A Canção de Morgana

66 Prata e Lacerações


Notas iniciais
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As muitas azarações que teriam aniquilado qualquer estranho tentando aparatar no átrio da Mansão Malfoy não foram disparadas com a chegada de Bervely, Bellatrix e seus dois prisioneiros. O mero fato de ainda estarem vivos era indicação suficiente de que os feitiços da casa haviam reconhecido Duas Serpentes — e Bervely — como o novo “senhor” da Mansão Malfoy.

— Leve-os para o subsolo — ordenou Bellatrix, mal recuperando o fôlego. — Há uma porta oculta…

— Atrás da tapeçaria de Marcelus Malfoy. Eu sei — disse Bervely, e recebeu em troca um breve olhar surpreso de Bellatrix.

— A senha é Maleus Maleficarium. Prenda-os em celas separadas — use a de prata para o vampiro. Não demore; mesmo com os ossos quebrados, ele pode recuperar forças suficientes para atacar você.

Bervely olhou para a massa disforme que era Regulus Black — os membros torcidos em ângulos errados, a cabeça pendendo mole sobre o peito, os cachos negros emaranhados sobre a gola da camisa branca. Só o feitiço de levitação de Bellatrix o sustentava fora do chão.

Olga Greengrass ainda estava inconsciente, o corpo flutuando ao lado do vampiro. O penteado severo se desfizera ao longo da noite, e agora o cabelo loiro ocultava parcialmente o rosto, um hematoma surgindo onde Bervely a atingira no queixo.

Pelo canto do olho, Bervely percebeu um movimento nas cores de Bellatrix — ela transfigurava o vestido de baile em vestes negras longas de Comensal. A máscara em seu rosto também se transformou: tornou-se a representação de uma caveira de olhos ocos, costuras sobre os lábios metálicos, cobrindo todo o rosto.

— O Lorde das Trevas requer a minha presença — disse ela, diante do olhar questionador de Bervely, sem o menor sinal do prazer com o qual normalmente se referia a Voldemort. — Não deixe ninguém entrar na Mansão. Não fale com ninguém. Não desobedeça às minhas ordens. Eu a estriparei se tentar.

Bervely não teve tempo de questionar as ordens — ou o seu estripamento. Assim que Bellatrix desaparatou com um clack agudo, ela se apressou a levar os prisioneiros para as masmorras.

O vampiro — Regulus Black — não estava inconsciente. Gemeu quando Bervely o conduziu cuidadosamente para dentro da cela de prata — uma estrutura instalada no fundo da masmorra, que parecia feita para abrigar algo do tamanho de um hipogrifo, ou uma quimera.

Quando ela fechou a porta de grades atrás dele, trancando o complicado sistema de travas, o vampiro ficou deitado, imóvel, como um brinquedo quebrado e largado no chão.

Bervely mal conseguia olhar. Uma sensação pestilenta se enrolava na base do seu estômago toda vez que tentava; como se a própria Nagini tivesse se aninhado em sua barriga e mordiscasse suas entranhas.

Não conseguia afastar a impressão insistente de que o conhecia. De que ele era importante.

Ela sabia que o vira antes, ao menos uma vez, no enterro dele. Mas ela podia jurar que a sensação não vinha daquela memória distante dos seus cinco anos.

O esforço de se lembrar fez sua cabeça explodir numa dor branca, sem aviso. Bervely arfou, enfiando o rosto entre as mãos e apertando os olhos, como se pudesse empurrar a dor — e a náusea que vinha com ela — de volta para o fundo.

Quando voltou a si, descobriu que um par de olhos azuis a espiava.

— Olga — murmurou, ajeitando a postura.

Bervely tinha colocado Olga Greengrass na segunda cela das masmorras de Lucius Malfoy — esta ao nível do chão, com grades regulares de ferro, embora tão larga quanto a primeira.

A cela não tinha sequer o equivalente a uma cama, então Bervely a ajeitara contra a parede oposta, tentando ignorar o cheiro remanescente de podridão e as manchas escuras suspeitas no chão.

— Bervely — Olga se ergueu, devagar, nos braços feridos. Passou os olhos pelas acomodações, a expressão crescendo em horror. — Por que você me trouxe aqui?

Ela ergueu uma mão ao pescoço, e franziu o cenho numa expressão de dor.

— Os lapsos! Eles atacaram a festa, não foi? Onde estão meus pais? E Daphne?

— Eu não sei — disse Bervely, observando-a com atenção. — Você não se lembra… do que fez?

— Do que eu fiz? — Olga tentou se levantar. Tinha perdido um sapato na confusão, e precisou se livrar do outro para manter o equilíbrio, fazendo uma careta de profundo desgosto ao sentir o chão pegajoso sob os pés. — O que foi que eu fiz? Eu não… não me lembro… — Olga esfregou os olhos. Sua mão tocou o hematoma no queixo, e ela fez outra careta.

Verificou a mão por sangue, mas não havia nenhum. Não em estado líquido, pelo menos.

— Bervely… estamos do mesmo lado. Sabe disso, não sabe?

Bervely achou a afirmação interessante, visto que nem ela mesma sabia de que lado estava, na maior parte do tempo. O que sabia — e achava que Olga estava se referindo — era à sua suposta aliança com os Comensais da Morte. Bervely não deixara de notar que havia de fato uma Marca Negra no braço pálido da jovem, visível através da manga rasgada do vestido.

— Bellatrix está vindo. Ela vai averiguar se está mesmo falando a verdade.

Bervely podia muito bem ter dito que Satanás em pessoa estava prestes a chegar. Olga se jogou contra as grades, as mãos agarrando as barras de ferro com ferocidade, os olhos azuis febris de pavor.

— Bellatrix Lestrange? O que eu fiz- o que eu fiz para irritar Bellatrix Lestrange?

Bervely mordeu o lábio devagar, afastando da superfície a parte de si mesma que se reconhecia em Olga.

Um dia, ela também estivera numa cela, temendo pela própria vida. Não fazia tanto tempo assim. E Bervely ainda se lembrava da sensação das grades frias sob os dedos, da impotência diante de um destino horrível.

Ela olhou nos olhos azuis de Olga com intenção.

— Se há alguma parte de você que tem as respostas… devo adverti-la que ela vai encontrá-las. Ela sempre cava fundo.

Olga piscou, perdida, o rosto vermelho e os olhos cheios de lágrimas.

— Do que você está falando? O que você acha que eu fiz?

Bervely tentou vislumbrar qualquer sinal, qualquer faísca de verde nos olhos assombrados que imploravam. Não havia nenhuma.

— Vire-se — disse de repente.

E quando Olga não se moveu, ela ergueu a varinha e repetiu, séria:

— Eu mandei se virar. Me deixe ver seu pescoço.

Olga obedeceu, se inclinando, oferecendo um ângulo favorável para que ela visse sua nuca.

Havia uma tatuagem ali — mas não era o que Bervely pensava ter visto. Não era o símbolo do Olho de Hórus. Era uma pequena pomba negra, em linhas estilizadas, cujas asas se abriram e bateram, impacientes, quando ela a expôs ao escrutínio.

Bervely recuou, em parte aliviada, em parte desapontada. Suas memórias da noite estavam cada vez mais embaralhadas, à medida que o cansaço se acumulava e a dor de cabeça ameaçava devorar seu cérebro.

— Por que você tem uma pomba tatuada na nuca? — perguntou. Mas a resposta foi interrompida por um gemido baixo vindo do vampiro, na outra cela.

Olga franziu o cenho para a massa disforme e imóvel. O rosto de Regulus Black, voltado em sua direção, parecia mais calmo, embora ainda houvesse um vinco entre as sobrancelhas muito negras e os olhos cerrados.

— Quem é ele?

— Tem certeza de que não o conhece? — Bervely pressionou. — Bellatrix parece achar que vocês estiveram em conluio para arruinar a festa.

— Quê? Não! Bervely, por favor, o que está acontecendo?

A dor de cabeça estava piorando. Cada vez que Bervely olhava na direção do vampiro quebrado dentro da cela de prata, a dor se intensificava — logo, mal conseguiria manter os olhos abertos.

— Eu preciso ir.

Olga a chamou, pediu que ficasse, mas Bervely a ignorou. Arrastou-se para fora das masmorras. Pensou em deixar uma fonte de luz, mas desistiu. Preferiu deixá-los no escuro.

A luz parecia incomodar o vampiro, que mal conseguia abrir os olhos — embora Bervely tivesse a clara impressão de que ele as estivera ouvindo o tempo todo.

* * *

Bervely não viu quando Bellatrix voltou.

Ela tinha adormecido dentro da banheira, onde havia preparado um banho quente para lavar o sangue seco e a sujeira que a noite acumulava sobre sua pele.

Ouviu o barulho da aparatação e os passos da Comensal ecoando pelo andar vazio.

Bellatrix foi direto para o subsolo — como Bervely sabia que faria.

Oh, ela iria querer suas respostas.

E o Lorde certamente as requeria também.

Bervely estremeceu dentro d’água quando o primeiro grito de Olga cortou a noite. Abraçou-se, as pernas juntas ao peito, os braços apertados em torno dos joelhos, a cabeça pulsante escondida no pequeno, quieto vão criado pelo seu próprio corpo.

O cabelo encharcado — mais longo do que jamais fora — lhe servia de barreira inútil contra os sons que vinham lá de baixo.

Olga não sabia o que Bellatrix queria dela.

Por favor, por favor, ela pediu.

Ela não era uma traidora.

Era leal ao Lorde das Trevas.

Nunca tinha visto o vampiro antes.

Não, não conhecia ninguém chamado Regulus Black.

Não conhecia nenhuma Maeve Rosier.

Nem mesmo sabia o que eram os “lapsos” antes daquela noite.

Por favor, por favor, não me mate. Não me mate.

Bervely não ouvia por causa do isolamento acústico ruim; Lucius teria se assegurado de que as masmorras fossem perfeitamente à prova de som.

Não.

Ela ouvia porque Bellatrix ouvia.

Ela era a mão que segurava a varinha.

Ela era o sorriso atravessado cortando o rosto.

A injeção de adrenalina nas veias.

O coração pulsando no êxtase que a tortura lhe trazia.

O arrepio que os gritos provocavam, misturado à irritação por não conseguir as respostas que queria.

E não houve como bloquear a rosa, não agora.

Bervely temeu a noção de que, talvez…

Talvez ela nem estivesse tentando.

* * *

— Você fez bem, esta noite — disse-lhe Bellatrix, quando Bervely abriu os olhos.

Amanhecia. Uma luz suave se infiltrava pelos vitrais da janela, colorindo os lençóis de azuis, laranjas e verdes pálidos. Bervely havia adormecido em sua antiga cama, no quarto que costumava ocupar quando morava na Mansão Malfoy.

Ela se ajeitou na cama; Bellatrix estava sentada à penteadeira gêmea da que havia em Blackburn. Enfim, havia retornado à sua própria aparência. A Poção Polissuco de Bervely devia ter perdido o efeito em algum ponto da madrugada.

Bervely levou quase dois minutos para perceber que Bellatrix a havia elogiado.

A Comensal tamborilava as unhas no tampo da penteadeira. Estavam sujas — como o resto de Bellatrix. Ela ainda vestia suas roupas negras de comensal, e a varinha, pousada ao lado, parecia cansada de torturar. Ou saciada.

Ah, sim. Bervely havia adormecido ao som dos gritos de Olga.

Ela engoliu em seco para o gosto amargo em sua boca.

— Greengrass…?

— Não tinha nada útil a acrescentar — disse Bellatrix, com uma nota de irritação, as unhas tamborilando com mais rapidez. — Revirei a cabeça da idiotinha a noite inteira, e tudo o que encontrei foram enormes espaços vazios onde deveriam estar as memórias. A garota obviamente foi comprometida pelos nossos inimigos.

— Mas ela está, uh– viva?

Bellatrix piscou lentamente para Bervely, com uma contrariedade que beirava a ofensa.

— É claro que ela está viva, Bervely. Por que razão eu mataria uma sangue-puro sem ordem expressa do Lorde das Trevas?

— Certo — Bervely esfregou o rosto, afastando o cabelo emaranhado dos olhos. Não se dera ao trabalho de secá-los ou penteá-los na noite anterior e, como consequência, agora tinha um ninho de cobras com que lidar.

O fato de Olga não estar morta não lhe trouxe o alívio esperado. Tendo estado na mira da varinha de Bellatrix antes, Bervely sabia que a garota provavelmente implorara pela morte algumas vezes durante o processo.

— Quem você acha que mexeu com a cabeça dela?

— O vampiro, é claro — sibilou Bellatrix. Ela dizia “vampiro” com o mesmo tom que usava para “escória sangue-ruim”, como se a palavra apodrecesse em sua boca. — Deve ter tomado o controle da mente dela em algum momento da festa. Garota estúpida. A família vai pagar por isso, é claro. O Lorde das Trevas garantirá que paguem.

Bervely assentiu, pensando nos “erros” de Draco, e em como a família Malfoy havia pagado por eles.

Pobre família Greengrass.

— O que vai fazer com ela?

— Devolvê-la — suspirou Bellatrix, examinando as unhas imundas. — Ou melhor, Draco vai, quando terminarmos com ela.

— Draco? — Bervely tossiu, surpresa, mas Bellatrix já avançava para o próximo assunto.

— Apronte-se. Você deve mudar sua aparência para a de Draco antes de descer.

Vai encontrar vestes apropriadas no quarto dele.

Bervely recostou-se novamente à cabeceira da cama, a exaustão voltando a seus ossos.

Bellatrix se ergueu, recolheu a varinha e caminhou até a porta. Mancava da perna esquerda. Um hematoma escuro do tamanho de um punho florescia acima da gola das vestes — um que não estivera ali na noite anterior.

Bervely estreitou os olhos. Talvez Olga não tivesse sido a única a sofrer na ponta de uma varinha no curso da madrugada.

— Como milorde encarou a notícia da perda dos lapsos?

Bellatrix parou à porta, os ombros enrijecendo, a ponta da varinha soltando faíscas em direção ao chão, se virando.

— Com justificada fúria — ela lambeu os lábios devagar, como se o gosto da fúria de Voldemort ainda estivesse em sua boca. — Os Selwyn foram punidos, assim como os demais que estiveram presentes e não conseguiram impedir o levante. O único consolo de milorde foi que eu consegui capturar o vampiro responsável.

Ela deu um pequeno sorriso lunático, e Bervely notou mais um corte — esse no canto esquerdo da boca, ainda aberto.

Se Bellatrix tinha ficado com a parte leve da punição, Bervely não queria nem imaginar o que acontecera com os outros.

— Ele sabe quem é o vampiro em questão?

— Não. E não importa — rosnou Bellatrix, os olhos cintilando perigosamente. — Fui incumbida de arrancar-lhe informações sobre como controlou os lapsos, para usarmos a técnica quando os recuperarmos. E então, tenho autorização para destruí-lo. Você vê, tudo ficará bem — ela murmurou, mais para si mesma do que para Bervely. — Tudo será como deveria ter sido.

Bervely a assistiu deixar o quarto, em estado de incredulidade; Bellatrix estava ocultando o retorno de Regulus Black do Lorde das Trevas. E a estava usando como cúmplice.

* * *

Bervely — sob o disfarce de Draco — foi incumbida de ordenar aos elfos domésticos dos Malfoy que colocassem a mansão em ordem, arranjassem um quarto de visita para Bellatrix e se mantivessem longe das masmorras. Dilly e Duane, as duas criaturinhas amarfanhadas que restaram na mansão após a dissidência de Dobby, anos atrás, pareciam não conseguir conter a felicidade ao ver Draco retornar.

Não por afeição ao garoto (Bervely duvidava que Draco alguma vez tivesse tratado bem seus elfos domésticos, considerando como Lucius o ensinara a lidar com “seres inferiores”), mas porque, enfim, a Mansão teria habitantes novamente.

A parte preferida de Bervely naquele novo arranjo — fora o fato óbvio de que não precisava voltar para a úmida, sussurrante e gelada Blackburn — era que ali, os elfos obedeciam a ela, e não a Bellatrix nem aos demais Lestrange. Ao menos, desde que estivesse usando o cabelo platinado e os olhos azul-tempestade do primo, e o anel das Duas Serpentes na mão esquerda.

— Leve uma refeição para a garota quando eu estiver ausente — Bellatrix instruiu antes de sair. — Use a aparência de Draco e faça parecer que está agindo sem o meu conhecimento.

Bervely não fez perguntas. Achava que sabia o que Bellatrix estava fazendo, e preferia aquelas ordens a qualquer uma que envolvesse o uso de sua varinha.

— E quanto ao vampiro?

— Ainda não consegui o que quero dele. Deixe-o faminto. Voltarei mais tarde para continuar o que começamos.

Bellatrix mancou para fora da sala de refeições, presumivelmente a caminho de Blackburn Hall, para curar suas feridas e limpar os resquícios da noite anterior do corpo. Quando Bervely a ouviu estalar no átrio, usando a zona de aparatação doméstica, soltou um longo suspiro.

— Mais chá, milorde? — perguntou um dos elfos, sobressaltando Bervely. Era impossível saber qual — Dilly e Duane eram irmãos da mesma ninhada e, aos olhos dela, completamente idênticos: da voz à ponta das orelhas.

Ser chamada de milorde fez Bervely reprimir uma careta. Certo. Agora, supunha que era o lorde da casa.

— Não, obrigado.

O elfo arregalou os olhos, tão chocado que o bule que sustentava no ar sacudiu e quase derramou chá sobre Bervely. Ela tinha mesmo acabado de agradecer? Infernos.

— Perdão, milorde! Perdão! Dilly ficou surpresa... Dilly vai se castigar na cozinha! Garota má, garota má! Dilly é uma garota muito—

— Dilly — Bervely pigarreou, firmando a voz e tentando soar como o herdeiro mimado e insuportável que Draco era em casa —, vá à cozinha e prepare uma dúzia de bolinhos de pistache para mim. Esse é o seu castigo.

Ela acrescentou a última frase num impulso, deixando a elfa, se possível, ainda mais confusa.

Dilly deixou o bule de café sobre a mesa e saiu tropeçando, murmurando e esfregando as mãos nervosamente nas orelhas.

Bervely fechou os olhos diante da própria idiotice e esfregou o rosto.

Um movimento à sua esquerda lhe sugeriu que a elfa doméstica retornara:

— Dilly, eu disse—

— Agradecendo aos elfos da casa, milorde — zombou uma vozinha áspera perto do pé da mesa. — Eles vão achar que milorde perdeu o juízo.

A voz em questão vinha de um elfo, mas esse, encurvado e feioso, Bervely reconheceu imediatamente:

— Monstro? Como você entrou aqui?

O tom zombeteiro de Monstro vacilou ao perceber que Bervely estava possivelmente irritada com sua presença.

— Monstro foi ordenado a aparecer na primeira oportunidade em que minha senhorita estivesse sozinha — o elfo sussurrou, as orelhonas vibrando ansiosas. — Em qualquer lugar, a qualquer hora, sob qualquer disfarce. Essas foram as últimas ordens que Monstro recebeu.

— Certo — Bervely assentiu com pressa. Tinha uma vaga memória de ter dado aquela ordem, mas como outras lembranças recentes, ela vinha envolta num véu denso que atribuía ao cansaço da última noite. — Por quê?

— Para lhe devolver isto, minha senhorita.

O elfo produziu das dobras das vestes três frasquinhos translúcidos, cada um contendo um líquido leitoso e espiralante. A mera visão dos frascos começou a clarear algumas coisas para ela. Sim, ela tinha deixado memórias com o elfo. Mas quais, e por quê? A pontada na cabeça — a primeira daquela manhã — foi o indício de que a ausência das memórias em questão estava relacionada às enxaquecas da noite anterior.

— Certo — Bervely repetiu, como um quadro mal-encantado. Recebeu os três frascos e sentiu a frieza impaciente das memórias em suas mãos.

— Minha senhorita quer que Monstro fique?

— Eu o chamarei se precisar. Caso contrário, fique fora de vista.

O elfo pareceu ligeiramente chateado, mas a expressão sumiu de seu rosto antes que Bervely pudesse confirmá-la. Elfos sequer podiam se chatear? Sempre achara que eles estavam além daquelas emoções mundanas, que oscilavam entre felizes por cumprir suas tarefas e compulsivos por se punir quando falhavam. Mas Monstro, como o elfo dissidente Dobby, parecia ter um espectro mais amplo de emoções do que Bervely lhes dera crédito.

O elfo lhe fez uma reverência, pronto para partir. Bervely acrescentou, meio sem jeito:

— Obrigada, Monstro.

Mas não tinha certeza se ele ouviu, porque, no segundo seguinte, ele já havia desaparecido.

* * *

— Afaste-se das grades — ela disse, a voz rouca de Draco ecoando pelo teto baixo da masmorra.

Com os olhos estreitos de desconfiança, Olga obedeceu, recuando para as sombras da parede oposta.

Bervely empurrou para dentro da cela uma bandeja com uma refeição completa, uma garrafa de água e uma cesta de bolinhos recém-assados.

O cheiro da comida se misturou aos aromas mais desagradáveis das masmorras, que Bervely tentou ignorar para manter no estômago o pouco que havia comido.

— Malfoy — Olga disse amarga, avançando até a garrafa de água. — Você também está envolvido nisso? É claro que está. Bellatrix é sua tia, não é? Esta é a sua casa, então? Estão me mantendo refém na mansão da família Malfoy? Meu pai vai vir atrás de mim! Quando ele descobrir que você está envolvido…

— Seu pai está ocupado, lidando com a decepção do Lorde das Trevas.

A menção bastou para rachar ao meio a postura de controle que Olga Greengrass tentava manter:

— Mas eu não fiz nada! — ela explodiu, arremessando a garrafa contra as grades.

Bervely recuou, mas não precisava: o vidro encontrou o metal e se estilhaçou, espalhando o conteúdo pelo chão.

O vampiro na gaiola de prata se contraiu, mas não abriu os olhos.

Bervely tirou a varinha de Lucius do bolso e a usou para reparar a garrafa, enchendo-a de água novamente. Levantou-a de volta à bandeja com movimentos controlados.

— Eu sei. Eu acredito em você.

— Acredita? — Olga ofegou, interrompida pela própria surpresa.

— Acho que você foi manipulada para ajudar o vampiro — Bervely continuou, encarando-a. — Pelos mesmos que mexeram nas suas memórias e apagaram o que Bellatrix procurava na noite passada.

O rosto da garota se contorceu numa agonia impotente que parecia com dor física. Bervely não pôde deixar de notar que, o que quer que Bellatrix tivesse feito para arrancar as informações, não havia deixado marcas visíveis. Olga estava suja, mas não machucada — ao menos, não por fora.

Cruciatus, então. O clássico.

Bervely abaixou os olhos, desconfortável. A Olga que ela conhecera em Hogwarts teria odiado cada segundo daquela humilhação: a perda de controle, a imundície da cela, a indignidade de ser mantida prisioneira, e a incerteza do que viria.

— Coma logo — Bervely disse, indicando a bandeja. — Antes que Bellatrix volte.

Olga lançou-lhe um olhar enfurecido, como se a suposta bondade de Draco fosse mais uma afronta em sua lista.

Bervely suspirou e lhe deu as costas. Ouvindo Olga finalmente se aproximar da bandeja, ela tomou coragem e, após um momento, caminhou até a cela de prata no lado oposto do porão.

Os olhos de Regulus Black continuavam fechados, mas a expressão em seu rosto era pacífica.

Seus braços e pernas já não estavam retorcidos em ângulos estranhos, mas arranjados em uma posição que indicava que ele recuperara o controle dos próprios movimentos em algum momento durante a noite.

Vampiros não eram supostos a dormir, pelo que ela entendia — mas Regulus, ao menos, parecia profundamente adormecido, a cabeça encostada na quina da gaiola, alguns cachos do emaranhado escuro em sua cabeça deslizando pelo espaço entre as grades.

Bervely esticou a mão e enrolou um deles em torno do indicador, com cuidado para não perturbá-lo. Macio como seda negra, acetinado como uma das penas do Dedo-Duro que ela usara em sua poção da verdade.

A garganta dela se trancou com a firmeza de um punho.

— Regulus? — Bervely chamou, a voz num sussurro, tentando não ser ouvida por Olga.

Mas não houve resposta. O vampiro não podia — ou não queria — falar com ela.

O que era, provavelmente, para o melhor.

Porque agora que ela se lembrava, Bervely nem sabia por onde começar.

* * *

Cruciatus — elocubrou Bellatrix — não era tão eficiente em mortos-vivos quanto em criaturas vivas.

O mesmo valia para legilimência: era impossível usá-la contra vampiros e outras criaturas das trevas.

Suas mentes distorcidas não podiam ser penetradas daquela maneira — não como podiam as mentes dos vivos. Aquela noite, disse-lhe Bellatrix, os olhos brilhando de antecipação, ela ia quebrar a mente da criatura que um dia fora Regulus Black.

Bervely não contribuiu na conversa, deixando o monólogo de Bellatrix atingí-la como uma onda e continuar o seu caminho.

Ela encarava o prato, sem sinal da fome que estivera lá quando os elfos haviam posto o jantar à mesa. O seu estômago se enrolara em si mesmo, num nó de agonizante impotência que lhe era velho conhecido, recusando-se a servir ao seu propósito mais básico.

— Talvez você seja de algum uso esta noite — continuou Bellatrix, após um ou dois abençoados segundos de silêncio.

— Talvez eu seja — respondeu ela com secura sarcástica, encarando Bellatrix, que a observava criticamente, o rosto inclinado, aquele olhar perigoso de ideias no rosto anguloso.

— O vampiro pareceu especialmente interessado em você, no baile.

Bervely abaixou os olhos de novo para o prato, rearrumando a intocada salada de ervilhas. Deu de ombros, alinhando três ervilhas numa fileira cuidadosa na borda do prato.

— Talvez tenha sido o fato de eu ser uma Black que o interessou. Ele é meu... — Ela lutou contra uma contração involuntária do corpo para produzir a palavra: — ...tio, afinal de contas.

— Por que ele se importaria com um parentesco tão remoto? Ele é um morto-vivo, e já não faz mais parte desta família.

Bervely apertou o garfo com força desnecessária, mandando uma das ervilhas para fora da linha. Mas, antes as ervilhas do que a expressão cuidadosamente neutra montada em seu rosto.

— Talvez ele não pense da mesma maneira.

Bellatrix se levantou subitamente, empurrando a cadeira pesada para trás com um rangido feral. Bervely ergueu o rosto, sobressaltada — a mão descendo em direção à varinha por reflexo —, mas a Comensal não parecia prestes a atacá-la, apenas a arrastá-la para fora do salão de refeições.

— Venha.

Bervely hesitou, se dando conta de que tivera um pesadelo naquela noite — e nele, Bellatrix a fazia assistir à tortura de Regulus Black. Talvez não tivesse sido um pesadelo, no final das contas, mas uma premonição.

Levantou-se e seguiu a mulher até o porão, cada célula, cada músculo e cada nervo se retorcendo contra a vontade de correr na direção contrária. Mas correr só a faria parecer uma covarde — e nisso ela já era especialista, não precisava de mais prática.

* * *

— Use sua aparência original. Não era em Draco que o vampiro estava interessado.

Bervely relaxou-se de volta à própria forma: deixou os olhos escurecerem, sentiu o formigamento no couro cabeludo à medida que os cabelos escorriam pelo rosto e ombros, formando uma cortina que emoldurava sua visão.

Sem parar de andar, usou a varinha para reajustar as vestes retiradas do guarda-roupa de Draco, de modo que coubessem em seu corpo.

Quando pararam diante da porta do porão, Bellatrix a observou criticamente, como se tentasse descobrir como torná-la mais interessante para o vampiro. Por fim, brandiu a varinha e a apontou para a boca de Bervely.

Rubius.

Um formigamento quente nos lábios, a sensação de uma camada de cor se assentando sobre eles. Bervely revirou os olhos.

— Isso é mesmo necessário?

Bellatrix sorriu com satisfação e desceu para o porão.

Bervely fechou os olhos por um momento, ergueu suas maltratadas barreiras mentais o melhor que pôde ao redor de si mesma, e a seguiu para baixo.

Regulus Black e Olga Greengrass conversavam aos sussurros quando Bellatrix explodiu uma esfera de luz no teto com um estampido súbito. Bervely piscou, os olhos ardendo com a brusca mudança de luminosidade, o coração disparando com o som inesperado.

Quando suas íris se ajustaram, ela focalizou os prisioneiros em suas respectivas celas — Olga recuara até o ponto mais distante de Bellatrix que sua cela permitia. Regulus... Regulus olhou para Bervely, que vinha um passo atrás da mãe, antes de voltar os olhos para Bellatrix — embora fosse a varinha dela que estivesse apontada em sua direção.

Não, pensou Bervely, mas o segundo estampido da varinha atingiu Regulus no peito, e ele tropeçou para trás, apertando o ponto onde fora atingido.

Bervely mordeu os lábios para não protestar, focando no fato de que ele estava consciente e parecia recuperado da maldição quebra-ossos da noite anterior, já capaz de mover os braços e as pernas.

— Vampiro — rosnou Bellatrix, deslizando até a cela com os passos suaves de quem sabe que a presa está encurralada, pronta para o abate. — Vejo que já está pronto para me dar as minhas respostas.

— Bella — Regulus sorriu. O sorriso era só presas, sem nenhum traço de humor. Ele abaixou as mãos, revelando o buraco na camisa e a ferida vermelha queimada no peito. — Vejo que trouxe companhia. Ou seria o jantar? Aqueles ossos que você me fez consertar ontem à noite abriram meu apetite.

— Como se eu fosse desperdiçar sangue puro para saciar a sede de algo tão desprezível quanto você.

— Nós já cobrimos isso ontem, prima. Ainda sou eu, Regulus. Seu primo preferido. Morrer não mudou muita coisa.

— Morrer muda tudo, vampiro — disse Bellatrix, levantando a varinha novamente.

Bervely desviou o rosto, os dentes cerrados, decidida a respirar pela boca, antecipando o cheiro de carne queimada.

Mas o chiado e o odor não vieram — em vez disso, ouviu os horríveis estalos de tendões se partindo, seguidos de um grito de Regulus que reverberou em seus ossos como uma pancada seca.

Na cela ao lado, Olga pressionou as mãos nos ouvidos e se encolheu em posição fetal, contra a parede oposta, tentando espremer-se para fora da realidade de onde estava.

Bervely entendia o impulso. Tinha feito o mesmo na noite anterior. Mas então estivera sozinha, longe do escrutínio de Bellatrix.

Não era estúpida o suficiente para deixar passar que estava ali não para ser “útil” na tortura, mas porque Bellatrix queria vê-la reagir ao espetáculo.

— Meu caro primo — retomou Bellatrix, a voz suave e envenenada, assim que o eco do grito se dissipou —, já que insiste que ainda somos família, certamente não se importará em responder a algumas perguntas hoje, em nome do nosso parentesco?

— Você entendeu o processo ao contrário — tossiu Regulus, a voz apertada pela dor, mas ainda um tom sarcástico em cada palavra. — Primeiro você pergunta, depois quebra os ossos, cara prima.

— Eu gosto de variar — respondeu Bellatrix com um de seus sorrisos que beiravam a insanidade. — Assim ninguém fica entediado.

— Merlin a proíba de entediar suas visitas.

Faça uma pergunta. Pelo amor de Salazar, faça alguma maldita pergunta.

Mas Bellatrix não parecia com pressa de começar o interrogatório. Ela reposicionou a varinha, e Bervely ergueu os olhos o suficiente para ver que a ponta agora mirava a perna direita dele — a mesma que, mais uma vez, estava retorcida num ângulo estranho a partir do joelho.

Com um leve ondular do pulso, Bellatrix fez a tíbia de Regulus girar mais alguns graus para fora. Ele rangeu os dentes, o rosto erguido, os punhos cerrados — mas não deu a ela o prazer de outro grito, mesmo quando a agonia estampada em sua expressão parecia insuportável.

Os segundos se arrastaram — uma eternidade — até que Bellatrix enfim relaxou o pulso, e Regulus, por sua vez, deixou o corpo ceder, a cabeça tombando contra as grades da cela.

Mais uma vez, os olhos dele passaram por Bervely primeiro. Ele pegou um vislumbre de suas unhas cravadas no braço oposto, através da manga comprida da blusa que ela pegara do armário de Draco.

Mas ele não se deteve nela. Piscou na direção de Bellatrix, espiando-a por sob pálpebras pesadas:

— Vejo que continua a vadia sádica de sempre.

— Errado. Eu sou uma vadia muito mais sádica do que na última vez que nos encontramos.

Regulus sorriu outra vez, as gengivas manchadas de sangue escuro. Os caninos, pontudos e brancos como marfim, cintilavam à luz do feitiço suspenso.

— Você quer dizer, da vez em que falhou em matar um adolescente dissidente? Sim, eu acho que me lembro.

Bellatrix mirou a varinha na outra perna dele. Bervely teve a impressão nítida de que alguma coisa dentro dela se partiria, se Bellatrix quebrasse mais um osso do corpo do vampiro.

— Ele mente — ouviu a própria voz ofegante interromper.

Bellatrix virou-se na direção dela, irradiando fúria. Não era uma fúria nova: era a mesma de antes, acumulando-se, prestes a transbordar. A raiva era para Regulus, para a provocação dele — mas, ao se ver no caminho daquele olhar, Bervely precisou reunir toda a força que ainda tinha para não recuar.

— O que disse?

Ela firmou a voz antes de responder:

— Ele está mentindo. Você não falhou em matá-lo. Ele precisou morrer para se tornar um vampiro.

Bellatrix considerou por um momento — um instante em que Bervely se viu pendurada entre duas possibilidades, e ter alguns dos ossos quebrados era uma delas. Mas Bellatrix assentiu uma vez e se voltou para Regulus, os olhos apertados de desconfiança:

— Você precisaria ter sangue de vampiro no sistema no momento da morte. E muita sorte para não virar um lapso inútil durante a conversão. Você planejou isso, seu inseto desprezível?

Regulus deu de ombros, com cuidado para não mover a perna recém-quebrada.

— Eu sabia que ia morrer. Decidi tirar o melhor proveito da situação.

— Covarde! Traidor imundo e covarde! — cuspiu Bellatrix. — Escolher uma existência amaldiçoada em vez de morrer com dignidade, de morrer pagando pela sua traição ao Lorde das Trevas!

Ela arrancou algo– Bervely reconheceu a faca de prata, Betsy — de um coldre sob as vestes com a mão direita e a lançou. Com um movimento rápido da esquerda, atingiu a lâmina no ar com um feitiço.

A faca zuniu por entre as grades como um dardo amaldiçoado. Regulus ergueu os braços a tempo de proteger o rosto do primeiro corte. A lâmina atingiu seu antebraço com um chiado e uma nuvem de fumaça, abrindo um talho que rasgou a manga da camisa e, sob ela, um risco escuro de sangue espesso e espirais de vapor.

A faca recuou só o suficiente para ganhar impulso. Voltou a atacá-lo — de novo, e de novo, e de novo — ao som dos gritos de Bellatrix, cada mergulho abrindo um novo corte nas vestes e na pele por baixo.

— COVARDE! TRAIDOR IMUNDO! INSETO MISERÁVEL! — berrava ela. — DESONRANDO O NOME DA FAMÍLIA! TRANSFORMANDO-SE NUMA CRIATURA MORTA-VIVA! INDIGNO! INDIGNO…

Bervely recuou para longe de Bellatrix, encostando-se à porta do porão.

Betsy mergulhava e voltava, mergulhava de novo, cortando qualquer parte de Regulus que conseguisse encontrar: o antebraço, o ombro esquerdo, a carne sob as costelas, a coxa direita, a bochecha esquerda — abrindo fendas fundas que sangravam devagar. O sangue, espesso e escuro, contrastava com a pele branco-pergaminho.

Ele tentava se defender, mas havia uma lentidão, um peso em seus movimentos. Cada golpe da lâmina de prata doía dez vezes mais do que um corte comum, porque ardia com a magia impregnada no metal — feita para ferir criaturas como ele.

Na cela à esquerda, Olga soluçava.

Bervely sentiu algo quente escorrer pela bochecha. Limpou rápido, antes que Bellatrix notasse.

Não que ela fosse capaz de perceber qualquer coisa naquele momento — tomada por um frenesi febril, ela já não era a bruxa dotada de crueldade calculada, que submetera Bervely a incontáveis Cruciatus no círculo de pedras. Bervely teve a horrível impressão de que aquilo só terminaria quando Regulus se tornasse uma pilha de carne rasgada, incapaz de responder a qualquer pergunta.

— PARE! — gritou ela, incapaz de continuar calada. — JÁ BASTA!

Silêncio.

Por um momento, Bervely teve certeza de que a faca viria voando em sua direção. Ela nem mesmo se importou — podia receber alguns cortes, se isso poupasse Regulus de ganhar tantos outros. Nela, ao menos, os cortes não queimariam, apenas rasgariam a sua pele.

Mas Bellatrix virou o rosto em sua direção:

— Quem você pensa que é para me interromper —

Bervely não respondeu com a voz, mas através da rosa.

Você me trouxe aqui para ser útil. Me deixe ser útil!

Bellatrix a olhou, aturdida. Bervely sustentou o olhar da mãe, tentando parecer como se soubesse o que estava fazendo. A única coisa que sabia era que queria aquela faca — no momento cravada na coxa esquerda de Regulus, torcendo com lentidão enquanto ele tentava arrancá-la, as mãos chiando no processo — longe dele.

E, devagar, muito devagar, a fúria borbulhante de Bellatrix diminuiu até se tornar um ardor contido.

Uma mudança mínima na postura de Bellatrix — aprumando-se e inclinando a cabeça com acidez sarcástica — lhe serviu como permissão. Bervely firmou as pernas, sacou a varinha e, sem olhar de novo na direção da mãe, andou até a gaiola.

Colocou a ponta da própria varinha entre as grades e apontou para a faca.

Finite. Accio.

A arma vibrou, resistiu, mas enfim deslizou da carne dele para suas mãos, o sangue escuro manchando a lâmina. O punho se revelou quente contra sua pele.

Regulus ergueu o rosto, a olhou com apreensão. O olhar dele, mesmo através da agonia, parecia dizer: não faça nada estúpido.

Meio tarde para isso, ela pensou, cada fibra do corpo tensionada na tentativa de manter uma postura indiferente. Tentou ignorar os talhos que a faca produzira no corpo dele — os cortes não vertiam sangue, nem mesmo o que atravessava o lado esquerdo do rosto, sob a maçã do rosto alta que ela...

Bervely fechou os olhos e respirou fundo, afastando a lembrança.

— Você deve estar com fome — disse, mal reconhecendo o som da própria voz: rouca e rígida, como o resto do seu corpo. — Se nos der respostas, eu lhe trarei algum sangue.

— Eu não autorizei — Bellatrix começou atrás dela, mas Bervely girou o pescoço e a olhou com impaciência.

— Se não lhe dermos algum sangue, ele não vai conseguir se curar, e você não vai ter nada para quebrar da próxima vez.

A Comensal da Morte rolou os olhos com uma resignação contrariada. Bervely se sentiu doente, doente e suja dentro de suas veias, suja em sua língua por compreender Bellatrix tão bem, por saber exatamente o que a convenceria a ceder.

— Muito bem, que seja. Mas a única coisa que esse infortúnio desonroso vai beber sob o meu teto é sangue de ratos.

Bervely fez esforço para não lembrar Bellatrix de que aquele não era o seu teto. Em vez disso, voltou a atenção para Regulus, olhando-o como se ele não fosse nada mais do que um vampiro que ela queria fazer colaborar (e ignorando a voz em sua cabeça que não parava de repetir: Regulus. Regulus. Regulus.)

— E então? Temos um acordo?

Ele a encarou, considerando sem pressa. Foi a vez de Bervely pensar: não diga nada estúpido. Por favor, por favor, não diga nada estúpido.

— Eu quero beber da garota Greengrass.

— Você não está em posição de negociar, escória! — Bellatrix crocitou atrás deles, a nota de descontrole voltando a oscilar em sua voz. Bervely arregalou os olhos para ele — seja razoável, infernos! — mas Regulus manteve a expressão imperturbável presa nela, os olhos pálidos em fendas estreitas, apesar da luz cintilando no teto.

Bellatrix continuou:

— Eu vou rasgar a sua garganta e arrancar os seus dentes, e então vamos ver que tipo de sangue você vai beber essa noite!

— Pavões — Bervely sugeriu, lembrando-se das criaturas que Lucius deixava correr soltas em seus jardins à guisa de decoração viva. — Se você responder todas as nossas perguntas, eu mandarei o elfo trazer um para você.

Ela teve a impressão de ver o canto afiado dos lábios de Regulus tremular para cima.

— Um pavão por pergunta, então.

Ela se virou para Bellatrix em consulta, incluindo-a na negociação em uma tentativa de evitar que recomeçasse a dança da faca de novo.

Um maldito pavão e eu vou fazer quantas perguntas achar necessário. E se as respostas não me satisfizerem, o pavão em questão será enfiado em sua garganta, meu caro primo, ainda vivo. Veremos o quão bom você é em digerir penas.

Regulus respondeu às três primeiras perguntas de Bellatrix: como havia feito a transição (pagando pelo sangue vampírico com o adiantamento de sua herança, quando percebeu que não podia fugir para sempre de Voldemort, e carregando-o consigo nos últimos dias de vida, para garantir que o teria no sistema quando Bellatrix o encontrasse); onde estivera todo esse tempo (escondido com os demais vampiros em Gomorra, um dos poucos clãs europeus sobreviventes à Guerra dos Sete Sangues, no século XVII); e por que invadira o baile e libertara os lapsos: porque eles não são propriedade do Lorde das Trevas.

Bervely, que se afastara das grades para deixar Bellatrix retomar o interrogatório, tinha a impressão de que a mãe não estava satisfeita com as respostas dadas de bom grado, por um Regulus colaborativo. Sem derramar sangue ou fazer os gritos reveberarem, as palavras não tinham o mesmo gosto.

Mas então, nem mesmo Bellatrix podia negar a urgência daquelas respostas, se queria resolver a situação antes que o Lorde das Trevas descobrisse que o vampiro em suas mãos era o primo que ela falhara em matar. Ela precisava oferecer algo a Voldemort para apaziguar a fúria certa, quando o inevitável acontecesse.

O que os levava à quarta pergunta:

— Como você os controlou para fora do labirinto?

Regulus hesitou, os punhos se fechando e afrouxando. Bervely podia jurar que os muitos cortes em seu corpo pareciam um pouco menos abertos do que quando ele começara a responder, mas ele também estava cada vez mais lento — as palavras se embolando na língua, as pálpebras pesando conforme os minutos passavam.

— Uma ótima pergunta — murmurou o vampiro, desviando o olhar para as próprias mãos. — Mas se não for incômodo, prima, eu gostaria daquele pavão agora.

— Você responderá à minha pergunta, vampiro — rosnou Bellatrix, a fúria que nunca ficava longe da superfície voltando a borbulhar em sua voz, fazendo a ponta da varinha faíscar em vermelho. — Nem que eu precise arrancá-la...

A resposta de Regulus foi um suspiro entediado.

— Como, Bella? Como você vai arrancar qualquer coisa de mim? Eu não tenho medo da sua varinha. Nem da sua faca. — Ao mencioná-la, lançou um olhar a Bervely. Ela mal percebera, mas ainda segurava a faca, o punho apertado em sua mão dormente. — Você pode me quebrar, me retalhar, me cortar em pedaços, se é o que deseja. Se me despedaçar o bastante, não serei mais capaz de responder ao que seja. E o seu lorde vai descobrir que você falhou em me matar, e que estive tramando minha vingança contra ele, silenciosamente, pelos últimos dezesseis anos. Então ele vai retalhar você em muitos pedacinhos. — Regulus esticou um sorriso cansado. — Ouvi dizer que Nagini mal pode esperar por uma chance de devorá-la.

A fúria mal contida no rosto de Bellatrix se misturou a outra coisa — ultraje? Humilhação? Medo? Bervely não soube dizer, mas, fosse o que fosse, ela adorou Regulus por trazer o sentimento à tona.

— Tudo que você pode fazer agora é me tratar bem e contar com a minha boa vontade, se quiser respostas. Eu disse que estou com fo—

Silencio — sibilou Bellatrix. A boca de Regulus desapareceu de seu rosto, deixando pele lisa onde antes estivera.

Bervely piscou, chocada, mas o vampiro apenas rolou os olhos. Ela quase leu o pensamento na metade que restava do seu rosto: muito maduro, Bellatrix.

— Terminamos por hoje — disse Bellatrix, tanto para ele quanto para Bervely, com um tom de ameaça velada. — O vampiro não deve ser alimentado. Não me deixe pegá-la trazendo um pavão para este porão, Bervely, ou eu juro, pelo nome de Salazar—

— Entendido — disse Bervely, antes que ela pudesse completar a ameaça.

Bellatrix murmurou algo entre dentes e — milagrosamente — deixou as masmorras, com um último olhar de desprezo lançado a Regulus Black.

Bervely não se moveu de imediato. Por um longo momento, tudo o que se ouviu foi sua respiração pesada e Olga fungando à esquerda, perdida em sua visão periférica. Desejou que estivessem sozinhos. Não que importasse. Mesmo que fosse só ela e Regulus, ainda não estariam livres. Não enquanto Bellatrix estivesse naquela casa.

Quando ergueu o rosto, os olhos de Regulus já a esperavam, e havia um aviso urgente neles: ela está ouvindo.

Com a saída da bruxa, a boca de Regulus voltara ao rosto, o feitiços se desfazendo muito mais rápido do que seria esperado em um bruxo normal.

Bervely engoliu em seco, modulando a voz para não vazar emoções.

— Você vai conseguir se curar, se não se alimentar esta noite?

Os olhos de Regulus tinham a intensidade de um milhão de perguntas, e as palavras não ditas entre eles pesavam no ar como uma tempestade sem permissão para desabar. Mas quando ele respondeu, a voz era a mesma de antes — apática, cansada, desinteressada:

— Farei o meu melhor.

Ela assentiu, mordendo o lábio inferior. Cada nervo tenso, cada parte sua em conflito, esticada até o limite.

— Ela vai voltar para terminar o que começou.

O vampiro assentiu, os olhos estreitos caindo para a boca que ela mordia, num ardor silencioso que podia ser fome — ou alguma outra coisa que Bervely não corria o risco de nomear. Ele mostrou os caninos, manchados do próprio sangue escuro, distorcendo os muitos cortes em seu rosto bonito.

— Então eu espero que ela não volte sozinha.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.