A Casa Das Máscaras
5 Capítulo 5
Notas iniciais
David
Olhei para Alan esperando por uma explicação. Eu havia vindo até ali para dizer a ele que nós poderíamos continuar a ser amigos, mas só isso, pois eu não conseguia me imaginar tendo algo a mais com ele – apesar do beijo que rolou no vestiário não ter sido nada mal. Só que vê-lo com Andreas me deixou irritado, porque algo mais parecia estar rolando entre eles quando eu entrei no quarto. Quero dizer, o cara se declara para mim, e depois está de pegação com outro; com Andreas.
“Nós só estávamos conversando.” Alan falou em seu jeito sempre tranquilo, que às vezes chegava a irritar. Sabe aquela pessoa que, o mundo pode estar acabando ao redor dela no apocalipse zumbi, e ainda assim ela está controlada e calma? Pois é, conheçam o Alan Garbet.
“Parecia bem mais do que isso.” Cruzei os braços sobre o peito. Ele me encarou por vários segundos, com aquele olhar que desarma por ser tão sério e perspicaz.
“Por acaso você é o namorado dele para ficar tão cheio de ciúmes? Eu não te devo explicações, David.” Alan voltou a deitar na cama e pegou o livro dele, lendo para me ignorar. E o pior é que ele tinha razão.
Alan abaixou o livro, aborrecido, quando eu continuei parado no meio do quarto, encarando-o.
“Além disso, foi você quem me ‘introduziu’ ao Andreas.” Ele se aproveitou do duplo sentido da palavra, com zombaria e irritação.
“Aquilo saiu de controle! Eu estava esperando por ele há umas cinco horas e acabei tomando quase metade da garrafa de vodka que eu tinha no quarto para passar o tempo.” Eu me defendi. Eu havia escovado os dentes e tomado um banho, já pensando em ir dormir, quando Andreas apareceu, por isso ele não deve ter detectado nenhum bafo de álcool em mim. Alan voltou a esconder o rosto atrás do livro. E, claro, eu não tinha como adivinhar que me sentiria excitado com a ideia de um ménage.
“Não é problema meu. O que passou, passou. Vamos esquecer esse final de semana e continuar como estávamos.” Ele disse, pondo um ponto final na história.
“Eu tinha vindo aqui para falar justamente isso.” Eu concordei, secamente, e saí do quarto.
Fui diretamente para o meu dormitório, bufando e xingando Alan internamente. Assim que entrei no quarto, meu coração caiu para o estômago ao ver Andreas apenas de toalha, catando suas roupas na gaveta. Ele virou o rosto para mim, mas logo voltou a atenção para o que fazia.
“Esqueci de pegar meu creme depilador.” Vi um sorriso torto surgir no canto de seus lábios. “Você não sabe como pode ser complicado manter a pele macia e lisa o tempo todo.”
Meus olhos desceram pelo corpo à mostra dele, e eu me senti salivar. Ele soltou uma exclamação de vitória quando encontrou o tubo com o tal creme e foi em direção ao banheiro, mas eu segurei seu braço, sobressaltando-o. Ele me encarou perto de entediado.
“David, sério, não dá para você largar o osso um pouco?” Ele pediu, com calma.
“E será que dá para você não ficar desfilando pelo quarto só de toalha então?” Retruquei com um sorriso sem humor. Ele fez uma careta e revirou os olhos.
“Eu não achei que você iria aparecer tão cedo. Mas não se preocupe, eu não vou mais-“
“Você e o Alan transaram? De novo, digo.” Não pude segurar a perguntar. Uma das sobrancelhas subiu graciosamente, até sumir por trás dos fios que caíam por seu rosto. Depois disso ele abriu um sorriso malicioso.
“Não sei, David. Estou tão cansado que não consigo pensar direito. Já transei com tanta gente esse final de semana que não poderia te responder com certeza.” Ele debochou.
Eu estreitei os olhos, bufei e o soltei, e ele entrou no banheiro sem mais demora, chaveando a porta às suas costas. Caí na cama, pensando que precisava também de um banho. Havia saído para correr e depois ido treinar vôlei sozinho, e ainda malhei um pouco na academia na faculdade. Estava morto de fome e fedendo mais que um porco. Assim que Andreas saiu do banheiro, perfeitamente perfumado, ele caiu na cama e pareceu literalmente morrer com o rosto afundado no travesseiro.
Eu fui para o chuveiro e me demorei ali. Quando saí, Andreas parecia no vigésimo sono, mas mesmo assim eu o acordei, balançando-o pelo ombro.
“Andreas. Andreas!”
Ele resmungou e soltou vários palavrões antes de abrir os olhos.
“O que você quer?” Ele perguntou, emburrado e manhoso, tentando cobrir o rosto com o lençol.
“Eu estou pensando em sair para comer alguma coisa, você quer vir?” Já eram quase sete horas da noite agora, e estava parcialmente escuro. Mas ainda era cedo demais para ele ir dormir. Andreas demorou um pouco até dar sinais de vida de novo.
“Eu não estaria com fome se você não tivesse me acordado.” Ele resmungou, atirando os lençóis para longe e se levantando.
Ele se arrumou rapidamente, com uma roupa bastante casual – calça jeans surrada, camiseta dos Ramones larga e um all star comum – de novo sem se importar por eu estar olhando. Ele passou a mão pelo cabelo rebelde colocando-o para trás, pôs a carteira e o celular no bolso, e fez um sinal com a cabeça em direção à porta.
“Vamos, eu conheço o lugar perfeito.” Ele disse.
“Pensei que eu ia te levar para jantar.” Falei, levantando e o seguindo para fora do quarto. Ele riu.
“Me levar para jantar.” Debochou. “Faça isso com as mulherzinhas com quem você sai.” Ele me olhou por cima do ombro, avaliando-me, e soltou o ar em exasperação. “Daqui a pouco você tentará me ganhar com flores.”
Eu ri.
“Não seria má ideia. Acho que você combina com, hum... rosas vermelhas?”
“Oh, clichê!” Ele reclamou.
“E cheia de espinhos.”
“É, mas ao que parece meus espinhos não são pontiagudos o suficiente para meter medo em manés como você.” Andreas zombou com um sorrisinho de lado. “Você tem carro?”
“Você não tem?”
“Prefiro não ter.” Ele deu de ombros. “Quando completei dezoito, tirei a carteira, comprei um e bati nem uma semana depois. Minha mãe surtou tanto que achei melhor não comprar outro carro.”
“Você tem mais de dezoito anos?” Perguntei. Achava que ele tinha minha idade.
“Faltam só alguns meses pra eu completar vinte.” Andreas colocou as mãos no bolso quando saímos do prédio dos dormitórios. “Rodei uma vez na escola.”
Fiquei impressionado com isso.
“Dificultou um pouco minha entrada na Ketteridge, mas,” Ele riu, colocando as mãos atrás da cabeça. “eu fiz uns servicinhos para o reitor e ele acabou me colocando dentro.”
“Você transou com o reitor?” Eu perguntei alarmado, até mesmo parando de andar. Andreas olhou para mim e gargalhou da minha expressão perplexa.
“Você fica engraçado quando em choque.” Ele zombou. “Estou brincando com você. Eu entrei um ano atrasado porque precisei parar de estudar por quase um ano quando meu pai não pôde mais trabalhar... Um dos professores daqui é na verdade conhecido de infância da minha mãe e acabou dando um empurrãozinho para eu ser aceito, já que eu sempre tive boas notas da escola e consegui algumas cartas de recomendação dos meus professores. Ah, e tem Desmond. Eu pedi uma mãozinha para ele, e ele também interferiu. Você sabia que o reitor frequenta a Casa das Máscaras?”
Andreas havia segurado meu braço e começado a me puxar enquanto tagarelava. Ele parecia de bom humor agora, e eu me perguntei o motivo disso. De qualquer maneira, ele ficava lindo sorrindo traquinas.
“Não sabia... Pensei que ele fosse casado...”
“E ele é.”
“Não me diga que vocês dois...”
“Ele não é gay, só fica com as garotas de lá.” Andreas parou na entrada do estacionamento da faculdade. “E então, qual é o seu?”
Não sei como deixei que ele pegasse minhas chaves e sentasse no banco do motorista. Ele tinha um jeito persuasivo pior do que de bandido. Em poucos minutos já estávamos nas ruas da cidade, ele guiando de uma maneira que me preocupou por ser tão corrida e desatenta. Ainda assim, ele dirigia bem.
“Então você faz educação física.” Ele entoou, olhando-me de esguelha. “Interessante. Você quer se especializar em algum esporte?”
“Não sei. A verdade é que eu não tenho nenhum sonho mesmo... nenhuma meta. É um pouco frustrante.” Admiti algo que me incomodava já há um bom tempo. Andreas estalou a língua, atento ao trânsito antes de responder.
“Relaxa. Você tem só dezoito anos. Acha mesmo que a maioria das pessoas na sua idade já tem planos para vida decididos, sem nenhuma incerteza? Tem gente que descobre o que quer fazer da vida só depois dos quarenta.” Ele riu, tamborilando os dedos no volante para então ligar o som, numa estação de rock.
“É, eu sei. Só queria ter mais certeza do que estou fazendo.”
“Eu não tenho certeza de nada, mas a visão das estrelas me faz sonhar.” Andreas falou sério, antes de rir. Eu o encarei como se ele fosse doido, um risco disfarçado de diversão no meu rosto, e isso o fez rir mais. “É sério... não volte a me tirar da cama quando ainda estou com sono. Eu começo a falar besteiras.”
“Isso é... Van Gogh?” Arrisquei.
“Sim!” Ele concordou extasiado. “Você gosta de arte pós-impressionista?”
“Na verdade não,” Eu ri. “Eu nem gosto de arte.”
Andreas acompanhou minha risada. Parecíamos dois bêbados e não havíamos colocado nenhum gole de álcool na boca.
“Então você fica lendo citações em figurinhas de carro como eu?” Ele gargalhou. Algo me dizia que ele na verdade gostava bastante de pintura e todas essas coisas. Eu havia pesquisado e sabia que ele iria cursar letras com ênfase em literatura, e literatura tem tudo a ver com arte e história.
“Eu não gosto de arte, mas meu pai adora, acho que ele já citou essa frase antes quando eu estava por perto.” Dei de ombros.
Andreas parou no estacionamento de uma lanchonete não muito grande.
“Você vai adorar a comida daqui.” Ele disse, tirando o cinto e saindo do carro.
XxX
“Eu juro que era bom antes!” Andreas garantiu tentando me convencer enquanto atravessávamos o campus em direção aos dormitórios.
“Aquela foi a pior batata frita que eu já comi na minha vida!” Exclamei exasperado, ainda sentindo um gosto ruim na boca. “Até a coca-cola era ruim!”
“Você ouviu o que a Mag falou! O antigo dono morreu e quem está no comando agora é o filho estúpido dele. A última vez que eu fui lá ainda era muito bom!” Andreas tentava a todo custo me convencer, quase pulando ao meu redor ao me ver irredutível.
“Nunca mais vou deixar você escolher o lugar!” Disse, enfático. “Eu ainda estou com fome.”
“Está bem, senhor paladar sofisticado, na próxima vamos a um requintado Buffet dos mais deliciosos frutos do mar da cidade, com muito caviar e champagne para acompanhar.” Andreas imitou o que parecia ser um mordomo com voz afetada e formal, em pura gozação. Eu empurrei sua cabeça.
“Cala a boca. Eu não sou fresco com comida.”
“Não, não, imagina. Não o Sr. riquinho dono de uma Lamborghini, você deve ser mesmo muito humilde e simplório.” Andreas sorriu torto.
“E você também deve ser muito pobre.” Retruquei. “Cobrando cinco mil por uma foda. Só com quatro clientes por você já ganha vinte mil reais!”
“Quem me dera, se o dinheiro ficasse todo para mim...” Andreas soltou uma risada, mas foi uma risada melancólica enquanto colocava as mãos no bolso e perdia-se em uma expressão distraída. Eu o olhei tentando entender aquela mudança – suas sobrancelhas ficaram ligeiramente franzidas, dando-lhe um ar preocupado.
“Andreas?” Chamei, e ele me olhou, indicando que havia me escutado. “O que foi? O que quer dizer com isso?”
“Não, eu só... só estava pensando na minha ir... ah, esqueça.” Ele balançou a cabeça, e antes que eu pudesse perguntar alguma coisa, o celular dele tocou. Ele o pegou e olhou para o visor, seu semblante imediatamente se tornando tenso. Ele fez um sinal para que eu esperasse e se afastou alguns passos para atender à ligação.
Mesmo tendo se distanciado, eu pude escutar o que ele falava.
“Oi, meu amor.” Andreas atendeu em um tom carinhoso. “Eu também estou com saudades.” Disse, e eu percebi sua voz estranhamente trêmula. “O mano vai ir te visitar assim que possível, está bem? Eu sei... eu queria ter ido nesse final de semana, me desculpe.”
Vi Andreas passar um braço ao redor de sua barriga, enquanto ele parecia esforçar-se para não chorar.
Eu franzi a testa, mas me afastei mais, dando-lhe privacidade para conversar com a irmã. Eles papearam por alguns minutos, até o loiro voltar a se aproximar de mim, enquanto já se despedia.
“Eu também te amo, mana. Fique bem, ok? Quando eu for te visitar, quero ver um sorriso bem lindo nesse seu rosto. Mande um abraço para a mãe e o pai e para a Carla.” Andreas desligou e parou de andar, permanecendo parado no mesmo lugar, com o celular apertado na mão, olhando para ele com os olhos desfocados.
Eu me aproximei, preocupado. Não sabia o que estava acontecendo, e por que ele ficaria assim por um telefonema da irmã, então toquei gentilmente seu ombro quando o alcancei. Ele me olhou, sobressaltado, já tendo se esquecido da minha presença.
“Está tudo bem?” Perguntei num sussurro. Andreas me encarou, e seus olhos brilharam enchendo-se se lágrimas não derramadas. Seus lábios tremeram e então ele abaixou o rosto e começou a chorar.
Eu o puxei para mim, abraçando-o, e ele escondeu o rosto em meu peito, enchendo-o de lágrimas ao soluçar baixinho. Acariciei seus cabelos macios, tentando transmitir algum conforto.
“Que espécie de irmão eu sou?” Ele perguntou, agoniado, ainda chorando. “Minha irmã dá baixa no hospital e eu não sou capaz de ir visitá-la! Em vez disso, eu encho meu final de semana de sexo e finjo que está tudo bem!” As mãos de Andreas se fecharam em minha camiseta e ele chorou mais. “Eu sou tão covarde... tão egoísta... não consigo vê-la daquele jeito! Odeio vê-la assim! Não suporto!”
Eu deixei que ele ficasse em meus braços até se acalmar. Aos poucos seus soluços pararam e sua respiração normalizou, restando apenas o barulho do vento ao nosso redor. Nós voltamos em silêncio até o dormitório e, assim que ele entrou, escovou os dentes e caiu na cama, de roupas mesmo. Quando eu achei que ele havia adormecido, fui até ele e tirei seus tênis, sua jeans, e o cobri.
Antes que eu me afastasse, porém, ele segurou meu pulso, pegando-me de surpresa.
“Vem cá. Dorme comigo.” Ele murmurou, puxando-me fracamente para a cama. Eu não neguei. Deitei ao seu lado e deixei que ele se acomodasse contra mim, suas costas contra meu peito. Ele dormiu logo em seguida.
Eu não estava com sono, então passei um bom tempo acariciando seus cabelos e o observando dormir, até pegar no sono também.
XxX
“Como todos vocês já sabem,” Começou o treinador Muller, andando à nossa frente com as mãos atrás do corpo. O treinador era um homem de estatura mediana, bom porte físico e cabelos loiro-escuros curtos. Tinha uma expressão tão severa, que parecia não nutrir nenhum outro sentimento além da vontade de ganhar troféus para Ketteridge.
Estávamos enfileirados perto da piscina, todos já com tocas e sungas, prontos para cair na água. “Ketteridge vem vencendo todos os campeonatos de natação nos últimos dez anos. Há quatro categorias na competição: individual e revezamentos. Escolham seus grupos para essa temporada até o final dessa semana. Agora se alonguem e entrem na água. Vou medir seus tempos.”
Alan e eu não estávamos nos falamos, do contrário, eu gostaria de convidá-lo para ser minha dupla. Assim que alongamos, Muller colocou uma mão no meu ombro.
“É melhor mostrar o que tem hoje, Sr. Young, ou vou chegar à conclusão de que fiz uma má escolha em chamá-lo para o time.” Ele disse, e eu assenti, mesmo que já soubesse que precisava mostrar trabalho se não quisesse perder pontos logo de primeira.
Entramos na água e eu fiquei na raia bem ao lado da de Alan. Olhei de esguelha para ele antes da largada.
“Cuidado para não ficar em último.” Ele disse, calmo, seus olhos protegidos pelos óculos transparentes.
“Cuidado para não acabar atrás de mim.” Retruquei com um sorriso de escárnio. Eu iria mostrar a Muller que ele havia escolhido muito bem, obrigado, e que eu não estava ali para brincadeiras. Claro, eu obviamente não seria o melhor ali tão facilmente, mas também não queria acabar em último.
Muller soou seu apito, os doze nadadores – eu incluso – pegaram impulso ao mesmo tempo, e começamos a deslizar rapidamente pela água. Alan disparou na frente de todos, com uma habilidade impressionante. Pude vê-lo nadando na frente, trabalhando os braços e todo o corpo em movimentos perfeitos e ritmados. Dei o meu melhor para alcançá-lo, mas acabei em quinto lugar. Alan glorioso em primeiro.
“Bom trabalho, rapazes.” Muller disse secamente, sem grande entusiasmo para nenhum de nós. “Você foi muito bem, David. O reitor fez bem em indicá-lo.” Ele se dirigiu a mim enquanto recuperávamos o fôlego na borda da piscina.
Eu olhei para as arquibancadas que havia ali no ginásio de natação e fiquei surpreso ao ver Andreas ali, junto com alguns outros estudantes que vieram assistir ao primeiro treino de natação do semestre. Alan, para minha surpresa, saiu da piscina e foi até Andreas quando o loiro abanou, e eu acabei por segui-lo, com uma expressão não muito boa, parando a alguns passos deles.
“Eu acho que teria afundado e morrido afogado na metade do percurso se tentasse nadar que nem vocês.” Andreas disse, apoiando as mãos atrás do corpo, em sua pose despojada habitual. “Eu mal sobrevivi ao meu primeiro dia de aula.”
“Você não gostou? Das aulas, quero dizer.”
Andreas deu de ombros, naquele seu jeito despretensioso.
“Foram legais.” Ele disse. “Ainda é cedo para dizer, mas é mais puxado do que eu imaginava. Logo no primeiro dia já foram enfiando trabalhos no rabo dos alunos.”
Alan riu, balançando a cabeça para o palavreado de Andreas. Eu raramente via Alan falando palavras chulas.
“Não achei que você viria mesmo assistir.” Alan fez um sinal com a cabeça para a piscina olímpica.
“Bem, você comentou do treino no almoço e eu não tinha nada mais interessante para fazer mesmo. Já acabou?”
“Não. Recém começou. O que você vai fazer depois?”
A conversa já estava começando a me enfadar, então terminei de me aproximar e me intrometi.
“Oi, David.” Andreas foi a primeiro a me perceber. Eu acho que resmunguei um cumprimento. “Que humor é esse? Nem parece que ficou em quinto lugar!”
“Como se isso fosse algo bom.” Retruquei. “Mas até o final da temporada eu pego o primeiro lugar.” Olhei de esguelha para Alan, que apenas sorriu charlatão, parecendo bastante estúpido com a toca azul-escura.
“Você foi muito bem, David.” Ele colocou uma mão no meu ombro. “Deu para ver que o Muller ficou satisfeito.”
Eu grunhi. Como se eu estivesse muito preocupado com o Muller.
“Bom treino para vocês então. Me chamem quando forem participar de algum campeonato de verdade.” Andreas sorriu travesso e foi se afastando, junto com outros rapazes e garotas que vieram observar a pequena disputa.
“Por que você o convidou? Quando?” Perguntei, tirando a mão de Alan de cima do meu ombro.
“Eu não o convidei. O encontrei por acaso no refeitório e almoçamos juntos. Aí comentei do treino, falei que você estava entrando no time, não imaginei que ele fosse se interessar a vir. É normal que as pessoas venham olhar o pessoal novo na natação no primeiro treino do semestre...” Alan deu de ombros e foi para perto de Muller, que começava a explicar o que faríamos agora.
“Cara, sério, se você ‘tá a fim dele, eu quero saber.” Eu disse. Alan suspirou.
“Será que eu não posso ao menos tentar ser um pouco amigável com o Andreas que você já supõe que eu estou a fim dele? Seja menos óbvio na sua paixonite, David.” Alan falou como se fosse o monge da sabedoria.
“Vai se fuder.” Xinguei. “Você costumava ser menos irritante.”
Alan não respondeu. O resto do treino continuou sendo uma competição silenciosa entre nós dois. É óbvio que ele ganhava todas, já que estava há dois anos participando de campeonatos a sério de natação, junto com os outros de tênis. Me perguntei de onde ele tirava tempo para viver, mas Alan sempre foi muito concentrado e pouco festeiro. E agora eu também teria de me preocupar com aulas, natação e vôlei.
Nós acabamos sendo um dos últimos a sair dos vestiários e andamos lado a lado, passando juntos por um lugar em que havia um pequeno ringue de boxe para treinos. Ketteridge era destaque em quase todos os esportes do país, e seus alunos, quase todos, participavam de algum. Alan parou, olhando com nostalgia para o ringue.
“Se lembra quando éramos uns sete anos mais novos e fazíamos boxe? Eu, tu e o Derek?” Ele perguntou.
“Naquele clube perto da tua casa.” É óbvio que eu lembrava. Eu vivia apanhando pros dois por ser o mais novo. “Depois sempre íamos pra tua casa jogar vídeo game.” Aí sim eu conseguia ganhar dos dois.
“A fim de tentar de novo? Agora você é tão forte quanto eu.” Ele tirou os óculos escuros e mostrou os dentes brancos. Ergui minhas sobrancelhas. “Ou será que ainda perde todas que nem naquela época?”
Não falei nada, só subi no ringue. Havia luvas ali, e eu calcei um par.
“Vem, então.”
Alan também subiu e pegou um par de luvas. Nós nos encaramos, e então começamos a girar um ao redor do outro. Ele arriscou um soco e eu desviei. Eu arrisquei outro e ele fez o mesmo. Não deu cinco minutos e estávamos lutando pra valer, atirando socos e desviando. Levei um na boca do estômago que me fez arfar, mas atingi uma direita em gancho em seu braço que o fez cambalear para o lado.
“Droga, é nessas horas que eu vejo como você cresceu.” Ele disse, massageando o braço, como se fosse muito mais velho do que eu.
“Só nessas horas?” Eu voltei a atacar, e nós acabamos embolados, nenhum querendo dar o braço a torcer e se afastar. Alan aproveitou um rápido desequilíbrio meu e me deu uma rasteira, velozmente já me prendendo ao chão. Eu tentei me soltar, mas ele segurou meus pulsos e imobilizou minhas pernas.
“Desgraçado,” Eu tentei socá-lo, mas ele pressionou com toda a força meus pulsos cruzados contra meu peito. Aí tentei chutá-lo, mas seus pés viraram ganchos em minhas panturrilhas, impedindo-me. Uma de suas coxas deslizou por entre minhas pernas, fazendo-me puxar o ar com força e xingá-lo de novo. Quanto mais eu tentava escapar, mais meu pênis se esfregava na coxa dele, me deixando excitado contra a minha vontade.
Ele continuava pressionando meus braços, olhando-me fixamente de cima, bastante ciente do que estava acontecendo, já que eu endurecia contra sua coxa. Minha respiração ficou completamente alterada e minhas tentativas de me soltar já não eram tão fortes. Ele moveu a coxa, esfregando-se em mim, e descruzou meus pulsos, prendendo-os no chão do ringue.
“Me solta, idiota. Endoidou?” Exigi, ofegante. Tentei forçar minhas mãos para cima, conseguindo erguê-las um pouco do chão, mas ele as empurrou e fez meu antebraço voltar a bater dolorosamente no ringue.
“Acho que sim.” Ele respondeu, calmo.
Eu o encarei com raiva enquanto ele continuava a mover a coxa, causando-me espasmos e uma vontade insana de que ele tocasse meu pênis melhor que aquilo. Mas com um excesso de adrenalina, consegui soltar minhas mãos e socá-lo em cheio. Ele caiu torto no ringue, e eu não falei nada ao me levantar, atirar as luvas no chão e sair dali, deixando-o sozinho massageando o próprio queixo.
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