A Casa Roxa
1 A Casa Roxa
Caminhava pela rua sem direção certa a seguir. A lua estava imersa nas muitas nuvens espalhadas pelo céu escuro, os postes de luz falhavam vez ou outra e o vento cortante queimava meu rosto a cada lufada.
Arfei já cansada de tanto andar, cansada de tanto indagar.
Minha irmã mais velha fora assassinada uma semana atrás, ela estava noiva de um homem desprezível, o qual agora era o meu noivo. Era um casamento de contrato, apenas negócios, porém nada que realmente me preocupasse, a vida me levaria para o caminho que eu desejasse e, no momento, estava atrás da causa da morte de minha irmã.
Em uma carta, desgastada pelo tempo assim como a alma de minha miserável irmã, continha suas angústias, seus temores... seus desalentados desejos.
Era algo possível e compreensivo, sua vida tornara-se um fantoche, sem diretos e anseios, manipulada ao necessário e utilizada sem pudores.
Suspirei novamente enquanto relia a última frase mentalmente: “Que a velha casa roxa me guarde deste mundo.” Deprimente, estarrecedor.
Fora a única a pegar naquele pedaço de papel, também pudera, apareceu-me caindo pela janela, em uma noite com luar, enquanto lia a luz de velas. A cada palavra meu corpo estremecia. Medo não era comum em meus dias, não muito era seguro. O mundo já estava cheio de tal sentimento, o meu não seria eloqüente o suficiente para existir a todo o momento.
Fui eu a encontrá-la caída em frente a nossa casa, o rosto desfigurado, as mãos entrelaçadas sobre seu peito e as pernas em um ângulo não humano. De seu peito jorrava sangue, ainda quente, porém não mais impulsionando vida. Ela havia acabado de cair e isso afetou minha sanidade por aquele longo dia, um dia sem fim e sem mais história. Porém o que mais chegou a perturbar-me fora aquele sorriso escondido por fios desalinhados pairados sobre sua face, os dentes ensangüentados, mas o sorriso existia e acho que ele há de ser o único que vira em anos. O sorriso de uma alma cansada, a qual cumpriu sua vontade.
Minha humanidade não permitiu que eu me conformasse, sua existência havia sido extinta de nossa casa. Três dias depois eu era o novo acordo físico de negócios e foi quando li a maldita carta. Eu poderia ter ficado presa dentro de minha própria sorte, mas esta rua parecia chamar meu nome e a casa roxa era meu alvo de culpa. Era tão humano que chegava a ser sufocante, este sentimento de querer reverter o irreversível, da coragem súbita quando o melhor a fazer é temer, mas não, era uma capacidade não feita para mim. E assim continuei com meu passo lento, passando meus dedos a cada poste de luz velho que deixava para trás. O frio respondia ao meu chamado pela vida.
Meus dedos com as pontas azuladas pediam por uma fuga, mas eu precisava chegar, não por minha irmã, mas por um ardor dentro de meu peito o qual implorava por uma verdade. Eu queria uma revelação, sabia ser errado, como todos que estavam prestes a fazer algo fora do que lhes cabia. Eu sabia, mas precisava.
Todas as casas da rua pareciam mortas naquela madrugada, o cheiro de existências largadas invadia-me sem pesar. As sombras floresciam em minha imaginação desagradavelmente presente em momentos onde a coragem deveria falar mais alto.
E foi em passos lentos que parei em frente a uma casa de cor roxa, possuía dois andares, as paredes descascadas e apenas uma luz a tremular em sua porta.
Travei meu maxilar e segui em frente. Prendi meus braços ao redor de meu corpo, como se o simples ato pudesse me proteger do olhar sobre mim.
A porta estava emperrada e, empurrando levemente meu corpo contra ela, consegui movê-la. Um ar gélido bateu em meu rosto, como uma respiração cansada e foi neste mesmo estado que me coloquei dentro da casa.
Meus olhos automaticamente se fecharam e pude ver o rosto de Jessye, rindo como a última vez a qual a vi. Subiu as escadas de madeira apodrecida com leveza, usando um sobretudo branco por cima de uma roupa negra.
Inconscientemente segui para a escada, meus pés negando-se a cumprir minhas ordens. Minha razão a todo custo tentava voltar, mas eu não tinha mais o direito. Foi assim que descobri minha curiosidade, a sensação inviável de responder quando ouço alguém chamar. A necessidade da convivência do que não deveria ser permitido. Eu possuía medo e esta foi minha mais árdua conclusão. Eu não queria, mas nunca fiz o que quis. Eu entendia Jessye, porém a temia. A garota calada de cabelos negros que sempre me esperava aos pés da escada, sem expressão e nem mesmo vida.
Não cheguei a subir, a escuridão prendeu-me em um único ponto. Assim soube: não haveria fuga, e apenas esta certeza me fez desejar que eu pudesse fazê-lo.
Uma silhueta passou por mim, seguindo os passos de Jessye, mas parou no meio da escada sem se virar. Pude ver um braço magro, com a pele colada aos ossos torcendo-se até que apontasse para mim.
“Você. Desejou.” Disse com uma voz abafada, seca... Morta.
Foi então que ouvi um lamento seguido de um grito doloroso. Joguei meus joelhos no chão com as mãos cobrindo meus ouvidos, meus olhos mais apertados do que antes.
“Não! Não quero mais, deixe-me ir!” Gritei comigo mesma, engasgada com minha própria voz.
A voz a qual lamentava descia as escadas, com grunhidos melancólicos preenchendo o vazio. Recusava-me a me mexer, não conseguia, não queria. O frio agora me amedrontava e aquela maldita sensação de negar suas escolhas invadiu-me.
“Não quero mais, deixe-me...” Tentei novamente.
Algo parou a minha frente e em meu ouvido direto foi feita uma risada maldosa, divertida.
Era Jessye. Jessye estava comigo...
“Quando se entra, jamais é permitida a saída.” Uma voz ao fundo disse e senti uma mão em minha cabeça, tão leve e fria que diria ser imaterial.
“Não deve esquecer-se de olhar para trás.” A voz melancólica tornou a falar. Meus braços caíram ao meu lado, assim como minha existência.
Em um movimento meu pescoço se torceu e abri meus olhos. Meu corpo foi ao chão com Jessye em meu olhar. Estava tão feliz quanto da última vez que a vi. Eu não poderia dizer o mesmo sobre mim. A luz da porta apagara-se e minha imaginação traiu-me ao impedir que fechasse os olhos.
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