A Casa sem Relógios
3 Parte Três
A casa sem Relógios
Parte Três
A noite era clara e calma dentro da pequena igreja da cidade. Erguida há muitos anos sobre o solo da velha aldeia indígena. Diziam as línguas más, que ali também fora um cemitério, onde talvez, os chefes da tribo enterrassem seus bravos guerreiros, mortos durante a colonização. Há também quem diga que tudo isso é mentira, e que serve apenas para atrair alguns poucos turistas. Na pequena igreja, porém, havia um homem pouco preocupado com as falações do povo, e ocupado com casos mais sérios de devaneio. O velho padre Lúcio, ouvia atentamente o relato do D. Fernanda sobre o desaparecimento dos garotos na velha casa macabra.
- Oh, padre! Aquela casa abriga o demônio!
-Acredite, dona Fernanda, o diabo tem mais o que fazer à ficar assustando vocês. Isso me parece mesmo é outra coisa...
-O que lhe parece, padre?
-Parece, não. Tenho certeza de que se trata de um poltergeist. Ou, simples fantasma, como é mais conhecido.
O padre tentou convencer a mulher de que tudo ficaria bem, dizendo-lhe que o tal fantasma desapareceria completamente, e por vontade própria, dentro de apenas alguns meses. Sendo que, todos os moradores podiam ficar tranquilos. Mas, no fundo, o padre já sabia o que o esperava pela frente. Teria que ir até a casa, e salvar a alma daquela pobre criatura, livrando-a da maldição.
Ao anoitecer, o padre Lúcio entrou pelos portões de dobradiças enferrujadas da garagem inutilizada, depois caminhou até a porta da frente que levava à sala abandonada.
As paredes cheiravam a mofo, as madeiras estavam quase todas podres e havia ainda outro cheiro desagradável no ar. O cheiro da morte exalava em todos os cômodos.
O padre subiu as escadas, desejando que tudo não passasse de meras suspeitas. Seguindo o terrível odor da podridão chegou ao quarto no fim do corredor. A lua iluminava seus rostos contorcidos. Os jovens amontoados num canto do quarto, começando já a decomporem-se. Aparentemente, morreram todos asfixiados, o que é absolutamente plausível na presença de um poltergeist, já que estes sugam, por assim dizer, toda a vitalidade do que está a sua volta.
Ereto, junto a janela, estava o fantasma. Parecia fitar o infinito com seus grandes olhos sem vida.
-O que quer aqui, amigo? Sabe que matar não é um bom negócio, certo? Eu posso te ajudar a se libertar dessa maldição que te aprisiona aqui! Apenas confie em mim, e tudo dará certo.
Um frio olhar, foi tudo o que o padre conseguiu como resposta. Lúcio sentia-se já, levemente sufocado pela presença daquele ser nevasto.
Respirando com muita dificuldade, o padre tirou do bolso um pequeno frasco de àgua. Num rápido movimento, lançou o liquido sagrado sobre o fantasma que se contorceu todo, soltando berros assustadores e raivosos. Outro frasco de àgua benta foi ainda lançado sobre as costas do espírito maligno. Enquanto a criatura queimava, o padre pronunciava estas palavaras :
-Vá, meu irmão! Agora estará livre para seguir o seu destino. Poderá adentrar no paraíso de nosso pai, pois sua alma acaba de ser perdoada.
Fim
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