A Casa de Vidro

3 O Começo de uma grande amizade


Yuen estava lendo as cartas enquanto Guro analisava as fotos encontradas.

—São fotos em preto e branco, mas é mais preto que branco, está difícil de analisa-las.

—Quer trocar? -Perguntou Yuen enquanto tirava o lacinho vermelho da carta que o impedia de lê-la.

—Não, tudo bem. –Voltando a olhar para as fotos. –Elas estavam no porão, certo?

—Sim.

—Então porque estão tão amareladas? Entendo que possam estar velhas, mas estão muito velhas! -Voltando a ver a foto. –E pelas suas pontas, pelo jeito já esteve em um incêndio.

—As cartas também. –Respondeu Yuen, largando-as sobre o balcão.

—A data é de oito de março de... 1885. Realmente velhas, já é 2010.

—De fato, mas olhe essa mulher. –Apontando para o centro da foto.

—Que mulher? – Perguntou Guro sem entender.

—Essa, que bela. –Observando melhor, notou algo atrás dela. –E tem alguém com ela.

Nesse exato momento, Guro saiu correndo após ouvir Hemy.

—Solte-a agora.

...

—Hemy, você está bem? Hemy? –Segurando seu corpo enquanto tentava ouvir sua respiração.

...

Só o corpo de Hemy estava lá, e isso se pode chamar de corpo.

Demônios tinham mania de aparecer e sumir de repente, mas não de fazer viagens além do plano astral. Não involuntariamente, obrigada por outra pessoa.

Escuridão. Seres de todos os tipos, a mente e a fé dos humanos criou muitos deles e por não terem lugar para ficar no mundo, foram para o inferno e agora são chamados de demônios, capazes de sair daquela escuridão apenas quando seus criadores os chamarem pelos seus medos.

Nem todo demônio foi criado de tal forma, mas Hemy era uma das que foi criada por uma criança que tinha medo do escuro. Essa criança nunca a chamou, por mais que tivesse medo do escuro, a lua sempre iluminou seu quarto.

Talvez por isso que Hemy odiasse a lua, mas ao mesmo tempo, amasse sua luz.

Com os anos, Hemy foi ficando velha, e uma vontade de ser mãe cresceu nela. Mesmo com uma aparência de quem tem apenas 17 anos.

Demônios não costumavam ter desejos, mas Hemy teve. Seu desejo era de conhecer a criança que tanto teve medo dela, não para fazer mal, como os outros costumavam fazer, mas para agrada-la como mãe, ou um anjo da guarda.

Um vestido branco, asas grandes e cheia de penas negras, além do cabelo cor do fogo, essa era Hemy.

Demônios podem ser criados por um, mas podem assombrar a qualquer um com o mesmo medo.

Nunca tendo saído, descobriu que a criança que a criou era problemática, sempre com medo, Hemy teve muitos “irmãos”, saiam sempre, e uma hora ou outra, não voltavam mais. Todos estavam ficando no mundo o tornando o próprio inferno.

Naquela escuridão, Hemy não avistava mais ninguém por perto, estava disposta a caminhar por lá sozinha, descobrindo mais sobre as profundezas do inferno, além de querer descobrir de onde os humanos tiraram o fato de o inferno ser quente e que, nessas alturas, já deve ter algum lugar do inferno assim.

Andava e andava a procura desse lugar quente quando avistou uma fumaça e em seguida um liquido vermelho, laranja e amarelo.

—Achei! –E correu disparadamente até as lavas que acabará de avistar. –Quente muito quente! – Uma alegria tomou conta de Hemy que foi logo tirando as roupas e pulando na lava. Não era fogo, mas também não era água quente.

—Como você pode se divertir nisso? –Perguntou um homem alto com uma pele acinzentada e morena ao mesmo tempo. Estava parado, apenas observando Hemy.

—Quem é você? –Perguntou Hemy enquanto saia da lava e ia em direção a suas roupas.

—Deve ser nova aqui, bom me chamo Joseph, sou o medo de estátuas.

Hemy começou a rir e isso acabou deixando Joseph todo sem graça.

—Quem tem medo de estátuas?

—Crianças tolas e ingênuas, não ria!

—Aquelas estatuas que não usam roupas né? –Perguntou Hemy enquanto analisava o seu corpo. –Não sou nova aqui, apenas vim de um lugarzinho do inferno mais distante.

—E você, qual seu nome? –Perguntou ele se aproximando de Hemy.

—Hemy, medo da escuridão e do fogo.

—Medo de você? Deve ser nada inofensiva. –Disse Joseph com um sorriso sarcástico no rosto. –Crianças urinam na cama após te ver?

—Nunca sai. – Respondeu Hemy com uma expressão séria.

Joseph ficou surpreso e aquietou-se por alguns segundos, em seguida sentou no chão e começou a observar a lava.

—Também não.

—É sério? – Sentava no chão ao lado de Joseph e encostava a sua cabeça em seu ombro. –Por quê?

—Ele só temeu de mim uma vez, por estar em um lugar cheio de estátuas, tinha apenas meses de vida, mas já descoberto o que era medo.

Os demônios são capazes de ver seus criadores quando fecham seus olhos.

—Com o tempo, passei a querer cuidar dele como pai ou. –Nesse momento, foi interrompido por Hemy.

—Eu também!

Viraram então amigos, compartilhavam os acontecimentos de seus criadores um com o outro. Divertiam-se juntos no inferno enquanto os dias passavam.

—Venha, pule! –Disse Hemy que estava nas lavas enquanto estendia suas mãos para Joseph.

—Mas é frio.

—Frio? É quente, e muito. –Surpresa com o comentário que acaba de ouvir.

—Sou meio estátua sabia? Não sinto o calor, quanto mais quente, para mim mais frio é.

—Que decepção. – Disse Hemy saindo das lavas e pulando em cima de Joseph fazendo-o cair.

—O que esta fazendo? – Perguntou confuso.

—Apenas relaxe. – Beijando seu pescoço e em seguida lambendo.

Mais dias se passaram, Hemy estava mais feliz do que nunca o que no inferno, isso não era permitido.

—Me conte o que ele está fazendo! –Disse Hemy enquanto fechava seus olhos e segurava a mão de Joseph.

—Ele está correndo até a arvore que ele gosta de ficar em baixo, sobre a sombra lendo livros, como sempre! E ela?

—Está indo até essa arvore... Eles vão se conhecer!

Os dois ficaram bobos, abriram os olhos e olharam um para o outro, riam, e muito.

—Diga-me Joseph, o que consegue fazer? Além de não sentir o “calor”.

—Virar cinzas e, acho que diferente de você, eu posso aparecer para todos no mundo como se eu fosse um humano.

—Que engraçado, no meu caso é só para alguns, ainda bem que você é um deles. –Disse Hemy mostrando a língua para Joseph.

—Boba.

Os dias de eles saírem ainda não tinha chegado. Muitos demônios estavam aparecendo por lá e saindo com a intensão de fazer mal aos humanos, os dois eram os únicos que tinham desejos de cuidar de seus criadores, mas...

Diferentes deles, os humanos envelhecem e têm mais facilidade para morrer...

Então a hora deles partirem chegou, e, concidentemente no mesmo dia.

Hemy e Joseph ficaram em choque. Seus criadores não eram mais crianças, já tinham deixado filhos e netos no mundo. Então foi ai que, os dois decidiram que cuidariam de suas linhagens até o dia que saírem do inferno e pudessem cuidar deles como filhos.

Eram grandes amigos, mas o destino os separou. Conversavam apenas por cartas e quando se encontravam, sendo entre dez a dez anos, tiravam uma foto para lembrarem-se para sempre um do outro e se reencontrarem em outra vida.

Joseph nunca foi muito de contar sobre a vida de seu criador, só sabia-se que sua esposa morreu após ter o terceiro e ultimo filho, ainda sim os criou bem e nos últimos meses de vida acabou ficando com depressão, parando de entregar cartas para sua amiga que estava tão distante, mas partindo no mesmo dia que ela.

Já Hemy tagarelava sobre sua criadora, o quanto era feliz com seu marido e seus filhos e o quanto era esperta e boa cozinheira que, aprendeu a ser com o seu melhor amigo.

—Não tenho mais pressa para sair daqui, Joseph.

—Por quê?

—Sei que ainda ira demorar a esse dia chegar, e sinto que, teremos uma surpresa a nos esperar...

—Eu sei como me sente... –Colocando suas mãos no ombro de Hemy e cochilando.

Mas enquanto isso, Hemy...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.