A Canção de Morgana

17 Pratas, Opalas e Intimações


Notas iniciais
Visto que faz um tempinho desde a última atualização, resolvi fazer um resumo de tudo que aconteceu na fic até então e facilitar a vida para quem estiver meio perdido/esquecido. Espero que ajude :P Férias de verão: A ‘namorada de Duda’ tenta sequestrar Harry na casa dos Dursley usando métodos touxas. Ele é ‘salvo’ por Bellatrix, que no último minuto recebe uma ordem de Voldemort para não levá-lo com ela. Harry vai para a casa de Remus, onde ele descobre que Sirius tem uma filha, ou ainda, duas. Harry é convidado para a cerimônia de nomeação do Ministério, onde um ataque acontece, com a morte de vários novos aurores nascido-trouxas. Nesse mesmo evento, Sirius retorna do véu e lhe entrega um punhal misterioso. Gina é atacada por um dragão na reserva da Romênia e fica em estado grave no hospital. Harry retorna a escola e descobre que a Senhora do Lago de Avalon foi a responsável por fazer Voldemort desistir de sequestrá-lo. Segundo sua visão, o punhal que Harry recebeu é algo para ajudá-lo contra Voldemort, e isso deixou o Lord das Trevas com medo. Anne tenta ‘ler’ o passado do punhal e descobre que ele foi enviado por Morgana LeFay, muitos séculos antes. Enquanto isso, Bervely tenta emboscar Charlotte e acaba sendo enviada para Azkaban, acusada de cúmplice na fuga de Sirius e da tentativa de sequestro de Harry Potter. Charlotte, a segunda suspeita deste último crime, não só caminha livre como tenta adquirir a confiança de Theodor Shadowtamer, agora suspenso de suas atividades de auror e buscando justiça. Por fim, atenção ao fato que os acontecimentos desse cap se desenrolam duas semanas depois do último, em que vimos Charlotte e Theodor ‘interagindo’. Boa leitura!

Outubro, duas semanas depois.

O dia da primeira visita à Hogsmeade amanheceu tão tempestuoso quanto o humor de Anne nos últimos dias. Ela levantou de má vontade por volta das nove horas, sabendo que Colin estaria lhe esperando impaciente no salão comunal, e fez uma trança desajeitada no cabelo ao invés de penteá-lo. Tateando seu caminho pelo quarto, ela vestiu seu suéter quentinho preferido e uma jaqueta jeans, depois ficou por uns cinco minutos tentando decidir se colocava ou não um gorro. Demorou mais uma eternidade para decidir se colocava o seu velho gorro da corvinal, ou o novo vermelho e dourado da Grifinória. Por fim, decidiu por um terceiro que Luna lhe dera, que ela se lembrava de ser verde claro com dois pompons na ponta, e parecia ter sido roubado de um filhote de duende.

— Minha nossa, mas que demora! — Colin reclamou no minuto em que ela pisou no Salão Comunal. Como continuou sem conseguir ver nada por detrás dos óculos, foi fácil saber que Harry não estava por perto. Anne deu um suspiro, puxando a varinha a fim de conjurar o feitiço-guia, mas Colin deu uma batidinha em sua mão e lhe ofereceu o braço — Não, aqui.

— Obrigada — ela segurou o braço dele na altura do cotovelo, sendo guiada para fora do salão comunal da Grifinória pelo garoto que era um tantinho mais baixo do que ela — Mas Colin, sobre Hogsmeade hoje…

— Nem comece, já tenho tudo planejado para sua fabulosa introdução ao fabuloso único vilarejo bruxo da Grã-Bretanha! Vamos fazer o percurso clássico, Zonkos, Dedosdemel, pausa no Três Vassouras para uma cerveja, depois a passagem na Casa dos Gritos, a casa mais mal assombrada do país, e então…

Ele não parou de falar enquanto atravessavam o castelo até o térreo, onde ficava o Salão Principal. Logo na base das escadas alguém os interrompeu; pela voz, Anne achou que era um aluninho mais novo da Grifinória que se chamava Austin Piper.

— Olá, vocês são amigos de Harry Potter, certo?

— Você poderia dizer isso — disse Colin alegremente — afinal Harry e eu temos um histórico. Por quê, qual o problema?

— O professor Dumbledore pediu para eu entregar uma mensagem para ele, mas eu… — a voz de Piper estremeceu — Eu, hum, estava indo na direção contrária, então se vocês puderem…

— Claro, dá aqui! — Colin fez um movimento, Anne adivinhou que ele estava pegando a mensagem com o segundanista.

— Obrigado! — ela ouviu o mais novo dizer com um enorme alívio e se afastar. Colin riu, continuando a se mover e levando Anne com ele.

— Dá pra acreditar nesses primeiranistas com medo de Harry Potter? — ele soprou, achando graça.

— Você também tinha medo dele quando era primeiro ano, se bem lembro — ela o alfinetou, sentindo-o ficar na defensiva.

— Não era medo! Era outra coisa, totalmente diferente.

— Completo horror? — ela brincou — Foram três semanas de agonia antes de você pedir aquele autógrafo, nós tínhamos que ouvir tudo sobre a sua luta interna nos intervalos do clube de vôo…

— Autógrafo esse que ele nunca me deu, aliás. Você bem que podia conseguir para mim, não é, agora que vocês dois estão todo amiguinhos e tal.

Anne rolou os olhos mesmo sabendo que ele não podia ver o movimento. Tinham chegado ao salão principal onde grande parte da escola estava tomando o café da manhã; a luz invadiu seus olhos, fazendo suas pupilas doerem com a dilatação abrupta, e ela soube que o assunto de sua conversa com Colin estava sentado em algum lugar por ali. Não foi difícil achá-lo entre Rony e Hermione; Rony falava alguma coisa brandindo uma salsicha espetada no garfo, Harry se inclinava para fazer um de seus típicos comentários sarcásticos. Ela sabia que era um, pelo jeito característico que o canto da boca dele subia.

— Aqui, deixo você fazer as honras — Colin enfiou na mão dela o pedaço de papel que acabara de receber do primeiranista no corredor.

Colin — ela repreendeu sem acreditar — Por que você pegou a mensagem do garoto se não ia querer entregar?

— Eu pensei que conseguia lidar com isso no café da manhã mas parece que não, não antes da primeira xícara de café. Você tem sorte, amiga, não precisa ser exposta ao perigo daqueles olhos verdes. Aqui, eu te coloco na direção, você só precisa seguir reto.

— Você é inacreditável.

Ele deu uma risadinha — Não se esqueça que ainda quero o meu autógrafo.

Anne suspirou alto para deixar claro que estava revoltada com a designação, depois deixou que Colin indicasse a direção que precisava seguir para chegar até Harry na outra ponta da mesa. Já fizera alguns planos para contar ao amigo que podia enxergar na presença de Harry, mas ainda não tinha uma explicação coerente para o fenômeno e ela acabava não dizendo coisa nenhuma. Sabia que ele, e especialmente Luna estavam começando a desconfiar de sua destreza seletiva nas horas das refeições e achou que em breve precisaria de um plano.

— … seríamos grandes companheiros se eles não insistissem em me liquidar — ouviu Harry dizendo quando se aproximou o suficiente.

Ela respirou fundo, encarando o topo de cabelos muito preto e bagunçados a sua frente antes de chamá-lo num tom que achava que era casual.

— Ei, Harry, parece que Dumbledore mandou isso para você.

— Anne! Boa dia — ele ainda tinha o resquício do sorriso proveniente da conversa, que se ampliou mais quando a viu. Pegou a carta na mão dela e desenrolou; Colin estava certo, aqueles olhos era demais para se lidar de barriga vazia — Obrigado… é a próxima aula de Dumbledore! — ele disse feliz. — Hey, você está indo pra Hogsmeade? Quer se encontrar com a gente lá?

— Estou indo com Colin e Luna — disse ela, pega de surpresa — Talvez a gente se veja lá?

Ela e Colin se encontraram com Luna mais tarde, às portas do castelo. Filch estava verificando os nomes dos alunos que tinham permissão de ir à Hogsmeade e checando todo mundo três vezes com seu sensor de segredo. Pela segunda vez — a primeira fora no dia da chegada em Hogwarts — o zelador implicou com o seu colar, olhando com desconfiança a Orbe de Parlaisa que usava como pingente.

— Eu já expliquei da outra vez, é só um amuleto de proteção — lembrou ao zelador, sem paciência.

— Mas o meu sensor está apitando! — rosnou ele desconfiado.

— O seu sensor deve estar quebrado — disse com a cara fechada. O vento gelado entrando pela gola do seu suéter não estava ajudando com o seu humor.

— O que ela quer dizer é que o seu sensor pode estar achando o segredo de proteção do amuleto, é por isso que está apitando, mas não significa que ela esteja escondendo alguma coisa, é só o encantamento secreto que todo amuleto de proteção leva — interferiu Colin com um sorriso de quem sabe das coisas. Filch franziu tanto as suas sobrancelhas que elas quase viraram uma só, depois os deixou passar, resmungando.

— Isso foi muito esperto, jovem dos vales de Cree — Luna elogiou solene, correndo para se juntar a eles após ter cada uma das rolhas de seu colar verificadas pelo sensor de Filch.

— Obrigada Lua do Bom Amor — ele fez uma reverência exagerada, quase tropeçando numa pedra.

— Vocês são tão bestas — Anne riu, alcançando o braço de Colin na trilha que os levaria até Hogsmeade. Ouvia as vozes de um grupo de estudantes mais velhos trazido pelo vento horroroso daquela manhã.

— Calada, Agraciada Negra — Colin a cutucou— Cuidado com a pedra. Eu disse cuidado, não espanque a pedra, jesus cristo.

A caminhada até o vilarejo não foi agradável; o vento logo tratou de deixar as partes descobertas de seus corpos ardidas e dormentes. Anne entretanto sentiu seu humor se elevar à medida que respirava o ar gelado do vale escocês, ouvindo os dois amigos narrarem o seu planejamento para o dia e todas as coisas maravilhosas que eles podiam achar nas lojas de logros e de doces de Hogsmeade.

No entanto, logo descobriram que a Zonkos estava fora de funcionamento, selada com tábuas.

— Ah, nããããão — choramingou Colin, largando o braço de Anne para poder fazer drama com as duas mãos — Eu odeio essa história de guerra, que ideia é essa de mexer com minha Zonkos?

— Olha, a Dedosdemel está aberta — disse Luna contente, querendo distrair Colin antes que a coisa piorasse. — Vamos lá, preciso reabastecer meu estoque de fadinhas de chuchu e delícias gasosas congeladas.

— Doces que eles fazem especialmente para a Luna, ouvi falar — Colin zombou, já recuperado do desastre iminente, pegando o braço de Anne e colocando-o de novo na curva interna do seu cotovelo. Ele se inclinou para ela e disse em segredo — Não importa o que você faça, fique longe das fadinhas de chuchu.

— Qualquer coisa de chuchu — ela concordou solene, mas ouviu Luna lá da frente:

— Eu posso ouvir vocês dois. Fiquem sabendo que chuchu é ótimo para melhorar a nossa capacidade de amplificação mágico-cósmica.

— Naturalmente — os dois suspiraram ao mesmo tempo, seguindo a garota para dentro da Dedosdemel sem demora. A loja estava aquecida, cheia de estudantes que ficavam se chocando contra Anne nos corredores. Por fim, ela decidiu esperar num canto seguro e deixar que Colin recolhesse uma amostra de todos os doces que ela precisava provar se não queria arruinar todas as suas chances de ser feliz na vida. Luna acrescentou algumas sugestões ao kit diabetes de Colin, incluindo as baratinhas de caramelo e cinco tipos diferentes de pirulito de sangue, mas Anne não deixou ela colocar nada no pacote que tivesse legumes em sua composição.

— Vamos ao Três Vassouras — sugeriu Colin quando uma leva de alunos barulhentos do terceiro ano entrou na loja e começou a saquear a prateleira de feijõezinhos — Juro por deus, eu era um lorde na minha infância comparado a esses pequenos selvagens.

— Ah, a clarividência que a idade nos traz, não é mesmo? — Anne zombou. Colin não só era o mais novo dos três, tendo completado quinze anos no último dia de agosto, como também era o menor e com mais cara de quartanista, embora já estivesse no quinto ano.

— Em algumas tribos bruxas da África Oriental, os jovens são considerados maiores de idade a partir do momento que conseguem fazer uma girafa sapatear usando magia — disse Luna sabiamente.

Colin deu uma gargalhada, puxou Luna por uma de suas quatro tranças e estalou um beijo em sua bochecha.

— Eu te venero, Lua do Bom Amor. Você e suas girafas sapateadoras.

— Não são minhas— a garota murmurou, corando.

Eles se apressaram para o pub do vilarejo, andando rápido para evitar congelar a pele sob o vento cortante. Quando atravessaram a porta para dentro do ambiente barulhento, quente e com o cheiro amargo de cevada e madeira, Anne pela segunda vez no dia sentiu a adaptação dolorosa de suas pupilas à luz. Demorou dois segundos para localizar Harry, sentado perto do balcão acompanhado de Rony e Hermione como de hábito, e também de Katie Bell, Simas e Neville. Rony acenou para ela quando a viu, esquecido de que nem todo mundo sabia que ela podia ver quando Harry estava perto.

— Rony Weasley está acenando pra a gente — disse Luna com estranheza — Que será que ele quer?

— Ah, agora que temos Anne ele se interessa por nós? Vamos esnobá-lo um pouquinho — sibilou Colin com fingida maldade — Ali, vamos sentar naquela mesa do outro lado do pub e fingir que não os conhecemos.

— Não seja absurdo — Anne o empurrou e acenou de volta para Rony, que sorriu e levantou o copo de bebida para ela. Atrás dele, Hermione acompanhava a cena com as sobrancelhas franzidas.

— Como você sabia em que direção acenar? — Colin perguntou com assombro. Ela abaixou a mão rápido.

— Palpite.

Eles acabaram sentando numa mesa próxima do trio de ouro, atrás de uma pilastra onde costumava ficar a árvore de Natal em meados de dezembro. Madame Rosmerta veio tomar seus pedidos e Anne pela primeira vez teve um vislumbre do que muitos colegas diziam ser uma das bruxas mais bonitas que conheciam. A dona do pub era deslumbrante com seu cabelo castanho escuro cacheado e pestanas longas; mesmo as rugas no canto dos olhos indicando que passara dos quarenta não diminuíam sua beleza. Ela notou que a população jovem masculina do bar virava a cabeça de forma meio boba quando ela passava, ainda que a dona do pub parecesse um tanto alheia à atenção que recebia, servindo as mesas de forma automática, meio vidrada até.

— Anne, tem alguma coisa errada com seu pescoço? — quis saber Luna, que ao invés de cerveja amanteigada estava bebendo uma água de gilly sem álcool e com pimenta.

— Nada errado com meu pescoço — ela parou de virar a cabeça para um lado e outro, tentando disfarçar o fato de que estivera espiando a mesa de Harry. — Será que podemos provar uns doces? Minha barriga está roncando. Mas não vou começar com nenhum desses pirulitos de sangue, não antes de minha conversão ao vampirismo, obrigada — recusou quando Colin sacou um dos doces da sacola.

Eles se distraíram provando a seleção de doces que Anne ainda não conhecia; gostou das acidinhas e das baratinhas de caramelo, embora fosse muito estranho tentar mastigar essas últimas enquanto se moviam e retorciam em sua língua com todas as seis pernas. Os diabinho de pimenta, que sabia serem os preferidos de Bervely, continuavam intragáveis para qualquer ser humano normal.

Ela imaginou se conseguiria enviar até Azkaban um pacote daqueles; será que eles deixavam os prisioneiros receberem doces? Poderia acrescentar talvez uns bons sapos de chocolate, isso devia ajudar contra a influência dos dementadores… seu peito se apertou ao pensar nos dementadores e no que eles deviam estar provocando em sua irmã. Bervely, entre todas as pessoas, tinha horrores em seu passado que aquelas criaturas saberiam evocar para pertubá-la; já tinham se passado duas semanas desde que ela fora presa e Anne não conseguira nenhuma notícia através de Sirius, Remus, Tonks ou Andrômeda, embora tivesse escrito para os quatro. Recebera diversas variações de “não se preocupe, estamos cuidando disso” e “não vamos discutir o assunto por carta, não é seguro”, respostas que só a deixavam mais e mais inquieta.

— Ela está ficando daquele jeito de novo — identificou Colin preocupado, captando o humor de Anne na sua expressão — Abaixo com os diabinho de pimenta.

Estava prestes a dizer que não tinha nada a ver com os diabinhos quando Katie Bell se aproximou da mesa deles de uma forma suspeita, puxando uma cadeira e se sentando.

— Vocês já estão sabendo? Vão participar?

— Da conspiração dente-podre? Meu pai me proibiu de assinar qualquer abaixo assinado antes de saber exatamente quais são as diretrizes em caso de levante — Luna informou, cruzando os braços. Katie ergueu as sobrancelhas pra ela.

— Quê? Não. Estou falando do evento secreto que estamos planejando.

— Nós estamos? — Colin franziu as sobrancelhas loiras — Não fui avisado.

— Está sendo agora — Katie informou impaciente. Ele fez uma careta.

— Isso dificilmente é um aviso, parece mais uma conversa sem sentido.

— Vocês precisam assinar a lista de sigilo antes de ter detalhes — a setimanista tirou de dentro do casaco uma prancheta minúscula e uma pena de pavão azul cobalto.

— Não assine, Colin, não antes de saber as diretrizes…

— Meu santo Merlin — Anne interviu, virando-se para Katie — Do que se trata? É alguma coisa proibida que vai nos fazer ser expulsos?

Katie deu um sorrisinho misterioso e não disse nada. Colin bufou, puxando a prancheta das mãos dela. Ele rabiscou sua assinatura e empurrou de volta pra ela.

— Assinei por nós três. Desembucha.

Katie guardou a prancheta de volta no casaco e se inclinou para eles em tom de conspiração.

— Estamos planejando uma festa secreta no dia das bruxas, como manda a tradição.

— Há uma tradição de festa secreta de dia das bruxas em Hogwarts e eu nunca fiquei sabendo? — Colin pousou uma mão no coração, devastado. — Minha vida não faz mais sentido.

— Sim, bem… — Katie girou os olhos para ele antes de continuar — Não é tão antiga assim, começou com Brun Greyson há alguns anos. Ele foi um dos aurores recém formados que morreram no ataque de agosto. Queremos manter a tradição viva em homenagem a ele e a todos os mestiços e nascidos trouxas de Hogwarts, por isso teremos um tema especial esse ano.

— Que será…? — Colin pressionou; ele não lidava bem com suspense. Luna mexia distraída sua água de Gilly, observando uma mosca fazer uma dança sobre a cabeça de Katie, mas Anne também tinha se inclinado para frente para ouvir melhor.

— Vamos comemorar a data ao estilo trouxa, com fantasias e doces ou travessuras. Todos os que concordarem em participar vão receber um memorando perto da data com hora e lugar, e os que não concordarem devem esquecer essa conversa no próximo minuto. — ela olhou diretamente para Anne, duvidosa — Agora, Black, eu sei que você é puro sangue…

— Eu acho uma ótima ideia — disse Anne, sorrindo. — Quem inventou?

Katie mordeu o lábio, olhando de um lado para outro como se estivesse sob vigilância. Naturalmente cada um estava tomando conta de sua vida no pub e ninguém prestava atenção neles.

— A SEMTAH.

Senta? — repetiu ela confusa.

— Não “senta”, S.E.M.T.A.H, a Sociedade de Mestiços e Nascido-Trouxas de Hogwarts — esclareceu Katie com tom de importância.

— Ah, eu não sabia que havia uma.

— Estamos nos organizando. Você vai ouvir falar de nós, já conseguimos membros importantes para a causa — Katie deu uma olhada para trás, na direção em que estava a mesa de Harry, Rony e Hermione — Então, topam? Participar significa mostrar apoio pelos nascidos trouxas e mestiços, mesmo que vocês mesmos não o sejam. É uma homenagem mas também um posicionamento político.

Colin coçou a nuca. Anne olhou de relance para a Luna e viu a garota sugar despreocupada um gole de sua bebida pelo canudo.

— Desde que hajam diretrizes em caso de levante — assentiu a corvinal, dando de ombros.

— Eu estarei lá — Anne confirmou. Presenciara o horror pós-matança no Ministério aquele dia e queria homenagear os jovens que tinham perdido a vida na mesma noite em que ela recuperara seu pai — Colin?

— Claro, por que não? Soa divertido. Vamos ter que usar fantasias trouxas?

— Sim, só fantasias trouxas serão permitidas — Katie confirmou num tom prático, já se arrumando para sair uma vez que passara a sua mensagem.

— E só por curiosidade, Harry Potter confirmou comparecimento…? — quis saber ele, mas a garota já tinha ido embora. — Veteranos! Não podem falar com a gente um minuto além do necessário, por acaso temos alguma doença contagiosa?

— Você só está com raiva da Bell porque ela ficou no time e você não — Anne lembrou ao amigo, achando graça.

O loiro bufou.

— Não foi culpa minha que eu esbarrei na trave no teste de voo, Harry ficava me distraindo, gritando coisas naquele uniforme. Quem não esbarraria?

Ela balançou a cabeça, sorrindo para o exagero. Perdera os testes para o time porque estivera tentando falar com Andrômeda ou Remus através de uma lareira a fim de saber sobre Bervely, mas continuava ouvindo comentários de que Harry Potter personificara sua posição de capitão do time de uma maneira um tanto efusiva.

Quando levantou o rosto, ela encontrou o par de olhos verde-esmeralda olhando na sua direção. Após se certificar de que Colin e Luna estavam distraídos discutindo possibilidades de fantasia, Anne deu a Harry algumas mesas adiante um sorriso contido. Ele acenou com a cabeça e formou uma pergunta com seus lábios.

"Tudo bem?"

Anne assentiu para ele. Apesar do clima terrível lá fora, tudo parecia melhor agora.

— BD —

Quando Harry, Rony e Hermione saíram do pub, precisaram proteger o rosto do vento cortante com seus cachecóis listrados da Grifinória. A rua não estava muito movimentada; as pessoas não paravam para conversar, preferiam andar rápido para chegar ao seu destino. Eles mesmos tinham decidido que era uma boa ideia voltar para casa quando Tonks se materializara do nada, seu cabelo num tom cinza chumbo molhados de granizo, os olhos amarelos como os de um gato.

— Hey Harry, como é que você está?

— Bem– Que é que você está fazendo aqui? — Harry disse surpreso, mas depois lembrando-se que Tonks era uma das aurores fazendo a guarda de Hogwarts e arredores. Ela devia estar no vilarejo nesse dia para garantir que os alunos estivessem seguros. —

— Ahh, procurando vocês na verdade. Oi Rony, Hermione — ela saudou, distraída — Vocês por acaso não viram a Johanne?

— Ela está lá dentro — Harry apontou para o interior do pub, onde a vira sentada com Colin e Luna e uma montanha de doces da Dedosdemel — Aconteceu alguma coisa? Você tem notícias, de, sabe…

Aqui não. Vou lá dentro chamar Anne, depois vocês podem vir comigo. Rony e Hermione também, se quiserem.

Os três esperaram Tonks voltar, tentando se proteger do vento e da chuva fina que começou a cair se espremendo debaixo o alambrado do pub. A auror retornou acompanhada de Johanne, que tinha as sobrancelhas tensas por trás dos óculos escuros.

Sem falar muito, eles fizeram o caminho para fora do vilarejo atrás de Tonks, encolhidos tentando evitar o congelamento iminente. Harry logo percebeu que estavam indo em direção ao topo da colina, onde ficava a Casa dos Gritos, o que o preocupou; teria acontecido algo grave no mundo mágico e a Ordem estaria se reunindo? Algo que o envolvia? E se Tonks tinha chamado Anne também, será que isso envolvia Sirius, será que ele fora pego em alguma tentativa de livrar a filha de Azkaban…

— Vamos nos esconder atrás dessa árvore — ela indicou um largo trono de carvalho perto da estrada principal, onde eles se acumularam fora de vista — Vou aparatar vocês, um de cada vez, não é bom sermos vistos entrando na casa para não levantar nenhuma suspeita.

Ele assentiu e Tonks o pegou primeiro pela nuca; nem teve tempo de puxar um fôlego e já estava experimentando a desconfortável sensação de ser espremido pelo gargalo de uma garrafa invisível. Foi liberado e, tossindo os pulmões fora, reconheceu o interior meio mofado e empoeirado da sala da casa dos gritos. Só que ela não estava mais tão empoeirada e parecia que os móveis tinham sido lustrados.

Tonks estalou atrás dele, desaparatando para buscar a próxima pessoa, e Harry se virou ao perceber que havia mais alguém na sala. Seu peito se inflou ao reconhecer o ocupante largado no sofá.

— Sirius!

O padrinho ergueu o rosto, sua expressão se acendendo; ele não notara Harry até então, distraído com alguma coisa em seu colo. Harry viu que ele estivera jogando xadrez, aparentemente consigo mesmo, mas o bruxo já chegava perto para um abraço esmagador.

— Harry! Eu não achei que Tonks encontraria você em Hogsmeade com esse clima terrível.

Harry abriu um sorriso amplo quando eles se afastaram, percebendo que Sirius parecia bem cuidado, em roupas limpas, barbeado e com aparência de quem vinha se alimentando. No entanto, ele também tinha um ar de cansaço ao redor dos olhos, como se tudo isso não lhe garantisse boas noites de sono. Harry lembrou-se de que a filha mais velha dele estava em Azkaban e seu sorriso esmoreceu.

— Remus — Sirius gritou na direção de uma porta à esquerda — Harry está aqui.

— Hermione, Rony e Anne também estão vindo.

— Ótimo — ele deu batidinhas no ombro de Harry — Ótimo. Remus está fazendo alguma coisa na cozinha, há chances de que seja comestível.

— Então vocês estão aqui? Há quanto tempo… ? — Harry começou a perguntar, mas um novo estalo às suas costas anunciou uma nova aparatação. Harry se virou esperando ver Tonks com mais alguém, mas era Anne sozinha.

— Pai! — ela exclamou quando viu Sirius. Anne se agarrou a ele demoradamente, e Harry teve a impressão de que eles dividiam por meio do gesto a sua aflição dos últimos dias com a prisão de Bervely. Ele se sentiu sobrando e, desconfortável, acenou em direção à cozinha.

— Eu vou dizer um alô ao Remus…

Mas o seu ex-professor apareceu à porta, trazendo uma bandeja com duas garrafas de cerveja amanteigada e copos. Ele sorriu ao ver Harry e Anne.

— Ah, vocês chegaram. Ainda bem que Dora conseguiu achar vocês.

Um novo estalo trouxe Rony, e o seguinte Hermione. Houve uma onda de cumprimentos entre eles e Remus explicou rapidamente que estavam ocupando a sede a fim de mantê-la pronta e segura para reuniões de emergências. Anne largou Sirius com relutância e, depois de plantar um beijo no topo da cabeça dela, ele chamou todo mundo para sentar perto da lareira acesa.

— Dumbledore nos deu permissão para trazer vocês aqui já que não é seguro ficar discutindo as coisas por carta — disse Remus, olhando de relance para Sirius, que pegara uma das garrafas que ele trouxera e arrancara a tampilha no dente. — Anne, desculpe as minhas evasivas em nossas últimas correspondências, eu não podia dar detalhes sobre a situação da sua irmã porque as cartas que entram em Hogwarts estão sendo interceptadas.

— Tudo bem — disse a garota rápido, sentando perto do pai no sofá. Os demais se espalharam entre as duas poltronas e o tapete que, embora ainda desgastado e desbotado pelo tempo, agora estava livre de poeira. — Você a viu? Como ela está?

Remus novamente olhou de relance para Sirius antes de responder; uma expressão fixa tomava o rosto do ex-prisioneiro, como se ele estivesse se segurando para não esboçar a expressão do que passava em sua cabeça.

— Eu a visitei algumas vezes nas últimas semanas. Ela está indo bem, tão bem quanto possível nas circunstâncias, quero dizer. Haverá um julgamento no fim do mês, então estamos preparando a sua defesa da melhor forma nesse meio tempo.

— Não deve ser tão difícil, certo? — interferiu Harry — Sendo a acusação tão absurda… não é possível que eles acreditem mesmo que ela ajudou Sirius a escapar de Azkaban há três anos.

A parte da sala que não incluía ele, Hermione e Rony caiu num silêncio culpado. Foi Sirius que o quebrou, olhando direto para Harry com uma expressão ligeiramente culpada:

— Na época eu não podia lhe contar isso, mas a verdade é que Bervely foi a responsável quase total por minha libertação. Ela entrou em Azkaban e tramou um plano para me tirar lá de dentro.

— Mas, quê? Eu pensei que ela tinha… eu pensei que ela era… — ele se confundiu, olhando de Remus para Tonks como se eles pudessem corrigir a informação absurda — Ela não estava na escola na época?

— Estava, mas tudo isso aconteceu no verão — A lembrança provocou nele um pequeno sorriso nostálgico — Um jeito e tanto de aproveitar as férias, não é? Livrando a cara do pai dos dementadores.

Harry pescou o olhar assombrado de Rony e o alarmado de Hermione e ficou aliviado de que ele não era o único pego de surpresa pela notícia. A filha de Bellatrix ajudara Sirius a fugir de Azkaban quando tinha dezesseis anos, pensou amargo, enquanto ele, Harry, mal conseguia entrar e sair do Ministério da Magia sem causar um estrago.

— Isso deve tornar a defesa dela um bocado mais complicada — Hermione comentou prestativa para Remus, que assentiu. Anne deu um suspiro triste e se inclinou na direção de Sirius, que passou um braço em torno dela. Harry experimentou uma pontada de ciúmes da qual se sentiu imediatamente envergonhado.

— Nós vamos dar um jeito — Remus prometeu. Sirius fez um ruído zangado que soava como “um mês” e o lobisomem rolou os olhos. — Eu sei, Sirius.

— Remus o convenceu de que ele teria um mês para tentar libertar Bervely pelos meios legais — explicou Tonks diante do olhar confuso de Harry. Ela não precisou acrescentar o óbvio, que Sirius estava disposto a tentar os meios ilegais depois que o prazo terminasse, pois todos entenderam essa parte.

— Só não faça nada impensado — Anne pediu baixo ao lado dele — Bervely é forte, ela vai conseguir lidar com isso até a tirarmos de lá.

Sirius se levantou de repente, uma expressão enrijecida no rosto, bem longe do sorriso que ele tinha dado a Harry quando chegara.

— Eu vou pegar alguma coisa na cozinha, vocês devem estar com fome.

— Os biscoitos estão prontos — disse-lhe Remus, mas Sirius sumiu pela porta e não pareceu que ele tinha ouvido. O lobisomem suspirou longamente quando ele estava fora de vista. — Merlin.

— Como ele está de verdade? — Hermione perguntou baixo. As expressões tanto de Remus quanto de Tonks responderam antes de suas palavras.

— Nada bem. Estou colocando poção estabilizadora de humor na bebida dele por recomendação médica, mas não acho que está estabilizando nada. Uma hora ele está sorridente e distraído, no minuto seguinte está encolhido num canto com o olhar vidrado, parecendo até que tem um dementador pairando sobre a sua cabeça.

— E quais as chances dela, Moony? As chances reais? — quis saber Anne, ansiosa.

O bruxo apertou os lábios por um momento, decidindo responder com sinceridade.

— Estou fazendo o melhor que posso. Prometi a Sirius que a tiraria de lá e quero cumprir a promessa, mas dependendo de quem a acusação chamar para testemunhar, a coisa pode ficar complicada. Eu descobri que a queixa foi feita por um auror que trabalhava em Azkaban na época da fuga de Sirius, e ele é nada menos que o filho do diretor da prisão.

Eles ficaram conversando por um tempo ao pé da lareira, Remus e Tonks resumindo para os três tudo que sabiam sobre como Bervely tinha ajudado Sirius a fugir de Azkaban. Harry ficou muito impressionado com os feitos da garota; como ela se infiltrara na prisão fingindo ser outra pessoa, permanecera lá dentro por meses e achara um jeito de proteger Sirius contra a influência dos dementadores usando o seu patrono aprisionado em uma pedra.

Sirius nunca retornou com os biscoitos; a determinada altura, Anne se levantou do sofá silenciosamente e foi para a cozinha. Encontrou o pai com as duas mãos apoiadas sobre a bancada da pia, os ombros curvados, a cabeça abaixada e o cabelo longo e negro cobrindo a expressão em seu rosto; a água corria livremente da torneira aberta sem que ele se preocupasse em fechá-la; nem sequer parecia se dar conta do desperdício.

— Se os biscoitos não vão à Merlin, Merlin vem aos biscoitos — ela brincou parada à porta. Ele se sobressaltou, depois lhe ofereceu uma tentativa de sorriso que não atingiu os olhos escuros.

— Me esqueci. Estão em cima da mesa.

Anne andou até a pia e fechou a torneira com um aceno da varinha. Sirius recuou e sentou numa cadeira, a observando com atenção.

— Há algo diferente com você — disse ele, estreitando os olhos. Anne foi até a mesa e pegou um biscoito.

— Comigo? Continuo a mesma boa e velha Johanne de sempre.

— Não, há sim, você está se movimentando… hei espere aí, você está vendo?

Ela levantou o rosto para ele, sorrindo. Após um pouquinho de suspense, assentiu e tirou os óculos do rosto.

— Hum… sim.

— Filha! — Sirius exclamou, chocado e em seguida emocionado, a puxando mais para perto para olhar para seus olhos — Isso é… como isso… como aconteceu?

— Misteriosamente — disse, sorrindo mais ainda. Era bom ver um pouquinho de felicidade no rosto dele para rebater toda amargura a respeito de Bervely. — Não acontece o tempo todo, mas eu acho, hum, acho que está se estabilizando.

— Isso é –minha nossa — ele ofegou, apertando os dois lados do rosto dela até esmagar suas bochechas com as mãos enormes — Sua irmã vai ficar louca quando souber.

E lá estava, de volta o olhar amargurado, provavelmente ao se lembrar da razão que Bervely ainda não sabia da grande novidade. Ele abaixou as mãos, o sorriso varrido do rosto como se nunca tivesse estado ali.

— Andromeda já sabe? Ela vai querer examinar você, saber exatamente o que aconteceu e porque não conseguiu achar uma cura antes…

Anne negou rápido.

— Não quero ser examinada, não vai dar em nada. Vou contar a todo mundo quando eu tiver a certeza que é permanente.

Sirius a puxou de novo para seus braços e apertou forte. Ela não conseguiu afastar a sensação de que ele estava se desculpando por meio do abraço, por não conseguir ficar excitado sobre aquilo como deveria. A verdade é que a agonia por Bervely era a única coisa que conseguia tomar a mente dele agora, e Anne entendia.

— Essa é uma notícia tão boamurmurou ele, como se soubesse exatamente o que passava pela cabeça dela — Nós devíamos comemorar de algum jeito. O que você quer fazer? Qualquer coisa, diga o que quer e eu vou providenciar para você.

Anne se afastou para olhá-lo de perto, coisa que fizera pouco desde que tivera sua visão de volta. Bervely estava certa sobre ele ser um homem muito bonito, embora o sofrimento naquele momento perturbasse seus traços.

— Vamos esperar por Bervely, a comemoração não seria completa sem ela. Mais algumas semanas e teremos dois motivos para uma festa, ao invés de um só — disse com um meio sorriso, querendo colocar otimismo em sua voz. No entanto uma sombra passou pelo olhar dele, que endureceu seu maxilar e Sirius desviou os olhar. Se Anne pudesse dar um palpite, diria que o pai não acreditava nem um pouco na tentativa de Remus de resolver as coisas através da lei. Esperar aquele mês inteiro inativo devia estar lhe matando, se ela conhecia qualquer coisa sobre sua alma grifinória.

— Bervely sabe que você faria tudo no mundo para livrá-la de Azkaban… e ela também espera que você não arrisque tudo por ela.

Os ombros dele caíram, mas Sirius assentiu vencido. Apesar da idade, ele lhe lembrava um garotinho desamparado.

— Não vou deixar eles fazerem da sua irmã uma mártir para mascarar a incompetência do Ministério, nem vou deixar ela passar pelo que eu passei naquele inferno — ele disse entre os dentes — Remus terá o mês dele, e nenhum dia mais do que isso. — Em seguida, sua expressão se suavizou e ele pareceu se lembrar que ela era só sua filha de quatorze anos e que não devia assustá-la com o tipo de coisa que gostaria de fazer com os filhos da mãe do Ministério se pusesse as mãos neles. Sirius afagou o cabelo dela e tentou outro sorriso — Mas não precisa ficar se preocupando com isso. Como vão as coisas na escola?

Anne afastou o arrepio ruim que a intensidade da promessa dele havia lhe provocado. Para o bem de Sirius, ela esperava que Remus fosse um excelente defensor da lei bruxa.

— BD —

Quando chegou a hora de voltarem ao castelo, o tempo continuava sofrível, com redemoinhos de vento gelado que pareciam decididos a arrancar as orelhas de quem se atrevesse andar do lado de fora. Harry, Rony, Hermione e Anne se enrolaram bem nas capas, ajustaram os cachecóis em torno do rosto e calçaram as luvas, esperando por Tonks que deveria escoltá-los de volta ao castelo, mas quem chegou à soleira da porta dos fundos da Casa dos Gritos foi Sirius, em sua forma animaga. Ele fez um sinal com sua cabeça grande de cão para a frente, mas os quatro hesitaram à porta.

— Hmm, tem certeza que é uma boa ideia…? — Anne murmurou, a voz abafada pelo cachecol, mas não houve resposta. Ela deu um suspiro resignado e o seguiu, as mãos fundas nos bolsos. Harry deu de ombros para os dois amigos e fez o mesmo, um pouquinho preocupado de que o grande cão negro pudesse de alguma forma ser reconhecido em Hogsmeade. Mas o padrinho, o focinho baixo contra o torvelinho de granizo cortante, não parecia se importar com a possibilidade.

Distraído por tudo que tinha ouvido na Casa dos Gritos aquela tarde, e vagamente acompanhando o balanço do cabelo de Anne à sua frente, enquanto ela seguia lado a lado com Snuflles, ele demorou a perceber as vozes de Katie Bell e outra garota mais à frente, sons que o vento trazia até eles e que estavam se tornando mais alto e esganiçados à medida que se aproximavam. Harry apertou os olhos para ver seus vultos indistintos; as duas discutiam acerca de algo que Katie segurava.

— Não é da sua conta, Liane! — Harry ouviu Katie dizer.

Eles tinham acabado de contornar uma curva na estrada e o granizo caía profuso, embaçando os óculos de Harry. Ao erguer a mão enluvada para limpá-los, Liane tentou agarrar o pacote que Katie levava, que acabou caindo no chão.

A garota foi erguida do chão, abruptamente como se tivesse sido lançada por uma força invisível. Harry estancou, alarmado. O vento forte fazia os cabelos dela chicotearem, mas seus olhos estavam fechados e o rosto, vidrado. Rony, Anne e Hermione também pararam para observar, mas o vulto negro que era Sirius avançou na direção das duas rosnando e farejando.

Então, há dois metros do chão, Katie soltou um grito que arrepiou todos os pelos de Harry. O que quer que ela estivesse vendo ou sentindo estava lhe causando uma terrível angústia, e ao primeiro grito se seguiu outro que poderia ter estourado suas cordas vocais. Liane tentou alcançá-la, e mesmo Harry, Rony e Hermione correram para ajudar, mas quem chegou primeiro foi Sirius. Pulando alto, ele conseguiu agarrar com os dentes a barra da capa da garota e arrastá-la de volta ao chão. Ela se debatia, ainda gritando, e agora Liane também gritava, aparentemente convencida de que o cão do tamanho de um urso estava atacando sua amiga.

Com um estalo seco, Sirius voltou à forma humana, segurando Katie pelos ombros.

— Varinha! — gritou para Harry, que era a pessoa mais próxima dele. Harry entregou sua varinha ao padrinho sem demora, o coração disparado nas orelhas. Sirius a apontou para a temporal de Katie e disse com autoridade— Malignus Finite!

O corpo de Katie relaxou por um segundo, apoiado no antebraço dele. O grupo de adolescentes encarava a cena se desenrolar com pavor, mas a mais horrorizada tinha que ser Liane, cujo rosto tinha um tom doente de cinzento.

Malignus finite — Sirius disse de novo, e de novo. Na terceira vez, Katie parou de tremer e desfaleceu apoiada em seus joelhos.

— O que é que f– Rony começou a perguntar numa voz aguda, mas Hermione o interrompeu, olhando para a estrada na direção do castelo.

— Alguém está vindo!

De fato alguém estava. A enorme silhueta entrou em foco em alguns segundos, revelando Hagrid, cujas sobrancelhas e barba estavam congeladas de granizo. Ele deu uma boa olhada para a cena e a expressão de gravidade cresceu em seus olhos castanhos, que se arregalaram especialmente ao ver Sirius segurando uma aluna desfalecida.

— Sirius, o q–

— Magia negra — Sirius disse com rapidez, se erguendo e trazendo Katie com ele. Harry se inquietou ao notar que o padrinho pareceu ofegante e ligeiramente instável em seus pés por um momento — Ela tocou em algo enfeitiçado… aqui — após olhar ao redor, identificou o pacote que Katie deixara cair. O saco se rasgara; algo lá dentro emitia um brilho esverdeado agourento.

Rony se adiantou para pegar o embrulho no chão, mas Harry o puxou pela manga.

Não mexe nisso!

— Eu consegui quebrar o efeito da maldição, mas ela precisa de cuidado médico urgente — Sirius continuou, direto para Hagrid — Será que você pode…

— Ala-hospitalar, sim! — disse o meio-gigante com afobada pressa — Aqui, me dê ela… Vocês todos, estão bem? Ah, sim, muito bem, e o objeto…?

— Eu levo até o diretor — disse Sirius num tom que não admitia contestação. Hagrid hesitou por um momento, mas enfim pegou Katie nos braços e saiu correndo em direção ao castelo.

Só então Harry notou que alguém estava em prantos. Ele se virou e viu Liane soluçando. Hermione se adiantou para consolar a garota, enquanto Rony e Harry se agacharam perto do saco de papel rasgado, sem tocá-lo, e o mesmo fez Sirius. Era um requintado colar de opalas.

— Já vi esse colar antes — disse Harry, olhando-o com atenção — Esteve exposto da Borgin & Burkes há séculos. Estava escrito na etiqueta que era amaldiçoado. Katie deve ter tocado nele quando o embrulho caiu. Ele olhou para Liane, que ainda estava tremendo e com uma cor estranha. — Como foi que Katie arranjou isso?

Mas ela não lhe ouviu. Tinha os olhos pregados em Sirius, como se seu cérebro ainda não tivesse processado sua transformação de cão para gente, a somar a tudo que acabara de acontecer. Sirius se levantou e se inclinou na direção dela, mas Liane se encolheu e ele recuou instantaneamente.

— Sua amiga vai ficar bem — lhe disse com confiança, embora Harry não entendesse como ele podia estar tão certo — Sabe onde ela arranjou o colar?

— B-bem, era por isso que estávamos discutindo — explicou a garota, a voz tremendo — Ela voltou do banheiro do Três Vassouras trazendo o colar, disse que era uma s-surpresa para alguém em Hogwarts que precisava entregar. Estava muito esquisita quando falou isso… ah, não, ah, não, aposto como foi amaldiçoada com a Imperius e eu nem percebi!

Liane foi sacudida por novos soluços. Hermione deu palmadinhas gentis em seu ombro. Harry lembrou de procurar Anne e a viu um pouco mais afastada, olhando a cena se desenrolar, parecendo pálida.

— Ela não contou quem tinha lhe dado o embrulho, Liane? — Harry voltou a perguntar, enquanto com a sua varinha Sirius lançava algum feitiço não verbal sobre o objeto. Uma luz azul pálida brilhou e apagou, como se absorvida pelas opalas.

— Não… não quis me contar… e eu disse que estava sendo burra, que não levasse aquilo para a escola, mas ela não quis me escutar… então tentei tirar o embrulho da mão dela, e… e… — Liane soltou um murmúrio de desespero.

— É melhor irmos logo para a escola, podemos saber como ela está — disse Hermione, ainda consolando-a com o braço em torno de seu ombro trêmulo. Ela olhou duvidosa para Sirius — Ah, não é melhor se a gente levar o colar, assim você não…?

— Não, eu vou junto — disse ele sem hesitação, depois virando-se para Harry — Harry, me dê aqui seu cachecol.

Harry desenrolou o cachecol do pescoço e entregou para o padrinho. Sirius cuidadosamente envolveu o colar e o enfiou no bolso do casaco.

O grupo seguiu em silêncio na direção do castelo, o único som sendo o dos soluços esporádicos de Liane, a quem Hermione continuou consolando enquanto andavam. Harry atrasou o passo para ir ao lado de Sirius, que tinha o rosto rígido contra o vento frio e as sobrancelhas vincadas.

— Quem você acha que poderia querer infiltrar algo amaldiçoado dentro de Hogwarts? — ele perguntou baixo. O padrinho demorou a responder, perdido nos próprios pensamentos. — E pra quem será que era… Dumbledore?

— Eu estava pensando que poderia ser para você — ele disse num tom cavernoso.

— Mas ela poderia ter simplesmente se virado e me entregado aqui fora, não é?

— McGonagall! — alertou-os Rony.

Harry levantou a cabeça. A professora vinha descendo ligeira ao seu encontro, um degrau de pedra após o outro, e segurou uma exclamação quando identificou Sirius entre eles, em sua forma humana sem qualquer disfarce, as mãos enfiadas nos bolsos do sobretudo e o olhar duro.

— Hagrid diz que vocês viram o que aconteceu com Katie Bell… Será que algum de vocês sabe o que causou a reação mágica?

— Eu o tenho comigo — disse Sirius gravemente, indicando o próprio bolso.

— Bem, você deve me entregar, Black, eu assumo a partir daqui, não vejo como possa ser uma boa ideia você andando de cara livre pelos terrenos de Hogwarts em plena… — mas ela se interrompeu ao perceber Liane. Felizmente a garota parecia distraída com seus próprios soluços, empapando o ombro de Hermione de lágrimas.

Sirius tirou o colar do bolso e o entregou à McGonagall com resignação. Ele estalou de volta ao formato animago sem nenhuma palavra, e atrás de Harry, Liane deu um gritinho.

— Agora, se puderem me seguir até a minha sala, os cinco — indicou, se referindo aos alunos. — Não, Filch, eles estão comigo! — exclamou de novo ao ver o zelador atravessar pressuroso o saguão de entrada empunhando o sensor de segredos — Leve esse colar ao professor Snape agora, mas tenha cuidado para não tocá-lo, deixe-o embrulhado no cachecol!

Eles acompanharam a professora à sua sala no primeiro andar. Harry ficou satisfeito em ver que Sirius ignorara o conselho da professora e os seguia, fazendo o pescoço de alguns alunos torcerem ao dar com ele no corredor. McGonagall olhou resignada quando o cão passou pela porta da sua sala, deixando pegadas molhadas para trás, então contornou a escrivaninha para ficar de frente para eles. Apesar da lareira acesa, a sala estava gélida e cristais de gelo sacudiam ruidosamente nas molduras das janelas.

— Então — disse ela com rispidez — Que aconteceu?

Liane fez um resumo soluçante para a professora, contando a história que já os dissera na estrada. Os demais ouviram em silêncio, e com um novo pop, Sirius tornou à sua forma humana foi para perto da lareira, ficando lá de pé, os braços cruzados, ouvindo com atenção.

— Muito bem — disse a professora McGonagall, quase bondosa —, suba à ala hospitalar, por favor Liane, e peça a Madame Pomfrey para lidar alguma coisa para o choque.

Quando a garota se retirou, Sirius voltou a se aproximar da mesa, tendo a atenção da professora.

— Estou quase certo de que o colar tem uma maldição de tranca-mente, mas é claro que o seu expert em magia negra deve chegar à essa conclusão eventualmente — ele ironizou com acidez, antes de ficar sério de novo — O caso é meu, vou descobrir quem deu o colar à garota. Eu já tenho uma suspeita, mas preciso confirmar a minha teoria antes de qualquer coisa.

— Podemos discutir isso na próxima reunião, eu penso, quando o professor Dumbledore voltar —ela começou a dizer, mas Sirius balançou a cabeça.

— Não, eu estava lá, o caso é meu, vou começar a investigar agora mesmo antes que a pista esfrie — disse-lhe inflexível. O cenho de McGonagall se franziu do mesmo modo que acontecia quando alguém era impertinente durante a sua aula, e seus lábios se crisparam, mas ao invés de tirar dez pontos da Grifinória, ela soltou um chiadinho — Eu suponho que seja uma questão de urgência, então se você for discreto…

Eu sou o epítome da discrição — garantiu ele, convencendo um total de zero pessoas dentro daquela sala.

McGonagall girou os olhos para os demais, verificando-os de cima a baixo.

— Vocês estão bem, então? Ótimo, vão para o seu salão comunal direto, sem desvio de caminho, se não for pedir muito.

Eles procuraram se dirigir para a porta, Harry ansioso para perguntar a Sirius de quem ele estava desconfiando, mas a professora o deteve.

— Você não, Potter, espere um momento.

Os amigos lhe lançaram um olhar de indagação, mas Harry deu de ombros; não fazia ideia do que a professora tinha para falar com ele, não tinha feito nada de errado ultimamente, que se lembrasse.

— Uh, eu posso esperar então — disse Sirius, se detendo na porta, mas McGonagall negou.

— É confidencial, Sirius, sinto muito.

O bruxo pareceu confuso, mas lançou um breve olhar de asseguramento para o afilhado antes de voltar à forma de cão. Quando todos tinham ido embora, a professora indicou para Harry a cadeira que Liane estivera sentada. Harry voltou e a ocupou com curiosidade.

— Muito bem, Potter, eu na verdade estava à sua procura no momento em que Hagrid apareceu com a Srta. Bell, por coincidência. Há uma solicitação oficial para você e, na ausência do professor Dumbledore, eu sou aquela a autorizar ou não o contato dos estudantes com pessoas de fora, especialmente oficiais da lei bruxa.

— Da lei bruxa, professora? Tem um auror querendo falar comigo? — preocupou-se, perguntando o que o Ministério poderia estar inventando agora, depois da catástrofe na cerimônia de nomeação dos aurores.

McGonagall assentiu, parecendo ela mesma desconfortável.

— Se trata do oficial da lei responsável pela acusação da Srta. Bervely Black diante da corte dos bruxos. Você certamente ouviu falar que a filha do seu padrinho está sendo acusada, entre outras coisas, da sua tentativa de sequestro no verão.

— Ahh. Sim. — Harry assentiu, sem saber mais o que dizer.

— O oficial da lei em questão deseja que você deponha contra a Srta. Black em corte. Em uma situação normal eu falaria com o seu responsável legal antes de chegar à você, mas como há um óbvio conflito de interesse, a situação é mais delicada e eu achei plausível que você soubesse primeiro.

— Se eu estou entendo bem… eles querem que eu diga se foi ela a tentar me sequestrar no verão?

— Bem, eles querem apenas que você apareça como testemunha e diga a sua versão da história. Eles farão perguntas. A defesa da Srta. Black também terá o direito de lhe fazer perguntas, e então eles usarão o que você disser para pautar o julgamento, junto com as outras provas e testemunhos reunidos. Eu sinto colocá-lo nessa posição, Potter, mas você deve responder em breve. O julgamento da Srta. Black está marcado para daqui a duas semanas.

McGonagall tirou um pergaminho de aparência oficial da sua gaveta e entregou para Harry. Ele viu de relance o selo do Ministério, os dois M’s sobre os pratos de uma balança.

— Pense bem, Harry. Sinta-se livre para conversar comigo, ou mesmo com o professor Dumbledore a respeito se tiver dúvidas. Você não é obrigado a fazê-lo, mas tenha em mente, ao tomar a sua decisão, que nas circunstâncias atuais o seu testemunho – a palavra daquele que eles chamam de Escolhido – pode ter um peso decisivo em um julgamento.

Harry engoliu em seco, aceitando o envelope pardo. Minerva o dispensou e o garoto deixou a sala, a cabeça rodando.

(Continua…)



Notas finais
Como antes, esse capítulo conta com algumas similaridades, e até alguns trechos retirados de O Enigma do Príncipe. Eu não os deixei em itálico dessa vez porque eles estão muito integrados aos capítulos, mas fiquem avisados. Nenhuma intenção de plagiar o trabalho da JK ;) Ate o próximo, deixem um alô pra eu saber quem ainda está por aqui! ;*