A Canção de Morgana
22 Você Escolheu Travessuras
Notas iniciais
:origin()/pre12/e351/th/pre/i/2009/184/a/c/elphaba__by_dreaeleanora.jpg)
Para chegar na festa secreta de Halloween do S.E.M.T.A.H. era preciso seguir uma trilha marcada de tijolos amarelos. Os tijolos surgiam brilhando no chão de qualquer ponto que se estivesse no castelo no momento em que uma balinha dourada, entregue sorrateiramente aos assinantes da lista secreta ao longo do dia, terminava de se dissolver na superfície da língua.
Anne havia terminado a sua bala e podia ver a trilha brilhando na frente dos seus olhos, virando à direita no terceiro andar e pegando a escada na direção norte.
Espera, ela podia ver a trilha. E até onde sabia, Harry Potter não estava por perto. Harry estava na torre da Grifinória. Como ela podia saber disso também lhe era um mistério, já que não viera de lá, mas direto do Salão Principal após o jantar.
— Ah, que engraçado. Quando você come a bala aparece uma tril–
— Eu posso ver — ela disse, interrompendo Colin. Estava encarando o chão um tanto confusa. Quando aquilo tinha acontecido? Quando tinha recuperado a sua visão a despeito de estar no raio de alcance de Harry?
Depois de uns trinta segundos ela notou que o amigo não tinha dito nada, então olhou para ele para ver que tipo de expressão estava fazendo. Colin tinha as sobrancelhas loiras bem altas na testa.
— Finalmente. Pensei que não ia me contar nunca e eu ia ter que continuar fingindo que você continuava cega até o dia da sua morte.
— Como você sabia?
— Johanne, você é péssima atriz. Sério, quantas vezes te peguei encarando Harry por trás dos seus óculos quando achou que ninguém mais estava olhando? E aliás, porque tanto você olha o Potter quando ele está por perto? Quer dizer, ele é uma graça, mas já está ficando indiscreto, amiga…
— Colin — Anne respirou, intervindo antes que ele fosse longe demais com a divagação descabida. — Acho que temos que seguir a trilha se quisermos chegar na festa.
— Nem sabemos se vai ser mesmo uma festa. Quer dizer, Granger está organizando, não vamos nos esquecer disso.
— Hermione sabe o que está fazendo — ela defendeu a garota. Hermione estava colocando as tripas na organização daquele evento, pelo pouco que sabia de suas correrias nas últimas semanas desde que assumiu as atividades do S.E.M.T.A.H, a Sociedade de Mestiços e Nascidos-Trouxas de Hogwarts, no lugar de Katie Bell. Ela deu um empurrãozinho no ombro de Colin para ele se mexer. — Anda, segue os tijolinhos.
— Tá, tô indo, mas não vou mais te dar o braço, pode colocar esses olhos pra trabalhar queridinha. Aliás, você vai me contar como voltou a enxergar?
Ela mordeu o lábio enquanto eles seguiam a trilha de tijolos, cuidando para garantir que nem Mme. Norra, nem Filch, nem Pirraça estava espreitando pelo caminho, já que deviam estar seguindo para o Salão Comunal da Grifinória ao invés de vagar pelo castelo após o toque de recolher.
— Milagre Potter — ela disse por fim. Colin assentiu.
— Já imaginava.
“Milagre Potter” era uma expressão que alguns estudantes usavam para descrever providências estranhas que aconteciam em Hogwarts, normalmente com uma participação de teor misteriosa por parte de Harry Potter. Anne adotava a expressão mesmo agora, quando sabia a explicação para várias delas.
O professor tapado com fedor de alho tinha sumido feito fumaça depois de tentar roubar a pedra filosofal guardada na escola? Milagre Potter. Gina Weasley voltara sã e salva da câmara secreta apesar da serpente gigante escondida na tubulação da escola? Milagre Potter. O hipogrifo de Hagrid sentenciado à morte escapara misteriosamente de suas correntes minutos antes da execução? Milagre Potter. Na maioria das vezes ninguém sabia como Harry estava envolvido, mas ele sempre era visto depois de cada acontecimento, com frequência coberto de sangue, gosma ou terra, uma cara inocente, a caminho do escritório do diretor.
— Vocês andam bem próximos ultimamente — Colin disse do mais absoluto nada, só porque como Anne bem sabia ele tinha uma língua inquieta dos diabos e não suportava andar em silêncio.— Mais algum milagre Potter está rolando que eu não estou sabendo?
— Pare com isso — ela resmungou, no momento em que eles pegavam um lance de escada que ou Anne nunca tinha subido antes, ou tinha mudado de seu lugar original desde a última vez. O caminho de tijolinhos amarelos os levava cada vez mais para cima, aos andares superiores do castelo. — Ele tem me ajudado com as tarefas abusivas de D.C.A.T. de Snape, só isso.
Snape parecia ter decidido fazer o quinto ano escrever um livro inteiro sobre combate à criaturas das trevas, um capítulo por semana, a se julgar pelo tamanho dos ensaios que vinha pedindo depois de cada aula. Por essa razão, quase toda noite Harry se sentava perto de Anne no Salão Comunal por algumas horas, para que ela pudesse escrever com uso de seus olhos. Com frequência eles acabavam conversando, Harry lhe ajudando em sua tarefa porque ele era o melhor em D.C.A.T. do seu ano. E então eles sempre xingavam Snape um pouco, para descontrair. Isso a fazia se sentir mais leve no fim do dia. No final, Harry a acompanhava até a entrada do dormitório para que ela pudesse ver as escadas (mesmo que ela pudesse ver de qualquer jeito desde que ele estivesse no Salão Comunal). E agora precisava contar pra ele que podia ver mesmo quando ele não estava por perto...
— Terra para Johanne Black! — Colin cantarolou, dando um puxão em sua trança (por que mesmo ela era amiga de Colin??) — Chegamos!
— Ah. Certo!
A trilha de tijolos amarelos terminava em uma parede sólida no sétimo andar. Só isso, uma parede vazia e mais nada. Anne só se tocou de onde estavam quando viu uma horrível tapeçaria de trolls dançantes na parede oposta.
— É a sala da Armada. Por que raios vamos querer uma festa lá dentro? Eu te disse que isso de Granger organizar uma festa não ia dar certo… e cadê a porta que costumava estar aqui? — Colin divagou até Anne rolar os olhos para ele.
— Não é só a Sala da Armada, eu não acho. — Anne começou a andar de um lado para o outro, passando pela frente do lugar que a porta deveria estar.
“Me mostre a festa secreta”, “me deixe entrar na festa do S.E.M.T.A.H”, “me mostre como entrar na festa…”
Quando passou pela frente do lugar da porta uma terceira vez, uma frase surgiu na parede em tom roxo berrante, numa caligrafia familiar:
“Doces ou Travessuras?”
— Ah, uma charada! Agora sim, essa é a Granger que conhecemos — disse Colin feliz. — Ainda bem que eu trouxe uma ex-corvinal comigo!
— Não acho é uma charada, eu acho — disse Anne, que lembrava de já ter ouvido aquela frase antes. Ela passara a infância em um vilarejo bruxo, mas escapara para o vilarejo vizinho um par de vezes, incluindo no Halloween. Godric’s Hollow era metade trouxa, e essa metade comemorava o Halloween de uma forma peculiar: as crianças colocavam fantasias assustadoras e passavam de casa em casa segurando um baldinho de plástico. Então elas faziam exatamente a mesma pergunta para quem abria a porta. Anne se virou para o amigo com um sorriso: — Acho que precisamos escolher, doces ou travessuras essa noite, meu caro Colin?
Ele deu um sorrisinho:
— Eu gosto de doces tanto quanto a próxima pessoa, mas…
— Mais do que qualquer pessoa — ela corrigiu, rindo.
— …mas acredito que essa noite seja de travessuras.
A frase se dissolveu na parede e, tão mágico quanto devia parecer, um pesado portão de ferro decorado em arabescos se materializou na frente deles.
***
— Colin! Anne! Até que enfim, a luz de vocês estava atrasada? — Uma voz familiar exclamou quando eles atravessaram o portão. Reconheceram Luna, que embora ela estivesse coberta com um lençol branco até os pés, tinha dois buracos pelos quais podiam ver seus olhos azuis brilhantes. Por debaixo da barra do lençol, dava para ver seu par de tênis de estrelinhas verdes e bananas laranjas.
— Luna querida, porque você está vestindo a roupa de cama? Eu não sabia que era esse tipo de festa — Colin apontou intrigado.
— Eu sou um fantasma! Fantasma trouxa — esclareceu ao ver as sobrancelhas loiras de Colin quicarem para cima. — Não é engraçado o que eles acham que acontece com as pessoas que ficam nesse mundo depois que morrem?
— Muito engraçado — Colin pontuou, olhando para os tênis de estrelinha, depois mudou de assunto — Novidade: Anne está enxergando de novo. Quem poderia imaginar?
— Ufa. Já era sem tempo, estava ficando meio vesga de ter que fingir olhar para o outro lado quando ela esquecia que a gente não sabia e dava uma fora — Luna fez uma dancinha.
— Vocês são terríveis — Anne os informou, meneando a cabeça, mas depois sorrindo. — E ao mesmo tempo os melhores.
— Temos uma história ou só a confissão desvalada? — Luna quis saber, flutuando até Colin em seu lençol.
— “Milagre Potter” — Colin fez aspas no ar.
— Engraçado…. Estão cada vez mais frequentes.
— OK — Anne pigarreou, interrompendo o papinho furado dos amigos. — Então precisamos de fantasias trouxas? Porque não fomos avisados? Eu não tenho nada comigo!
— Não precisa ter nada, só pegar um chapéu e ele vai fantasiar você — Luna apontou para uma pilha de chapéus pretos bem parecidos com os que eles deviam usar como parte do uniforme (mas todo mundo se dava conta do quão micosos eram mais ou menos na altura do terceiro ano).
Anne deu uma boa olhada no lugar em que estavam: parecia a praça de uma cidadezinha qualquer, com um canteiro, uns bancos de ferro, umas árvores e o início de uma rua mais adiante. A mencionada pilha de chapéus estava debaixo de um poste de luz, no qual havia uma placa que dizia: “Escolha aqui seu trouxapéu antes de prosseguir!”
— Nenhum combina com meu uniforme — Colin se queixou, analisando a pilha chapéus idênticos. Ele pegou um aleatoriamente e leu a etiqueta — Gemialidades Weasley, onde foi que ouvi isso antes?
— Soa perigoso — Anne riu, pegando um chapéu da pilha sem escolher muito e o colocando na cabeça. — Da última vez que toquei em uma Gemialidade Weasley fiquei toda pontilhada de cor de laranja. Lembra, Luna?
— Bons tempos — Luna suspirou saudosa. Ela fora uma silenciosa admiradora dos gêmeos Weasley na época em que eles tinham estado em Hogwarts, como muitos outros.
O chapéu no entanto não deixou Anne pontilhada de cor de laranja; ele se dissolveu em sua cabeça como água gelada, encantando as suas roupas, mudando o seu cabelo e transformando os seus sapatos. Quando ela olhou para si mesma, vestia um vestidinho quadriculado de azul e branco com mangas bufantes e um avental e sua trança tinha virado duas, uma de cada lado da cabeça. Olhou para baixo para achar sapatinhos vermelhos brilhantes que lhe deram a pista de quem era.
— Sou Dorothy!
— Dorothy Ghalahart, a magiocontorcionista? Eu não acho q–
— Dorothy Gale! — Anne explicou abriu um sorrisão. — De O Maravilhoso Mágico de Oz! Não? — Ela olhou esperançosa para os amigos, mas eles pareciam perdidos na referência. — É uma história trouxa, meu avô lia para mim quando eu era criança. Era o meu favorito, tinha mais magia do que muita história boba de Beedle o Bardo, e ela tinha um cachorrinho… — Anne olhou em volta, mas não havia nenhum cachorrinho — Onde está o meu Totó?
— Você não está fazendo o melhor sentido, mulher — Colin suspirou, colocando o próprio chapéu. — Veremos o que me aguarda…
O chapéu de Colin também sumiu no momento em que tocou sua cabeça, encantando não só suas roupas mas todo ele para uma versão muito esquisita — brilhante, atarracada e arredondada dele mesmo. Agora ele parecia feito de plástico, com olhos redondos de tinta que piscavam de verdade e mãos de plástico em formato de cuia ao invés de cinco dedos. Sua pele era amarelo canário brilhante e sua câmera havia se tornado o desenho de uma câmera pendurada em seu pescoço.
As duas garotas, Anne-Dorothy e Luna-fantasma-de-lençol olhavam para ele embasbacado, mas Colin sorria com sua boca desenhada em sua pele de plástico, feliz da vida.
— Genial, eu sou minha versão em Lego! Eu adoro esses trouxapéus!
***
Os três desceram caminhando pela “cidade” trouxa gerada pela sala mágica, um lugar completamente diferente da funcional sala que eles usavam para as reuniões da Armada de Dumbledore. Cruzaram aqui e ali com colegas irreconhecíveis em fantasias; zumbis e motoristas de táxi, princesas e múmias, e toda sorte de personagens coloridos ou assustadores que Anne mal começava a reconhecer.
A ideia de Hermione parecia ser proporcioná-los um autêntico Halloween trouxa ao modo “doces ou travessuras”. Eles acharam baldinhos em formato de caldeirão e abóboras para ser enchidos de doces e instruções para que todas as travessuras “justificadas ou nem tanto” fossem praticadas ao modo trouxa, usando a criatividade ao invés da varinha.
A primeira casa que escolheram para pedir doces foi uma meio recuada da rua principal, rodeada de um jardim bem cuidado e com cortinas de vovozinha na janela. Havia uma típica decoração trouxa de Halloween nas escadas; Anne reconheceu abóboras decoradas, velas e morcegos pendurados no pórtico. Quando eles passaram pelo jardim, um esqueleto tentou agarrá-los pelos tornozelos.
—- Minha nossa, não faço isso desde que comecei Hogwarts — Colin deu uma risadinha empolgada, antes de bater na porta e exclamar: — Doces ou travessuras?! — Em seguida se virou para as duas e perguntou aos sussurros: — Quem será que está aí? Será que a sala também vai gerar gente de mentira para nos entregar doces? Melhor os doces serem de verdade…
Um homem adulto abriu a porta… bem, meio homem, meio lobo. Ele estava coberto de longos pêlos castanhos, tinha um par de orelhas e focinho longo, mas usava um paletó de tweed e óculos quadrados.
— Aluado! — Anne exclamou surpresa assim que o reconheceu. Seu padrinho sorriu caloroso apesar de um semblante cansado, a lua cheia terminara só a um dia atrás.
— Hey, Anne! E… Luna? Colin? Uau, vocês parecem incríveis, deixa eu adivinhar… Luna, você é um fantasma, eu penso? E Colin… um boneco? E Anne… Dorothy Gale?
— Por isso você é meu padrinho favorito — ela comemorou, feliz de que alguém pegara a referência. — Mas como sabia que é a Luna embaixo do lençol?
— Super sentidos de lobo — ele piscou maroto, indicando a si mesmo.
— Você é um lobo intelectual? Isso é bem específico… — Luna pontuou, pensativa.
— Ele é um lobo bem específico — disse mais alguém, enfiando cabeça pelo portal ao lado do ombro de Remus. Era Tonks, com uma capa e capuz vermelhos, uma cesta de doces à tiracolo — Hey, monstrinhos! Alguém disse doces ou travessuras?
Vendo-os lado a lado Anne percebeu qual lobo era Remus — claramente, aquele que tentava devorar a chapeuzinho vermelho num conto de fadas trouxa de moral duvidosa. Ela se perguntou o quão perspicazes aqueles chapéus podiam ser, apesar de sua aparência inocente, porque podia captar no mínimo duplo e quem sabe até triplo sentido naquele par de fantasias.
— Aqui, montes de doces para as lombrigas — Tonks despejou toda sorte de chocolates, balas e bombons nos baldinhos dos três. — Vocês são tão fofos, eu poderia comer vocês!
— Não é a chapeuzinho vermelho que come crianças, Dora — Remus a lembrou com seu tom professoral tão familiar.
— Por que a chapeuzinho não pode ter adquirido algumas predileções culinárias com o lobo, ora bolas?
— O que vocês estão fazendo aqui em Hogwarts, mesmo? — Anne perguntou, não esperando encontrá-los envolvidos em um evento de estudantes que tecnicamente nem fora autorizado.
— Fomos contratados para garantir a segurança da festa — Tonks deu uma piscadela, depois um sorriso atravessado — Bem, eu fui. O lobão aqui veio só comer uma certa vovozinha, se eu entendi a história direito.
— Merlin de sapatos, Nymphadora — Remus meneou a cabeça. — Vocês querem entrar para um chá? A casa é incrivelmente completa, achei uma seleção de chá trouxas incrível dentro de uma lata decorada…
— Estou começando a achar que ele é a vovozinha — Tonks cochichou em tom de conspiração para os três, depois pigarreou e falou mais alto. — Deixe as crianças se divertirem, lobo bobo, você pode torturar sua afilhada com uma sessão de chá qualquer outro dia do ano. E não se esqueçam: doces com travessuras é a melhor opção, não tem pra que escolher um ou outro! — Completou com uma piscadela.
Os três se despediram a fim de seguir para a próxima casa, Anne prometendo que ia tentar fazer uma visita à Casa dos Gritos naquele fim de semana, quando estava prevista uma nova visita à Hogsmeade. Quando os três deram as costas, alguém mais veio se aproximando da casa; a figura estava coberta com uma reluzente armadura medieval dos pés a cabeça. Remus estranhou era o fato de que era um adulto, e mais ainda quando notou que o cheiro lhe era familiar, remanescente do passado.
— Boa noite, Remus. E você deve ser Nymphadora? — Disse a voz por baixo da armadura, feminina e calma.
— Você quer dizer “Tonks”. Tudo bem, eu te perdoo, mas só da primeira vez — Tonks estendeu a mão — E você é?
— Sophia Neveu — disse Remus antes que a mulher por baixo da armadura respondesse. Ele finalmente reconheceu o cheiro, como poderia ter se esquecido, para começo de conversa?
— Acurado como sempre. — A mulher tirou o capacete da armadura, deixando uma trança loira e longa deslizar pelo seu ombro esquerdo. Ela deu uma breve olhada para Remus e sem esperar que ele respondesse, se virou para Tonks — Um grupo de alunos que não assinou a lista foi visto tentando entrar na festa. Me informaram que você esteja zelando pela ordem essa noite?
— Sim, vou verificar — Tonks ergueu o queixo, eficiente, o que era engraçado em conjunto com suas trancinhas e uma capa vermelha, sem falar da enorme cesta de doces. — Te encontro mais tarde na floresta, lobo mau?
— Dora — ele repreendeu, mas ela ainda lhe roubou um beijo antes de sair na direção em que a cavaleira de armadura viera. Quando ela foi, um silêncio constrangedor tomou o seu lugar entre os dois adultos remanescentes. Sophia parou de fingir que não estava vendo Remus, ao invés disso olhou atentamente para seu rosto, os olhos de vidro azul o deixando exposto e desconfortável.
— Lobo mau? — Ela perguntou num tom de quem experimentava curioso desinteresse. Como se ele não a conhecesse…
— Por causa da fantasia — ele se adiantou indicando a si mesmo, a garganta seca. Por que diabos estava se explicando para ela? Não devia explicações para Sophia Neveu.
— Não por causa da sua verdadeira natureza?
Remus sentiu as narinas se crisparem. Ele ouvira dizer que Sophia tinha arranjado um cargo temporário em Hogwarts para ensinar Adivinhação Avançada (o que quer que isso fosse), mas não passara pela sua cabeça que ela estaria ali, ou ele não teria aceitado o convite de Nymphadora.
Na verdade ele teria trocado aquele encontro com Sophia por uma noite extra de lua cheia extra se tivesse a chance.
— Ela parece bem, não é? — Sophia comentou, olhando para onde os três estudantes tinham saído. Remus imaginou que ela estivera nas sombras, esperando que as crianças se afastassem antes de se aproximar. Continuava sorrateira, isso não tinha mudado nos últimos quinze anos.
— Sim, ela parece ótima.
— Ela fez bons amigos. É tão inteligente. Uma garota excepcional.
Remus desconfiara que a aparição de Sophia em Hogwarts não tinha nada a ver com alguma súbita necessidade de ensinar uma matéria que nem existia no currículo escolar. Mais provavelmente, se referia à mesma razão pela qual ela tinha partido há quinze anos, deixando família, amigos, a guerra e bem, ele, para trás.
— É por isso que você voltou? — Ele a confrontou, mas Sophia não respondeu. Ela correu o olhar para longe dele, ligeiramente transtornada, o que para Remus já era resposta suficiente. — Por acaso está planejando contar a verdade para ela em algum momento?
— Não — as narinas de Sophia inflaram com a possibilidade. — É claro que não. Ela está melhor sem saber. Mais segura.
Ele deu uma risadinha ácida e vazia de humor.
— Esses chapéus são de uma puta ironia, não são? — Mudou de assunto, um amargor claro em sua voz. Sophia se virou surpresa com a linguagem rude, algo que ele raramente usava.
— Por que diz isso?
— Acharam de bom tom colocar a minha maior vergonha para o lado de fora, me virar do avesso pareceu uma ideia divertida para eles — Remus indicou a si mesmo com amargura. — E então colocam você numa armadura de carvalheira medieval. Você. A pessoa mais covarde que eu já conheci.
Ela piscou aturdida, recebendo o comentário como ele pretendera, um inesperado tapa na cara. Ela não demorou a recuperar a expressão inabalada, no entanto.
— Você acha que sou covarde porque não entende os meus motivos, e tudo bem, Remus. Só quem passou pelo que eu passei entenderia porque decidi partir. E eu não vou arranjar desculpas…
— Não se incomode. Não tem desculpa para o que você fez. Para o que você faz — Ele sentia que estava se alterando, mas não conseguia evitar. Ela sempre tivera o talento de apertar os seus piores botões. — Abandonar sua família ao menor sinal de problema. Os seus amigos. E quanto a sua filha?
— Foi para a segurança dela!
— Foi para a sua segurança! — Ele chispou, irado.
Sophia tinha lágrimas se acumulando nas bordas dos olhos azuis. Eles pareciam menos como vidro e mais como líquido agora. Remus a magoara, ele sabia, e mesmo depois de anos, décadas tentando esquecer o que ela significara para ele, lhe fazer qualquer mal ainda lhe dava remorsos.
Sophia ficou parada, respirando fundo, olhando para o nada por cima do ombro dele. Remus sabia o que ela estava fazendo: recuperando o controle de suas emoções antes de prosseguir. A oh-grande-e-poderosa-sacerdotisa-de-Avalon não podia sentir. Que Morgana a perdoasse se derrubasse uma lágrima sequer, o mundo queimaria em chamar. Que se danasse…
— Se você tivesse visto o que eu vi nas águas do tempo— ela recomeçou a velha ladainha. Ele não a ouvia há anos, mas decidiu que continuava tão cansado como antes e não ia ter nem mais um segundo daquilo.
— Eu não sei o que você viu nas “águas do tempo”, mas eu sei das coisas que você não vê quando se enfia em Avalon e esquece do mundo do lado de fora. Há um favor que você pode fazer, Sophia, que é voltar a se enterrar lá de novo. Você provavelmente está certa: ela está melhor sem você. O mundo inteiro está melhor sem você. Então, se me dá licença, feliz Halloween. Boa noite.
Remus se virou e entrou na casinha, batendo a porta com um estalo violento atrás dele. Sophia ainda estava parada no mesmo lugar, lutando contra o nó apertando em sua garganta que a impedia de respirar. Ela só se moveu quando teve certeza que as lágrimas estavam secas.
***
Alheios ao drama que haviam deixado atrás de si, Anne, Colin e Luna continuaram coletando doces pelo caminho. Eles passaram por uma casinha na esquina na qual foram recebidos por sete professores Flitwick, cada um com um gorrinho de uma cor, e receberam pacotinhos de doce caseiro de maçã; a terceira casa foi reconhecida por Colin como uma “casa gigante de Hobbit” e dentro dela havia um Hagrid muito animado, e ele também lhes ofereceu doces que pareciam pedregulhos de açúcar colorido capaz de dar uma dor de dente à um dragão crescido. Depois, numa mansão sombria na esquina oposta eles bateram por quase cinco minutos até um Snape muito mal humorado atendê-los, só para dizer que eles deviam estar estudando para o próximo teste de poções ao invés de participar de festas escondidas, batendo a porta em suas caras em seguida. Os três decidiram que Snape merecia uma “travessura” e antes mesmo que pudessem decidir o que fazer, a Sala materializou para eles uma dúzia de rolos de papel higiênico. As árvores da frente da “casa” de Snape receberam uma bela decoração, da qual o trio nada sabia a respeito, se alguém lhes perguntasse.
Eles passaram pela bonita casa em forma de torre onde a professora Sinistra (a favorita de Anne em toda Hogwarts) lhes ofereceu bombons de planeta e tubinhos caleidoscópicos açucarados, em seguida coletaram barras de chocolate Wonka de um espalhafatoso bruxo em vestes berrantes que falava em rimas, que eles podiam jurar que se parecia com uma versão mais jovem do professor Dumbledore.
Só quando viraram na esquina, os garotos começaram a perceber que apesar das construções diferentes, a estrutura da cidadezinha era idêntica à Hogsmeade. No lugar que no vilarejo bruxo ficava o Três Vassouras eles acharam um estabelecimento chamado “O Aspirador” que se parecia um bocado com o pub de Madame Rosmerta.
— Vamos entrar? Eu daria uma barrinha e meia do meu chocolate Wonka por uma cerveja amanteigada agora — Colin sonhou.
— Não acho que vão ter cerveja amanteigada lá dentro — Luna ponderou — Pode ter alguém fantasiado de cerveja…e alguém de manteiga… são duas coisas trouxas, não são? Será que os trouxas não tem cerveja amanteigada porque nunca pensaram em misturar os dois? Precisamos contar pra eles.
— Tenho bastante certeza que nossa cerveja amanteigada não tem nem cerveja nem manteiga, minha cara fantasma de lençol. Mas, pontos pelo otimismo — o Colin de lego a apaziguou.
Anne entrou na frente, fazendo soar um sininho do mesmo jeito que acontecia quando entravam no Três Vassouras. Eles não tinham sido os únicos a decidir parar para bebida; a “noite” do lado de fora do pub era fresca, mas toda a caminhada e as “travessuras” pelo caminho os tinha deixado com sede. Lá dentro havia mais oito ou dez colegas espalhados em mesinhas, todos vestidos com fantasias interessantes e curiosas que ela teria amado investigar. Só podia reconhecê-los se fizesse algum esforço, mas foi fácil identificar os três sentados numa mesa à esquerda perto das escadas.
— Parece que você achou o resto da sua história, Dorothy do Kansas — Colin sussurrou no ouvido de Anne, lembrando-se da história que ela resumira para ele no caminho. O garoto se referia aos três integrantes da outra mesa: uma espantalha sabe-tudo, um homem de lata ruivo e sardento (embora nesse caso as sardas fossem pontinhos de ferrugem) e um leão covarde com uma cicatriz em forma de raio na testa peluda. Os trio de ouro estava adorável, Harry principalmente, todo felpudo e amarelo com uma juba volumosa, focinho e orelhas felinas no topo da cabeça. Ela sorriu involuntariamente ao ver que ele tinha patas no lugar das mãos.
— Vou dar um alô — avisou, indicando a mesa.
— Vá, vá, não se incomode conosco — Colin assentiu abanando as mãos. — Ficaremos aqui como bons personagens secundários, gesticulando, sorrindo e movendo a boca sem fazer nenhum som enquanto a cena principal se desenrola em primeiro plano.
— Você é um bonequinho muito dramático — ela deu um peteleco na cabeça de plástico dele. — Pode vir também se quiser. Os dois — acrescentou, olhando pra Luna, mas a garota deu de ombros.
— Mais tarde. Colin está certo, vai ser bom sentar para assentir e gesticular um pouco.
— Okaaay — Anne estava se perguntando como fora arranjar amigos tão estranhos. — Volto já.
— Foi bom te conhecer, Anne. Vida longa à rainha — o garoto acenou um lenço imaginário no ar e enxugou uma lágrima fictícia do seu rosto amarelo enquanto Anne se afastava em direção à mesa do trio.
Eles estavam engajados em uma discussão acalorada, mas Harry notou Anne se aproximando e perdeu o fio do pensamento para cumprimentá-la.
— Hey, An. Estávamos nos perguntando por onde você andava.
— Oi, pessoal. Somos partes da mesma história! — Exclamou um pouco efusiva demais, o que percebeu em seguida, as bochechas esquentando.
— Senta aqui — Hermione puxou uma cadeira pra ela. — Eu estava tentando explicar pra esses cabeça-duras como as nossas fantasias fazem total sentido. Ron não tem coração, Harry perdeu sua coragem e eu sou um espantalho sem cérebro.
— Sim, é genial! E lógico que faz todo o sentido — Anne assentiu, recebendo olhares de “então-você-também-pirou” dos meninos.
— Mas eu tenho um coração, e quem você conhece que é mais corajoso que o Harry? E não vou nem falar da Hermione, o cérebro dela come outros cérebros no café da manhã! — Rony gesticulou, suas juntas metálicas rangendo a cada movimento.
— É uma metáfora baseada em antônimos, Ron!
— Você é baseada em antônimo, Hermione — o ruivo de lata protestou. Ele se inclinou e roubou um beijinho dela, dissolvendo a discussão. Harry rolou os olhos para Anne.
— É sempre assim agora. Acho que eu preferia quando as brigas terminavam com eles querendo arrancar fora a cabeça um do outro.
— Preciso concordar que isso é visualmente mais agradável do que quando eles tentam afundar a língua na garganta um do outro — Anne devolveu rindo. Ela se inclinou para cutucar uma das novas orelhas leoninas dele. — Orelhas legais, Harry.
— Pega leve, são super-sensíveis.
— Você pode fazê-las mexer? — Anne quis saber. Harry se concentrou e conseguiu tremelicar as orelhas. Ela caiu na gargalhada.
— Eu nunca li O Maravilhoso Mágico de Oz — ele comentou, enquanto ela tentava parar de rir. — Duda tinha um exemplar que ele gostava de tacar em mim quando estava entediado, mas nunca consegui levá-lo-lo para dentro do meu armário.
— É uma história e tanto — disse Anne, tentando não pensar em uma versão menor de Harry sendo espancado por livros. — Eu ajudo você a recuperar a sua coragem. E ajudo o Rony a achar o coração dele e a Hermione à ganhar um cérebro.
— Hey, sem spoilers! Eu posso querer ler um dia. Hey, quer beber alguma coisa?
— Temos bebidas de verdade? — Ela perguntou, surpresa. Achava que o bar era fictício, mas é claro que fazia sentido terem bebidas, até agora tudo dentro da festa tinha sido verdadeiro, incluindo as casas e os doces que pesavam em seus baldes.
— Só bebidas trouxas. Herm– eh, uh, o S.E.M.T.A.H. Achou que seria interessante apresentar certa variedade para os alunos puro-sangue conhecerem. — Ele deu uma olhada atravessada para Hermione, que tinha uma sobrancelha erguida para ele. Harry piscou para a amiga e prosseguiu para Anne. — Posso ir pegar um refrigerante pra você se quiser, mas acho que vai preferir ir comigo ver uma coisa.
— Eu vou? — Ela olhou curiosa para o balcão. Não havia nada de extraordinário lá, a não ser por uma exuberante pirada com vastos cachos castanho-dourados, um tapa olho, um corpete apertado e um papagaio em seu ombro, servindo bebidas para um casal de alunos que acabara de entrar. — Aquela é Mme. Rosmerta?
— Sim — Harry sorriu divertido — E ela trouxe um certo cachorro com ela.
— Não brinca!
Anne correu para o pub, seguida de perto pelo leão covarde.
— Mme. Rosmerta! — Ela saudou, ocupando um banquinho no balcão. A pirata exuberante sorriu de volta quanto a reconheceu.
— Olá, lindinha! Oh minha nossa, você está adorável nesse vestido, o que você é, uma boneca?
— Sou uma personagem de um livro trouxa — ela corrigiu, sem se dar ao trabalho de entrar em detalhes — E você é uma pirata!
— Sim, ao que parece eu sou — a bruxa assentiu com orgulho. — Sempre os achei um tanto fascinantes, não são? Roubando tesouros mar adentro… Ah! Você já falou com o seu pa– uh, quero dizer, Almofadinhas? Não saia daqui, ele foi até o estoque buscar mais refrigerante de cola. Dá pra imaginar que os trouxas bebem isso? Cola! Imagino se não gruda tudo dentro do estômago.
Anne estava prestes a explicar que era outro tipo de cola, mas neste momento Sirius surgiu por uma porta atrás do balcão com uma expressão contrariada, trazendo uma caixa de Coca-Cola. Ele usava uma combinação estranha de roupas que consistia em um macacão listrado, um blazer mostarda e uma gravata brilhante. Dava para ver as suas tatuagens de Azkaban pela gola do macacão aberto, e para completar o visual o cabelo longo estava solto e ele usava um óculos escuro extravagante.
Anne ficou encarando aquela combinação peculiar com a boca meio aberta. Ela tinha pensando que ele estaria usando a sua forma animaga e sendo um bom cão, mas ao invés disso Sirius era o oposto de discreto.
— Uh, Anne. Imagino que você conhece Toquinho? — Harry pigarreou no banco atrás dela, tentando reprimir um sorriso teimoso — Convidado especial da festa. Toquinho andou sumido da mídia bruxa porque decidiu seguir carreira no mundo trouxa, veja você.
— Sim… nos conhecemos no verão — ela riu. — Olá, Toquinho.
— Ao seu dispor — Sirius, que tinha melhorado a cara ao ver que a filha estava ali, lhe deu uma piscadela antes de beijar o torso da sua mão.
— E se não se importa com a pergunta, Toquinho, você está fantasiado de…?
— Sirius Black — ele indicou o macacão da prisão com orgulho. — Bom, fashion Sirius Black, óbvio. Todo mundo já acha que somos parecidos mesmo!
— É, faz sentido. Bem pensado — ela riu, e fez uma cara séria para dar prosseguimento às perguntas. — Então você está seguindo carreira trouxa agora?
— Exato — ele assentiu muito solene. — Os trouxas pagam bem e ficam loucos com um show pirotécnico.
— Eu vejo — Anne estava tendo dificuldade para não explodir em gargalhadas.
— Boatos de que Toquinho vai fazer um show no final da noite — Harry cochichou, se inclinando para ela. Seus bigodes compridos de leão fizeram cócegas nas bochechas de Anne. — Mal posso esperar.
Anne franziu o cenho, abaixando o tom da voz para que mais ninguém os ouvisse:
— E isso é seguro? Quer dizer…
— Perfeitamente seguro — O pai piscou maroto para ela, ao mesmo tempo em que pegou dois copos atrás do balcão e os girou nas mãos, depositando-os no balcão em frente a eles — Agora: quem quer experimentar uma vaca presa?
— Vaca preta, Toquinho — Rosmerta corrigiu, achando graça.
— Presa, preta, a vaca está em maus bocados de qualquer jeito, não está?
——
Bervely bateu a porta do falso Três Vassouras atrás de si, fumegando pelas orelhas. Acabara de ter uma discussão com Sirius no depósito de bebidas porque ele não parava de repetir que ela devia ir “lá pra fora se distrair um pouco” e “quem sabe até se divertir”. Fora um erro ter se deixado convencer a vir para essa festa de Halloween que os alunos de Hogwarts haviam organizado, e só porque o trio da persuasão Sirius-Tonks-Remus tinha insistido que não parecia sensato deixá-la sozinha na casa dos gritos aquela noite. Tudo que ela queria era um pouco de solidão e silêncio para colocar os pensamentos em ordem, mas ao invés disso concordara em seguí-los até a escola, colocara o estúpido trouxapéu e ele lhe deixara verde. Verde! Da cabeça aos pés, cada centímetro da sua pele. Não havia nada que pudesse fazer a respeito – sua metamorfomagia ainda em rebelia – e parecia o único jeito de se livrar do feitiço do chapéu era saindo daquela sala-cidade trouxa maligna.
Bervely pegou uma ruazinha secundária que corria paralela à rua principal, do mesmo jeito que acontecia na verdadeira Hogsmeade, e pela qual achava que conseguiria seguir sem trombar com alunos até alcançar o fundo do falso cabeça de Javali (que ali se chamava “Focinho de Porco, por alguma razão). Era por lá que ela, Tonks, Remus e Sirius tinham chegado à festa, usando uma passagem secreta atrás de um quadro que ficava no verdadeiro Cabeça de Javali em Hogsmeade.
Bervely estava a apenas duas casas dos fundos do Focinho de Porco, o cheiro de cabra mal-lavada que precedia o pub duvidoso impregnando o ar do mesmo jeito que acontecia na vila verdadeira, quando ela ouviu um lamento. Estava bem na esquina entre a parte “turística” e a “questionável” de Hogsmeade; o ruído viera de um beco que, no vilarejo real, separava a casa de chá de Madame Puddifoot da loja de roupas Trapobelo Moda Mágica. Ela já tinha se esgueirado naquele beco uma vez com Oliver. Velhos tempos.
Ela ouviu outra fungada, como alguém tentando segurar o choro. Bervely lembrou a si mesma que não era da sua conta; numa festa escondida de adolescentes, era quase certo que haveria drama, lágrimas e arrependimentos. E esse não era da sua conta.
O lamento se transformou num choro baixo quando ela recomeçou a andar. Bervely suspirou para si mesma por um momento, então deu meia volta e entrou no beco escuro. Encontrou uma pilha de caixotes contra a parede, e sentada em cima de um deles, uma gueixa com um brilhante kimono vermelho e azul e a maquiagem branca toda borrada. Se tivesse que adivinhar, diria que era uma quintanista ou sextanista, mesma idade de Anne, talvez um pouco mais velha. Ela tinha um cabelo preto, lustroso, preso num coque com palitinhos cruzados. Os olhos eram puxados, o rosto redondo e bonito, mesmo inchado de choro. A gueixa ergueu a cabeça quando ouviu Bervely chegar perto e correu para enxugar as lágrimas.
— Desculpe a interrupção — disse Bervely, olhando-a de cima a baixo na tentativa de achar a causa de tantas lágrimas. O único indício parecia ser um pergaminho que a garota segurava. — Você precisa de alguma assistência?
— Não. Estou bem— ela fungou.
— Certo. — Bervely se aproximou um passo para vê-la melhor. Ela indicou o pergaminho que a garota segurava: — Notícia ruim?
— Quê? N-Não. Quer dizer… acho que não vai ser. Ninguém vai se surpreender, eu não acho.
A resposta não fazia sentido, mas adolescentes chorando em becos raramente faziam. Tudo parecia em ordem e ela poderia ter virado as costas e seguido seu caminho, mas alguma coisa a impediu; uma nota de desespero silencioso nos olhos pintados. Bervely indicou o pergaminho na mão dela:
— Posso dar uma olhada?
Os olhos puxados da garota se arregalaram um pouco, como se ela tivesse medo de que Bervely a obrigasse a mostrar a carta. Mas pareceu repensar e deu de ombros, entregando a para Bervely.
Queridos mamãe e papai,
Não foi sua culpa, e não há nada que vocês poderiam ter feito.
Queridas Pam e Marietta, obrigada pela sua amizade e sobretudo paciência nos últimos anos. Desculpe toda a tristeza.
Querido Harry, boa sorte se é verdade o que eles dizem, e você for mesmo o Escolhido.
Querido Ced, vai ser bom te encontrar de novo.
Com amor,
Cho.
Bervely devolveu a carta com cuidado para ela, respirou fundo e depois sorriu para a garota. Não a deixou saber que todos os pelos do seu corpo estavam arrepiados.
— Eu acho que é uma ótima carta. É gentil da sua parte deixá-los saber que não é culpa deles.
A gueixa a fitou com surpresa.
— Você não acha que estou sendo covarde?
Os olhos dela estavam marejados, mas também banhados em desafio. Bervely percebeu que a conhecia de vista, da época em que substituíra Snape em algumas aulas de Poções. A menina era uma corvinal, dois anos depois de Anne, o que a alocava no sétimo ano.
Mas Cho poderia ser qualquer garota. Poderia ser sua irmã. Diabos, Cho poderia ser ela.
Bervely deu mais uma olhada na direção da saída do beco, se perguntando como colocava a si mesma em situações como aquela. Mais cinco minutos e teria saído da festa; agora, sabia que não estava indo a lugar algum. Ela apontou para o caixote ao lado de Cho.
— Posso me sentar?
Cho assentiu, ainda observando-a, agora com curiosidade, através dos olhos marejados. Bervely sentou e cruzou as pernas sob si. Ela pensou sobre a pergunta, enquanto encarava a parede esburacada da lateral do estabelecimento.
— Na verdade, eu acho que você está senda muito corajosa — sua resposta ecoou pelo beco vazio.
— Como assim?
— Em mais de uma ocasião eu me senti tentada a escrever uma carta como a sua. Às vezes coisas ruins apenas… acontecem. Não teria sido uma carta longa; eu consigo contar numa mão de quem daria o trabalho de me despedir. E às vezes também acho que elas não ficariam terrivelmente surpresas.
— Então… porque você não faz? — Cho perguntou, interessada. Não estava mais se referindo à carta, como Bervely sabia, mas ao que vinha depois dela.
Bervely sorriu com a ironia da pergunta. Ela devia ser a última pessoa no universo indicada a aconselhar uma adolescente suicida. Mas ali estavam. Achou mais seguro devolver a pergunta da gueixa com outra:
— Por que não me diz porque acha que precisa dessa carta, para começo de conversa?
Cho respirou fundo, apertando o pergaminho na mão e o encarando fixamente. Justamente quando Bervely achou que a pergunta era muito pessoal para ser respondida, ela começou a falar:
— Começou há dois anos. Eu perdi… alguém importante. Eu o amava e o vi morrer bem diante de mim.
Oh, Bervely sorriu internamente, a ironia da coisa…
— O “Ced” da sua carta? É por isso que quer fazer isso?
— Sim. Mas não… não realmente — Cho suspirou, encarando a mesma parede que Bervely, as duas quase ombro a ombro sussurrando no beco escuro. — No começo eu estava sempre triste e achei que era por causa dele, mas depois… apenas continuou. Mesmo quando eu não pensava mais nele. Eu comecei a namorar outro garoto, Dino. Mas ele sumiu durante esse verão. Não sei o que aconteceu, ele apenas parou de responder as minhas cartas durante o verão e não voltou para Hogwarts. Não que isso seja um motivo para… quero dizer, é só, tudo junto. É tudo triste o tempo todo. E eu me sinto cansada. Desculpe — Cho pareceu se lembrar de que estava falando com uma completa estranha — Não quero choramingar. Meus amigos dizem que é só o que eu sei fazer.
— Bem, em sua defesa, dessa vez fui eu quem perguntei — Bervely defendeu, pensativa. — Mas se não se importa que eu pergunte… porque acha que seus amigos e sua família não ficariam surpresos?
Cho não respondeu imediatamente. Ela virava e revirava o pergaminho em suas mãos, como se esperasse que ele lhe trouxesse as respostas.
— Eu consigo notar que meus amigos estão cansados de mim. E meus pais… eles têm muito com o que se preocupar, acho que é um alívio para eles quando estou em Hogwarts. Eles fazem o que podem, mas sei que ficam exauridos quando vou pra casa no verão. Não é culpa deles.
Bervely assentiu. Mas havia um problema elementar no raciocínio de Cho do qual ela talvez não tivesse se dado conta. Ela própria demorara um bom tempo para aprender aquela lição, então não estava surpresa de que a setimanista não soubesse:
— Sabe… também não é culpa sua.
Cho recomeçou a chorar tão de repente que Bervely se assustou, achando que ela tinha engasgado. A garota cobriu o rosto com as mãos e encolheu os joelhos contra o corpo, soluçando forte, seus ombros se sacudindo junto com a respiração entrecortada. Bervely ficou imóvel, ouvindo o som do desespero dela, permitindo que ecoasse através do beco vazio. Parecia um choro que Cho estava segurando por muito tempo, toda vez que soluçava sozinha e em silêncio para não incomodar.
Acontece que às vezes as lágrimas precisavam ecoar, não escorrer… Bervely não ousou interrompê-la.
Dali a alguns minutos, quando o pranto de Cho começou a abrandar um pouco, alguém apareceu no beco, vindo da rua principal. Era um rapaz alto usando uma cartola, cujas feições eram impossíveis de se divisar daquela distância, a luz incidindo às suas costas.
— Olá?
Bervely virou-se de má vontade para ele. Viu que o rapaz corria os olhos dela para Cho, toda encolhida e soluçando, e tentava ler a situação.
— Tudo bem aqui?
— Só espairecendo um pouco aqui, se não se importa — ela disse com certa rispidez. Estava se sentindo protetiva em relação à Cho, por alguma razão. Não queria que algum estranho interrompesse aquele momento por conta de curiosidade; mas ele se aproximou mesmo assim, avançando para dentro do beco e perto delas.
— Ela está bem?
— Ela está se decidindo sobre algo muito importante. Vai ficar tudo bem — disse Bervely, mais para que Cho soubesse que não precisava se sentir pressionada. O estranho — que agora Bervely podia ver melhor, dada a proximidade — se abaixou e recuperou algo no chão.
Era a carta de Cho; ela a deixara cair quando abraçara as pernas pra chorar. Ele a leu, antes que qualquer uma das duas pudesse fazer qualquer coisa. O par de olhos claros olharam de volta para Cho, depois para Bervely, com uma pergunta silenciosa. Ela reparou que ele tinha pupilas verticais, como as de um gato; não podia dizer que tipo de fantasia aquilo compunha, em conjunto com a cartola. Tentou adivinhar se ele era um aluno do último ano de Hogwarts, ou talvez um dos parentes das vítimas do massacre do Ministério? Ouvira dizer algum deles tinham sido convidados.
— Acho que você deixou isso cair — disse ele, dirigindo-se à Cho. Ela fungou e ergueu o rosto todo manchado para ele, parecendo se esquecer da razão pela que estava chorando quando o encarou. A sua boca de gueixa, pintada no formato de um coração vermelho, formou um o surpreso por um momento. Então ela ofegou um “obrigada” e pegou o pergaminho de volta.
— Sou o Mágico de Oz — ele estendeu uma mão magra e elegante para ela. Cho ficou encarando um pouco, antes de estender a sua e apertar.
— C-cho Chang.
— Se entendi direito a sua carta, você está cogitando passar para o outro lado? Acho que posso ajudar. Com um pouco da minha experiência — acrescentou, ao ver as sobrancelhas de Bervely se erguerem. — Eu morri uma vez, há alguns anos.
Se Cho ainda tinha alguma pretensão de voltar a chorar, ela a deixou de lado naquele exato momento. Não era todo dia que um estranho mais velho e todo charmoso de cartola lhe encontrava num beco e oferecia seu ponto de vista sobre a própria morte. Bervely franziu o cenho para ele — o que diabos…?
— Você morreu? — Cho perguntou com incredulidade — Como isso pode ser possível?
— Aqui. Sinta meu pulso — ele lhe ofereceu o braço, puxando para cima a manga bufante da fantasia e revelando uma pele pálida-azulada por debaixo dela. Cho hesitou, mas enfim colocou os dedos sobre o pulso dele, onde deveria encontrar o seu batimento cardíaco. Depois de alguns segundos prestando atenção os olhos dela se arregalaram:
— Você não tem coração! — Ela puxou a mão assombrada.
— Eu tenho um. Só não bate mais faz um tempo — ele explicou, sorrindo orgulhoso. — O que tecnicamente me qualifica para o assunto.
A setimanista ainda encarava com um misto de assombro e curiosidade. Bervely não a culpava; ele parecia pálido e estranho com sua cartola e olhos felinos, mas o sorriso que dava para a garota era quente e amigável.
A própria Bervely estava achando a conversa suspeita. Mas então, ela sabia que aquilo era — só podia ser — uma cena que o estranho estava montando para distrair Chang. Esta pareceu enfim decidir que o tal Mágico de Oz, apesar da suposta ausência de pulsação, não configurava uma ameaça.
— Então, como… como é? Morrer?
Ele sorriu de um jeito “ainda-bem-que-perguntou”. Bervely teve um vislumbre de caninos afiados de cada lado de sua boca. Ela sentiu os pêlos de seus braços se arrepiarem.
— É interessante. Não como se espera; não dói— a não ser que você escolha uma morte dolorosa, o que eu não recomendaria. De toda forma, o importante não é o durante, mas o depois. Você deve ter pensado sobre o depois, eu imagino?
Cho piscou, perplexa; não parecia ter pensado. O Mágico de Oz fez um gesto condescendente com a cabeça, junto com um suspiro.
— Se não pensou, você deve. É muito importante. Há um bocado a se deixar para trás, pequenas coisas sobre as quais não damos muita importância quando estamos vivos. Respirar, por exemplo. Pode não parecer grande coisa, mas quando você morre, não precisa mais respirar, mas encher e esvaziar os pulmões é um hábito… e faz uma falta danada. Além do mais, há sempre uma sensação geral de estar sufocando, é uma coisa meio psicológica. Demora para se acostumar.
Cho olhava para ele com a boca meio aberta. Bervely estava se perguntando de que ala de cuidados intensivos saíra aquele maluco. Ela não conseguia desviar os olhos dele, no entanto, enquanto continuou sua lista.
— Comer. Antes de morrer, você vai querer comer mais uma vez os seus pratos preferidos uma última vez, você fez isso? Depois de morto, adeus às suas papilas. Toda comida fica insossa se não tem mais o propósito de manter o seu corpo vivo. Chocolate? Pode esquecer, fica com gosto de sei lá… terra. Minha maior decepção pós-mortem. Ah, outra coisa! Sonhos. Eles podem parecer inúteis agora, mas depois da morte, a noite é longa e silenciosa. E sabe do que mais? Você não dorme mais. Não se engane, dormir é coisa de gente viva. Morrer é mais como… uma longa, longa noite de insônia no escuro. Até os pesadelos fazem falta de vez em quando, pra ser sincero.
— Mas… — Cho tentou afastar uma preocupação crescente, buscando argumentos — Você não precisa mais sentir, certo? Depois que morre. Toda a dor. Toda a tristeza…
— Oh, sim — ele fez um gesto amplo com a mão, afastando a dor e a tristeza do ar como se fossem moscas — É claro, a dor e a tristeza, bem como a alegria, e a empolgação, tudo isso se vai junto com a fome, e o sono, e todo o resto. Mas sabe o que fica? Muito surpreendente, eu nunca teria imaginado quando estava vivo.
— O quê? — A gueixa quis saber, se inclinando involuntariamente na direção dele.
— O tédio. Sem poder sentir, comer, ou dormir, tudo que resta depois da morte é um profundo, consistente e inescapável tédio. Quem imaginaria?
A garota o encarava de boca aberta. Bervely piscou, percebendo que ela própria tinha deixado cair o queixo um pouco, mas não pelas mesmas razões de Cho; era mais uma impressão causada pelo talento com o qual ele entregava aquela ladainha.
— Espero que eu tenha ajudado com a sua decisão. Odiaria saber que você estaria caminhando para a morte com uma ideia equivocada — disse o Mágico de Oz, prático, ajeitando as costas.
Cho piscou. A carta que ela pegara de volta estava amarrotada em uma de suas mãos.
— Ah… sim. Obrigada.
— Ao seu dispor — ele fez uma reverência com a cabeça, a cartola de seda cintilando na luz que vinha da rua principal.
Bervely pigarreou, recuperando o controle da língua.
— Sim, obrigada, estávamos mesmo atrás de uma hora de asneira sobre a “morte” — ela fez aspas no ar com seus dedos verdes. — Aliás, quem diabos você é?
O rapaz se voltou para Bervely como se tivesse acabado de reparar que ela ainda estava ali, seus olhos esquisitos a perscrutando de cima a baixo. Ele é claro estava reparando no que o trouxapéu a tinha transformado; o que devia ser a concepção trouxa de uma bruxa, incluindo trapos esfarrapados, um chapéu preto longo, a pele verde,, sapatos com a frente longa e curvada em caracol, com antiquadas fivelas de metal quadrada. Seu cabelo crescera longo e desgrenhado, muito como tinha estado após a sua fuga de Azkaban e antes de ela cortá-lo rente à nuca.
Um sorrisinho torto surgiu no canto esquerdo da boca do rapaz, cuja fantasia não tinha feito nenhum desserviço.
— Essa noite, como mencionei anteriormente, o Mágico de Oz. Mas no resto do tempo pode me chamar de Sanguini — ele estendeu a mão branca e ossuda para ela. Bervely não a apertou. Suas narinas inflaram.
— Sanguini?
— Hey! Oh, olá! Bervely? — Alguém mais enfiara a cabeça na entrada do beco. Bervely rolou os olhos ao ver a Nymphadora fantasiada de chapeuzinho vermelho, uma cesta enorme de doces à tiracolo. A prima olhou de Cho encolhida em cima do caixote para o rapaz de cartola e de volta para Bervely, as sobrancelhas franzidas: — O que ‘tá rolando aqui?
— Se ao menos eu soubesse — Bervely resmungou. “Me chame de Sanguini” se voltou para Nymphadora e fez um aceno respeitoso.
— Olá, você! Estamos conversando sobre a morte. Você é bem vinda a se juntar à nós, se quiser.
— Conversando sobre a m— Bervely?
— Está tudo sob controle, Nymphadora — suspirou Bervely, usando o nome todo da prima só para dar vazão à sua irritação. Aquela história toda estava saindo do controle, e a nova mania de Tonks de “cuidar de coisas” que não eram de sua conta estava começando a ficar irritante. A auror entrou no beco para dar uma boa olhada em Cho, que ainda parecia pálida e inchada mas pelo menos dera um tempo na torrente de lágrimas.
— Algo errado, querida? Sou Tonks, sou uma auror e estou cuidando da segurança da festa essa noite. Você pode me dizer se algo estiver errado.
— Não. Tudo bem. Esses dois estavam me ajudando — Cho explicou fungando mais uma vez, enfiando a sua muito amassada carta de despedida no bolso do kimono e escorregando para fora do caixote.
Ela olhou para o estranho “Mágico de Oz” e arriscou um sorriso — Obrigada pela sua perspectiva no assunto. Eu vou… eu acho que vou repensar. — Ela se virou para Bervely — Talvez eu não seja assim tão corajosa, no fim das contas. — Cho então se voltou para Tonks e deu uma olhadinha rápida para a sua cesta de doces, mordendo o lábio vermelho: — Doces ou travessuras?
Tonks deu uma risada e a deixou pegar o doce que quisesse na cesta. Cho os desejou boa noite passou por eles, sumindo de vista na estrada principal.
— Bem. Isso foi estranho! — Tonks exclamou animada, sacudindo as suas tranças de Chapeuzinho Vermelho — Tantos dramas essa noite, e eu pensando que ia conseguir sair para doces e travessuras em algum momento.
— Você tem vinte e quatro anos — Bervely lhe lembrou com desaprovação, mas foi respondida com um dar de ombros. Tonks estava mais interessada no estranho que ainda estava ali, observando-as intrigado.
— E aí, beleza? Não vi o seu nome na lista, você é um dos convidados de Hermione?
— Pode me chamar de Sanguini — o rapaz apertou a mão dela, um sorriso educado. Bervely viu de novo a ponta dos caninos afiados. Ela sentiu um arrepio se espalhar pela base da coluna. — Sou um convidado do professor Dumbledore, estava esperando encontrá-lo.
— Acho que já ouvi sobre você! Não foi esse nome que saiu no Profeta esses dias, você estava reivindicando uma revisão do estatuto de preservação e domesticação dos Comuns? Sinto muito dizer, mas parece que o diretor não vai poder vir essa noite.
— Estranho, ele me disse que nos encontraríamos no castelo, nessa sala. Não imaginei que haveria um evento.
— Acho que ele planejava vir, mas teve uma emergência. Sinto muito. Espero que a viagem não tenha sido perdida.
— Na verdade está sendo melhor do que envisionei — O Mágico de Oz deu um olhar breve na direção de Bervely, seus olhos estranhos de animal cintilando. Ele as cumprimentou com o mesmo movimento antiquado de inclinar a cabeça e ela teve um vislumbre de cachos negros por debaixo da cartola. — Boa noite, senhoritas. Foi um prazer conhecê-las, mas agora vou continuar explorando.
Ele sumiu pela mesma direção em que Cho tinha ido há alguns minutos. Bervely encontrou a prima olhando desconfiada para onde ele tinha ido.
— Sujeito esquisito. Que será que ele quer com Dumbledore?
— Se fossemos fazer essa pergunta pra toda gente esquisita que tem assuntos com Dumbledore — Bervely rolou os olhos, desinteressada nos assuntos do diretor de Hogwarts. Ela ainda estava intrigada com o estranho, no entanto. — Engraçado. Ele não parece familiar?
— Bem que eu queria. Ele pode ser esquisito, mas até que é bem charmoso. Se o seu tipo é “moro-nas-masmorras-e-nunca-tomo-sol”, quero dizer. Hey, vamos dar uma volta? Ainda quero ver se consigo pegar uns doces antes da hora do show, os trouxas tem uma seleção bem interessantes.
— Mas a sua cesta já está cheia — Bervely apontou, mas a prima balançou a cabeça.
— Não, esses aqui eu apreendi de uns alunos que estavam tentando penetrar na festa sem terem assinado a lista de confidencialidade! Ah, adivinha quem era um deles? Draco Malfoy — Dora completou, um pouco revoltada. — Não sei o que ele queria contrabandeando esses doces aqui pra dentro, mas não são trouxas, então achei melhor confiscar. Fiz eles colocarem os trouxapéus como lição — ela completou com orgulho. — Uma boa exposição trouxa vai fazer bem pra eles, quem sabe aprendem uma coisa ou outra sobre empatia?
— Bem Lufa-lufa da sua parte — Bervely pontuou. — Espera, você disse que Draco estava tentando trazer isso pra dentro da festa? Acho que Cho Chang levou uns com ela.
— Ah, não. Droga — Tonks lamentou. — Esperam que não tenham liquor furunculoso nem nada assim. Pobre garota.
— Uns furúnculos talvez sejam uma boa distração para ela, na verdade — Bervely disse pensativa, ainda com a mente naquela carta. Tonks já estava milhas adiante:
— Vamos pedir doces ou travessuras, só um pouquinho! Você vai ver, é divertido! Costumava ir em St. Catchpole quando era criança. Papai adorava me levar e mamãe sempre costurava uma fantasia trouxa pra mim, para que eu pudesse me misturar com as outras crianças. Difícil era me convencer a não usar a metamorfomagia para criar a minha própria fantasia…. Ah, eu me lembro do ano que me transfigurei em um dos três porquinhos, o horror das outras crianças quando descobriam que meu focinho era de verdade!
Bervely concordou em pedir doces ou travessuras em uma casa com a condição de que a prima parasse de torturá-la com histórias de sua infância, mas a verdade é que pretendia deixá-la falando sozinha na primeira oportunidade em que a prima se distraísse com a própria voz.
Elas voltaram à rua principal, onde nem Cho e nem o Mágico de Oz estavam mais à vista, e localizaram uma casa de dois andares com as luzes acesas e decoração trouxa de Halloween enfeitando a sacada. Bruxas em farrapos, muito parecidas com a própria Bervely naquele momento, estavam penduradas em cada uma das pilastras, montadas em vassouras, emitindo risadas histéricas. Ela rolou os olhos, sem entender como aquela festa podia estar ajudando a melhorar a visão que os alunos tinham sobre os trouxas, se era assim que eles pensavam sobre os bruxos, para começo de conversa.
— Doces ou travessuras! — Tonks exclamou alegre ao tocar a campainha. Bervely deu uns passos para o lado, se colocando fora de vista de modo que não seria vista por quem abrisse a porta. Ela ouvira dizer que alguns professores de Hogwarts tinham concordado (ou sido coagidos?) em participar da brincadeira, esperando dentro das casas para oferecer os doces trouxas, e preferia ganhar cinco verrugas em seu nariz do que ter que encarar qualquer um deles em sua atual condição verde — especialmente Snape, se houvesse a vaga possibilidade de ele estar ali, o que ela duvidava.
— Oh, olá! — Alguém exclamou com empolgação — Fantasia legal!
— Hey, Katie, não é? — Dora reconheceu, sorrindo para a garota. Bervely se inclinou um pouco para confirmar quem imaginara que era, a julgar pela voz; Katie Bell, uma grifinória uns quatro anos mais nova que elas que ficara famosa após um recente acidente envolvendo um colar amaldiçoado e muito drama. — Ouvi dizer que você voltou do coma há poucos dias, já está boa pra festa?
— Mme. Pomfrey não queria me liberar, mas eu insisti. Afinal eu que tive a ideia dessa festa para começo de conversa. Ela me fez prometer que ia descansar e ficar dentro de uma das casinhas ao invés de circulando… Hey, você quer entrar para uma cerveja? Acho que você e Oli eram do mesmo ano em Hogwarts!
— Kats, quem é? Ah, oi Tonks!
O sangue de Bervely escorreu para o pé ao ouví-lo por trás da garota. Claro. Claro.
— Olááá, Oliver — Nymphadora cumprimentou, uma risada presa em seu tom — Não sabia que você estava na área. Que coincidência.
— Que coincidência? — Oliver quis saber, curioso. Bervely soube o que estava prestes a acontecer, mas não teve tempo de reagir antes de a prima dar um passo para o lado, revelando a sua presença, um sorriso amplo na cara desavergonhada:
— Olha só quem, por acaso, é a minha parceira de doces ou travessuras.
A expressão de Oliver congelou no rosto quando ele viu Bervely parada nas sombras da sacada. Ela viu que os olhos dele a varreram, rosto primeiro, depois o resto de sua sofrível fantasia, e que a sua expressão flutuou de incredulidade para reconhecimento ao constatar que era mesmo ela. O queixo de Oliver caiu ligeiramente; Katie deu uma olhada para Bervely também acenou alegre.
— Hey, Black! Achei ter lido no jornal que você estava morta?
— Parece que as notícias enganam — ela disse seca, sem olhar para a garota. Estava encarando Oliver de volta, o desafiando a dizer alguma coisa. Não que ele parecesse sob controle da própria boca.
— Ah, que legal, como nos velhos tempos — Tonks cantarolou feliz. — Nós temos tempo para uma cerveja, isso vai ser divertido! Oliver, você vai ter que me contar como anda indo tudo no Puddlemere!
Oliver ainda não tinha se recuperado. Os olhos dele estavam pregados em Bervely como se esperasse que ela fosse se dissolver no ar caso ele piscasse.
— Você está encarando, Wood — ela lhe avisou. Ele assentiu, puxando oxigênio.
— Sim. Sim… — ele respondeu para Tonks com algum atraso, acenando para dentro da casa. — Podem entrar. Estava… estou, uh, vim fazer companhia à Katie. Bem legal a festa, não é? Bem interessante. Doces trouxas. Eu adorava doces trouxas quando era mais novo. Ainda gosto.
Tonks assentiu sorrindo, agarrando Bervely pelos trapos e a puxando discretamente com ela para dentro da casa. Era inútil resistir; suas pernas estavam dormentes. Além disso, ela pareceria ridícula se arranjasse uma desculpa agora, era tarde demais. Quando cruzou o portal, passando por Katie, a garota lhe lançou um olhar curioso do rosto de passarinho. Sua fantasia era esquisita, consistia em uma armadura acolchoada, toda branca, e um capacete que parecia um aquário invertido, no momento aberto. Quando ela se moveu, Bervely notou que ela meio que flutuava a cada passo, como se estivesse sob a ação de menos gravidade do que o resto deles.
A casa era simples; sofás marrom claros e uma aconchegante lareira cujo cheia de fotos de família no console. Não, não fotos de família… fotos de Oliver e Katie, sorridentes, em várias ocasiões, em várias estações do ano. Havia uma travessa cheia de chocolates sobre a mesinha para quatro pessoas.
— Eu vou pegar os copos — Katie anunciou feliz, sumindo por uma portinha que devia levar à cozinha. Tonks puxou uma cadeira, Oliver puxou outra. Bervely resistiu, ainda querendo uma rota de fuga, mas por fim sentou-se à frente de Oliver, a sala minúscula lhe causando claustrofobia.
— Me fale sobre a temporada, Oliver! — Tonks puxou assunto, ignorando o desconforto óbvio de Bervely e a rigidez do rapaz. — Não estou tendo tempo de acompanhar os jogos por causa do trabalho, mas continuo torcendo pelas Harpias sempre que posso!
— Faz bem — a voz dele soou distante, a resposta no automático. — As Harpias chutaram a nossa bunda nas quartas de final. Mas vencemos a partida depois dessa e vamos nos enfrentar de novo na semifinal em duas semanas. Você devia ir assistir, posso te conseguir uns bons lugares se quiser.
— Bem que eu queria! Quem sabe não peço uma folga no esquadrão… hahaha, até parece que o Moody vai me deixar ir ver quadribol, que piada. Mas então, você entrou para o time titular?
Oliver e Tonks engataram uma conversa sobre quadribol que Bervely era incapaz de acompanhar; de qualquer forma, seus ouvidos estavam zumbindo. Não esperava reencontrá-lo ali; não pensava em Oliver desde que saíra de Azkaban, e nem muito antes, desde que o vira na plataforma em primeiro de setembro. Tanta coisa tinha acontecido em sua vida e ela mudara tanto nos últimos meses; ele, no entanto parecia o mesmo do verão; a barba castanha que estava cultivando, rente e macia, seu novo e ainda mais sólido porte de jogador em torno dos ombros e braços, os brilhantes olhos cor de avelã, até o cheiro dele ainda era o mesmo, preenchendo a pequena sala e se insinuando para dentro de seu nariz sem pedir permissão.
Bervely não era idiota; entendera porque Oliver estava ali. Em setembro, ele deixara escapar que estava namorando alguém de Hogwarts, e agora ali estava ele fazendo uma visita para a amiga de longa data, Katie, que recém acordara do coma… não precisava ser um gênio para juntar as peças.
— Vou dar uma olhada na Katie, ver o que está demorando tanto — Tonks anunciou numa pausa da conversa de quadribol, voltando a ser inteligível para Bervely. — Ah, vocês podem aproveitar para colocar o papo em dia! Licencinha.
Tonks deu uma piscadela para a prima antes de sair. Nymphadora não parecia ter amor a vida, porque devia saber que Bervely a mataria quando saíssem dali, a conhecia o bastante para isso. Tão logo a prima saiu, o silêncio dominou a sala pequena, a tornando ainda menor. Oliver encarava Bervely como se quisesse fazer um buraco através dela.
— Elphaba — ele disse por fim.
Bervely piscou.
— Desculpe?
— Você, a sua fantasia. Elphaba, a bruxa má do oeste. Vem de um livro de histórias trouxa. Um bem legal, por sinal.
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Certo. — Ela se mexeu desconfortável na cadeira. Odiava saber que estava toda esfarrapada e verde-cobra enquanto ele parecia perfeitamente adorável em sua própria fantasia. Ela o analisou rapidamente e descobriu que, para a sua surpresa, sabia o que significava. — Eu sei o que você é.
— É mesmo? Ninguém adivinhou até agora, nem mesmo a Katie, e olha que ela é metade-trouxa.
— Você é um daqueles caras que escavam dinossauros. Como no… filme.
Oliver abriu um sorriso amplo de aprovação que acendeu seu rosto.
— Isso. Um paleontólogo. Fico surpreso que você ainda se lembre — ele completou baixo. Havia calor em sua voz. Tanto calor que esquentou Bervely em partes improváveis. Ela puxou ar discretamente, desviando o olhar para que ele não percebesse.
— Minha memória continua tão boa como sempre.
Ele não disse nada àquilo. Por alguma razão, Katie Bell e agora Tonks estavam demorando uma eternidade na cozinha. Mas, quantos séculos duas bruxas competentes podiam levar para pegar quatro garrafas de cerveja, pelo amor de Merlin? Bervely começava a desconfiar que a prima estava distraindo a setimanista com alguma conversa mole.
— Eu achei que você tinha morrido em Azkaban, Rose — disse Oliver finalmente, tão baixo que era como confessasse de um segredo. O modo com o qual ele disse o seu apelido, no exato mesmo tom de quando tinha o direito de chamá-la assim, a deixou ligeiramente arrepiada. E contrariada.
— Não que o luto o tenha impedido de celebrar o Halloween ao modo trouxa com a sua amiga Katie — devolveu-lhe com secura.
— É claro que eu vim ver Katie. Ela também esteve à beira da morte. Somos amigos desde que éramos crianças…
— Só que vocês são mais do que só amigos agora — ela pontuou; mais uma afirmação do que pergunta. As fotos sobre a lareira contavam uma história completa; até mesmo a sala mágica de Hogwarts fora capaz de entender o que estava acontecendo entre eles.
— Eu tentei escrever para você, mas você não podia receber cartas em Azkaban, todas as que eu mandei voltaram — ele continuou, sem fazer eco ao comentário dela, seguindo a sua linha de raciocínio anterior. Então eu escrevi para o professor Lupin quando soube que ele estava cuidando do seu caso, eu disse a ele que podia ajudar na sua defesa, você sabe disso? Eu teria testemunhado ao seu favor— Ele abaixou ainda mais a voz. Seus olhos queimavam para cima dela. — Eu teria dito qualquer coisa que pudesse ajudar, sabe disso, não sabe?
— Até mentir em juízo? — Bervely sibilou, lembrando-se do tipo de testemunho que ele tinha sugerido dar, de acordo com a sua carta para Remus. Oliver queria dizer em corte que estivera com ela naquele verão em que Sirius fugira, o que significava que ela não poderia estar envolvida com a fuga.
— Qualquer coisa pra tirar você de lá com alma — ele confirmou com teimosia.
Eles ficaram se encarando, Bervely com um bolo na garganta a impedindo de falar, Oliver esperando que ela dissesse qualquer coisa em resposta.
A questão era que em circunstâncias normais, Bervely até poderia ter reagido à ele com a devida indiferença. Fazia séculos que eles não tinham mais nada, nem mesmo uma amigável troca de cartas — após seu término ao final do sétimo ano de Hogwarts, nenhuma linha de comunicação sobrevivera entre eles.. Mas no momento em que ele dissera qualquer coisa a olhando nos olhos, ela sentira uma revolução de trezentos e sessenta graus em seu peito, algo contrário à indiferença.
— Ah, Black! — Katie veio flutuando de volta para a salinha, Tonks atrás dela, sua capa vermelha ondulando, as quatro cervejas em mãos. — Oliver já contou pra você a novidade?
Bervely e Oliver instintivamente se ajeitaram em suas cadeiras; eles tinham se inclinado na direção um do outro sem se dar conta. Bervely desviou-se dele e olhou para Katie, fingindo-se intrigada.
— Não acho que ele tenha.
— Bem, eu conto então! — Ela esticou uma mão na direção de Bervely, torso para cima, como quem mostra uma manicure recém feita. Mas não eram as unhas que estava mostrando, mas um anel em seu anelar, uma pedra solitária cintilando. — Ele me pediu em noivado hoje! Dá pra acreditar? Noivos! Mas é claro que só podemos começar a pensar em casamento quando eu me formar em Hogwarts.
— É claro — ela repetiu devagar. Olhou de volta para Oliver, que ficara pálido. Bervely abriu um sorriso de puro sarcasmo para ele. — Parabéns para o casal, eu imagino?
— Obrigada! E pensar que vocês eram namorados na escola. Como o mundo dá voltas! Cerveja? Não é amanteigada, mas até que é gostosa. — Ela ofereceu uma garrafa para Bervely.
— Uh, obrigada. Mas acho que vou andando. Sabe… pegar mais doces — Bervely levantou e começou a andar mecanicamente para a porta. Mais um minuto dentro daquela sala e tinha certeza que seus pulmões estourariam.
Ela empurrou a porta. Ar frio da noite falsa da sala mágica soprou em seu rosto, para o seu alívio.
—-- Bervely, espera aí! Eu vou atrás dela, obrigada, Katie, Oliver… Uh, felicidades ao casal! — Tonks exclamou, apressando-se em recolher a sua cesta de doces. Na saída, ela esbarrou na travessa em cima da mesa e espalhou os bombons de chocolate pelo chão da sala — Ops, desculpa. Bervely, espera!
Bervely, que já estava uns bons dez metros adiante, virou à esquerda em outro beco e sumiu de vista no ir e vir de monstrinhos fantasiados que agora circulavam nas últimas casas da vila, recolhendo doces que mal cabiam em seus baldes.
Ela esperou até ter certeza que Nymphadora não ia achá-la e pegou a trilha secundária, dessa vez decidida a sair da sala antes que mais algum “encontro” acontecesse. Infelizmente a ideia de usar a saída do cabeça de Javali estava fora de questão, porque era essa a direção para onde a maioria dos alunos estavam seguindo. Ao invés disso, pegou um atalho para o que quer que fosse a casa dos gritos naquela versão trouxa de Hogsmeade, esperando que fosse achar lá dentro uma passagem para fora de Hogwarts, equivalente à que havia na própria Casa dos Gritos.
Bervely não topou com mais nenhuma garota chorosa, magos com olhos de gato ou antigos namorados; ao se aproximar da base da colina que teoricamente a levaria até a Casa dos Gritos, ela entreouviu uma discussão acalorada que um grupo estava tendo aos sussurros.
— …não adianta nada se não temos os doces, sua tonta!
— Há mais de um jeito de nocautear alguém, Zabine. Podemos ser criativos.
— Olha, pelo que ouvi dizer ele nem está aqui, mas a idiota da auror pegou os doces, temos que arranjar um jeito–
Bervely conhecia aquela última voz, embora estivesse bem mais grave do que se lembrava. Ela se aproximou do grupo de estudantes e, como esperava, eles ficaram todos suspeitos ao ver que tinham sido pegos no meio de sua discussão por alguém mais velho que eles.
— Boa noite, monstrinhos. Perdidos no caminho? — Perguntou ela com sarcasmo, tentando reconhecê-los. O garoto alto e negro estava vestido de faraó egípcio, incluindo uma túnica até os pés e maquiagem em torno dos olhos maliciosos. A garota, cujo cabelo loiro tomara a forma de uma peruca elaborada, tinha um ar abusado e um pesado vestido vitoriano azul; por fim, o terceiro do grupo era seu primo, as vestes consistindo em um colete de veludo vermelho com uma carreira dupla de botões dourados, um chapéu azul brilhante com uma pena branca no topo e um gancho substituindo a mão esquerda. Não era, portanto, qualquer pirata, mas um certo Capitão que ambos conheciam muito bem. Bervely não pode evitar uma pontada de nostalgia ao vê-lo vestido daquele jeito.
— Não é da sua conta, é? — A garota protestou com ares insuportáveis de realeza. — Não estamos fazendo nada de errado.
— Engraçado. Nunca ouvi ninguém dizer isso a não ser que estivesse fazendo algo errado. Draco? Você parece adorável.
O garoto loiro a reconheceu após aquele comentário sarcástico. Os olhos dele se arregalaram e ele pareceu imediatamente constrangido.
— Merda. Você não tinha perdido a alma em Azkaban?
— Não, ainda com alma, ainda viva — ela suspirou em falsa resignação. — Ao contrário dos seus modos. Porque eu ouvi dizer que você e seus amigos estavam tentando penetrar essa festa sem terem sido convidados? Que interesse três sonserinos sangue-puro de famílias famosas por sua intolerância a qualquer coisa não-mágica poderiam ter numa festa de homenagem aos costumes trouxas?
— Draco não precisa dar satisfações à você — interferiu a loira desagradável, dando um passo para a frente do garoto. — Você é aquela prima dele que foi para Azkaban, não é? Traidora do sangue. Tentando libertar o outro traidor do sangue, Sirius Black. Escória.
— E como uma boa Greengrass, você está atualizada de toda fofoca — Bervely lhe devolveu com um sorriso, vendo os olhos da garota se arregalarem. — Sim, eu sei quem você é, Dafne. Precisei colocar a sua irmã mais velha no lugar dela uma centena de vezes quando éramos colegas. Draco, vocês tem um dedo podre para as suas companhias.
— Porque até parece que eu me importo com o que você pensa — rebateu o loiro com desprezo. — A auror nos deixou entrar na festa. Não estamos fazendo nada demais, então porque não segue o seu caminho? Você nem devia estar em Hogwarts, e se alguém contar para os aurores que ao invés de morta você está caminhando por aí, se intrometendo nas conversas dos outros, o que é que acontece? Nada bom pra você, eu não acho.
— Um merdinha venenoso, igualzinho ao seu pai — Bervely suspirou desalentada. — Triste de ver o que está se tornando, primo. Eu não dou a mínima para o que quer que estejam aprontando, mas ainda quero saber o que tinha naqueles doces que vocês estavam tentando contrabandear para dentro da escola.
Draco empalideceu. O garoto negro, que Bervely achava se chamar alguma coisa Zabine, recuou um passo, e Dafne pareceu a ponto de dizer alguma coisa, mas segurou a língua no último segundo. Draco estreitou seus olhos cinza azulados para a prima mais velha:
— Não sei nada sobre doce nenhum, do que está falando?
— Corta essa. Sei que Tonks os confiscou e que eles não são inocentes drops de limão. O que vocês colocaram neles?
— Nada demais — Dafne se adiantou. — Só queríamos pregar uma peça. Mas agora é tarde, não é? Deu um trabalhão e vai tudo pro lixo. Vamos, Draco, Blaise. O tal do show vai começar na Casa dos Doces, quem sabe é alguma coisa que se valha a pena ver, ao contrário de todo o resto nessa festa deprimente.
O Zabine se virou para ir com ela. Ao ver que Draco não tinha se movido, Dafne olhou para ele irritada, mas o garoto fez um aceno para que ela fosse adiante:
— Vão em frente, encontro vocês lá dentro.
Draco esperou que os ‘amigos’ se afastassem, os braços cruzados e os olhos longe de Bervely, dolorosamente adorável fantasia de Capitão Gancho. Quando os dois sumiram de vista, uma expressão bem diferente da desdenhosa que usara até então nasceu em seu rosto. Era séria, e se Bervely não estava louca, ela detectou um ligeiro desespero no fundo dos olhos dele.
— Black — ele começou, os braços cruzados firmes, evitando encará-la — O que a auror vai fazer com os doces?
— Não faço ideia — Bervely respondeu, enquanto analisava aquele novo Draco que se revelava diante dela. — Entregar ao diretor, eu imagino?
Draco era muito branco, e era difícil dizer se ele estava mais pálido com a resposta, mas definitivamente parecia mais instável.
— Você por acaso sabe onde estão agora? Onde ela os colocou por hora?
— Digamos que eu saiba. E então?
— Eu preciso… preciso pegá-los eles de volta. Só queríamos pregar uma peça, mas se a auror entregar os doces para o diretor nós seremos expulsos.
Bervely franziu para o primo, desconfiada. Sonserinos eram pequenas cobras criadas; Draco podia estar inventando aquilo só para livrar o próprio traseiro e o dos amigos de uma detenção.
Por outro lado… por pior que Draco a viesse tratando nos últimos anos — e diabos, ela bem que queria fazê-lo pagar por isso — ele ainda era Draco. O mesmo Draco que lhe passara varíola de dragão quando eram pequenos, o que forçara Hector a lhes contar histórias de garotos perdidos para distraí-los de coçar suas peles fora. O Draco que fizera para ela um (sofrível) móbile de dragões no seu aniversário de onze anos. Ele podia ser um merdinha agora, mas ela ainda não queria ver o futuro dele arruinado por causa de uma peça de escola que dera errado. Ela torceu a boca para ele, irritada consigo mesma por se importar o suficiente:
— O que colocaram nos doces? O quão ruim é?
— Muito ruim — ele resumiu, a voz tremendo. Sua expressão era mortalmente séria.
Eles se encararam, Bervely tentando descobrir se ele estava jogando com ela, Draco sustentando o contato visual, talvez pela primeira vez em sete anos realmente olhando para ela, frente a frente sem arranjar uma desculpa para evitá-la ou achar uma razão para ofendê-la.
Bervely cedeu com um suspiro.
— Tudo bem, vou pegá-los de volta. Espere aqui atrás, volto assim que puder. Não apronte mais nada. E diga para aquela sua amiga insuportável que se ela não puder manter a língua afiada dentro da boca, vou transformá-la em uma enguia.
— O que você vai transformar em enguia, só a língua ou ela inteira? — Draco perguntou curioso.
— Ambas — Bervely garantiu. — Ela vai ser uma enguia com língua de enguia, que tal isso?
O garoto arriscou um sorriso breve.
— Acho que se isso não fizer Dafne calar a boca, nada mais faria.
——
Não foi difícil achar Nimphadora; como a maioria dos convidados da festa, ela estava agora se dirigindo para a “Casa dos Doces” — uma versão da Casa dos Gritos inteiramente feita de guloseimas— onde o show final da noite aconteceria.
Bervely aproveitou que a prima tomava a traseira da multidão, garantindo que os estudantes entravam na casa de modo ordenado, e a abordou forjando um sorriso.
— Aí está você, revirei essa vila inteira atrás do seu capuz irritante.
Nymphadora a olhou por cima dos alunos e fez uma careta.
— Além de verde e verruguenta, ainda por cima mentirosa! — E depois, com uma expressão apologética: — Desculpe por aquilo, B. Não sabia que eles estavam noivos, achei que fossem só amigos.
— Não importa — Bervely deu de ombros, aproveitando para dar uma olhada na cesta de Tonks. Confirmou que o pacote de balas verdes ainda estava ali, são e salvo. — Que os dois sejam felizes . Eu só estava claustrofóbica naquela sala minúscula, precisava de ar.
— Sim, a sala. Tem razão, muito pequena — Nymphadora assentiu com exagero de quem sabe das coisas. — Mas é meio louco, não é, Katie mal terminou a escola… imagino que Oliver esteja sendo decente com ela. Esperando e tal. Ele sempre foi decente com você, não é?
— Às vezes mais do que o necessário — ela sorriu, distraída. — Posso pegar um doce da sua cesta? Acho que você pegou um chocolate que eu gosto.
— Duh, lógico. Desde quando você gosta de doces trouxa?
— Má influência de Wood — Bervely deu a volta na prima e se inclinou para a cesta, impedindo a visão da mesma com seu corpo ao mesmo tempo que a distraía com conversa. — Então, você vai assistir o tal show?
— É claro que vou! Não perderia “Toquinho” por nada!
— Isso é ridículo. Ele vai arranjar problemas para si mesmo com essa palhaçada — Bervely condenou, ao mesmo tempo em que escorregava o pacote de doces verdes para dentro da capa e capturava uma barra de chocolate qualquer da cesta para disfarçar.
— Deixe o homem se divertir um pouco, não é como se estivessemos em público aqui nem nada — Tonks riu. — Ouvi dizer que ele canta bem, eles até tinham uma banda na época de escola, com Remus incluso! Malfeito Feito ou algo assim?
— Ele acha que canta bem. Boa sorte.
— Você não vem com a gente? — Tonks perguntou, recebendo a cesta de volta sem olhá-la. — Vai partir o coração dele, você sabe.
— Ele nem vai notar, Dora. Além do mais já tive minha cota dessa noite, mais um minuto nessa fantasia e acho que vou ficar louca.
— Tudo bem — a auror suspirou sentida. — Mas pegue uma passagem segura, ok? Arranjamos para que aquela da bruxa de um olho só do terceiro andar esteja livre, assim você pode chegar direto à Casa dos Gritos sem problemas.
Bervely assentiu, deslizando para longe da prima e da acumulação de alunos antes que Nymphadora se desse conta do seu furto. Desceu a colina e dali pouco encontrou Draco exatamente onde o tinha deixado. Era incrível como o primo, mesmo após o estirão da adolescência que o deixara mais alto do que ela, ainda parecia um garotinho em apuros quando estava, bem, em apuros. Ele quase saltou de ansiedade em cima dela quando a viu se aproximar. Os amigos estavam de volta, mas dessa vez não fizeram piadinhas quando Bervely se aproximou.
— E ai? Conseguiu pegar? — Draco sussurrou ansioso para ela. Bervely, agora vendo-o de perto, notou que o primo parecia doente. Pálido, olheiras, uma vermelhidão ao redor da pele sensível de seus olhos.
— Lógico — ela tirou o pacote de drops do bolso, mas quando Draco estendeu a mão ela o tirou de seu alcance. — Espere. Uma pergunta antes.
— Quê é? — O loiro disse com impaciência.
— Onde o atual monitor chefe da sonserina dorme?
Ele franziu, depois torceu o nariz numa espécie de nojo malicioso:
— Sério mesmo, Bervely? Você continua uma vergonha para a família.
— Não faço mais parte da família — ela lhe lembrou com tranquilidade. — Onde, Draco?
— E eu lá sei? No dormitório do sétimo ano, imagino! Não sei a cama exata do monitor chefe, diabos se eu soubesse!
— Mas no dormitório comum, não no quarto dos monitores que fica nas masmorras?
— Não — ele rolou os olhos. — Acho que você foi a última que usou aquilo, ninguém mais quis usá-lo depois que você alagou aquela parte das masmorras. Nunca deixou de cheirar como o fundo do lago, eu imagino.
— Certo. Não foi tão difícil, foi? Aqui — ela lhe entregou o saco de doces. Draco o enfiou apressadamente dentro de sua jaqueta de veludo. Bervely olhou severa para ele. — Vê se fica longe de problemas.
— Que seja — o loiro se virou para ir embora, mas pareceu mudar de ideia e se voltou para ela, meio reticente — Você não teria visto o professor Dumbledore por aí, teria?
— Não, eu não teria. Por quê?
— Por nada — ele disse rápido. — Boa noite, Bervely.
Ela fez um acenou e ficou olhando o grupo ir saindo junto na direção contrária à Casa dos Doces. Então um fragmento de pensamento se juntou a outro dentro de sua cabeça e Bervely percebeu que podia estar cometendo um erro.
— Draco, espere.
— Quê? — Draco se virou de novo. Bervely, que já sacara a varinha, a sacudiu com ímpeto.
— Accio drops de limão!
A sacolinha de doces veio voando do bolso de Draco até suas mãos numa trajetória exata sem que ele pudesse fazer nada para impedir. Ela sorriu para o primo.
— Acho melhor eu ficar com eles. Sabe como é, por medidas de segurança, não queremos que seja pego de novo com doce de contrabando. Em nome do seu futuro.
Ele pareceu que ia dizer alguma coisa, suas narinas inflando, mas Zabine o impediu, sussurrando algo em seu ouvido. Bervely colocou os doces dentro do chapéu e o retornou à sua cabeça, onde estariam fora de vista. Ela deu adeusinho para Draco e ele, fumegando de raiva, começou a se afastar, encorajado por Zabine. Dafne os seguiu, a última no cortejo, cada mão segurando um lado do volumoso vestido. Bervely estava prestes a se virar e tomar o caminho contrário quando ouviu a menina gritar:
— Incendio!
O chapéu explodiu em chamas sobre a sua cabeça. Bervely se livrou dele com um movimento rápido, jogando a coisa em chamas no chão, mas o feitiço queimou rapidamente não só o chapéu como o pacote de balas em seu interior, que se tornou primeiro uma poça de xarope verde e depois uma espécie de placa de caramelo queimado do qual se desprendia um cheiro horroroso.
Ela lançou um olhar homicida para a garota Greengrass, que sorria abertamente, feliz com seu feito.
— Doces ou Travessuras, não é assim que os trouxas falam? E se você não nos dá os doces…
Bervely se segurou para não trucidá-la. Não cometa um assassinato em Hogwarts essa noite. Você acabou de ser inocentada. Não vale a pena. Foi difícil deixá-la, mas felizmente Draco e Blaise tiraram a garota de suas vistas rápido o suficiente.
***
A Casa de Doces seguia a estrutura da Casa dos Gritos, a não ser pelo fato de que seu interior não tinha cômodos, só um grande vão aberto. Enquanto que o seu exterior era feito, bem, de doces — caramelos para as paredes, chocolates para a porta, e assim por diante — o interior era repleto de enormes gaiolas penduradas a várias alturas do chão, cada uma capaz de conter um grupo de cinco ou seis alunos, os chãos forrados com almofadas coloridas e confortáveis. Quando Harry, Rony, Hermione, Anne, Luna e Colin entraram juntos na casa após terminarem sua maratona de Doces ou Travessuras, Hermione lhes explicou que aquela era suposta a ser a casa de uma bruxa que, na lenda trouxa, atrai crianças para dentro usando doces e os prendia em gaiolas, onde então os alimentava até estarem gordos o suficiente para virar refeição.
Eles escolheram uma gaiola com boa localização. Apesar da ideia macabra, elas eram mais confortáveis do que pareciam. Eles podiam alcançá-las através de escadas dispostas pelas paredes, e todas se voltavam para o fundo da sala, onde uma enorme fornalha queimando fazia as vezes de palco.
Os garotos ficaram experimentando os doces trouxas e conversando enquanto esperavam que os outros colegas fossem chegando e se acomodando nas outras gaiolas. Harry ficou surpreso em notar que deviam ser quase uns cinquenta estudantes; parecia que muitos alunos de Hogwarts tinham se sentido compelidos a apoiar a causa trouxa após os últimos acontecimentos do mundo mágico; pela primeira vez ele se perguntou que tipo de repercussão teria aquela festa, não só para a escola mas para o mundo bruxo como o todo, num período em que nascidos trouxas e mestiços corriam grave perigo e qualquer manifestação de apoio poderiam significar retaliação por parte dos partidários de Voldemort.
Impulsivamente, Harry se virou e tascou um beijo na bochecha de Hermione, pegando a garota de surpresa. Eles tinham bebido um monte de refrigerante e em algum momento o refrigerante tinha sido batizado com rum, então todo mundo estava mais alegre. Ela se virou para ele rindo, a palha de sua fantasia farfalhando.
— O quê?
— Você é genial, Mione.
Ela abriu a boca, fechou, depois abriu de novo. Harry fez um gesto para que ela nem tentasse.
— Você é. Nem retruque.
— Ele está certo — Rony concordou do outro lado dela. — Os doces trouxas são incríveis. Os trouxapéus, então…
— Os chapéus foram criação dos seus irmãos, Rony — ela o lembrou, desviando-se dos elogios.
— Não importa, você é genial por ter pensado em envolver meus irmãos nisso, o que também conta.
— Hey, Harry! — Alguém lá embaixo acenou na direção deles. Harry se inclinou e viu Oliver Wood, capitão anterior do time de quadribol, acompanhando por uma astronauta que Harry demorou a acreditar que era a sua artilheira até então em coma, Katie.
— Oliver! KATIE! Você acordou!
— Hey, Harry! Firme e forte. Ouvi dizer que você não me substituiu? Você é um cabeçudo!
— Não substituí, mas é bom saber que está de volta, amanhã mesmo vou marcar treino! — Ele avisou feliz. Oliver fez um sinal de aprovação para ele.
— Assim que se fala, Harry! Sem moleza pra essa dorminhoca!
— Oli!— Anne se inclinou sobre Harry para cumprimentar o garoto. — Não sabia que você estava por aqui hoje!
— Hey, irmãzinha! Você está de volt- Ei, você está VENDO?
Anne de uma gargalhada que Harry sentiu reverberar em seu peito, já que ela estava praticamente em cima dele a fim ver Oliver lá embaixo.
— Longa história!
— Vou querer saber disso depois! — Ele lhe avisou, estreitando os olhos como se a reprimisse por uma traquinagem, — Vejo vocês mais tarde! Jogue duro com o time, Harry, a taça é nossa esse ano!
Anne voltou para seu lugar entre Harry e Luna depois que Oliver foi embora. Ela olhou para Harry com uma expressão culpada.
— Desculpe por isso, eu esmaguei você?
— Não, tudo bem. Sou acolchoado — Ele deu de ombros, indicando seu revestimento de pêlo. — Como você e Oliver ficaram amigos? Ele não é tipo, uns cinco anos mais velho que você?
— Ele namorou com Bervely na escola — ela resumiu, remexendo a pilha de doces para decidir a próxima vítima. Harry engasgou com a bala de morango que estava chupando.
— Sua irmã, Bervely? — Repetiu pasmo. Não podia imaginar casal mais improvável.
— Sim — confirmou ela, selecionando e desembalando um pirulito de cereja. — Eles eram fofos juntos. Mas mantinham tudo em segredo, sabe como é, reputação e essas coisas.
Ela escorregou o pirulito pela língua rosada. Harry sentiu uma pontada no baixo ventre e deslizou o olhar da cena bem rápido.
— Ah. Certo.
Lá embaixo, Katie Bell tinha chegado ao palco-fornalha. Ela puxou a varinha e apontou para a própria garganta, a encantando com um feitiço sonorus, tornando a própria voz era audível pelo salão inteiro.
— Boa noite, pessoal! Obrigada por virem. Tenho uns avisos antes do show. O primeiro deles é: como vocês podem ver, eu estou viva.
Alguns deles deram risada. Katie tinha um carisma fácil; todo mundo gostava dela. Harry estava feliz que ela tinha voltado, não só porque o time estava completo, mas porque significava que quem quer que tivesse tentando contrabandear aquele colar amaldiçoado para dentro de Hogwarts falhara miseravelmente, e isso era uma vitória para o lado deles. Ela parecia bem mais magra e cansada, mas feliz o suficiente.
— O segundo aviso é mais um agradecimento: eu fui a louca que teve a ideia para essa festa, mas achei conveniente tirar uma soneca logo em seguida e deixei todo o trabalho para trás. Felizmente outra pessoa, uma muito mais competente que eu aliás, assumiu os preparativos e fez algo muito melhor do que eu sequer sonharia — Katie apontou para a gaiola em que Harry e os amigos estavam — Obrigada, Hermione. Você é foda. Hermione para Ministra da Magia!
Muitos dos alunos gritaram e bateram palmas, incluindo Harry, Rony e todo o resto deles em sua gaiola. Hermione sorriu envergonhada, mas fez um gesto despreocupado de “quem sabe?” para Katie, que arrancou mais risadas das pessoas próximas.
— O meu terceiro aviso é de que vou parar de dar avisos para deixar o nosso convidado especial quebrar tudo no palco. Após uma estrondosa carreira com os Duendeiros, ele está agora seguindo carreira trouxa, o que explica o seu sumiço do mundo mágico desde de uns vinte anos atrás, ou seja, mais ou menos desde que a gente se entende por gente. Sem mais delongas, quebrem tudo com Toquinho Boardman e banda!
Katie desceu do palco com um pulo, amparada por Oliver que a esperava lá embaixo. As luzes encantadas da casa inteira se apagaram, deixando apenas o laranja, amarelo e vermelho da fornalha como única fonte de luz. De dentro das chamas, não mais com sua “fantasia” de Sirius Black, mas calças de couro apertada, jaqueta de ombreiras pontudas, gravata borboleta e uma máscara cobrindo metade do rosto, Sirius surgiu, trazendo uma guitarra a tiracolo. Havia um sorriso amplo de um lado a outro em seu rosto. Ele pisava em nuvens.
Harry não sabia bem se ria ou se preocupava com as implicações daquilo.
— Ele sabe mesmo cantar? — o garoto perguntou sussurrando para Anne, enquanto Sirius se posicionava no palco como se soubesse muito bem o que estava fazendo.
— Nada que um pouco de musicomagia não ajude — ela soprou de volta, o hálito cheirando a cereja por causa do pirulito. — É muita falta de vergonha na cara.
Os outros integrantes da banda começaram a entrar e se posicionar. Um baterista na extrema esquerda. Um baixista à direita de Sirius. Um pianista atrás de um enorme pianos de cauda que se materializou do nada no palco.
— Quem são… — Harry inclinou a cabeça e estreitou os olhos, querendo ter certeza de que estava vendo certo — Por acaso eles são todos…?
— Siriuses, sim — ela concordou baixo — Feitiço Ilusório de Multiplicação.
— Quem está fazendo esses encantamentos? Eu pensei que Sirius não podia fazer magia até curar!
Ela deu de ombros.
— Quem souber, morre…
Finalmente a “banda de um homem só” estava alocada. Sirius fez um aceno de cabeça para a plateia e começou a tocar. Os outros Siriuses o acompanharam, cada um com seu instrumento. Perfeita harmonia. Harry parou de se preocupar e recostou-se contra uma almofada, pronto para aproveitar o show.
She's got a smile it seems to me
Reminds me of childhood memories
Where everything
Was as fresh as the bright blue sky
Now and then when I see her face
She takes me away to that special place
And if I'd stare too long
I'd probably break down and cry
Oh, oh, oh
Sweet child o' mine
***
Irada e exausta, ela se encostou numa das pedras altas que circundavam a base da colina. Deixou a cabeça pender para trás, dando um profundo suspiro. Não havia uma só estrela no céu falso da sala mágica, mas bastou fechar os olhos para ver estrelas piscando debaixo das pálpebras.
Podia ouvir o som longínquo de uma música tocando dentro da Casa dos Doces. Podia ouvir a voz de Sirius cantando. Idiota. Seu coração apertou. Ultimamente eles não podiam ficar no mesmo cômodo sem se irritar um com o outro. Alguma coisa saíra dos trilhos depois que ela voltara de Azkaban; ao invés de serem um time em perfeita sintonia, pareciam duas pessoas opostas, incapazes de entrar em acordo na mais simples das coisas.
Como aquela decisão dele de fazer um show na festa, fantasiado de Toquinho Boardman. Ela achara a ideia mais descabida, arriscada e imprudente do mundo. Como ninguém mais podia ver que ele estava se colocando em um perigo desnecessário? Sirius não queria que ela andasse sozinha nem mesmo por Hogsmeade, mas tudo bem pra ele fazer uma performance dentro de Hogwarts na frente de uma centena de alunos fingindo ser um bruxo famoso dos anos setenta, uma pessoa que estava viva e podia contradizê-lo publicamente a qualquer momento, provocando uma confusão dos infernos?
Ele não a ouvira. Ela a ignorara. Não só isso, mas ele a provocara. Eu vou cantar, e a primeira música ainda vai ser em sua homenagem.
Ela achou que ia ser alguma música malcriada, mas agora que podia ouvir a letra, isso não estava ajudando em nada.
She's got eyes of the darkest skies
As if they thought of rain
I hate to look into those eyes
And see an ounce of pain
Her hair reminds me of a warm safe place
Where as a child I'd hide
And pray for the thunder
And the rain
To quietly pass me by
Oh, oh, oh
Sweet child o' mine
— Doces ou travessuras?
Por Merlin, se ela ouvisse essa frase mais uma vez aquela noite… Bervely abriu os olhos para a direção de onde viera a voz. Não ficou surpresa ao ver que quem se aproximava era o estranho que encontrara mais cedo no beco; algo lhe dissera que iriam se ver de novo antes que a noite terminasse.
Sorriu para ele, apesar de si mesma. Sorriu porque se sentia irritada, impotente, inconsequente, agitada, e queria transformar tudo isso em alguma coisa terrivelmente impulsiva.
— Sinto muito, mas não tenho nenhum doce. Queimaram o chapéu onde eu os estava guardando.
Ele se aproximou, passo após passo até estar ao lado dela. Bervely sabia agora porque o tinha achado familiar; ele lhe lembrava outro estranho, um que conhecera há muito tempo, numa época em que também estivera perdida.
O estranho do passado era sorridente, gentil, tinha um sorriso caloroso e ao lhe dar uma velha e quebrada coleira de couro, mudara a sua vida inteira. Esse era suspeito, falava sobre morte e tinha dentes afiados. Mas havia algo nele; no formato dos olhos, no sorriso torto; que a puxava para o passado. Na época ela era só uma garotinha e chamara o estranho de amigo. Agora era crescida e o que estava procurando não era amizade, mas distração. Alguma coisa que a fizesse sentir. De preferência que arrancasse todos os problemas de sua cabeça por um tempo, uma estocada depois da outra.
— Bem, você conhece as regras. Se não tem doces… — ele gesticulou a conclusão óbvia, a malícia implícita no tom.
— É, fui informada de como funciona. Mas não faço travessuras com alunos — avisou, só para garantir. Afinal impulsividade tinha limites e ao contrário do que Draco pensava, ela não estava desesperada a ponto de deitar com gente em idade escolar. Como certas pessoas.
— Sorte a minha, já não sou um faz muito tempo — ele sorriu. Dentes pontudos. Arrepio na espinha. Ela quase era capaz de sentir a ponta daquelas presas arranhando a pele da sua nuca. O estranho inclinou o rosto, pensativo. — Engraçado. Você me lembra alguém que eu costumava conhecer.
— É mesmo? — Bervely achou graça da coincidência. Ou talvez no caso dele fosse só uma cantada mesmo, para ela não fazia diferença. — Ela também era verde?
Ele estava tão próximo que fazia sombra sobre ela. Era mais alto quase uma cabeça. Cheirava à perigo, acendendo seus nervos, deixando-a em alerta, o coração pulsando rápido.
— Não — a voz era maciez e tranquilidade, mas nos olhos havia fome, as pupilas verticais ao mesmo tempo lhe causando atração e repulsa. — Mas ela tentou me matar.
— Pensei que você já estava morto? — Bervely resgatou, lembrando-se da conversa fiada dele com Cho Chang no beco.
— Tecnicamente — corrigiu o Mágico de Oz. — Há uma ou outra diferença crucial.
Bervely achava que podia imaginar de que diferenças ele estava falando.
— Então, — ela umedeceu os lábios, consciente de que ele observa o movimento. Ela tinha se esquecido que estava verde, porque do jeito que o rapaz a olhava, não parecia que ele estava se importando também. — Parece que o professor Dumbledore não vai mesmo aparecer por aqui essa noite.
— Então parece que eu tenho a noite livre — ele concluiu, exatamente na mesma linha de pensamento que ela. — E pelo que entendi, você me deve uma travessura.
—Por acaso eu conheço um bom lugar no castelo para travessuras.
Oh, where do we go?
Oh where do we go now?
Where do we go?
Oh, where do we go now?
No, no, no, no, no, no
Sweet child
Sweet child of mine
(Continua…)
Fale com o autor