MATLOCK, INGLATERRA – Agora

Havia um garoto apontando uma arma para Harry. Provavelmente oito anos, quase nove, a mesma idade que o seu filho James, a mesma altura também. O menino tinha cabelos dourados, era pálido, de rosto arrendondado e com sardas pintando as bochechas e o nariz. Os olhos eram cinzentos, vestia calça jeans, moletom e tênis e as mãos pequenas seguravam com uma firmeza impressionante a espingarda mirada no peito de Potter.

– Harry?! — Ron chamou do lado de fora do quarto e Harry percebeu que ficara mais de um minuto encarando de maneira abobada e em silêncio o menino que não se mexera um milímetro que fosse.

– Está tudo bem! — gritou para o amigo, torcendo para que ele não resolvesse entrar no quarto. A criança armada não parecia estar para brincadeiras. Não se os olhos estreitos que o miravam eram alguma indicação.

Potter presumiu que o garoto fosse trouxa, pois ele não parecia nem um pouco intimidado com a varinha erguida em sua mão e quando Harry moveu um centímetro para o lado, trocando o peso do corpo de uma perna para a outra, o menino ergueu mais a espingarda em um gesto de ameaça. Harry prendeu a respiração e lentamente ergueu as mãos no gesto universal de rendição, mas isso não pareceu impressionar o garoto.

– Eu não vou machucar você. — disse com a voz mais suave e calma que conseguiu encontrar, a voz que costumava usar para ninar Lily após a menina ter um pesadelo. A voz que transmitia a sua filha tranquilidade e segurança, mas que não estava causando nenhum efeito no garoto no meio do quarto.

– Benny? — o chamado em uma voz miúda fez Harry piscar repetidamente e desviar o olhar do menino com a espingarda para as camas atrás dele.

O auror não havia percebido antes, mas em uma das camas, a que estava mais próxima da parede dos fundos do quarto, havia um pequeno monte de cobertas. Um monte que se mexeu e mostrou ser outra criança.

– Benny? — a segunda criança chamou mais uma vez, chutando as cobertas e revelando-se para Harry.

Era um menino também. Talvez quatro, cinco anos, a mesma idade que a sua pequena Lily. Era diferente do garoto mais velho, pois tinha cabelos castanhos e grandes olhos verdes, mas usava roupas parecidas com as do menino armado.

– Drew! Atrás de mim! — Benny, Harry supôs que esse fosse o Benny, ordenou. E Drew, ao ver que havia mais alguém no quarto além deles, arregalou os olhos, saiu aos tropeços da cama e correu para trás do garoto mais velho. — Eu sugiro que o senhor dê meia volta e saia por onde veio moço. — Benny rosnou entre dentes, os olhos sempre fixos em Harry e observando todos os movimentos dele.

– Harry?! — mais uma vez Ron chamou do lado de fora da porta. — O que está acontecendo aí dentro?

– Ron! — ele respondeu em um tom levemente desesperado. Havia algo nos olhos de Benny, no modo em como ele empunhava a arma, colocava o seu corpo maior na frente de Drew, que dizia ao auror que o menino atiraria se Harry respirasse de maneira errada. E Potter, sinceramente, não queria ver escrito em seu epitáfio:

Aqui jaz Harry Potter, aquele que derrotou o Lorde das Trevas e foi derrotado por um garoto de oito anos.

– Ron! Fique onde está, eu lido com isso. — ao menos esperava.

– Eu vou contar até três moço. — Benny ameaçou e Harry respirou fundo.

– Benny, certo? — Benny estreitou ainda mais os olhos na direção de Harry enquanto Drew fechava os dedos nas costas do seu moletom. — Onde estão os seus pais? — o auror perguntou da maneira mais amigável que conseguiu, tendo como resposta somente o olhar atravessado de Benny.

– Benny. — Drew sussurrou às costas de Benny, ou ao menos tentou, pois Harry ainda o ouvia com clareza. — Ele é um monstro? — perguntou com olhos largos, vez ou outra espiando Potter por sobre o ombro do menino mais velho.

– Só há um meio de descobrir. — Benny ergueu mais a espingarda e Harry ergueu mais as mãos.

– Espera! — Harry gritou e Benny hesitou. — Seja lá o que vocês achem que eu seja, garanto que não sou. — o garoto soltou uma risada de escárnio.

– É o que todos eles dizem. — e voltou a erguer a arma, com o dedo perigando a pressionar o gatilho. — Largue a varinha. — ordenou e Harry se surpreendeu. Talvez o menino não fosse tão trouxa quanto pensou, sem trocadilhos.

– Sabe o que eu sou? — perguntou, dando um minúsculo passo à frente, o que fez Benny recuar outro, levando Drew consigo.

– A varinha! Largue! — ordenou mais uma vez, mas Harry pôde perceber um leve tremor na voz do menino. Benny parecia estar perdendo a convicção, o que fez Potter respirar aliviado.

Empunhando uma arma ou não, Benny ainda era uma criança e por mais corajoso que fosse, com certeza ainda hesitaria em atirar em um homem adulto, mesmo que fosse em legítima defesa.

– Benny, eu realmente não quero te machucar, apenas ajudar. — Harry deu outro passo à frente e Benny arregalou os olhos, dando três passos para trás e praticamente arrastando Drew consigo.

– Não me interessa! Eu quero que você saia daqui! Agora! — as mãos pequenas segurando a arma começavam a vacilar e Potter pensou que talvez só mais um pouco, se ele conseguisse conversar com Benny só mais um pouco seria capaz de desarmá-lo e finalmente descobrir o que estava acontecendo ali.

– Benny...

– Para de dizer o meu nome! — Benny vociferou. — E largue a varinha!

– Eu realmente acho que não... — um clique soou atrás de Harry e um cano frio encostou na parte detrás de sua cabeça, seguido de uma voz arrastada e absurdamente familiar.

– Eu sugeriria fazer o que ele mandou Potter.

Harry arregalou os olhos e fez menção de se virar, mas a arma foi pressionada com mais força em sua cabeça, o fazendo ficar parado no lugar.

– Nem pense nisso Potter. Largue a varinha! — veio a ordem e Harry perdeu o fôlego.

Se era Malfoy às suas costas, e ele tinha certeza que era, então ele havia passado por Ron, pois Potter não ouvira nenhum som de aparatação. Então a probabilidade era a de que Ron... Harry sentiu o coração falhar uma batida no peito.

– Ron... — balbuciou, com pânico e raiva crescendo dentro de si.

– Weasley no momento está no mundo dos sonhos e quando acordar desejará não ter feito. Largue a varinha Potter! — mandou mais uma vez e, vendo-se em desvantagem, Harry soltou a varinha. — Mãos nas costas.

– O quê?

– Potter, talvez a sua situação não esteja exatamente clara aqui. Está desarmado e eu estou apontando uma 9 mm para a sua cabeça. Diretamente para a sua cabeça. E, diferente de Benny, eu não vou hesitar em atirar.

– Seria capaz de atirar em mim na frente de crianças? — Harry debochou.

– Sou um assassino procurado, esqueceu Potter? Você ficaria chocado com o que eu sou capaz de fazer. — a voz gélida causou um arrepio de temor que desceu pela espinha de Potter. — Mãos nas costas. — mandou e desta vez Harry obedeceu, sentindo um par de algemas fechar em seus pulsos e logo depois a arma afastar-se de sua cabeça. Mas o auror não se enganava em pensar que ela não estava mais apontada para si. — Caminhe vagarosamente para o outro lado do quarto. — Potter trincou os dentes e fez o que Malfoy mandou, caminhando lentamente pelo quarto, passando por Benny que ainda empunhava a espingarda e Drew que escondia-se atrás dele, até chegar a parede oposta, onde virou para finalmente encarar Malfoy.

E o que viu o pegou de surpresa.

Malfoy era mais diferente ao vivo do que na foto capturada pela câmera de segurança.

Os cabelos platinados agora eram em um tom de loiro mais escuro e estavam despenteados. Ele usava um casaco de moletom sob uma jaqueta jeans, calças jeans e botas de escalada. Havia ficado mais alto do que na época de escola, os ombros estava mais largos, o rosto não era mais tão pontiagudo e os olhos cinzentos mais escuros que o de costume. Segurava a arma com firmeza na mão esquerda e o dedo no gatilho indicava que qualquer gracinha de Harry, ele iria disparar.

– Ben, Drew, para o carro. — ordenou aos dois meninos e Harry viu Drew correr e calçar um par de tênis que acendia quando ele pisava no chão, recolher uma mochila do Batman sobre uma das cadeiras do quarto e sumir porta afora. Benny logo o seguiu, depois de pegar uma mochila ao pé da cama com o logo do Ben 10, receber de Draco um molho de chaves enquanto em troca entregava para ele a espingarda.

Malfoy nem ao menos virou-se para ver as duas crianças desaparecerem pela porta, confirmar se elas tinham realmente ido para o carro, apenas permaneceu com os olhos fixos em Harry enquanto recuava pouco a pouco em direção a saída e parava perto do batente da porta.

Draco dobrou os joelhos levemente, largando a espingarda sobre uma das duas bolsas de viagem que Harry não havia reparado antes, e segurou nas alças de ambas, as trazendo consigo quando ergueu-se mais uma vez a sua altura original. Potter, por seu lado, ao perceber que estava prestes a deixar um fugitivo da justiça escapar mais uma vez, fez de tudo para se soltar das algemas que o prendia. Afinal, mesmo sem varinha ele ainda tinha magia e conhecia um feitiço ou outro não verbal e que não necessitava de varinha. Principalmente feitiços para arrombar coisas.

O problema é que quando ele tentou fazer isto com as algemas, essas apenas esquentaram de maneira perigosa, queimando os pulsos de Harry e o fazendo pular no lugar.

Malfoy deu um sorriso escarninho diante da reação dele.

– Potter, Potter, Potter. Um conselho para você: há coisas na vida que nem mesmo Hogwarts ensina. — zombou e com a arma ainda apontada para Harry, saiu do quarto.

Harry correu assim que Draco sumiu porta afora, na estúpida tentativa de conseguir impedi-lo, mas ao passar pelo batente encontrou um Ron desacordado e Malfoy acabando de jogar as bolsas dentro do carro. E entrando no mesmo, posicionou-se atrás do volante, bateu a porta do lado do motorista, deu a partida e saiu do estacionamento cantando pneus.

E foi somente quando o Land Rover desapareceu ao dobrar em um cruzamento que Potter deu-se conta de uma coisa:

Aparentemente, Scorpius e Nico Malfoy não estavam tão mortos quanto o Ministério pensou.

HOGWARTS, ESCÓCIA – 13 anos antes

O feitiço estourou na parede acima da cabeça de Astoria, mas isso não a fez diminuir nem um pouco a velocidade de sua corrida. Pelo contrário, a garota apenas acelerou os passos e quando outro feitiço passou zunindo perto de sua orelha que ela reagiu.

Astoria girou sobre as solas dos sapatos, com a varinha já erguida na direção do seu atacante.

Incarcerous! — gritou e cordas surgiram em pleno ar e começaram a envolver o Comensal como uma cobra prestes a esmagar o almoço.

A garota não perdeu muito tempo no mesmo lugar. Rapidamente deu as costas para o seu atacante, antes mesmo que o corpo desse chegasse ao chão, e voltou a correr.

Um segundo depois dobrou uma esquina, parando de supetão ao ver que o corredor na sua frente parecia uma zona de guerra. Literalmente.

Aliás, Hogwarts inteira estava em guerra desde o momento em que o diretor Snape convocou todo os alunos após o jantar para irem ao Salão Principal porque, aparentemente, Harry Potter encontrava-se dentro da escola.

Os estudantes saíram de suas salas comunais e marcharam até o Salão como se estivessem em um colégio militar, formando fileiras silenciosas em frente ao diretor que começou um discurso sem noção sobre haver um traidor entre eles. Então Harry Potter deu as caras e a confusão foi generalizada quando Potter disse à todos que Snape havia matado Dumbledore.

Um duelo começou, Snape fugiu com o rabo entre as pernas e a voz de Você-Sabe-Quem ecoou por toda a escola como um agouro. O que não deixou de ser verdade, pois pânico se instalou logo em seguida, os professores aliados de Dumbledore correram para reforçarem as barreiras da escola, minutos depois uma explosão fez tremer todo o castelo e a batalha final começou.

Nesse ínterim, Astoria já tinha dispersado com os outros alunos a procura de uma pessoa em específico: Draco Malfoy.

Draco havia sido intimado a retornar para casa durante o feriado de Páscoa, sabe-se lá por quê, e desde então Astoria não o viu mais.

Por isso que agora ela corria desesperadamente por corredores sendo destruídos em duelos entre Comensais, aurores, estudantes e aliados de Dumbledore. Pela quarta vez naquela noite ela desviou de um feitiço errante que não a acertou por pouco e por isso não viu o pedaço de pedra no meio do caminho.

O tombo foi doloroso, fez as costelas de Greengrass estalarem com o impacto, ralou os seus joelhos e as palmas de suas mãos e tirou-lhe o ar dos pulmões. Com um gemido ela tentou se levantar, apenas para gritar de dor quando um feitiço a atingiu no quadril e a arremessou longe. O segundo impacto, desta vez contra uma parede, fez uma dor aguda e lancinante descer pela espinha de Astoria.

Ela tentou se levantar mais uma vez, piscando os olhos para se livrar das lágrimas e desembaçar a visão. E quando isso aconteceu, ela desejou ficar momentaneamente cega.

O rosto deformado de Fenrir Greyback estava na sua frente, com o seu hálito podre que fez mais lágrimas voltarem aos olhos dela. Ele sorria de maneira macabra, com dentes amarelados e caninos mais afiados do que os de um ser humano normal. A varinha em punho estava apontada diretamente para a testa de Astoria e ela percebeu com horror que a sua própria varinha estava a metros de distância. Completamente fora do seu alcance.

Astoria encolheu-se contra a parede, esperando que, de alguma maneira, a pedra se abrisse e a engolisse. Nada aconteceu e a cara feia de Fenrir continuava na sua frente. O sorriso dele ficou mais largo, com certeza adorando a expressão de desespero no rosto da jovem, enquanto farejava a apreensão e medo emanar de cada poro do corpo dela.

Fenrir afastou-se um passo e ergueu mais a varinha. Astoria engoliu em seco. Estava prestes a ser morta por um lobisomem disfarçado de bruxo e com certeza a sua mãe teria um chilique se a visse agora. E foi pensando nisto que Greengrass inspirou longamente e lançou o seu melhor olhar arrogante para Greyback, que franziu a testa ao ver a mudança repentina na garota. Mesmo assim ele não abaixou a varinha um milímetro e a mesma começou a brilhar com o feitiço que daria cabo em Astoria.

Entretanto esse não veio. O que veio foi um estampido que ecoou por todo o corredor e que fez Fenrir tropeçar, quase cair sobre Astoria, soltar um rosnado irritado e olhar por sobre o ombro.

Daphne estava na entrada do corredor com uma espingarda em punho, a qual ela engatilhou. A sua coxa direita estava envolta em trapos ensanguentados. Os cabelos loiros estavam presos em um rabo de cavalo, usava calça jeans, tênis, camiseta e por cima desta uma camisa de flanela de botões. Presa na cintura havia uma faca de caça e a expressão dela não era das mais felizes.

– A minha irmã não seu animal! — grunhiu, atirando novamente sobre Greyback que recuou mais uma vez diante do impacto da bala, afastando-se mais um passo de Astoria. O lobisomem rosnou ameaçador, mas Daphne nem se abalou com os enormes caninos apontados em sua direção.

Fenrir ergueu varinha e a mirou em Daphne que não permitiu que ele nem tomasse fôlego para proferir o feitiço, apenas engatilhou novamente a espingarda e atirou, repetindo o gesto umas três vezes até que Greyback recuou mais alguns passos, cambaleante, abaixou o braço, deixando a varinha cair e rolar no chão enquanto sangue borbulhava por entre lábios secos, e caiu de joelhos em frente a garota cuja arma ainda estava erguida.

Astoria aproveitou a situação para colocar-se de pé e recolher a sua varinha antes perdida, indo para o lado da irmã assim que Greyback caiu de joelhos em frente a Daphne depois da saraivada de tiros que recebeu. Os olhos da corvinal permaneceram no lobisomem durante todo o percurso até chegar a Daphne, parando ao lado da irmã, mas Fenrir não reagiu a movimentação dela. Os seus olhos vidrados estavam fixos na mais velha das irmãs Greengrass, fazendo par com uma expressão chocada como se não acreditasse em ter sido derrotado por uma criança.

– Do que eram feitas essas balas? — Astoria perguntou, sentindo-se a cada segundo ainda mais incomodada com o olhar vazio de Greyback sobre ela.

– Prata com acônito. — Daphne respondeu e Astoria soltou um assovio baixo enquanto via a irmã ir até Fenrir e cutucá-lo com a boca do cano da espingarda na testa. Greyback balançou diante do cutucão para logo em seguida o seu corpo tombar para o lado, sem vida. — Acho que ele morreu. — Daphne zombou e Astoria rolou os olhos.

– Sério mesmo?

– Muito cedo para as piadas? — Astoria não a respondeu. Até porque naquele exato momento a voz de Voldemort novamente soou pela escola como um agouro trazido pelo vento, anunciando a morte de Harry Potter.

– Isso, definitivamente, não é bom. — comentou Astoria enquanto Daphne apontava a espingarda para o chão, dava um relance pela janela do corredor, para o pátio abaixo desta e que era iluminado pelo sol que terminara de nascer e por onde vinha uma procissão de Comensais da Morte liderados por um Voldemort triunfante. Ao lado do Lorde das Trevas estava Hagrid que carregava em seus braços o corpo de Harry Potter.

– Vamos! — comandou Daphne, segurando a irmã pelo punho e a puxando.

– Para onde? — protestou Astoria, deixando-se arrastar pela irmã que mancava e cujo ferimento na perna havia voltado a sangrar.

– Embora. Você não acredita que eu voltei à Hogwarts, quase virei brinquedinho de troll, para lutar com os amiguinhos de Dumbledore, acredita? — Astoria rolou os olhos diante do sarcasmo da irmã. Às vezes esquecia que Daphne era uma sonserina até a alma, apesar de não parecer. Além de ser super protetora e extremamente mandona.

– Não! — Astoria disse convicta, soltando-se da mão da irmã e recuando um passo.

– Astoria. — Daphne soltou exasperada. — Caso você não ouviu, Potter morreu. A guerra acabou e não foi bem o melhor lado que venceu. Agora é salve-se quem puder.

– Ainda não. — havia uma razão pela qual Astoria estava correndo desesperadamente por entre bruxos duelando e escombros do castelo. Precisava encontrar Draco, fazer com ele o que Daphne tinha vindo fazer com ela ao retornar para Hogwarts para buscá-la. E não sairia dali sem ele.

– Seja quem ele for, já informo que não o aprovo. — Daphne resmungou e Astoria abriu um largo sorriso, aproximado-se da irmã em um pulo e sapecando um beijo na bochecha dela. — Tome. — continuou, retirando do cós da calca uma automática e entregando a garota mais nova.

Uma explosão tremeu toda a escola mais uma vez e gritos ecoaram, vindos de todos os lados. Pela janela, as garotas viram as luzes de feitiços cruzando o pátio lá em baixo e Daphne arriscou uma espiada pelo parapeito.

– Hum, quem diria. Potter não está tão morto assim. — resmungou e Astoria riu, prendendo a arma na parte de trás da calça de seu uniforme coberto de fuligem. Daphne soltou um suspiro sofrido e apoiou a espingarda no ombro. — Eu vou fazer uma ronda, ver se caço mais alguma coisa. — Astoria mirou o rosto pálido da irmã e depois desceu os olhos para o ferimento na perna dela. — Isto? Um arranhão. — a corvinal sacudiu a cabeça em uma negativa, soltando um suspiro exasperado. Era bem a cara de Daphne ignorar os seus ferimentos. Ela poderia ter uma faca atravessada no coração que diria que não era nada.

– Tome cuidado. — desejou a menina mais nova, sabendo que não adiantaria argumentar com a sonserina quando ela estava no modo caçada.

As irmãs se separaram em uma intercessão e Astoria seguiu caminho para o Salão Principal onde parecia que a batalha principal estava acontecendo, se os sons ecoando pelas paredes fossem alguma indicação. Freou em sua corrida ao dobrar uma esquina e ver um corpo dar um voo raso e desaparecer escada abaixo. As vestes negras emboladas a membros não a possibilitou diferenciar o desconhecido de Comensal, auror ou aluno, mas quando ela se virou e viu que no oposto do corredor estava a Dama Cinzenta, também conhecida como Helena Ravenclaw, segurando uma varinha espectral, Astoria deduziu que o Lorde das Trevas tinha acabado de perder mais um aliado.

Helena assentiu para a jovem, que se perguntou como um fantasma tinha conseguido manifestar magia, mas resolveu deixar esse assunto para mais tarde quando outra explosão soou pelos corredores, um grito gutural a acompanhou e então veio o silêncio.

Astoria parou de súbito, arfando e esperando apreensiva pelo que viria a seguir. Da última vez que o silêncio imperou no meio da batalha, Você-Sabe-Quem tinha acabado de anunciar a morte de Harry Potter.

Mas então, gritos vieram de todos os cantos. Gritos de alegria, de comemoração, e o som de passos frenéticos e aparatação acompanhou os gritos. Greengrass olhou pela janela do corredor para ver Comensais fugindo e aurores os perseguindo, conseguindo capturar uns e perdendo outros. Tentou divisar entre a horda desesperada familiares cabelos loiros platinados, mas não encontrou nada. O coração de Astoria parou no peito. Draco tinha que estar vivo, ele precisava estar vivo.

Com passos quase arrastados, ela continuou o caminho mais do que familiar para o Salão Principal. Desceu as escadas de degraus destruídos e com um corpo ou outro caído. Passou por professores e alunos, aurores e outros bruxos, até que chegou as grandes portas duplas do Salão.

O movimento dentro desse era intenso. As pessoas levitavam os corpos de companheiros caídos e os alinhavam ao canto da parede, os cobrindo com lençóis conjurados. Quatro aurores montavam guarda ao lado de um corpo em particular. Um corpo que com certeza deveria ser o de Voldemort.

Astoria viu de rabo de olho os cabelos ruivos dos Weasley, acompanhados do próprio Potter que recebia vários parabéns ao mesmo tempo em que era atendido pela Madame Pomfrey. O som de choros chegou aos seus ouvidos, alunos que lamentavam a perda de colegas de escola. Viu Daphne sentada ao lado de um grupo de primeiro anistas da Lufa-Lufa. A espingarda não estava mais em suas mãos, mas estava por perto, com certeza camuflada por algum feitiço. E pelo modo com que os lufa olhavam para ela com surpresa e idolatria, tinha certeza de que apesar de toda a falação, Daphne fizera o que foi ensinada desde berço a fazer: salvar os inocentes dos monstros da noite.

Bruxos começaram a aparatar dentro de Hogwarts, cujas defesas tinham ido ao chão fazia tempos. Mais aurores, curandeiros e familiares de alunos. Astoria continuou a sua procura, desesperando-se a cada segundo em que não conseguia encontrar entre a multidão quem procurava.

Mas então, depois de dois minutos rodando no mesmo lugar, é que ela viu. Três cabeças loiras encolhidos em um canto e isso fez o seu coração vir à boca, os seus olhos encherem de lágrimas e um grito escapar dos seus lábios:

– DRACO!

Draco Malfoy estava encolhido entre o pai e a mãe, abraçando os joelhos e escondendo o rosto entre eles quando ouviu alguém chamar o seu nome. Em um estalo, ele ergueu a cabeça e percorreu os olhos cinzentos pelo Salão. E foi quando ele a viu.

Os cabelos castanhos em desalinho chicoteavam o rosto de Astoria enquanto ela corria em sua direção. O lado esquerdo da face estava manchado de sangue já seco e cuja origem era um corte no supercílio. O robe do uniforme estava rasgado, assim como a calça possuía rasgos nos joelhos que estavam ralados. Ela estava coberta de poeira e lágrimas faziam uma trilha pelas bochechas sujas. E, mesmo assim, Draco achou que ela era a visão mais bela que teve naquele dia. Talvez em toda a sua vida.

Durante a batalha, entre o desespero e uma última tentativa frustrada de voltar as boas graças do Lorde das Trevas ao capturar Potter, durante o fogo na Sala Precisa, o seu resgate pelo próprio rival e a morte de Crabbe, o único pensamento que lhe passava na cabeça era se Astoria estava viva. Ela precisava estar viva. Quando Potter o tirou da Sala Precisa, Draco não perdeu tempo chorando a perda de Crabbe, apenas disparou pelos corredores da escola, procurando em cada corpo de aluno caído o rosto de Astoria e agradecendo a todas as divindades quando não o encontrava.

E agora ali estava ela, vindo em sua direção com um brilho de pura felicidade no rosto. Felicidade por vê-lo. Felicidade em saber que ele também estava vivo. E Draco só teve uma reação:

Levantou-se do chão em um pulo e quando Astoria aproximou-se o suficiente, a segurou pelo pulso e a puxou contra si, selando os lábios dela com os seus.

Draco a sentiu ofegar contra a sua boca um segundo antes dos braços dela o envolverem pelo pescoço e grudar os seus corpos de modo que nem uma brisa de ar era capaz de passar por entre eles, tornando um beijo que começou de maneira suave e desajeitada em algo sedendo e desesperado.

Quando se separaram, ambos estavam ofegantes, sob os olhares chocados de alguns bruxos que os rodeavam e sorriam feito dois idiotas.

– Ah, Astoria? — Draco murmurou, apoiando a testa na dela.

– Hum...?

– Feliz aniversário. — Astoria piscou várias vezes antes de cair na gargalhada.

– E o meu presente? — provocou e Draco a beijou de novo.

O presente podia esperar.