A Chance
14 Capítulo 13
Deusa Hathor – informa Flávio apontando para a fachada avermelhada decorada segundo o estilo Greco-romano, suportada por duas colunas iônicas. A imagem da deusa fica no centro do arco. — Considerada uma das mais famosas e antigas das crenças egípcias antigas. Era a deusa que amamentou o deus Hórus quando era bebê durante a ausência da sua mãe Isis, segundo os acontecimentos da lenda de Osíris. Hathor era a deusa de amor, alegria, música e maternidade. Era figurada fundamentalmente em três formas: a primeira como uma vaca inteiramente, a segunda numa forma híbrida com corpo de mulher e cabeça de vaca, e a terceira forma é uma mulher, mas com dois chifres de vaca em cima da cabeça e o disco solar entre eles. Neste caso, encontra-se a cabeça de Hathor que está representada com cara de mulher, dois cornos com o disco solar. Aos dois lados, à direita e à esquerda há uma representação da deusa celebre Isis, a esposa de Osíris, e mãe de Hórus. Isis foi uma das divindades fundamentais que desempenhou um grande papel na Teologia Egípcia Antiga. Isis foi à deusa da maternidade, fidelidade e magia. É cultuada como modelo da mãe e da esposa ideal.
— Uau! – exclama Beatriz com uma das mãos na testa para tentar enxergar as imagens — Como sabe tanto sobre elas?
— Todas as vezes que eu venho para o Egito, esse é o primeiro lugar que visito. E quando fico livre, leio a respeito da mitologia egípcia – responde Flávio com as mãos na cintura, contemplando o museu.
O museu do Cairo é um edifício imenso de cor encarnada, com um pátio externo vasto. Projetado em estilo neoclássico por Marcel Dourgnon, o Museu Egípcio possui 107 salas cheias de artefatos que datam da pré-histórica, através do período romano com a maioria da coleção voltada para a era faraônica, que ocupam dois pisos e uma grande biblioteca.
— Vamos? – pergunta Flávio estendendo sua mão para Beatriz — Tenho muita coisa para te mostrar.
— Vamos – responde Beatriz segurando na mão de Flávio.
***
O piso térreo leva Beatriz a uma viagem cronológica através das coleções, durante as explicações de Flávio. No piso superior, os objetos são agrupados de acordo com o túmulo ou categoria. Nessa parte da exposição, incluem os tesouros de Tutancâmon, modelos de madeira da vida diária, estatuetas de divindades, e um raro grupo de Faiyum Portraits. Além das múmias reais do Novo Império.
— Esta estátua representa a Rainha Isis, a esposa secundária do rei Tohotmus II e mãe do rei ilustre Tohotmus III –explica Flávio encantado com a estátua feita de granito cinzento. A rainha está representada sentada no trono com uma peruca hatórica e um diadema sobre a sua cabeça. Existem duas cobras de proteção, como um sinal de exageração. Ela leva um colar e dois braceletes. As suas mãos estão estendidas sobre as suas pernas enquanto que a sua mão esquerda está assegurando um cetro floral. — Acredita-se que Isis não pertence à nobreza, mas era uma mulher extraordinária, por isso quando o seu filho Tohotmus III subiu ao trono começou a honrar a sua mãe, ora por mandar esculpir estátuas para ela, ora por representar a si mesmo mamando o leite real da sua mãe figurada em forma de árvore para confirmar que foi uma verdadeira esposa real e rainha venerada.
— Magnífica – elogia Beatriz sendo puxada delicadamente por Flávio para o outro lado, onde estão duas estátuas bonitas, uma obra muito avançada na história da arte devido aos realísticos aspectos faciais e sua claridade de cores.
— Casal Rá-Hotep e Nefert – apresenta Flávio olhando para as duas estátuas de pedra calcária pintada, representam o casal sentado em paz com uma visão idealística. Rá-Hotep está sentado com uma peruca curta ou se calhar é o seu cabelo natural, e o seu braço direito está cruzado ao peito enquanto que o seu braço esquerdo está estendido sobre o seu joelho. Também está representado com um leve bigode preto sobre o lábio superior e em torno do seu pescoço existe um colar que termina com um amuleto que tem forma de um coração. A princesa Nefert está representada sentada numa cadeira, os seus braços estão cruzados sobre o seu peito. Ela leva um vestido branco, comprido e estreito pelo que os detalhes do seu corpo são notáveis. Está representada com uma peruca comprida e grande, mas também se pode ver os seus cabelos originais por debaixo da peruca que está rodeada de um diadema e ornamentada com rosinhas. O pescoço da princesa está adornado com um colar único de cores diferentes. As pestanas são de cobre, a brancura de quartzo opaco, a córnea é de cristal rochoso e a pupila é de resina preta. — Dizem que Rá-Hotep era um funcionário e Nefert uma princesa. Note que ao contrário de outras esculturas egípcias, a esposa surge representada com praticamente o mesmo tamanho que o seu marido, tendo o direito a um trono separado, isso pode representar que ela era da realeza e ele não, ou que ela era quem governava, não sei ao certo. Entre os vários títulos que foram atribuídos a Rá-Hotep, encontram-se o de “sumo sacerdote de Heliópolis”, “chefe dos trabalhos” e “comandante do exército”. Nefert recebeu o título de “conhecida do rei”, o que a relaciona com o grupo mais próximo do monarca. Não se sabe quem eram os pais de Nefert, nem se o casal teve filhos.
Beatriz encara as estátuas com a expressão séria. Lembra a minha história, será que eles tiveram um final feliz? Flávio aperta um pouco sua mão, fazendo com que desperte de seu devaneio. Ela sorri de volta e continua andando até parar em frente a um busto inacabado de quartzo, figura outra mulher.
— A rainha Nefertiti – diz Flávio, maravilhado — Uma das mais ilustres figuras da História Egípcia que desempenhou um grande papel nos acontecimentos durante o reinado de Akhenaton. O seu nome significa “A bela está vindo”. Não se sabe exatamente qual é a sua origem. De qualquer maneira, Nefertiti levou o título especial de “nfr-nfrw-Itn-mry-w3c-n-Re” que significa “A mais bela de Atón a única amada de Rá”. Nefertiti casou-se com Akhenaton e emigrou com ele para a nova capital Alhete-Atón (Tel El Amarna). Ela deu luz a seis filhas: três morreram quando eram crianças durante a vida dos seus pais, enquanto que as outras três sempre apareciam por cenas diferentes com os seus próprios pais. De repente, no ano XVI do reinado de Akhenaton, Nefertiti desapareceu e não se sabe a razão, ninguém sabe exatamente o que aconteceu. Mas parece que foi consequência de uma visita levada a cabo pela sua sogra, a grande rainha-mãe “Ty” à cidade de Tel El Amarna. Nefertiti abandonou o palácio real, e faleceu um pouco depois.
— O que aconteceu para ela ter tomado essa decisão? – pergunta Beatriz admirando o busto.
— Eu imagino que ela estava governando demais para uma mulher e mãe. Digamos que ela não seguia os princípios da deusa Isis, mãe ideal e esposa ideal. — responde Flávio, pensativo — Desde aquela época, não era tolerável que a mulher se impusesse de tal forma a se destacar. Então muitas sofriam represálias por isso. Mesmo assim elas não paravam de tentar. Não é muito diferente de hoje.
Ao lado da rainha Nefertiti, uma cabeça quebrada até perto da testa.
— Rainha Hatshepsut— apresenta Flávio a cabeça para Beatriz, de pedra calcária pintada que pertence a grande rainha Hatshepsut, — Uma das grandes rainhas na História do Egito. Reinou quase por 20 anos. Era a filha do rei Tohotmus I e da esposa principal, a rainha Ahmose. Quando seu pai faleceu, subiu ao trono junto ao seu meio irmão que foi casado com Hatshepsut para legitimar o seu poder. Hatshepsut era de grande personalidade que sabia o que queria. Quando o seu co-regente e marido o rei Tohotmus II morreu depois de cinco anos no poder, aproveitou da oportunidade e partilhou o trono com o seu sobrinho o jovem Tohotmus III por cinco anos. E no momento adequado, depôs o seu sobrinho e passou a ser a única rainha do país por 20 anos. O reinado de Hatshepsut era uma época brilhante da história egípcia antiga, pois havia prosperidade econômica e florescimento de arte. Ela mandou construir muitos edifícios e templos em todo o país, sobretudo em Tebas, El Deir El Bahari, E Alminya. Um dos mais importantes templos construídos pela rainha Hatshepsut destaca-se o templo de El Deir El Bahari que se chama também templo memorial de Hatshepsut. Na verdade, não se sabe se a rainha foi morta ou apenas faleceu naturalmente, pois de repente, depois de 20 anos no poder, a rainha desapareceu sem saber a causa e no seu lugar o novo sobrinho Tohotmus subiu ao trono liderando uma campanha de vingança contra a memória da sua tia e madrasta. Isto foi realizado por meio de deformar os monumentos dela e omitir os seus nomes dentro dos cartuchos em qualquer lugar. Por isso, essa cabeça é um dos artefatos mais raros, aliás, o fato dessa ter uma falsa barba, a torna raríssima e de valor inestimável.
As palavras de Flávio sobre a rainha vinham como um tapa na cara de Beatriz. Ela era tão poderosa e sabia se impor, ao contrário de Bia e seus dilemas. Então Beatriz passa a considerar que ele a levou ao museu justamente para isso, para desafiá-la.
Eles se caminham para fora do museu, quando Flávio quebra o silêncio:
— Gostou do museu? – pergunta ainda de mãos dadas com Beatriz.
— Ele é magnífico – responde Beatriz com um sorriso fraco.
— Aconteceu algo, Beatriz? Eu disse alguma coisa? – pergunta Flávio franzindo a testa.
— Não… Quer dizer sim… Não disse nada diretamente, mas disse – tenta responder Beatriz. Ela respira fundo e afirma — Suas explicações sobre todas aquelas rainhas e deusas... Eu senti que estava tentando me dizer algo. Um sermão ou algo do tipo.
— Está certa. Eu quis te mostrar que não há desculpas para ir atrás do que se quer. Veja todas aquelas mulheres! – diz Flávio apontando para o museu — Viveram em uma época onde não podiam responder por si mesmas e mesmo assim fizeram coisas magníficas. Lutaram pelo que queriam, atravessaram barreiras e obstáculos quase impossíveis. Muitas sofreram represálias, mas não desistiram. Elas sabiam que nem todos iam gostar delas e do que estavam fazendo, mas não pararam. Você vive em uma época de total liberdade e parece que gostaria de ser aceita como filha de Isis. A esposa ideal, mulher ideal e Bee, você pode ser mais que isso! Eu sei disso. Muitos serão contra você mudar a forma como pensa ou age, mas eles não querem o teu bem. Querem te manipular a fazer o que querem e você facilita isso. Espero que tenha entendido.
— Eu entendi, Flávio – responde Beatriz com algumas lágrimas escorrendo — Mas eu não sei por onde começar.
— Pelo começo – brinca Flávio tentando tirar um sorriso de Beatriz — Analise sua vida, veja o que precisa mudar e a cada dia, mude. Mostre a Beatriz que eu sei que existe aí dentro.
— Obrigada – agradece Beatriz sorrindo.
— Eu sempre estarei aqui por você – reforça segurando no queixo de Bia lhe dando um beijo — Eu tenho mais um museu para te levar e tenho certeza de que gostará.
— Tudo bem – responde Beatriz meio decepcionada. Ela esperava outras palavras vindas do Flávio, mas sabe que não pode exigir nada. — Qual?
— Eu o considero uma dos mais impressionantes museus do Cairo, o Museu Sr. & Sra. Mohamad Mahmoud Khalil. Ele era um palácio, a moradia de M. Mahmoud Khalil presidente do Parlamento Egípcio na década de 30 e quarenta, e sua esposa. Eles eram obcecados por colecionar obras de arte, percorrendo incessantemente atrás de obras únicas e valiosas venerando a beleza bonequeira, assistindo a muitas galerias, exposições e salões de arte para buscar trabalhos e peças genuínas. Isto foi um tipo de paixão acerca das obras de arte por um casal que entre o rol das suas virtudes havia a valorização do sentido estético das obras e a apreciação do talento humano. Quando faleceu o marido em 1954, o seu palácio estava pleno de grande quantidade de obras de arte. Posteriormente, a viúva francesa Emiline, com amor e lealdade à memória do marido, deixou um testamento escrito que concedia a sua própria casa, inclusive a mobília e as antiguidades valiosas ao ministério de cultura, solicitando a transformação do seu lar luxuoso a um museu de arte sob o nome do Casal Mohamad Mahmoud Khalil. O Museu de Mahmoud Khalil contém uma coleção fantástica de obras distintas que incluem além de estátuas e bustos de bronze, mármore, pedra calcária, obras em cerâmica e porcelana, louças, vasos chinesas, japonesas e turcas, frascos para perfumes, caixas coloridas e figurinhas de vidro. Para, além disso, o museu tem cerca de 150 quadros e retratos genuínos feitos pelos mais famosos artistas e pintores do mundo como: Paul Gaugin, Van Gouch, Ribot Theodule, Courbet, Winterhalter etc. – então ele para e olha para Beatriz que sorri— Desculpe-me, estou falando demais. São peças únicas Bee, momento único de ver o amor de duas pessoas em um espaço real e quero dividir isso com você.
— Eu adoraria ir com você – responde Beatriz apertando a mão dele.
***
Já é noite quando eles finalmente chegam à Suíte. Beatriz e Flávio estão cansados dos passeios que fizeram e, ao mesmo tempo, felizes.
— Foi um dia enriquecedor – comenta Beatriz sentando no sofá e arrumando seu vestido longo de estampas — Obrigada por tudo o que me mostrou.
— Que bom que gostou – responde Flávio indo ao bar e pegando uma água com gás. Ele abre e toma no gargalo — Espero que esteja com fome, pois o nosso mordomo vai trazer daqui a pouco o jantar.
— Estou faminta – confessa Beatriz sorrindo e passando a mão na barriga. Ela se levanta e vai em direção ao seu quarto — Enquanto isso, tomarei meu banho.
— Aonde pensa que vai? – pergunta Flávio correndo em sua direção. Ele a puxa para si e informa — Você tomará banho comigo, no meu banheiro. Aliás, pode esquecer o seu quarto, agora ficará no meu. Inclusive , assim que ele chegar, pedirei para que coloquem suas roupas para lá imediatamente. Não quero que fique longe de mim.
— Você é louco, sabia? – fala Beatriz sorrindo e se virando para continuar indo para o seu quarto — Boa sorte com isso. EU vou para o MEU quarto.
— Você não deveria ter dito isso – responde Flávio a segurando pela cintura e girando seu corpo — Agora terá de andar no meu ombro.
— Não! De novo, não! Eu não sou uma boneca! – reclama Beatriz — Você não tem o direito…
Mas é tarde demais.
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