A Casa Infinita

1 A Casa Infinita


A Casa Infinita

Milena abria os olhos observando o local. Acordava confusa, sem saber onde estava ou como chegara ali. O piso de madeira e as paredes antigas. não pareciam velhos ou abandonados, apenas passavam um certo conforto rústico.

A jovem se levantava ouvindo uma melodia e seguia pelo corredor, encontrando um sala onde via a moça tocando em seu piano. Ela usava um vestido preto de penas, passando seus dedos compridos pelas teclas, seu cabelo preto preso em um coque, um ar calmo e a melodia.

Milena se apoiava na porta discretamente, encantada com a música e com a beleza da moça, e então a pianista se virava para ela com um olhar curioso. A menina perdia o equilíbrio e empurrava a porta tentando se segurar, e um medo subia sua espinha antes que pudesse se recompor e pedir desculpas.

Não sabia onde estava ou como chegara ali, mas não parecia um lugar ruim. Na verdade, parecia ser um lugar extremamente confortável. A moça então acenava com a mão chamando-a para perto dela, e ela se aproximava ainda assustada.

A moça abria espaço ao seu lado no banco, indicando para a menina se sentar com ela, e só então falava alguma coisa. "O que quer tocar?", perguntava a moça e a jovem observava encantada também com aquela voz. Dizia não saber tocar, e a moça pegava em sua mão dizendo que lhe guiaria.

Tocavam algumas notas e começavam a melodia, e então a menina parecia despertar de um sonho por um momento e soltava as mãos das teclas, olhando ao redor e perguntando onde estava.

"Em casa".

O piso de madeira no centro da sala chamava Milena para dançar, e quase sem perceber, a menina girava pela sala acompanhando a música. Observava a moça tocar com todo seu coração, e se movia com o mesmo ritmo, balançando o vestido branco de penas ao seu redor.

A luz do dia passava pelas finas cortinas brancas da janela, e não parava para pensar no lado de fora, apenas se perdia no momento, se deixando levar pela música antes do choque de não saber como chegou ali, como chegou naquele momento.

Algumas penas se espalhavam caindo suavemente pelo chão enquanto a jovem parava, feliz, animada, mas confusa e assustada. A pianista dizia que logo tudo faria sentido, e o piano continuava a tocar enquanto a moça se erguia para dançar com a menina.

Era alta, Milena olhava para cima enquanto segurava a mão da moça que a girava como uma boneca em uma caixinha de música. Sentia seu corpo aquecer e desistia, pelo menos por alguns momentos, de se perguntar o que estava acontecendo.

Seguia a moça pelos corredores, pulando de porta em porta pelos cômodos da casa. Passeavam por jardins, salões, labirintos e pátios. A cada porta encontrava um lugar fantástico para explorar.

Não sabia se queria ficar no ateliê, costurando almofadas e bonecas, ou se corria para a biblioteca onde os milhares de livros decoravam as paredes. Apenas rodavam de quarto em quarto, alegres, felizes.

Milena estava sempre curiosa, encantada e confusa. A moça lhe perguntava do que gostava e sempre parecia ter um local ideal para levá-la. A jovem não sabia o que dar em troca, perguntava o que a moça queria fazer e apenas recebia um sorriso como resposta.

Havia uma certa melancolia em seu olhar. Constantemente gentil, amorosa, mas o sorriso da moça parecia esconder alguma coisa, e aos poucos a sensação passava a incomodar Milena.

Onde estava?

"O que quer cozinhar, meu anjo?", perguntava a moça rodando pela cozinha que parecia respirar e se transformar de acordo com o que precisavam fazer. "Eu não sei cozinhar", pensava a menina, mas já sabendo que a moça a guiaria como estava fazendo desde que chegara ali. "Uma torta de maçã", dizia animada, vendo um sorriso no rosto da moça.

Olhava para a bancada e lá estavam os ingredientes, e então começavam a preparar o lanche. Não se perguntava como as coisas apareciam ali, era como se estivessem lá o tempo todo. Era tão... Natural.

Seguia a moça e depois de alguns dos momentos mais felizes e divertidos que lembrava ter, terminavam a torta, apenas para ver o sorriso da moça parecer sumir por um momento.

"O que foi?", perguntava a jovem, confusa e com medo de ter feito algo errado. Observava então a luz amarela da tarde entrar pelas janelas do local. Estava a algumas horas ali, e ainda não sabia como chegara lá.

"Nada, meu anjo", a moça respondia disfarçando um sorriso novamente e pedindo um momento enquanto caminhava para outro cômodo. Milena observava por um momento, e então uma sensação estranha passava por sua mente. Era como se naquele momento se lembrasse de conhecer aquele lugar e a memória vaga de alguma coisa assoprava sua mente.

Caminhava para o corredor sem saber o que havia acontecido. Era incrível como todos os cômodos estavam conectados naquele corredor, mas não pensava nisso, apenas olhava para o lado e percebia a porta fechada.

Não parecia com todas as portas pelas quais passara até então, parecia mais concreta, parecia que estava realmente ali independente de como a quisesse, e chegava mais perto com a certeza de que era ali que estava quando acordara, e só então se lembrava daquela sensação estranha.

O que era aquele lugar?

Percebia a fechadura na porta, trancada. Estava curiosa, e um pouco assustada. Voltava para a cozinha onde a moça retirava a torta do forno e a colocava na pequena mesa. "Você quer saber como chegou aqui, não?", a moça perguntava em um tom muito menos feliz. Estava triste, quase em lágrimas.

"Você não quer me contar?", a jovem questionava com medo. Não queria fazer a moça chorar, mas precisava saber o que estava acontecendo. "Eu não posso. Não consigo.", ela respondia desviando o olhar. Colocava a mão no próprio peito por dentro do vestido e tirava dali uma chave que estava pendurada em seu pescoço, colocando-a na mão de Milena.

"Ela é sua. A chave, a porta, e tudo o que estiver além dela. Mas por favor..." — A moça já não segurava mais as lágrimas, e desistia de falar. Milena a observava perdendo a postura e se deixava levar pelo choro durante alguns momentos. Ela se aproximava da moça que se deitava sobre a mesa, e a abraçava.

Botava a chave no pescoço e cortava a torta, sorrindo para a moça e comiam, juntas. Tentava voltar a se divertir enquanto a tarde caía, caminhar pelos cômodos bonitos, se deitar no gramado e conversar sobre seus pensamentos, mas não conseguia, sabia que não podia continuar ali sem abrir aquela porta.

Deixava a moça cochilando no pequeno jardim de pétalas, e voltava para o corredor sozinha. Pegava a chave e abria a porta, com medo do que encontraria do outro lado. Não conseguia nem mesmo imaginar o que poderia estar por lá, não pensava se seria um objeto, um portal, uma história, um conceito, não pensava em nada, apenas abria a porta e descia alguns degraus, chegando em um longo corredor.

A luz laranja avermelhada passava por algumas pequenas janelas pelas paredes, quadros e retratos de diversas pessoas decoravam o local e de certa forma lhe pareciam familiar, e abaixo de cada um havia uma estante.

Chegava perto de uma das pinturas, era um rapaz alto, parecia ser de uma família nobre, empunhando uma espada. Olhava em sua estante e encontrava um livro com o nome dele na capa.

Dentro parecia uma história contada por ele, uma autobiografia, dizendo tudo sobre sua vida, desde as condições de seu nascimento até a sua morte e seus últimos pensamentos.

Deixava o livro no lugar e caminhava para outra direção, curiosa. Chegava na frente de outro retrato, uma moça indígena, e seu livro contava a história de como salvara sua tribo de um ataque e derrotava seus inimigos com uma lança.

Seguia pelo caminho olhando mais e mais retratos, sempre encantada com as histórias, descobrindo algumas que se cruzavam, descobrindo que as ações de uma daquelas personagens afetava a trajetória de outra, vendo que todas estavam interligadas como em um único mundo fantástico.

E então chegava no final do corredor, incontáveis quadros se passando, apenas para encontrar o último retrato. Suspirava enquanto um calafrio percorria por seu corpo ao ver um retrato de si mesma. Caminhava para a estante abaixo e olhava para o livro com seu nome na capa.

Seu nascimento. Sua vida. Sua morte.

Um sentimento estranho a cercava enquanto ela percebia como chegara ali. Era um ciclo, todas aquelas pessoas eram ela. Ela nascia, vivia, morria, e voltava para lá.

Era um susto, um choque, mas não estava com medo, não estava triste, estava encantada. Sentia a presença e se virava para ver a moça que a olhava de longe, em lágrimas, e se aproximava.

"Eu sou todas essas pessoas?", questionava já sabendo que estava certa. "Todas elas. As boas e as más. Mas nenhuma delas é realmente você", respondia a moça com seu olhar melancólico.

A moça então em silêncio caminhava por uma porta e a jovem a seguia, chegando em um grande campo florido. A luz da lua iluminava as pétalas enquanto a moça desenrolava seu vestido em um grande par de asas.

A jovem assistia, espantada e admirada enquanto a moça se erguia para o ar. O vento de suas penas sacudindo as flores, seu corpo nu iluminado pela lua e sua mão estendida para a jovem, que seguia também lentamente se desembrulhando de suas asas brancas.

E então voavam, passeavam por cima das flores que formavam desenhos com suas pétalas cintilantes quase como em uma pintura abstrata, e então pousavam entre elas.

"Essas somos nós", dizia a moça erguendo a mão enquanto uma gigantesca árvore surgia criando um grande anel ao redor delas. "Esse é o nosso paraíso, meu anjo. Tudo o que queremos, tudo o que somos. Aquelas vidas não são você, são apenas uma parte de você. E de todas as suas partes, todos os seus lados, esse é o que me faz mais feliz".

"Esse lugar é um sonho, mas eu não quero abandonar tudo", dizia a menina logo notando o desespero da moça. "Eu quero viver novamente, tentar novamente, ser outra pessoa e conhecer mais do mundo".

"Mas você pode ter tudo aqui!", a moça chorava enquanto um altar se formava abaixo delas. "Podemos criar o que você quiser, juntas!".

"Mas qual seria a graça? Se podemos criar tudo, ter tudo, o que eu tenho a viver?". A menina sentia como se aquela conversa lhe fosse familiar. "Você é incrível, esse lugar é fantástico, mas... Não é o que eu quero, eu preciso viver".

"Eu sei."

A moça perdia as esperanças e se sentava no chão que criara. as asas agora como uma coberta, as lágrimas correndo pelo rosto.

"Todas as vezes, você parte e eu estou sozinha. Eu lhe espero por uma vida inteira, e você aparece sem lembranças de mim, de nós, e não importa o quanto eu me esforce pra criar o seu paraíso, você sempre parte novamente"

"Eu não estou partindo por sua culpa", dizia se aproximando, dessa vez sem tocar na moça. "Eu só não posso continuar aqui sabendo tudo o que existe lá, tudo o que tenho a fazer, a tentar, a falhar e conquistar. Se sente tanto a minha falta, por que não vem comigo?"

A moça parava por um momento sem conseguir responder por entre as lágrimas, até conseguir recuperar o ar.

"Eu não posso! Aquele é o seu mundo, a sua obra, a sua mente, e eu não posso entrar nele. Não posso invadir sua criação e ficar com você para sempre, estou condenada a esperar e esperar sozinha, enquanto minha única companhia me esquece a cada vez que parte".

"Então crie o seu próprio mundo", a jovem dizia percebendo a própria insensibilidade. “Se este é o seu paraíso, faça-o perfeito para você e não para mim”.

"Você é o meu paraíso! Todo esse lugar, tudo o que crio, qual seria o sentido sem você comigo? De que serve isso tudo sem você para compartilhar?"

A moça se levantava assustada, secando as lágrimas e abraçando a jovem mais uma vez, em desespero.

"Me desculpe, meu anjo!", ela dizia tentando recuperar o sorriso, nervosa, arrependida. "Não entenda mal, eu… Não é culpa sua, eu te amo!”, dizia forçando uma alegria que claramente não estava lá. “Então vá. Viva sua vida, experimente o que quiser, seja feliz."

A moça se soltava e caía no chão novamente. Os olhos já não seguravam mais nada, chorava sentindo a dor que mantinha em si a tanto tempo, e Milena sabia fazer parte daquilo.

"Eu não..." — A jovem tentava pensar em alguma coisa para confortar a moça, mas não conseguia. Sabia como aquilo iria terminar, sabia que a deixaria ali sozinha e que voltaria uma vida inteira depois sem lembranças daquilo, apenas para deixá-la novamente.

“Eu não posso te impedir de ir”, a moça finalmente dizia entre os soluços. “Não posso pedir para ficar sabendo o quão infeliz você estaria. Eu só queria que esse momento durasse um pouco mais dessa vez, meu anjo… Essa parte em que estamos juntas, em que o meu amor finalmente encontra um propósito, essa tarde em que você encontra o paraíso em mim e eu em você”

Milena olhava para a moça, agora também em lágrimas. Sentia naquele momento o amor incondicional que recebia, e não aguentaria ficar ali por mais nenhum momento sabendo que a deixaria em seu inferno pessoal por mais incontáveis vidas.

E então partia. Batia as asas e voava de volta para a sua porta secreta, deixando para trás a moça que agora se soltava no chão, sem esperanças, sem objetivos, apenas uma sombra aguardando por mais uma manhã.

Um ciclo que não terminaria.

— — -

Ela tocava seu piano, suspirando. Estava animada com a chegada, ouvia os passos no corredor e a porta se abrindo. A menina a encarava assustada enquanto a moça sentia aquela familiaridade. Era como se fosse a mesma jovem, a mesma pessoa que a visitara a tantos e tantos anos atrás.

A chamava para perto evitando pensar na despedida, queria apenas aproveitar o momento. A chamava para uma melodia e a menina logo começava a rodar pela sala. A acompanhava sabendo que ela gostaria daquilo, passeavam pelos pátios e corredores, conversando sobre o que mais fazer naquela tarde.

As pausas nos sofás, as brincadeiras no labirinto, as bonecas costuradas, cada momento se tornava seu paraíso ao ver aquele sorriso, sentir a felicidade de sua companhia. Talvez pudesse aguentar a espera apenas para ver aquele sorriso, mas toda a solidão que estava a caminho...

Entravam na cozinha para o lanche e ela sabia que estava chegando no fim, aquele dia perfeito abriria caminho para anos e anos de tortura, anos sem o conforto e o carinho de sua amada, e tentava segurar as lágrimas, em vão.

Entregava a chave, como sempre, e a menina a levava para mais uma volta, antes de deixá-la no pátio e abrir aquela porta. Encontrava sobre seu mundo, suas vidas e histórias, e então voavam sob o luar.

"De todas as suas partes, todos os seus lados, esse é o que me faz mais feliz", a moça dizia no altar, repetindo aquela cena pelo que poderia ser a milésima vez. "E também o que mais me machuca, mais me faz sofrer quando parte".

"Mas... eu não quero partir", a jovem dizia assustada e a moça a olhava, surpresa. "Eu não posso ficar?".

A moça parava por alguns momentos, confusa, incrédula. Eras e eras, e nunca ouvira aquilo.

"Você... Quer ficar?"

"E que motivo eu teria para sair do paraíso?", a jovem questionava brincando com suas asas, sorrindo. "Todas essas outras vidas, eu não me sinto como elas. Eu sou apenas eu, e não quero deixar de ser quem sou".

A moça olhava para a jovem, confusa. Alguma coisa estava diferente. Era como se a jovem não estivesse retornando ao seu estado natural, recuperando tudo o que era além daquela única pessoa que agora pedia para ficar por lá.

"Você nunca deixou de ser você, meu anjo. Apenas se torna uma parte diferente de si a cada vez que volta para seu mundo", dizia ainda sem acreditar na decisão da jovem.

"Mas essa parte quer ficar por aqui, com você. Viver no paraíso com a melhor companhia que se pode ter".

A moça a observava confusa. A jovem realmente parecia diferente de todas as versões dela que voltavam ali. Como se fosse um fragmento solto de todas as outras vidas, que decidia ficar ali no paraíso.

"Eu não entendo... Todas essas vidas passando, por que agora você não vai me abandonar?"

"Porque eu não sou todas elas. Eu não voltei aqui como todas aquelas vidas unidas em algo maior, eu voltei aqui como eu. Apenas eu, apenas esse pedaço."

"Um pedaço?", a moça suspirava, talvez entendendo o que estava acontecendo, preocupada. "Você se quebrou? Se partiu em pedaços?"

“Eu me separei”, respondia a menina sem entender o que estava falando, mas com uma certeza que não podia explicar. “Talvez seu anjo quisesse viver naquele mundo, sempre voltando para uma vida nova, mas eu… Eu sou a parte que sempre quis continuar aqui. A parte que sente o seu amor, a parte que mais te faz feliz. Eu não estou quebrada, meu amor. Apenas me separei da parte que te fazia sofrer, que me levava embora, e agora podemos ficar juntas”.

“E onde está o restante de ti? Você se sacrificou?!”

"Não se preocupe com o restante de mim. Ela está vivendo em seu próprio mundo, como sempre, apenas com um pedaço a menos. Menos sonhos, menos amor, menos felicidade, mas ela não vai sentir falta disso. Esse pedacinho aqui é mais importante para você do que para todo o resto de mim."

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!