Gunther era um homem rico, até que a vida resolveu tirar-lhe tudo. Não tinha mais casa, não tinha mais dinheiro, carros, nada. Família? Não construira uma. Tudo o que tinha agora era um cobertor, com o qual se cobria em dias de frio e chuva em uma das ruelas da cidade de Colônia. Mas seu destino mudou numa escura e fria noite de abril.

Estava chovendo e uma fina neve caía dos céus. Gunther estava deitado sob seu cobertor, pedindo aos deuses que nevasse menos. De repente, apareceu ele. Um homem bem apessoado, alto, de grande porte, cabelos loiros que tocavam o ombro, porém cobertos por um chapéu. Olhos azuis tão vítreos que podia-se ver seu reflexo neles. Sua presença não passou despercebida a Gunther que, em seu tempo de morador de rua, aprendera a identificar todo o tipo de gente. Esse era rico, com toda a certeza, pensou Gunther. Andava de terno, com um sobretudo negro que contrastava com sua palidez. Gunther ficara tão estupefato com a presença do tal homem que mal percebera que havia caído-lhe uma carteira. Bobo que não era, logo que se apercebeu, foi averiguar se havia nela dinheiro algum. Por sorte, havia 50 euros – nada que fosse grande coisa, mas para um pobre miserável como ele, bastaria para pelo menos se alimentar. Não havia nada além dos 50 euros na carteira, fato que muito intrigou Gunther, mas ao averiguar que a carteira era de couro legítimo e que poderia fazer com ela um bom dinheiro, deixou as preocupações de lado e foi dormir em seu abrigo. Não conseguira. Tivera pesadelos durante toda a noite, com criaturas obscuras tentando puxar-lhe os pés e, quando acordava, ouvia sussurros ao pé dos ouvidos dizendo-lhe para voltar a dormir. A situação perdurou por dias, semanas, até que o mesmo homem bem apessoado lhe apareceu de novo, mas desta vez, especialmente para conversar com ele. Você está com algo que não lhe pertence, disse-lhe o homem. Gunther se desculpou – não havia o feito por mal, sentia fome, era só isso. Não importa, lhe disse o homem. Roubo é roubo. E era mesmo. Onde estavam seus princípios? Não houve tempo para responder seu pensamento – o homem o lera. Onde estão seus princípios, Gunther? É isso que quer saber? Pois lho digo! Perdestes ao conseguir subir na vida! Pisando em cima de tudo e todos, enxergando só a si mesmo, e mais nada. Mas não o reclamo. É de pessoas assim que gosto. Mo fazes mui feliz. Sabes quem sou? Sou aquele que vos atormenta cada dia e cada noite de vossa miserável existência. E lho atormentarei mais. O pior está por vir. E com estas palavras, deixou um Gunther atordoado e sem entender exatamente o que havia se passado. E assim ele continua. Sentado nas ruelas de Colônia, bradando a quem quiser ouvir, que roubou a carteira do diabo e que este viera buscar. Dizia que os demônios lho atormentavam, dia e noite, em busca de tal pertence do capiroto, mas que ele, como bravo senhor e servidor da luz, jamais a devolveria. Dizia que preferia ir para o inferno. Pobre Gunther. O inferno ele vive aqui.

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