A Carta Cinza
1 CAPÍTULO 0 - Ética Feminina
Eu nunca fui a melhor aluna.
Não ganhava medalha, nem nota azul direto no mural da sala.
Tinha dificuldade em decorar as regras de ética feminina e detestava as redações obrigatórias sobre “virtudes da esposa funcional”.
Mas eu estudava.
Mesmo com uma escola que não me queria inteira.
Mesmo com professores que diziam, com todas as palavras, que menina inteligente demais virava mulher desobediente.
Eu estudava porque era a única coisa que ninguém podia arrancar de mim, mesmo quando a escola dizia que meu lugar era quieta, casada e submissa. Mesmo assim, eu lia. Só pra ter certeza de que eles não estavam certos.
Os professores não estimulavam a gente a continuar. Só ensinavam como sentar, sorrir e abaixar a cabeça. Mas às vezes tinha matemática. E quando tinha, eu aproveitava. Era quando eu aprendia algo que podia me levar pra fora dali. Mesmo que fosse só na cabeça.
Naquela manhã, a aula era sobre postura pública.
A professora — uma mulher de coque duro e pulseira branca — repetia pela décima vez a importância de manter os joelhos fechados e o olhar baixo em cerimônias oficiais.
— As câmeras estão sempre posicionadas dois palmos acima da cabeça. Se o queixo estiver alto demais, sua imagem será cortada. E ninguém respeita uma esposa que “parece superior ao marido”.
Duas fileiras à frente, uma menina cochilava com os olhos abertos.
Outra desenhava flores na capa da apostila.
E eu… eu fingia anotar.
Do lado de fora da sala, no pátio, duas alunas estavam de castigo.
Tinham sido flagradas trocando bilhetes de amor.
Agora estavam em pé, com placas penduradas no pescoço:
“Conduta de
Uma delas chorava. A outra não.
A professora virou de costas. Não era mais problema dele.
As meninas foram levadas até o meio da sala. Um dos inspetores retirou um aparelho de choque da mochila. O outro ativou a transmissão da cena para o restante da escola.
— Essa correção é para todas que acham que o corpo é delas — disse, antes de encostar o bastão na costela da primeira.
Ela caiu.
A outra tentou não chorar. Tentou mesmo.
O choque veio do mesmo jeito.
Depois, as duas foram arrastadas para fora, como se fossem lixos mal colocados no lugar errado.
O sinal tocou.
A aula seguinte foi “Estrutura Social e Constituição”, mas todos ainda sentiam o cheiro de medo no ar.
A professora chegou, sentou-se com elegância exagerada e começou a falar como se nada tivesse acontecido.
— Como vocês sabem, nosso sistema é dividido por capacidade funcional. A Classe Dourada cuida das decisões centrais. A Prata das execuções táticas. A Branca da operação racional. A Ocre, como a maioria de vocês, lida com o trabalho físico, emocional e biológico. Sem vocês, o sistema colapsaria. Mas sem ordem, vocês são um risco. Por isso, regras existem! E por isso aconteceu isso que vocês acabaram de presenciar. Sejam discretas.
Ninguém respondia. Só anotávamos. Porque era isso que se esperava.
A maioria das meninas da minha classe já tinha largado a escola. Diziam que era perda de tempo pra quem ia casar cedo, servir ou trabalhar com a mão. As poucas que ficaram tinham condição de pagar reforço, transporte, suplemento. Menos eu. Eu ficava porque ainda achava que alguma coisa ali podia me salvar — nem que fosse uma equação.”
No intervalo, sentei na escada dos fundos. O calor estava seco, a garganta apertada. Uma colega me ofereceu um pedaço de pão, mas não consegui aceitar.
A escola era só um tapa-buraco. Servia pra ocupar as meninas até o casamento chegar. Quem tinha dinheiro de verdade nem pisava lá — contratava professor em casa, alguém com diploma e paciência. O resto, como eu, ficava ouvindo aula de postura e aprendendo a rezar pra ser sorteada com um marido que não batesse
Fiquei ali olhando a palma da minha mão, tentando entender o que era esse cansaço que não passava. Talvez fosse só isso mesmo.
A vida era isso.
A gente estudava para aprender a servir.
A gente obedecia para não ser punida.
E, com sorte, a gente se casava com alguém que nos amaria.
Com sorte.
Mas nunca quis um amor perfeito. Só esperava que meu marido não me matasse, isso já era o suficiente.
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