A Canção de Morgana
42 In Absentia
Notas iniciais
And I find it kinda funny, I find it kinda sad
The dreams in which I'm dying are the best I've ever had
I find it hard to tell you, I find it hard to take
When people run in circles it's a very very
Mad world,
mad world¹
Não precisava mais dos óculos, mas não usá-los fazia com que se sentisse exposto.
— Aqui está, Sr. Thomas — Madame Pomfrey lhe entregou uma garrafinha de metal com tampa de enroscar, gelada ao toque. — Tem a quantidade suficiente para um dia inteiro e vai se auto preencher durante a noite. Não se esqueça de tomar um gole a cada hora. Se começar a sentir um formigamento em suas extremidades, é porque demorou muito.
— Obrigado — Ele guardou a garrafinha no bolso do uniforme que tinha trocado pelas vestes largas de hospital há poucos minutos. — Sabe, não precisa me chamar assim quando não tiver ninguém mais na sala…
— Preciso sim — disse a curandeira de forma severa —, e é bom ir se acostumando a ser chamado assim, para não entrar em apuros. Agora, ande, fora da minha enfermaria. Faça uma visita se tiver efeitos secundários desagradáveis.
Ele não quis perguntar que efeitos secundários desagradáveis seriam esses, mas podia imaginar. Já presenciara reações muito adversas àquela poção no passado.
— Obrigado — repetiu, pulando da cama da enfermaria e experimentando as pernas novas pela primeira vez. Eram mais longas do que estava acostumado. — Quem mais sabe que eu…?
— É melhor assumir que ninguém sabe, não é mesmo, Sr. Thomas? Assim não fica tentado a falar sobre o assunto por aí.
— É, tem razão — ele concordou, sem graça.
A curandeira fez mais um gesto de encorajamento para que ele deixasse a enfermaria – já estava ali há tempo demais, na opinião dela. O garoto suspirou e arrastou os pés – maiores do que o que estava acostumado – porta afora, em direção ao Salão Comunal da Grifinória, na torre norte do castelo.
* * *
— Senha, querido? — Quis saber a Mulher-Gorda, com um sorriso distraído que logo virou um franzido de suas sobrancelhas cheias, ao olhá-lo melhor. — Espere aí, você não esteve por aqui no período passado!
— Andei doente — ele disse, rápido. Os olhos da pintura viraram dois risquinhos suspeitosos.
— Nada contagioso, eu espero?
— Não para quadros — ele retrucou, e então: — “Cabeça de Hipogrifo”?
— Quem quer que tenha lhe dado essa senha está muito desinformado — disse a mulher, se aprumando com dignidade. — Sinto muito, mas vai ter que esperar por um coleg…
O buraco do retrato se abriu de repente, girando a pintura para fora do seu campo de visão. No lugar dela apareceu o rosto ansioso de Hermione, emoldurado por sua densa cabeleira cor de avelã. A garota pareceu ao mesmo tempo surpresa e decepcionada ao identificá-lo, pois era óbvio que estava esperando por outra pessoa.
— Dino! Você está… pensamos que…
— Não estou morto nem nada assim— ele disse, ensaiando um sorriso ao mesmo tempo que escondia o alívio por vê-la bem. — Longa história.
— Entre, entre — ela disse, afobada, olhando por cima do ombro dele, para o corredor vazio. — Você por acaso não teria visto o Har…
— É ele? Ah, oi, Dino — Rony, que vinha vindo logo atrás de Hermione, também teve dificuldade em ocultar a sua decepção. — Você está de volta, então?
— É, eu estou — assentiu, passando pelos dois e se segurando para não dizer nada que soasse esquisito. — Eu estive doente…
— Achamos que você tinha sido capturado. A sua mãe mandou uma chamada para o jornal por conta do seu sumiço, até colocamos uma foto sua no espelho da Armada, do lado da foto da Cho…
— Ele não deve saber sobre a Cho ainda, Rony — lembrou-lhe Hermione, inquieta, voltando do buraco do retrato para acompanhar os dois até perto da lareira.
— Ah, é — Rony murchou um pouquinho. — Cho Chang…
— Eu vi no jornal — ele se adiantou, sem querer fazer Rony revisitar a história toda. — Quem é que vocês estavam, uh… esperando aparecer?
— Harry — respondeu Hermione sem hesitação. — Não sabemos nada dele desde o Natal. Você por acaso não o viu por aí, quando estava vindo pra cá, viu?
— Não. Sinto muito — negou, sem encará-los. Mesmo pela visão periférica, conseguiu ver a preocupação dos dois se intensificar.
— Estamos achando que aconteceu alguma coisa com ele. Você deve ter visto no jornal sobre o ataque em Godric’s Hollow, e tudo indica que ele estava lá…
— Gina! — o garoto interrompeu Hermione, ao se deparar com a irmã mais nova de Rony sentada numa poltrona, o rosto enfiado em um livro. Ela ergueu o rosto, surpresa, e depois sorriu.
— Hei, Dino. Bem-vindo de volta. Que bom que não vou ser a única perdida na matéria, esse ano.
— Gina também não veio à escola no primeiro trimestre — Rony explicou, tomando o lugar no sofá que ficava perpendicular a poltrona que a irmã ocupava. Havia uma tensão característica em seus ombros, evidente quando ele se sentou, que não o deixou relaxar as costas no encosto como de costume. — Mordida de dragão no verão.
— Isso, Ronald, espalha pra todo mundo, seu linguarudo — retrucou Gina, olhando o irmão de cara feia.
— E por que você ia querer manter isso em segredo? É a coisa mais interessante que já aconteceu na sua vida.
Gina rolou os olhos e deu um tapa no ombro do ruivo, mas sorriu de novo para Dino, que retribuiu, sem graça. Era bom vê-la bem – embora estivesse mais magra do que ele se lembrava, as bochechas mais fundas, os ossos do rosto mais aparentes do que antes.
— Você disse que esteve doente? — Hermione retomou o assunto, sentando-se ao lado de Rony no sofá, uma perna dobrada por baixo do corpo, pronta para levantar de novo se precisasse.
— Uh, é, mais ou menos — ele enfiou as mãos nos bolsos, ainda de pé, dando uma olhada ao redor. O salão ainda estava relativamente vazio; nenhum sinal de quem estava procurando. — Fui mordido, uh, por um vampiro.
— Não brinca! — Rony exclamou, os olhos arregalados. — A mesma coisa aconteceu comigo em julho! Mas dei sorte, o vampiro do nosso sótão era meio banguela. O que mordeu você também era de estimação?
— Não. Foi um vampiro errante, me bati com ele quando estava dando uma volta à noite — explicou, do mesmo jeito que ensaiara em sua cabeça mais cedo.
— Minha nossa! Imagino quantos destes devem estar soltos por aí, depois de fugirem de casa, como o nosso. Alguma coisa está deixando eles pirados, saiu no jornal e tudo.
— E você vai ficar bem, Dino? — Hermione quis saber, preocupada. Ele assentiu, um bolo na garganta por mentir para Hermione.
— Sim. O veneno demorou um tempo para sair do meu sistema, e fiquei com uma cicatriz bem feia, mas isso é tudo.
— Não precisamos tomar cuidado com os nossos pescoços, então? — Gina brincou por cima do seu livro, lhe dando um olhar rápido de provocação.
— Não mais do que precisamos nos preocupar com você soltando fogo pelas ventas, suponho — ele devolveu no mesmo tom jocoso.
O sorriso de Gina empalideceu, no entanto. Ela voltou a enfiar o rosto no livro, parecendo sem graça. Ele franziu – tinha dito alguma coisa errada?
— Eu vou, uh… subir. Descansar um pouco. Vejo vocês mais tarde?
— É claro — Hermione sorriu bondosamente para ele. — Bem-vindo de volta, Dino. Nos avise se precisar de alguma coisa. Ainda somos monitores — ela apontou para o distintivo em seu peito e para onde devia estar o de Rony. Quando não o achou, olhou feio para o garoto, que deu de ombros.
— Obrigado — ele assentiu, e apesar da vontade de ficar ali sentado com os três e lhes contar tudo o que lhe tinha acontecido nos últimos dias, forçou-se escada acima, onde o dormitório masculino do sexto ano aguardava.
Quanto menor a exposição, menor a tentação, afinal de contas.
* * *
— Aqui estou — Bervely se anunciou ao entrar nos aposentos de Snape, cuja porta tinha sido deixada entreaberta para ela. O padrinho não ergueu o rosto imediatamente – estava compenetrado em tomar notas por sobre um caldeirão número quinze que borbulhava com alguma coisa de textura lamacenta.
Bervely reconheceu a poção – Polissuco fazia parte do estoque da escola, e não era incomum que Severus a produzisse mais ao menos a cada três meses para reposição, pois a poção perdia a validade. A razão pela qual ele estava fazendo isso na noite antes do retorno das aulas lhe era, no entanto, um mistério.
— Sente-se — ele disse depois de um tempo, indicando a única cadeira que tinha na sua antessala, e que no momento abrigava uma pilha de livros.
Ela suspirou.
— Prefiro não me demorar muito, se não se importar. Acabei de chegar de Grimmauld, tenho um banho quente me esperando…
— Sente-se — ele repetiu, ignorando-a.
Bervely franziu os lábios em desagrado, mas usou a varinha para fazer a pilha de livros flutuar até o chão, sentando-se na cadeira manchada. Observou-o, então, trabalhar com diligência por algum tempo. Normalmente ela teria apreciado uma oportunidade de aprender mais da técnica dele por observação, mas estava especialmente cansada aquele dia. Deixar Grimmauld Place por definitivo tinha lhe requerido bastante energia, especialmente a que gastara com Monstro, entre todas as recomendações de como manter a prataria e os tapetes, e o choramingo do elo-doméstico, que tinha ficado mal-acostumado a ter hóspedes com os quais se ocupar.
— Draco? — Perguntou Severus, ao mesmo tempo em que adicionava uma série de ingredientes que eram supostos a aumentar a estabilidade da mistura. Ela reconheceu o alomentum em pó e raiz de cárcara, que usava em suas próprias poções quando queria que durassem mais tempo.
— Ele concordou em voltar comigo, depois de alguma insistência. Muita insistência.
— Ele não queria voltar à Hogwarts?
— Ele acha que Lucius pode encontrá-lo facilmente aqui.
— Bem, vamos garantir que isso não aconteça.
Bellatrix já garantiu, pensou Bervely, mas não disse isso voz alta. Snape pegou a concha de prata e a usou para mexer a poção com cuidado, duas vezes no sentido horário, depois quatro no anti-horário, em intervalos de quatro segundos. Ela esperou, cruzando os braços, sabendo que não deveria interrompê-lo enquanto contava.
— E a sua irmã?
— Ainda nada — respondeu Bervely entre os dentes. — Mandei Jinx procurar na Torre da Grifinória, mas nenhum sinal dela.
— Ainda é cedo para alarme — ele disse, no que ela temeu que fosse uma tentativa de tranquilizá-la.
— Não estou alarmada. Estou furiosa.
Ele ergueu o rosto do caldeirão, as sobrancelhas escuras como lagartas franzidas.
— Furiosa com Johanne?
— Não, com Potter. Nada disso teria acontecido se ele não tivesse arrancado a minha irmã de casa no meio da noite para uma de suas voltinhas suicidas.
Severus não teceu comentários, mas ela viu o vinco na testa dele se aprofundar. Já tinha acontecido antes, à menção de Potter.
— Ele também ainda não voltou, até onde eu sei.
Nada. Bervely trincou os dentes.
— Se Potter está morto, será que alguém poderia apenas–
— Pare — ele disse sem aumentar o tom, mas soando imperativo por conta do tom duro. — Não devemos falar sobre Potter.
— Não devemos? — Ela protestou, indignada. — Primeiro Remus, depois você, o que diabos…?
— Não foi por isso que a chamei aqui, Bervely — ele a interrompeu sem alterar a voz, enquanto diminuía a chama sob o caldeirão e depositava a concha suja na pia de trabalho. — Precisamos falar sobre as suas novas responsabilidades, nesse trimestre.
— Que novas responsabilidades? — ela franziu, experimentando um mau pressentimento.
— Acadêmicas. Preciso que assuma poções com sétimo ano, cujas aulas são no último horário das quartas e sextas-feiras.
— O sétimo? — Ela empalideceu. — O ano dos N.I.E.M.s?
— Obviamente.
— Eu não acho… eu apenas… o professor Dumbledore está de acordo com isso?
— O professor Dumbledore me dá liberdade para administrar as minhas disciplinas como melhor me convier. E então, será um problema?
— Posso saber por que precisa que eu assuma essas turmas, especificamente?
— Não — Snape dispensou a pergunta com indiferença. — Também quero que passe a frequentar as reuniões de professores no meu lugar e tome notas detalhadas.
— Severus…
— Tenho notas detalhadas sobre o currículo dos alunos nessa caixa, incluindo observações sobre o desempenho de cada aluno no primeiro trimestre. Você pode levar consigo agora mesmo, e me avisar se tiver alguma pergunta específica.
— Eu tenho várias perguntas! — Ela protestou, se levantando, um pouco sem fôlego. — Eu não tenho uma formação em ensino de poções. Você não pode simplesmente jogar essa responsabilidade nos meus ombros e esperar que eu não arruíne completamente a educação mágica de quarenta alunos!
— Tenho completa fé em sua capacidade de não arruiná-los — ele rebateu com tranquilidade.
Ela ficou sem palavras. Snape lavou as mãos com água corrente sob a pia e enxugou numa toalha de linho que ficava pendurada na paredinha sobre a pia.
— Isso é tudo? Pensei que estava com pressa para tomar o seu banho ou algo do tipo.
Ela assentiu, ainda um pouco atordoada, e se levantou. Mas ele parecia estar falando muito sério sobre aquela nova atribuição.
— E Bervely? — Ele a chamou, como se lembrasse de algo no último segundo. — Obrigado.
Severus Snape agradecendo. Ali estava algo que não se ouvia todo dia.
* * *
Algo estava errado com o Salão Principal, e não era só por causa das bandeiras negras de luto que substituíam as bandeiras das casas, por todo o teto. Havia um… silêncio. Um vazio. Percebeu que o silêncio e o vazio se deviam à diminuição da quantidade de alunos costumeira no café da manhã, que resultava em grandes intervalos despovoados nas mesas das casas.
— Dino, olá! — Neville acenou quando ele se sentou no lugar em que Dino Thomas costumava se sentar, ao lado de Neville e diante de Rony e Hermione. — Fiquei sabendo que você voltou ontem, mas quando cheguei você já estava dormindo... e que história louca é essa de vampiro?
Ele deu de ombros, forçando um sorriso. Neville parecia doente e também tinha perdido peso no feriado. Não tanto que o tirasse da classificação rechonchuda, mas por muito pouco.
— É uma longa história. Sinto muito pela sua avó, fiquei sabendo do que aconteceu.
— Ah, obrigado — disse, se entristecendo um tantinho com a lembrança.
Neville ia dizer mais alguma coisa, mas ele se distraiu olhando ao redor da mesa. Ao enxergar a cabeça de cabelos pretos na outra extremidade, seu peito deu um salto misto de agonia e alívio.
— Ela voltou — ele disse em voz alta, sem se dar conta. Neville franziu, olhando na direção que o colega olhava, e assentiu.
— Você se lembra de Johanne? Ela não era da Grifinória até esse ano. Todo mundo ficou surpreso quando o chapéu a re-selecionou, no jantar de abertura.
— Uh, foi mesmo? — Ele se atrapalhou, dando-se conta de que Dino Thomas não teria como saber daquilo. — Isso é estranho.
— E ainda por cima, ela é filha de Sirius Black. O padrinho do Harry, que foi para Azkaban e depois fugiu, sabe.
Assentiu, achando difícil tirar os olhos de Johanne. A distância não permitia verificar se ela estava bem, e a cortina de cabelos negros escondia a visão do seu rosto. Colin Creevey, sentado à esquerda dela, tagarelava sem parar, mas se Johanne estava prestando atenção em uma palavra sequer era incerto.
— Sinto muito sobre Simas — disse Neville, chamando a sua atenção de novo. — Ele estava louco com o seu sumiço. Agora que você voltou, é ele quem não está aqui.
— Ah, é. Simas. Onde é que ele está?
— Em casa, imagino? — Neville deu de ombros. — Como todo o resto que decidiu não voltar para Hogwarts depois do feriado. Sabe, com o segundo ataque de dementadores… estão achando que Hogsmeade pode ser o próximo alvo.
Isso o tirou de suas divagações sobre Johanne, de volta para o evidente vazio do Salão Principal. Tinha assumido que nem todo mundo tinha voltado do feriado ainda, mas é claro que isso não fazia sentido – as aulas já retornavam naquela manhã.
— Eles estão loucos? Mesmo que Hogsmeade seja atacada, Hogwarts estaria segura, Dumbledore…
Mas ele se calou. Dumbledore não estava em Hogwarts, e talvez não voltasse tão cedo. A sua cadeira era apenas uma das várias vazias diante na mesa dos professores.
Neville deu de ombros de um jeito meio “o que se pode fazer?”, e se serviu de panquecas, desanimado.
— Parece que Madame Hooch pediu adiantamento da aposentadoria — disse pensativo, depois de um tempo mastigando. — E aquela professora de Adivinhação Avançada, Sophia Neveu, pediu demissão. Isso deixou a professora Trelawney feliz, eu imagino…
* * *
O dia de aulas transcorreu numa atmosfera de sonho lúcido. Sentia que estava protagonizando um dia na vida de outra pessoa – o que não deixava de ser verdade. Precisava ficar muito atento para fazer as coisas que Dino faria – sentar-se nos lugares que ele costumava sentar-se nas aulas, e até – como Mme. Pomfrey lhe advertira – tentar se mexer e falar como ele, para não levantar suspeitas.
Ele tinha achado que não levantar suspeitas seria a parte difícil, mas isso se provou incrivelmente fácil à medida que as horas passavam. Com a exceção dos seus colegas mais próximos, que lhe fizeram repetir a história da sua ‘mordida de vampiro’ algumas vezes — ninguém mais parecia surpreso ou incomodado com o retorno de Dino à escola, após três meses ausente.
A maioria estava mais preocupada com as ausências, ou ainda, com uma ausência em específico. Na altura do almoço, parecia que a escola inteira já sabia que Harry Potter não retornara, e fato de que os suspeitos usuais, Rony e Hermione, não tinham resposta para a ausência de Harry, tornou o assunto ainda mais borbulhante.
Na altura do jantar, esse era o principal tema entre os alunos, por onde quer que passasse e alguns estavam até começando a criar teorias. Potter teria sido vitimado no último ataque de dementadores à Godric’s Hollow, e agora estava vagando sem alma por aí. Potter teria aceitado o convite do Ministério para ser treinado pelo Esquadrão de Aurores, e abandonado de vez a escola. Potter tinha se acovardado diante dos boatos de que era o Escolhido e estava escondido debaixo de uma pedra em algum lugar ao norte do país…
— Se algo ruim tivesse acontecido com ele, já saberíamos à essa altura, certo? — Especulou Colin Creevey mais tarde naquela noite, durante a reunião de urgência da Armada convocada por Hermione, após insistência de Neville. — Notícia ruim corre rápido…
— Vai ver ele está mesmo numa missão com o professor Dumbledore — disse Neville, taciturno. — O diretor não aparece na escola desde o fim do recesso, mais ou menos o mesmo tempo em que Harry foi embora. Eu sei por que passei o feriado por aqui e não o vi nenhuma vez, nem mesmo na ceia de natal.
— Harry passou o natal com o padrinho em Londres — Rony disse, dispensando a possibilidade de que Harry e Dumbledore pudessem estar juntos no período. — Ele era suposto a vir à Toca depois do Natal, passar uns dias com a gente, mas nunca apareceu.
— A “Toca”? — perguntou Astória Greengrass, as sobrancelhas arqueadas bem erguidas. — Que diabos é a toca?
— A minha casa — Rony rosnou de volta para ela, armado em desafio.
— Vocês chamam a própria casa de toca?
— A questão é que — Hermione interrompeu com a sua voz entredentes, perigosa. — Ninguém vê Harry desde o dia vinte e seis de dezembro, o dia do ataque à Godric’s Hollow. Mandamos corujas para ele e até um patrono comunicador, sem resposta.
— E ele estava em Godric’s Hollow? O lugar é bem longe de Londres, o que ele foi fazer lá? — Susan Bones especulou.
Os olhos inquisidores de Hermione e Rony se voltaram para Anne, que até agora estivera calada, abraçada aos joelhos, sentada entre Luna Lovegood e Colin Creevey. Ela se encolheu quase perceptivelmente antes de responder.
— Sim. Harry estava em Godric’s Hollow. Eu estava lá com ele.
Houve um silêncio mais profundo na roda, enquanto o grupo esperava que ela explicasse o que estavam fazendo lá, mas Anne não disse mais nada. Hermione foi ao seu auxílio.
— Os pais de Harry moraram em Godric’s Hollow, foi onde tudo aconteceu. Imagino que ele queria fazer uma visita ao local há algum tempo, só estava esperando uma oportunidade.
Anne assentiu, olhando para o chão, os olhos lacrimejando perigosamente.
— O que aconteceu quando os dementadores chegaram? Vocês ainda estavam lá? — Pressionou Astória. Alguns olharam feio para ela por conta do tom, mas a garota os ignorou. Anne ergueu os olhos para a Sonserina, as narinas ligeiramente infladas.
— Eu desaparatei. Harry ficou para lutar.
— Soa como Harry — disse Luna ao seu lado, contemplativa.
— Harry não estava na lista de vítimas que o jornal divulgou no dia seguinte ao ataque — disse Lino Jordan, enquanto Luna passava um braço em torno do ombro de Anne.
— Isso não significa que ele não foi uma delas — Astória retrucou. — Vai ver alguém o achou e está escondendo o corpo dele, para não causar pânico.
— Cala a boca, Greengrass — Gina se pronunciou pela primeira vez. Ela também parecia muito vermelha, mas seus olhos estavam secos. — Harry não está morto coisa nenhuma.
— Sei que preferem pensar assim — Astória suspirou. — Mas se existe a possibilidade…
Eventualmente o grupo se cansou de especular e decidiu que seria uma boa ideia praticar o feitiço Patrono que Harry os ensinara no ano anterior. A maioria deles havia conseguido produzir patronos corpóreos depois de algum tempo, mas logo descobriram que uma coisa era produzir um patrono quando se estava relativamente em paz, e outra muito diferente era quando o inimigo pairava tão próximo, como naquele momento.
Anne se afastou do grupo, incapaz de isolar uma memória feliz que fosse para produzir um patrono, e foi se refugiar perto dos espelhos, do outro lado da sala, espaço que o grupo usava para colar lembretes, a lista de membros e as fotos dos amigos perdidos pelo caminho.
Ela ignorou as fotos de Cedrico, Cho e Dino, e encarou a assinatura desleixada de Harry no papel das assinaturas, seus olhos se embaçando de novo. Anne inclinou o rosto para cima, teimosa, sem querer deixar que elas escorrerem, e não viu que alguém se aproximava.
— Acho que ainda não fomos oficialmente apresentados.
Ela olhou para o lado, sobressaltada, e encontrou Dino Thomas. O garoto era dois palmos mais alto que ela, com a pele negra e olhos cor de caramelo, covinhas profundas nas bochechas mesmo quando estava sério. Ela se lembrava dele vagamente, da sua época anterior de Hogwarts.
Anne olhou de volta ao espelho e confirmou a razão pela qual não o vira se aproximar — ele não tinha um reflexo. Ao lado dela, no lugar em que ele deveria aparecer no espelho, ela só via o reflexo distante dos outros colegas praticando o patrono mais adiante, e dos feitiços ou fumaças prateadas pairando no ar.
Anne se virou para ele, perplexa.
— Sequelas — ele disse à guisa de explicação. — Fui mordido por um vampiro no verão, longa história. Me disseram que é temporário. Dino Thomas — ele estendeu uma mão grande, de dedos longos.
— Johanne Black — ela apertou de volta, bloqueando qualquer possibilidade de legilimência que pudesse acontecer ao tocá-lo. Não gostava de ler estranhos sem a permissão deles, nem por acidente.
— Black — ele repetiu, olhando para ela com intensidade estranha. — Legal.
— Em que sentido?
Ele deu de ombros, enfiando as mãos nos bolsos. A mão esquerda foi barrada por alguma coisa que ele puxou de volta – uma garrafinha metálica. Ele a encarou como se tivesse esquecido de sua existência, depois desenroscou a tampa e bebeu um gole, fazendo uma careta.
— Eu preciso ir — ela disse, incomodada. — Boa sorte, Dino.
— Sorte? — Ele franziu, estranhando a recomendação.
— Com as sequelas — ela explicou, em seguida fez um aceno sem jeito e se afastou, deixando a Sala Precisa sem ninguém mais se dar conta.
Ele a acompanhou com os olhos, usando todas as suas forças para não ir atrás dela e contar tudo.
* * *
— Você o mandou para onde?
Aquela conversa não estava indo com planejado. Em sua cabeça, era Bervely quem deveria estar gritando com Johanne, por ela ter se metido em apuros e dado de cara com Voldemort no feriado. Não o contrário.
— Você me ouviu. Ele vai ficar bem com Regulus, enquanto nós não descobrimos como…
— Regulus é um vampiro, você se lembra disso, não é? — Anne interrompeu, num tom que deixava bem claro que achava que Bervely era estúpida.
— Lógico, mas eu não vejo o que isso tem a ver com…
— Regulus é um vampiro que mora com outros vampiros, numa localização remota e irrastreável. Você mandou Sirius, indefeso e sem varinha, para uma colônia de vampiros no meio do nada!
— Johanne, você ouviu o que eu disse? Sirius perdeu a magia! Está acabado! Ele não pode mais ficar aqui conosco!
Um silêncio pesado se instalou entre as duas. Anne esfregou o rosto com as mãos trêmulas. Bervely cruzou os braços mais firmemente em torno do torso, se admoestando por ter gritado com ela, quando Anne já parecia prestes a quebrar quando tinha entrado em seus aposentos. Bervely respirou fundo, fechando os olhos e buscando forças onde ela nem sabia que tinha para manter a voz equilibrada e racional.
— Foi o melhor que pudemos fazer por ele, Remus concordou. Achamos que ele vai ficar seguro onde está. Eu confio em Regulus, e você devia confiar também. Ele é família, afinal de contas.
Anne lançou um olhar atravessado para ela, que parecia transbordar de coisas que a adolescente estava se segurando para não dizer. Bervely até imaginava algumas, mas aguentou firme. Anne fungou, com cuidado para não piscar suas lágrimas.
— Eu nem pude me despedir dele.
— Ele deixou uma carta — disse ela, indo buscar o pergaminho em sua gaveta. Johanne assistiu a irmã se movimentar pelo seu quarto, através dos olhos embaçados. Não pela primeira vez naquele dia, ela queria se enrolar em uma bola e chorar até sumir. Mas, essa não era uma opção em um dormitório lotado de garotas, e certamente não era uma opção na frente de Bervely. — Aqui. Escreva uma resposta, se quiser. Darei um jeito de enviá-la.
Anne recebeu o pergaminho de má vontade; aquilo não era sobre a carta. Acabara de ser informada de que o seu pai perdera a magia tentando salvar a alma de sua irmã. Queria vê-lo em sua frente, garantir que ele estava mesmo bem, que Bervely não estava mentindo. Até onde sabia, perder o cerne tinha consequências fatais para um bruxo.
Ela lançou um olhar perfurante para a irmã.
— Me prometa que não está mentindo. Prometa que ele não está morto.
Bervely piscou, perturbada.
— Sirius não está morto. Ele está seguro. E quanto tudo isso acabar, vamos trazê-lo de volta. Eu prometo.
Anne fungou de novo, enxugando o rosto com as mangas longas do uniforme.
— Eu vou para o meu dormitório. Foi um dia longo.
— Espere — Bervely pediu, preocupação agoniada em seu rosto. — Não quer me contar… sobre o que aconteceu em Glastonbury…?
— Não quero falar sobre isso — disse, de novo sem olhá-la nos olhos.
— Eu sei que o Lorde das Trevas estava lá, Anne. Você o viu? Ele falou com você?
Anne olhou para a irmã sem saber que expressão usar. Devia sentir alguma coisa à menção do monstro que a havia torturado com uma maldição imperdoável, mas só havia um abismo enorme em seu estômago quando pensava no assunto.
— Eu não quero falar sobre isso.
— Tudo bem. Estarei aqui quando mudar de ideia — Bervely cedeu, apesar da dor em seu rosto.
— Eu não vou mudar. Obrigada pela carta.
Anne deixou as masmorras com passos rápidos, sem olhar para trás.
Ela cresceu, Bervely se viu pensando, surpresa. Traumas tinham aquela propriedade mágica de forçar um amadurecimento, como ela bem podia se lembrar.
* * *
“HARRY POTTER DESAPARECIDO?”, perguntava a manchete da primeira página do Profeta Matinal, que também trazia uma foto relativamente recente de Harry, tirada no desastroso evento de formação dos aurores do Ministério, naquele verão.
A reportagem trazia um breve relato de um “estudante de Hogwarts que preferia não se identificar”, relatando que Harry não fora visto no castelo com o retorno do feriado, e que a escola ainda não se pronunciara sobre a sua ausência. O artigo especulava se, como muitos outros alunos, Potter decidira não retornar à Hogwarts por conta de preocupações com a segurança da escola.
O resto do texto especulava medidas de segurança omitidas por Dumbledore, incluindo a recusa em permitir um Esquadrão do Ministério de vigiar o interior dos terrenos e do castelo no retorno às aulas.
— Eu mandei outra carta para Remus hoje de manhã — disse Hermione em tom baixo para Rony e Gina, afastando o jornal de si como se ele pudesse lhe morder os dedos. — Não é possível que ele não saiba de nada, ele também esteve em Godric’s Hollow aquele dia!
— Se ele souber, não é por carta que vai contar, não é? Acho que vamos precisar fazer uma visita — Rony retrucou baixo. — Podemos usar o mapa, se ele o deixou para trás…
— Olá, Dino — disse Hermione em voz alta, se aprumando. Rony e Gina se ajeitaram também, como se não estivessem sussurrando com as cabeças juntas um segundo atrás. — Dormiu bem?
— Já tive noites melhores — ele admitiu um pouco miserável, sentando-se em frente aos três e puxando o prato de torradas ainda quentes.
— Não deve ser fácil com Rony roncando feito um hipogrifo — Gina se solidarizou, empurrando o suco para perto ele. Com o movimento, a manga da blusa dela subiu um pouco e ele achou ter visto o começo de uma cicatriz em seu pulso. A ruiva puxou o braço e ajeitou a manga de volta, num gesto tão casual que quase poderia ter sido impensado.
— Pelo menos eu não fico tagarelando enquanto durmo — o ruivo reclamou. — Nunca mais na vida quero dividir um quarto com você, prefiro morrer sem saber as obras completas do professor Hocus Pocus.
Gina corou ligeiramente com o comentário, mas manteve a dignidade, tentando rolar os olhos para Dino sobre a mesa. Ele, no entanto, já estava distraído perscrutando o restante da mesa, como já estava se tornando um hábito, até achar a cabeleira negra na outra ponta.
Dessa vez Johanne olhou de volta para ele. Seu estômago se enrolou, mas ela tratou de desviar o olhar bem rápido para o próprio prato.
— …parece que vão abrir vagas para o time — Gina estava dizendo. — Vou me candidatar para a vaga de artilheira.
— Não seja boba, Harry já estava guardando a vaga para você, não precisa fazer teste nenhum.
— Mas Harry não está aqui, está? — disse Gina com chateação. — Quem será que vai assumir a capitania, aliás?
— Pare de falar como se ele não fosse voltar — Rony disse, aborrecido. — Harry ainda é o capitão do time, ninguém vai tomar o lugar dele.
Gina mordeu o interior das bochechas, abaixando a cabeça para o prato. Hermione e Rony trocaram olhares conturbados e a garota soltou um suspiro exasperado de agonia. Rony discretamente alcançou a mão dela por baixo da mesa e deu um apertozinho, que ela correspondeu.
— Ele vai voltar logo — disse Rony com teimosia, por cima da sua torrada já fria e abandonada.
— É lógico que vai — Hermione assentiu, piscando muito rápido. — Com uma explicação perfeitamente plausível para o seu sumiço, ou quem vai matar ele sou eu.
— Espero que estejam certos — Gina suspirou, levantando os olhos para onde Dino estava sentado. — E você, acha que vai se alistar para… Dino?
Mas o garoto já tinha deixado a mesa, tão silenciosamente que nenhum deles havia percebido.
* * *
— Alguma notícia de Sirius?
— Nada ainda, infelizmente. Mas suponho que seja esperado, eles devem estar se acomodando.
— Já fazem malditos oito dias, Remus — Bervely rosnou para a caneca de cerveja que ela não pretendia tocar, mas que o dono do bar tinha insisto em colocar na frente dela à sua chegada.
— Eu sei — Remus assentiu, sem energia para discordar. Era aquela época do mês em que ele não tinha energia para nada, realmente. Não com o lobo espreitando, sugando suas forças enquanto se preparava para emergir.
Bervely resmungou alguma coisa, torceu o corpo e procurou algo dentro da mochila que pendurara no encosto da cadeira. Entregou para Remus uma garrafa de vidro arrolhada e selada, com uma poção azul cerúleo mantida quente em seu interior.
— Aqui. Beba antes que esfrie.
— Você não precisava — ele aceitou a poção matacão com gratidão e a enfiou apressadamente em sua própria bolsa, antes que alguém no Cabeça de Javali a identificasse e resolvesse arranjar problemas. Não que o pub estivesse cheio, mas tinha gente o suficiente para deixá-lo alerta.
— Eu sei que eu não precisava, mas eu estava entediada.
Ele deu um sorriso fraco, identificando a mentira. Antes de fechar a aba da bolsa, tirou algo para ela também, enrolado em um pedaço de veludo muito desgastado.
— Aqui. Você provavelmente deveria ficar com isso durante a lua cheia, para o caso de Darkmoon chamar. Ela ficou com o outro do par.
Bervely recolheu o objeto redondo, que ela sabia ser um espelho comunicador – já vira Sirius usando-o para se comunicar com Remus antes. Segurá-lo lhe deu um calorzinho tímido de esperança.
— Não sei se vai funcionar — ele a precaveu. — Muita coisa pode interferir na magia de comunicação, inclusive a distância. Não foram encantados para funcionar a mais do que algumas dezenas de quilômetros um do outro.
Mesmo assim, ela o guardou cuidadosamente no bolso interno de sua capa.
— Se não tivermos notícias até o fim de semana, vou mandar Monstro atrás deles.
— Eu teria cuidado em ficar enviando Monstro à uma comunidade vampírica. Ele pode ter escapado uma vez, mas no geral essas incursões não são bem vistas e ele pode se ver em apuros para retornar.
Ela deu de ombros de má vontade, mesmo sabendo que ele tinha razão. Como servos de bruxos, elfos-domésticos eram malvistos por outras espécies de criaturas mágicas inteligentes, e ela não via por que os vampiros seriam uma exceção.
— Eu não sei o que fazer — Bervely murmurou, deixando transparecer um pouco do desespero que estava tentando manter sob a superfície na última semana. — Não sei se fizemos a coisa certa.
— Fizemos o melhor que podíamos — ele lhe assegurou. — Agora, vá descansar, Bervely. Você parece estar precisando, está com uma cara péssima.
— Snape me deu o sétimo ano — ela explicou, catando nos bolsos uns cicles para pagar a cerveja que não tinha bebido. — É um pesadelo. Não sei no que ele estava pensando.
Remus deu um sorriso leve, sem parecer surpreso.
— Ele deve confiar muito em você.
— Ele é um insano — ela retrucou, se levantando. Remus se ergueu também, limpando a poeira das mãos nos lados da calça. Ele, ao contrário de Bervely, tinha cometido o erro de tocar a mesa imunda do pub.
— Diga a Anne que eu lhe dei um alô.
— Vou tentar. Mas fique avisado que ela decidiu que me odeia, porque pelo visto eu mandei Sirius para Gomorra especialmente para atingi-la.
— Dê um desconto para ela. Johanne acabou de perder a avó, e agora o pai. Sem falar de Harry…
Ele se calou. Bervely ergueu uma sobrancelha, esperando que Remus desenvolvesse o comentário, mas como de costume o assunto foi rapidamente enterrado com um pigarro, como se nunca tivesse emergido para começo de conversa.
— Vou tentar fazer uma visita depois da lua cheia.
Bervely assentiu e eles se despediram rapidamente na porta do pub. Remus seguiu de volta para a Casa dos Gritos, e Bervely, o espelho pesando no bolso, caminhou de volta para o castelo, os olhos pregados no céu.
Parecia que uma tempestade estava se aproximando.
* * *
— Dementadores — anunciou Snape na quarta-feira de manhã, para a turma do sexto ano da Grifinória e Sonserina reunidas na sala de DCAT no terceiro andar. Uma parte dos alunos estava sonolenta, a outra – grifinórios em sua maioria – lhe olhavam com o habitual ódio silencioso. — Um desvio significativo do seu currículo para esse ano, mas que dado os últimos acontecimentos, me parece mais relevante do que sereianos.
A maioria dos alunos pareceu imediatamente mais interessada – ou menos concentrada em odiá-lo. Todos tinham ouvido falar – ou tinham familiares ou conhecidos – envolvidos nos últimos ataques de dementadores às comunidades mistas da Grã-Bretanha.
— Já estudamos dementadores no terceiro ano — Hermione achou por bem informá-lo. — O professor Lupin…
— Tenho certeza que seu querido professor Lupin falou de toda a magia e alegoria dos dementadores que os seus inocentes ouvidos terceiranistas estavam prontos para ouvir, Srta. Granger. Mas, a quantos de vocês o professor Lupin de fato ensinou defesa contra os dementadores?
Aquela era uma pergunta injusta, já que terceiranistas – a maioria deles, ao menos – não estava preparada para aprender um feitiço tão complexo como o Patrono em seu terceiro ano. Os membros da Armada de Dumbledore presentes no recinto, que não só tinham aprendido o Patrono no ano anterior, mas o tinham praticado à exaustão na última segunda-feira, precisaram fazer um esforço extra para manter as suas bocas fechadas.
— Foi o que eu pensei — disse Snape com satisfação. — Quem pode me dizer quais as três maneiras de se defender contra dementadores?
Três? A sala ficou em absoluto silêncio. Finalmente, Hermione levantou uma mão.
— Granger, não faça eu me arrepender de lhe dar a palavra.
— Só há um jeito conhecido de se defender de dementadores, que é com o feitiço Expecto Patronum.
— Errado — Snape cantou, feliz em humilhá-la. — O feitiço Patrono é o mais conhecido e acessível método de se proteger de dementadores, mas também um dos mais complexos e instáveis. Existem outros, mas o Ministério não quer que vocês saibam deles.
— Por que não? — Perguntou Lilá, espantada. — Por que o Ministério nos esconderia algo assim?
— Mão, Srta. Brown. Cinco anos e meio de educação mágica e ainda não aprendeu o mínimo de etiqueta acadêmica em minhas aulas?
Lilá corou, mas levantou teimosamente a mão e fez a mesma pergunta. Snape suspirou teatralmente.
— Porque há muitas coisas que o Ministério não quer que o bruxo mediano saiba, Srta. Brown. Dementadores eram, um de seus principais meios de coerção e de aplicação da punição por infringir as leis mágicas. Se eles se tornassem obsoletos, ou pior, se pudessem ser controlados por qualquer um com uma varinha, pode imaginar o desastre?
— É isso que está acontecendo? — Rony perguntou. Snape lhe lançou um olhar maligno e ele ergueu a mão, falando ao mesmo tempo. — Algum bruxo das trevas descobriu como controlar os dementadores? Vold… Você-Sabe-Quem descobriu?
— Prefiro não especular sobre os feitos e desfeitos do Lorde das Trevas, Weasley, e me abster ao meu papel de professor, que é pelo que sou pago. Agora, quanto aos métodos… mais alguém tem um palpite? Valendo a esperança de que essa turma não é um fracasso completo…
— Amuletos Astrais? — disse Susana Bones, numa voz incerta. Os olhos de Snape brilharam de satisfação. — Minha tia comentou sobre eles uma vez, mas ela não sabia que eu estava ouvindo.
— Muito bem, Srta. Bones, cinco pontos para a Grifinória. Amuletos Astrais são minerais mágicos nos quais um feitiço genérico de patrono pode ser alojado por um certo período. Eles estão sob estrito controle do Ministério e são usados principalmente por aurores que precisem se expor a dementadores por longos períodos, quando a realização contínua de um Patrono seria não só extremamente estafante, mas contra produtiva. Alguém consegue citar um tipo de mineral mágico que poderia armazenar tal encantamento?
— Uh… Sensille? — Neville sugeriu, um pouco incerto. Ele normalmente preferia evitar falar nas aulas de Snape, mesmo depois de tanto tempo. — Havia uma mina na minha vila…
— Exato, na vila que foi atacada por dementadores em outubro, que não por coincidência se chamava St. Sensille. Que coincidência, não é mesmo? Mundo pequeno…
Snape deixou a informação pairando no ar e foi para o quadro negro, onde anotou magicamente “1) feitiço patrono” e “2) amuletos astrais — Sensille”.
— Alguém mais? Jeitos de se combater dementadores? Muito bem, então. — Snape deu um suspiro de derrota diante do silêncio da turma, como se estivesse muito decepcionado com a estupidez sem fim de sua classe, e por fim escreveu: “runas de evasão”. Passando então a explicar esse último método – um tipo de magia antiga, em que bruxos faziam desenhos de runas mágicas em sua pele usando uma tinta mágica e que tinha diversos propósitos, incluindo proteção contra criaturas das trevas tais quais dementadores.
A segunda parte da aula foi dedicada à prática do Patrono em si. Estava claro que Snape tinha a intenção de atormentá-los por sua inabilidade de produzir patronos corpóreos nas primeiras tentativas, mas ele ao invés precisou engolir seu orgulho quando quase metade da turma produziu patronos corpóreos em suas primeiras tentativas.
Enquanto o Jack Russel de Rony, a lontra de Hermione e outra meia dúzia de animais prateados pulavam, saltitavam, voavam ou corriam pela sala, Dino Thomas pode ser visto ao fundo, as mãos nos bolsos e um sorrisinho convencido no rosto, como se ele, de alguma forma, se considerasse o responsável por colocar a cara de Snape no chão.
* * *
O pequeno grupo composto por Neville, Rony, Hermione e Dino atravessavam o corredor adjacente ao pátio do terceiro andar quando identificaram uma pequena comoção, protagonizada entre duas garotas, uma visivelmente maior do que a outra. Os quatro pararam ao identificarem que a menor era Astória e a maior, sua irmã Dafne Greengrass, flanqueada por Pansy Parkinson e Blaise Zabine.
Dafne acusava Astória de alguma coisa que não podiam ouvir bem dali, mas envolvia as palavras “traição” e “escória”. Astória, cujo rosto muito vermelho era visível de onde estavam, puxou a varinha num rompante. Os três sonserinos mais velhos fizeram o mesmo, Dafne avançando perigosamente.
— Isso não parece nada bom — Hermione murmurou.
— Não devíamos interferir, é coisa entre os sonserinos, eu não acho q–
Mas enquanto eles discutiam, Neville já avançava na direção do grupo.
— O que é que ele pensa que está…?
Os três restantes olharam atordoados para o garoto, que avançava com a varinha em punho e parecia preparado para azarar alguém.
— Expelirmos! — Neville anunciou com confiança inesperada, fazendo a varinha de Dafne voar longe. Pansy e Zabine se viraram rápido, mas pareceram confusos, o que deu tempo o bastante para Astória azarar a irmã:
— Malastravastra!
O feitiço atingiu Dafne em cheio e ela gritou, colocando as duas mãos na cabeça. Seu cabelo começou a se retorcer e se enroscar, emitindo chiados e sibilos – tinha virado um ninho de cobras amarelas revoltosas. Algumas beliscaram os dedos de Dafne, lhe fazendo gritar mais ainda.
— Astória, não! — Hermione bradou, correndo para o grupo. Ron e Dino fizeram o mesmo, as varinhas sacadas.
— Olha só o que você fez! Olha só o que você fez! — Dafne não parava de gritar, tentando prevenir o ninho de cobra em sua cabeça de picar o seu rosto.
Astória olhava, impressionada, o efeito do seu próprio feitiço. Pansy abriu a boca para atingi-la com alguma coisa, mas Hermione rebateu com um rápido “protego” que fez o feitiço da sonserina rebater e morrer no ar.
— Sem duelos no interior do castelo! — Ela bradou. — Já chega!
— Não se meta nisso, sangue-ruim — retorquiu Blaise, num tom quase desinteressado, indo buscar a varinha de Dafne. Hermione nem teve tempo de dizer nada, porque ambos, Rony e Dino, o azararam ao mesmo tempo. Blaise caiu no chão, petrificado e com pústulas começando a brotar do rosto.
— Vocês também não! — Hermione choramingou. — Rony, você é monitor.
— Ele chamou você de sangue-ruim — disse Rony, indiferente, por sobre os gritos de Dafne, que tentava atravessar Blaise caído para alcançar a sua varinha, ao mesmo tempo que lutava com suas cobras. — Só estou fazendo o meu trabalho.
Astória chegou à varinha da irmã antes dela, e segurou cada extremidade com uma mão, um olhar malvado no rosto.
— Você não se atreveria — Dafne rosnou. — Você sabe muito bem que é uma herança de família!
— É, e você sabe como eu amo uma herança de família — Astória fez pressão para baixo na varinha, curvando-a perigosamente.
— SE VOCÊ FIZER ISSO, DESASTRÓRIA, EU JURO POR MERLIN…
— Expelliarmus! — Hermione apontou para Astória, a desarmando uma segunda vez. A garota olhou zangada para ela.
— Granger! Você ouviu do que ela me chamou!
— Isso não é motivo para…
— Arrrrgh! — Dafne saltou em cima de Hermione, tomada de uma fúria inexplicável, a derrubando no chão. As duas rolaram pelo pátio lutando pela posse da varinha, as cobras de Dafne se atiçando loucamente com o movimento.
— Impedimenta! — Exclamou Neville, mirando em Daphne, mas acertando Hermione, que voou alguns metros para longe. — Opa, desculpa, Hermione…
— JÁ CHEGA! — Uma voz que não pertencia a nenhum deles bradou, vinda do corredor. Os sete estudantes com mobilidade se viraram naquela direção, mortificados ao encontrar uma lívida McGonagall presenciando a cena. — Alguém pode me explicar por que a minha monitora está rolando no chão e o monitor da Sonserina está petrificado?
— Estávamos separando uma briga, professora — disse Neville, dignamente, se aprumando. — Esses sonserinos estavam infernizando Astória.
— Eu não pedi ajuda nenhuma — a quartanista se manifestou. — Esses loucos se intrometeram porque quiseram. Eu tinha tudo sob controle.
McGonagall veio até onde eles estavam e exclamou Finite! Para a cabeça de Dafne. As cobras pararam de se mover e caíram, nocauteadas, balançando da cabeça dela como penduricalhos exóticos.
— Astória, Dafne, eu já as adverti sobre esse comportamento antes…
— Não posso fazer nada se essa alucinada acha que eu preciso cumprir os rituais satânicos do clã Greengrass.
— Você faltou o natal! — Dafne reclamou, suas cobras desmaiadas se sacudindo ao redor do rosto pateticamente.
— Natal com demônios ainda é satânico.
— Astória, por mais que discorde dos meios da sua família, não vou admitir esse tipo de comportamento novamente na minha escola. E Dafne, a sua irmã tem o direito de se expressar, se ela não compartilha dos mesmos valores que o restante da família. Isso não lhe dá o direito de usar apelidos ofensivos ou importuná-la pelos corredores.
Dafne parecia a própria imagem da fúria, a própria medusa desenganada.
— Detenção para as duas, de novo. E, quem foi que petrificou o Sr. Zabine?
— Eu, professora — Rony se apresentou. — Mas só porque ele chamou Hermione de sangue-ruim.
— Detenção para os dois também, então. E menos cinquenta pontos para cada casa. Se não for pedir muito, se comportem com o mínimo de compostura daqui por diante, será que já não basta… — A professora se interrompeu, como se tivesse falado demais, e sua voz tomou um tom mais brando. — Enfermaria para quem precisa. Os demais, vão para o almoço, andem.
— Sim, senhora, professora McGonagall — Hermione murmurou, embaraçada. — Nós sentimos muito mesmo pela confusão. Não vai acontecer de novo.
— Dafne, acho que vai ter que raspar essas cobras. Vá ver com Madame Pomfrey um feitiço para fazer crescer o seu cabelo.
Dafne parecia prestes a vomitar. Atrás dela, Astória deu um sorrisinho.
Mais tarde naquela noite, Neville escolheu acompanhar Astória de volta ao castelo após a sua detenção, que tinha consistido em desinfetar as acnes das plantas-pus que a profa. Sprout estava cultivando na estufa três, trabalho para o qual ele anteriormente tinha se voluntariado.
— Valeu pela companhia— ela agradeceu mais ou menos na frente da estátua de Bóris, o terrível, que era o mais longe que Neville se atrevia a ir às masmorras, por medo de encontrar-se sem querer com o Barão Sangrento. — Mas minha nossa, aquilo foi ridículo. Vocês não deviam ter se metido, eu tinha mesmo tudo sob controle. Estava querendo testar aquele feitiço na Daph há séculos.
— É claro que tinha — ele concordou, muito sério. — Mas a gente gosta de se meter numa briga, só pra quebrar o tédio.
A garota rolou os olhos, detectando o sarcasmo.
— Vou ser comida viva, agora que a história de ter sido defendida por Grifinórios já deve ter se espalhado. Você e seus amigos destruíram a minha vida.
Neville balançou a cabeça para o tempero dramático da garota, mesmo que já tivesse se acostumado com ele durante o feriado, quando passara a maior parte do tempo com ela. Astória era a única pessoa que tinha restado no castelo que não o olhava com pena por conta da morte de sua avó.
— Ainda não entendi por que a sua irmã estava tão irritada com você por não ir passar o Natal em casa. Vocês não parecem ser assim tão próximas.
— Ah, é bobagem. Ela acha que eu estou renegando a família e ofendendo as tradições seculares da linhagem Greengrass de propósito, só para irritar meus pais.
Neville assentiu, sem comentar. Astória estalou os lábios.
— Ela está certa.
Ele a olhou de relance, preocupado.
— Tem certeza que não é melhor passar a noite em outro lugar? Mme. Pomfrey não se importaria em abrigá-la na enfermaria se pedir, tenho certeza.
— Não, tudo bem — ela se aprumou, fazendo pouco da coisa toda. — Vou sobreviver. Mas, nunca mais, nunca mais façam algo como isso. Espalhe a mensagem para os seus iguais.
— Certo. Só que nós vamos. Essa é uma das desvantagens de andar com gente como a gente.
Astória deu um longo e doloroso suspiro, depois assentiu como quem aceita a sua sentença de morte de cabeça erguida.
— Diabos. Boa noite, Longbotton.
— Boa noite, Greengrass. Te vejo na sua próxima detenção?
— Supondo que eu sobreviva até lá, é claro.
* * *
Não importava o quanto Bervely gritasse com o pequeno espelho redondo, ele continuava silencioso. Ninguém lhe respondia do outro lado e isso a estava deixando a beira de um ataque de nervos.
A culpa não era só do espelho. A semana chegara ao fim e ela se sentia perigosamente à deriva; pilhas de ensaios dos quartanistas sobre a poção da cegueira para corrigir, os elixires anticoceira dos setimanistas para avaliar, as notas detalhadas da reunião dos professores para enviar para Snape, a preocupação com Nymphadora, que não respondera a sua carta de dois dias atrás; a ausência de notícias de Sirius, a insistência de Johanne em ignorá-la como se ela fosse… como descartável.
Essa era a sensação geral de Bervely no momento: descartável. O mundo tinha girado nos eixos mais uma vez, sua vida fora sacudida e virada do avesso de novo e lá estava ela, descarnada e desossada, mas sozinha, precisando funcionar numa suposta normalidade, ser um ser humano funcional, ou fingir que era um, ao menos.
Ela largou o pergaminho e a pena sobre a mesa e enfiou o rosto nas mãos, querendo, no fundo, que aquele gesto pudesse fazê-la desaparecer.
— Por favor. Por favor — implorou, sabendo que implorava para o nada. O nada lhe respondeu com o silêncio. O único outro ocupante do quarto, Jinx, saltou na mesa e veio se enroscar em seus braços.
— Agora não, Jinx. Me deixa em paz. Me deixa ficar miserável em paz.
O gato lhe enviou imagens sugestivas do lado de fora dos terrenos da escola, querendo que ela fosse dar uma volta. Essa era a solução de Jinx para quando ela estava frustrada, mas o gato não entendia que quando se sofria com luto, preocupação e angústia, não era um céu estrelado que um pouco de ar puro que iam resolver as coisas.
— Eu sei. Eu sei que melhora. Mas não quero melhorar. Do que adianta melhorar, para piorar depois? Pura perda de tempo.
O gato miou com indignação, desaprovando sua linha de pensamento derrotista. Beverly o ignorou, abrindo os olhos e encarando o pergaminho no qual devia estar fazendo um resumo da enfadonha reunião dos professores para Snape.
Queria entender por que ele achara por bem lhe dar mais responsabilidades. Esperava vê-la enlouquecer, ou realmente precisava de um descanso? Sabia que ele não estava no castelo aquela noite. Snape às vezes saía, passava noites fora do castelo. Bervely supunha que isso tinha a ver com os seus serviços duplos. O tipo de coisa que ela preferia não pensar muito a respeito, porque também ameaçava a sua sanidade.
O espelho redondo cintilou para ela com um brilho insolente. Bervely bufou, se levantando.
— Uma volta. Certo. Você venceu, gato.
Pegou a jaqueta e jogou por cima dos ombros, deixando as masmorras com Jinx satisfeito em seus calcanhares. Menos de um minuto depois, um rosto surgiu no pequeno espelho redondo que ela abandonara sobre a mesa.
— …. Bervely?
* * *
— Para onde é que você pensa que vai? Não me diga que está indo embora de Hogwarts também, era só o que faltava! — Rony interpelou Anne, ao encontrá-la atravessando o salão comunal com seu malão à tiracolo.
Anne suspirou. Tinha tido a esperança de sair de fininho quando a maioria dos colegas estava jantando, mas arrumar suas coisas tinha demorado mais do que o previsto.
— Não. Ela só está deixando a Grifinória — Hermione disse, sem surpresa na voz. Mesmo assim, Anne se sentiu um pouco envergonhada.
Não era novidade para ninguém o seu estado miserável desde que retornara do recesso. Os amigos mais próximos – Rony, Hermione e Colin – achavam que era por conta da ausência de Harry e a falta de notícias deles. Afinal, isso estava afetando o humor de todo mundo que se importava com o garoto. O que eles não entendiam era o quão insuportável para Anne ficar na Grifinória quando ela, mais do que nunca, sentia que não pertencia.
— Você não pode fazer isso — Rony protestou. — Sua casa é aqui! O chapéu colocou você conosco. Isso é sequer permitido, abandonar a própria casa assim, sem aviso?
— Rony, deixa ela em paz — disse Hermione, que parecia compreender mais do que Anne estava dizendo, ou pelo menos ler no rosto dela o seu desespero com a coisa toda. — Ela tem que ficar onde se sente mais confortável.
Mas Rony pareceu pessoalmente ofendido pela decisão de Anne, e ela nem podia culpá-lo. Ele tinha sido o primeiro e o mais consistente nos esforços para fazer com que ela se sentisse em casa na Grifinória. E se dependesse só dele, ela teria.
— Sinto muito, Ron — Anne disse num fio de voz, com medo de desabar se se prolongasse.
— Precisa de ajuda com seu malão? — Hermione perguntou, prestativa. Ela parecia tão cansada, pensou Anne. Não devia estar dormindo bem, mas quem estava? Se ela tinha metade dos sonhos que Anne vinha tendo...
— Não, obrigada. Não está tão pesado assim.
Passava pelo buraco do retrato quando Dino entrou, vindo na direção contrária distraído e esbarrando em seu braço. Seu malão escorregou da sua mão e se abriu, parte do conteúdo se derramando para fora.
— Desculpe! — Dino pediu, se abaixando para ajudá-la, então percebendo do que se tratava e olhando para Anne com confusão e… medo? — Você está indo embora?
— Não. Só me mudando de volta para a Corvinal — ela disse, se abaixando para enfiar seus pertences de volta no malão. Ele se agachou também e puxou uma das coisas que escapara – a capa da invisibilidade de Harry, sedosa e brilhante, que Anne tinha trazido consigo de volta de Avalon. Ele a observou por um momento, sem fala.
— Obrigada — ela puxou a capa da mão dele e a enfiou de volta no malão, trancando-o de novo e o erguendo, apesar da mão trêmula.
Todo mundo que estava no salão comunal agora olhava para a cena. Dino ficou de pé e abriu a boca para falar alguma coisa. O estomago de Anne deu uma volta inteira, ela se sentiu doente, sem ar. Ele fechou a boca, no entanto, e saiu do caminho dela.
— Precisa de ajuda? — Perguntou, quando ela já tinha passado por ele.
Anne não respondeu. O nó em sua garganta estava apertado demais para deixar sair alguma palavra.
* * *
— Tudo fica bem quando acaba bem — sussurrou Luna, cujas pernas dobradas apoiavam a sua cabeça, e cujos dedos mexiam em seu cabelo como forma de consolá-la.
Anne não conseguia parar de chorar e nem conseguia entender o porquê. Só sentia que tinha falhado. Decepcionado alguém… decepcionado a si mesma. Era suposta a ser corajosa, não era isso que o chapéu tinha tentado lhe dizer? Mas se acovardara. Nem mesmo tivera a coragem de contar a verdade para Rony e Hermione.
— Quer que eu chame alguém para ficar aqui com você?
— Você é alguém, Luna — Anne disse entre os soluços.
— É. Tem razão — a menina loira assentiu. Estavam em sua antiga cama no dormitório da Corvinal, que era empoleirada ao lado de uma janela enorme, o que fazia sentir como se estivesse flutuando sobre o lago de Hogwarts.
Caiu no sono com Luna mexendo em seu cabelo. Dormiu pesado. Sonhou com um cemitério, uma árvore e os braços de Harry apertados em torno do seu corpo. O coração dele batia forte, como era suposto a bater.
Acordou assombrada antes que o dia amanhecesse.
* * *
— Ela não quer sair da cama para nada desde sexta — explicou Luna, enrolando um brinco de nabo entre o indicador e o polegar. — Estou começando a achar que é febre de pangolim.
— O crush dela está desaparecido — Colin replicou. — Eu também me recusaria a sair da cama em tais circunstâncias. Aliás, estou quase fazendo o mesmo. Se ele não aparecer logo a coisa vai ficar feia.
Outra matéria tinha saído no jornal de domingo sobre Harry, mas dessa vez dizia “O Escolhido nos Abandonou?” e tinha sido escrita do ponto de vista especialmente cruel de que Harry Potter estava se escondendo de propósito para evitar as pressões do Ministério, com a ajuda de Dumbledore. O fato de Dumbledore não ter aparecido na escola desde o retorno das aulas, segundo jornal, ajudava a corroborar a hipótese.
Alguns alunos de Hogwarts tinham ficado particularmente chateados com a matéria. Dino Thomas fora visto abandonando seu café da manhã intocado na mesa ao ver a matéria, soltando um palavrão e mais tarde, voando furiosamente no campo de quadribol, tão rápido que parecia um borrão.
Rony e Gina haviam planejado um escape sorrateiro até Hogsmeade, a fim de visitar Remus e perguntar por notícias pessoalmente, mas tinham sido pegos no flagra por Filch e ganhado mais um pouco de detenção.
A tempestade que desde a terça-feira ameaçava desabar caiu ao meio dia de domingo, com a força de uma revolta líquida estratosférica. O repentino turbilhão de água não fez o garoto no campo de quadribol para de voar; muito pelo contrário, ele continuou dando voltas atordoadas no céu, numa tentativa vã de clarear a mente.
Tudo que conseguiu foi se encharcar até os ossos. Quando desceu para se secar nos vestiários, um gato prateado o esperava na borda do campo, observando-o com atenção pouco usual para um felino ordinário.
Mas ele sabia muito bem que aquele não era um gato normal, e achou por bem ignorá-lo.
* * *
— Isso é um monte de poção Polissuco.
— Seu ponto? — Snape trovejou sobre o caldeirão no qual suava. Ele estava mais impaciente, ultimamente. Chegara tarde da noite no castelo, no fim de semana. Bervely o vira chegar mancando na noite domingo.
— Nenhum, mas posso ajudar. Não precisa fazer tudo sozinho, sabe.
O mestre de poções a olhou com desconfiança, mas estava obviamente exausto, porque lhe entregou a concha sem muita resistência.
— Não faça perguntas.
— Não estou fazendo — ela disse. — Mas preciso saber para onde mandar a poção, quando estiver pronta.
Após um segundo de reticência, ele indicou uma garrafinha de metal sobre a mesa, do tipo que tinha um par. Quando era enchida, o seu conteúdo se transferia magicamente para o outro par do conjunto.
Bervely já tinha visto o par na escola. À essa altura, ela não precisava mesmo fazer nenhuma pergunta.
* * *
— Eu fiz uma coisa muito ruim — murmurou Anne, depois de algum tempo encarando a parede enrugada de pedra que separava o quarto de Bervely do seu laboratório.
Ela tinha convidado Anne para jantar, mas a garota não tinha comido nada. Só tinha sentado na cama de Bervely, abraçada aos joelhos, encarando a parede por horas.
Quando ela finalmente colocou para fora o que estava tentando segurar, Bervely largou a sua taça de vinho – ela também não tinha comido nada – e veio se sentar na beira da cama.
— Estou ouvindo.
Anne balançou a cabeça, os lábios comprimidos numa linha fina. Os olhos dela estavam vermelhos; Bervely podia ver que a caçula se segurava para não chorar de novo.
Não era surpresa que algo ruim tinha acontecido no topo do monte Glastonbury, e Bervely sabia por experiência que Anne precisaria de tempo para lidar com o que quer que fosse. Não pretendia pressioná-la.
— Eu fui fraca. Deixei ele entrar em minha mente.
— O Lorde das Trevas — perguntou, mesmo que soubesse. Sabia pelo jeito que os pelos de seu braço tinham se arrepiado quando Anne falou.
— Sim. Ele me fez contar coisas que eu não devia ter contado. Segredos… segredos de Harry.
— Se ele queria saber algo, não vejo como você poderia tê-lo impedido, Anne — disse Bervely, com o máximo de autocontrole que conseguiu reunir. A vontade irracional de esmagar Voldemort em sua mão fechada até que ele virasse uma raspa nojenta de caldeirão era inebriante.
— Eu devia… devia ter tentado resistir mais.
— Bruxos melhores e mais experientes que você já falharam em resistir à legilimência dele.
Anne assentiu, os maxilares ainda bem travados.
— Eu acho que o matei, Bervely. Acho que ele morreu por minha causa.
A raiva de Bervely se transformou, mudando de forma, se expandindo não para Voldemort, mas para cada pessoa que tinha feito Anne acreditar que aquilo poderia ser verdade. Ela respirou fundo, tomando uma decisão.
Para o diabo com os segredos, não ia deixar Anne sofrer de culpa por conta de conspirações de bruxos velhos e arrogantes que nem se davam ao trabalho de aparecer para ver o estrago que estava causando.
— Não matou, não. Potter está vivo.
Anne olhou para a irmã como se Bervely tivesse lhe dito que o céu era o mar, e o mar era feito de suco de abóbora.
— Como?
— Não sei, mas posso trazer ele aqui pra você — ela disse, feroz. — Se isso vai fazer você parar de achar que teve qualquer culpa no que aconteceu na droga daquele monte.
A expressão de Anne deixava claro que achava que Bervely tinha perdido qualquer resto de sanidade que lhe restava.
— Você não pode. Você não sabe onde ele está. Ninguém sabe.
Bervely se levantou, resoluta.
— Você devia ter um pouquinho mais de fé em mim, Johanne.
* * *
Anne ouviu quando Bervely saiu e também quando ela voltou, uns vinte minutos mais tarde, se dirigindo para alguém que a acompanhava. Nunca tinha ouvido a irmã falar naquele tom; sua voz era um rosnado baixo e perigoso, quase feral.
— Entre lá dentro e diga a ela. E ajoelhe, peça desculpas e nunca mais deixe a minha irmã achar que ela foi culpada de qualquer coisa que tenha a ver com a confusão e o caos que a porcaria da sua vida é, garoto.
Anne rolou na cama quando alguém entrou no quarto, tropeçando, empurrado para dentro por Bervely. Ele estava assustado demais para protestar, os olhos dor de caramelo meio arregalados.
Anne sentiu uma excitação que logo morreu, se tornando um peso em seu estomago já enrolado. Dino Thomas olhou de volta para ela, sem jeito.
— Oi.
Anne se sentou direito, afastando o cabelo do rosto. Sabia que o nariz estava vermelho e que os olhos estavam inchados. Ela enxugou as bochechas molhadas na tentativa de recuperar alguma dignidade.
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Sinto muito por isso. Bervely.
— Ela me assusta.
— Ela assusta todo mundo — Anne assentiu, desviando o rosto de Thomas e limpando o nariz discretamente na manga da blusa. — Não sei por que ela acha que você poderia ser...
— Tire a orbe, Anne — ele disse de repente. Anne achou que não tinha ouvido direito.
— O quê?
— Tire a orbe. Você está usando uma, não está? É por isso que não conseguiu me ver. Achei que você seria a primeira a descobrir, não Bervely.
Anne olhou confusa para ele, depois arrancou o colar do pescoço. Tinha usando-o a cada segundo desde que voltara de Avalon, como prometera a Sophia que faria. Aquela fora a condição da madrinha para deixá-la voltar à Hogwarts, a única medida de segurança que tranquilizara Sophia o bastante.
O choque de realidade sacudiu seus sentidos, deixando-a tonta. Ela apertou os olhos, tentando se adaptar à sobrecarga aos seus sentidos, e olhou para Dino Thomas de novo, atordoada.
Só que não era Dino Thomas. Não sentia como Dino Thomas. Ele lhe transmitia a sensação muito familiar de…
— Ha-Harry?
Ele assentiu, um tanto sem jeito, as mãos fundas nos bolsos.
— Acho que agora eu me ajoelho e me desculpo.
— Harry — Anne se levantou da cama e foi andando na direção dele, sem conseguir respirar. — Harry. Harry.
— Sim — ele sorriu, achando graça da incredulidade dela. — Sou eu. Juro que sou. Capa nova, mas conteúdo idêntico ao original…
— Você está vivo — Anne disse, num fio de voz.
— Por pouco.
— Eu matei você — ela ofegou.
— Não seja boba. Venha aqui — ele estendeu uma mão para ela. Mas ao invés de alcançá-lo, Anne recuou, desconfiada.
— Eu vi seu corpo.
— Não. Você viu o corpo do Reflexo. Não se lembra? Foi ele quem foi com você para Glastonbury, não eu. Sinto muito por isso. Nunca devia ter mandado você…
— Mas danos ao Reflexo causam danos ao originador! — Anne saltou para cima dele, agarrando pelas lapelas a camisa quadriculada que o garoto usava. — O punhal atravessou seu coração! Eu sei que atravessou.
— É, nem me diga. Nada agradável…
Ela não estava ouvindo. Abriu a camisa dele com os dedos trêmulos, sobressaltando Harry, e expôs o local onde se lembrava de ter enfiado a lâmina no peito dele sob o efeito do Imperius, bem ali entre a segunda e terceira costela. Mas, na pele escura de Dino não havia nada, nenhuma marca, nenhuma cicatriz.
— A polissuco esconde — ele disse com tranquilidade, ocultando o constrangimento por Anne estar tentando arrancar suas roupas. Ainda não estava acostumado com o corpo de Dino, embora o garoto fosse naturalmente mais em forma do que ele.
Anne, ainda atordoada, piscou como se tivesse acabado de lembrar que ele estava usando outro corpo, afinal de contas.
— Você está se fingindo de morto — entendeu, recuando um passo.
— Não de morto, só de desaparecido, por enquanto. Foi ideia de Dumbledore. Ele acredita que isso nos fará ganhar tempo para achar o esconderijo e quem sabe, baixar a guarda de Voldemort um pouco, fazê-lo cometer um erro.
— Esconderijo…?
— O da Canção. Você se lembra da Canção, certo? A que ouvimos em Godric’s Hollow. É uma canção profética ou algo assim, Dumbledore me explicou tudo antes de ir. Você estava certa, tinha a ver com Morgana, foi ela quem enviou o punhal. O punhal é um dos versos, é parte da canção…
Harry parou de falar, porque Anne tinha começado a chorar de novo. Não com soluços, mas um choro silencioso, assustador, de quebrar o coração. Ele tentou alcançá-la, mas Anne se afastou dele, agoniada.
— Volte ao normal. Volte a ser você. Eu preciso ver você. Eu quero ver você.
Ele negou, impotente.
— Preciso esperar o efeito da poção passar. Só faz uns vinte minutos que renovei a dose…
— Potter, aqui — chamou Bervely, da porta. Harry se virou, tendo se esquecido completamente que ela estava lá. Ficou um pouco ultrajado de que aquele tempo todo ela estivesse ali, mas depois percebeu que não, pois ela trazia uma xícara fumegante de algo que fedia a fígado cozido.
— Chá de bezoar. Vai ajudar a passar o efeito da Polissuco.
Harry recebeu a xícara e bebeu tudo de uma vez e com pressa, quase queimando a língua no processo. Tinha acabado de engolir a última gota quando sentiu o formigamento característico do fim do efeito da poção. Em pouco mais de três minutos ele já era ele mesmo de novo, as roupas largas de Dino folgadas em seu corpo, e a visão de novo embaçada pela miopia.
Anne se aproximou quase solene e puxou a camisa de Harry para o lado, a fim de achar o local onde ela tinha apunhalado o Reflexo, os dedos gelados dela lhe provocando um arrepio. Ela achou a pequena marca em forma de estrela bem abaixo de sua segunda costela e tocou com cuidado. Ainda estava rosada, e ainda sensível, embora não doesse mais.
— Eu sinto tanto por isso — murmurou ela, atormentada.
— Não foi culpa sua.
Ela pressionou os lábios bem apertados, sem responder. Harry deu uma olhada para trás; Bervely continuava parada sob o portal, os braços cruzados, a expressão impossível de se ler.
— Eu não acredito que me deixou pensar que estava morto esse tempo todo — Anne reclamou.
— Eu não podia dizer a ninguém, prometi a Dumbledore. Mas, estava esperando que percebesse sozinha, que me sentisse ou sei lá. Meio que perdi as esperanças quando você deixou a torre da Grifinória.
— Eu não poderia te sentir, essa Obre é mais forte, bloqueia toda a Visão a não ser que eu tente usá-la conscientemente, e eu não tentei. Prometi a Sophia que não iria.
Harry abaixou a voz para um sussurro, sem querer que Bervely o ouvisse.
— Eu estou aliviado de saber que está bem.
Mas eu não estou bem, Anne pensou. Não quis contrariá-lo, no entanto. Harry estava vivo, e isso era tudo que importava agora. Os vários pedaços nos quais ela fora quebrada desde que enterrara uma arma letal no peito do sósia dele era um problema seu, e seu apenas.
Ela enfim o abraçou, tão forte que achou que ia perder os braços. Harry ofegou com a súbita pressão em seus pulmões, mas abraçou de volta, enterrando o rosto no topo da cabeça da garota para aspirar o seu cheiro de lavanda e de Anne, do qual ele tinha sentido uma falta torturante. Nem se importou de que Bervely estivesse lá. Na verdade, era a primeira vez em duas semanas que ele não se importava com mais absolutamente nada, a não ser a garota em seus braços.
* * *
Demorou algum tempo para conseguir convencer Potter a retornar à torre da Grifinória, e Bervely insistiu que Jinx acompanhasse Johanne até o seu próprio dormitório na torre da Corvinal, para garantir que os dois pombinhos recém reunidos não iriam cair na tentação de passar a noite juntos.
Ela já tinha tido dezesseis anos. Sabia como aquelas coisas funcionavam.
— Obrigada, Bev — Anne a abraçou forte antes de sair. — Mas como soube que era ele?
— Potter é um péssimo ator — ela debochou, reprimindo um sorriso. — Nem em outro corpo ele consegue disfarçar a pottice dele, para um observador atento.
Aquela não era, obviamente, a resposta verdadeira. Bervely tinha descoberto juntando as peças – a ausência de um corpo, todo aquele polissuco que Snape estava fazendo e, por fim, o fato de que Potter resolvera voar na Firebolt aquela noite. Bervely não era nenhuma especialista em vassouras, mas até ela podia reconhecer a vassoura que ela tinha comprado em nome de Sirius, para que ele presenteasse o afilhado, há tantos anos atrás. Para confirmar, tinha-o visto beber da garrafinha prateada uma vez a cada hora, durante a aula de poções do sexto-ano.
Ela fez uma nota mental para salvar Potter de sua própria idiotice nas próximas semanas, se ele pretendia mesmo manter aquele disfarce até o diretor voltasse. Voltou para a cama após Anne ir embora. Sentia-se extremamente otimista, de um jeito que não tinha esperado que a notícia de Potter-vivo lhe deixaria. Racionalizou que provavelmente tinha a ver com a felicidade da irmã, que parecia estar atrelada a do garoto magrelo e irritante, quisesse Bervely ou não admitir.
Bem, escolhas românticas seriamente problemáticas eram problema de família…
Além do mais, agora poderia cumprir a promessa que fizera a Sirius, de manter os dois a salvo.
Ela se meteu em seus pijamas e se deitou em sua cama. Por hábito, checou o espelhinho redondo que agora deixava em sua cabeceira, mas não viu nada a não ser o seu próprio reflexo cansado, e soltou um bufo contrariado.
— Maldita Darkmoon, eu vou trucidar você quando tiver a chance.
Tinha acabado de pousá-lo de novo na mesa de cabeceira quando a voz masculina veio do espelho, chamando o seu nome.
— Bervely? É você quem está aí?
Todos os pelos do seu corpo se arrepiaram sem aviso. Ela pegou o espelho de novo, quase derrubando-o na pressa de recuperá-lo.
Na moldura redonda, o rosto de Regulus Black olhou de volta pra ela.
Mad world
Mad world
Enlarge your world
Mad world¹
(Continua…)
Fale com o autor