A Canção da Morte
4 Capítulo 4 - Caso I - O fantasma do anel!
Eram 9 da manhã quando acordei. Levantei somente o tronco e observei o quarto ao meu redor. Era quase igual ao meu quarto, tirando a as roupas masculinas entulhadas em meio de uma bagagem jogada no chão.
Meus olhos pararam em duas roupas em especiais. Meu rosto corou por trazer aquelas lembranças à tona. Se Sean visse aquilo iria comentar algo como Você fica vermelha por tudo,ein?
Levantei da cama e peguei nossas roupas. Dobrei as duas juntas e as coloquei em cima da cama, e foi somente aí que percebi que faltava algo.
Onde Sean estava?
A cama ainda tinha seu cheiro. Menta. Suas roupas ainda estavam lá, junto com seus pertences. Poderia ele ter simplesmente desaparecido?
Somente com o meu lingerie e um lençol amarrado em eu corpo, desci as escadas o mais rápido que pude. Ao chegar ao térreo senti um enorme alívio em sentir o cheiro de ovos vindo da cozinha.
- Sean? – O chamei entrando na cozinha de mármore branco. – Você está aí?
Ele estava cozinhando no belíssimo fogão de 6 bocas, e por incrível que pareça, ele era realmente muito bom naquilo.
- H-hey, Su. – Ele me respondeu com as bochechas vermelhas. – Quer ovos?
Abri um enorme sorriso para ele enquanto me aproximava.
- Pode deixar que eu faça. – Falei. – Você não pode ser melhor na cozinha que eu.
Sean sorriu maliciosamente enquanto me olhava de cima pra baixo.
- Só se você usar um avental. – Ele falou. – Lingerie e avental, que boa combinação.
Fiz uma careta e subi para trocar de roupas. Peguei um moletom velho todo surrado e o vesti. Olhei rapidamente para as minhas malas. Deveriam estar cheias de roupas fofas que mamãe compra para mim. Será que ela não pode entender que prefiro um bom e velho moletom velho e calças jeans surradas?
- Pronto. – Falei quando voltei. – Agora deixe que eu frito os ovos.
Sean sorriu quando me viu atravessar a cozinha e tirar a frigideira de suas mãos grandes.
- Avental... – Ele me lembrou.
Dei-me por vencida e ele me vestiu com o avental cheio de babados vermelhos.
- Perfeita. – Ele falou dando um laço grande em minhas costas. – Parece uma recém-casada.
- Como você quer seus ovos? – Perguntei tentando ignorar seu comentário.
- Mexidos.
Quebrei habilidosamente dois ovos na frigideira quente enquanto Sean sentava-se à mesa da cozinha. Os mexi com uma colher, e quando prontos os coloquei na mesa bem na sua frente.
- Prontinhos. – Falei enquanto dava um beijinho em sua bochecha. – O quê você acha?
Ele sorriu e pegou uma garfada enorme, colocando-a toda na boca. Sua expressão passou de um sorriso alegre para uma cara de desgosto absoluto.
- O que foi...? – Perguntei com a voz falha.
- Está meio... – Ele engoliu a comida de uma vê só. – Anh... Cru?
- Está cru?! – Quase gritei. – Como? Eu fritei bem direitinho!
Sean tentava me acalmar, dizendo que não era o fim do mundo. Mas era o fim do meu mundo! Eu sou uma dama, por favor! Nem cozinhar eu sei?
- Talvez você só tenha se encantado demais por mim e esqueceu-se do ovo. – Ele comentou.
Minha expressão de raiva e angustia se transformaram em pura alegria. Somente Sean para me fazer rir desse jeito.
- Pra falar a verdade... – Sorri meio sem-jeito.
O sorriso dele se abriu mais ainda, mas de repente sua expressão ficou séria.
- E você...? – Ele me encarou meio receoso.– Sentiu algo?
Minha primeira reação foi levantar a sobrancelha. Sentir o quê exatamente? Mas logo percebi o que ele queria dizer.
- É claro! – Respondi.
- O QUÊ? – Ele gritou. – Você está bem?
- Hãm? – Eu realmente não entendi. – Do que você está falando?
- Quê? Eu estou falando de ontem, oras. De noite. – Ele respondeu com o rosto vermelho.
- Bem, eu também. – Abri um sorriso.
- Então por que está sorrindo?
- Era para eu estar zangada por acaso?
- Não, mas...
- Quer dizer que você não gostou? – Senti um frio na barriga. Alguém me mata, por favor.
- Claro que gostei! – Pude respirar tranqüila. – Como não gostaria?
- Então o que foi?
- Eu... – Ele desviou o olhar. – Bem... Eu estava receoso de , tipo... Cê sabe.
- Do quê? – Fiquei confusa. Se ele falasse grego eu poderia entender melhor.
- Eu fiquei com medo que eu tivesse lhe machucado.
- Quê? – Comecei a rir. – Machucado? HAHA!
Levei as duas mãos para a barriga, tentando conter a dor que os risos me causavam.
- Pare de rir. – Ele falou.
- Desculpe. – Limpei uma lágrima que escorria. – Mas não, não me machuquei.
- Tem certeza?
- Absoluta! Aquela foi a melhor noite da minha vida!
Só depois percebi os sentidos de minhas palavras. Levei instantaneamente minhas mãos à boca, tentando tapar as baboseiras que falei e poderia vir a falar. Levantei o rosto para ver a expressão de Sean, que por sua vez estava sorrindo de alegria.
- Ainda bem. – Ele beijou meus lábios. Sua língua adentrava mais e mais em minha boca, enquanto eu puxava seus cabelos para mais perto.
De repente um flash nos cegou, o mesmo que tínhamos visto no aeroporto. Piscamos algumas vezes e olhamos ao redor, tentando enxergar algo.
- Como vão? – Uma garota muito bonita estava parada na porta, segurando uma máquina e várias bagagens.
- Anh... – Murmurei. – Olá. Err... Você é?
- Oh, sim! – Disse a garotinha. – Renata Santos.
Ela esticou sua mão cheia de anéis para mim. A segurei levemente e balancei.
- Suzannah Saunders. – Falei. – E Sean O’den.
Sean fez um gesto com a cabeça e sorriu.
A menina era explendosa! Seus cabelos eram cacheados e caiam um pouco abaixo dos ombros, com uma cor castanho-escuro. Sua pele era branquinha com olhos verdes que brilhavam intensamente.
- Oh! – Ela exclamou. – Vocês eram o casal no aeroporto!
Percebi que ela tinha um sotaque estranho, mas charmoso.
- Err... De onde você vem?
- Eu? Do Rio de Janeiro. – Renata sorriu.
- Sério?! – Sean perguntou. – Nem parece! Só o sotaque, é claro...
- É, eu sei. – Ela comentou fingindo uma cara tristonha. – Não sei por que, mas não sou bronzeada como os outros, fazer o quê?
Sinceramente, ela parecia uma estrala de cinema. Aquele casaco verde musgo com um cachecol amarelo-claro e botas de couro poderiam lhe dar entradas grátis para o Oscar.
- Sim, sim... – Ela balbuciou no seu sotaque. – O casal do aeroporto!
Ela remexeu em uma das suas bolsas e tirou duas fotos.
- Aqui! – Ela nos mostrou.
Lembrei-me instantaneamente daquelas fotos. Era eu e Sean na fila da alfândega. A primeira era dele com o rosto na minha cabeça, sorrindo como um idiota. A segunda era de nos dois rindo da vadia que tínhamos avistado.
- Ah, então isso explica aqueles flashes! – Sean observou.
- Sim, sinto muitíssimo por isso. – Renata se desculpou. – É que ele é muito forte.
Quando terminou de falar bateu imediatamente outra foto, nos cegando.
- Opa. Desculpa.
Sorri e pedi para Sean ajudá-la com as malas, que por incrível que pareça pesavam mais que as minhas. Ela escolheu o outro quarto que ficava ao lado do meu. É que você precisa de ajuda para se vestir, Su. Sem querer ofender. Ela falou me olhando de baixo pra cima.
Passei boa parte da manhã conversando com Renata. Mesmo eu sendo horrível em moda — sempre usando ou moletons velhos ou os vestidos mimosos que minha mãe escolhe — e ela literalmente uma estrela de cinema, tínhamos várias coisas em comum. Como gosto para músicas, de odiarmos frio, comidas doces e coisas assim.
Sean, por outro lado, estava literalmente boiando na sala tentando acertar um acorde que lhe parecia impossível, mesmo eu jurando que noite passada ele havia acertado de primeira.
Perto de anoitecer — enquanto eu e Renata estávamos comendo um bom pote de soverte com uma bela cobertura de chocolate – a porta se abriu pela segunda vez naquele dia.
- Olá? – Um rapaz abriu a grande porta de madeira.
Renata virou-se imediatamente para o rapaz da porta, enquanto eu demorei alguns segundos para perceber sua chegada.
- Anh... Oi. – Renata respondeu com as bochechas levemente rosadas.
Olhei rapidamente para o rapaz. Ele deveria ser um pouco mais alto que Sean. A pele era tão branca ou até mais que a de Renata. Os olhos eram expressivos, com um tom de azul-escuro, sendo mais percebível pelos cabelos loiros, mesmo sendo mais puxados para o castanho.
- Bem-vindo. – Falei, percebendo que Renata não daria um pio. – Sou Suzannah Saunders. Essa é Renata Santos e aquele é Sean O’den.
- Como vai? – O rapaz sorriu docemente, enquanto beijava minha mão direita. – Jacques de Granteine.
Minha boca abriu e fechou-se umas cinco vezes, e nem notei quando Sean havia se levantado do sofá e se colocado entre eu e Jacques.
- Ei, cara. – As sobrancelhas de Sean estavam juntas, mostrando que ele estava realmente com raiva.
- Você deve ser o Sean. – Jacques falou esticando sua mão.
- Exato. – Sean esticou a sua. Mesmo que Jacques fosse um pouco mais alto, as mãos de Sean eram maiores que as dele.
- Desculpe por não me apresentar. – Renata colocou um fio atrás da orelha. – Sou a Renata.
- Pelo sotaque e pelo nome vejo que é do Brasil, certo? – Jacques beijou a mão de Renata também.
- Exatamente. – Renata apenas sorriu, ao contrário do que eu esperava. – E pelo seu sotaque e nome, vejo que é da França.
- Exato. Percebi também que a senhorita entende muito bem dos sentimentos alheios.
Franzi as sobrancelhas, enquanto Sean rolava os olhos.
- Muito bem. – Renata respondeu. – Posso sentir que está meio envergonhado, posso saber por quê?
De repente as bochechas de Jacques ficaram rubras. Sean soltou uma gargalhada baixa e me segurou pela cintura.
- Pelo mesmo motivo da senhorita.
Eu realmente não estava entendendo nada.
Jacques pediu licença e subiu com as suas malas. Perguntei para Renata o que fora aquilo, mas ela não me deu uma resposta direita. Você está bem desatualizada, ein?. Ela olhou para Sean, e sem pergunta alguma ele respondeu Não sei.
Eu era quem não sabia de nada.
Mais algumas horas se passaram. Sean fez o jantar – já que estava claro que eu não sabia cozinhar nem ovo – e comemos calmamente, tirando as brigas entre Renata e Jacques.
Quando terminamos, lavamos os pratos e assistimos TV. Fomos dormir 23 h, já que amanhã não teria aula.
- Boa noite, Su. – Sean beijou minha testa.
- Tchauzinho, Suzannah! – Renata acenou com seus dedinhos finos. – Amanhã vamos fazer compras!
Franzi o cenho só de ouvir a palavra compras. Renata soltou uma gargalhada e foi-se para o seu quarto, com seus passos leves que me lembravam a de uma bailarina.
- Até de manhã. – Jacques sorriu enquanto acompanhava Renata.
Suspirei bem fundo e voltei-me para Sean.
- Eu não quero fazer compras...! – Choraminguei.
- Tudo bem, Su. – Ele sorriu sem-jeito. – Isso não vai te matar.
Segurei sua camiseta verde-musgo com as mãos e encostei a cabeça em seu peito. Era maravilhoso como ele respirava. Tão calmo...
- H-hey... – Ele sorriu e passou a mão nos meus cabelos. – Calminha, a Renata não é um animal!
Bufei, deixando uma risada baixinha escapar.
- É, né? O quê poderia acontecer de pior?
- Er... – Ele colocou a mão no queixo, fingindo uma cara pensativa. – Ela pode fazer você comprar lingeries... Opa. Isso não é ruim.
- Cala a boca! – Gritei em meio dos meus risos estridentes. – Seu bocó!
- Bem, até de manhã. – Ele sorriu.
Sean aproximou seu rosto do meu – que estava ardendo de tanta vermelhidão – e me deu um beijo comprido e molhado.
Primeiro minhas pernas ficaram bambas. Mas depois agarrei seu pescoço com os braços e o puxei para mais perto.
Ele abriu a boca e sua língua entrou. Meus dedos se enroscaram no seu cabelo castanho e o puxei para mais perto possível.
- Hum... – Ele afastou-se. – Acho que esperar de manhã é tempo demais...
Abri um sorriso da orelha à outra.
- No meu o no seu? – Ele mordiscou minha orelha direita, fazendo um arrepio atravessar todo o meu corpo.
- Acho melhor não, Sean... – Suspirei, meio que decepcionada. – Se a Renata me procurar de manhã e nos dois estivermos seminus?
Sean suspirou e me olhou esperançoso.
- Você tem razão... – Ele respondeu. – Tudo bem... Mas você vai tomar banho comigo amanhã.
- Anh! Isso não!
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Acordei assustada. Fiquei ofegando enquanto encarava a mulher ao meu lado. Um fantasma.
Era o fantasma de uma mulher. Ela era magrinha e alta, com cabelos pretos compridos e lisos. Deveria ser asiática.
- anh... – Murmurei. – Posso ajudá-la?
A asiática me olhou com seus olhos negros arregalados e gritou:
- MEU ANEL!! EU QUERO MEU ANEL!
Minha primeira reação foi cobrir as orelhas. Sendo a segunda falar com a mulher.
- Que anel? – Perguntei sem gritar, com medo de acordar os outros. – Que anel?
A mulher aproximou-se de mim e me balançou pelos ombros.
- MEU ANEL! – Ela chorou. – AQUELE HOMEM ROUBOU MEU ANEL!
Ela me balançou por mais alguns segundos, quando minha porta abriu-se fortemente.
- SUZANNAH?! – Renata gritou. – Meu Deus, Suzannah! Você parece horrível!
- Su! – Sean correu e me abraçou. – Está tudo bem? Suzannah! Me responde.
Ofeguei um pouco mais, até que Jacques aparecesse na porta falando O que houve?.
- Está tudo bem... – Eu respondi com a voz rouca. – Eu só tive um pesadelo.
Renata bufou em resposta e ela e Jacques voltaram para os quartos.
- Não foi um pesadelo. – Sean olhou-me nos olhos. – Eu durmo com você, Su.
Mesmo depois de presenciar tamanho sofrimento daquele espírito, consegui sentir meu rosto esquentando.
- Não precisa Sean! – Respondi. – Não precisa mesmo!
Sean balançou a cabeça negativamente e deitou-se ao meu lado, me abraçando. A única coisa que pude fazer é o abraçar de volta, pelo menos assim eu não teria que encarar aquele espírito.
E pelo 3º vez desde que cheguei em Tókio, dormi novamente com Sean.
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