A Carta
1 Único
Notas iniciais
Os dias aqui são sempre assim: cinza, monótono e silencioso. Mas o que mais eu poderia esperar do corredor da morte? Festas, vivas e conversas filosóficas? Acho que não, apesar de ter muita gente feliz com a minha condenação eu não escutei um viva desde que recebi o veredito, há um mês. Tempo demais, não é? É, a justiça anda a passos lentos. E espero que continue a passos lentos. Preciso terminar essa carta antes que me joguem na fogueira.
Sei que nunca fui de escrever cartas para você, assim como nunca fui de fazer declarações de amor e como nunca fui capaz de dizer o quanto você foi importante na minha vida. Porque entre os rostos que existiram na minha vida, você foi o único que não se desvaneceu com o tempo, foi o único que continuou presente mesmo eu já tendo te mandado embora milhões de vezes e tendo gritado com você milhões de vezes. Mas estou escrevendo, porque percebi que quero ser para você o que você é pra mim: Importante. Quero ser importante para você, quero que não me esqueça, que pense em mim uma vez por dia ou apenas antes de dormir, quero que chame meu nome nos dias ruins e quero que pense em nós quando a rotina miserável da vida estiver te esmagando.
Então decidi escrever. Nos últimos segundos da minha vida decidi escrever para você. Lembra que costumava reclamar que nunca sabia o que se passava na minha cabeça? Pois é, aqui está meu querido. Meus pensamentos mais profundos, meus medos, meus sonhos e todo os meus sentimentos...
Peço que perdoe minha letra feia, mas é realmente ruim segurar a pena com a mão quebrada. Assim como é difícil achar uma posição confortável no chão de terra batida da minha cela ou ficar em pé. Acho que se eu saísse daqui iria ter que mancar para vida toda. Mas não quero que pense nas torturas que sofri. Fique tranquilo agora, eles não me machucam mais. Eu já confessei tudo. É por isso, afinal, que estou esperando minha vez para queimar, certo? Sou um pecador e mereço apenas o fogo do inferno.
Ou pelo menos é nessa verdade que eles acreditam. Os santificados, os bons. Bando de bobos, é o que eles são no final. Se eles sentissem um pedaço, uma lasquinha de todo o sentimento que sinto por você... eles saberiam que isso é que é verdade, que isso que é santo. Por que o que é o amor, se não santo? Não era o que Jesus, filho do Pai, pregava na sua vida como humano? Não era isso o que ele dizia, que tínhamos que amar o próximo? Eu te amo e isso já é santo o suficiente. Mas eu os entendo. No fim, não os culpo. Disse isso para eles numa das nossas sessões. Agora que estou condenado, percebi que tenho que perdoa-los.
Então eu os perdoo. Sigam em frente com seus mandamentos, façam o que tem que fazer, leiam a Bíblia e preguem sobre Jesus e seus ensinamentos. Eu os perdoo agora. Os perdoo pela inquisição, pela interpretação errada do evangelho, por terem feito coisas ruins comigo, por terem me separado de você. Eu os perdoo.
Você deve estar achando graça agora ou apenas balançando a cabeça e se perguntando como eu posso ser assim. Mas eu nunca fui bom em cultivar raiva por muito tempo e você sabe. E agora que meu destino foi traçado, apenas posso fazer isso. Pois, por algum motivo quero ir para o outro lado com a consciência limpa.
Já perdoei bastante pessoas, se quer saber. Perdoei aquele homem da taverna que não nos defendeu, perdoei Melissa por ter nos denunciado, perdoei os guardas, perdoei todos que nos fizeram mau. No entanto, eu não consigo me perdoar.
Eu deveria ter ido para longe com você, como você queria. Deveria ter percebido que Melissa estava planejando alguma coisa. Deveria ter sido mais cuidadoso, mas eu estava tão apaixonado e o amor cega. E eu fiquei cego. Achei que minha posição me protegeria, que nos protegeria. Mas a religião está acima de tudo isso.
Eu sinto muito, meu querido.
Eu estava apenas pensando em nós.
E ainda continuo pensando em nós. Todos os dias, todos os minutos e parece que quando mais o fim se aproxima, mas você está presente no meu pensamento. Penso no sabor do seu beijo, na vontade que sinto de te tocar, de enfiar os dedos no teu cabelo, de sentir o cheiro que há no seu pescoço. Sinto falta do modo ofegante que você ficava toda vez que eu te roubava um beijo nos corredores da catedral, a expressão assustada perguntando se eu não tinha medo. Não, eu não tinha e ainda não tenho. Porque quando as coisas te envolvem, eu não tenho medo algum. Foi por isso que te mandei ir embora quando vi os guardas, foi por isso que gritei contigo para fugir. Eu só queria te salvar, então não tive medo. Por você eu não tenho medo.
Entretanto, antes de te conhecer eu confesso que era uma pessoa medrosa. Vivia minha vidinha sem graça, mascarava minha natureza e fingia que amava Melissa. Tudo que me envolvia naquela época era mentira. Eu era uma grande mentira. Mas, é claro, eu estava com medo. E quando você apareceu na minha vida, entrando desajeitado pela porta da minha casa, se apresentando como primo de Melissa, foi como se alguma coisa se destrancasse dentro de mim. Foi como se todas as máscaras que eu vinha usando todo esse tempo, finalmente caíssem. E eu pude sentir elas caindo, caindo diante de você mostrando minha real natureza, mostrando toda a minha alma para ti.
O meu carcereiro é muito jovem para entender as coisas que estão acontecendo ultimamente, mas ele é um jovem muito inteligente. Ele vem de uma família pobre e não sabe ler, mas ensinei algumas letras para ele. E se eu tivesse mais tempo, poderia ensinar mais coisas. Entretanto, ele costuma ser a única pessoa que conversa comigo assim como é única pessoa com que converso. Ele é um garoto simplório, que não entende como alguém como eu acabei indo parar nessa cela acusado de sodomia. Mas eu expliquei a ele. Contei nossa história e como um bom garoto, ele escutou. E como um bom garoto, entendeu. E como um bom garoto, achou errado a minha condenação.
Veja bem, querido, ele acha que as pessoas têm que ter o direito de amar que quiserem. Que todos viemos para essa vida para ser feliz. Que dois iguais podem dá certo tanto quanto dois diferentes. Acho que você teria concordado com ele, assim como uma parte minha concorda. Mas é só uma parte, porque a outra já está conformada. Eu disse a ele que deveria guardar seus pensamentos para si, pois não é seguro pensar desse jeito na época que estamos vivendo. Ele se calou, mas vejo através dos seus olhos a inconformação. Pobre coitado, acho que sou o mais perto de um pai que ele já teve, pois como me confidenciou o pai há muito morreu e sobrou-lhe apenas a mãe e as três irmãs.
Esse garoto acabou de me dizer que assim que o dia escurecer as fogueiras vão ser acesas e que de hoje eu não passo.
Uma parte de mim está feliz por isso, pois essa aflição toda está me deixando doente. Mas a minha outra parte, está realmente apavorada com a possibilidade de te deixar de vez. Entretanto, meu jovem carcereiro se ofereceu para entregar essa carta a você.
Ele está se arriscando muito, eu sei. Se alguém pegá-lo, será o seu fim. Mas confio nesse pequeno e acredito que você merece minhas últimas palavras. E aqui vão elas:
Eu te amo. Sei que nunca tinha dito isso antes. Mas estou aqui a escreve-las. Eu te amo como todo o meu ser. E espero que não fique bravo por eu estar dizendo tão tarde.
Sabe, ainda lembro do seu rosto. De cada traço, do seu sorriso, da cor dos seus olhos, da marca esbranquiçada que você tem no lábio inferior esquerdo... eu lembro de tudo que envolve você. Todos os dias que passei nessa cela, as torturas que aguentei foram pensando em você. Lembrando de você. Repassando nossos diálogos na cabeça, revendo seu sorriso, suas manias. Só pude aguentar tudo isso até agora, porque mantive você perto de mim.
Durante muito tempo você foi a razão para que eu me mantivesse vivo e sei que fui a sua razão também, então agora que estou indo embora...
Não sou capaz de pedir isso, mas sei que você sabe o que quero dizer então não fique bravo.
Espero que depois que ler isso não faça nenhuma besteira. Que seja cuidadoso e que não se culpe por ter ido embora e me deixado. Eu pedi por isso, pedi que me deixasse, que fugisse, que vivesse. Então viva, meu amor. Viva por nós, viva por mim e viva por você.
Ainda pensando em você,
Eduardo.
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