“Kalil leva um direto de direita! Shawk avança furioso para cima do salamandra! Mais uma tentativa de nocaute e... joelhada de esquerda de Kalil no último instante! Os dois lutadores seguem furiosos nas quartas-de-final do torneio que irá eleger o novo campeão na categoria de 18-20 anos. Já é o quinto round e nenhum dos dois parecem desistir de avançar mais um passo rumo a grande final! O público faz o chão tremer junto com os golpes pesados de nossos combatentes!”

Era raro o bairro de cianus receber torneios de artes marciais, ainda mais uma bem conhecida do público. As pessoas que acompanhavam a luta naquela noite sabiam que um espetáculo como aquele não se repetiria tão cedo, então fizeram favor de aproveitar a chance de ver a estrela de seu bairro, o azarão Kalil “O Salamandra” vencer o ferrenho adversário e encher o orgulho daquelas pessoas que não tinham muito entretenimento além da televisão e dos computadores que recentemente chegaram ao bairro em massa. O pequeno ginásio dentro da maior escola do bairro paulista abrigava quatrocentas pessoas afoitas com a vitória de seu lutador.

Da parte de Kalil, ele pouco se importava com a torcida. Desde que entrou no torneio, só pensava em terminá-lo de uma vez e seguir para o próximo passo, rumo ao título mundial. Ao contrário do que muitos pensam daquele rosto branco fechado, o jovem lutador de muay thay não almejava fama ou dinheiro, e para dizer a verdade, ele se irritava com quem tentava convencê-lo a seguir este propósito. Assim, desde o narrador até os falsos amigos que fizera durante o combate, o jovem salamandra apenas se focava em tentar vencer aquela luta o mais rápido possível, nem que tivesse de usar métodos incomuns...

Kalil e Shawk olhavam-se com cólera. As posturas de combate eram rígidas, com os pés preparados para um bom chute e os punhos fechados para o momento certo de atacar. Tanto um como outro não deixariam outra chance de sofrer um contra-ataque violento como os que sofreram nos últimos segundos. As luzes do holofote ficaram fortes a ponto de terem que serrar os olhos, conseguindo se adaptar rapidamente ao ambiente caloroso e fechado da gaiola de combate. Não esperando a reação de seu oponente, shawk colocou seu massivo corpo para frente, usando toda a extensão do braço direito para abrir caminho entre a guarda de kalil e terminar numa sequência mortífera. O salamandra olhou friamente para seu oponente, e num piscar de olhos já estava embaixo da linha de ataque que seu adversário havia usado para tentar pegá-lo, e deixou a marca de seu punho no estômago de shawk, com um golpe certeiro.

Os dois continuaram trocando golpes violentamente. O minuto e meio que faltava para fechar o round pareciam muito mais longos. Pessoas normais provavelmente cairiam no primeiro golpe de um dos lutadores. E seria necessário pelo mais uma dezena deles para derrubar alguém como o salamandra, e shawk percebeu este detalhe. Usando uma sequência de dois socos e um chute com a direita mirando o fígado do rapaz loiro de cabelos curtos e revoltosos, o gigante de olhar malicioso não queria só vencer a luta; queria ver o jovem humilhado, e arrependido de entrar no “mundo dos profissionais”. Kalil conseguiu desviar dos socos, mas o chute o pegou em cheio. Deixando-se levar pelo ligeiro desequilíbrio, o salamandra deu alguns passos para o lado e tomou a investida contra seu algoz. O olhar de lobo faminto não desmoronou com a dor aguda nas costas, e mais uma vez disparou com uma sequência compacta.

Só faltavam agora trinta segundos para terminar o assalto. A pressão dos socos, chutes e joelhadas dos lutadores de muay thay era impressionante, pois ambos os combatentes sentiam a pressão do ar passando pelos corpos após desviarem dos golpes mortais. Vendo que sua vantagem estava se esvaindo assim como o tempo de luta, kalil aumentou a rapidez de seus ataques, usando uma “energia reserva” que poucas pessoas são capazes de usar. Lentamente, pequenas partículas alaranjadas, como minúsculas bolas de fogo, começavam a surgir dos punhos do salamandra, que na cabeça de shawk, tratavam-se de uma ilusão ótica. “O drunk punch deve estar fazendo efeito. Que merda”, pensou o gigante.

O salamandra estava pronto para terminar a luta, vendo que a vantagem era dele novamente. Shawk pensava o mesmo, olhando o ponto aberto que seu jovem adversário deixou livre para um chute fatal. Tomando uma pequena distância, o punho direito de kalil e a perna direita de shawk iriam se encontrar em definitivo, quando o gongo declarando o final do quinto assalto terminar, para o desespero da torcida que acompanhava estarrecida e para os dois lutadores que pareciam não aguentar mais.

Kalil voltou para o canto onde estava seus auxiliares. Apesar do treinador deixar alguns conselhos valiosos, o salamandra apenas focava seu pensamento em derrubar o adversário sem abusar de sua “força misteriosa”, enquanto molhava a cabeça com a água dada pelo outro auxiliar, bagunçando o cabelo rebelde, que curtos mostravam ainda mais o jeito aparentemente revoltado do salamandra. Kalil fechou os olhos por um momento, lembrando-se do objetivo que o mandara para aquele torneio que mais parecia um circo de tamanha agitação do público.

E de repente, o silêncio.

AH, MERDA! Já é a terceira vez em menos de dois meses! Eu não ativei nem um terco meu pneuma, inferno!

De súbito, todo o ginásio que acomodava a intensa luta ficou vazio: a plateia, os narradores e comentaristas, os auxiliares e até mesmo seu adversário sumiram, deixando kalil sozinho, tendo apenas as luzes do ginásio como guia para não se perder. Ainda que tenha se segurado para não ativar seus poderes latentes, o salamandra não foi capaz de se esconder sua real natureza dos seres que não são deste mundo, e agora vai ter de encarar aquelas criaturas estranhas em meio a um combate oficial, desgastando ainda mais sua estamina.

Já se preparando na posição de lutador, kalil concentrou sua pneuma, a energia que torna os elementais aquilo que são, nos punhos cobertos pelas luvas pequenas que deixavam os dedos expostos. Pouco a pouco as luvas eram cobertas por chamas de um vermelho intenso e insano, prontos para atingir o primeiro que entrasse na linha de visão dos olhos verdes tímidos e ferozes do lutador. A perna esquerda do elemental se projetou para trás, e os punhos estavam a uma boa distância do rosto, com o direito capitaneando a investida contra o novo desafiante. O salamandra já estava pronto para o embate extra do torneio de muay thay, que nem a própria federação sabia.

Em poucos instantes, um portal na forma de um triângulo rosado e invertido surgiu, e o que parecia ser um olho no centro da forma geométrica abriu-se para a chegada do kenomiano intrometido. Já conhecendo o adversário, kalil deixou sair um sorriso sarcástico do rosto, enquanto esperava o tradicional grito da fera para anunciar sua vinda ao mundo material, acreditando que na intimidação de seus inimigos conseguiria a vitória.

Pode vir, sua coruja de merda. Vou te acertar com tanta força nesse portal dos infernos que ele não vai ter tempo nem de desaparecer!

Com este discurso típico dos metidos a valentões, papel que o elemental do fogo interpretava terrivelmente, kalil avançou como um coiote faminto contra o invasor. Parece que a luta extra desta vez irá terminar em tempo recorde. O kenomiano da vez possuía um corpo de cor amarronzada, coberto de uma pelugem peculiar, lembrando muito as penas de uma ave de rapina. A postura quadrúpede era opcional, já que o monstro conseguia ficar sob duas patas, lembrando muito um urso. Mas toda aquela forma alienígena fazia fugir a impressão do mamífero. Garras enormes surgiam do que deveriam ser as mãos, que pareciam ser capazes de rasgar a carne da mesma forma que uma pessoa normal consegue rasgar o papel, e a cabeça, que lembrava vagamente o rosto de uma coruja, misturava-se ao tronco, não tendo um pescoço. Vendo o elemental do fogo avançar, a criatura terminou seu guincho de anúncio dando uma arrancada com as patas traseiras, menos ameaçadoras que as armas naturais dianteiras, mas ainda sim musculosas o suficiente para permitir uma investida veloz para aquele corpanzil estranho.

O demônio-coruja preparou suas garras para acertar as costelas de kalil, sem perceber que os punhos do combatente, imersos em chamas, estavam a altura da boca em forma de bico. Conhecendo a estratégia, idêntica a do adversário oficial da gaiola, era conhecida do salamandra, e sem remorso algum, desferiu seus socos de fogo numa sequência rápida, lançando o monstro alguns passos trás, desnorteado por perder seu impulso aparentemente invencível. Os olhos de kalil estavam fixos tanto na criatura como no portal, que começava a desaparecer lentamente como uma estrutura se definhando. Esquentando os punhos mais uma vez, agora tomando a forma de cabeças de lobos, o salamandra avançou com velocidade, segurando um pouco de seu pneuma na perna esquerda.

O kenomiano percebeu o avanço e a força contida pelo elemental, e antes que aquele golpe desse fim a sua existência, deixou preparado uma de suas garras para atingir seu inimigo, esperando que aquela armadilha o deixa-se ferido o suficiente para que outros monstros como ele avançassem em seu lugar. Kalil bradava em sua mente contra a besta, e colocando a perna direita a frente como apoio, desferiu os Punhos do Lobo Vermelho, acertando em cheio o peito do demônio-coruja. Vendo a garra esquerda do monstro chegar perto de seu ombro, a ponto de perfurá-lo de relance, o elemental do fogo fez valer a alcunha de Salamandra: usando o pneuma acumulado na perna esquerda, kalil a ergueu com a maestria que somente um lutador profissional seria capaz de realizar, trazendo junto com ela uma língua de fogo imensa, chicoteando com fúria seu inimigo para trás, não antes de arrancar a garra ameaçadora do corpo da fera com o impacto do chute, tornando o braço arrancado um monte de pontos azuis que desvaneciam no ar, junto com a fera que desaparecia antes de se encontrar com o portal destruído.

Kalil regojizou-se de usa vitória rápida, enquanto dava um ligeiro suspiro. Afinal, ele conseguiu terminar o combate antes mesmo do portal que trouxera seu oponente indesejado desaparecesse. Apesar de ser atacado várias por kenomianos desde que se tornara um elemental, era a primeira vez que derrubava um demônio-coruja com tanta facilidade. Infelizmente, não foi uma luta perfeita, já que aquela garra afiada conseguiu passar de raspão pelo braço direito e ombro do lutador, saindo um pequeno filete de sangue de ambos os lugares. Tentando aparar a ferida com uma das mãos, o salamandra viu a barreira que fizera sumir com todas as pessoas a sua volta desaparecer, se destruindo como vidro, terminando com aquele espetáculo destinado apenas a poucas, e corajosas, pessoas.

No instante em que o combatente fechou e abriu os olhos, os gritos eufóricos da multidão que acompanhava a luta tornavam-se cada vez mais altos, e os auxiliares não entenderam o porque de kalil ter se levantado no intervalo da luta, e ficaram ainda mais surpresos com o braço sujo de sangue. “Odeio quando estes monstros aparecem no meio das minhas lutas”, pensou kalil enquanto dava uma desculpa já bem forjada para seus auxilares, voltando para seu lugar. Ainda tinha energia para continuar lutando contra seu verdadeiro inimigo, mas teria que tomar cuidado para não falhar num momento tão crítico. Improvisando uma atadura com um pequeno pedaço de corda típico dos lutadores de muay thay quando se apresentam para lutar, o salamandra voltou para a luta ao soar do gongo, pronto para terminar a noite e ir descansar para a próxima luta, daqui a algumas semanas.

Shawk olhava com a mesma malicia de antes para seu oponente. Acreditando que kalil estaria doente, o gigante lutador foi com a mesma investida do demônio-coruja que o salamandra acabara de enfrentar, que aliás era a mesma do round anterior. Olhando triunfante, Kalil refez a posição da vitória anterior, mas desta vez colocou a perna esquerda a frente, girando todo o corpo com ela. Em um instante de segundo, a perna direita de kalil levantou-se com uma rapidez ainda maior do que no golpe contra o kenomiano, mas sem artes elementais desta vez. O movimento perfeito terminou na mandíbula de shawk, encaixando o calcante exatamente no lado direito do rosto do arrogante lutador, que caiu imediatamente ante a potência do chute. Kalil ainda manteve a perna erguida durante alguns segundos, abaixando lentamente, e recebendo mais exclamações do público, que o aplaudiu de pé.

Com um nocaute perfeito, o salamandra avança para a semi-final do torneio de muay thay em cianus. A próxima fase ainda será no bairro natal, e o jovem sai da gaiola sem demonstrar um pingo de triunfo. Sua raiva por ter sido interrompido no meio do combate por um kenomiano ainda não havia passado, mesmo tendo vencido com muito esforço as duas lutas. A incidência de invasores do caos estava aumentando desde que entrara no torneio, há seis meses, o que o deixava ainda mais determinado a ir até as finais.

Horas mais tarde, kalil voltou para a academia de artes marciais onde conheceu o muay thay, e onde conheceu os dois motivos que o levaram a ser tão obstinado. Tudo ainda estava intacto: os sacos de areia, os equipamentos de treino e as máquinas para ginástica, e o pequeno ringue para lutas treino. Jogando a mochila onde guardava o uniforme ao lado de um dos bancos, o salamandra entregou-se ao cansaço deitando no banco confortável. Olhando para o teto, lembrou-se do tempo em que treinava ali, usando as lutas como um meio de conseguir comida para não morrer de fome e um teto para não morrer de frio. Lembrou-se dos colegas de academia que o ajudavam e o atrapalhavam nos treinos, e lembrou-se dos dois motivos que o mantinham de pé.

“Arjarn, vandinha, eu vou achar vocês e vou dominar o presente que me deram. Me esperem, por favor.” Aquele pensamento se repetia toda noite, e era a razão que fazia Kalil ser quem era. E não se arrependia em nenhum instante. Iria fazer por merecer a alcunha de Salamandra, e achar aqueles que o mantinham em pé.

FIM

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