A Casa da Lua

1 Valsa dos Mortos


Notas iniciais
Dedico este capítulo a todas as pessoas que como eu, sabem como a morte é dolorosa e o luto algo muito difícil.
Espero que gostem, assim como eu.
Boa leitura!

Direciono os olhos para as persianas empoeiradas devidamente fechadas, esticando as mãos ao cordame, abri-o, permitindo a passagem de luz. A casa cheira a antiquários e pinheiros e o quintal que se estende depois dos vidros está abandonado, cheio de entulho da natureza balançados pela brisa mórbida e silenciosa. Um barulho. Meus olhos se voltam para a parede e não há nada. As cores da sala são tons pastéis, o cômodo bem espaçoso agora se encheu do ar de proveniente de fora. Encaro os móveis antigos e conservados, conseguindo visualizá-los acomodando pessoas importantes do século passado. Mas a casa é melancólica e sinto arrepios sempre que alguma coisa é tocada. Há algo errado aqui. Comprei esta casa nos arredores de São Francisco para fugir da lembrança dos meus pais, essas feridas nunca cicatrizam, continuam intactas, pertinentes e dilacerantes. A ausência de alguém é uma dor que não pode ser suprida. Depois de quatro anos daquele incidente, ainda ouço suas vozes, ecoando em minha memória como saltos em um corredor de mármore, agudos e inconfundíveis.

Hoje, completo dezoito anos e estou sozinha bebericando chá de canela, o cheiro agradável espalha-se ao redor e permito-me fechar os olhos para reviver o dia do funeral outra vez. Sempre alheia ao resto do mundo, estive assistindo todos voltarem a suas rotinas normais. Amigos, familiares, meu irmão... Aparentemente era a única que nunca conseguiria seguir em frente. Pelo menos mudar de ambiente parece me fazer bem, toco meus cabelos curtos, repicados e escuros, não parecem mais um ninho de ratos e a pele clara dos braços não tem marcas de cortes recentes. "A dor é lancinante, viciante. Se você aprender a viver com ela, acostuma-se e faz dela uma companheira”. Pensamento de um autor idiota, na minha opinião. Será que quem escreveu isso realmente convive com a dor? Nunca me acostumei a ela.

Um arrepio. Volto a atenção para as janelas abertas e e sinto um frio repentino, medo e insegurança. “Você tem medo do que não pode ver ou compreender.

Caminho até a cozinha, observando os armários, geladeira, pia, fogão, mesa e vários outros objetos típicos. Seus tons escuros são tristes, não deixo de notar que eles parecem-se com meu estado emocional. A mudança para esta casa foi rápida, me disseram que ia ser algo bom, mas quando cheguei logo vi que era calada e fria como eu, porém ao contrário da vegetação que cresce do lado de fora verde brilhante, não me sinto viva. Retiro alguns legumes e pego o macarrão da despensa. Uma sopa pode ajudar, estou a alguns dias aqui e sempre me sinto observada, arrepiada, a sensação de que existe algo errado nunca me abandona, como se a qualquer momento as paredes ganhassem vida e começassem a falar, isso seria interessante.

Deixo a panela com a massa no fogo e subo até a biblioteca. “Os livros estão vivos para aqueles que os lêem.”, não me sinto tão sozinha aqui. Corro meus dedos pelos títulos, são antigos, mas me agradam muito. Tirei o último e atrás dele vi algo brilhar, pego e observo a corrente fina prateada, no pingente um símbolo de lua feito do que julgo ser uma pérpça, é lindo, deve valer alguma coisa. Coloco no braço, sinto algo que beira a calma. Não tenho mais medo, parece tudo perfeitamente no lugar. Estranho. Desço de volta a cozinha e apago a panela de sopa, tomo calmamente enquanto observo os detalhes da corrente. Ela envolve meus pulsos e nos elos vejo intrincados símbolos que não reconheço. Me permito sorrir, um misto de euforia e admiração pelo “achado”. A quanto tempo eu não faço isso?

As horas se passam e tento limpar algumas coisas, porém começo a espirrar e o ar falta, corro para o quarto para tirar o pó de minhas roupas. A noite chega e do meu quarto consigo ouvir uma música baixa de valsa, não me lembro de ter ligado nenhuma aparelhagem de som. Levanto e desço até a sala que antecede a varanda. Nela há muitos espelhos, imagino que seja perfeita para aulas de dança, será que o antigo morador era uma professora de ballet? Não perguntei na hora da compra.

A primeira visão que tenho é do centro do lugar, abaixo do lustre desligado. Um casal transparente valsa a melodia simples calmamente. Meus olhos se arregalam e a pulsação acelera repentinamente, com certeza minha mente está a pregar peças, isso não é possível, nem acredito em fantasmas, mas estou vendo-os, isso leva-me a questionar sobre o quanto estou sã. Estarrecida, fico olhando-os por alguns momentos, hora parecem ficar mais nítidos, em outros segundos desaparecem entre o papel de parede envelhecidos, que inclusive já perdeu a cor, assim como provavelmente meu rosto neste momento. Em seguida, mais casais surgem acompanhando aquela dança tranquila e sinistra. Olho para os espelhos, nada além de mim refletida. Eu deveria ter medo, mas me sinto calma, pelo menos não estou mais sozinha, ou talvez tenha enlouquecido. Os casais dançam sob a luz da lua que vem da janela e reflete os espectros. Transparentes, quietos e silenciosos. Algumas expressões são frias, outras amenas, mas nenhum deles sorri. Mostram a alma nua, sem máscaras? Penso no quanto isso seria curioso.

Cinco noites se passam e em todas elas acontece o mesmo ritual, já esperáva-os em uma poltrona que coloquei para assistir a valsa fantasmagórica em algum momento da segunda noite. À medida que os dias passam eles mudam, percebi que não eram os mesmos das noites anteriores e só os vejo no período noturno. Refletidos em suas formas pálidas pela lua crescente, as roupas esvoaçam como palha ao vento, não deixei de ter a esperança de ver meus pais, mas, logo desisti, vi que é impossível, desanimei e sequer tentei descobrir porque isso acontece aqui toda a noite, talvez estivesse tão morta quanto eles. É hipnótico e somente passei horas das noites anteriores observando, tentando ver alguma expressão, não fui notada. Sinto-me invisível. Logo reparei que sempre há um sentado, oposto a mim, como se os observasse exatamente como eu, entretanto, é apenas uma forma desfocada e escura, não consegui ver nada além disso.

Mas hoje os fantasmas estão diferentes.

Suas expressões passaram de indiferentes a preocupadas, a lua cresceu. Seus cabelos revoam como se ventasse muito, embora estejam dentro de casa e não haja vento algum, seus corpos tremulam e algumas vezes esbarram um nos outros, suas vestes estão mais opacas que nos dias passados. Eles flutuam a muitos centímetros do chão. Hoje não parece uma dança calma e sim desesperada, também sinto uma inquietação apertada, agonia revira meu estômago. Algo me toca. Uma criança me vê e fico reação. Ela tem o rosto infantil tomado pelo pavor, minhas mãos formigam, ofego pois seu toque é como gelo seco, embora passe por mim sem danos. A menina fantasma abre a boca, tenta falar, mas meu sangue respinga no chão. Grito e ela se desfaz.

— Hoje é uma noite agitada... — Ouço a voz grave, masculina e me viro, esqueci do sangue, era uma ilusão? Um rapaz que aparenta ter dezenove ou vinte anos fala comigo, veste calça jeans, camisa e jaqueta pretas, madeixas esvoaçante como se estivesse ventando, ele paira a alguns centímetros do chão, seu cabelo escuro e translúcido cai sobre seus olhos e ele parece estudar a cena com inexpressividade crítica. Quero gritar, mas perdi o fôlego. Tão lindo e frio como a neve. Sua pele realmente parece macia e as pontas dos meus dedos formigam, juntamente com a ansiedade que cresce em mim.

— Quem é você? — É a única coisa que consigo pensar, ao menos consegui sufocar o grito.

— Consegue me ver? Que pena... Achou a pulseira. – Ele parece avaliar o meu braço e fico incomodada com seus olhos em mim. Tento tirar, mas não consigo, é como se uma força invisível me impedisse.

— Isso é ruim? – Minha garganta está seca, tento respirar normalmente, mas o turbilhão de terror sobe pela minha espinha como o calor infernal. Tempo se passa e ele me observa como se não lembrasse o motivo de estar conversando comigo.

—Meu nome é Cayo Yun. Sim, cada pessoa que se vinculou a esta casa, teve um fim trágico e o destino de acompanhar o próximo morador, eu sou seu fantasma particular, acho que é um desprazer conhecê-la.

Notas finais
Creio que alguns elementos textuais utilizados causaram uma emoção diferente em vocês, queridos leitores, foi proposital, rs.

Que tal favoritar, comentar e acompanhar nossa história? Quero saber suas impressões sobre ela.

Obrigada por ler, volte sempre!