A Chance

23 Capítulo 22


Beatriz saboreava seu suco de laranja, quando Jorge aparece na porta do restaurante. Ela acena em sua direção, delicadamente, o fazendo ir a sua direção com uma cara de poucos amigos. Ele senta na cadeira à frente da mulher de seu amigo, sério.

— Oi, Jorge – cumprimenta Beatriz tentando sorrir amigavelmente. O clima da mesa não é dos melhores e ela já sente a culpa por isso — Deseja pedir alguma coisa?

— Não. Quero que você vá logo ao assunto – responde Jorge, ríspido.

— Eu sei que ainda está chateado com o que aconteceu no jantar de ensaio... – começa Beatriz buscando uma maneira de se desculpar com ele.

— Olha... Vamos parar com a lengalenga e ir direto ao assunto – interrompe Jorge gesticulando com as mãos, irritado — Você vai se desculpar, eu terei de aceitar, se não acabarei sem sexo em casa... Você está perdoada por ter sacaneado o dia da sua melhor amiga, ok? Agora me diz, que assunto tão importante você tem que me envolva?

— Vamos ser diretos então, Jorge – concorda Beatriz respirando fundo. A postura de Jorge está quase a tirando do sério — O Hugo está com amnésia e não se lembra dos últimos catorze anos, então seu amigo precisa de pessoas que o ajudem a lembrar desse período de sua vida .Como eu sei que são amigos há anos…

— Não poderei ajudar – interrompe Jorge mais uma vez — Eu o conheci na faculdade.

— Eu sei, mas seria importante isso para ele, já que vocês são tão amigos – explica Beatriz, nervosa — Você poderia ajudar contando como foi na faculdade.

— Não dá. Eu estou muito ocupado – recusa Jorge balançando a cabeça. — Era isso?

— Sim – responde Beatriz, irritada — Por que você não pensa melhor e me fala depois?

— Eu não posso – nega com a expressão fechada. Ele se aproxima da mesa— Você o conhece há mais tempo, vai conseguir isso melhor que qualquer um.

— Que belo amigo você é! – ironiza Beatriz, revoltada. — Nunca foi visitá-lo, nem mesmo quando foi para o quarto e agora se recusa ajudar nas lembranças da faculdade, um dos momentos mais importantes.

— Quer falar de mim? – questiona Jorge alterado apontando dedo para Beatriz — Você se afastou da Sônia por um ano! Um ano! Justamente quando ela precisava de você para o casamento. E ainda assim a minha mulher te chamou para o casamento! E o que você fez? A boneca fez show no aniversário da melhor amiga! Então me diz, quem é você para dizer que eu não sou um bom amigo?

— Eu já pedi desculpas! – reforça Beatriz entre os dentes — Eu não posso voltar atrás e consertar o que fiz, mas você pode ajudar seu amigo!

— Claro, como sempre temos de perdoar a princesa Beatriz Gouvêa. Você estraga a felicidade das pessoas e depois pede desculpas, como se isso fosse servir para alguma coisa – retruca Jorge, revoltado — Pedir desculpas não tornará aquele dia melhor. E quer saber do que mais: A culpa do Hugo estar assim é sua – acusa Jorge levantando da mesa. Ele aponta o dedo na cara de Beatriz — Então, dessa vez assuma a responsabilidade. Cuide dele e ,quem sabe, ele te perdoe.

As lágrimas caem lentamente enquanto Beatriz observa Jorge sair do restaurante. Ela tenta assimilar as palavras de Jorge. “Será que a culpa é toda minha mesmo? Eu mereço estar nessa situação? Será que a única forma de me redimir é ficando ao lado do Hugo até ele se recuperar? Será que consigo fazer isso sozinha?”

— Senhora, esta tudo bem? – pergunta o garçom, preocupado com o choro de Beatriz.

— Sim – responde Beatriz com um sorriso nos lábios, enquanto seca as lágrimas de sua face — A conta, por favor?

— Como quiser — diz o garçom se retirando.

Ela ainda fica sentada refletindo sobre as palavras dura de Jorge até pegar o carro e ir para casa.

***

Ainda está escuro quando Beatriz acorda, seu computador solta o som da chamada do Skype estridente, mostrando o rosto de Flávio. Ela o pega, colocando no colo e atende a chamada. “Que ele não repare no meu rosto inchado”, pensa Beatriz sorrindo esperando Flávio aparecer.

— Oi, meu amor – Flávio invadindo a tela do computador e mostrando apenas seu peitoral nu e suado — Como foi seu dia? Deu tudo certo com o Jorge?

— Oi, duplex! – responde tentando sorrir — Foi bom... O Jorge não poderá ajudar, pois , segundo ele, está com uns problemas…

— Pela sua cara, você está escondendo alguma coisa, amor. O que houve? – pergunta Flávio arqueando a sobrancelha.

— Nada... – responde Beatriz com a voz embargada. Ela não consegue conter as lágrimas — O Jorge me falou umas coisas…

— Que coisas, amor? – pergunta Flávio, preocupado.

— Ele disse... – começa Beatriz contando o que aconteceu no almoço entre soluços — Ele está certo, pois a culpa é minha mesmo.

— Não, ele não está. Espere um momento, Bee – pede Flávio, irritado. Ele sai de frente da tela por alguns instantes, deixando apenas que sua voz seja ouvida — Oi Pedro... Fala meu querido... Estou bem sim... Eu queria pedir um favor... Lembra-se daquele advogado que te indiquei... Isso mesmo o Jorge... Quero que o demita... Exatamente... Bom, pelo visto ele não fará falta... Quero isso para amanhã... Pode dizer que fui eu... Exatamente... Nada não... Ele só não é mais da minha confiança... E como vai a família... Que bom... Eu tô namorando agora... Provavelmente ela esta sabendo disso agora... Ahahaha... Tenho de desligar, mas ela está me esperando... Certo... A gente se fala... Abraços Pedro.

— O que você fez? – pergunta Beatriz, nervosa.

— O Jorge acabou de perder o emprego – revela Flávio aparecendo na tela novamente — Não se preocupe, o Pedro já queria mandá-lo embora, só não fazia por minha causa.

— Mas ele tinha batalhado para conquistar esse emprego – recorda Beatriz, irritada — Você não devia ter feito isso.

— Isso foi o que ele contou? – questiona Flávio, sério — Eu o indiquei, pois seria um peso morto nas costas da Sônia. Essa indicação foi o meu presente de casamento e mesmo assim ele não desempenhava o seu papel, em agradecimento. Por favor, não fique irritada.

— Como, não? – questiona Beatriz, alterada — Você acabou de pedir a demissão dele por conta do que eu te contei! Eu não preciso disso! Não quero!

— Por que está brava? – pergunta Flávio, confuso.

— Por que eu tenho de lutar minhas batalhas. Você sempre me incentiva a correr atrás, mas agora faz isso! Não quero que me proteja, nem se vingue. Você agiu igual a minha mãe.

— Não me compare com sua mãe – Flávio, sério — O que eu fiz foi somente por ele ter sido injusto com você.

— Exatamente como minha mãe. – comenta Beatriz, chateada — Que saber? Estou cansada, preciso dormir. Falamo-nos depois.

—Bee, espera. Não foi nada demais – Flávio tentando consertar as coisas.

— Nada demais? – retruca Beatriz — A Sônia quando descobrir vai para cima de mime e não quero perder minha amiga novamente. O dia já deu, então ,boa noite.

Sob protestos de Flávio, Beatriz fecha o notebook e volta a dormir, chorando. Tenta não pensar na possibilidade de Sônia nunca mais falar com ela. Fecha os olhos pensando na sua primeira sessão com a psicóloga que a ajudaria a dar suporte a Hugo.

***

Sandra Regina é uma mulher bela que não aparenta ter seus quarenta anos e muito menos ter a vasta experiência na área de Psicologia. Seus cabelos, castanhos acobreados até os ombros, brilham com a luz do sol que vem da janela do elegante consultório. Beatriz está sentada em uma das poltronas beges que harmonizam com o chão preto da sala. A psicóloga ajeita os óculos e sorri para Beatriz. Ela calmamente arruma a caneta e o papel nas mãos sem deixar de encarar Bia que, por algum motivo, se sente desconfortável com aquilo.

— Pelo o que me contou, você veio até mim para que pudesse ajudá-la a se fortalecer emocionalmente? – pergunta Sandra, curiosa.

— Sim – responde Beatriz sem muita certeza.

— Sabe que ajudar seu ex-marido trará as lembranças do passado? Algumas que você não gostaria de recordar... Acha que estará pronta para enfrentá-las? – questiona Sandra, séria.

— É por isso que estou aqui. Existe uma lembrança que vai fazer com que ele sinta raiva de mim. Tem a mãe dele... As brigas... Enfim coisas que deveriam ficar onde estão – murmura Beatriz olhando para os dedos entrelaçados em seu colo.

— Existem muitas questões em aberto na sua vida, pelo o que me contou. A briga com a sua mãe, a separação, o surgimento de um caso do passado e ,principalmente, seu futuro. Você só estará pronta para mexer com as recordações quando fechar essas lacunas.

— Mas eu não tenho tempo para fechar essas questões – admite Beatriz, nervosa.

— Você não entendeu – recusa Sandra tirando os óculos — Não há tempo que faça a gente estar pronta para mexer com as lembranças do passado. Não há tempo que faça encará-las, mas há para entender que aquilo faz parte do passado e é o que te ajudou a chegar até aqui. Você tem de compreender que as suas lembranças te moldaram. Aceitar que qualquer mal que tenha acontecido lá atrás, qualquer coisa que tenha feito o Hugo sentir raiva de você, já foi. Não há como mudar o passado, Beatriz. Tire proveito da situação para entender o que aconteceu na relação de vocês, onde foi que tudo mudou e se realmente teve um fim. Você só seguirá se fechar essas lacunas.

— Então, como faço para fechá-las? – pergunta Beatriz encarando a psicóloga.

— Bom, vamos com calma e analisando os pontos que mais influenciam você. Eu gostaria de começar com a sua família, se me permite – sugere Sandra colocando os óculos novamente — Como era sua relação com seus pais?

— Sempre foi boa... Até eu me casar com o Hugo. Então minha mãe começou a fazer tudo o que podia para que terminasse... e conseguiu. Ela sempre foi controladora e eu achava normal, sabe. Com a morte do meu pai, seu controle foi aumentando. Achava que era por proteção, mas os últimos acontecimentos me deixaram na dúvida se é somente isso.

— Como era o relacionamento dos seus pais? Presenciou alguma briga entre eles? – pergunta Sandra anotando as informações no papel.

— Era maravilhoso. Eu nunca vi tanto amor entre duas pessoas, como via entre eles. Eles nunca brigaram na minha frente e atrevo a dizer que nunca brigaram de fato. Meu pai sempre foi bem pacífico e era o único que fazia minha mãe ser mais tolerante. O único a quem ela escutava que a fazia rir, quem fazia seus olhos brilharem... Ela parecia tão feliz. Não se preocupava com festas, com status e com dinheiro – conta Beatriz com a voz embargada — Quando meu pai adoeceu, ela ficou dura, passou a ir para a empresa e cuidar de tudo. Depois que ele morreu... Ela piorou. A raiva que sentia do Hugo foi aumentando, além de sempre ficar no controle de tudo.

— E sabe o motivo da mudança de sua mãe? – pergunta Sandra se ajeitando na poltrona.

— Não sei – responde Beatriz limpando o canto dos olhos.

— Falou alguma vez sobre isso com ela? – pergunta Sandra franzindo a testa.

— Não... Eu e a minha mãe não somos muito de conversar a respeito de nada. Na verdade, ela sempre se impõe e eu aceito. Esse é o tipo de relação que temos, ela fala e eu aceito – confessa Beatriz, percebendo como era sua relação com a mãe. Seus olhos se enchem de lágrimas — Ela fala ,eu aceito e ela sempre me dominou assim.

— Beatriz, eu aconselho que fale com sua mãe a respeito – sugere Sandra encarando Beatriz — Você precisa conversar para entender as ações de sua mãe. A resposta está com ela.

— Mas não nos falamos mais – confessa Beatriz limpando rosto — Talvez ela não queira mais falar comigo... Pelo menos por agora.

— Então vá até ela – propõe Sandra — Se deseja uma relação com sua mãe, lute por ela. Não espere ela vir até você e não espere até que seja tarde demais. Tenho muito casos de arrependimentos desse tipo e eu torço para que não se torne mais um.

— Mas e se ela... – começa Beatriz, nervosa.

— Se ela recusar sua presença, aceite. Porém, mostre que você não quer que a situação seja essa – responde Sandra interrompendo Beatriz. Ela olha para o relógio e diz — A sessão está no fim.. Começaremos na próxima sessão a falar da sua relação com Hugo. Até lá, espero que reflita sobre o que conversamos hoje.

— Terminamos? – pergunta Beatriz. Ela sente que tem tanto a falar ainda, porém já tem a sensação de alívio por ter falado da mãe. Bia se levanta e aperta a mão da psicóloga — Obrigada por tudo.

— Esse é apenas o começo, Beatriz. Em breve lidaremos com problemas maiores – informa Sandra encarando Beatriz, atentamente — Até a próxima sessão.

— Até – despede-se Beatriz saindo da sala.

Ela sai do consultório e olha para o belo dia que está fazendo, lembrando os belos dias de sua infância.

“Se deseja uma relação com sua mãe, lute por ela. Não espere ela vir até você. Não espere até que seja tarde demais. Tenho muito casos de arrependimentos desse tipo. Espero que não seja mais um.”

***

A casa dos pais de Beatriz é a mesma desde que ela nasceu. Pedras em toda a fachada e detalhes em branco nas portas e janelas. Situada em uma rua nobre do Leblon. Ali, Beatriz passou toda a sua infância, agora procura acertar as contas com a mãe.

A empregada abre a porta e a conduz até a sala de estar branca e piso de madeira. Ela senta em um dos sofás de coro preto e aguarda a chegada de sua mãe. Assim que Miranda entra, Beatriz franze a testa confusa, nunca tinha visto a mãe de roupão em plena cinco horas da tarde. Esse é o horário em que ela estaria no trabalho. Bia repara que sua mãe tem olheiras profundas e o rosto vermelho. “Minha mãe estava chorando?” questiona Beatriz. Miranda a olha com desprezo e diz:

— Olá, Beatriz. O que está fazendo aqui?

— Vim conversar com a senhora, mamãe – responde Beatriz sentada no sofá. — A senhora está bem?

— Estou... Na medida do possível. Diga logo o que veio conversar, tenho coisas para fazer – ordena Miranda, irritada.

— Como era sua relação com o papai? – pergunta Beatriz, sem rodeios.

— Por que essa pergunta agora? – responde Miranda arqueando as sobrancelhas.

— Porque gostaria de te entender. Quero saber o que aconteceu com a minha mãe. A mulher que me criou tão cheia de amor, a mulher que ria e que era feliz. Gostaria de saber para onde ela foi... E quem é essa mulher que está em seu lugar nos últimos anos... Desde a morte do meu pai.

— Saia, Rosa – ordena Miranda encarando Beatriz. Espera a empregada sair e pergunta — Quer realmente saber?

— Sim. Eu quero – Beatriz, convicta.

Miranda respira fundo e senta ao lado de Beatriz. Ela olha para o quadro na parede à frente do sofá.

— Eu nunca te contei como conheci seu pai e acredito que ele também nunca o fez... – começa Miranda sem olhar para Bia — Ele tinha 18 anos e era balconista em uma farmácia. Eu tinha 15 anos e tinha ido buscar um remédio para seu avô. Os olhos castanhos foram o que mais me chamaram a atenção, eram iguais aos seus. Eram de uma pureza, tinham um brilho que nunca tinha visto. Depois de muito ir à farmácia, descobri que ele morava duas quadras da minha casa, fazia farmacologia, tinha o sonho de ser farmacêutico para abrir uma farmácia de manipulação. Mas não era qualquer uma, ele queria que fosse uma popular, com preço acessível a todos. Era a forma de Bruno tentar manter a lembrança de seus pais que nunca tiveram oportunidade e acabaram morrendo. Em um mês estávamos namorando e no outro mês já queríamos casar. Seu avô ficou louco quando seu pai foi até a minha casa pedir permissão para casar e o escorraçou a ponta pés. Porém ele não desistiu e dia após dia foi na minha casa. Meu pai estava irredutível, pois sempre me criou sozinho. Foi aí que lutei por ele, deixei a casa do meu pai só com a roupa do corpo. Não tínhamos ideia de como sobreviveríamos só com o salário dele, mas seu pai nunca desistiu. Ele se dedicou e fez tudo sozinho, sempre daquele jeito alegre, sem medo. Sempre com aqueles olhos puros. A nossa relação era inexplicável. Ele nunca deixou de me dizer eu te amo, nem nos últimos minutos de sua vida. Ele sempre dizia “Te amarei para sempre e mais um pouco”. Ele era minha calma, minha alma, minha paz... Ele era o motivo de acordar todos os dias... E ele me deu você. O sorriso dele fazia com que tudo de ruim desaparecesse. Ele era o meu tudo... – conta Miranda limpando o rosto — Mesmo quando ele descobriu o câncer na próstata, nunca desistiu... Ele sempre foi um lutador. Agora,quando ele... quando ele... quando ele se foi... Meu mundo ruiu. Senti que minha alegria tinha ido com ele,miinha vida tinha sido roubada e nunca mais iria sentar no café da manhã com ele cantarolando Sinatra, nem assistiríamos televisão aos domingos. Ele nunca mais faria aquelas piadas horríveis de toc-toc. Eu nunca mais iria brigar com ele sobre a toalha molhada ou a terrível mania da pasta de dente. Eu nunca mais seria acordada com um beijo e nem dormiria segurando sua mão. Nunca envelheceríamos juntos em um belo campo, como ele queria. E eu nunca... Nunca mais ouviria um eu te amo, tão sincero e tão meu. Tão nosso.

— Eu sinto muito, mamãe – pede Beatriz chorando. Ela abraça a mãe — Não sabia…

— Tudo bem – Miranda enxugando as lágrimas — Alguém precisava ser forte, pois você não estava pronta ainda para tomar conta do que era a única lembrança do seu pai, depois de você. E jamais deixaria o Hugo tomar conta da empresa do Bruno.

— Por que tem tanta raiva do Hugo? O que ele fez para odiá-lo tanto? – pergunta Beatriz, triste.

— Eu não o odeio, apenas acho-o fraco, sem pulso firme para as coisas. Ele nunca lutou para ter nada e muito menos por você – responde Miranda, categórica — Ele teve tudo o que quis sem esforço. Além da atitude precipitada de vocês que me faz acreditar que foi ideia dele, para conseguir acesso logo na empresa, um verdadeiro aproveitador.

— A ideia foi minha e ele lutou para chegar onde está. Sem contar que o papai confiava nele e dizia que o lembrava de bastante quando jovem – retruca Beatriz.

— Mas por que ele era seu namorado e depois seu marido. Se ele não fosse nada seu, duvido que tivesse um cargo na empresa. Porém,o que me irrita nele é a falta de vontade. Ele nunca lutou por vocês e nem pelo casamento.

— Claro que lutou. Nós brigávamos muito, mas ele sempre voltava para casa – argumenta Beatriz — Ele sempre voltou…

— Até que um dia parou de fazer isso... Eu tenho certeza que seu pai não desistiria tão fácil – Miranda ironizando — Seu pai lutaria por mim até o fim.

— Mas ele não é o papai e nenhum homem será. Nenhum chegará aos pés dele – alega Beatriz — E a senhora precisa entender isso.

— Eu entendo, mas eu desejo um homem de verdade para você! – Miranda, exaltada. Ela se vira para Beatriz e segura suas mãos — Eu desejo para você alguém que esteja do seu lado mesmo que você não note. Que lute por você e ao mesmo tempo ensine a lutar suas próprias batalhas. Desejo-te alguém que te ame sem exigir nada em troca. Que peça perdão sempre que errar e que não exija o mesmo se for você quem errou. Que olhe para você como se fosse o bem mais precioso e que a trate assim. Que nunca desista, mesmo com todos dizendo ao contrário ou a situação exija. Eu gostaria que você tivesse alguém que daria a vida por você e que te faça feliz todos os dias de sua vida.

— Mas eu nunca vou encontrar alguém assim... – nega Beatriz — Essa pessoa não existe!

— Se existiu alguém assim para mim, vai existir para você – responde Miranda tentando sorrir — Porém, se acha o contrário, encontre alguém que tenha metade disso ou mais.

— Tudo bem... – murmura Beatriz. Ela olha para a mãe e pergunta — Por que fez aquelas coisas?

— Porque eu achei que fosse o certo e o melhor para você. Bia, eu sei que parece complicado, mas quando for mãe saberá que não o fiz por mal. Nada do que eu fiz foi para te prejudicar, só queria afastar o Hugo, mas não pensei nas consequências – responde Miranda de cabeça baixa — Eu só queria te proteger... Você sempre foi boa demais, igual ao seu pai: Fácil de influenciar e foi isso que me ajudou – levanta a cabeça e sorri — Mas eu percebi que você não precisa mais disso, estou vendo que está indo bem na empresa, sem minha ajuda. Seu pai ficaria orgulhoso.

— Obrigada mamãe, mas não é o que eu gosto de fazer – responde Beatriz sendo sincera — Não é o que eu quero para mim.

— Bom... Também não era o que eu queria, mas aprendi aceitar – Miranda. Olha para Beatriz e pergunta — Do que gosta então?

— Estou fazendo curso de decoração de interiores, eu gosto muito e pretendia investir nisso em breve – responde Beatriz arrumando seus cabelos.

— Pretendia? – pergunta Miranda, curiosa —O que a fez mudar de ideia?

— Hugo – responde Beatriz olhando para a mãe — ele acordou e sem memória dos últimos catorze anos.

— Humm –Miranda, pensativa — Ele perdeu somente a memória do tempo em que estavam juntos? Interessante.

— O que quer dizer, mamãe? – pergunta Beatriz franzindo a testa.

— Nada... Mas peço que preste muita atenção nisso – responde Miranda se ajeitando no sofá — Confie, desconfiando.

— A senhora não acha...? – começa Beatriz. Ela balança a cabeça, recusando — Ele não faria isso.

— Tudo bem, mas fique de olho nele – recomenda Miranda — Eu não consigo confiar nele como você.

— Tudo bem – Beatriz respirando fundo — Espero que esteja tudo bem entre nós…

— Estamos bem. Nunca vou virar às costas para você, Bia –responde Miranda tocando o rosto de Beatriz — Eu só tenho você no mundo, jamais vou te odiar ou esquecer você. Só espero que quando me for, não esteja sozinha.

— Temos muito tempo, mamãe – Beatriz beijando a mão de sua mãe — Muito tempo.

— Gostaria que dormisse aqui hoje – pede Miranda arrumando o roupão — Eu estava assistindo os nossos vídeos de família e como nos divertíamos escolhendo os filmes para comemorarmos suas férias. Há tanto tempo que não ficamos sós nós duas aqui em casa. Seria tão bom fazer isso novamente...

— Tudo bem,eu fico – concorda Beatriz. Ela olha para a mãe e levanta uma das sobrancelhas — Mas quero escolher o filme.

— Como você quiser – responde Miranda se levantando e dando a mão para Bia — Vamos lá.

***

Beatriz olha pela última vez o belo vestido branco rendado que veste. Coloca o véu sobre seu rosto e vai em direção à porta que dá para o corredor da igreja. Todos os convidados se levantam, admirando a beleza do vestido sem alças e de longa cauda. Ela nunca tinha se sentindo tão completa até aquele momento. Ao final do corredor, um homem a aguarda de costas. Ele tem a silhueta do Hugo e isso a fez andar um pouco curiosa. Já está na metade do caminho quando olha para trás e vê outro corredor com outro homem que lembra o Flávio de costas. Os dois viram ao mesmo tempo, confirmando as suspeitas de Beatriz: São Hugo e Flávio de smoking. Eles se aproximam lentamente enquanto Beatriz escuta a voz sussurrada de sua mãe que aparece de repente atrás dela:

Eu desejo para você alguém que esteja do seu lado, mesmo que você não note.

Hugo se aproxima sorrindo, fazendo Beatriz encará-lo, confusa.

Que lute por você e, ao mesmo tempo, ensine a lutar suas próprias batalhas.

Flávio se aproxima sorrindo, fazendo Beatriz encará-lo, confusa.

Desejo-te alguém que te ame sem exigir nada em troca.

Hugo se aproxima sorrindo, fazendo Beatriz encará-lo, preocupada.

Que peça perdão sempre que errar e que não exija o mesmo, se for você quem errou.

Flávio se aproxima sorrindo, fazendo Beatriz encará-lo, preocupada.

Que olhe para você como se fosse o bem mais precioso e que a trate assim.

Hugo se aproxima sorrindo, fazendo Beatriz encará-lo, nervosa.

Que nunca desista, mesmo com todos dizendo ao contrário ou a situação exija.

Flávio se aproxima sorrindo, fazendo Beatriz encará-lo, nervosa.

Eu gostaria que você tivesse alguém que daria a vida por você.

Hugo se aproxima sorrindo, fazendo Beatriz encará-lo, desesperada.

Que te faça feliz todos os dias de sua vida.

Flávio se aproxima sorrindo, fazendo Beatriz encará-lo, desesperada.

Encontre alguém que tenha metade disso ou mais.

Os dois seguram, as mãos de Beatriz e se ajoelham...

— Casa comigo? – perguntam os dois ao mesmo tempo.

Os risos vindos da televisão despertam Beatriz, assustada. Ela olha para o filme que está passando e depois procura o controle e, por fim, desliga o aparelho. Cobre sua mãe na cama e vai para o seu antigo quarto. Deita na cama, mas não consegue dormir pensando em quem escolherá… na vida real.