A Canção Permanece A Mesma
9 Capítulo 8
HOGWARTS, ESCÓCIA – 14 anos antes
- Você está estranhamente quieta hoje e isso está me dando medo. — Draco comentou enquanto se apoiava com os cotovelos no parapeito da varanda da antiga sala de Adivinhação. A resposta de Astoria foi somente um dar de ombros e ela colocar as mãos nos bolsos do casaco de moletom sob a jaqueta jeans que usava.
- Soube do Collins? — perguntou e Malfoy suspirou, desviando o olhar do rosto sério dela para o lago ao longe.
Collins era um aluno do terceiro ano da Lufa-Lufa que teve um surto repentino de burrice e coragem e resolveu bater de frente com um dos irmãos Carrow, quando esse teve a brilhante ideia de abordar naquela manhã como assunto na aula de Defesa Contra as Artes das Trevas a maldição Cruciatus. E, sadicamente, ele acreditava que a melhor maneira de aprender era praticando. Praticando a maldição em alunos do primeiro ano e obrigando os alunos mais velhos a fazerem isso.
Michael Collins, com certeza já farto de tudo aquilo como a maioria da escola, escolheu justo aquele momento para deixar claro a sua indignação. Carrow na hora não reagiu, apenas deu um sorriso macabro e de dentes amarelados para o garoto e conclui a aula normalmente. Ou o quão normal alguém pode considerar em ensinar crianças a torturar outras crianças.
Na hora do jantar Amico Carrow surgiu como uma aparição ao lado de Michael na mesa da Lufa-Lufa e declarou que ele tinha uma detenção a cumprir com Aleto na Floresta Negra.
A floresta que naquela noite estava infestada de criaturas de alta periculosidade, entre elas o bando de Fenrir Greyback, pois era lua cheia.
Collins, obviamente, não retornou aquela noite ao dormitório da Lufa-Lufa e pela manhã o seu corpo foi encontrado aos pedaços, rasgado e mordido, na orla da floresta. Aleto dissera a todos que o menino havia se perdido dele durante a detenção, que o procurara por horas a fio, relatara todo o acontecido com uma expressão irritante de divertimento no rosto e como se achasse que realmente estava convencendo alguém. Mas os alunos de Hogwarts sabiam da verdade.
Sabiam que Michael foi usado como exemplo para aqueles que ousassem desafiar a tirania dos Comensais. Que foi Amos Donald, o braço direito de Greyback no bando, que fez de Collins o seu brinquedinho de mastigar. E agora o mesmo Amos rodava a escola como guarda apenas para a sua presença tocar ainda mais terror nos lufa-lufa traumatizados, irritar os grifinórios rebeldes e botar para correr em direções opostas os corvinais e sonserinos cautelosos.
- Collins deveria ter mantido a boca fechada. — Malfoy resmungou e Astoria assentiu com a cabeça.
Não era fã de injustiças, mas nesse ponto Draco tinha razão:
Manter a boca fechada era o que estava mantendo todos eles vivos dentro de Hogwarts. Até mesmo os grifinórios indignados tinham aprendido essa lição rapidamente e ao invés de combates diretos, faziam as coisas na surdina, reunindo colegas e formando um grupo de resistência contra a tirania de Snape e dos Comensais que povoavam a escola.
- Você não podia fazer nada. — Draco comentou na esperança de animá-la.
Nas semanas em que usaram a Torre de Adivinhação como ponto de encontro, Malfoy aprendeu uma coisa ou outra sobre a caçula dos Greengrass.
Aprendeu que Astoria era uma adolescente como outra qualquer. Gostava de ler revistas de fofocas, ouvia música pop e comentava com as colegas de casa sobre as novas celebridades do mundo mágico. Teve uma paixonite por Harry Potter, para o horror de Draco quando ele ouviu isto, e estava no grupo de garotas que vestia-se de maneira desleixada porque prezava o conforto à moda. Tinha notas razoáveis na escola, vez ou outra corava quando Malfoy lhe dava um raro elogio, xingava como um marinheiro do século dezenove e da mãe americana aprendera gírias que deixavam Draco confuso cada vez que ela as dizia.
Em contrapartida, Astoria também era leal aos amigos e não suportava ver as pessoas sofrendo. Sob o sarcasmo e a boca suja havia bastante compaixão e várias foram as vezes que Draco cruzou com ela no corredor durante um dos momentos de diversão dos irmãos Carrow (ou seja, humilhar crianças em público) e viu Greengrass morder o lábio inferior com força e fechar as mãos em um punho para impedir-se de fazer alguma coisa. Em outro dia talvez ela até enfrentasse os Carrow, mas no momento estava em desvantagem. Mesmo que vencesse a briga, haviam outros Comensais na escola que iriam atrás dela para vingarem os companheiros.
Logo, Astoria colocava a rara sabedoria Corvinal que possuía em prática, dava meia volta e continuava o seu caminho, fingindo que não viu nada.
- Acho que esta noite não serei boa companhia. — Draco a ouviu falar e viu que ela observava com uma expressão azeda a figura solitária que andava na orla da floresta.
Ao longe não dava para reconhecer direito quem era, mas Malfoy suspeitava ser Donald. A lua já não estava mais cheia, tinha entrado em sua primeira noite como minguante e após o ataque à Collins, Snape ordenou que a segurança fosse reforçada em torno da floresta para evitar que outro aluno se aventurasse entre as árvores e tivesse o mesmo destino que Michael. O problema era que o diretor encarregou essa tarefa as mesmas pessoas que foram responsáveis pela morte de Collins.
- Collins não vai ser o primeiro nem o último a perder a paciência e bater de frente com os Carrow, sendo punido por causa disto. — Draco comentou quando Astoria passou por ele em direção a porta de vidro que dava acesso a varanda.
- Eu sei.
- Então sabe que se lamentar por todos é bobagem. — Astoria trincou os dentes.
- Eu sei. Mas me deixe ser miserável apenas uma noite. Ser drama queen não é apenas privilégio seu bebê. — disse, dando à ele o seu usual sorriso de escárnio que, naquela noite, parecia um pouco mais apagado. Aquela situação realmente a tinha afetado mais do que Draco poderia imaginar.
- Boa noite então. — desejou com um suspiro e a viu desaparecer sala adentro.
Malfoy ainda ficou alguns minutos observando a lua minguante acima do lago e a figura ao longe sumir em uma curva da orla da floresta e logo depois ele mesmo deu meia volta e foi se recolher. Arriscava o seu pescoço quase toda a noite para ir para aquela sala por causa de Astoria, por causa da companhia que ela proporcionava. Sem ela ali, que graça teria ficar admirando a paisagem com os seus próprios pensamentos como companhia?
Por isso, vinte minutos depois que Greengrass se recolheu, Draco fez o mesmo, somente para acordar no dia seguinte com uma notícia que estava rodando a escola como um rastilho de pólvora e fazendo todos os alunos andarem em grupos murmurando sobre o assunto:
Amos Donald foi encontrado morto na orla da floresta com a cabeça separada do corpo e este praticamente carbonizado. E foi preciso muitos feitiços de reconhecimento para os professores finalmente obterem alguma identidade para os restos mortais.
Draco arregalou os olhos quando ouviu as novidades, imaginando quem seria sádico o suficiente para cometer uma barbaridade dessas. O próprio Greyback? Ele tinha fama para isso, pois deixara o lado animal do lobisomem praticamente sobrepor-se ao humano. Mas arrancar a cabeça e tacar fogo não fazia o estilo dele.
Algum professor? Não. Os únicos professores que teriam ímpetos de se vingarem de Donald eram os aliados de Dumbledore que permaneceram na escola mesmo após a invasão dos Comensais. E eles, assim como os alunos, mantinham-se quietos pois seriam mais úteis vivos do que mortos. Muitas das torturas infligidas aos estudantes foram impedidas pelas habilidades fenomenais com as palavras que McGonagall possuía. Além do mais, nenhum deles aparentava ter tal sangue frio.
- Como assim você não vem? — a pergunta em tom esganiçado tirou Draco de seus devaneios e o fez parar no momento em que ia dobrar uma esquina. Malfoy recuou um passo, usando a parede de pedra para ocultar o seu corpo, e inclinou um pouco a cabeça para permitir-se olhar além do corredor.
Daphne e Astoria estavam alguns passos mais a frente, com Daphne segurando uma bolsa de viagem verde musgo em uma das mãos e uma mochila nos ombros. Não estava uniformizada, o que indicava que não tinha nenhuma intenção de ir para as aulas naquela manhã.
- Não vou, simples assim.
- Astoria, eu não vou partir de Hogwarts e deixar você para trás. — Daphne disse em um tom histérico e Draco suspirou.
Mais um que deixava Hogwarts.
A evasão escolar estava se tornando moda dentro do castelo e Snape até agora não conseguiu descobrir como os alunos saíam da propriedade sem seres detectados. Alarmes deveriam disparar, Hogsmeade possuía feitiços que detectavam aparatações e chaves de portais não autorizadas. O Expresso de Hogwarts estava em Londres. Então, como esses alunos fugiam da escola?
- Eu não vou deixar Hogwarts quando há gente aqui que precisa de mim. — Astoria rebateu irritada e Daphne rolou os olhos.
- Se isso é sobre Michael Collins...
- Não ouviu os boatos irmã? Amos Donald foi encontrado com a cabeça decepada e o corpo carbonizado. — Draco viu Astoria dar a irmã aquele sorriso cheio de segredos e promessas de confusão e Daphne outra vez rolou os olhos.
- É, eu soube. — rosnou entre os dentes trincados e Malfoy teve a sensação de que as irmãs Greengrass tinham mais conhecimento sobre o assunto, sobre o que aconteceu com Donald, do que o próprio diretor e professores. — Astoria, se a questão é proteger os fracos e oprimidos, há outros aqui que farão esse trabalho por você.
Outros? Que outros? Ela falava da dita resistência criada pelos grifinórios e que ninguém via, apenas ouvia falar, e que vez ou outra sabotava as aulas dos professores Comensais, como se isso realmente fosse parar a guerra? Tolos inocentes era o que eles eram.
Astoria manteve-se quieta, não respondendo a pergunta da irmã.
- Por que você fica? — Daphne insistiu. — Por quem você fica? — Draco sentiu o coração acelerar no peito e uma doce ilusão começar a se formar em sua mente.
Desejava imensamente, mais do que pôde imaginar ser capaz de desejar, que Astoria estivesse ficando por ele. Estivesse se arriscando por ele. Era um pensamento egoísta, obviamente, mas Malfoy não era famoso por ser um sujeito desapegado. Era egoísta, admitia sem nenhuma vergonha e por egoísmo não queria perder Astoria. Perder os encontros noturnos na Torre de Adivinhação somente para jogar conversa fora e olhar a mesma paisagem. Perder os poucos momentos em que esquecia da guerra lá fora, que esquecia das máscaras que precisava usar, que esquecia da Marca Negra em seu braço, que esquecia até mesmo que era um Malfoy.
Astoria não se importava que ele era um Malfoy, ou um Comensal da Morte. Ela se importava que ele era Draco. E somente Draco.
A garota não respondeu a irmã que bufou e afastou-se dela um passo, estendendo a bolsa que segurava para a caçula.
- Você está louca? Onde acha que vou esconder isso? — Astoria sibilou.
- Se eu consegui na Sonserina, creio que na Corvinal será ainda mais fácil. — Daphne deu a Astoria o sorriso que Draco já tinha se habituado a ver no rosto da garota mais nova. Por um momento a sonserina pareceu hesitar depois de passar a bolsa para a irmã, mas logo tomou a sua decisão e puxando Astoria pelo ombro a trouxe contra o seu corpo em um abraço curto e desajeitado. — Se cuida irmãzinha.
- Boa sorte. — Astoria desejou de volta e Daphne assentiu brevemente e deu meia volta, disparando corredor abaixo e sumindo em uma esquina.
Draco esperou alguns segundos antes de finalmente sair do seu esconderijo e surgir no corredor, chamando a atenção de Astoria para si.
- Perdida? — perguntou displicente, como se não tivesse acabado de presenciar uma despedida entre as irmãs Greengrass.
Astoria somente encolheu os ombros como resposta e jogou a alça da bolsa sobre o ombro esquerdo.
- Ficou sabendo do Donald? — continuou. Greengrass havia ficado tão abalada e revoltada como qualquer outro aluno de Hogwarts quando ficou sabendo sobre Michael Collins. Portanto, ela estaria no grupo daqueles que não derramaria uma lágrima por Donald.
- Grande perda para a humanidade. — zombou, rolando os olhos e remexendo no bolso de suas vestes. — E antes que eu me esqueça. — estendeu para Draco um cordão de couro com um medalhão do tamanho de um sicle. — Feliz Natal.
Malfoy arqueou as sobrancelhas. Um presente? Astoria estava lhe dando um presente de Natal? Não que esse fosse grande coisa. Uma tira de couro com o dito medalhão na ponta. Este era feito de prata e possuía entalhado nele um símbolo semelhante a um sol e dentro deste sol havia um pentagrama.
Em outros tempos Draco torceria o nariz para a simplicidade da lembrança. Agora, a mesma era extremamente bem vinda e o fazia lembrar com vergonha que ele não tinha comprado nada para Astoria. E como poderia? O Natal perdera todo o significado para ele no segundo em que recebeu a carta de seu pai o intimando a ir para casa nas férias de inverno. Casa essa que ainda era habitada por um certo Lorde das Trevas.
- Eu... — as palavras ficaram entaladas na garganta de Draco quando ele recebeu o presente e rapidamente o prendeu no pescoço, escondendo o cordão e o medalhão sob a gola da camisa enquanto era observado por Astoria que pareceu muito satisfeita dele ter posto o presente em uso e não simplesmente o relegado a algum bolso de suas vestes escolares e esquecido lá.
- Não precisa esquentar a cabeça em retribuir, imaginei que tivesse esquecido mesmo. Mas lembre-se desta Dois de Maio.
- Por quê?
- É o meu aniversário e nesse dia se eu não receber nada de você, e de preferência bem caro, aí teremos problemas. — Draco engoliu uma risada diante da ameaça dela.
- Irá para casa nesse feriado? — Astoria fez uma careta.
- Não. Você? Não, não precisa me dizer, só pela expressão feliz que você acabou de fazer presumo que o tio da cara de cobra será o convidado de honra da festa, que haverá orgias sob a lua nova e sangue de bode será derramado sobre símbolos satânicos enquanto novas mentes perturbadas juram lealdade a um sujeito que nem nariz tem mais.
- A sua imaginação às vezes me assusta. — Draco comentou com os olhos largos e Greengrass riu, olhando a sua volta como se procurasse algo ou alguém, o que provavelmente não encontraria. Estavam em um dos poucos corredores de baixo movimento da escola. Era metade do café da manhã e os alunos ainda sussurravam pelos cantos sobre o que acontecera a Amos, enquanto professores se reuniam com agentes do Ministério na sala do diretor para descobrirem quem era o responsável pelo ocorrido.
Por alguma razão o bando de Greyback não mais patrulhava a escola. Acredita-se que o fato de um dos mais influentes da alcateia, e um dos mais fortes, ter sido decapitado e queimado dentro de uma escola que deveria ser segura para Comensais por estar sob o domínio desses, meteu-lhes um pouco de medo. Bem feito, era o que Draco achava com um prazer mórbido.
Greyback e os seus vira-latas se achavam grande coisa por serem mais ágeis e fortes que um ser humano comum, os tornando ótimos batedores e caçadores, e ainda tendo como auxílio a magia que eles desrespeitavam com os seus atos animalescos e desumanos.
- Bem... — Astoria pareceu satisfeita com o que quer que não tenha visto no corredor e deu um passo largo na direção de Draco, envolvendo o pescoço dele com um braço e o pegando de surpresa ao puxá-lo contra o seu corpo menor.
O abraço, como dado mais cedo por Daphne em Astoria, foi desajeitado e breve e mal havia começado, foi encerrado por Greengrass que se afastou com as bochechas levemente rubras e os olhos mirando todos os pontos do corredor, menos o rosto de Malfoy.
- Se cuida Malfoy. E não deixa o babaca da cara amassada zoar com você. — as gírias americanas de Astoria que deixavam Malfoy tonto estavam dando alô de novo.
- Como é? — a garota riu da expressão confusa dele.
- Fique firme e não deixe Você-Sabe-Quem te ferrar.
- Mais fácil falar do que fazer.
- A pessoa só terá poder sobre você se você der a ela esse poder.
- Estamos falando do Lorde das Trevas, Greengrass. Ele não pede exatamente permissão para fazer as coisas. — resmungou e Astoria lhe deu no braço o que deveria ser um soquinho, mas a garota era mais forte do que aparentava ser e o gesto de camaradagem com certeza deixaria uma mancha roxa em Draco.
- Então faça o seguinte: fique quieto, de cabeça baixa e diga sempre “sim senhor” que talvez você sobreviva ao Natal.
- Talvez?
- Eu tenho esperanças. Espero vê-lo de novo depois do feriado Malfoy. Se você morrer... — ela o olhou seriamente e Draco engoliu em seco. — saiba que eu conheço pessoas em lugares que me ajudariam de bom grado a ir para o buraco para onde a sua alma for arrastada apenas para me dar o prazer de chutar o seu traseiro ossudo. — e Malfoy não duvidou disso. Não quando ela o olhava com os olhos verdes carregados com um brilho de determinação.
- Sim senhora. — zombou e ela riu.
- Está aprendendo bebê. Está aprendendo. — gracejou, dando a volta por ele e indo saltitando corredor abaixo.
- Ah! E Astoria? — isso a fez parar em um tropeço. Nos meses em que conviveram um com o outro, se encontrando na surdina na Torre de Adivinhação, eles sempre se chamavam pelo sobrenome, nunca pelo nome, então não era à toa que a jovem tenha ficado surpresa. — Não me chame de bebê. — disse quando ela o olhou por cima do ombro.
- Como quiser... Bebê. — provocou e virou a esquina rapidamente, antes que Draco pudesse reagir, com a sua gargalhada ecoando por um bom tempo nas paredes de pedra do castelo.
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