A Carta
1 OneShot
Notas iniciais
Como é o lugar
quando ninguém passa por ele?
Existem as coisas
sem ser vistas?
O interior do apartamento desabitado,
a pinça esquecida na gaveta,
[...]
os mortos, um minuto
depois de sepultados,
nós, sozinhos
no quarto sem espelho?
[...]
- Suposta existência – A paixão medida 1980
Carlos Drummond de Andrade
Meus segredos para... Você.
Eu não sei por que, depois de todo esse tempo eu ainda rabisco as mal traçadas linhas deste caderno com coisas que nunca lhe disse... Minhas gavetas estão abarrotadas de frases não ditas, idéias não feitas e desejos não realizados. Não entendo porque esse ímpeto me consome todas as noites como se meu peito fosse explodir por guardar esses segredos sozinho por mais de 24 horas. Chega a soar irônico, sendo que, guardo isso a sete chaves desde que nos conhecemos. Nunca achei que alguém como eu pudesse sentir algo tão profundo assim ainda mais por um... Inútil, como você.
Eu me lembro bem quando na escola você sentou ao meu lado e disse-me o primeiro ‘oi’. Você entrou atrasado, parecia ser mais novo que toda a classe, tão tímido, tão... Frágil. Era um garoto, eu tinha certeza pois não eram admitidas mulheres naquela escola, mas, seus traços eram mais femininos do que qualquer mulher que eu já tivesse visto antes. Longos cabelos ruivos, um corpo esguio dentro do uniforme obrigatório, eu pude ver o quanto o verde esmeralda de seus olhos reluzia por trás dos óculos simples demais que não lhe fazia jus, tão... Lindo. Não te respondi na ocasião, mas se pudesse, agora, diria que não quis ser grosso ou te magoar, pelo contrario, eu queria falar com você andar ao seu lado e saber mais sobre quem você era, mas... A verdade é que eu era ainda mais tímido que você. Você mudou isso... Eu não.
Trabalhamos em dupla algumas vezes nos primeiros treinamentos e você foi se revelando um exímio usuário de armas brancas. Deu-me uma surra algumas vezes e eu não ousava revidar, a pequena possibilidade de machucá-lo me era deprimente. Certa vez ficamos presos no banheiro por arte dos garotos mais velhos, nos trancaram lá como trote, lembro-me que foi a primeira vez que conversamos de verdade, digo, que você falou bastante. E vi que era diferente do que eu imaginei inicialmente. Além de belo, era culto e inteligente. Dei um sorrisinho sem graça, talvez o ultimo que você tenha visto em toda a nossa convivência. Se eu já não tinha coragem de lhe dizer nada do que já achava sentir, agora você era definitivamente inalcançável para mim. Depois que a porta foi aberta você saiu, e eu fiquei sozinho sentado no chão do banheiro por algum tempo, não sei quanto tempo. Mas quando me levantei e olhei-me no espelho, meu olhar estava mais triste e meu semblante mais sério. Será que esse era o preço de não entender um sentimento?
Depois daquele dia eu resolvi me afastar de você... E você, por sua vez resolveu se aproximar de mim. Éramos muito jovens e eu não entendia o que estava havendo. E principalmente, não sabia como reagir. Acabei ficando frio por conta dos sentimentos enclausurados em me peito em uma vã tentativa de congelá-los para sempre. Mas era você se aproximar sorrindo que meu coração acelerava. Eu nem sabia que tinha esse órgão. Agora apenas me pergunto por que ele é tão inútil, assim como você.
Eu fui me afastando de você. Aos poucos, fui me tornando imparcial, frio, calculista e medindo cada ação principalmente quando elas envolviam-te. E você foi notando e parecia não querer aceitar o fato de se afastar de mim, por algum motivo você parecia gostar de estar comigo e eu não sabia porque, e porque algum motivo, depois de tudo, de tantas mudanças eu passei a não me importar mais, pelo menos era o que eu pensava. E tudo continuou assim, lembro-me que te vi triste por diversas vezes pelo meu jeito novo de reagir para com o mundo, e toda a vez que chegava a meu quarto a noite meu peito doía. Passei varias notes em claro me chamando de idiota por não conseguir nem mesmo falar com você da forma que eu queria. Afinal de contas... Que tipo de homem eu era?
Em uma dessas noites tomei coragem. Decidi que daquele dia não poderia passar, eu tinha que assumir os riscos e dizer tudo o que eu estava sentindo já a quase um ano e meio. E naquele dia você não apareceu na aula, nem no almoço e nem em lugar algum. Fiquei preocupado e no começo da tarde fui lhe procurar, eu nunca havia deixado de comparecer em uma aula sequer, mas precisava te encontrar e dizer tudo aquilo que me afligia. E... Eu te encontrei... Infelizmente eu te encontrei. Foi a cena mais dura que eu tive que ver em minha curta história. Naquele momento desejei estar em um dos treinamentos, levando uma surra sua, almejando que meu corpo fosse ferido ao invés do meu coração. Até hoje não sei quem ela era ou de onde veio, mas me lembro bem como você a olhava. Meu sangue ferveu, me arrependo amargamente de ter interferido, gritando que ela não deveria estar ali. Ela foi embora, nunca mais à vi. Nem me lembro do rosto dela, mas me lembro de como olhou para mim e do seu tom quando proferiu a tão dolorosa sentença. “Eu te ódio William T. Spears”
Esse foi o único dia que me viu lagrimas derramar. E foi a partir daí que as minhas ultimas esperanças foram sepultadas. Para sempre.
No outro dia você apareceu com os cabelos cortados bem curtos, pareciam ter sido serrados com uma navalha, as vestes completamente negras, sem nenhum detalhe que você sempre insistiu em incrementar no uniforme ‘sem sal’. Estava sério e centrado. Sentou-se do outro lado da sala me deixando na total solidão do meu mundinho de estudos, friezas e falta de palavras. Como deveria ser... Infelizmente.
Depois disso não nos aproximamos mais. Não houve nenhum evento tão importante que mereça ser mencionado. Acho que sua raiva por mim apenas cresceu a partir de então. E eu não tiro a sua razão eu mesmo me odiava a essa altura, nada mais importava e foi importando cada vez menos, acho que consegui bloquear a maior parte dessas coisas. Acabamos em turmas diferentes ao longo das coisas e assim foi mais fácil, não te ver todo o dia ajudava. E eu acabei te esquecendo por completo. Nada me afetava, minhas notas eram regulares, fazia questão de conseguir apenas o necessário não me esforçava muito em nada, era um aluno mediano, com notas medianas, medianamente notado ou nem isso. Para mim era o bastante. Até... O ultimo teste antes da formatura.
Acabamos como uma dupla mais uma vez, o ultimo teste, a primeira vez de dois ceifeiros prestes a se formar sozinhos em campo. Lembrei-me de você no mesmo instante que te vi e tudo veio a tona, mas agora sabia me controlar e não me deixaria afetar, fingi que não te conhecia, foi o bastante para você demonstrar toda a sua raiva por mim querendo trocar de parceiro. Mas fizemos tudo juntos até o fim. E você acabou se aproximando de mim outra vez. Você estava diferente e foi diferente da ultima vez. Por algum motivo você começou a demonstrar um interesse explicito por mim depois de tudo isso. E eu? É... Mais uma vez não soube como reagir. E acabei voltando a te ignorar, mas desta vez eu passei de todos os limites, comecei a te agredir verbalmente e as vezes até mesmo fisicamente. Critiquei seu trabalho e seus modos peculiares e ainda assim você permaneceu ao meu lado. Sempre querendo estar comigo em todos os momentos em todos os lugares possíveis. Eu não entendia seu desejo repentino, mas te invejava.
Invejava seu modo espontâneo, como conseguia simplesmente dizer sem medo ou vergonha algo que eu escondi por anos dentro do meu peito latejando e me congelando aos poucos. De como você podia ser tão inútil e incompetente e eu ainda sentir o mesmo frio na barriga da primeira vez que falou comigo. Como um sentimento pode perdurar tanto mesmo tão desgastado pelo tempo. Eu já havia me esquecido o quanto gostava de estar perto de você, mas depois de todo esse tempo me afastando de tudo e de todos acho que esqueci... Ou melhor, nem aprendi como é lidar com algo assim. Como é querer alguém, cuidar de aluem. E principalmente, como reagir quando sou querido por alguém.
Certo dia eu estava passando de frente a vitrine, um manequim trajava um vestido em um vermelho berrante da forma que você gostava, por um momento quase ri imaginando que você poderia realmente gostar da peça. Parei de fronte a loja e olhei bem a frente vi um semblante do lado de dentro, um semblante do qual o olhar me chamou a atenção, um olhar triste, abatido, que não mudava por mais que o rosto se movimentasse, parecia o olhar de uma pessoa que nunca havia conhecido o significado de felicidade, um olhar que parecia nunca ter sorrido. E o olhar entristeceu ainda mais quando eu notei que o semblante não passava de um reflexo na vitrine, quando eu notei que os olhos mais tristes do mundo... Eram meus.
Eu poderia te dizer isso tudo de uma vez ou te mostrar essas palavras rascunhadas no papel que nunca ninguém leu, que rabisquei nestas noites onde os meus segredos mais profundos sobre você estão lançados explicitamente. Mas acho que nada adiantaria tão bem. Se pudesse te dizer alguma coisa agora certamente seria... Perdão. Me perdoe por ser tão covarde, me perdoe por nunca ter dito nada disso, me perdoe pelo meu jeito, minha timidez, meus medos, me perdoe pelas criticas infinitas que sempre se repetem e... Principalmente me perdoe por ter desistido de tudo o que somos... De tudo o que poderíamos ser.
Hoje em dia não te digo mais nada, não pretendo dizer mais nada. Você não merece isso que eu me tornei, mas acho que você me aceitaria como eu sou agora. Isso é o mais engraçado.
Não é que eu goste do que me tornei, ou que eu não queira te dizer tudo isso... Eu só não sei como. Toda via, eu sei que para tomar uma iniciativa dessas a pessoa tem que ter muita coragem, e eu não a tenho, talvez um dia eu tenha... Quem sabe.
Ass
Notas finais
Kissus ♥
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