A Canção de Morgana
12 A Verdade Sobre a Rosa
Notas iniciais
“There is no such thing as a true tale. Truth has many faces and
the truth is like to the old road to Avalon; it depends on your own
will, and your own thoughts, whither the road will take you.”
(Não existe tal coisa como um conto verdadeiro. A verdade tem muitos rostos e
a verdade é como a velha estrada para Avalon; Depende de sua própria vontade
e de seus próprios pensamentos para onde a estrada o levará.)
Marion Zimmer Bradley,
The Mists of Avalon
— Reforço em Blackburn Hall, suspeita sob custódia — Theodor pediu pelo objeto que parecia um relógio de bolso, mas Bervely sabia ser um Acionador, instrumento que os aurores usavam para chamar outros aurores — Alguém na escuta? Preciso de reforço em Lancaster, suspeita da tentativa de sequestro de Harry Potter sob custódia.
— Alguém vai te responder? — debochou Bervely, alimentada pelo ultraje que feria seu orgulho naquele momento — Quer dizer, não é como se você ainda fosse um auror de verdade.
Theodor se voltou para ela com as narinas infladas.
— Você tem o direito de ficar calada, Bervely. Eu no seu lugar abusaria do privilégio.
— Você não pode estar falando sério! — ela protestou, apesar dela julgar pelo aperto das cordas enfeitiçadas em torno dos seus braços, ele estava.
— Você não devia ter vindo aqui sozinha — Theo lhe disse, taciturno. A implicação tácita no tom dele a fez jogar a cabeça para trás e soprar um bufo de exasperação.
— Você não pode acreditar em uma palavra que essa cobra abortada falou sobre mim, isso está abaixo de você, Theodor, honestamente.
Chamada de cobra abortada, Charlotte não se pronunciou. Ela estava amarrada a outra cadeira, seus braços finos torcidos para trás e bem presos pelos pulsos com o feitiço de contenção de Theodor. Se ela pretendia se desesperar essa era a hora, Bervely pensou, mas nada estava acontecendo naquele rosto de boneca. Ela acompanhava Theodor andar de um lado a outro do solário na tentativa de obter uma resposta, mas só receber chiado.
— Não vai funcionar aqui em cima, o solário é recoberto de feitiços de imperturbabilidade — Charlotte o informou. Isso fez Theo parar e se virar, o rosto franzido como se encara-la lhe desse constipação.
— Você também tem o direito de ficar calada, Srta. Summers. Tudo que disser pode e será usado contra você no seu julgamento.
— Eu não tenho nada a esconder, Sr. Shadowtamer — disse ela com placidez, ainda naquela obnóxia postura de bibelô que mantivera desde que Bervely chegara. — Mas eu gostaria de saber qual a acusação contra mim, se não for pedir muito.
Theo se deteve, considerando se valia a pena dar continuidade aquela interação com a moça. Por fim se decidiu e conjurou uma cadeira. Bervely o assistiu sentar perto de Charlotte, a postura tensa, varinha baixa, porém em punho, na direção geral do estômago dela. A linha de seu maxilar estava travada, como se a ação o repugnasse.
— Muito bem — ele aspirou, virado para ela — Por que você tentou sequestrar Harry Potter no mês passado, Srta. Summers?
— Eu não tentei — ela disse, impassível e ligeiramente desagradada pela ideia — Eu sequer conheço o garoto!
— E porque Bervely acha que você sequestrou?
Charlotte deu uma breve olhada para Bervely por cima da mesa antes de suspirar no que, para a Black, teve um efeito teatral.
— Bervely tem o hábito de me culpar pelos erros que ela não quer assumir. Essa não seria a primeira vez.
Bervely sentiu o fundo da garganta queimar com a injustiça da afirmação.
— E que motivo Bervely teria para querer Harry Potter, Srta. Summers?
— Eu não sei. Ela me parece bem informada dos detalhes da coisa toda para não estar envolvida. Ela mesma disse que a mãe dela estava lá... talvez estivessem agindo juntas? Eu acho que descobrir os detalhes é papel das autoridades, não é?
Bervely forçou o feitiço de amarração, mesmo sabendo que era inútil. Ela estava tão irritada com a sonsidade de Charlotte que não conseguia ficar parada.
— Ela está mentindo, Theodor! Você quer fazer o favor de me desamarrar? Isso está ficando ridículo!
— Não posso — ele disse com calma, mas inflexível e sem sequer olhar para ela — Você foi pega em flagrante confraternizando com uma suspeita e você deliberadamente me manipulou para conseguir chegar até ela.
— Eu não estava confraternizando! — ultrajou-se, mas Theo apontou para as xícaras num argumento óbvio — Eu não bebi um gole disso!
— Se você bebeu ou não o chá, não é relevante. A coisa toda me parece muito suspeita, você tem que concordar comigo.
Bervely pegou um vislumbre de humor nos olhos de Charlotte, que passou tão rápido como o bater das asas de uma fada.
— Ela PLANEJOU isso, Theo! Ela sabia que você estava vindo e só falou o que queria que você ouvisse!
— Já chega com a gritaria — suspirou ele, batendo as pálpebras como se estivessem pesadas — Ela sabia que eu estava aqui porque foi avisada pelo elfo, mas ele só meu viu quando eu já tinha escutado boa parte da conversa de vocês.
— Você está sendo um grande idiota — Bervely avisou, mas ele não lhe deu ouvidos. Sua atenção estava em Charlotte novamente.
— Você nega participação na tentativa de sequestro de Harry Potter. E quanto a sua contribuição na fuga de Sirius Black?
Bervely sentiu o seu estômago dar duas voltas inteiras. Theodor chegara exatamente no ponto que ela pretendera evitar ao decidir ir ali sozinha. Uma vez que ele descobrisse que a verdadeira Charlotte jamais tivera qualquer participação na fuga de Sirius...
— Não. Eu não posso negar isso. Você estava lá, Sr. Shadowtamer, você me viu. Como eu poderia? — Charlotte pontuou a confissão com um sorriso triste.
Bervely sentiu o queixo cair. Theodor parecia estar prendendo a respiração sem perceber; por quase dez segundos ninguém disse nada.
— Eu sinto muito por tudo aquilo — foi Charlotte quem quebrou o silêncio, inclinando a cabeça como se sua vergonha fosse genuína. — Não foi a minha intenção, eu apenas... eu tinha que fazer o que fiz. Nunca foi sobre você, entende?
Bervely conseguia dizer, mesmo naquele ângulo, que Theodor estava ligeiramente pálido. Ele logo retomou sua postura de interrogatório, aprumando as costas:
— Então você confessa que foi cúmplice na fuga de Sirius Black? Confessa que se infiltrou em Azkaban fingindo que era uma medibruxa e armou para que um prisioneiro de segurança máxima acusado por uma chacina escapasse da prisão e colocasse a vida de milhares de bruxos em perigo?
— Eu sinto tanto por isso — a voz dela tremeu. Havia uma umidade real brotando de seus olhos azuis, e enquanto ela olhava intensamente para Theo, seus lábios tremiam. — Ele me obrigou. Ele teria feito coisas horríveis comigo se eu não seguisse suas instruções.
— Black? — Theodor perguntou com descrença, mas Charlotte negou.
— Thor. Aquele homem horrível... as coisas que ele me obrigou a fazer! — ela escolheu esse momento para olhar na direção de Bervely e suspirar aliviada — Eu sei que não temos nos dado bem há algum tempo, Bervely, mas eu sou tão grata por você ter colocado aquele monstro atrás das grades!
Bervely ainda não tinha recuperado a fala, então quando Theodor virou o pescoço para lhe olhar encontrou uma expressão plana estampada em seu rosto.
— Thor Carmichael lhe obrigou a libertar Black? Por quê?
— Como eu saberia? Eles deviam ter um acordo... ele nunca me contava os motivos, eu apenas obedecia. Era mais fácil quando eu não o contrariava — Os lábios dela tremeram de novo, seus olhos se fechando como se horrores que ela vislumbrava do seu passado com Thor Carmichael fossem dolorosos demais para vislumbrar.
— Você está disposta a testemunhar contra ele diante do Wizengamot, Srta. Summers? — Theodor perguntou. Charlotte assentiu corajosamente.
— Sim, eu estou. Se ele não puder me alcançar, quero dizer — completou, olhando temerosa para o auror. — Ele se vingaria de formas terríveis se soubesse que eu falei contra ele.
— Ele não vai tocar em você — Theodor lhe garantiu. Bervely sentiu com horror que o tom dele se tornara mais complacente, ele não estava mais em modo interrogatório. Era impressão sua ou ele estava com pena dela? — Ainda preciso levar você para Azkaban comigo, prisão preventiva, entende. Você é a minha principal suspeita, mas tudo será esclarecido e se ficar provado que você foi coagida pelo Sr. Carmichael, a sua pena será muito mais leve.
— Obrigada, Sr. Shadowtamer — ela arriscou um sorriso fugidio — Eu entendo.
Bervely ainda estava sacudindo num limbo de confusão e surpresa. Não conseguia entender por qual razão no universo Charlotte assumiria aquele crime em especial, se ela sabia muito bem que Bervely era a responsável. Seria aquele algum plano deturpado e obscuro de vingança cuja lógica ela não estava acompanhando?
— Theo — Bervely tentou, sua garganta tão seca que se arrependeu de não ter bebido um gole do chá quando teve a chance — Será que podemos discutir por um momento...
— Preciso conseguir contato com a base. Vocês esperam aqui. Não tornem a coisa mais complicada para vocês, não tentem nada estúpido.
— Theodor! — ela chamou, sem acreditar que ele realmente estava lhe levando em custódia, mas não obteve resposta. O auror se levantou e deixou a solário, não sem antes intensificar o feitiço que as segurava na cadeira. Levou a varinha de Bervely com ele e sumiu de vista pela porta de treliças em direção ao andar de baixo.
Bervely esperou até parar de ouvir passos para então desviar seus olhos até Charlotte:
— O que você está armando, Summers?
— Quem foi que disse que eu estou? — adejou ela, arregalando os olhos, a pura imagem da inocência injustiçada.
— Você planejou cada momento disso, não foi? — Bervely sibilou, sem acreditar que caíra numa armadilha tão rudimentar — Cada palavra do que disse para mim foi na intenção de que ele ouvisse e tirasse as conclusões erradas! Theodor não vai cair na sua armação, Charlotte, ele me conhece, ele sabe que eu não tenho porque sequestrar Potter. Se essa é a sua ideia de vingança, você está perdendo seu tempo!
— Engraçado, você fala e fala, mas continua amarrada na cadeira, desarmada, à caminho de Azkaban.
— Eu não vou para Azkaban! — rosnou Bervely — Eu não cometi nenhum crime! E eu não sei o que você pretende com esse teatro, mas eu sei que está tramando contra mim.
— Teatro? Eu não diria isso alto se fosse você — ela sussurrou em tom de conselho — Você não quer que o auror pense que alguma coisa que eu disse é mentira, quer?
— Tudo que você disse é mentira!
— Tentar e falhar em sequestrar um garoto são um par de anos em Azkaban, Bervely, mas libertar Sirius Black? Essa é uma sentença de uma década na melhor das hipóteses.
— Você não quer que eu acredite que você está fazendo isso para livrar a minha cara, quer? Porque se tem alguém no mundo que não ia querer assumir uma condenação no meu lugar, esse alguém é você!
Charlotte lhe deu um olhar enigmático e não lhe dignou resposta. Decidindo que descobriria mais tarde o que a bastarda Lestrange estava tramando, Bervely começou a tentar se livrar das amarras que Theodor pusera em seus braços e pernas. Quanto mais ela se movia, no entanto, mais apertadas elas se tornavam, a ponto de seus dedos começaram a formigar pela falta de circulação. Charlotte não parecia nem um pouco nervosa com a sua situação cativa, mas então ela nunca estivera em Azkaban, nunca precisara respirar o bafo putrefato dos dementadores e sentir que toda a esperança e alegria eram sugados para fora de seu corpo.
— Você não está nem um pouco curiosa? — Charlotte voltou a falar. Bervely parou de recitar a série de feitiços não verbais de libertação que ela sabia existir e olhou para a moça, sua expressão aborrecida.
— Sobre o porquê de você está agindo como se tivesse um pote de Felix Felicis enfiado na bunda?
— Sobre porque Você-Sabe-quem ainda não recrutou você.
Bervely parou de lutar, um gelo desagradável se espalhando pelo seu sangue com a menção do bruxo das trevas.
— Como você sabe que ele não... que espécie de pergunta é essa?
— Só estou especulando. Suponho que ele não tenha recrutado, porque se ele tivesse, você não estaria aqui agora. Afinal você pertence a ele, não é? Desde garotinha. Bellatrix vendeu você pra ele em troca de aulas de magia negra.
Bervely cerrou seus punhos que já se encontravam insensíveis. Ela sabia que Charlotte estava tentando lhe tirar do sério, mas não pôde evitar responder.
— Thor Carmichael roubou o contrato entre a minha mãe e o Lorde, ele queimou junto com a casa.
— Mas aquele era um pedaço de papel, querida — ela lhe lembrou, uma nota de pesar na voz. — Você sabe bem que um contrato assinado com sangue mágico vai muito além do que o pergaminho que o contém.
Bervely olhou impaciente para onde Theodor tinha sumido. Estava começando a preferir ser levada aos dementadores do que continuar aquela conversa com Sei-Tudo-Sobre-Contratos-Mágicos Summers.
— Qual é o seu ponto, Charlotte?
— Eu só andei pensando... no seu lugar eu estaria fora de mim de medo. Se a minha mãe tivesse me prometido para um bruxo das trevas e esse bruxo das trevas estivesse de volta a ativa... bem, acho que eu estaria fugindo, fugindo para bem longe antes que ele se lembrasse que eu existo.
— O que faz de você uma covarde, mas isso nunca esteve em questão, não é? — Bervely zombou, mesmo que um arrepio estivesse passando pela sua espinha com a ideia de Voldemort vir atrás dela cobrar a promessa de Bellatrix, depois de todos aqueles anos.
— ... e ela matou seu pai — Charlotte completou pensativa, quase como se estivesse falando consigo mesma. — Prometeu você às trevas e assassinou o seu pai a sangue frio. Você não tem raiva, Bervely? Não tem vontade de se vingar dela por isso? Eu sei que eu teria, se eu fosse uma pessoa vingativa.
Bervely teve que rir, a despeito do gosto agridoce em sua língua.
— Essa é você tentando me jogar contra Bellatrix? O que você ganha com isso? Como a minha sede de vingança salva seu rabo dos dementadores nesse momento?
— Não seja rude — ela meneou a cabeça, desapontada com os modos da outra. — Acho que você vai concordar comigo, nem eu nem você está em posição privilegiada no momento.
— Esse é um jeito de descrever as coisas — debochou Bervely, que agora estava perdendo a sensação dos pés amarrados aos pés de ferro da cadeira.
— Eu tenho uma proposta.
Bervely estreitou seus olhos. A Charlotte pronta-para-o-chá tinha dado lugar àquela que ela conhecia melhor, a rainha das mil tramas que sempre tinha uma saída para um problema. O que fora uma coisa boa quando Bervely tinha cinco anos e precisava explicar porque a coruja da família estava depenada e girando sem parar, mas não ajudava tanto agora que Summers e ela estavam em lados opostos da cooperação saudável.
— Eu estou ouvindo, Summers — disse muito à contragosto. Se fosse algo que lhe livrasse de ir para Azkaban, porque ela desconfiava que Theodor não estava brincando sobre levá-las ambas, ela sempre podia caçar Charlotte de novo quando estivesse livre.
— Como você se sentiria — Charlotte sussurrou, tão inexpressiva que poderia estar pedindo para que ela lhe passasse o açucareiro — Se eu dissesse que sei uma maneira de você chegar até Bellatrix Lestrange sem que ela perceba, pegá-la com a guarda baixa?
Bervely lutou para permanecer inexpressiva diante da proposta. Era verdade que ela tinha sua animosidade com Charlotte, muito rancor e uma certa inclinação geral em fazê-la pagar pela sua participação no destino de Hector, mas quando comparava isso aos sentimentos que vinha alimentando a respeito de Bellatrix desde que a comensal jogará Sirius no véu da morte...
Bem, não havia comparação possível no mundo.
— Sua condição? — Bervely perguntou, seca.
É claro que antes mesmo de perguntar ela já imaginava.
— BD —
Quando Harry atravessou o buraco do retrato após o seu encontro com o diretor – e com a Senhora do Lago de Avalon –, ele se sentiu estranhamente deslocado perante o cenário corriqueiro protagonizado pelos seus colegas de casa.
Num canto perto da lareira, Simas, Neville e Parvati jogavam uma partida de Snape Explosivo com grande dose de concentração e pouca conversa. Um bando de primeiranistas que Harry ainda não conseguia identificar individualmente estava folheando uma coleção de revistas de quadribol, espalhados pelo tapete em frente ao sofá de quatro lugares. Na mesa comprida que ficava do outro lado do salão, ele identificou a cabeça ruiva de Rony e a lanzuda de Hermione. Enquanto ela fazia notas a partir de um livro da largura de um tijolo, Rony estava mastigando a ponta da pena, distraído com uma partida de xadrez que ocorria a alguns metros dele, na outra ponta da mesa.
— Eu não acredito que você consegue fazer isso! Qual é, me diz, qual o truque? — disse o primeiro jogador de xadrez, que era Colin Creevey.
— Não tem truque! — sua parceira de jogo jurou. Era Johanne, um sorriso estampando seu rosto diante da descrença de Colin — Eu consigo imaginar o jogo na minha cabeça, já te disse!
— Você me assusta... — disse o garoto loiro com assombro. Ela riu, mas no momento que Harry se aproximou da mesa, assistiu pelo canto de olho o sorriso dela sumir ao mesmo tempo em que se aprumava. Harry imaginou que acabara de lhe "devolver" a visão, tendo se aproximado o bastante.
— Harry! — Hermione o notou, largando o livro. — Finalmente! Já estava começando a me cansar de ler sobre os princípios da rematerialização.
— Você consegue se cansar? — Rony provocou, o que a fez girar os olhos, mas ele logo se virou para Harry, curioso também — E aí, o que Dumbledore queria?
— Aqui não — Harry disse baixo. — Tenho muita coisa para contar.
— Vamos para o dormitório — Rony sugeriu, dando uma olhada na direção de Neville e Simas do outro lado do salão, travando sua batalha de Snape Explosivo como se tivessem apostado suas fortunas naquilo — Não acho que eles vão subir agora.
Harry esteve perto de perguntar “e Dino?", mas se segurou no último instante. O colega continuava desaparecido, mas eles não se atreviam a postular o pior ainda.
— Tudo bem — Hermione suspirou, juntando seus livros numa pilha — Eu já comecei a minha manifestação de rebeldia fugindo de casa, porque não frequentar o quarto de garotos, não é mesmo?
— Não seja absurda — Rony riu-se, pegando a própria mochila no encosto da cadeira e jogando de qualquer jeito num ombro — Nem se você quisesse ia conseguir ser esse tipo de garota, Mione.
— Que tipo de garota, Ronald? — ela perguntou com acidez. Os olhos de Rony se arregalaram; era claro que ele não tinha pista do que tinha falado de errado.
— Hum... rebelde? — sugeriu o ruivo, incerto de suas chances de sobrevivência.
— Pois fique sabendo que eu posso ser o tipo de garota que eu quiser!
— Eu estava tentando fazer um elogio — ele murmurou baixinho, mas ela já estava andando em direção ao dormitório masculino. Harry fez um sinal para Rony andar, tenso demais para achar graça. Sentiu mais do que viu Johanne abaixar a cabeça quando ele passava por ela; estar tão consciente das reações dela o irritava, mas o que ele podia fazer? A consciencia de que era a sua presença que a permitia enxergar era uma perturbação recorrente no fundo da sua consciência, mesmo (e talvez principalmente) quando ela não estava por perto.
Enquanto ele subia as escadas para o dormitório, não conseguiu deixar de pensar se a medida que se distanciava ela encontrava o escuro novamente. Será que era gradual, ou de uma vez só, quando ele saía do "raio de alcance"? Será que ela se sentia mal quando ele ficava longe, ou aliviada? Provavelmente a segunda opção, pela forma como ela parecera decidida a ficar longe dele na outra noite...
— Harry? — Hermione chamou ansiosa — Somos todo ouvidos.
Ela tinha se acomodado em cima da cama revirada de Harry, que era mais perto da janela. Rony lançou um olhar comprido para essa escolha de acomodação antes de se sentar em sua própria cama e puxar um saco de feijõezinhos.
— Dumbledore quer me dar aulas — Harry decidiu começar pela parte mais fácil. Os olhos de Hermione se acenderam de excitação.
— Aulas de Defesa? Ah, isso seria ótimo! Ainda mais agora que o seu rendimento vai ser atrapalhado por Snape...
— Não, não aulas de defesa. Aulas de Voldemort.
Rony engasgou com um feijãozinho sabor pimenta-do-reino e precisou ser desentalado. Enquanto ele tentava regredir de um vermelho intenso para um tom normal, Hermione ainda estava um pouco pálida.
— Aulas sobre o passado de Voldemort, sabe — Harry explicou, como se aquilo não fosse nada demais. — Para eu saber... com o que estou lidando, acho. Quando a hora chegar.
— Quando a hora chegar — Hermione repetiu, seu cérebro genial juntando as peças com rapidez, como Harry bem sabia — Isso quer dizer que a profecia...
— É. Eu ouvi a profecia no final do ano passado, Dumbledore me mostrou o que ela dizia. Acontece que foi a Professora Trelawney que contou sobre a profecia para Dumbledore...
— E você achando que ela era uma charlatã, Mione — Rony recuperou a voz para não perder a chance de cutucar a amiga. Ela não estava prestando atenção no entanto, seu olhar preocupado preso em Harry.
— O que a profecia dizia?
O garoto deu um suspiro profundo antes de recitar a profecia para os amigos. Tinha imaginado a reação deles durante todo o verão e chegara bem próximo da verdade. Rony ficou pálido contra suas sardas, Hermione se dividiu entre pena e horror, embora tentasse mascarar ambos para não chatear Harry.
— Nem toda profecia se realiza, sabe — Rony disse rápido, com uma nota inegável de esperança na afirmação. Como o amigo sabia desse detalhe estava além da compreensão de Harry.
— Sirius disse algo parecido. Mas quais as chances dessa não se realizar? — o garoto disse amargo. Se sentia mais leve por ter revelado aos amigos a profecia, mas gostaria de poder fugir daquele momento de reações e do processo de negação pelo qual ele já enfrentara, sozinho em seu quarto noites a fio através do verão. — Já está se realizando, não é? Ele já me marcou como um igual. E Dumbledore está convencido de que eu tenho um poder que Voldemort desconhece...
— Ah, Harry! — Hermione estava com os olhos aguados. Por um momento Harry achou que ela se levantaria e o abraçaria, mas ao invés disso, ela abraçou a si mesma, ao mesmo tempo que repassava a profecia à procura da brecha no texto.
— Se um não pode viver enquanto o outro sobreviver...
— Significa que um tem que matar o outro — ele facilitou para ela, secamente. — Vou ter que virar um assassino no final, ou morrer tentando.
— É claro que não! — ela exclamou — Nós vamos encontrar um jeito, Harry. Nós sempre encontramos um jeito.
Harry olhou grato para Hermione, agradecido por ter amigos tão maravilhosos que ele nem achava que merecia. Rony se manifestou, ainda com as sardas muito mais destacadas do que o normal.
— E quem é que Dumbledore queria apresentar a você?
— Ah, bem. É aí que a coisa fica estranha — ele deu uma risadinha sem humor, porque a coisa já estava estranha fazia tempos — Era aquela mulher que estava no jantar de seleção ontem a noite, ela queria me conhecer.
— Ela veio a Hogwarts só pra isso? — Rony quis saber, impressionado. Harry deu de ombros; não tinha pensado nessa possibilidade e não fazia a menor ideia se era o caso.
— Ela disse que é Senhora do Lago... de Avalon? Acho que é isso — ele olhou para Hermione pedindo ajuda — Ela disse que eu a teria visto no meu livro de história, mas eu realmente não me lembro.
Hermione arfou, seu olhos se arregalando.
— Ela é a Senhora do Lago? A atual Senhora do Lago de Avalon?
— Eu sabia que você saberia — Harry apreciou, aliviado de que não ia ter que fazer pesquisa extra. Ele não esperava que Rony parecesse impressionado também.
— Mas todo mundo sabe que Avalon não existisse mais! — o ruivo argumentou, olhando perdido para Hermione — Não foi destruída na idade média?
— Perdida nas brumas, não destruída. Não é a mesma coisa — ela corrigiu Rony, antes de se voltar para Harry — Isso é grande, Harry, se ela deixou a ilha para ver você! Segundo os registros, há mais de cem anos anos uma grã-sacerdotisa não é vista em público! Será que foi por causa da profecia?
— Eu ficaria feliz se você pudesse me explicar o que é essa ilha, Mione — Harry a interrompeu — Realmente não me lembro desse capítulo da aula de Binns — "ou que qualquer outro", completou mentalmente.
Hermione franziu seus lábios, segurando uma bronca por sua falta de atenção crônica para história da magia, logo se pondo em modo de livro-texto.
— A lenda diz que Avalon foi onde a magia nasceu há milhares de anos, antes da civilização se formar como a conhecemos. Ela virou um lugar sagrado para os primeiros humanos mágicose naturalmente precisava ser protegido dos não-mágicos, que estavam em muito maior quantidade e não gostavam de saber que havia uma parcela de humanos com poderes que eles não compreendiam. Os primeiros bruxos protegeram a ilha como puderam, ao mesmo tempo em que a veneravam como um lugar sagrado. Ao longo do tempo ela desempenhou vários papéis para os bruxos... lugar de veneração, de cura, um refúgio, uma escola onde os segredos da magia eram passados adiante. E quanto mais os bruxos se isolavam em relação aos não-bruxos, mas a ilha precisava ser resguardada. Acreditava-se que a sua destruição significaria o fim da magia. Avalon se tornou uma lenda, ou talvez sempre tenha sido. A maioria dos bruxos tem uma ideia vaga de sua existência, as opiniões se dividem... mas para aqueles que acreditam, a Senhora do Lago é a figura hierárquica mais alta de Avalon. Normalmente é uma bruxa muito poderosa que abdicou de sua existência aqui no mundo real para se dedicar aos conhecimentos mais profundos e obscuros da Magia. Dizem que Morgana Le Fay foi Senhora do Lago no fim de sua vida, uma das mais poderosas. Você devia saber disso, Harry, fizemos uma prova inteira sobre Morgana no segundo ano!
— O segundo ano foi há milênios, Mione — ele suspirou, ao mesmo tempo em que tentava assimilar aquele monte de informação que a amiga acabara de lhe dar — Como assim ela teria abdicado da vida no mundo real? Avalon não fica no mundo real?
— Ninguém sabe onde Avalon ficaria, esse é um dos Mistérios.
— É claro que existe e fica em algum lugar, se a Senhora do Lago vem de lá, tem que existir, não é? — Rony disse. Hermione o olhou com as sobrancelhas franzidas, quase com dó.
— Não necessariamente.
— Bem, Avalon existindo ou não, a, como você disse? Sacerdotisa estava aqui para me ver. E para me pedir desculpas — ele acrescentou, se aproximando da pior parte daquela conversa. Com aquela afirmação, ele teve a atenção dos amigos novamente. — Ela disse que foi por culpa dela que Voldemort desistiu de me sequestrar no verão.
— Voldemort tentou te sequestrar no verão? — Hermione quase saltou da cama. Harry se deu conta de que não tinha contado aquela parte do seu verão para a amiga, então ele teve que fazer uma pausa para resumir a história do seu aniversário para ela. Rony lhe ajudou com os detalhes que ele sabia. Quando Harry terminou de contar, Hermione estava mais branca que a fronha do seu travesseiro.
— Bellatrix na Rua dos Alfeneiros!
— Sim, mas não se prenda a esse detalhe. Acontece que, naquela mesma noite, Hildegard estava a caminho de Hogwarts e foi surpreendia por Voldemort, segundo ela contou. Ele a atacou, vasculhou a mente dela e viu algo sobre mim que o deixou assustado.
Essa tinha sido a palavra que Hildegard usara no escritório de Dumbledore.
"O que Tom viu em minhas memórias o deixou assustado."
Harry sentiu o quase irresistível impulso de perguntar porque ela chamava Voldemort pelo seu primeiro nome, mas não parecia o momento apropriado.
— Há pouco tempo eu tive uma visão ao seu respeito, Harry Potter — a bruxa prosseguiu com a sua explicação, diante de um Harry cada vez mais perplexo — Confesso que eu a provoquei, estava curiosa ao seu respeito após o que aconteceu no Ministério da magia em julho. Eu pude ver que você estava prestes a receber um presente, um objeto amarrado ao seu destino através do tempo, vindo de longe. Não só ao seu, bem como ao de Tom. Somar esse fato ao meu conhecimento da profecia que vocês compartilham me alarmou. Eu achei que devia advertir Alvo a respeito, já que ele assumiu o papel de seu protetor.
Harry olhou rápido para o professor Dumbledore; a expressão dele não estava mais plácida, havia uma sutil inflexão em torno de seus lábios que prenunciava desconforto. O próprio Harry sentiu uma inquietação no peito; conversas sobre profecias e destino envolvendo seu nome e o de Voldemort não o deixavam nem um pouco feliz.
— Então... Voldemort viu na sua cabeça que eu ia receber uma coisa e isso o deixou com medo?
— Ele imediatamente assumiu que era algo que ameaçaria a sua integridade. Como havia a chance de você já ter o objeto em mãos, ele não quis arriscar estar em sua presença sem antes saber do que se tratava.
— Eu não entendo... — o coração de Harry estava disparado por alguma razão — Então, porque é que a senhora está me pedindo desculpas? Se ele não tivesse visto isso em sua cabeça eu estaria morto agora, porque eu não tinha nenhuma arma comigo no dia do meu aniversário!
— Talvez você estivesse morto, mas isso é pouco provável. Se eu não tivesse me posto vulnerável neste dia, Alvo estaria livre para ir ao seu socorro tão logo recebesse seu recado — ela disse num tom de desculpas. Harry se lembrou de algo que ouvira nas férias, sobre Dumbledore estar ocupado socorrendo alguém naquele mesmo dia — Além do mais, você entende Harry, o fato de Tom saber que o objeto existe é uma grande desvantagem. Ele vai tentar tirá-lo de você.
— Mas ninguém pode tocar nele sem se queimar — Harry explicou, dando outra olhada para Dumbledore. Agora os lábios dele estavam pressionados e suas sobrancelhas ligeiramente franzidas.
— Eu não penso que isso não o impedirá. Bem, eu já fiz a minha confissão e peço perdão por ter deixado a minha mente vulnerável a ele, revelando segredos que não me pertenciam, Harry, espero que um dia possa me perdoar.
— Não foi culpa da senhora — Harry disse, sabendo muito bem como ninguém podia resistir a Voldemort quando ele usava a sua Legilimência — Não tem problema, de verdade. Eu nem acho que essa coisa que eu recebi vai me ajudar, de qualquer modo. Não é como se eu pudesse, huh, apunhalá-lo — experimentou, sentindo que a afirmação soava ridícula em voz alta.
— Isso nos leva ao meu pedido — disse ela, seus olhos castanho-amarelados de coruja brilhando para Harry — Para o qual eu aceitarei a sua negativa sem questionar, se assim decidir. Eu gostaria de ver o que o seu padrinho trouxe para você do outro lado do véu.
Harry não estava certo se ela sabia tanto sobre o punhal porque ela o "vira" isso em suas visões ou se o diretor tinha lhe contado; pela expressão de Dumbledore, ele achava que era a primeira opção. Mesmo assim, o diretor permitira aquele encontro, e se Dumbledore confiava naquela mulher o bastante para permiti-la fazer esse pedido a Harry, ele decidiu que também confiava.
— Eu posso ir buscar, está no dormitório.
— Não há necessidade alguma de pegar o objeto em si — ela disse rápido, prevendo que ele se levantaria e fazendo um movimento com sua mão — Na verdade eu prefiro muito mais vê-lo através dos seus olho que dos meus.
Ela deixou o pedido decantar, dando a Harry o tempo para perceber o que implicava. Assim que ele interpretou o que ela queria, se achou desconfortável.
— A senhora quer dizer... olhar dentro da minha cabeça?
— Se não for pedir muito — ela repetiu em seu tom musical tranquilo — Eu lhe garanto que não irei nada além do que você me permitir, e você terá o controle durante todo tempo. Há um tipo nocivo de legilimência, que eu estou certa de que você conheceu em experiências passadas, e há aquele que é praticado por bruxos de boa fé, que respeitam limites.
Harry procurou o olhar do diretor mais uma vez, incerto. Da última vez que alguém entrara na sua cabeça esse alguém fora Voldemort, em pleno átrio do Ministério, e a experiência como um todo beirara o insuportável. Dumbledore parecia saber exatamente o que estava passando pela sua cabeça naquele momento.
— Não precisa fazer nada que lhe desconforte, Harry — ele lhe garantiu, sorrindo de forma a lhe assegurar.
Harry voltou para a bruxa a sua frente. Ele literalmente sentia o coração bater na garganta; Hildegarde era o tipo de pessoa para quem simplesmente não se negava coisas; no fundo das suas entranhas, ele sabia que podia confiar nela. Ainda assim...
— Desculpe ter que perguntar isso, mas como eu vou ter certeza que Voldemort não vai atrás de você de novo para tirar mais informações?
— Uma pergunta muito justa. Não há como ter certeza, da mesma forma que não se pode saber que ele não tentará conseguir esses segredos através da ligação que compartilham — Ela foi direta, claramente ciente de que já acontecera no passado. — Mas eu garanto que pretendo ficar longe do caminho de Tom tanto quanto imagino que você pretende daqui em diante.
Harry engoliu em seco e acabou assentindo.
— Pode... pode olhar então.
— Só o que quiser que eu veja — ela garantiu, sorrindo e estendendo as palmas abertas para ele. — Me dê as suas mãos. Olhe nos fundo dos meus olhos.
Um segundo. Foi o tempo que levou para ele sentir que não estava mais sozinho em sua própria cabeça. A experiência era um tanto diferente de quando tivera a mente lida por Voldemort ou por Snape, já que a presença da mulher não era sorrateira. Era mais como se ela estivesse deixando evidente que estava lá dentro; como Harry sabia disso, não fazia a menor ideia.
"Você pode me mostrar o dia em que recebeu o punhal. Só precisa pensar nisso e eu verei também."
A voz dela soava como um pensamento que apesar de estar ali, não o pertencia. Havia um formigamento ligeiramente desconfortável atrás dos seus olhos que Harry tentou ignorar enquanto buscava pensar no dia em que resgatara Sirius do véu, junto com Anne. Ele soube que estava lá e Hildegard também; à medida que repassava suas lembranças, tinha a impressão de que elas vazavam na direção da mente da bruxa.
Anne pedindo ajuda para puxar Sirius... Sirius saindo lá de dentro como se fosse lançado, batendo a cabeça no batente de pedra, a poça de sangue brotando na superfície cinza. Seu joelho machucado, os olhos assustados, prateados brilhantes de Anne, a voz rouca de Sirius pedindo para que pegasse o punhal de sua mão... a frieza do metal, a queimadura em Sirius...
"Ele está morrendo!", Anne gritava. O horror dela lhe contagiava, a verdade da frase espremendo seu coração, ia perder Sirius de novo, ele ia morrer bem em seus braços...
— Muito bem, é o suficiente — Hildegard murmurou, dessa vez fora de sua cabeça. Ela deslizou para fora tão suavemente quanto entrara, mas Harry sentiu um enorme alívio. A formigação atrás dos olhos, que estivera prestes a se tornar uma dor pinicante, foi embora como se nunca tivesse existido.
A bruxa soltou suas mãos. Harry percebeu que a sensação de segurá-las estivera presente o tempo inteiro.
— Obrigada por isso, Harry Potter. Como eu imaginava, esse objeto estava destinado a você. Acabamos de vê-lo desafiar a lei natural da morte para encontrá-lo. Não me espanta que Tom esteja assustado.
— Eu não entendo — Harry murmurou, ainda um pouco aturdido com a experiência, embora essa tivesse sido de longe a menos dolorida das vezes — Isso é mesmo uma arma contra Voldemort?
— Isso é o que ele pensa. Mas eu acho que os trouxas tem um ditado para isso, não? Algo com pregos e martelos...
Ele piscou confuso para a bruxa, que fez um gesto vago com a mão.
— Não se preocupe com isso agora, Harry. Alvo o ajudará a manter o objeto longe do alcance de Voldemort enquanto você compreende melhor a sua função. Agora, há outra coisa que me preocupa. Você estava certo, Alvo — Hildegard se voltou para o diretor — As defesas de Harry são quase inexistentes.
— Desculpe? — Harry franziu. — As minhas defesas?
— Mentais, Harry — Dumbledore se pronunciou, atento atrás dos seus oclinhos — Eu manifestei a minha preocupação com a suas defesas mentais desde que sabemos que Voldemort demonstrou interesse especial em sua mente no passado e pode voltar a fazê-lo caso sinta que é seguro tentar.
Harry sentiu-se culpado pela sua completa desconsideração a Oclumência desde que parara de ter as (desastrosas) aulas com Snape no ano passado.
— Nós não podemos deixar isso acontecer — o diretor continuou — Hilde tem uma sugestão para o problema, se você concordar. Você deve ter percebido que há uma matéria extra em seu currículo, além das que escolheu para prestar os NIEMs.
— Adivinhação Avançada, sim, senhor — ele concordou, feliz de que finalmente alguém não se desviava com uma evasiva a respeito da questão.
— Exatamente. O currículo da disciplina irá um pouco além da oclumência em si. Hilde nos ofereceu uma especialista do seu próprio círculo para nos ajudar com a tarefa. Eu achei que transformar a lição em uma matéria em que você possa aprender em conjunto com outros colegas tornará a experiência palatável.
— Soa bem para mim — Harry aprovou, sentindo alivio. Não ia mais precisar ficar fechado em uma sala com Snape invadindo sua mente e lhe humilhando por mais um ano, algo que é claro ele não faria nem que a outra opção fosse suportar visitas mentais de Voldemort.
— Se estamos resolvidos a esse respeito, há outra conversa que precisamos ter, Harry. Adivinhação avançada não será a única lição extra que você terá esse ano.
— Imagino que essa seja a minha deixa — Hildegard anunciou, deslizando para fora da cadeira de Dumbledore com um movimento fluido — Se me dão licença, cavalheiros. Foi um grande prazer conhecê-lo, Harry. Eu aprecio a sua generosidade para aceitar as minhas desculpas, e para me dar acesso às suas memórias. Saiba que Avalon está aberta a sua visita, caso venha a necessitar.
— Hum. Obrigado — Harry não fazia ideia de como ele poderia 'precisar' de Avalon, mas achou que deveria agradecer mesmo assim.
Hilde fez uma breve reverência com a cabeça e foi andando em direção aos aposentos particulares de Dumbledore no fundo da torre. Então ela se deteve no primeiro degrau da escadinha e se voltou para Harry, a expressão curiosa.
— Uma última pergunta? — Harry assentiu, intrigado. Hilde o perscrutava com o olhar perfurante de ave de rapina — O que você pensa do Destino, Harry?
Era a pergunta mais esquisita que alguém já lhe tinha feito. Engraçado foi que ele nem precisou pensar muito:
— Eu não sei se acredito nele.
Ela sorriu, assentindo como se já esperasse ouvir algo assim.
— Interessante, dado ao quanto o Destino vem acreditando em você.
— BD —
— Então ela foi embora e Dumbledore começou a falar das aulas que ele quer me dar sobre o passado de Voldemort — Harry terminou de explicar para Rony e Hermione, que tinham ouvido em grande parte sem interromper. — Ele quer que eu saiba de tudo que eu puder, provavelmente para ter minha melhor chance...
— Harry, espere um momento aí — Hermione o interpelou. Ela estava um bocado aturdida, mas dava para ver que seu cérebro estava funcionando a todo vapor — Sirius voltou da morte para trazer algo para você... um presente do destino, segundo a própria Senhora do Lago. Há uma profecia com seu nome, coisas estranhas estão acontecendo... para Avalon se envolver, isso é grande, Harry.
— Eu sei que é grande — ele assentiu, sentindo-se exaurido — Só queria saber o que é.
— Ela disse que você precisa descobrir por si mesmo, não é? Mas nós vamos lhe ajudar, é claro. Se o punhal é uma arma para vencer Voldemort...
— Não acho que Dumbledore concorda com ela — ele disse rápido — Ele continua repetindo que a arma que eu tenho contra Voldemort é amor...
— Não é como se você pudesse apunhalar alguém com amor, né? — Rony mostrou sua descrença — Acho que se a varinha não é uma opção, eu fico com a arma afiada.
Hermione meneou a cabeça, suspirando.
— Muito sensível, Rony, para não perder o costume.
— O que foi que eu disse de errado agora? — o ruivo protestou num tom injustiçado — Por que é que agora tudo que eu digo você usa para me atacar?
— Ninguém está atacando você! — Hermione guinchou.
— Não comecem, vocês dois — pediu Harry, apertando seus olhos. Ele estava desenvolvendo um princípio de enxaqueca que achava que tinha a ver com a experiência com legilimência.
— Você não contou a ela sobre Johanne ainda — Rony lhe lembrou, achando que aquele era um bom assunto para o qual migrar.
— Tem mais coisa sobre ela? Já é bem estranho que ela tenha sabido onde Sirius estava no Ministério — especulou Hermione — Como ela saberia com todos os detalhes?
— Eu acho que ela é uma vidente. Uma de verdade, não uma de uma vez na vida que nem a professora Trelawney — o ruivo ofereceu astutamente.
— Não seja ridículo, Rony, videntes são extremamente raras, se é que existem, eu ainda tenho minhas dúvidas — Hermione teimou.
— Mas Harry acabou de dizer que Trelawney fez a profecia dele e que a Senhora do Lago viu que ele receberia algo antes de acontecer!
Isso fez Hermione morder o lábio num raro momento de ausência de argumentos. Harry sabia que aquilo era o suficiente para que ela planejasse muitas horas na biblioteca pesquisando a respeito e ele não a impediria, não se isso trouxesse respostas para as muitas dúvidas que o assombravam no momento.
— Eu não acho que ela seja vidente — ele disse por fim, inquieto. — Talvez ela seja... outra coisa. Videntes veem o futuro, não é, e ela meio que viu o presente, na hora em que estava acontecendo. Além do mais, tem a outra coisa.
— Tem mais coisa? — Hermione usou um tom de indignação. Bem, ele não tinha culpa de que ela tinha sumido o verão inteiro enquanto as coisas aconteciam, tinha?
— Eh, sim. Ela, hum, ela consegue ver quando eu estou por perto.
— Consegue ver o quê? — Hermione franziu as sobrancelhas castanhas.
— Qualquer coisa. Ela é cega, mas desde que nos encontramos pela primeira vez nas férias ela consegue ver quando eu estou por perto — ele explicou, extremamente sem graça.
— Ah. Isso explica umas coisas — comentou Rony, pensativo.
— Ela consegue ver só quando você está por perto e volta a ser cega quando não está? — Hermione quis se certificar.
— Foi o que eu disse, Hermione — ele resmungou, extremamente desconfortável com o assunto.
— Você está me dizendo que a filha do seu padrinho se recuperou de uma cegueira que magia não conseguiu curar, por sua causa?
— Bem, curou mais ou menos, não é? — ele disse a contragosto, cruzando os braços. Queria mais do que tudo mudar de assunto agora, mas não parecia que isso ia acontecer.
— Harry, isso é muito peculiar.
— Obrigado por apontar o fato, eu não tinha percebido.
— E porque você não está passando mais tempo com ela até vocês descobrirem como tornar a mudança permanente, independente da sua presença?
— Hum? — Harry não achou que tinha entendido a pergunta. — Não é tão simples assim. Nós mal nos conhecemos…
— Harry, ela não ENXERGA quando está longe de você! É da filha de Sirius que estamos falando, seu padrinho Sirius que voltou da morte para lhe trazer algo que pode ajudar você a vencer Voldemort, porque é que você não está fazendo tudo que pode para tornar a vida dela mais fácil?
Ele abriu e fechou a boca como um peixe retirado abruptamente do aquário. Como a conversa fora da estranheza absurda da situação para ele estar recebendo uma bronca? Harry tentou buscar um olhar de suporte de Rony, mas o amigo estava extremamente vermelho e não muito surpreso com o que Hermione acusava.
— Nós nem sabíamos que ela existia um mês atrás! — ele argumentou, mas até nos seus ouvidos soou um ponto terrível. Deveria existir algo melhor em sua defesa, certo? — Hermione, isso é muito esquisito, eu não posso ficar andando com uma pessoa só porque ela não enxerga na minha ausência!
Hermione piscou seguidas vezes para ele, mandando a cabeça.
— Esse não é você, não de verdade. Harry, o que é que está acontecendo?
— Nada está acontecendo! — ele se defendeu. — Bem, nada além das milhões de coisas, não é, gente tentando me sequestrar, comensais matando crianças num palco, Gina sendo atacada por um dragão, Sirius morto, e depois vivo, eu tenho que apunhalar Voldemort num futuro próximo...
Ela continuava balançando a cabeça, dispensando uma por uma as desculpas de Harry a medida que ele as despejava.
— Harry, sua vida é um caos desde que eu te conheço. Desde que você tem onze anos tem gente tentando matar você, armando para você, querendo a sua cabeça por mil razões. Isso nunca te impediu de ajudar alguém que precisava. Nunca. Coisas estranhas acontecendo também nunca te seguraram. Você é a pessoa que arrisca a ira de um partidário de Voldemort para libertar um elfo doméstico e que enfrenta um basilisco para salvar uma garotinha. Você voltou no tempo comigo para salvar a vida de Sirius, e quase morreu tentando salvar ele de novo, quando se convenceu que ele estava em perigo no ano passado. E agora quer me dizer que vai deixar alguém andar por aí sem enxergar só porque é estranho, quando a solução está literalmente em você?
Como devia ter sido a intenção dela, suas palavras funcionaram como uma sucessão de tapas. A esse ponto, Rony assistia a discussão com o queixo caído, acompanhando um e outro como quem assiste dois batedores arrebatando o balaço de um lado a outro.
— Hermione, eu...
— Você está aborrecido com ela? — sondou a garota, perspicaz com seus olhos em cima dele. Harry se encolheu um pouco; mesmo sem saber legilimência, ela podia ser tão incisiva quanto se soubesse.
— Não! Eu não... não de verdade. Eu não sei, Hermione! Mas não é nada com ela, não é como se ela tivesse culpa disso tudo.
— Então... você está zangado com Sirius?
— Por que é que eu estaria zangado com Sirius? O que ele tem a ver com a coisa toda? Tudo que ele fez foi voltar! Eu estou feliz que ele voltou! — Harry rosnou, o que a fez inclinar a cabeça pensativa.
— Isso não soou nada feliz. E tudo bem se você estiver zangado com ele. No seu lugar, eu com toda certeza estaria.
— Ah, é? Por que? — Harry tinha seus braços firmemente cruzados. Ele nem lembrava a hora que os cruzara.
— Primeiro, porque ele morreu. Padrinhos... pais não são supostos a morrer, não é, quando a gente ainda precisa deles por perto. E depois ele voltou completamente alheio a dor que causou, pelo que eu entendi, e não bastasse isso, ele "trouxe" com ele duas filhas das quais você nunca tinha ouvido falar. Filhas cuja existência omitiu de você desde o começo .
— Ele disse que estava protegendo elas — Harry informou entre seus dentes, mas nem ele gostava de quão oca a justificativa soava.
— ... e agora que ele voltou, você nem pode contar com ele porque você sente, lá no fundo, que as filhas dele são prioridade. E você queria ser a prioridade dele, porque você merece, e você precisa disso.
Harry não pode fazer nada a não ser ficar parado ali, sentindo as palavras dela cavarem um buraco em seu peito, como as afiadas verdades que elas eram.
— Como você pensa essas coisas? — Rony perguntou assombrado. Hermione lhe deu um sorriso triste.
— Eu observo, só isso. E Harry — a garota se virou condescendente para o amigo — Perdoe Sirius. Por todos os defeitos que ele tem, eu tenho certeza de que ele ama você como seu pai teria amado, ou algo tão perto disso quanto possível.
Harry sacudiu a cabeça em afirmação. Seus olhos estavam queimando, a garganta apertada num nó firme. Ele assentiu, sabendo que não era seguro falar naquele momento. Hermione sorriu compreensiva e, antes de ir embora para o próprio dormitório, atravessou o quarto para lhe dar um abraço apertado.
— BD —
Theodor retornou ao solário cerca de vinte minutos depois, tendo conseguido contactar o Esquadrão de Aurores e solicitar reforço para Blackburn Hall. Ele teria sido capaz de escoltar as duas suspeitas desarmadas até a prisão, mas esse não era o protocolo recomendado. E como Bervely fizera questão de esfregar em sua cara mais cedo, sua licença estava suspensa, então tecnicamente ele não devia estar escoltando ninguém para lugar nenhum ou mesmo investigando um caso.
Era o tipo de transgressão menor que seria perdoada assim que ele explicasse a situação para alguém do DELM; eles certamente concederiam a permissão para um dos seus tentando provar-se inocente das acusações que o afastaram de sua carreira, certo?
Com esse pensamento positivo, Theodor retornou ao solário... para achar Bervely caída no chão e nenhum sinal de Charlotte Summers, só a sua cadeira vazia.
— Raios, Bervely! — ele exclamou, ao mesmo tempo que que olhava ao redor para se certificar de que Summers não estava espreitando atrás de uma das pilastras para atacá-lo.
Nem sinal da outra garota. Theodor se agachou para verificar o pulso de Bervely e se aliviou ao descobrir que havia um.
Outra coisa que havia era um grande vergão vermelho do lado esquerdo de seu rosto, ornando um corte profundo na altura da bochecha. Ela devia ter sido atingida com alguma coisa dura... ele desconfiava da segunda cadeira, jogada no chão de qualquer jeito.
— Relaxio! Enervate! — O primeiro feitiço a livrou das amarras, o segundo a despertou. Bervely apertou os olhos, desfrutando da dor pulsante que tomava todo o lado esquerdo de sua cabeça, depois o focalizou com alguma dificuldade.
— A vadia conseguiu escapar — murmurou. Falar doía terrivelmente. A visão do olho esquerdo estava borrada; a pancada partira vasos sanguíneos em sua esclera, que estava manchada de vermelho ao redor da íris.
— É, estou vendo. Para onde ela foi, Bervely?
— Não deixou endereço, sinto muito.
— Muito engraçado. Você consegue se levantar?
Ela demorou de responder. As formas que a luz fazia no teto do solário se embaralhavam na frente dos seus olhos como se dançassem. Ah, Theodor tinha lhe perguntado alguma coisa, o que era mesmo...?
— Acho que não — respondeu, a voz pastosa. Gosto forte de ferro cozinhava em sua língua, lhe dando ânsia de vômito.
Sentiu que seu corpo era erguido do chão com facilidade. Ele passou um dos braços dela por cima do seu ombro e um braço dele circulou sua cintura, de forma que ele conseguiu meio que arrasta-la para fora do solário e através da escada, carregando a maior parte de seu peso. Não era culpa dela, ele que tinha cortado a circulação dos seus pés com aquele feitiço estúpido...
— Meu quarto — ela apontou quando passaram pela porta, já no andar de baixo.
— Ah, ótimo, bom saber — ele se deteve, deliberando por um momento, então mudando a rota.
A próxima coisa que Bervely soube foi que estava pousando numa cama macia e empoeirada, depois ela apagou de novo.
Acordou com algo gelado sendo pressionado contra seu rosto. Empurrou a mão que lhe provocava a enorme e desnecessária quantidade de dor.
— Ah, você acordou — o rosto de Theodor flutuava bem acima do seu corpo. Sentindo-se menos tonta agora, ela fez um esforço para se sentar e percebeu que estava em sua cama de infância, ainda em Blackburn Hall. Também sentiu o bolso do casaco pesar com o objeto que Charlotte lhe oferecera em troca de seu escape; esperava que aquela barganha valesse à pena, afinal dera o próprio rosto para aquela cobra abortada arrebentar, em nome da veracidade de sua “fuga”.
Theodor sentou ao lado dela, lhe observando com atenção e silêncio atípico.
— Bastarda desgraçada, quase arranca a minha cara fora — resmungou, apalpando o hematoma que já estava bastante inchado — Você se importa em me emprestar minha varinha para eu tentar controlar esse estrago, se não for pedir muito?
— Como ela fugiu, Bervely? — ele exigiu, sem tomar conta do pedido dela. — Ela estava desarmada, você também. Ambas amarradas, o elfo contido no andar de baixo…
— Eu não sei! Ela devia ter uma carta na manga, quando vi, ela estava solta e virando a cadeira em meu rosto!
— Por que ela iria te bater, se já estava livre? — ele franziu ligeiramente. Bervely deu de ombros com impaciência.
— Não me peça para entender a cabeça de um aborto, está bem? Summers me odeia, não me surpreende que ela queria quebrar minha cara. Theo, minha varinha? Isso aqui está doendo como o inferno. É bom saber que você retornou ao seu bom senso, aliás. Que ideia foi aquela de me amarrar? Eu espero que esse tenha sido parte de algum plano seu para fazê-la confessar, porque de outra forma eu vou ficar muito...
— Por que você veio aqui sem mim? — ele a interrompeu, duro e seco, os olhos parecendo lascas de grafite pregados nela. — Por que mentir para mim que não sabia onde era a propriedade Lestrange, apenas para aparatar aqui no momento que eu dei as costas?
Bervely suspirou pesadamente.
— Meus assuntos com Charlotte são pessoais. Nós temos uma história, eu tenho contas a tratar com ela que vem muito antes das suas, se quer mesmo saber.
— Eu nem mesmo sei se ainda tenho alguma conta para tratar com ela, a esse ponto — ele murmurou enigmático, observando Bervely com atenção. Ela percebeu que Theodor estava muito mais perto do que seria socialmente aceitável.
— Theo, eu não tenho ideia do que você está falando, mas você não devia estar procurando por ela? Charlotte não pode aparatar, ela não deve ter ido longe.
— Tem uma equipe procurando por ela. Eu achei melhor ficar aqui com você até que acordasse.
— Que amor — zombou, ainda que ligeiramente alarmada. O tom dele não denunciava nenhuma preocupação especial com a sua integridade. Ah não, ele era o pedaço de aço frio que ela tivera a chance de ver em ação em Azkaban muitas e muitas vezes, interrogando prisioneiros, direcionando dementadores, dando ordens para os outros Quarters. Não era uma versão de Theodor que ela especialmente gostava.
— Então a gente só vai ficar aqui... batendo um papo? — quis saber Bervely, franzindo para ele, arriscando um sorriso — Desfrutando da hospitalidade Lestrange, lotando os pulmões de poeira de fada mordente?
— Isso não é um bate papo, é um interrogatório. Informal — ele completou, sem nenhuma nota de informalidade na voz — Eu preciso de respostas, então nós vamos ficar aqui até que eu as tenha.
Bervely se deu conta da razão pela qual ele estava tão perto é porque queria intimidá-la.
— Faça suas perguntas, Quarter Shadowtamer — estalou a língua em tom de zombaria. Soube pelo jeito que ele apertou os cantos dos olhos que considerou aquilo um ato de insubordinação, mas não era como se ela fosse se submeter a intimidação dele nem nada.
— Você vem mentindo para mim — disse Theo num tom de constatação pungente — pelos últimos três anos.
— Como eu poderia? Nós só nos conhecemos há dois.
— Não. Eu a conheci na páscoa de noventa e três, Bervely Black. Você tentou visitar Sirius Black, mas eles não deixaram você chegar até ele. Você teve uma reação ruim aos dementadores e eu ajudei o seu amigo a te levar até a enfermaria. Você bebeu chocolate quente e me pediu para visitar Bellatrix Lestrange. Eu deixei, afinal você estava na lista de parentes. Então você se acidentou durante a visita e assustou um bocado seu amigo. Eu a mandei de volta para terra firme com mais uma garrafa de chocolate quente e um curativo que eu mesmo fiz em seu braço.
— Estou surpresa que você se lembra do caso com tamanha riqueza de detalhes — ela comentou, treinando outro sorriso com seus lábios fechados. Por dentro se sentia inquieta, porque não parecia que a conversa estava rumando para um lugar bom, a julgar pelo tom de Theodor.
— Eu dificilmente esqueceria, já que fiz um relatório sobre o acontecido, como era minha obrigação. Ele foi arquivado, então eu arquivei essa memória também. Para ser sincero, não esperava voltar a ver você novamente. Não parecia que você ia pisar os pés em Azkaban de novo depois de todo o trauma. Mas nossa, eu podia estar mais enganado?
— Você me viu de novo mais de um ano depois, quando você foi com Snape até a cabana na floresta levar o convite da sua mãe para que eu entrasse no Instituto Flamel — ela lhe lembrou com rapidez. Theodor assentiu.
— Sim. E antes disso eu vi você uma dezena de vezes, não é? Trabalhando na prisão... me fazendo perguntas sobre Black... me convencendo a lhe deixar visitá-lo! Me manipulando para gostar de você e baixar a minha guarda, como um grande idiota.
— Theodor — Bervely fechou os olhos por um momento, seu coração dando umas cambalhotas impossíveis pelo peito a essa altura — Eu não...
— Não negue — ele sibilou através dos dentes —, não queira me fazer de idiota mais uma vez, Bervely, eu acho que uma terceira vez tem que ser um record de imbecilidade até pra mim! Eu sei que foi você em Azkaban, por favor, eu já desconfiava há algum tempo, para falar a verdade! Esses dois anos vendo você fazer poções! Me perguntando por que sua técnica era terrivelmente familiar pra mim, até que eu finalmente entendi! Nós trabalhamos juntos na Essência da Aurora Boreal em Azkaban!
— Theodor, você acabou de ouvir a verdadeira Charlotte confessar que esteve lá! — ela tentou, mesmo se sentindo idiota por fazê-lo. Ele torceu o rosto com um desgostoso triunfo.
— A verdadeira Charlotte, sim. Até você admite que existe uma falsa, então. Tudo que eu precisava para confirmar minha teoria era estar frente a frente com a "verdadeira"Charlotte, e uau, como eu estava certo! Ela nunca poderia ser a mesma pessoa com quem eu trabalhei em Azkaban! Ela nem mesmo me olhou do mesmo jeito, e por favor, "Sr. Shadowtamer"? Minha Charlotte me chamava de Theo. Até quando nos duelamos no navio, na noite da fuga, ela ainda me chamou de Theo!
— Por que ela mentiria sobre isso? — Bervely perguntou quietamente. Ela não tinha mais esperanças de convencê-lo que não era a "Charlotte dele", mas a pergunta ainda a perturbava, porque raios Charlotte mentiria?
— Talvez ela esteja tentando proteger você — ele sugeriu. Bervely fez um som alto de descrença com sua garganta.
— Ela estava tentando me acusar do sequestro de Potter! O que ela ganha me protegendo de um crime enquanto me acusa de outro?
— O sequestro de Potter nunca aconteceu, isso são só alguns anos de prisão. Mas ser cúmplice na fuga de Black… — ele não terminou, mas seu olhar dizia tudo. Qualquer pessoa mancomunada com Black podia esperar apodrecer em Azkaban. O fato de que suas palavras eram praticamente as mesmas que as de Charlotte era um tanto inquietante.
Mais perturbador do que isso era o quanto ele parecia genuinamente machucado, agora que a sua máscara de quarter durão estava fraquejando. Theo não era especialista em esconder seus sentimentos — o chapéu dificilmente o teria colocado na Sonserina, caso ele tivesse ido à Hogwarts — então ela podia ver uma decepção manchando os seus olhos muito claros. Bervely desviou o olhar para a direção da porta, desconfortável.
— Por que você começou a desconfiar de mim? — ouviu-se perguntar num fio de voz.
— Motivo — respondeu ele prontamente. — Charlotte nunca o teve. Muito menos Thor Carmichael, por pior que ele seja, não vejo o que ele poderia ganhar libertando Black. Mas você... desde que você me disse que Black era inocente eu percebi. Confesso que por um tempo eu lutei contra a ideia de que uma adolescente poderia armar um plano tão complexo que fosse capaz de desafiar o meu esquema de segurança, dementadores e todo o resto. Mas quanto mais eu convivia com você, nesses últimos anos, eu entendia. Você consegue ser excepcional quando se esforça.
— Imagino que eu não deva tomar isso como um elogio — ela comentou, fazendo força para soar debochada e para que a voz não tremesse.
— Eu não tenho mais perguntas. Não acho que a esse ponto eu precise saber de todas as formas pelas quais você me fez de idiota desde então. Só uma última, Bervely. Se você puder responder olhando para mim.
Ele esperou. Bervely deu um pesado suspiro e levantou o rosto, seus maxilares travados com muita força, o queixo erguido numa última tentativa de mostrar que não estava intimidada ou afetada com aquela conversa.
— Obrigado — Theodor passeou os olhos pelo rosto dela distraidamente, enquanto formulava sua pergunta da melhor maneira. — Você por acaso, alguma vez no meio do seu plano, se importou?
— Se eu me importei...? — ela fez um movimento de confusão com a cabeça, não entendendo de primeira do que ele estava falando.
— Ah, vamos lá, Bervely. Você deve saber, você com certeza sabe que eu estava apaixonado por ela. Alguma vez, alguma parte de você se importou com o que eu sentia, enquanto estava me manipulando para os seus próprios fins? Sua Charlotte alguma vez sentiu alguma coisa de volta?
Bervely sentiu aquela coisa horrível na boca de seu estômago... pena. Algo degradante de se sentir por pessoas que ela admirava. Gostaria que ele não tivesse ido tão baixo, porque ela não ia, ela não tinha como ir até lá com ele.
Ela negou, baixando os seus olhos, depois lembrando que ele pedira para que o encarasse e os erguendo de novo.
— Não. Não desse jeito, Theo. Não do jeito que você sentia por m– por ela.
Theodor assentiu, no fundo já esperando aquela resposta. Ele se levantou, esticando o colete do uniforme de Quarter. Deu um olhar fugaz para ela, rolando a varinha entre os dedos.
— Não se engane — disse num tom mais controlado, que não era nem o de Quarter, nem o que estivera usando antes, mas um meio termo entre os dois. — Eu nunca me senti desse jeito sobre você.
Ela resistiu ao impulso de lhe lembrar que eram a mesma pessoa, ela e “sua Charlotte”, mas sabia que o que ele estava tentando dizer é que a desprezava, desprezava a verdadeira, mentirosa Bervely, que arruinara a sua carreira de auror e convivera com ele naqueles últimos dois anos no Instituto guardando esse segredo.
Ela o deixaria magoá-la e não estragaria isso para ele, porque no fundo sabia que mereceria.
Achando que era hora, Bervely se levantou, testando as pernas e ficando feliz que funcionavam. Tremiam um pouco, mas não pareciam prestes a derrubá-la.
— Eu imagino que você não vai mais querer ouvir de mim, então eu vou sumir de vista. Eu ainda preciso da minha varinha, no entanto. Se você puder apenas apontar uma direção geral de onde a colocou eu posso ir buscar, sem problemas.
Theodor se voltou para ela como se lhe tivessem crescido chifres de bicórneo na testa.
— Bervely, você arruinou minha carreira, você entende isso? Você tem noção do estrago que causou aquela noite? Tem noção das consequências? A única razão pela qual eu consegui reforço aqui hoje foi porque usei a palavra mágica "Potter", mas eu sou uma piada para o Esquadrão!
— Theo, eu sinto muito pela sua carreira, mas honestamente acho que está melhor agora. Você é muito melhor alquimista do que era auror.
Essa talvez tenha sido a coisa errada para se dizer, a julgar pelo jeito que a raiva brilhou no olhos dele.
— Isso não é algo para você decidir.
— Tem razão — ela suspirou, vencida. — Olhe, se houvesse algo que eu pudesse fazer para consertar as coisas, você sabe que eu faria.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Mas é claro que tem! — ele disse como se ela estivesse louca de considerar qualquer outra opção. — Você vai me acompanhar até Azkaban e confessar que foi cúmplice na fuga de Sirius Black e que sabe exatamente onde encontrá-lo.
Ela soltou um riso nervoso pelo nariz.
— Desculpe?
— Você me ouviu — Não havia uma grama de humor em seu rosto que denunciasse que a proposta era uma brincadeira de mau gosto para assustá-la. — Você vai confessar seus crimes e eu vou ter meu distintivo de volta.
Bervely tinha certeza de que seus olhos estavam do tamanhos de pires agora.
— Você vai me prender?
Theo se virou para ela. Não havia nenhum prazer em sua decisão, mas nenhuma hesitação também.
— Não. Eu vou esperar que você tenha o mínimo de decência dentro de você e que haja dignamente uma vez em sua vida. Se você se recusar… Então eu suponho ter que tomar outras providências.
Ela sentiu o mundo perder substância ao seu redor enquanto a perspectiva real do que ele propunha lhe alcançava e engolfava. Azkaban. Dementadores... a podridão, o medo constante de perder sua alma... o horror, os pesadelos, o cheiro impregnado de algo pior do que a morte.
— E então, Bervely — Theodor chamou ao seu lado, impaciente — O que vai ser?
(Continua...)
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