A Carta Cinza

7 CAPÍTULO 6 - A escolhida


— Estou tão nervosa. — E abri um sorriso.

Eu falei isso em voz alta. No meio de toda aquela gente na cerimônia, frente à minha família, frente às câmeras.

Pior: frente a Rafael, que sorriu de volta.

Não aquele sorriso caloroso que enche o peito. Foi algo discreto.

Contido. Calculado.

Mas para quem nunca o viu sorrir — como eu — foi quase uma declaração.

A plateia, composta por ministros, especialistas, técnicos e representantes de núcleos civis, respondeu com um aplauso educado.

Protocolar.

Rígido.

Mas foi o suficiente pra me fazer acreditar que, de algum modo, eu estava... bem.

O discurso estava impresso em papel perolado, com a insígnia do governo no topo. Eu tinha lido aquilo tantas vezes que sabia cada pausa.

Mas quando cheguei no microfone e olhei o povo lá embaixo — os olhos da minha mãe brilhando, as mãos do meu pai apertadas entre os joelhos, meus irmãos com a gola da roupa arrumada por Eliane —, alguma coisa escapou do texto.

Eu acrescentei uma frase.

Pequena. Simples. Honesta.

“...E que mesmo agora, designada a essa nova vida, eu jamais esquecerei de onde vim. Nem das pessoas que ainda estão lá... Todos nós somos iguais, independentemente de onde viemos.”

A resposta foi calorosa. O público civil aplaudiu com mais força.

Alguns se levantaram.

Rafael não se moveu.

Mas apertou os dedos da própria mão.

Pequeno gesto.

Mas eu vi.

O restante da cerimônia seguiu como o ensaio: entrada, posicionamento, juramento funcional, assinatura simbólica.

As câmeras registravam tudo. As pessoas tiravam fotos da gente lado a lado.

Na tela holográfica do fundo, meu nome aparecia com letras brancas sobre fundo cinza claro:

CATARINA GAIA – FUNÇÃO DESIGNADA DE ALTA COMPATIBILIDADE

UNIÃO GENÔMICA COMPOSTA – NÚCLEO FEDERAL DE CONTINUIDADE

Mas nada disso parecia tão importante quanto o que senti quando tudo acabou.

***

Horas depois, já longe do salão, Eliane me chamou para um canto na sede administrativa. Rafael estava imerso com outros políticos e ministros, eu não existia.

Eliane sorriu e entregou uma pasta fina, lacrada com carimbo urgente.

— É só uma observação interna — disse, com a voz neutra. — Mas você precisa saber.

Abri a pasta.

Dentro, um bilhete impresso e assinado pela Seção de Avaliação Pública do Ministério:

“Recomenda-se moderação nas falas espontâneas da companheira pública.

A referência emocional direta às castas inferiores gerou índice de empatia desbalanceada.

Embora tenha agradado o público, a mensagem pode ser interpretada como estímulo à instabilidade de percepção entre classes.”

Fechei a pasta devagar.

— Eu não disse nada demais.

— Você disse exatamente o que o povo queria ouvir — respondeu Eliane. — E isso, às vezes, é o problema.

***

Com minhas roupas ainda da cerimônia, Rafael me guiou para fora do carro.

Andava à frente, com passos silenciosos e regulares, mexendo nos bolsos do terno como se procurasse algo que tivesse esquecido — ou decidido de última hora.

Parou ao lado da porta principal. Me olhou rápido, depois baixou os olhos para a minha mão.

— Use isso aqui. — disse, segurando meus dedos com firmeza.

Colocou algo frio sobre eles.

Um anel.

Simples, prateado, sem pedra.

Não parecia um dispositivo. Nem uma joia cara.

Parecia... antigo.

— Isso é algum tipo de identificador? — perguntei.

— Não. — Ele hesitou. — Meus pais disseram que isso representava... união.

União. A palavra caiu como uma gota gelada.

— Rafael...

— Você sabe que agora temos responsabilidades de marido e mulher — ele cortou, seco. — Não só protocolares. Funcionais. Legais.

— Podemos falar sobre o meu trabalho?

— Você não pode trabalhar.

Minha voz saiu mais firme do que eu esperava:

— Então como vou ajudar minha família?

Ele voltou a colocar as mãos nos bolsos, como se tentasse se esconder neles.

— Eliane já compartilhou no nosso banco. Meu rendimento é seu. Se quiser destruir todo o meu Real, tem total liberdade.

Abri um sorriso — mas pela seriedade dele, entendi que aquilo não era uma brincadeira.

— E como eu faço isso?

— Eliane vai te entregar uma planilha com todas as suas funções e horários. Médico, escola, atividades. O que quiser fazer dentro disso, está autorizado.

Ele me olhou com aqueles olhos lilases que não diziam muita coisa. Apenas calculavam.

— Pode enviar um percentual fixo. Eliane vai configurar a transferência automática.

— E se eu quiser ir lá pessoalmente?

— Meus pais não sabem mexer em banco. E... nem confiam.

— Então... programe no seu horário livre. — Ele fez uma pausa. — Mas use um vestido discreto. E segurança.

Entramos no apartamento. A iluminação era amarelada, mas tudo parecia sem uso.

O sofá não tinha marcas. As cadeiras pareciam novas demais. A cozinha — limpa demais.

Como se ninguém tivesse morado ali.

Como se tudo tivesse sido montado pra parecer lar... sem nunca ter sido um.

No segundo andar, Rafael apontou para uma das portas.

— Nosso quarto. Se quiser, contrate uma empregada. E uma doula.

— O que é uma doula?

— Alguém que vai te ajudar a... aprender a cuidar do nosso... — ele tossiu, seco. — Do nosso filho.

— É tipo uma parteira?

— Se assim você desejar. Minha mãe tinha uma doula. Achei que você fosse querer.

Houve um silêncio.

— Seus pais foram na cerimônia? Me desculpe a ignorância. É que... eu não sei nada sobre você. A gente não teve tempo.

— Meus pais são falecidos. Acidente doméstico.

— Ele respondeu como se fosse sobre o clima. — Foi quando eu ainda estava no colégio.

— De qualquer forma, preciso que me comunique tudo com antecedência.

A culpa me queimou por dentro, mas ele não parecia se importar com a pergunta.

— Rafael... você está com fome?

— Você sabe cozinhar?

— Eu tenho cinco irmãos pequenos e fui pobre até pouco antes de nos conhecer. É claro que eu sei cozinhar. — Sorri. — Quer fazer compras comigo?

— Não. Tenho trabalho. Não volto pra casa hoje. Mas... use sua pulseira como crédito. Encoste no sensor e será debitado.

Ele se afastou, mas eu estiquei a mão e puxei seu terno.

— Rafael. Como eu posso cumprir meu dever de esposa?

Ele virou de leve, com um meio sorriso curioso.

— Não entendi.

— Eu preciso... ir pro quarto com você?

Ele engasgou, depois deu um passo para trás.

— Você tem dezesseis anos. Eu pensei em esperar pelo menos dois anos. Até a sua dieta nutricional ficar estável...

— E por que eu chamaria uma doula agora então?

— Porque... é isso que as mulheres prateadas fazem. — Ele respirou. — Andam com suas doulas.

Fiquei em silêncio.

Talvez tenha sido a primeira vez que senti que estava vivendo uma peça montada por outras mãos, onde até o afeto era rotina agendada.

Mas também foi o momento em que ele disse mais do que quis — e talvez mais do que soubesse.

***

Com minhas roupas ainda da cerimônia, Rafael me guiou para fora do carro.

Andava à frente, com passos silenciosos e regulares, mexendo nos bolsos do terno como se procurasse algo que tivesse esquecido — ou decidido de última hora.

Parou ao lado da porta principal. Me olhou rápido, depois baixou os olhos para minha mão.

— Use isso aqui.

Segurou meus dedos e colocou algo frio sobre eles.

Um anel.

Simples, prateado. Sem pedra.

Não parecia um dispositivo. Nem uma joia cara.

Parecia... antigo.

— Isso é algum tipo de identificador?

— Não. — Ele hesitou. — Meus pais disseram que isso representava... união.

A palavra caiu como uma gota gelada.

— Rafael...

— Você sabe que agora temos responsabilidades de marido e mulher — ele cortou, seco. — Não só protocolares. Funcionais. Legais.

— Podemos falar sobre o meu trabalho?

— Você não pode trabalhar.

Minha voz saiu mais firme do que eu esperava:

— Então como vou ajudar minha família?

Ele voltou a colocar as mãos nos bolsos, como se quisesse se esconder neles.

— Eliane já compartilhou no nosso banco. Meu rendimento é seu. Se quiser destruir todo o meu Real, tem total liberdade.

Abri um sorriso, mas o tom dele me deixou séria de novo.

— E como eu faço isso?

— Eliane vai te entregar uma planilha com todas as suas funções e horários. Médico, escola, atividades. O que quiser fazer dentro disso, está autorizado.

Ele me olhou com os olhos lilases que não diziam muita coisa. Apenas calculavam.

— Pode enviar um percentual fixo para sua família. Eliane vai configurar a transferência automática.

Se preferir ir até lá pessoalmente, use o aplicativo do celular para solicitar um transporte autorizado.

— E as compras?

— Encoste sua pulseira no sensor da loja. O valor será debitado da nossa conta conjunta.

Ficamos em silêncio por alguns segundos.

Entramos no apartamento. A iluminação era amarelada e tudo parecia sem uso.

O sofá sem marcas. As cadeiras impecáveis. A cozinha... enfeite de catálogo.

No segundo andar, Rafael indicou que ficava nosso quarto e sugeriu:

— Contrate uma empregada. E uma doula para te acompanhar.

— O que é uma doula?

— Alguém que vai te ajudar a... aprender a cuidar do nosso… — ele tossiu, seco — do nosso filho.

— É tipo uma parteira?

— Se assim você quiser. Minha mãe teve uma doula. Achei que você fosse querer também.

— Seus pais foram na cerimônia? Me desculpa a pergunta. É que... eu não sei quase nada sobre você.

— Meus pais são falecidos. Acidente doméstico. Foi na época do colégio.

De qualquer forma, preciso que você me comunique tudo com antecedência.

Fiquei em silêncio. Senti culpa pela pergunta, mas ele não parecia se importar.

— Rafael... você está com fome?

— Você sabe cozinhar?

— Tenho cinco irmãos caçulas e fui pobre até pouco antes de te conhecer. Claro que sei cozinhar. — Sorri. — Quer fazer compras comigo?

— Não. Tenho que trabalhar. Não volto hoje.

Mas use a pulseira para comprar o que precisar. Ou peça entrega pelo aplicativo.

Ele se virou, prestes a sair, quando puxei seu terno de leve.

— Rafael. Como eu posso... cumprir meu dever de esposa?

Ele parou, surpreso. Um sorriso curioso surgiu.

— Não entendi.

— Quero dizer... preciso ir pro quarto com você?

Ele engasgou.

— Você tem dezesseis anos. Eu pensei em esperar pelo menos dois anos. Até a sua dieta nutricional ficar estável.

— E por que eu chamaria uma doula agora então?

— Porque... é isso que as mulheres prateadas fazem, andam com suas doulas.

***

— Eu tenho que ir ao trabalho.

— Mas hoje foi uma cerimônia de união — respondi, com a voz ainda baixa. Como quem pede um segundo a mais de presença.

Rafael ajustou o colarinho com calma, sem nem me olhar direito.

— Sim. Mas meu cargo não entra em recesso para eventos pessoais.

Sou responsável por manter a matriz de estabilidade genética em tempo real.

Se eu me atraso... todo o sistema de compatibilidade nacional pode atrasar junto.

Ele falava com tanta praticidade que a palavra "união" parecia um item numa planilha, não uma mudança de vida.

— E eu? — perguntei. — O que eu faço agora?

— Eliane vai te passar a rotina. A programação da semana, o plano alimentar e sua nova agenda de instrução formal.

— Você não vai nem ficar pra jantar?

— Não hoje.

Pela primeira vez, ele hesitou. Bem pouco.

O suficiente para me olhar nos olhos por mais de dois segundos.

— Catarina, eu não... fiz isso por gosto. Nem por repulsa. Fiz porque era minha função.

Sua designação foi confirmada como a mais compatível em 30 anos de registro.

— Isso é pra me consolar?

— Não. É pra te explicar que você foi escolhida com base no melhor que existe em mim.

Não foi por acaso. Nem por caridade.

Aquela frase me atravessou inteira.

Não havia amor ali. Mas havia... algo. Um tipo estranho de respeito?

Ele pegou a pasta sobre a bancada e caminhou até a porta.

— Se precisar de mim, use o canal direto no celular. Mensagem de texto. Nada urgente por voz. — Fez uma pausa curta. — Boa noite, Catarina.

A porta se fechou.

E eu fiquei ali.

Com roupas de festa num apartamento silencioso, onde tudo parecia novo… menos eu.