A Carta

1 Capítulo Único.


Notas iniciais
Cara, terceira vez hoje que eu tento postar isso. Boa leitura.

27 de fevereiro de 1945; Emmerich, Alemanha.

"Querida Eloise..."

Alfonse colocou a carta em um envelope e o selou. Desceu correndo as escadas, pulando os degraus de dois em dois, com a carta balançando em sua mão.

– Papa! Papa! — gritava o garoto.

– Alfonse, não corra na escada. Você vai cair. — sua mãe gritou, repreendendo-o, e ele diminuiu o passo instantaneamente. Mesmo já tendo quatorze anos, sua mãe ainda o tratava como uma criança e não seria sábio contrariá-la, especialmente hoje.

– Mãe, onde está o papa? — perguntou parando na porta da cozinha. Seus cabelos negros, antes arrumados, agora caiam desordenadamente sobre seus olhos castanhos.

Sua mãe caminhou até ele, ajoelhou-se em sua frente e penteou seus cabelos com os dedos.

– Ele foi ao Telégrafo, seu tio Klaus passou aqui mais cedo.

– Mas eles só deveriam ir às nove, são oito e meia! Eu preciso enviar a carta antes da viagem! — disse exasperado.

Sua mãe lhe deu um olhar repreendedor e ele logo se arrependeu de ter gritado.

– Eu já te falei para não gritar, não foi? — seu tom de voz era calmo, mas Alfonse sabia que estava a um passo da morte.

Abaixou a cabeça e encarou os pratos, ainda por lavar, na mesa.

– Desculpe, mama.

A mulher suspirou, com toda aquela agitação pela "viagem" — na verdade, se tratava mais de uma fuga — e o caos causado pela guerra, seus hormônios estavam à flor da pele.

– Você não pode esperar até chegarmos à Estocolmo?

Alfonse suspirou balançando a cabeça.

– Não, precisa ser antes de partirmos. — eles ficaram em silêncio enquanto a dona de casa recolhia os pratos da mesa — Eu... posso ir lá sozinho? — ele perguntou hesitante.

– Não, você sabe que não. — seu tom de voz dizia que não havia espaço para discussão.

Mas Alfonse insistiu mesmo assim:

– Vai ser rápido, eu juro. Por favor, mama. — ele estava usando o melhor "olhar de pena" que conseguia fazer, mas esse era um pedido difícil de ser atendido.

– Não, Alfonse. Você sabe que é perigoso.

Ele abriu a boca para argumentar, mas foi interrompido:

– Vá arrumar suas coisas, assim que o sol se pôr nós partimos.

Ele assentiu e, de cabeça baixa, voltou para o seu quarto.

Enquanto subia as escadas, uma ideia louca passou pela mente de Alfonse Müller. Ele sabia que realmente era perigoso, mas a possibilidade de que essa carta se perdesse antes de chegar às belas mãos de Eloise o tiraram qualquer resquício de lucidez que ainda podia haver nele.

Ele correu até seu quarto e arrumou suas coisas em sua mala, somente o essencial: roupas e algumas cobertas. Depois amarrou alguns lençóis uns nos outros, fazendo uma corda improvisada. Esperou. Seu pai chegou pouco antes do almoço, estava tudo pronto para a viagem e eles partiriam logo que escurecesse. A tarde passou lentamente, e foi uma espera agoniante para ele. Mas, enfim, a hora chegara.

Eram quatro da tarde, a chuva caía levemente na cidade, quando ele pulou a janela do seu quarto, no segundo andar. Com um guarda-chuva em uma mão e a carta na outra, ajeitou a roupa, tirando o amassado, e caminhou apressadamente pelas ruas de Emmerich. Se caminhasse rápido o suficiente só levaria meia hora até o Telégrafo, que fecha suas portas às cinco da tarde, então ele teria meia hora de vantagem; assim que saísse do Telégrafo, teria mais duas horas antes que anoitecesse e três antes do toque de recolher, que era às sete. Se tudo em seu plano ocorresse bem ele chegaria em casa antes mesmo de seus pais darem por sua falta.

Mas aquela não era uma tarde de sorte para o pobre Alfonse. A chuva engrossou e ele teve que tomar cuidado para a carta não se estragar — colocando-a dentro da camisa. Ouviu o sino e ao seu lado viu o pequeno bonde da cidade. As pessoas nele o olhavam com um misto de emoções que era complicado para um garoto tão jovem compreender direito, mas uma das emoções no olhar daquelas pessoas era inconfundível. Desprezo. Alfonse percebera que as pessoas em Emmerich pareciam odiar sua família, mas não fora sempre assim. Antes da guerra eles viviam bem, as pessoas não odiavam os Judeus. Ou ao menos não demonstravam os odiar. Mas depois eles começaram a ser tratados como o próprio Judas, e agora nem um bonde podem pegar sem serem presos e mandados para um Campo de Concentração.

A amargura não era um bom sentimento para se alimentar, mas era quase inevitável para ele saber que sua religião feria as pessoas de tal modo que o odiavam por isso.

Desviou o olhar e continuou andando, apressando mais o passo.

Alfonse levou exatamente cinquenta minutos da sua casa até o Telégrafo — a chuva o atrasara bastante — e quando ele chegou o velho senhor já se preparava para fechar as portas. Apesar disso, ele conseguiu enviar sua carta em segurança para Paris.

O som de um tiro ecoou pelas ruas, imediatamente Alfonse e o velho telégrafo se lançaram ao chão — no caso do telégrafo seria mais como se abaixar um pouco atrás do balcão. As pessoas logo entraram em suas casas, trancando portas e janelas. Rapidamente as ruas, antes movimentadas, agora estavam completamente desertas. Carros da "Wehrmacht" (Forças Armadas Alemãs) passaram em frente ao pequeno prédio e Alfonse pôde ver um corpo sendo levado junto aos soldados.

Assustado, o velho senhor levantou-se para fechar as portas, quando Alfonse se deu conta de que deveria voltar para casa. Levantou-se e saiu do prédio com seu guarda-chuva aberto.

– Ei, garoto. — o velho telégrafo gritou enquanto ele se afastava — Não pode sair, é perigoso sair agora.

Alfonse se virou para encarar o velho homem.

– Preciso voltar para casa.

– Não seja louco, você vai ser preso. — O homem tentou alertá-lo, mas ele já havia ido. Caminhando apressadamente pelas ruas desertas de Emmerich.

Já passavam das seis horas, Alfonse estava preocupado que seus pais tenham o chamado para alguma coisa e descoberto seu sumiço. As ruas estavam escuras e uma leve neblina — causada pela chuva que caíra mais cedo — cobria a calçada de pedras.

Absorto em seus pensamentos, não ouviu o som dos pneus do carro que se aproximava. Despertou apenas com a freada brusca que o carro fez ao virar a esquina. Olhou para trás assustado e seu sangue gelou quando viu a "Cruz de Ferro" na lateral do carro. Suas pernas fraquejaram, o medo corroendo seus ossos como ácido. Então, por puro instinto, ele correu. Novamente as ruas de Emmerich foram preenchidas pelo som de um tiro. A bala passou à centímetros de Alfonse e a adrenalina agindo em seu corpo o fez correr ainda mais. Outro disparo. E o silêncio envolveu a noite em seus braços.

Alfonse Müller nunca retornou para casa.

*** *** ***

Gerard e Margot Müller foram presos pelo exército nazista poucas horas depois de Alfonse fugir pela janela, enquanto esperavam o filho voltar para casa. Neste mesmo dia, foram mandados para o Campo de Concentração de Birkenau e morreram três meses depois, na "câmara de gás". Sem nunca saber do paradeiro do filho.

*** *** ***

13 de Maio de 1945; Paris, França.

Eloise Lawers estava deitada em sua cama, lendo, quando ouviu a voz de sua tia a chamando. Levantou-se em um pulo e desceu as escadas em direção à sala.

Eloise mudou-se para a França dois meses antes da guerra estourar. Seus pais não eram judeus, mas sua tia — vendo que a Alemanha estava se tornando um campo minado — convenceu os pais da garota a mandarem a filha para a França com ela. Infelizmente, os pais da garota não tiveram a mesma sorte. Um ano após Eloise partir eles foram presos por ajudarem judeus que tentavam fugir do exército, abrigando-os em sua casa. Foram levados pelo exército e, depois disso, seus destinos tornaram-se um mistério — assim como o da maioria dos presos políticos na Alemanha. Quando recebeu a notícia Eloise ficou arrazada, é claro, mas ela teve a sua tia com ela — o que era mais do que muitos tinham nesses momentos turbulentos — e viu que, apesar de tudo, era uma garota abençoada.

Chegou à sala e viu sua tia sentada no sofá com Betty e Léia — suas duas melhores amigas.

– Chamou, tia? — disse chamando a atenção do trio.

Sua tia — uma senhora com pouco mais de cinquenta anos, feições gentis e rugas ao redor dos olhos, típicas em pessoas que sorriem muio, apesar de que nesses tempos os motivos para sorrir estavam ficando cada vez mais raros — acenou com a cabeça, assentindo.

– Sim, querida — ela pegou um envelope na mesa — Chegou essa carta para você. Parace que é do seu "amigo", Alfonse.

As senhoras riram quando ela fez aspas com os dedos ao dizer a palavra "amigo" e uma Eloise ruborizada caminhou até ela, pegando o envelope apressadamente de suas mãos e então correu mais depressa ainda de volta ao seu quarto. Fechou a porta e abriu o envelope, tirando a carta de dentro dele. Sorriu ao ver que era realmente uma carta do Alfonse.

Alfonse era seu vizinho em Emmerich, eles cresceram juntos, e quando ela se mudou para a França os dois prometeram que escreveriam um para o outro sempre que pudessem. Então já era de se esperar que a carta fosse dele, mas isso não fez o sorriso no rosto de Eloise diminuir.

Desdobrou o pedaço de papel e começou a lê-lo:

"Querida Eloise, rogo a Deus que essa carta chegue em suas mãos. Sei que posso não estar mais aqui quando você respondê-la, mas eu preciso que saiba o que sinto. As coisas não estão boas aqui, papa diz que teremos que viajar para longe por um tempo, mas se recusa a dizer quanto... em todo caso, eu continuarei escrevendo sempre que puder. Porque, mesmo com minha pouca idade, notar que nosso laço tornou-se mais que amizade foi simples. E espero não estar enganado em pensar assim, espero não estar me iludindo. Mas eu não posso mais guardar isso dentro de mim, soa clichê, eu sei, mas a vontade que eu tenho é de gritar para os céus o meu amor por você. E eu peço que perdoe minha impertinência, mas eu realmente te amo, Eloise.


Com amor, Alfonse"

Notas finais
Deixem opiniões, sabe... "primeiro romance" (se bem que foi mais um drama), nervosismo... preciso saber se ficou bom, mal, razoável. Obrigado por ler. ~ Aleister
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!