Notas iniciais
Acomodem-se em suas cadeiras e preparem-se para mais um capítulo de A Casa das Rosas Brancas.

• CAPÍTULO 2 • ISABELLE •

Para alguns internos, a Casa das Rosas Brancas tornava-se um lar, o lugar onde eles morariam até o dia em que atingissem a maioridade, pelo simples fato de serem velhos demais para alguém sequer pensar em adotá-los. Alguns, a partir de determinada idade, começavam a afligir-se, mas, para Isabelle, havia um tipo de conforto em saber que não dependeria de um estranho estando prestes a alcançar sua tão esperada independência.

Assim sendo, a figura de Isabelle — a garota alta e magra, de cabelos compridos, escuros como ébano, e olhos verdes — fazia tanto parte da paisagem quanto a imitação do quadro “A Queda”, de René Magritte, que adornava a entrada do orfanato. Internos assim eram, também, uma fonte inesgotável de histórias e lendas. E talvez tenha sido por isso que a garota fora procurada naquele dia de manhã, pelo menino novo.

— Estou dizendo para você, Celeste, foi como uma das histórias que eu conto, só que mais arrepiante, porque ele parecia estar falando a verdade — dizia Isabelle, reportando o acontecimento para a amiga que, no dia anterior, apresentara o orfanato à Franklin. — O menino novo disse que estava brincando com um outro menino que ele conheceu aqui mas, quando a velha Gal chegou, não havia ninguém do lado dele. Aí, durante o jantar, o menino apareceu do nada...

— Qual dos dois? Foi menino novo ou o menino fantasma que apareceu do nada?

— O menino fantasma, claro — resmungou Isabelle, como se fosse óbvio. Continuou: — O menino apareceu do nada e perguntou “brinca comigo?”. Estou dizendo. Assustador. E aconteceu de verdade.

— Belle, você não sabe se aconteceu mesmo ou não — Celeste rebatou, com seu ceticismo. — Acontece com a maior parte de nós. Quando chegamos aqui, todos temos esse tipo de alucinação. Lembra-se de quando você chegou aqui?

— Eu era uma medrosa. Mas, estou te falando, é diferente desta vez — disse Isabelle, com convicção.

— Para você, sempre é.

Celeste e Isabelle eram colegas de quarto desde sempre. Assim, não era estranho o ceticismo de Celeste, considerando que a amiga tinha o frequente costume de inventar histórias sobre o orfanato, apenas para assustar as crianças. Quando criou a história sobre o espírito que costumava vagar pelo refeitório, caçando crianças, o local foi constantemente evitado por duas semanas.

Enquanto conversavam, Margô, a cozinheira, saiu gritando pelo pátio, avisando que o almoço estava pronto. Imediatamente, uma aglomeração de cabeças reuniu-se na entrada do orfanato, todas querendo entrar e acomodar-se próximo à mesa central. Este era um dos motivos para que, na Casa das Rosas Brancas, os domingos fossem dias especialmente aguardados. Estes eram os dias em que Isabelle recebia seu momento de fama, o dia onde contava suas histórias. E, embora assustadoras, todos gostavam de uma boa lenda.

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Todos estavam no mais absoluto silêncio. Naquele momento, até mesmo as cozinheiras pararam de mexer em suas panelas e, as respirações, eram tão baixas que se poderia ouvir até mesmo o mínimo remexer de uma pessoa em um banco. A Casa das Rosas Brancas estava envolta num silêncio sinistro, o palco perfeito para uma história de terror. Talvez o único lugar onde os habitantes poderiam, de fato, acreditar em lendas sobre monstros e espíritos.

Isabelle contemplou os rostos à sua frente e, assim que sua boca abriu, todos os corpos inclinaram-se para frente. Ela suspirou.

— A história de hoje é sobre algo que realmente aconteceu aqui, há alguns anos. Foi antes mesmo de eu chegar aqui, embora tenha sido tão sinistro que passou de geração em geração, porque a qualquer momento pode acontecer com um de vocês — começou sua história, enquanto via um ou outro rosto contrair-se.

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Os olhos negros são o primeiro indício de que algo está errado. Da próxima vez que olhar para uma janela ou espelho, é melhor se prevenir. Elas poder estar lá, olhando para você. As crianças de olhos negros.

Não se sabe como começou mas, durante algum tempo, na Casa das Rosas Brancas, crianças começaram a morrer, uma atrás da outra, o que, naquele tempo poderia ser considerado normal. Mas elas voltavam, uma por uma.

Começaram a perceber que algo estava estranho, quando coisas começaram a desaparecer. Em um dia você colocava algo dentro de seu baú e, no outro, o objeto simplesmente sumia e aparecia num novo lugar. Afinal, crianças gostam de se divertir e, aquelas em especial, queriam sentir-se vivas.

Nos cantos escuros, podiam-se observar formas pequenas, que, assim que recebiam um pouco de luz, simplesmente sumiam.

Durante a noite, elas apareciam do seu lado e sorriam para você. Poderiam te perseguir e, algumas vezes, te tocar, porque os mortos são privados dos sentidos e querem, desesperadamente, provar o gosto da vida novamente.

Algumas dessas crianças também tinham fome, e atacavam os internos. Perceberam, aos poucos, que aquilo, aquele contato com os vivos, fazia com que o gosto da morte ficasse menos intenso. À noite, ninguém estava seguro.

Você poderia estar dormindo, quando sentia algo sobre você. Uma pressão incomum. Quando você abrisse os olhos, veria uma criança de olhos negros, molhados por lágrimas de malícia. Dentes amarelados cravar-se-iam em você e, quando tentasse escapar, as mãos em garras segurariam você, com sua pele áspera.

Não havia nada que pudessem fazer. Os filhos do demônio, como foram chamados, incrustaram-se na alma da Casa das Rosas Brancas e nunca mais a deixaram. Os casos diminuíram com o tempo mas, de vez em vez, as crianças despertam, com fome de vida, e não há nada que possa detê-las.

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Isabelle terminou a história com satisfação. Viu o novato, Franklin, estremecer em seu lugar. É claro que iria. Sua história fora propositalmente baseada no caso contado, e, com maestria, moldada para parecer mais assustadora. Afinal, apenas algo ainda presente poderia causar medo.

Com ar altivo, Isabelle levantou-se e retirou-se do refeitório, fazendo uma pose dramática. Àquela altura do campeonato, já sabia o tempo certo para sair, após contar uma história. Sua próxima parada foi o dormitório feminino, no terceiro andar. A saída estratégica também garantia que ela fosse a primeira a usar o banheiro para um banho, o que significava que tudo estaria limpo, quando ela chegasse.

Já em seu dormitório, tirou suas roupas e colocou uma toalha azul ao redor do corpo. Ia em direção ao banheiro quando estacou. Pelo canto dos olhos, viu um movimento estranho. Parecia uma mulher usando um esvoaçante vestido branco.

Claro. As histórias deveriam estar afetando sua mente. Foi o que pensou, quando caminhou até o espelho do banheiro. E, olhando para este, Isabelle viu a forma com clareza. Havia uma mulher alta atrás dela. Alta, de tez pálida e olhos escuros.

Então, a mulher sumiu e Isabelle gritou.

Notas finais
E ficamos por aqui. Gostaria de dizer que será com esta frequência que postarei a história, com capítulos quinzenais, à exceção dos extras (como a reportagem de jornal) que poderão ser postados à qualquer momento. Mais uma coisa: a história que Isabelle conta é baseada no conto As Crianças de Olhos Negros, se vocês quiserem saber mais, o link é https://www.youtube.com/watch?v=3wpXzBqfSrs O que acharam??
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.