A Chama Interior
1 A Chama Interior
Como predito nos contos, Era uma vez…
Uma caverna limpa, vasta e bela. Dentro dela vivia um dragão com corpo de homem, ou talvez fosse um homem com corpo de dragão, não se sabia ao certo, o que sabia-se era que ele tinha todo o conhecimento sobre o mundo e que ele responderia a qualquer pergunta de qualquer um que lhe trouxesse algo que pudesse enriquecê-lo.
Certo dia uma princesa entrou em sua caverna, mas antes mesmo que pudesse perguntar algo, ele viu que ela não trazia nada consigo e perguntou o que ela tinha a oferecer. Com um sorriso ela colocou as mãos para trás e alegou trazer um conhecimento que ele não tinha. Curioso e desacreditado, decidiu ouví-la, ela então lhe perguntou o que era amar, ele sentou com as pernas cruzadas, pôs a mão em seu queixo, fechou os olhos e pensou por um bom tempo, pensou até concluir que não sabia a resposta. Pediu que ela retornasse em uma semana para que ele pudesse descobrir. Ela sorriu novamente e concordou. Ele abriu suas asas e voou pra longe.
Voou até que encontrou uma fada, que dizia ter todo o conhecimento sobre a vida. Ela perguntou quem ele era e o que ele tinha a oferecer. Ele se apresentou com cortesia e disse trazer todo o conhecimento sobre o mundo. Eles ensinaram o que sabiam um para o outro e ela fez questão que ele aprendesse o que era felicidade tal como o que era tristeza; aprendeu também sobre o carinho e sobre o desprezo; sobre o cuidado e o desdém. Ainda assim sua maior dúvida recebeu uma resposta vaga, a fada lhe disse que amar era como ter uma chama vivendo dentro de sí. Parecia uma resposta sensata por ele ser um dragão mas ele ainda assim indagou o significado dessa resposta e ela disse que ele entenderia no momento certo. Ele expressou gratidão e então partiu em retorno à sua caverna.
Em seu caminho de volta, encontrou uma formiga, que trabalhava e cansava, cansava mas não se queixava, ao contrário disso, a formiga parecia feliz. Antes que ele perdesse o interesse, a formiga exclamou amar o trabalho, então ele aproximou-se dela e perguntou o motivo de ela amar o trabalho. A formiga, gentil e alegre o respondeu que o trabalho dela garantia que as outras formigas de sua casa não morreriam de fome, confuso, ele cruzou os braços pra pensar e depois de algum tempo agradeceu a formiga e foi embora.
Ainda em seu caminho, se deparou com um garoto em frente a um túmulo de tamanho pouco provável para um humano, aproximou-se do garoto e viu que o mesmo colocava uma rosa em cima do túmulo. Curioso ele perguntou porque o túmulo em questão era tão pequeno e o garoto, triste porém simpático, respondeu que era o túmulo de seu cachorro de estimação. Curioso e convicto de que túmulos eram somente dedicados para familiares que faleceram, perguntou ao garoto qual o sentido em fazer um túmulo pra um cachorro se o mesmo não era um familiar. O garoto então virou-se para responder e, em sua face, expressou confusão, talvez por não ter entendido a pergunta, talvez por sempre ter visto o cachorro como parte de sua família, talvez pela figura de um homem-dragão em sua frente; ou provavelmente por todos esses motivos. Contudo o garoto chacoalhou a cabeça como quem quer tirar uma idéia ruim de dentro dela e respondeu que era porque amava o cachorro. Ele agradeceu o garoto e retomou seu caminho.
Ao finalmente voltar para sua caverna, esperou pela princesa, que chegou pouco depois. Ela perguntou se ele havia descoberto e ele curvou-se admitindo que não e pediu perdão por não saber a resposta. Ela então aproximou-se dele e o abraçou dizendo que tudo bem, contanto que um dia ele desse a resposta, ela então disse que para dar-lhe o conhecimento que ele não tinha iria precisar de sua companhia; talvez por curiosidade ou talvez pela vergonha, ele simplesmente aceitou.
E então, viveram lado a lado por um bom tempo. Conversavam todos os dias; caminhavam juntos; dividiram segredos e aventuras, enquanto ele a mostrava o mundo, ela lhe mostrava as coisas que havia nesse mesmo mundo e juntos eles chegaram mais longe do que podiam imaginar. Aos poucos foram conhecendo e precisando cada vez mais um do outro. Havia também períodos em que se distanciavam, em partes por suas diferenças, em partes para refletir sobre si mesmos, ainda assim, escreviam para se lembrar, ou talvez fosse para que não se esquecessem.
Certo dia, uma carta que ele havia escrito retornou sem resposta e ele, preocupado, foi ao castelo onde ela habitava mas fora impedido de entrar então decidiu invadir e bisbilhotar sem que ninguém o notasse. Lá dentro viu uma sala trancada que tinha uma porta gigantesca; pensou ter ouvido a voz da princesa vindo daquela porta então parou para ouvir com atenção. O que ouviu não o agradou, o que ouviu o destrui de uma forma que ele mesmo não compreendeu; ouviu que a princesa se casaria dentro de um mês; uma única lágrima se formou e escorreu de seu olho e ele voou para longe novamente, porém, dessa vez ele voou para tão longe mas tão longe que não sabia onde estava; tão longe que tudo que ele podia ver era escuridão; tão longe que, na realidade não saiu do lugar; tão longe… Que na verdade ele não voou pra lugar algum.
Ele retornou para sua caverna tentando retomar a vida que tinha antes, mas sentia um vazio inexplicável; algo faltava, mas não conseguia ver o que era ; não entendia que o vazio que via na caverna na verdade era um vazio dentro de sí, até que um dia a fada de outrora o fez uma visita, perguntando-lhe se havia encontrado a resposta que procurava e ele negou, mas disse que gostaria de entender a resposta que ela havia dado antes. Ela sorriu e disse que ele já tinha a resposta. Ela lhe disse para refletir, lhe deu adeus e então partiu.
De início ele ficou confuso, mas depois de um tempo ele lembrou da formiga que trabalhava, do garoto que dava rosas a seu cachorro falecido, lembrou de tudo que passou ao longo dos anos junto a princesa; depois de ainda um pouco mais de tempo, ele entendeu que a chama era algo que aquecia, porém que também queimava, assim como a formiga e seu trabalho, assim como a história dele com a princesa; a chama era fácil de ser acesa, porém ela apaga quando não há nada pra nutri-la, assim como o garoto e suas rosas, ou como as cartas que ele trocava com a princesa ; que a chama era uma mistura de algo poderoso e ao mesmo tempo frágil; que ao mesmo tempo em que preenchia enquanto presente, deixava um vazio enquanto ausente, assim como a princesa. Nesse momento ele percebeu não só o que era amar, mas percebeu também que a amava.
Sem perder mais tempo, ele saiu de sua caverna e foi em busca dela, convicto de que nada o impediria, se houvesse paredes ele as derrubaria com sua força de vontade; se houvesse obstáculos ele os queimaria com o fogo de seu sentimento e se houvesse distância ele a alcançaria com as asas de seu coração. Então, passando por tudo e todos ele a alcançou, ainda incerto, perguntou pra ela sobre o casamento e, ao ouvir que fora tudo arranjado pelo rei, sentiu-se satisfeito e todas as dúvidas que tinha foram embora.
Ele a pegou nos braços, dizendo ter descoberto o que era amar e então voou para mostrá-la o garoto das rosas, depois até encontrar a formiga e por fim a fada. Ele explicou tudo o que descobriu sobre amar e ela pediu uma demonstração. Ele pensou por alguns segundos e depois a beijou com ternura . Ela sorriu alegremente e lhe disse que já era hora de revelar o conhecimento que o faltara e o abraçou com força. Ouviu um susurro que ecoou em seu coração:
Eu também te amo…
Fim
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