David

Tirei minha jaqueta e a coloquei por cima dos ombros de Andreas mesmo com as altas chances de ele não aceitar e a atirar longe.

“Você está bem?” Perguntei, sentando-me ao seu lado.

“É... Não foi nada que eu nunca tenha visto, ou participado.” Ele deu de ombros. “Tome. Eu não preciso. Faço mais o tipo quente.” Ele sorriu torto devolvendo minha jaqueta.

Eu a peguei de volta contra minha vontade.

“Hoje Chris teria saído de lá ainda mais traumatizado se vocês tivessem demorado mais um pouco. Sinceramente? Acho que aquele Kyle desenvolveu alguma obsessão por ele. Não duvido que tenha sido ele quem tenha mandado outros caras atrás do Chris da última vez.” Andreas balançou a cabeça e bebeu do chá que uma das garotas da Magna havia lhe entregado. “Nada disso teria acontecido, se não fosse por mim. Você teve razão, em parte, em me xingar naquele dia.”

“Eu estava principalmente com ciúmes.” Admiti, encolhendo os ombros e apoiando meus antebraços sobre minhas coxas. “Você vai querer denunciar?”

“E o que vai adiantar? Pelo que ouvi aqui, Kyle é sobrinho do reitor e o pai dele doa quantidades generosas de dinheiro para a Ketteridge. Se você for ver, ele é até bem esperto. Ninguém que ele levou para aquela iniciação tem uma família tão rica ou poderosa quanto a dele. Já conheci muitos tipinhos como o Kyle, se quer saber.” Andreas falou como se não fosse nada. Na verdade, diferente de maioria dos calouros, ele parecia o menos afetado entre todos.

“Bem... Não custa tentar, eu acho.”

“Claro que custa. Kyle ficará muito satisfeito em transformar a vida de qualquer um que tentar derrubá-lo em um inferno. Eu estou feliz demais com minha própria vidinha para me meter em encrencas. Não quero nenhum riquinho filho da puta interessado na minha vida.” Andreas bebeu mais um gole. “Lugar legal esse da Magna.”

“É um bom lugar para reuniões. Aqui não somos incomodados...” Falei, torcendo as mãos. Era estranho estar falando com Andreas depois do nosso desentendimento, mas hoje era um dia a parte. “Você e Derek... Têm se dado bem?”

“Quer saber se não andamos trepando?” Andreas me olhou e sorriu de lado.

“É claro que não.” Interpelei, e estava falando sério. Sabia que Derek não faria isso comigo. Éramos amigos, próximos como irmãos, e mesmo que eu e Andreas não tivéssemos mais nada, eu não iria superá-lo assim tão fácil. Só de estar falando com ele, meu estômago já estava se revirando e eu queria muito poder passar meu braço por seus ombros. “Só queria saber se estava tudo bem. Caramba, você leva tudo para esse lado.”

“Eu levo?” Andreas gargalhou ironicamente. “Ora, olhe quem falando, Sr. Eu fico com tesão até quando você pisca.”

“Estamos falando de alguém que desfilava de toalha na minha frente e esperava que eu ficasse indiferente.” Lembrei-o. Ele estava exagerando, diabos! Um pouquinho, mas definitivamente estava. Aquele comentário fez eu me sentir como um cachorro no cio. Espera, não são os cachorros que entram no cio... Esqueça.

“Eu não tenho nada a ver com sua falta de controle, David.” Andreas retrucou, encarando-me com certa impaciência. Mas depois suspirou, como que derrotado. “Mas obrigado pela ajuda hoje. Estou lhe devendo uma. Se quiser, lhe pago com sexo.” Ele sorriu torto, e eu abri uma careta. “Ah, certo... Aquela história de eu não ter sentimentos e blá, blá, blá, estou magoando o seu coração por te provocar e não retribuir o que você sente. Como sou egoísta etecetera e tal.”

“Parece que você não precisa de nenhum consolo, já que já está pronto para se vender de novo. Chame algum cliente, aposto que arrecadará uma boa grana com essa disposição toda.” Eu falei me levantando. Estava sendo estúpido, mas a forma como ele desprezava as coisas que eu havia lhe dito machucava. E machucava bastante. Eu, por um momento, havia me esquecido o motivo de ter mudado de quarto, mas tinha acabado de me lembrar.

“Eu sempre arrecado bastante, David! Você deveria saber, já que gastou uma boa grana com meus serviços! Meus bolsos agradecem!” Ele falou alto o suficiente para que eu escutasse, a alguns passos. Nem se importou que as outras pessoas ouvissem, já que elas estavam mais interessadas em saber sobre o ocorrido, ou, no caso dos calouros assediados, falar sobre aquilo.

Eu caminhei até Laurent, o veterano a quem eu devia obedecer naquele mês. Se Andreas era como um sonho que deu errado em minha vida, Laurent era o verdadeiro pesadelo. Nunca havia conhecido garoto mais metido, arrogante e esnobe que ele. Além de mandão. Meus dias vinham se resumindo a fazer todas as vontades de Laurent. Eu já havia até massageado seus pés num desses dias. Para piorar, ele é do time de vôlei do qual eu faço parte. É o levantador e capitão, então é claro que ele estava adorando tirar o meu couro e reclamar o tempo todo do meu desempenho.

Seu único ponto positivo é ser terrivelmente bonito e ter um corpo lindo. Se eu tinha de olhar para aquela cara arrogante dele o tempo todo, eu ao menos tinha uma boa visão. Não que isso amenizasse meu sofrimento. Nem um pouquinho. Principalmente porque ele lembra uma versão morena do Andreas. Eu não duvidaria se ele trabalhasse na Casa das Máscaras, ou fosse um irmão perdido do loiro.

Quando parei ao seu lado, Laurent me olhou como se um estrume de cavalo houvesse ganhado vida e aparecido para bater um papo.

“Sinceramente, você estava dando em cima daquele loiro antes?” Ele perguntou de supetão, assustando-me.

“O-O quê?” Gaguejei.

“Você está com a típica expressão de quem acabou de levar um fora. Sei disso porque adoro causar essa expressão nas pessoas.” Ele olhou por cima do meu ombro, analisando Andreas. “Ele é bonito. Realmente, muita areia para o seu caminhãozinho.” Olhou-me com descaso. “Credo, você está fedendo. Há quanto tempo não toma banho?”

“Não sei se se lembra, mas você me mandou ficar praticando sozinho após os treinos. Nem tive tempo de tomar banho desde que o Andreas me ligou.” Eu falei, mas cheirei minha axila apenas por garantia. É, fedia, que beleza.

“Não quero um calouro fedorento me seguindo, você é mesmo pior que um cachorro, sabia?” Laurent declarou, empinando o nariz arrebitado. Tive vontade de quebrar aquele lindo narizinho. “Mas você fez bem em ajudar aqueles calouros. Minha irmã... Bem, ela era da Sigma antes de se formar ano passado. Kyle tentou forçá-la uma vez após uma festa. Estava bêbado. Essa foi a desculpa ridícula dele para quase estuprá-la. Depois disso, ele foi expulso da irmandade... Um novo caso foi abafado mais tarde, mas muitos suspeitam que ele chegou a abusar sexualmente de outra pessoa. Minha irmã tinha quase certeza disso. Ela me contou que Lance ficou furioso na época e quis denunciá-lo, mas ameaças foram feitas e tudo foi esquecido. Lance virou líder da Sigma somente para poder expulsá-lo, dizem os boatos. Já tem três anos...” Laurent falou com amargura. “Ele e Lance são inimigos mortais desde então. Se é que essa coisa de inimigos mortais possa ser levada a sério.” Laurent riu. “Mas você sabe, a família do Lance também é extremamente poderosa. Dizem que o pai dele chega a estar envolvido com a máfia."

“Não sabia disso.” Falei impressionado. “O melhor é nunca virar inimigo do Lance.”

“Exatamente. Por que você acha que ninguém tenta derrubá-lo? Só o louco do Kyle.” Laurent estalou a língua movendo os lábios finos. “Agora vamos. Você precisa de um banho e eu preciso de uma massagem. Deixe que o resto das pessoas decida o que fazer, mas pode apostar que no final ninguém irá levantar a voz contra Kyle.” Ele fez sinal para que eu o seguisse, e nós dois deixamos a torre.

Já era bem tarde e tudo que eu queria era ir para minha cama, mas aparentemente Laurent não desejava me liberar tão cedo. Maldita hora em que fui sorteado para cair nas mãos dele.

“Então, não irá me contar sobre aquele loiro? Não se preocupe, não sou preconceituoso, até porque sou bissexual assumido. Eu, Alan e você... Parece que somos as únicas pessoas que jogam para o outro time naquela irmandade.” Ele falou, e eu fiquei admirado por ele saber sobre Alan. “Ah sim... Digamos que alguém que Alan andou comendo nessa universidade é meu irmão. Meu pobre irmão, aquele lá será infeliz até morrer.” Laurent revirou os olhos, colocando as mãos no bolso da calça jeans.

“Eu estava a fim dele, mas ele queria apenas sexo. Fim da história.” Resumi o máximo que pude. Não queria expor Andreas ainda mais. Já bastava que Alan e Derek soubessem sobre ele.

“E só sexo é algo ruim?” Laurent perguntou curioso.

“Depende... Quando você começa a gostar de alguém, sim.” Encolhi os ombros. Estava me sentindo ridículo tendo aquela conversa com Laurent. Cheguei a imaginar que ele iria cuspir na minha cara, apenas porque podia, mas ele somente riu.

“Quem diria que você é do tipo romântico.”

“Talvez o problema seja eu achar que sou romântico, mas não ser nem pouquinho.” Rebati.

“Como assim?” Laurent quis saber.

“Sou um brutamonte. Só penso em sexo. Sou aquele cara ciumento e inseguro que é meio grudento. Sei ser insistente quando quero alguma coisa. Mas como tenho pouca paciência, acabo querendo ganhar o pote de ouro antes do tempo, sem batalhar exatamente por ele...” Eu não sabia por que estava admitindo sobre meu lado ruim para ele, mas que se danasse. Não era como se ele pensasse bem de mim, para início de conversa. “Andreas é só uma página curta da minha vida que estou tentando virar.”

“Aparentemente, você também é um desistente.”

“Apenas não gosto de jogar em time que já perdeu.”

“Então... Desistente.” Laurent reforçou, e eu fiquei quieto.

Porém após alguns segundos eu explodi.

“E o que você espera?! Que eu continue insistindo com alguém que já deixou claro que não quer nada comigo?” Perguntei exaltado.

“Eu não espero nada. Sua vida pessoal não tem importância nenhuma para mim.” Laurent falou indiferente. “Só estou falando... Não gosto de desistentes em meu time. Se uma tática não está dando certo, a gente tenta outra. Alguma menos afobada e mais trabalhosa. Qual técnica? Isso não sou eu que vou escolher.”

“Você é um baita de um metido, isso sim.” Revirei os olhos. “Vai dizer que já passou por algo parecido? Ou melhor, você disse que gosta de dar foras em outros caras... Algum não desistiu e conseguiu te conquistar?”

“Pelo contrário. Um deles desistiu facilmente. Foi bastante decepcionante. No fundo, eu gostava dele, apenas esperava que ele se esforçasse um pouquinho mais.” Laurent comentou, adquirindo um ar um pouquinho mais depressivo. Mas muito pouco. Logo me olhou empinando o nariz. Ele era mais baixo que eu por uns dez centímetros, mas isso não o deixava menor em personalidade. Os baixinhos em geral são os piores. “Agora, pare de lamuriar no meu ouvido. Sua voz me dá dor de cabeça.”

“Ah, claro... Você é hipocondríaco e a culpa é minha?”

“Eu não sou hipocondríaco!” Laurent me fuzilou com o olhar. Estávamos perto do dormitório dele agora, dirigindo-nos para o quarto que ele dividia atualmente com Jensen.

“Ah não... Você tem apenas 30 remédios diferentes no seu criado-mudo.”

“Uso apenas para eventualidades.” Ele declarou pomposo, colocando a chave na fechadura para abrir o quarto.

“Eventualidades diárias.” Eu cantarolei baixinho. Provocá-lo era a única maneira de não enlouquecer em sua companhia.

“Cale-se, escravo.” Ele ordenou. É, às vezes ele me chamava disso. Era ótimo! Eu sentia vontade de bater minha cabeça na parede toda vez. “E vá logo para o banho.”

“Vou tomar banho aqui? Pensei que só iria te fazer a porra da massagem e depois ir pro meu quarto.”

“Claro que não. E eu lá vou querer receber massagem de alguém fedendo a suor velho? Pegue uma toalha sob a bancada da pia e depois venha pro quarto, molhado ou não.”

“Você sabe o quão pornográfica foi essa sua sugestão?” Eu perguntei, sorrindo de lado. “Devo colocar uma musiquinha de plano de fundo?”

“Nem no apocalipse zumbi você seria uma opção. Eu preferiria ter meu pau mordido e arrancado por um dos mortos-vivos.”

“Como se eu tivesse algum interesse nessa bunda magra.” Revirei os olhos e entrei no banheiro, ignorando o xingamento dele. Eu entendia por que Laurent queria a massagem. Ele sofria de uma doença chamada fibromialgia. Pelo que Bobby me explicou, era uma doença que ninguém sabia ao certo o que causava, ou como tratar, mas ela gerava dores em várias partes do corpo.

Laurent tomava medicamentos para a dor com frequência, fazia sessões de acupuntura e massagens, mas sempre que tinha a chance pedia para que eu lhe desse uma massagem extra, usando um dos cremes para alívio da dor. Era até compreensível ele ser tão mal-humorado, considerando seu permanente e constante estado de dor.

Tomei um banho, peguei a toalha onde ele havia indicado e me sequei. Coloquei apenas a calça usada, ficando sem camisa e tênis, e fui para o quarto. Melhor do que usar somente uma toalha enrolada na cintura. Laurent estava deitado de bruços na cama, com os braços cruzados servindo como apoio para a cabeça. Estava também sem camisa, deixando os músculos magros e bem delineados dos ombros e costas à mostra.

Ele não tinha uma bunda magra, eu estava mentindo quanto a isso, mas ele não precisava saber minha verdadeira opinião quanto à sua bunda. Isso provavelmente apenas o irritaria ainda mais.

“Então... Onde dói?” Eu perguntei, pegando o tubo de creme que ele havia deixado sobre o criado-mudo.

“Por tudo... Aja logo como uma pessoa útil para variar, e acabe logo com isso.”

“Massagens não foram feitas para serem rápidas. Ao menos, não as boas massagens.” Eu discordei e me sentei na cama. Eu havia aprendido a fazer massagens graças a minha ex-namorada. Ela vivia me pedindo por massagens e, em algum momento, eu comecei a ficar bom naquilo.

“Faça como quiser, então.” Laurent resmungou.

“Você adora minhas massagens, só não quer admitir.” Falei convencido.

“Parabéns. Há ao menos uma coisa que eu adoro em você.” Ele ironizou ferino.

Abri uma careta emburrada, mas comecei a massageá-lo. A pele dele era sedosa e branca, então era fácil deixá-la vermelha com a pressão dos dedos, mas Laurent não se importava e apenas suspirava vez ou outra, apreciando o trabalho conforme a tensão sumia de seus músculos. Ele era cheio de contraturas; eu não fazia ideia de como conseguia jogar vôlei tão bem. Era um baita levantador e, por incrível que pareça, um ótimo capitão também.

Apesar de aparentemente me odiar.

Deveria haver algo de errado comigo ultimamente, já que eu vinha despertando o ódio de tanta gente em tão pouco tempo. E por tanta gente, entenda Andreas e Laurent. Mas acho que Laurent tinha a tendência de odiar cronicamente todas as pessoas que cruzavam seu caminho, então eu não me sentia assim tão culpado em relação a ele.

“Então, está gostando?” Perguntei para quebrar o silêncio.

“Você gosta mesmo de receber elogios, não é?” Ele perguntou sonolento.

“Digamos que seria bom receber algum elogio, para variar. Estou torcendo para que ao menos essas massagens me ajudem a entrar para a Magna.” Eu tinha ficado sabendo que ele havia dispensado o calouro que o acompanhou no ano anterior, então eu não estava exatamente confiante.

Laurent riu daquilo e se virou de barriga para cima.

“Você é mesmo um babaca inseguro, David. Você joga vôlei como um profissional, e eu já ouvi vários elogios sobre você na natação. Por fim, é melhor amigo do Derek e do Alan, dois dos caras grandes da Magna. Realmente acha que minha opinião sobre gostar ou não das suas massagens vale alguma coisa? Você não é dos mais brilhantes, David. Deve ser por isso que escolheu o curso de Educação Física – só precisa usar os seus músculos.”

Eu pisquei aturdido por alguns segundos, olhando estupidamente para ele. É, eu de repente estava me sentindo bastante retardado. Mas ainda assim, por alguma razão, eu não gostaria de ser mal avaliado por ele, por isso eu estava ali, tarde da noite, fazendo-lhe massagem em vez de estar roncando na minha cama. Não que eu ronque... Eu acho.

“Impressão minha, ou você acaba de me elogiar pra caralho?”

Laurent bufou.

“Cansei da sua cara por hoje. Pode ir, já estou mais relaxado. Então, xô.” Laurent me enxotou como faria com um cão de rua. Na verdade, acho que ele trataria um cachorro muito melhor. Ele adora animais. Segundo ele, tem três cachorros de grande porte em sua casa. Quando me contou isso, foi para me ameaçar implicitamente, dando a entender que poderia soltá-los em cima de mim.

Eu me levantei e me dirigi para a porta.

“Também tem que se estudar na Educação Física, só pra que você fique sabendo.” Eu disse ao girar a maçaneta.

“Então, talvez seja melhor você desistir de uma vez. Não há esperanças!” Laurent devolveu como uma chicotada.

É, ele me odiava.

XxxX

O apito soou estridente antes de saltarmos para a água. Tentei dar o melhor de mim, ainda mais depois de ficar sabendo que estava ganhando elogios aqui e ali por meu desempenho na natação. Nadar era bom, relaxante até, mesmo com toda a adrenalina. Eu vinha me afeiçoando aos momentos embaixo d’água. Mas eu dificilmente conseguia o primeiro lugar. Ficava sempre em terceiro. Nos meus melhores dias, em segundo. Mas teríamos um campeonato dali a pouco e tínhamos muito que treinar. Era uma pena que Oliver estivesse fora. Ele geralmente disputava o primeiro lugar com Alan.

Quando cheguei à borda e virei, minha visão periférica capturou um garoto loiro sentado nas arquibancadas do ginásio. Andreas! Minha mente exclamou e, se possível, eu nadei ainda mais rápido apenas para terminar logo e poder ver se era mesmo ele. Cheguei em terceiro e Alan em primeiro é claro, mas minha atenção não focou nisso. Eu olhei para as arquibancadas, mas não havia mais nenhum garoto por lá.

Eu estava delirando? Só me faltava essa... Começar a ver assombrações na forma daquele loiro gostoso e sensual. Até que não seria tão ruim assim para falar a verdade, principalmente se elas aparecessem sem roupas no meu quarto. Brincadeira. Eu ainda preferia a versão real, até porque eu tinha certo medo de fantasmas. E não, isso não tem a mínima graça.

Para meu alívio, então, eu olhei para a saída a tempo de conseguir vislumbrar certa cabeleira loira bastante conhecida saindo do ginásio. Perguntei-me se ele estava ali para me ver, mesmo que de longe. Talvez estivesse apenas entediado e tivesse dado uma passadinha para olhar o movimento. Ou estivesse cogitando entrar para o time. Eu gostava mais da primeira opção. Ou da última... Vê-lo molhado de sunga seria uma tentação daquelas.

E dessa vez não estou brincando.

“David! Pare de sonhar acordado. Você precisa melhorar o seu tempo se quisermos sobreviver nesse campeonato sem o Oliver, então, foco!” Trace gritou da borda da piscina. Sua voz zumbiu em meus ouvidos e eu abaixei meus óculos, suspirando e voltando a nadar.

XxxX

Me arrastei de volta ao meu dormitório quando os treinos acabaram. Bobby me acompanhava, já que dividíamos o quarto, mas parecia um tanto cabisbaixo e silencioso. Fazia dias que ele estava assim, se eu fosse contar nos dedos.

“O que houve, cara? Você parece chateado com algo nesses últimos tempos.” Eu coloquei uma mão em seu ombro. “Se precisar de alguém para conversar...”

“Ah... desculpe. Eu estou bem, apenas um pouco distraído.” Ele sorriu forçadamente. “Tenho muito que estudar hoje ainda. Não é uma perspectiva das mais alegres depois de um treino puxado desses.”

“Verdade... Eu também estaria deprimido.” Falei lentamente, não comprando muito aquela desculpa, mas decidindo não insistir se ele preferia não falar. Não éramos tão próximos para que eu me metesse em seus assuntos pessoais.

Quando parei em frente à porta do dormitório, ouvi sons saindo dali de dentro. Ergui a sobrancelha para Bobby, que arregalou os olhos e coçou a própria nuca.

“Ah... Acho que eu emprestei minha chave para o Jeremy mais cedo... Ele disse que havia esquecido algo dentro do dormitório.” Bobby explicou.

Eu me preparei para o pior. Abri com cuidado a porta. Lá dentro, vi duas pessoas deitadas em minha cama, assistindo televisão enquanto comiam pipoca e salgadinhos. Havia salgadinhos quebrados e esfarelados em cima da minha cama. Perfeito. Jeremy merecia um beijo.

Ou ser atirado pela janela.

“O que vocês estão fazendo aqui?!” Eu exclamei enquanto entrava no quarto. Olhei para a minha televisão de parede, que estava ligada passando algum desenho em japonês, se eu não estava enganado. “Por que estão vendo isso aqui?” Olhei para Jeremy e Chris.

Chris pareceu terrivelmente envergonhado, o que a gente espera de uma pessoa decente que invadiu seu quarto sem pedir permissão e agora é pega no flagra. Jeremy, por outro lado, apenas enfiou uma boa dose de salgadinhos na boca e me respondeu de boca cheia:

“Sua televisão é muito melhor que a do meu quarto.” Disse, como se isso resolvesse o assunto.

“Você poderia ter pedido!” Exclamei, enquanto Bobby tranquilamente ligava a luz e ia para a própria cama.

“Você não teria deixado!” Jeremy me acusou, apontando um dedo sujo de salgadinho em minha direção. Ah, claro, eu era o vilão ali agora!

“Mais um motivo para vocês não terem se enfiado aqui sem permissão. Há quanto tempo estão vendo desenho?” Perguntei olhando para a tela. Os gritos daqueles personagens eram estranhos e dramáticos demais para minha sanidade.

“Não é desenho. É anime. A-ni-me.” Jeremy falou pausado como se eu fosse muito débil mental para entender a diferença. “E estamos aqui há umas duas horas. Vocês estavam no treino, então qual o problema? Estou mostrando para o Chris o maravilhoso mundo dos otakus. Sabia que ele nunca tinha assistido? Estou me sentindo especial por ser o primeiro a mostrar meus animes favoritos para ele. Acredito que estou fazendo um bem a essa pobre alma, enriquecendo-a com conhecimentos fundamentais para transformá-lo em um adulto decente.” Jeremy tagarelou, filosófico.

Eu o ignorei, é claro.

“Chris, o que você tem a dizer em sua defesa?” Falei, em parte porque achava que havia chances de ele sair correndo e acabarmos logo com aquilo, em parte porque esperava palavras muito mais sensatas dele do que de Jeremy.

“Erm... Eu era uma alma empobrecida que precisava de orientação?” Chris falou tentativamente, mas frente ao meu olhar pesado ele arregalou os olhos, corou e abaixou a cabeça. “Desculpe por invadir seu quarto sem permissão.” Certo, eu me senti um monstro por fazer um garoto tão fofinho parecer tão arrependido. Onde está o meu coração mesmo?

Suspirei.

“Ok. Apenas terminem de assistir esse episódio e depois vão procurar outro lugar para se enfiar. Bobby aqui tem de estudar ainda.” Eu avisei e me joguei no espaço que restava na cama.

Estava exausto.

“Ah, não se preocupem comigo! Derek vivia assistindo televisão enquanto eu estudava... Acabei me acostumando, nem ligo para o barulho. Então se quiserem continuar assistindo...”

Minha vontade foi enfiar um dos travesseiros na boca de Bobby. Eu tinha a desculpa perfeita para que aqueles dois saíssem da minha cama e me deixassem dormir em paz, no silêncio, e Bobby havia acabado de irremediavelmente estragar uma noite de sossego e descanso. Eu levei uma mão à testa enquanto Jeremy comemorava.

“Ouviu isso, David? Podemos ficar aqui.” Ele me mostrou a língua.

“Eu deveria mandar vocês para a cama do Bobby.” Murmurei, fechando os olhos enquanto vincava a testa. “Você não deveria estar com o Alan, para início de conversa, Jeremy?” Perguntei.

“Hm, deveria... Quem sabe não mando uma mensagem para ele vir para cá?!” Jeremy sugeriu empolgado. “Podemos ver um filme todos juntos!”

“Oh Deus...”

“Não, não o chame!” Chris pediu nervoso, atraindo o olhar de nós dois. “Q-Quer dizer, pode chamar... É só que... Ele deve estar cansado do treino de natação também.”

“Que nada! Natação nem cansa! O que cansa mesmo é atletismo. Isso que cansa, eu saio como um homem morto. Eu vou ligar para ele.” Jeremy falou pegando o celular. “Ele talvez até goste de animes! E ele falou que gostaria de passar mais tempo com você também, Chris. Sabe, quando eu disse que queria ver animes com você, porque você é tão fofinho que eu quero te usar como meu travesseiro ele disse que... Ah! Alan, oi! Estamos no quarto do David. Tem uma festinha aqui. Venha!” Ele exclamou e se inclinou para trás quando tentei alcançar e arrancar o celular de sua orelha. “David está mandando beijos! HAHAHA!” Ele literalmente gargalhou como um louco antes de desligar.

“Cara, você é pior que uma criança de dez anos.” Eu suspirei cansado.

“Tenho alguns amigos que dizem isso. Mas geralmente eles me comparam com crianças de cinco anos. Mas se formos pensar, as de dez anos são realmente piores. Quer dizer, elas já têm o sistema motor do corpo mais desenvolvido, não é? Podem correr mais, subir muros, escalar móveis muito mais facilmente. Além disso, são mais articuladas e já conseguem falar bem mais do que crianças de cinco anos. Então acho que você tem um pouco mais de razão. Minha mãe, por outro lado...”

“Jeremy, cale a boca, por favor. Estou tentando ver o desenho.” Eu falei, porque ver um desenho japonês estranho era muito mais interessante do que ouvir sobre com o que a mãe de Jeremy costumava compará-lo.

“A-ni-me.” Jeremy repetiu.

“É... Que seja.” Bufei.

Recebi uma mensagem naquele momento. Era de Laurent, perguntando-me se eu já não havia terminado o treino. Ele queria que eu levasse algumas roupas dele para lavar. Ah, que maravilha! Eu mandei outra mensagem para ele, dizendo que estava preso no meu quarto com visitas. Ao menos para isso Jeremy tinha de servir.

Fechei os olhos enquanto Jeremy tagarelava em cochichos com Chris, aparentemente explicando a ele vários pontos enigmáticos da história do tal anime. Bobby já estava imerso em um livro de medicina – ginecologia e obstetrícia, creio eu. Credo.

Para minha surpresa, outra pessoa que não o Alan apareceu em meu quarto pouco depois.

“Laurent...!” Exclamei, sentando-me. Fiquei nervoso ao vê-lo, o que era bem sem sentido já que eu o considerava simplesmente um pé na bunda. Mas ele parecia muito pior do que eu poderia lembrar, então me preocupei. Tinha olheiras e uma expressão de zumbi com fome que não era nada agradável.

Ele cambaleou até a cama e se sentou entre as minhas pernas.

“Eu estou com dor... E já meio dopado. Tomei vários remédios. Pelo amor de Deus, me faça uma daquelas massagens.” Para minha perplexidade, Laurent apoiou o corpo contra o meu, parecendo sem forças. “Sério, isso é uma ordem.” Ele murmurou.

“Você parece mesmo dopado. Tem certeza que está bem?”

“Sim... Não foram os remédios. Eu bebi um pouco... Para anestesiar a dor. Mas eu sou meio fraco para isso, sabe?”

“Tudo bem...” Eu falei, colocando as mãos em seus ombros e começando a massageá-lo.

“Uou, ele parece prestes a cair morto. Ô médico! Fica ligado, hein!”

“Oi?” Bobby ergueu o olhar do livro.

“Oi, prazer, me chamo Jeremy!” Jeremy se adiantou e o cumprimentou na brincadeira, como o abestalhado que era. Bobby riu da piada sem graça, enquanto eu pensava qual seria a melhor forma de escapar e me enfiar no quarto e cama de outra pessoa sem ser notado.

Foi assim que Alan nos encontrou e, para piorar, Derek estava com ele. Chris soltou uma exclamação de susto ao vê-los e tentou correr para fora do quarto, falando alguma coisa atrapalhada sobre ter hora para voltar para seu dormitório. Derek, no entanto, o segurou e impediu de fugir.

“Derek, me solta!” Chris esperneou.

“Não mesmo! Eu trouxe um filmaço de terror! Nem te preocupa, amostra-grátis, avisamos teu irmão que você está com a gente!” Derek garantiu já arrastando Chris com ele para a cama de Bobby. “Bobby, meu querido! Estou sofrendo tanto sem você para diagnosticar minhas tendinites!” Derek comentou enquanto jogava Chris na cama como se ele fosse uma mochila de penas. Chris quicou no colchão e olhou irritado para Derek. Pela primeira vez achei que ele e Oliver tinham algo em comum – os dois ganhavam uma expressão raivosa bastante intensa quando provocados.

“Já disse que é só você usar os anti-inflamatórios quando estiver com dor, Derek...” Bobby falou com um sorriso cansado. “Ou parar de jogar tanto basquete.”

“JAMAIS!” Derek exclamou abrindo os braços. Chris revirou os olhos para aquele drama todo e correu para se deitar novamente junto com Jeremy, que passou um braço por seus ombros. Eu peguei Laurent, que estava bem bêbado, no colo e fui com ele para a cama de Bobby, onde havia uma parede em que eu podia me apoiar para massageá-lo mais facilmente.

Alan, então, se acomodou ao lado de Christian e sussurrou algo no ouvido dele, deixando-o vermelho como um moranguinho. Já Derek atirou-se no chão entre as camas após roubar o travesseiro de Bobby.

“Essa noite vai ser louca.” Derek falou quando o filme começou, iluminando o quarto enegrecido.

“Ah! Já ouvi falar desse filme! Meus amigos viram no cinema um mês atrás. Disseram que uma garota até saiu chorando da sessão! É um sobre uma maldição muito antiga que transforma as pessoas em seres das trevas e-!”

“Jeremy, cala a boca!” Foi quase um uníssono dessa vez.

XxxX

Notas finais
Nota da autora: Hey, guys! Eu me diverti tanto escrevendo esse capítulo! Espero que tenham curtido! ♥ Obrigada a todos que estão acompanhando. E um beijo e abraço especial àqueles que comentaram no último capítulo: Hinamori, Kassia, Naiara, Ruth, Lucy, aoiapple, cut, Laylin e Dragomir! (e ao Tsu que comentou o cap. passado!) Beijos e até o próximo!!!