Eu estava... –começa Beatriz se lembrando daquele ano.
****
Catorze anos antes...
Bruno Gouvêa come tranquilamente seu jantar, apesar da discussão intensa na cozinha. Tem trinta e nove anos, cabelos castanhos e olhos da mesma cor. Veste uma camisa cinza e bermuda preta, além das suas famosas sandálias de couro, com as quais ia até mesmo ao serviço.
— Isso é um absurdo! – grita Beatriz voltando para a sala de jantar, onde está Bruno — Pai, fala para ela que esse não era o combinado! Ela disse que me deixaria ir à Paris, estudar. Ela disse que se eu conseguisse entrar na federal, poderia ir.
— Você vai – admite Miranda aparecendo ao lado da filha. Ela cruza os braços e a encara — Mas só após se formar em administração – ela se vira para o marido — Diga a ela que foi isso o que eu disse.
— Bia... – começa Bruno levantando a mão — Sua mãe está certa...
— Não era isso! Por que me iludiram se no final, eu não irei fazer o que quero?
— Não te enganamos, Bia – repreende o pai — O combinado era que fizesse primeiro a faculdade aqui no Brasil e depois onde você quiser.
— Mas eu já tinha combinado com a Sônia. Ela vai agora... Já tínhamos visto apartamento – argumenta Beatriz, desesperada.
— Você não vai – finaliza Miranda — Só quando terminar a faculdade.
— Daqui a quatro anos! Quatro anos! Muita coisa pode acontecer em quatro anos... – tenta argumentar Beatriz a seu pai — Eu posso morrer amanhã, ou na metade da faculdade. Vai me deixar morrer sem fazer o que desejo?
— Então é melhor ficar em casa para evitar que isso aconteça – responde Miranda sentando ao lado do marido.
— Filha, eu desejo que siga seus sonhos – afirma Bruno, afetuoso — Porém, você conseguiu o que muitos passam anos tentando: entrou em uma excelente faculdade. Quatro anos passam rápido e quando perceber estará em Paris com sua amiga. Eu preciso que esteja pronta para assumir os negócios da família. Assim que estiver formada, fará o que quiser.
— Tudo bem – concorda Beatriz, contrariada. Ela cruza os braços e avisa , tentando não chorar — Vou para o meu quarto.
— Bia – chama Bruno ao ver a filha correndo.
— Deixa, querido – Miranda segurando na mão dele — Ela precisa aprender que nada é do jeito que queremos.
— Será mesmo que ela precisa? – questiona Bruno.
— Sim, nós sabemos o que é melhor para ela. – garante Miranda.
****
Beatriz está rasgando as imagens que tem de Paris pregadas no Mural, quando Sônia entra no quarto. A ruiva abraça a amiga que chora desesperada.
— Vai ficar tudo bem, Bia – Sônia consolando — Vai passar rápido.
— Não vai... Ela não pode fazer isso – Bia, chateada, se afastando da amiga — Os nossos planos foram por água baixo.
— Se você quiser... Eu não vou – Sônia sentando na cama — Faço faculdade aqui até você terminar a sua.
— Não será justo com você – Beatriz sentando ao lado da amiga — Você tem que perseguir os nossos sonhos. Vá para a faculdade de Moda, consiga um estágio com Giorgio Armanni, seja feliz em Paris. Por mim.
— Tudo bem – Sônia segurando a mão da amiga — Sabe quem ficará triste também?
— Quem? –pergunta Beatriz limpando o rosto.
— Flávio. Ele estava ansioso, esperando que você fosse – responde Sônia, despretensiosa.
— Somos dois... Como ele está? – pergunta Beatriz segurando seu urso roxo.
— Ele está solteiro – responde Sônia se apoiando nos cotovelos — Se é o que quer saber.
— Humm... Legal – murmura Beatriz — Pena que não será por muito tempo.
— Por que acha isso? – pergunta a ruiva franzindo a testa.
— Porque... Eu vou ter de esperar quatro anos para ir à França... Até lá ele estará com outra pessoa. Sem contar que eu já nem sei mais se é o que eu quero.
— Ele já te pediu desculpas pelo o que houve no ano novo. Sei lá... Supera isso.
— Eu já superei... Mas vai que ele é desse jeito, não conseguiria namorar um cara assim. Aliás, é melhor eu parar de pensar nisso, não vai acontecer.
— Tudo bem. Seu pai deixou que eu ficasse aqui hoje, para o desespero da sua mãe – Sônia mexendo os ombros — Vamos fazer o seguinte – continua Sônia segurando o travesseiro — Vamos tomar um pote de sorvete, assistir uns filmes, fazer guerra de travesseiro, fofocar e dormir.
— Eu vou sentir sua falta, Sô – responde Beatriz triste — Você é a minha melhor amiga.
— Eu também, mas passará rápido – garante Sônia — Eu sempre voltarei para te ver... Agora chega de tristeza — Ela segura o travesseiro e bate na cara de Bia — GUERRA DE TRAVESSEIROS!!!!
— Você me paga! – grita Beatriz rindo pegando outro travesseiro. Ela sai correndo pelo quarto atrás de Sônia, sua única amiga.
****
A Calourada da universidade está fervendo, a tradicional festa de boas vindas aos calouros. Todos estão animados, conversando uns com os outros, menos Beatriz que anda pela festa cabisbaixa. Sem sua melhor amiga, aquele evento parecia sem sentido. Ela pega mais uma lata de refrigerante no bar improvisado e observa a multidão. Ali naquele meio, estão as pessoas que farão parte da sua vida por quatro anos. “Será que farei amigos?”
Bia anda calmamente em direção à saída, já está ali há uma hora, tempo suficiente para ela. Enquanto está divagando em seus pensamentos, não percebe que um rapaz a segue. Ela já está na porta quando ele toca em seu ombro.
— Oi, gatinha – diz o rapaz de camiseta do Ramones. Ele a encurrala entre a porta e seu corpo, tocando em seus cabelos presos em rabo de cavalo — Para onde você vai?
— Para casa – reponde Beatriz, ríspida. Ela tira a mão dele do seu cabelo — Você pode me deixar sair?
— Você nem conheceu a galera. Fica mais um pouco –pede fazendo cara de coitado. Ele estende a mão e diz — Meu nome é Jorge.
— Beatriz – responde ela,mas sem tocar na mão dele — Agora que já nos conhecemos, eu posso ir?
— Deixe-a , Jorge.
— Certo, Hugo – concorda Jorge se afastando com as mãos para cima.
— Como você está Bia? – pergunta Hugo. Ele está com uma camiseta preta, calça jeans, seus cabelos estão maiores e sua barba mal feita.
— Oi, Hugo! – Beatriz aliviada com a presença dele — Estou bem e você?
— Estou bem... Desculpa pelo Jorge. Ele é um cara legal... Até beber –Hugo sem graça.
— Tudo bem. – diz Beatriz segurando na maçaneta da porta — Um prazer te ver novamente.
— Você já está indo? — pergunta Hugo, sério.
— Sim... Essa não é bem a minha turma – responde Bia tentando se justificar — Quero dizer... Eu não achei quem é do meu curso.
— Qual teu curso?
— Administração, diurno – responde Beatriz segurando seu próprio braço, nervosa.
— Eu também – Hugo sorrindo — Somos colegas de sala!
— Que ótimo! – exclama Beatriz alegre — Bom...
— Vamos andar um pouco...? – pede Hugo.
— Eu estou um pouco cansada – recusa Beatriz — Mas eu fico te devendo...
— Okay... – concorda Hugo levantando os braços — Até.
— Até – despede-se Beatriz abrindo a porta. Hesita alguns instantes, não quer mais ir embora.
Ela se vira e corre até Hugo que caminha tranquilamente, segura em seu braço e sorri.
— Adoraria caminhar com você – comenta Beatriz sorrindo.
— Eu fico feliz em saber – Hugo retribuindo o sorriso.
****
Hugo é o tipo de pessoa mais improvável a entrar na vida de Beatriz. Ele mora na zona Oeste, onde vive com sua mãe e um salário mínimo. Tem uma bicicleta, mas para chegar à faculdade, anda de trem e metrô, a usando para percorrer os últimos metros que faltam. Usa o cabelo comprido até perto do ombro e não faz a barba, se sua mãe o visse, o chamaria de marginal.
Apesar de sua aparência, é um dos melhores alunos da sala. Suas notas são sempre referência para os professores, ao contrário de Beatriz que já se conforma com as dependências, podendo extrapolar os quatro anos, além da punição, que será dada pela sua mãe, de não ver a Sônia nas férias. Foi pensando em tudo isso que ela teve uma idéia: pedir para Hugo ensiná-la.
Bia senta na mesa ao lado com sua prova de TGA e suspira, fazendo Hugo encará-la.
— Tudo bem? – pergunta ele, tirando os fones do ouvido.
— Não... – ela olhando para o 2,5 que tirou — No pé em que estou indo, nem o exame vai me salvar.
— Bom... Ainda dá para fazer algo – comenta os rapaz sorrindo — Só se dedicar mais, suas notas ficarão melhores.
— Isso é fácil para você que gosta disso – resmunga Beatriz colocando uma das mãos na cabeça.
— Achei que gostasse do curso – comenta Hugo, curioso.
— Se enganou... Eu faço porque meus pais me obrigaram – confessa Beatriz olhando para o Hugo. Arruma os cabelos soltos e diz — Eu fiz um acordo com eles: Se eu terminar a faculdade, posso fazer o que quiser.
— O que você quer? – pergunta Hugo.
— Bom... Eu e a minha amiga combinamos de ir à Paris. Ela faria Moda e eu, Belas Artes – revela Beatriz sorrindo. Ela respira fundo e diz — Agora isso é passado. Com essas notas, tenho sorte se conseguir sair de casa.
— Eu sinto muito – Hugo, compadecido — Se eu pudesse te ajudar em algo...
— E pode – admite Beatriz, animada. Ela gira seu corpo na cadeira, em direção ao Hugo e pede — Ajude-me a passar nas matérias.
— Tudo bem – concorda Hugo sorrindo.
— Eu pago você – Beatriz tentando convencê-lo.
—Eu não preciso do seu dinheiro – responde Hugo, sério.
— Vai me ajudar, sem pedir nada em troca?– questiona Beatriz, desconfiada.
— Farei em troca do prazer da sua companhia – Hugo com um sorriso de canto. Ele estende a mão e diz —Feito?
— Feito – responde Beatriz apertando a mão dele.
****
Estudar com o Hugo é divertido, pelo menos até a parte em que a mãe de Bia não está vigiando. Os dois combinaram que seria mais fácil estudarem na casa dela, assim os pais de Beatriz não seriam contra. Sem contar a mentira que a jovem contou, dizendo que Hugo é quem tem dificuldade nas disciplinas. A paixão que Hugo demonstra pelas matérias, fez com que Beatriz entendesse mais o assunto, além de fazer com que as semanas voassem.
Beatriz já está ansiosa esperando sair o resultado das últimas provas no mural, quando Hugo aparece com cara de poucos amigos. Ele acena com a cabeça e para ao lado dela. Em poucos minutos o professor prega as notas, fazendo com que todos da sala deles se aglomerassem.
Com muita dificuldade, Beatriz consegue ficar próxima ao mural. Desliza seu dedo devagar até encontrar seu nome, respira fundo e vai até a nota final. Um sorriso invade seu rosto: Passou. Ao seu redor, muitos riam, outros ficam decepcionados. Ela tenta localizar Hugo no meio do pessoal, sem sucesso. Então decide esperá-lo no portão de acesso.
Hugo passa com sua bicicleta sem notar a presença de Beatriz. Ele está com os fones de ouvidos, camiseta do curso, calça jeans e tênis. Sua expressão é a mesma de antes, chamando atenção de Bia que decide ir atrás dele.
— Hugo! – chama Beatriz encostando sua mão no ombro dele —Espera!
— Oi... –Hugo diminuindo a passada — Não percebi que estava aí.
— Eu vi. Quero agradecer... Por ter me ajudado a passar.
— Fico feliz que tenha conseguido – responde Hugo, com a expressão triste.
— Nossa... Dá para ver que está feliz por mim – brinca Beatriz, sem sucesso. Ela entra na frente da bicicleta de Hugo e pergunta — Está tudo bem? Você bombou nas disciplinas? Olhe, se foi por minha causa, eu sinto muito.
— Eu passei em todas, não se preocupe –Hugo encarando Beatriz — Não é nada demais. Será que você pode sair da frente, pois vou acabar perdendo o metrô e depois o trem.
— Tudo bem – Beatriz tirando o corpo da frente. Ela volta a caminhar ao lado dele — Mas vou com você.
— Sua mãe vai pirar – Hugo, contrariado — Vá para casa, eu estou bem.
— Eu não acredito – ela, determinada — Eu só vou para casa quando você me contar o que está acontecendo.
— Então vai conhecer a Zona Oeste – comenta Hugo, irritado. Ele para de andar e respira fundo — Sério, Beatriz, não está acontecendo nada.
— Eu... Não... Acredito... Em... Você – Beatriz pausadamente. Ela segura no braço dele — Você não é assim. Você é legal, engraçado, fica cantando aquelas músicas horrível do Nirvana e tem um belo sorriso... Que não apareceu no seu rosto hoje. Eu te peço que me diga o que foi que aconteceu.
— De que adiantaria te contar? – pergunta Hugo, sério — Você não poderá me ajudar.
— Mas eu posso te ouvir... Duas cabeças pensam melhores que uma – alega Beatriz mexendo com os ombros.
— Eu vou trancar a faculdade – murmura Hugo — E não sei quando poderei voltar.
— Por que fará isso? – pergunta Beatriz, preocupada.
— Porque preciso trabalhar, fica difícil atravessar a cidade para estudar e depois ir trabalhar. E só a minha mãe não está dando conta das despesas.
— Já tentou conseguir um estágio? – pergunta Beatriz arrumando o cabelo.
— Já... – Hugo balançando a cabeça — Os da zona sul querem alguém que more na região e os da zona oeste, batem com o horário da faculdade. Emprego, a mesma coisa.
— Olha... – Beatriz mordendo os lábios — Meu pai abre estágios nas férias e conforme o desempenho da pessoa, ele contrata. Se eu explicar sua situação...
— Não quero – recusa Hugo, ríspido — Eu não quero favor. Eu já decidi que vou trancar.
— Mas, se eu falar com ele... – argumenta Beatriz.
— EU NÃO QUERO FAVOR DE NINGUÉM! – explode Hugo, assustando Beatriz. Ele joga a bicicleta, a abraça e diz — Desculpe-me, eu só não quero piedade das outras pessoas... Quero conquistar as minhas coisas – ele se afasta de Bia e pega a bicicleta de volta — Preciso ir.
Beatriz fica parada observando a silhueta de Hugo virar a esquina em direção à estação. Por mais que ele tenha dito não, ela sabe que Hugo precisa de ajuda.
****
Leninha coloca a travessa de guisado na mesa, fazendo Bruno respirar fundo, desejando a refeição. Miranda sorri com o gesto enquanto Beatriz está pensativa. Não consegue parar de pensar em Hugo que apesar de ser tão dedicado, suas condições não permitem que ele continue o curso.
— Um centavo por seus pensamentos – Bruno interrompendo o olhar perdido de Beatriz — Então, posso te colocar no programa de verão?
— Pode, eu passei em tudo – responde Beatriz, nervosa.
— E o seu amigo? – pergunta Miranda com descaso — Conseguiu?
— Sim – responde Bia, cabisbaixa.
— O que foi, querida? – pergunta Bruno, preocupado.
— O Hugo vai trancar a faculdade. Está sendo difícil para ele conciliar o curso com sua vida pessoal – responde Beatriz mexendo no prato.
— Uma pena... – comenta Bruno.
— Uma pena mesmo, mas talvez não fosse para ele fazer a faculdade – Miranda tomando um gole de vinho — Ele já não estava indo bem nas matérias... Imagina se trabalhasse.
— Na verdade, ele foi bem. Só que é apenas a mãe dele quem sustenta a casa e isso tem atrapalhado – defende Beatriz. Ela olha para seu pai e propõe — Eu gostaria de saber se ele pode fazer parte do programa de estágio?
— Para quê? – questiona Miranda, demonstrando uma leve irritação — A empresa não é uma ONG. Não fazemos caridade.
— Não seria caridade. Ele iria trabalhar como qualquer um –Beatriz. Ela olha para o pai dela — Ele seria melhor do que eu.
— Eu duvido – Miranda olhando para a filha —Ele veio pedir ajuda a você para passar e agora está pedindo um estágio. Qual será o próximo passo dele?
— Ele não pediu, sou eu quem está fazendo isso, por conta própria –defende Beatriz, irritada.
— Se ele não quer... – Miranda limpando os lábios com o guardanapo — Não vejo por qual razão, estamos discutindo esse assunto e estragando o jantar.
— Vida... – repreende Bruno para Miranda — A nossa filha só quer ajudar o amigo.
— Ela já o ajudou, dando aulas particulares –Miranda mexendo em seu prato.
— Eu menti – confessa Beatriz — Fui eu quem estava precisando de ajuda e o Hugo decidiu me ajudar . Aliás, ele é um ótimo aluno, o melhor da nossa turma. Papai, por favor, dê uma chance a ele.
— Mas você disse que ele não queria ajuda – Bruno coçando a cabeça — Se ele ao menos demonstrar interesse...
— Eu falarei com ele e o convencerei – garante Beatriz, determinada.
— Peça ele para aparecer em meu escritório no começo da semana – sugere Bruno sob o olhar de reprovação de Miranda — E você também, mocinha.
— Obrigada, papai – agradece Beatriz sorridente beijando seu pai por toda a face.
Agora falta convencer o Hugo.
****
Beatriz anda de um lado para o outro na sala de aula, está com medo da reação de Hugo, mas ao mesmo tempo, se convence de que fez a coisa certa. Ela fecha os olhos e sente alguém tocar seu ombro, ficando tensa com o toque. Gira seu corpo devagar, encontrando os olhos desanimados de Hugo.
— Oi – ele tentando sorrir — Desculpa por ontem.
— Ok... – fala Beatriz respirando ofegante — Na verdade, não te desculpo... Ou melhor, só desculpo com uma condição.
— E qual seria? – pergunta Hugo, curioso.
— Se você for à entrevista da empresa... Do meu pai – responde com dificuldade.
— O que foi que você fez? – pergunta o rapaz, nervoso.
— Nada – responde Beatriz sob o olhar desconfiado de Hugo — Tudo bem, eu falei com meu pai sobre sua situação e ele quer te entrevistar.
— Você pediu um favor para o seu pai... Não acredito nisso – Hugo, contrariado, passando a mão no rosto — Eu falei para você não fazer isso.
— Mas eu quero te ajudar. Olha, se você conseguir esse estágio, vai facilitar sua vida – argumenta Beatriz.
— Eu não quero favor! – exclama Hugo, irritado — Eu não quero que seu pai me contrate por pena. Eu não posso aceitar... Não dessa forma.
— E quem disse que meu pai vai te dar o estágio de mãos beijadas? – questiona Beatriz com raiva — Ele vai te dar a oportunidade de mostrar que é capaz, através da entrevista. Não tome isso como favor, mas sim um reconhecimento pelo que fez por mim.
— Não vou aceitar – recusa , sério, saindo da sala.
— Será que dá para você não ser tão cabeça dura? – pergunta Beatriz, exaltada — Todo mundo precisa de ajuda um dia, uma oportunidade. Estou tentando te ajudar, em troca do que fez por mim. Será que dá para você aceitar?
— O Jorge está vendo alguma coisa para mim... – revela Hugo virando. Ele olha para os olhos de Beatriz se revirando ao ouvir o nome de Jorge — Ei, ele já te pediu desculpas.
— Eu sei... Mas ele não deixou de ser um babaca – Beatriz, irritada —E onde seria esse emprego “maravilhoso”?
— Com um tio dele que é advogado. O Jorge vai estagiar lá também, já que é a área dele – responde Hugo ignorando a opinião de Beatriz.
— Quer dizer que o emprego que o Jorge te ofereceu não é visto como um favor, mas o meu sim? – questiona Beatriz, ofendida — Você é machista, por um acaso? Porque se for, nem precisa mais falar comigo.
— Não é isso... É só que – continua Hugo segurando os braços da Beatriz — Seus pais devem estar achando que estou me aproveitando de você. E pelo o que eu vi da sua mãe, isso vai acabar caindo sobre você.
— Eu não me importo – Beatriz erguendo os ombros. Ela fica séria— Eu só vou ficar muito chateada, se você não for à entrevista. Talvez, eu nunca mais fale com você.
— Vamos fazer o seguinte: Eu vou às duas entrevistas, o que me chamar primeiro, será a que eu aceitarei, está bem? – propõe Hugo — Eu te ligo assim que receber uma resposta. Pode ser assim?
— Pode – concorda Beatriz sorrindo.
— Vamos sentar, antes que o professor fique mais irritado –Hugo segurando no braço de Beatriz e sentando na terceira fileira.
****
Beatriz termina de roer sua última unha sentada na cama, quando finalmente seu telefone tocou. Aquela era a ligação que esperou a semana inteira. Atende rapidamente ao toque.
— Alô? Hugo? – pergunta Beatriz, ansiosa.
— Nossa... Obrigada pela consideração – resmunga Sônia do outro lado da linha.
— Oi .amiga, que saudade – Beatriz meio decepcionada.
— Oi, Dona Beatriz... Desculpe-me se não sou o queridinho do Hugo – Sônia, irritada.
— Desculpa amiga é que ele ficou de me ligar... – explica Beatriz — Ele foi a uma entrevista na empresa do meu pai... Eu te contei...
— Sim, me contou isso umas cinco vezes – Sônia, ainda irritada — Olha... Eu estou te ligando para avisar que não irei mais para o Brasil esse mês.
— Por quê? Olha se foi por minha causa, eu sinto muito. Não fiz por mal... – Beatriz, nervosa.
— Não, tolinha. Eu não irei, pois minha tia Georgiana me convidou para passar as férias em Cambridge. Aliás, é onde estou nesse exato momento – revela Sônia, feliz.
— Não brinca... – Beatriz, decepcionada — Eu achei que nós iríamos passar as férias juntas. Eu já tinha feito uma programação... – finaliza Beatriz olhando para o seu mural, onde está fixada uma folha de papel sulfite escrita CRONOGRAMA.
— Eu sei Bibi – Sônia — Mas é que a tia Gigio fez questão, vai me apresentar uns amigos dela que são da área da Moda. Dizem que no jantar de amanhã, vou conhecer Domenico Dolce e Stefano Gabbana.
— Legal... –Beatriz, desanimada — Fico feliz por você.
— Eu sei que não está agora, mas quando eu tiver minha própria grife você receberá todas as peças exclusivas – promete Sônia.
— Espero que cumpra – comenta Bia.
— E quando foi que não cumpri uma promessa? – questiona Sônia.
— Hoje – responde Bia.
— Okay... Mas foi por uma boa causa. – responde Sônia.
— Tudo bem – Beatriz. Ela morde os lábios antes de fazer a pergunta que a está corroendo por dentro — Como estão às coisas por aí?
— O Edward está lindo... quem dera ele olhasse para mim – suspira Sônia.
— Vocês são primos, Sô – lembra Beatriz.
— Dizem que primo não é parente – retruca Sônia, fingindo irritação. — Se ele não fosse meu primo...
— Mas ele é – rebate Beatriz. Ela respira e reforça — Como estão às coisas por aí?
— Humm... Anna é uma graça, você vai amar – responde Sônia.
— E o Flávio? – pergunta Beatriz finalmente.
— Sei lá, está bem... – responde Sônia vagamente. Ela fica em silêncio por alguns instantes e então continua — Acho que você deveria se desencanar dele.
— O que foi ,Sônia? – pergunta Beatriz, preocupada.
—Eu escutei uma conversa da minha tia... – Sônia, nervosa —E,pelo que eu entendi, Flávio é prometido à filha de uma Duquesa desde que nasceu.Não deu para ouvir muito, pois estava com a Anna, mas assim que ele terminar a faculdade de ciências políticas, se casará com ela e será colocado na política.
— Ele sabe disso? – questiona Beatriz.
— Deve saber, ué – responde Sônia — O que eu sei é que você precisa abrir seus horizontes,pois o seu amor de infância não vai acontecer.
— Qual o nome da garota? – pergunta Beatriz.
— Jane... Janet... Algo assim – responde a ruiva — Sinto muito.
— Tudo bem – murmura Beatriz, tentando não chorar.
— Você tá bem?
— Ótima – responde Beatriz enxugando o rosto — Eu tenho que ir... Minha mãe está me chamando. Boa estadia na casa da sua tia. Saudades, Tchau.
— Bibi...? – Sônia sendo impedida pela batida do telefone na base.
Beatriz passa a mão na cabeça com aquela revelação. “Acabou agora acabou. Definitivamente, não era para ser”. O telefone toca novamente, mas Beatriz não atende. Toca mais uma vez, mais uma e depois da terceira tentativa, Beatriz atende.
— Sônia, eu não posso falar agora, Okay? Eu entendi que ele é impossível para mim –responde Beatriz.
— Humm... Tudo bem, mas eu te liguei porque tinha me pedido para avisar da entrevista – Hugo, confuso, do outro lado da linha.
— Ahh... Oi, Hugo. Desculpe-me. – pede Beatriz — Então, qual foi à notícia?
— Pelo visto... – comenta Hugo fazendo suspense — Vamos trabalhar juntos! Seu pai me ligou e disse que posso começar na segunda que vem.
— Isso é ótimo ! –Beatriz, tentando ficar feliz por Hugo.
— Quer conversar? – pergunta Hugo, preocupado.
— Hoje, não – responde Bia, triste.
— Tudo bem, mas se precisar de mim, só ligar – avisa Hugo — Eu vou desligar, se cuida.
— Você também – Beatriz desligando.
Ela se levanta e vai para cozinha pegar um copo d'agua. Está chegando à sala, quando escuta uma discussão dos seus pais.
— Eu não acredito que aceitou aquele rapaz! –Miranda, revoltada.
—Ele se saiu muito bem na entrevista, vida – responde Bruno sentado ao lado dela.
— Mas, justo ele? Você não percebe que ele pode estar tentando se aproveitar da nossa família?
—Miranda,se ele quisesse, estaria namorando a Bia e não arranjando um emprego – responde Bruno, com um olhar debochado — Era o que eu faria.
— Leve a questão a sério, querido – repreende Miranda balançando a cabeça e levantando do sofá — Eu acho que a sua decisão está...
— Errada? – questiona Bruno, levantando do sofá — Minha vida, acha que já errei em alguma das minhas decisões até hoje?
— Não... – responde Miranda tímida — Até hoje, não.
— Então, não se preocupe – pede Bruno sorrindo, com as mãos no bolso.
— Mas para tudo na vida há uma primeira vez – argumenta Miranda — E essa me preocupa.
— Shhhh! –Bruno tocando os lábios de Miranda. Ele abraça sua esposa, enquanto propõe — Faremos um acordo: Se eu estiver errado, você poderá dizer todos os EU TE AVISEI que estão presos em sua garganta, à vida inteira...
— Gostei – Miranda sorrindo passando os braços em volta do pescoço de Bruno — Concordo com este acordo.
— Eu ainda não terminei,meu amor –Bruno com olhar apaixonado — Se eu estiver certo... Irei levá-la para o quarto e torná-la minha, sempre que eu quiser.
—Proposta interessante – responde Miranda beijando seu marido — Aceitarei, pois sou beneficiada de qualquer forma.
— Humm... – Ele solta o cinto do vestido de Miranda— Então vamos começar desde agora.
— Mas e se a Bibi acordar? – pergunta Miranda, preocupada.
— Não vai – garante Bruno segurando a esposa nos braços — Não se preocupe com nada, apenas com nós dois.
Beatriz corre para o quarto, antes que os pais a vejam. Ela fecha a porta e se encosta-se a ela. Naquele momento desejava um amor como o de seus pais. Olha para o telefone e sente que precisa falar com alguém. Ela pega o mesmo e disca um número, escutando os toques entrarem no mesmo ritmo que o seu coração:
— Alô?
— Oi Hugo, podemos conversar? – pergunta Beatriz, nervosa.
— Claro que sim. Sobre o quê? – pergunta, curioso.
— Sobre tudo – responde Bia, triste.
****
Hoje...
— Bom, infelizmente nossa sessão acabou – avisa Manuela interrompendo os pensamentos de Beatriz — Beatriz,preciso conversar alguns minutos com o Hugo, para saber o que ele tirou de tudo isso e se conseguiu se recordar de algo, tudo bem?
— Sim – concorda Beatriz se levantando. Controla-se para não tocar em Hugo que a observa atentamente.Ela se vira para a doutora e continua — Eu vou tomar um pouco de água.
— Tudo bem – responde Manuela.
Beatriz vai até a cozinha pensativa, aquelas memórias mexeram muito com ela. Viu uma Beatriz que a muito não lembrava, assim como o Hugo. “O que aconteceu com a gente? O que aconteceu comigo?”
— A doutora está chamando por você – avisa Hugo, assustando Beatriz — Não quis te assustar, desculpa.
— Obrigada – agradece Beatriz, nervosa.
— Você está bem? – pergunta Hugo se aproximando, preocupado.
— Sim, estou . – responde Beatriz forçando um sorriso.
— tem certeza? – questiona Hugo encurralando Beatriz entre a pia e seu corpo. A mão dele se ergue em direção a face de Bia que prende a respiração, então ela encontra os cabelos dela, os conduzindo para trás de sua orelha. Ele se afasta e então diz — Obrigado por tudo o que está fazendo por mim. Eu sei o quanto deve ser difícil reviver tudo o que houve entre nós, mas saiba que sou grato, muito grato.
— Eu preciso voltar à sala. Com licença.
Ela coloca o copo na pia a e vai até a sala, onde Manuela termina de arrumar suas coisas. A psicóloga sorri para Bia e pega sua pasta.
—Foi uma ótima sessão – comenta Manuela arrumando o cabelo — Eu gostaria de na próxima semana começar falando do emprego que ele conquistou, pois parece ter sido muito importante.
— Com certeza – Beatriz sorrindo.
— E também gostaria de falar com a mãe dele – avisa Manuela ajeitando sua bolsa nos ombros enquanto observa a senhora Gouvêa — Sabe onde ela está? Seria importante, isso aliviaria um pouco sua carga emocional.
— Tudo bem – responde Beatriz, tensa. Ela encara a psicóloga e pede — Será que você poderia me acompanhar até o escritório?
— Por quê? Lembrou-se de algo importante? – pergunta Manuela, curiosa.
— Eu tenho algo para contar – responde Beatriz, nervosa, apertando seus dedos — Sobre a mãe do Hugo.
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