A Canção de Morgana

43 Oniromancia e Outras Magias


Notas iniciais
Boa Leitura! Ao terminar, atenção para oferta super master de bônus nas notas finais!

— Bervely? É você que está aí?

Bervely se ajeitou, sentando-se na cama, atordoada e com o coração disparado. Regulus sorriu para ela do outro lado do espelho, um tanto surpreso.

— Como eu posso ver você? Onde você está?

— Hogwarts — ela produziu, a voz errante, ainda em choque. — Onde você está?

— Em casa… Gomorra. Acordei você? Pensei ter ouvido a sua voz xingando, do interior da minha escrivaninha.

— Não, eu não estava dormindo… — Enquanto falava, Bervely tentou ajeitar o cabelo para fora do rosto e parecer um pouquinho mais digna. — O que o espelho de Sirius estava fazendo dentro da sua escrivaninha, e não em posse de Darkmoon?

— Precisei confiscar o espelho dela, visitantes de Gomorra não podem manter artefatos mágicos. Eu não sabia para que servia, então coloquei em uma gaveta e acabei me esquecendo.

Bervely tentou se concentrar no que ele estava dizendo. Estava falando com Regulus. Em tempo real. Regulus.

— Sirius — ela se lembrou, de súbito. — Como ele está?

Regulus fez uma pausa que deixou Bervely sob tensão, ao menos até perceber que havia humor nos olhos fendados dele.

— Você podia ter me avisado que ele perdeu a memória recente. Ele ficou, de novo, bastante estupefato ao me ver vivo.

— Ah, é. Achei melhor não colocar detalhes na carta, para o caso de ser interceptada — ela explicou, e depois franziu, preocupada. — Como foi? Ele acreditou na sua história de novo?

— Ele ficou defensivo e confuso, mas Darkmoon foi de alguma ajuda. Ela contou que já tinha me conhecido antes e assegurou a Sirius que ele tinha me dado o benefício da dúvida da primeira vez, o que suponho que o incentivou a confiar em mim de novo. Desde então, temos evoluído.

A ideia de Sirius e Regulus se dando bem, enquanto ambos estavam longe dela, tinha o efeito de alfinetadas no ego de Bervely. Ela tentou não demonstrar o sentimento em seu rosto.

— Ele está aí com você? Me deixe vê-lo.

— Não estão aqui. Sirius e Darkmoon ficam em outro lugar, eu ofereci a eles uma casa na vila.

— Que vila? Pensei que eles iam ficar aí com você — ela disse, ansiosa.

Outra pausa. Ela teve a impressão de que Regulus estava editando muito intencionalmente as suas respostas.

— Eles não podem ficar aqui. Mas eu prometo que eles estão seguros e bem instalados, eu os visito todos os dias, depois do anoitecer.

— Certo — ela assentiu, pouco convencida. Regulus abriu outro daqueles sorrisos afiados nas bordas, que provocavam uma alfinetada nas entranhas dela.

— Ninguém está tentando beber o sangue deles, se é o que está pensando.

— Se você diz — ela devolveu, tensa, o que fez o sorriso dele se intensificar.

— É bom ver você, Bervely. Senti a sua falta.

Bervely precisou de toda a sua concentração para não deixar nenhuma das emoções borbulhando dentro dela transparecer em seu rosto. O que podia ser inútil, já que ele devia ser capaz ouvir o seu coração batendo rápido contra a sua garganta.

— É, você comentou, na sua carta.

Só que, na carta, ele tinha usado outra palavra: saudades. Ela lembrava bem, pois a palavra vinha lhe assombrando dia e noite desde então.

Regulus fez um movimento de afirmação minúsculo com a cabeça, os olhos se estreitando um tantinho.

— Fiquei imaginando se você mandou Darkmoon com Sirius, ao invés de vir, porque ainda está aborrecida comigo.

Bervely supunha que ainda devia estar. Ele tinha, afinal, ido embora no meio do furacão, deixando-a só com o seu luto pela morte de Narcissa. No entanto…

— Eu não tenho tido muito tempo para pensar nisso.

Ele abriu um sorriso esperançoso. Bervely mordeu o interior das bochechas, apertando o espelho com tanta força que as pontas dos dedos começavam a ficar dormentes. Os dois se encararam longamente através do vidro e da distância que os separava.

— Eu notei que você guardou o meu cachecol — ele comentou, diversão velada em seu tom casual.

— O que acabou sendo útil, não é? — devolveu ela, recuperando a sua ironia, momentaneamente perdida nos azuis cáusticos dos olhos do vampiro. — Foi quase como se você soubesse que eu precisaria rastrear você.

— Não sabia, mas confesso que esperei de que fosse o caso.

Ela rolou os olhos, tentando evitar sorrir como uma quintanista hormonal, mas descobrindo-se incapaz. Isso, até que a lembrança da sua última conversa com Regulus retornou à tona e rapidamente varreu o humor do seu rosto.

— Suponho que a pessoa que estava esperando por você aí ficou feliz em recuperá-lo, são e salvo?

Regulus franziu o cenho para a mudança abrupta de assunto, mas logo o seu rosto se abriu em compreensão.

— Sim. Mas por pouco não me meti em problemas, por demorar mais do que o esperado.

Bervely ajeitou as costas, o estômago se enrolando com um sentimento ácido.

— Que bom que não foi o caso — ela retrucou, irônica. — Não vai se meter em “problemas” por hospedar Sirius e Darkmoon?

— Não se preocupe com isso — ele disse, olhando divertido para ela. Bervely estava obviamente perdendo a piada implícita. Na verdade, toda a sua vontade de sorrir e até a sua excitação por falar com ele pelo espelho tinham minado um pouco.

Regulus estava fora do seu alcance. Não só por causa da distância, mas porque alguém já tinha chegado em sua vida primeiro.

— Está tudo bem? — Regulus franziu. Bervely só podia imaginar que tipo de expressão havia surgido em seu próprio rosto, e tratou de desfazê-la rápido.

— Sim… só estou cansada. Obrigada pelas notícias, mas acho que é melhor eu ir agora.

— Sinto não ter descoberto a função do espelho antes — ele disse. — Vou deixar você descansar.

Ela assentiu, embora duvidasse que sua mente fosse capaz de qualquer descanso depois daquele encontro inter espelhar inesperado.

— Boa noite, Regulus.

Ele lhe deu um último sorriso pontudo, as presas aparecendo rapidamente por trás dos lábios pálidos.

— Tenha bons sonhos.

* * *

Harry encarava a porta do armário sob a escada. O seu armário, aquele em que tinha passado a maior parte da sua infância espremido, enquanto os Dursley escondiam a sua existência do resto do mundo. Mas, curiosamente, ele não estava no hall da casa dos tios. Parecia mais como um corredor qualquer de Hogwarts, paredes de pedra, tochas mágicas acesas em archotes ao longo da parede.

O que o seu armário sob a escada estava fazendo em Hogwarts?

A porta se abriu um bocadinho, derramando uma luz suave até o corredor. Então, um rosto impaciente surgiu na fresta. Era Anne. O cabelo longo dela caiu do lado do seu rosto, fazendo sombra em suas feições.

— Você vai entrar ou o quê?

Harry, surpreso, obedeceu a sugestão da garota.

O lado de dentro do armário de vassouras não era como ele se lembrava. As teias de aranha não estavam mais lá. As paredes marcadas de umidade tinham sido substituídas por um papel de parede listrado, vermelho escuro, como o do salão comunal da Grifinória. A lâmpada pendurada no teto, que era acendida puxando uma cordinha, desaparecera; a iluminação agora provinha de meia dúzia de velas acesas na prateleira sobre a cama, que não só forneciam uma luz amarelada aconchegante, como cheiravam bem.

Anne abriu espaço para que Harry se sentasse ao seu lado na cama pequena, não muito maior que um sofá de dois lugares. Ele notou o colchão mais macio e a ausência do cheiro discreto, mas constante, de mofo que se desprendia do colchão usado.

Mas, a coisa mais absurda é que haviam janelas. Duas, bem pequenas e compridas, lembrando visores, uma de cada lado. Na casa dos seus tios, a janela logo atrás da parede às costas de Anne daria para a cozinha, e aquela atrás dele, em direção à porta da frente. Mas o que Harry viu ao espiar sobre a janela atrás de Anne foi, ao invés do balcão da cozinha, pedacinhos de um céu estrelado.

— Eu fiz umas mudanças na decoração. Espero que não se importe — Anne disse, um pouco ansiosa.

— Por acaso eu estou sonhando…?

— Correto — ela assentiu, satisfeita de que ele tivesse percebido rápido. — Um sonho lúcido, para ser mais precisa. Estava me perguntando se seria lúcido para você também, ou só pra mim.

Anne usava pijamas azul-corvinal, do tipo que se vendia na loja de Madame Malkin como um acréscimo ao uniforme básico da escola. Consistia em uma blusa de mangas longas e calças de flanela grossa. Caía bem nela, com um quê de confortável, como vestir uma nuvem.

Ele olhou para si mesmo: estava com a roupa com a qual fora dormir: uma camisa larga, cor de laranja, que já fora de Duda num passado distante, e calças de moletom que, apesar de finalmente caberem na circunferência da sua cintura, estarem curtas nos tornozelos.

Eram os seus tornozelos, ele notou, não os de Dino Thomas. A poção Polissuco não estava fazendo efeito ali.

— Como isso é possível? — Harry perguntou, assombrado. Anne fez uma expressão de “fico-feliz-que-perguntou”.

— Se lembra quando eu lhe contei que podia ver os seus sonhos, não é? Fiz uma pesquisa e descobri que outros bruxos já fizeram algo parecido, antes, se chama oniromancia. Parece que, se você já tem uma linha aberta de legilimência com alguém, oniromancia não é tão difícil, basta praticar a parte lúcida da coisa.

Harry olhou, pensativo pela janelinha acima da cabeça dela, mas tudo que conseguia ver era a noite; um céu de veludo contra contas brilhantes de luz. O sonho tinha aquela qualidade levemente embaçada nas bordas, que Harry já vira antes, quando tinha visitado memórias na Penseira, ou quando se lembrava dos seus próprios sonhos ao acordar. Fora isso, parecia bem real.

Ocorreu a Harry, no entanto, que houvera outra ocasião em que tivera os seus sonhos manipulados.

— Acho que Voldemort usou algo parecido em mim, no ano passado. Ele me fez sonhar com o Departamento de Mistérios no Ministério, quando quis me manipular para ir lá buscar a profecia para ele.

— Isso é diferente. Ele plantou sonhos na sua cabeça sem a sua permissão. — Explicou Anne, embora parecesse inquieta. — Aqui, não estamos nem no seu sonho, nem no meu, mas numa espécie de meio termo. Você tem tanto controle do que acontece quanto eu. Pode até ir embora, se quiser.

Ela indicou a porta do armário com a cabeça.

— O que acontece se eu sair?

— Acho que você volta ao seu inconsciente adormecido. Talvez até entre em outro sonho, um produzido pela sua própria mente. Pode dar uma espiada neles.

Anne indicou algo atrás dele. Harry se virou para a janelinha estreita, igual a que havia atrás dela, ocupando o espaço do verso de um degrau, às costas dele. Do outro lado, não viu o céu estrelado, mas uma imagem turva e embaralhada como o fundo de um caldeirão. Vislumbres de memórias emergiam e desapareciam mais rápido do que ele podia compreendê-las.

— Parece que você não está sonhando com nada específico — Anne observou, por cima do ombro dele.

Harry se virou de novo, ainda impressionado.

— Vou me lembrar disso quando acordar?

— Não sei — ela mordeu o lábio inferior, pensativa. — Mas achei que, se queremos conservar o seu disfarce do lado de fora, esse seria um jeito seguro de nos encontrarmos. Se você quiser, é claro.

* * *

— … E deixem as suas amostras de poção Wiggenweld sobre a minha mesa, uma vez que sejam devidamente resfriadas. Aqueles que precisarem de cuidados médicos — Bervely prolongou o seu suspiro exasperado para efeito dramático. —, favor passar na enfermaria antes do jantar. Suponho que Madame Pomfrey consiga fazer crescer um par de dedos antes da hora do jantar.

Os estudantes do sexto ano da Sonserina e Grifinória com os quais Bervely tinha sobrevivido as últimas duas horas começaram a se levantar, arrastando cadeiras e trazendo até ela frascos arrolhados com poções em diferentes estados de completude.

Ela observou, com o cenho franzido, Longbottom tentar arrolhar a sua poção fervendo em uma garrafa, embora o topo do seu dedão estivesse faltando. Bervely suspirou.

— Longbottom, pode deixar a poção no caldeirão, eu o recolherei mais tarde.

O garoto rapidamente deixou o caldeirão para trás e saiu da sala como se perseguido por um balaço, um rastro de sangue pingando por onde passou.

— Não se esqueçam de revisar as instruções para o Tônico Memorizador¹ antes da próxima aula! — Bervely exclamou, embora a metade dos alunos já tivesse saído para o corredor. Não que ela tivesse esperanças de que eles fossem se lembrar, mesmo que a ouvissem, o que era no mínimo irônico.

Draco se aproximou e deixou sobre a mesa dela algo que se aproximava da cor verde que a sua poção deveria ter, embora turva. Ele foi se afastando rápido, sem olhá-la, o que Bervely achou particularmente aborrecido.

— Draco, espere aí.

— O que foi? — Draco perguntou se má vontade. Bervely ergueu as sobrancelhas para a atitude e garoto soltou um muxoxo. — O que foi, professora Black?

— Se importa em me ajudar a resfriar as poções que ainda não foram envasadas?

— Mas estou com fome — ele resmungou, com uma careta birrenta.

— Se atrasar alguns minutos para o jantar não vai matar você, ande.

Enquanto Draco fazia caretas e resmungava impropérios baixos demais para Bervely ouvir, o falso Dino Thomas se aproximou da mesa e deixou sua própria amostra, a que tinha feito em dupla com Neville Longbottom.

— Bom trabalho hoje, Sr. Thomas — Bervely disse. A poção dele era uma das poucas através da qual podia-se ver alguma coisa.

— Obrigado — ele disse, lançando-lhe um olhar rápido e desconfiado.

— Por favor, cheque o Sr. Longbottom na enfermaria se tiver a chance, assegure-se de que correu tudo bem.

— Farei isso — ele assentiu. Draco, que tinha se afastado dos dois para buscar frascos limpos no armário, espiou a interação com suspeita.

“Thomasdeixou a sala, as mãos fundas no bolso, ainda meio desengonçado em seu corpo alto demais. Draco acompanhou o garoto ir embora com um olhar desdenhoso.

— Ouvi dizer que ele foi mordido por um vampiro durante o verão, por isso sumiu da escola todos esses meses.

— É, também ouvi — Bervely assentiu, levantando-se para recolher as amostras da mesa até a caixa que usaria para transportá-las. Fez isso manualmente; nunca se sabia o quão bem tinham sido arrolhadas pelos cabeças-de-vento a que ensinava.

— Não sei como o Ministério pode deixar ele andando pela escola. E se ele for contagioso, e morder algum aluno?

— Com medo pelo seu pescoço, Draco? — Bervely zombou. Draco olhou feio para ela.

— Por que você está de bom humor? Sua aula foi um desastre. Cinco idiotas quase perderam as mãos para as sanguessugas-luciferinas.

— Sim, cinco. Poderia ter sido todos.

Draco estreitou os olhos para Bervely enquanto ela andava pela sala, limpando a sujeira que alguns dos sextanistas tinham deixado para trás. Por mais que insistisse que eles limpassem a sua estação de trabalho antes de saírem, sempre tinha os que insistiam em empurrar a sujeira para baixo do caldeirão – às vezes, literalmente.

— É verdade que você também pegou o sétimo ano, agora? — Draco perguntou.

— Sim, por quê?

— Nada. Deve ser mais difícil, não é, com os NIEMs…

Bervely deu de ombros. Tivera a sua primeira turma do sétimo ano no dia anterior – Corvinal e Lufa-Lufa, e na verdade tudo correra muito bem. Os sobreviventes que se alistavam aos NIEMs de poções eram, sem surpresa, uma seleção dos mais dedicados alunos da escola.

Eles trabalharam em silêncio por algum tempo, Bervely recolhendo magicamente os utensílios usados e os mandando para a pia, onde começaram a se autolavar, e Draco envasando as poções que já estavam frias, colocando etiquetas nelas, com os nomes dos colegas.

— Como vão as coisas na Sonserina? — Bervely perguntou como quem não queria nada, olhando-o de relance.

— O de sempre — disse Draco, sem se preocupar em detalhar.

— Ouvi falar que esteve envolvido numa briga com os seus amigos.

— Foi só uma divergência de opiniões — retrucou o garoto, na defensiva. — Por que está ouvindo fofocas sobre a minha casa? Sua vida anda assim tão entediante?

— Qual foi a divergência de opinião? — Bervely quis saber, virando-se para olhá-lo. Draco fingiu que estava muito ocupado despejando uma concha de poção quase púrpura num frasquinho, que arrolhou e etiquetou com lentidão proposital, antes de responder.

— Daphne e Zabine estão sendo dois idiotas.

— Sei — Bervely assentiu. — Draco, se eles estiverem lhe atormentando de qualquer maneira, eu posso…

— Não preciso de sua intervenção — ele a cortou, aborrecido. — Posso me virar em minha própria casa.

— É claro que pode — ela assentiu, apertando os lábios por um momento. — Só estava checando.

Draco levou para a mesa os últimos frascos arrolhados e limpou as mãos nas calças do uniforme. Felizmente Bervely não viu aquela quebra de protocolo, pois estava ocupada conduzindo os últimos caldeirões sujos para a pia.

— Você teve alguma notícia dele? — Draco perguntou de repente.

— Ahn? — Bervely ergueu o rosto, distraída. — De Sirius?

O garoto loiro a olhou como se ela tivesse perdido o juízo.

— Por que eu ia querer saber de Black? — Ele baixou a voz, dando uma olhada rápida na direção da porta. — Do meu pai. Até agora, ele não tentou nenhum contato. Nem mesmo para me deserdar ou me obrigar a voltar e terminar o que comecei.

— E você quer que ele tente?

Não. É só que… ele deve estar planejando alguma coisa. Não é do feitio de Lucius ficar silencioso.

— Talvez ele não tenha muito o que dizer, depois do que ele fez com Narcisa — disse Bervely, secamente.

Draco apertou os lábios, empalidecendo um pouco. Ele abriu a boca e fechou algumas vezes, mas enfim colocou para fora o que queria, um tanto constrangido.

— Eu fico esperando que ele venha me buscar na escola e me obrigar a voltar para case. E que, sabe… me faça pagar.

— Você não deve nada a ele — Bervely disse, irritando-se.

— Não acho que ele concorde com o seu ponto de vista — Draco se aprumou, o breve horror que tempestuara seus olhos dando lugar a frieza habitual. — Já terminei com a minha tarefa de caridade. Posso ir agora, ou você quer me fazer de elfo doméstico mais um pouco?

— Vá logo, suma da minha frente, Draco — ela disse com um aceno de mão, desistindo de arrancar qualquer coisa útil do garoto.

Draco lhe deu um aceno breve e deixou as masmorras. Bervely o observou se afastar, notando como o andar pretensamente relaxado do garoto lhe lembrava o de Hector, quando ele tivera a sua idade.

— Amor entre primos, me comove todas as vezes disse uma voz, em sua gaveta. Bervely avançou, se apressando a abri-la e tirar lá de dentro o espelhinho redondo. Regulus Black lhe encarou em retorno, em toda sua resplandecência vampírica habitual, um sorriso atravessado nos lábios pálidos, os cachos do cabelo preto emoldurando o rosto como uma coroa.

Ela olhou feio para ele.

— O que pensa que está fazendo, espionando a minha aula?

Ele ampliou o sorriso até que as pontas afiadas dos caninos aparecerem por trás dos lábios.

— Se não quisesse que eu espionasse, não teria me trazido com você. Tive insônia e passei para ver se estava por aí. Obrigado pela aula. Nunca a poção Wiggenweld foi tão interessante.

Bervely sentiu o rosto esquentar, como se ela fosse um dos adolescentes púberes incuráveis de que tinha acabado de se livrar há pouco.

— Não sei como desligar o espelho — ela resmungou em resposta, ao mesmo tempo em que usava a varinha para trancar a porta da sala, sem querer ser interrompida por algum estudante errante.

— Assim é mais divertido. E então, como está indo o seu dia?

Bervely deu a volta na mesa e sentou-se na cadeira de espaldar reto de Severus, apoiando o espelhinho num ângulo que a favorecesse.

— Se ouviu o que Draco disse, já sabe como foi. Cinco idiotas perderam dedos manipulando um ingrediente com as mãos, mesmo depois de eu insistir no uso de pinças. Nenhuma surpresa aí, Snape me advertiu que isso acontece todo ano.

Regulus riu alto. Ela sorriu, não para o seu comentário, mas para o som da risada dele. Fazia partes dentro dela ficarem quentes.

— E quanto ao filho de Narcisa? Ele me pareceu um pouco escorregadio.

Bervely encolheu os ombros. Draco passara pelo mesmo adestramento que ela tinha passado quando criança, aprendendo a afundar seus sentimentos no lodo da ignorância até que fossem grandes demais para ignorar, e explodissem para fora como monstros das profundezas.

— Ele tenta me evitar, sempre que possível. Preciso me rebaixar a fofocas da Sonserina para saber como ele está. É degradante.

— Dê um desconto ao garoto. Não é fácil perder a mãe nessa idade.

— Não — ela concordou, sentindo-se menos efusiva. Uma sensação gelada tomava seu peito quando pensava em Narcisa. Regulus não deixou passar a mudança na expressão em seu rosto.

— E como você está, minha cara sobrinha?

Ela deu de ombros, tentada a desviar o olhar do espelho. Não gostava quando ele trazia a natureza do seu parentesco à tona.

— Não éramos próximas há muito tempo.

— Não acho que isso muda muita coisa. Eu não a via há décadas, mas ainda senti pela sua morte.

Bervely assentiu, tentando evitar o ardor que ameaçava emergir do fundo dos olhos. Respirou fundo, desviando o foco do assunto de si mesma.

— Vocês foram próximos? Quando estavam em Hogwarts, ou antes disso?

Regulus pensou por um momento.

— Narcissa era… inalcançável. Mesmo quando éramos crianças, bem, quando eu era criança e ela era uma adolescente, eu me lembro que ela vivia em seu próprio mundo de perfeição e expectativas inatingíveis. Amava ser admirada. Mas sempre foi gentil… sempre se importou. Se importava muito mais do que deixava transparecer. Você sabia que ela quis abrigar Bellatrix em sua própria casa, quando ela ficou grávida e precisou deixar a escola? Só não o fez porque Lucius não concordou.

Bervely assentiu, desviando o rosto, desconfortável.

— Bem… Draco está bem. Estamos todos bem. E quanto a você?

— Eu? — Ele ecoou, surpreso e risonho. — O que poderia haver de errado comigo?

— Sirius não está lhe dando muito trabalho?

— Sirius dá todo o trabalho que ele pode — Regulus disse, rindo. — Ele está bem. Da última vez que o vi, estava aprendendo a tosquiar ovelhas.

— …ovelhas?

— É uma atividade popular na vila, ajuda a passar o tempo.

— Soa enfadonho.

Bervely ainda não tinha se acostumado com o fato de que Sirius e Darkmoon não estavam morando exatamente no mesmo lugar que Regulus. Parte dela ficava aliviada que Sirius não estivesse vivendo num clã de vampiros o tempo inteiro, mas por outro, se Regulus não estava lá para ficar de olho nele…

— Posso ver as caraminholas se contorcendo por trás da sua testa — ele disse. — Não se preocupe, ele está a salvo. Os dois estão. Não prometi a você?

— Quero vê-lo — ela disse, antes que pudesse evitar. — Quero falar com ele, Regulus.

— Não posso levar o espelho para a vila — ele disse, em tom de desculpas. — Existem regras para a vila humana. Se acharem um objeto mágico com eles, serão expulsos. Eu mesmo não devia ter mantido o espelho comigo. Se descobrirem, haverá uma investigação. Posso ser expulso de Gomorra.

— Devia se livrar dele, então — ela sugeriu, mal-humorada.

— Vou assumir o risco, por enquanto. Escute, Bev, eu preciso realmente ir agora. Estou morto de.. uh, sede.

— É claro — ela se aprumou. Tinha se inclinado em direção ao espelho sem perceber. — Também preciso ir, tenho relatórios de aulas para escrever. A hora da tortura semanal se aproxima. Reunião dos professores — esclareceu, diante da expressão confusa dele. Regulus riu.

— Boa sorte. Falamos mais tarde?

Os pelinhos dos braços dela se arrepiaram de antecipação.

— Eu aviso quando estiver na cama.

Os olhos dele brilharam com malícia.

— Ótimo. Encontro você na cama.

Ela estreitou os olhos para a insinuação gratuita.

— Bom apetite, vampiro.

* * *

— … então as esmeraldas seriam os meus olhos, e o cão era suposto a ser Sirius. O "beijo" foi a magia de proteção da minha mãe contra Voldemort, o relâmpago, a minha cicatriz, a chave seria o punhal, e o pássaro…

Harry parou, percebendo que Anne não estava prestando atenção. Ela olhava distraída para a sua própria janela estreita, cuja paisagem aquela noite se tornara uma floresta sombria, de árvores longilíneas e brancas feito ossos.

— …Anne?

— “Um passarinho que em sua cabeça fez um ninho”. Essa seria eu, imagino — disse Anne, ainda encarando o seu sonho nevoento, do outro lado da janela.

Harry não perguntou sobre o que aquele sonho em particular se tratava. Anne tivera a discrição de não perguntar o que os sonhos dele significavam, quando tinha vislumbres deles em sua janelinha. Harry, em sua maior parte, preferia ignorá-los.

— Morgana me colocou na sua profecia — disse Anne, a voz ainda distante, o olhar perdido na sua floresta. — Para proteger a sua mente de Voldemort.

— É o que parece. Sinto muito — ele disse com sinceridade. — Sei que não é justo. Mas, sabe… você não é obrigada a fazer nada que não queira, realmente.

— Não seja ridículo — ela disse, com um movimento negativo de cabeça e um sorriso que pareceu forçado. — Então, o que está faltando é o esconderijo? Foi isso que Dumbledore foi procurar?

— É, eu acho que foi. Me pareceu que ele tinha um palpite, mas não quis me dizer pra não correr o risco de… vazar. De qualquer forma, pelo que eu entendi, precisamos da chave para abrir o esconderijo, e a chave foi perdida. Digo, o punhal. Voldemort deve estar com ele. Pode até tê-lo destruído, por tudo que sabemos.

— Você não está levando isso muito literalmente? O esconderijo pode ser uma metáfora. Todas as outras coisas não foram literais. Bem, o animago de Sirius é um cão, mas fora isso...

Harry deu de ombros. Anne parou de olhar para o seu próprio sonho e retornou para perto de Harry, que passou um braço pelas suas costas e em torno da sua cintura. Em resposta, Anne deitou a cabeça no ombro dele, o nariz enfiado na curva do seu pescoço. Harry cheirou o cabelo dela, lembrando-se do aroma de lavanda que sempre tinha.

Anne ergueu o rosto, e eles se beijaram. Harry lembrou da maciez e calor dos lábios dela, de quando tinham se beijado em Godric’s Hollow.

Todas as sensações eram como ecos, mais do que como a coisa real. Sempre parecia haver uma cortina invisível entre eles, anestesiando as sensações. Sonhos, ele suspirou em sua própria cabeça.

Anne se afastou depois de um tempo, um pouquinho ofegante. Ela fechou os olhos, respirando fundo, buscando foco. Harry se segurou para não se inclinar e beijá-la de novo – mesmo que não fosse a mesma coisa que quando estavam acordados, ainda era bom.

— Então, acha que o segredo de como derrotar Voldemort estará no esconderijo? — Anne perguntou, de volta ao assunto.

— Parece ser essa a opção mais lógica, de acordo com Dumbledore. — Harry se lembrou então de algo que ela ainda não tinha lhe esclarecido. Vai me contar o que aconteceu em Glastonbury, depois que aparatou com o Reflexo?

— Pensei que Dumbledore já tivesse lhe contado — ela disse, a voz se distanciando de novo.

— Ele contou o que acha que aconteceu, mas também não estava lá. Você é a única que presenciou tudo, além de Hildegard, e bem… o próprio Voldemort, suponho.

Anne não disse nada, mas o interior do armário ficou frio, de repente. Tão frio que quando Harry falou de novo, vapor saiu de sua boca.

— Anne, o que quer que tenha acontecido…

— Não importa. Eu nem me lembro da maior parte, de qualquer maneira.

Atrás dela, a janelinha de sua mente começou a ficar tempestuosa. Gotas grossas estalaram contra a vidraça, revelando o que Anne não queria dizer em voz alta. Harry a trouxe para mais perto dele, usando o braço que tinha em torno do corpo dela.

— Você disse algo sobre achar que a minha “morte” tinha sido a sua culpa, mas, sabe que isso não faz o menor sentido, não é?

— Acho que é melhor irmos — ela falou, se desvencilhando dos braços dele e deslizando em direção à porta do armário. — Você tem o teste de quadribol amanhã, não é? Precisa descansar, o que não vai acontecer se ficarmos fazendo oniromancia a noite toda.

* * *

Naquela versão alternativa da sua vida – em que Harry não era Harry Potter, mas Dino Thomas – ele também não era mais o apanhador, ou capitão, do time de quadribol da Grifinória.

O choque daquela verdade atingira Harry em cheio na segunda semana de janeiro, quando, à mando de McGonagall, testes foram anunciados para preencher as vagas abertas no time. Na ausência de Harry Potter, Katie Holmes, agora jogadora sênior do grupo, assumiria a posição.

No segundo sábado do mês, Harry – que a essa altura já tinha se acostumado relativamente bem a usar o corpo de Dino Thomas – se reuniu a uma dezena de colegas da Grifinória para os ditos testes. Por que, uma coisa era ele estar se fingindo de morto, mas isso não significava que precisava abrir mão do quadribol… certo?

— Você não pode estar pensando em tentar a vaga de apanhador — advertiu-lhe Bervely Black, após chamá-lo num canto depois de uma de suas aulas de poções (que Harry agora precisava frequentar, porque ao contrário dele, Dino tinha conseguido N.O.M.s o suficiente para permanecer na turma).

— E daí, se eu estiver? — Ele disse de mau humor. Não tinha sido uma aula particularmente boa; sem o livro de sua mãe para ajudá-lo, Harry tinha terminado a aula coberto de poção da paz grudenta, depois do conteúdo do seu caldeirão explodir em cima dele.

— Acha que ninguém vai suspeitar se Thomas de repente começar a voar tão bem quanto Potter, o apanhador prodígio, mais jovem do século ou sei lá do que é lhe chamavam?

— Eu posso fingir que vôo mal, no começo — ele retrucou. — Uma pessoa pode aprender a ser bom no quadribol, não pode?

Bervely estreitou os olhos para ele, como se Harry estivesse se fazendo de idiota de propósito, o que ele meio que estava. Só não entendia por que, de repente, ela se importava tanto.

— …você vai atrair atenção indesejada para o seu disfarce, Potter. E nem pensar em voar naquela sua vassoura. Potter não a emprestaria para qualquer um, não é mesmo?

Harry bufou, mas no fundo sabia que a irmã de Anne estava certa. Por fim, ele tinha se candidatado à vaga de artilheiro e, ao invés da Firebolt, levara consigo para os testes uma Cleansweep 7 que achara no armário de vassouras dos vestiários, e que Harry tinha a impressão de ter pertencido a Oliver Wood quando ele ainda estava na escola.

Montar a Cleansweep, no entanto, era como voar em uma tartaruga alada particularmente preguiçosa. A vassoura resistia aos seus impulsos de velocidade como se estivesse amarrada por um elástico, e dava uns tremeliques quando Harry fazia uma curva mais fechada.

Harry teve, por consequência, um desempenho medíocre nos testes, e achou que só conseguira a vaga porque a outra opção era Córmaco McLaggen, que aparecera para os testes novamente. Como antes, os demais membros do time preferiam entrar num buraco de lesmas carnívoras a tê-lo no time.

Gina, por sua vez, conseguira a vaga de apanhadora, apesar de ter parecido anormalmente tensa durante o teste. Harry sabia o quão bem ela jogava, pois Gina tinha lhe substituído no ano anterior, quando Harry tinha conseguido detenções o bastante para garantir sua saída do time por vários meses.

— Dino, espera!

Harry se virou com um segundo de atraso; vivia se esquecendo que precisava responder ao nome de Dino. Para a sua surpresa, o chamado viera de Gina, que deixava o resto do time e se aproximava de onde ele, sozinho, caminhava de volta para o castelo.

— Hey — ele disse, sem jeito, as mãos nos bolsos. — Parabéns pelo retorno ao time.

— É, a você também — ela ainda parecia tensa. O time passou por eles, num grupo coeso, e Harry viu Rony lançando um olhar longo e desconfiado para os dois. Gina ignorou o irmão — Quer ir dar uma volta? Queria falar com você um minuto, se não tiver problema.

Harry assentiu e os dois diminuíram o ritmo, desviando o caminho para a direção do lago negro.

Gina demorou um longo tempo para falar, no qual Harry teve a oportunidade de produzir uma série de pensamentos inquietos a respeito do que ela poderia querer. Estaria desconfiando do seu disfarce? Teria descoberto, de alguma maneira, que ele era um impostor no corpo de Thomas? Gina sempre tinha sido perspicaz o bastante…

— Eu estive me perguntando se você está zangado comigo.

— Eu? Porque... porque eu estaria?

— Ah, você sabe — Gina trocou o peso de um pé para o outro, parecendo desconfortável. — Estávamos trocando cartas com frequência no verão e de repente eu parei de responder, do nada. Achei que fosse por isso que estava me evitando.

— Eu não estou evitando você — ele disse, confuso e inexplicavelmente enciumado. Gina e Dino tinham trocado cartas com frequência no verão?

— Ah, certo — ela assentiu, perdida. — Só achei, sabe… — Gina balançou a cabeça. — Deixa pra lá. Tanta coisa aconteceu desde então, não é? Eu nem fazia ideia de que você não tinha voltado para Hogwarts, estive tão envolvida com meu próprio drama. — Ela fechou olhos, então os reabriu e produziu um sorriso instável. — Só queria me desculpar, acho.

Através da névoa de confusão, Harry viu emergir uma memória longínqua, do ano anterior, de uma conversa entre Gina e Rony no Expresso de Hogwarts, quando voltavam para casa. Algo sobre Gina ter terminado com Miguel Corner e… escolhido Dino Thomas. Na ocasião, Harry achara que ela tinha dito aquilo só para irritar o irmão, mas e se Gina e Dino tivessem realmente... feito alguma coisa antes que o ano terminasse?

Isso explicaria ela e Dino terem trocado cartas com frequência no verão, e Gina achar que ele estava, de alguma forma, ignorando-a. Harry se lembrou dos olhares longos e discretas insinuações da garota nos últimos dias, e se sentiu estúpido. Julgara que Dino e Gina eram amigos, como ele e Gina tinham sido, ao menos até o que tinha acontecido no hospital antes do primeiro dia de aula.

— Você parece distante — ela observou. Harry piscou, voltando ao presente.

— Eu, não, uh… não estou irritado. É como você disse, tanta coisa aconteceu. Sinto muito pela distância.

Ela assentiu, e eles continuaram andando sem rumo pela grama semi-congelada, um frio afiado tentando penetrar em suas vestes escolares. Harry teve a impressão de que ela queria dizer mais alguma coisa. Ele próprio queria, mas não sabia o quê. Como Harry, queria pedir desculpas a ela, por conta de deixá-la esperando no Natal, e ao invés disso fugir para Godric’s Hollow com Anne. Como Dino, não fazia ideia do que tinha acontecido entre eles, e do que precisava se desculpar.

— Tem algo que eu provavelmente deveria lhe contar — ela voltou a dizer, parando de andar. Harry parou também. No corpo de Dino, era uma cabeça e meia mais alto que ela, e precisava inclinar a cabeça para olhar em seu rosto. — Sei que não estávamos sérios nem nada quando voltamos para casa depois das aulas, mas mesmo assim… Eu beijei alguém. Digo, fui beijada. Não importa, não é relevante quem beijou quem — ela se atrapalhou, o rosto tomando um tom rosado.

O coração de Harry deu uma volta inteira no peito, de susto principalmente. Não esperava que ela fosse trazer isso à tona.

— Ah, foi? — ele falou, porque parecia que Gina estava esperando ele dizer alguma coisa. — Uh… quem? Quero dizer, não que você precise que me dizer…

— Harry — ela disse, encarando-o. — Ele me visitou no hospital, logo depois do acidente. Algo aconteceu. Eu não sei bem… o que deu nele — acrescentou, suas sobrancelhas franzidas.

— Ah — Harry realmente não sabia o que dizer. Como assim, "o que tinha dado nele"? Pigarreou. — Pensei que gostava de Harry. Quero dizer…

— É — ela assentiu, rápido, desviando o rosto. — Gostei. Gostava. Gosto. Não sei mais — Gina sacudiu a cabeça, o cabelo ruivo escapando do rabo de cavalo em que o prendera para os testes. — Desculpe, só achei que devia ser honesta com você. Eu não o vi realmente, desde então. E agora ele… desapareceu — ela franziu, respirou fundo, e esfregou o rosto com as mãos. — É tudo uma confusão.

Harry concordou – tudo era uma confusão. Ele pensou no que o tinha levado a beijar Gina no hospital, e no que sentia quando beijava Anne. Não era a mesma coisa, mas ele definitivamente não queria magoar Gina, especialmente quando ela estava sendo tão honesta com ele. Bem, com Dino.

— Talvez seja melhor continuarmos só amigos — ele sugeriu, as mãos fundas nos bolsos. Gina ergueu o rosto para ele, os olhos castanhos cintilando como duas bolas de fogo, refletindo o sol atrás de Harry, que começava a se pôr por trás da floresta.

— É, tem razão. Acho que assim é mais fácil.

Ela deu um sorriso fraco e aliviado. Harry sorriu de volta, apesar de alguma coisa apunhalando suas entranhas.

— Estou feliz que está aqui, sabe? — ela recomeçou, num tom mais animado. — E que entrou oficialmente para o time. Vamos destruir a Sonserina na próxima partida.

***

O primeiro treino após o feriado aconteceu no sábado seguinte, debaixo de uma chuva fina e irritante. Eles começaram bem. Harry trocara a Cleansweep 7 por uma Nimbus 2000 achada no armário de vassouras aos fundos do vestiário. Aquele fora o modelo da sua primeira vassoura, confiável e responsiva, mesmo que não fosse tão rápida quanto a Firebolt.

Katie deu boas vindas a ele e Gina, e explicou o que queria que fizessem – alguns exercícios de entrosamento e aquecimento típicos, para voltar ao ritmo após o feriado.

Eles deram voltas no campo. Trocaram algumas goles. Harry se humilhou com a sua pontaria sofrível, e Rony foi gentil o suficiente para lhe lançar olhares de encorajamento.

Mais ou menos uma hora depois que tinham começado, um balaço passou de raspão pela orelha esquerda Gina, pegando-a de surpresa. Ela deu um gritinho – e no minuto seguinte, estava pegando fogo.

Chamas cor de laranja explodiram ao redor da garota como se ela fosse feita de material inflamável da cabeça aos pés. Gina gritou e se desequilibrou da vassoura. Por um momento, ficou pendurada de cabeça para baixo pelas pernas há uns três metros do chão, queimando em chamas cor de laranja sob a chuva fraca, então desabou.

A coisa toda durou uns três segundos. Ela parou de queimar ao cair na grama ensopada, uma fumaça cinza clara espiralando para cima do seu corpo depois que o fogo se apagou.

— GINA! — Rony, que estava mais perto, bem acima dos aros, voou até a irmã no chão.

O resto do time fez o mesmo caminho, voando até ela de seus lugares no ar. Katie foi a segunda a chegar, afobada.

— Weasley! Não toque nela, ela pode ter sido amaldiçoada!

— Eu estou bem, estou bem — Harry ouviu Gina insistir, soando embaraçada, quando ele próprio se aproximou, vindo do outro lado do campo. Rony a ajudava a se sentar no chão, embora ele tenha afastado as mãos dela rápido, como se tivesse se queimado. — Foi só um acidente.

— Você acabou de pegar fogo em cima de sua vassoura — Katie discordou, a voz trêmula e séria. — Eu dificilmente classificaria isso como acidente!

Gina não conseguia olhar para nenhum deles nos olhos. Ela se levantou, dispensando as mãos de Rony. Haviam marcas de queimadura em seu uniforme de quadribol, mas a sua pele parecia, milagrosamente, intacta. Quando ela se movia, desprendia um cheiro de couro queimado característico.

— Isso tem, uh… acontecido às vezes, desde o meu acidente. Nada com que se preocupar. Estou bem, viram só? — Ela abriu os braços para mostrar a si mesma, na defensiva.

Rony, longe de estar convencido, começava a ficar tão vermelho quanto a Goles que ele largara no chão, na pressa de socorrê-la.

— Como assim, tem acontecido? Mamãe sabe disso? Deixaram você sair do hospital desse jeito?

— Agora não, Rony, sério — Gina suspirou, depois reuniu coragem para olhar para Katie, que ainda estava procurando suas próprias palavras. — Desculpe não ter mencionado nada nos testes, mas realmente achei que não ia acontecer no ar. É realmente, uh… imprevisível. Vou entender se preferir me tirar do time.

Katie puxou uma longa respiração e pareceu estar trincando os seus dentes com vontade.

— O quão imprevisível? E o quão frequente?

Gina deu de ombros, ainda muito sem graça.

— Quase sempre consigo prever quando vai acontecer, e acho que estou aprendendo a controlar. Sério! Prometo que vai estar sob controle até o próximo jogo.

Katie pinçou a ponte do nariz, soltou um bufo e pareceu chegar a uma decisão.

— Ótimo, trabalhe nisso, então. Você é a minha melhor opção para apanhadora, em chamas ou não. Está machucada?

— Não. Mas acho que vou precisar arranjar um jeito de deixar o uniforme à prova de fogo.

— E a sua vassoura — Katie suspirou, olhando para cima. A vassoura da qual Gina caíra ainda estava no ar, voando em ziguezague, as suas cerdas alegremente em chamas.

* * *

— O que aconteceu com o verdadeiro Dino Thomas? — Anne perguntou, passando de uma mão para a outra a garrafinha metálica que Harry usava para guardar a poção Polissuco que mantinha o seu disfarce, e que ele não sabia ao certo porque viera ao sonho com ele. — Dumbledore lhe disse isso, ao menos?

— Não, não realmente. Disse que ele está vivo e que autorizou emprestar a identidade dele para mim, até porque está oferecendo cabelo de bom grado para a poção.

— Hum — Anne murmurou, pensativa, os olhos acompanhando o movimento da garrafa.

— Por quê? — Harry perguntou, distraído.

Essa noite Anne estava usando uma camisola diferente. Era mais como um vestido, com alças finas e um tecido lustroso, que terminava no meio de suas coxas. Ela usava um cardigã por cima, mas quando ela se movia — para ajustar a série de almofadas às costas deles, por exemplo – o cardigã deslizava um pouquinho e Harry tinha um vislumbre desimpedido de seu pescoço e do ombro, onde sua pele parecia impossivelmente suave. Como consequência, estava tendo dificuldade para manter a sua atenção na conversa.

— Eu só estava imaginando o que aconteceria se ele voltasse para a escola, e de repente houvesse dois Dinos.

— Não acho que ninguém repararia. — Harry capturou a mão dela quando Anne deixou a garrafa de lado, entrelaçando seus dedos nos dela. Sentiu a sombra da sensação — o calor e a maciez da mão dela, como se lembrava. Anne apertou seus dedos de volta num pequeno encorajamento distraído.

— O que quer dizer?

— Acho que dois Harrys fariam um rebuliço na escola, mas dois Dinos? Ninguém presta muita atenção em mim neste corpo. É tão estranho. Esses dias eu estava na biblioteca e Madame Pince quase a fechou comigo lá dentro. Ela esqueceu que estava lá dentro! Isso porque tinha reclamado comigo umas duas vezes mais cedo, por “abrir demais” um livro de DCAT…

Anne riu sonoramente.

— Bem vindo ao mundo dos meros mortais. Nem todo mundo recebe a mesma atenção dedicada ao Escolhido — caçoou, inclinando o pescoço. O cardigã deslizou um pouquinho de novo, dando a Harry outro vislumbre da pele exposta.

Harry se perguntou se havia o risco daquele se tornar outro tipo de sonho. O pensamento causou um arrepio involuntário na área mais ao sul do seu estômago.

— Eu não me importo… — ele disse, num tom involuntariamente mais baixo, pois não confiava em sua voz no momento. — Eu aprecio anonimato. A parte ruim é o que não vem com ele.

— O que é que não vem com ele?

— Meus amigos. Minha própria cama. Mais tempo com você — confessou, com uma sombra de calor nas bochechas. Ela inclinou mais um pouquinho a cabeça, de forma a olhar para ele atravessado.

— Como assim? Estou bem aqui. Nos vemos quase toda noite. Isso é mais do que nos víamos antes, mais do que quando eu estava na Grifinória, até.

— Eu sei. Mas não é… exatamente a mesma coisa, é?

Sem conseguir mais se segurar, Harry inclinou os centímetros que faltavam e encostou o rosto na curva do pescoço de Anne, respirando fundo. Anne prendeu o fôlego por um segundo, então relaxou, soltando a respiração. Harry beijou a pele morna, tentando sentir o cheiro dela. Mas, ele só conseguia sentir a lembrança do cheiro dela. E até a sensação da pele dela contra o seu rosto era hipotética, era como ele achava que seria.

— Harry — Anne suspirou quando ele passou as mãos em torno da cintura dela, trazendo-a mais perto, na intenção de intensificar o contato e, quem sabe, sentir alguma coisa mais sólida.

— Desculpe — ele murmurou contra a pele dela, frustrado, relaxando a intensidade do toque.

Anne ergueu a mão e acariciou o topo da cabeça dele, suspirando.

— Eu sei, não é… ideal.

— Talvez você devesse considerar voltar para a Grifinória, assim nos cruzaríamos com mais frequência — Harry disse contra a pele dela. No mundo real, talvez seu hálito quente a arrepiasse, mas ali no sonho, não tinha tanta certeza se causava algum efeito.

— Já conversamos sobre isso. É arriscado para o seu disfarce. Dino Thomas mal me conhecia. Além disso, ouvi dizer que ele estava saindo com outra pessoa, ano passado.

Harry se tencionou com a menção ao assunto. Ele ajeitou as costas, bufando.

— Vamos nos ver escondido, então. Eu conheço esconderijos em Hogwarts.

Ela sorriu, balançando a cabeça em negativa.

— E se alguém nos ver? E se Bervely souber? Sabe que ela colocou Jinx no meu encalço, né?

— Não tenho medo da sua irmã — ele retrucou de mal humor. — Então é isso? Vamos ficar nos vendo só em sonho, até sabe-se-lá quando?

— Você disse que Dumbledore não pretendia demorar.

— Mas já faz quase um mês, e nem sinal dele. Não parece que ele está se apressando.

Anne estreitou os lábios.

— Bem, você devia ter pensando nessa possibilidade antes de aceitar tomar o corpo de outra pessoa, não é mesmo?

Harry franziu o cenho em surpresa, sem saber de onde tinha vindo aquilo. Anne abriu a boca, aparentando surpresa consigo mesma, e desviou o rosto.

— Desculpe. É só que…

— Acho que é melhor irmos descansar. Preciso revisar feitiços de glamour amanhã cedo, antes da aula de Feitiços. — Harry deslizou para fora da cama estreita, abrindo a porta. Do lado de fora, uma tempestade o aguardava.

— Harry! Espera…

— “Harry” não. Dino Thomas, lembra? — ele corrigiu, ácido, deixando-a sozinha no armário escuro.

* * *

Apesar da sua promessa, as combustões espontâneas de Gina aconteciam ao menos uma vez a cada treino. Embora sempre causasse uma séria distração para o resto do time, Gina não tinha caído da vassoura uma segunda vez, e fora rápida em apagar o fogo das suas cerdas antes que fossem consumidas por inteira. Precisava, no entanto, trocar de vassoura com frequência, pois após queimadas as vassouras sempre tendiam a voar em zigue-zague, ao invés de em linha reta.

Ao fim do último treino de janeiro, Harry entrou no vestiário e achou Katie tentando consolar Gina. Ela tinha entrado em combustão no momento em que finalmente capturara o pomo, depois de uma perseguição de quase cinquenta minutos. As asas da bolinha derreteram em sua mão antes que ela pudesse largá-la.

— …nós vamos dar um jeito. Vou falar com McGonagall…

— Talvez ainda haja tempo de você conseguir outro apanhador — Gina murmurou. — Um que não vá arruinar a concentração do time, ou colocar alguém em risco.

— Não há tempo para outro apanhador — disse Katie, severamente. — Tem que ser você. Não é um foguinho que vai nos impedir. Vamos dar um jeito.

Gina deixou o vestiário pouco tempo depois, cabisbaixa, murmurando um ‘tchau’ desanimado ao passar por Harry. Harry se sentiu tentado a segui-la, mas Katie o viu e fez um aceno para que ele se aproximasse.

— Thomas, bom desempenho hoje, mas precisa praticar o seu lançamento se vai querer estar a altura da defesa de Perks. Ele é duas vezes mais rápido do que a sua goles, no momento.

— Eu sei, vou praticar amanhã — Harry suspirou, desanimado. Não gostava de atirar coisas, preferia muito mais apanhar coisas.

— E, é claro, parar de procurar o pomo para Gina também ajudaria bastante — alfinetou Katie. — Sei que quer ajudá-la, mas está prejudicando o seu próprio desempenho. Preciso que cada um nesse time possa pelo menos garantir o seu próprio lado.

— É, certo — disse Harry, sem graça. Não estava tentando ajudar Gina, manter um olho no pomo era um hábito difícil de se livrar. — Eh, Katie… vai dar tudo certo.

A capitã deu de ombros, distraidamente desfazendo o rabo de cavalo baixo que usava e alisando o cabelo num movimento automático.

— Preferia que Potter não tivesse desaparecido. Ele parecia saber o que estava fazendo.

— Não acho que sabia muito mais do que você — Harry disse, lembrando-se de todas as vezes que tomara decisões como capitão por puro impulso.

— Bem, ele parecia saber — ela disse. — Eu amo quadribol, sabe, mas mandar nas pessoas não é bem o meu forte. Potter sabia levantar a moral do time, quando precisava. Ah, antes que eu me esqueça — ela tirou algo do bolso. Era uma caixa em formato de coração, rosa forte, do tipo que abrigava chocolates.

— Isso é um convite para uma festinha que estamos organizando para levantar a moral, sabe? Desde que a visita de Hogsmeade no dia de São Valentim foi cancelada… você pode convidar alguém, se quiser.

Katie olhou na direção em que Gina havia saído, e Harry teve a impressão de que ela estava tentando bancar o cupido para eles dois.

— Eu e Gina não estamos…

— Não me interessa, como capitã, realmente — ela disse, rápido, lhe dando uma piscadela cúmplice. — Só coma metade do bombom, às oito do dia de São Valentim, se quiser ir. A sua parceira deve comer a outra metade.

— Hermione está ajudando a organizar também, dessa vez?

— Quê? Ah… você deve ter ouvido falar sobre a festa de Halloween, não é? — Katie concluiu, poupando a Harry inventar uma desculpa sobre como ele saberia da festa, já que supostamente não estava no castelo. — Foi uma coisa e tanto. Mas não, Hermione não pôde ajudar, dessa vez. Acho que ela tem coisas demais na cabeça, no momento, com o Harry desaparecido…

— É, faz sentido — ele assentiu, franzindo.

— Bem, é isso. Espero ver você por lá — Katie lhe deu umas batidinhas no ombro e foi para a área dos boxes, se trocar.

Harry ficou sentando, remoendo a sua culpa. Acho que ela tem coisas demais na cabeça, com Harry desaparecido…

* * *

Anne se espremeu no pequeno nicho que ficava detrás da tapeçaria de Barnabás, o amalucado, no quinto andar do castelo, ala leste. Não fosse o bilhete de Harry, enviado por Edwiges mais cedo, nem saberia que aquele lugar existia.

Hesitara em encontrá-lo, mas parte dela queria fazer as pazes com Harry depois do desentendimento em sonho, há três dias. Ela tinha aparecido no armário do entre-sonhos nas três últimas noites, mas ele se recusara a encontrá-la.

Harry já esperava dentro do nicho, as pernas longas de Dino dobradas num ângulo estranho para que Anne coubesse. Havia ansiedade em seus olhos, que eram cor de caramelo derretido. Anne sentiu uma dorzinha no peito – ela sentia falta do verde.

— Você não devia estar usando Edwiges para mandar bilhetes. Dá muito na cara.

— Então o segredo para fazer você me encontrar pessoalmente é sumir dos sonhos por alguns dias? É bom saber… — ele devolveu, fazendo Anne estreitar os olhos.

Harry. Anda, o que era tão urgente? Vou me atrasar para a aula de Astronomia.

Ele fez uma expressão travessa, o que deixou claro que não estava mais zangado (e dissolveu o peso pressionando o peito de Anne). Enfiou a mão no bolso das veste e tirou algo. Uma caixa em formato de coração.

— Katie está organizando uma festa, para daqui a duas semanas. Achei que poderíamos ir juntos.

Anne encarou a caixa na mão dele longamente, uma expressão perturbada no rosto.

— Harry…

— Eu sei — ele suspirou. — Você não quer ser vista com Dino Thomas.

— Não é que eu não quero…

Posso me disfarçar como alguém diferente. Alguém que sabemos que não vai à festa, ou então, se você me devolver a capa da invisibilidade, e podemos fingir que você está saindo com um fantasma.

— Agora você está sendo absurdo — ela disse, reprimir um sorriso contrariado.

— Só quero um pouco de normalidade — ele insistiu, amuado. — E não há… não tem realmente ninguém que eu queira levar, a não ser você.

Anne abriu a boca numa tentativa vã de protestar, mas o que ela poderia dizer para aquele pedido? Seu rosto ficou quente, e o coração já tinha disparado desde quando ele puxara a caixinha do bolso.

— Em duas semanas é quatorze de fevereiro. Dia dos namorados — ela percebeu.

— Sim — Harry assentiu, sério. Anne achou que estava alucinando, pois quase foi capaz de captar o cintilar verde-esmeralda por detrás do caramelo dos olhos de Dino.

Está bem. Podemos ir juntos à festa de Katie.

Harry abriu um sorriso luminoso, as covinhas de Dino Thomas se aprofundando em suas bochechas magras.

* * *

Dormindo?

O coração de Bervely deu um pulo no peito, mas ela não se moveu imediatamente.

Bervely? Não quero acordar você, só chamei porque disse que ia, mais cedo.

Ela rolou na cama a fim de alcançar o espelhinho em seu criado mudo e o trouxe para a frente do rosto.

Regulus lhe olhou de volta e sorriu, antes de olhar para frente de novo, além do espelho. Ele estava em movimento e ao ar livre. Bervely podia ver estrelas esparsas às costas dele.

— Onde você está indo?

— Dar uma volta.

— Sozinho?

O vampiro deu um sorriso misterioso.

— Com quem eu estaria?

Ela fez silêncio, mordendo o lábio inferior. Estivera na cama, encarando o teto e lutando contra o sono na esperança que ele chamasse. Agora que ele tinha, seu estômago estava dando voltas. O que estava errado com ela? Era só Regulus. Diabos, já tinha ido pra a cama com ele, não tinha que ficar nervosa toda vez que ele aparecia.

— Sim, eu estou sozinho — ele disse por fim, céu e estrelas ainda deslizando por cima dos seus ombros. Havia um leve barulho de ondas quebrando ao fundo. — E você?

Bervely fez suspense, dando um olhada furtiva para o lado da cama, que ele não podia ver pelo espelho. Regulus franziu o cenho para o movimento e ela sorriu, vingada.

— Tenho companhia. — Ela abaixou um pouco o espelho para que ele visse a bola de pelo prateada deitada ao seu lado. Mas, além do gato, Regulus viu outra coisa.

— Isso é o meu cachecol?

— Quê? Não! — Malditos olhos de vampiro de ver no escuro. — Bem, sim. Eu… estava limpando as gavetas mais cedo, esqueci de colocar de volta. Fica com os outros cachecóis, na gaveta. Eu não o uso, cinza não me cai muito bem.

— Certo. — Ele ainda tinha o sorriso de gato que encontrara um canário apetitoso com que brincar, antes de fazer o lanche.

Bervely ficou quieta — um pouco sem graça — observando-o andar. O pouco luar refletia a pele pálida dele, e as pupilas fendidas de Regulus estavam dilatadas para enxergar à noite, deixando seus olhos mais negros do que azuis. O vento do que ela supunha ser o litoral soprava para trás os cachos negros a cada passo dele.

Bervely sentiu nascer um queimor estranho em seu peito. Surgia toda vez que olhava tempo demais para Regulus, como se causada pela beleza sobrenatural e imortal do vampiro.

— Você parece cansada — ele murmurou depois de alguns minutos, olhando de relance para ela, ainda caminhando.

Ela assentiu, se aconchegando mais em seus lençóis e virando-se de lado. Deixou o braço descansar, apoiando o espelho no colchão de forma que ele ainda pudesse ver o seu rosto. Estava bem escuro em seu quarto, mas isso não devia ser um problema para a visão noturna dele.

— Me dê notícias de Sirius — ela pediu no meio de um bocejo.

— Seu pai vai bem. Ele me pediu para lhe dizer que você é uma filha de um filho de uma puta, por tê-lo enviado para cá sem antes contar a ele que eu estava vivo e todo o resto.

Ela deu risada.

— Soa como Sirius.

Regulus andou mais um pouco, então pareceu que estava escalando. A noite às suas costas era sem fim, ao menos até Bervely ter um vislumbre de um escuro profundo e sem estrelas que ela achou ser o mar.

Então Gomorra ficava mesmo no litoral. Interessante.

— Você sente falta dele — disse Regulus. Mesmo que estivesse escalando o que ela supunha ser um rochedo, sua respiração não se alterava. Provavelmente porque não tinha uma. — Ele sente a sua, também.

— Ele disse isso?

— Não precisa. Ele fala sobre você com uma frequência alarmante.

Bervely se ajeitou melhor na cama. Estava perdendo o sono.

— Você o tem visitado?

— Quase toda noite. Passo na casa antes de sair para… — ele parou. — Estou vindo de lá agora, na verdade.

Ela apertou os lábios, reprimindo a vontade de reclamar de novo por ele não levar o espelho até Sirius. A vontade de vê-lo e ter certeza que estava bem borbulhava como um ácido em seu estômago. Mas, ao menos por hora, teria que se conformar com a palavra de Regulus.

— Para onde está me levando?

— Só um topo com uma vista bonita — ele parou de se mover. Um vento mais forte sacudia o seu cabelo com violência agora, mas não parecia incomodá-lo. — Eu estava indo caçar, na verdade.

Regulus virou o espelho para longe de seu rosto, na direção de uma floresta de copas bem cerradas, que se estendia tão longe quando Bervely podia ver, até se perder na escuridão.

— Caçar o quê?

— Qualquer coisa de sangue quente.

Ela ficou em silêncio. O rosto dele reapareceu no espelhinho, inquieto.

— Isso perturba você?

Me perturba mais você estar tão longe.

Sacudiu a cabeça mentalmente. Precisava ficar lutando com aquele tipo de pensamento intrusivo o tempo todo, naquelas conversas de espelho.

— Na verdade, tem uma coisa que eu queria lhe dizer — disse Regulus. — Depois vou deixar você descansar, juro.

— Diga logo de uma vez. — Ela mandou, rolando os olhos para o tom condescendente dele.

— Quando eu fui embora, eu disse que eu tinha alguém me esperando aqui. Acho que me entendeu errado.

Bervely sentiu uma súbita ansiedade subir pela garganta.

— Não é da minha conta, Regulus. Não precisa me dar explicações sobre a sua vida. Morte. Que seja.

— Mas eu quero — ele a interrompeu. Fez uma pausa, acomodando-se melhor para olhar para ela. — Eu tenho alguém aqui. É a minha Sire, a vampira que me transformou.

— Ah… certo.

Bervely não estava esperando por isso. Na verdade, nunca tinha parado para pensar no assunto, mas agora que pensava, supunha que fazia sentido. A vampira que tinha transformado Regulus devia estar em Gomorra, se era lá que ele tinha ido morar depois de ‘morto’.

— Temos uma relação. Não é romântica — acrescentou ele rápido, como se fosse importante especificar. Maeve é minha mentora, minha… acho que madrinha de morte, você poderia dizer. Eu tenho uma dívida com ela.

— Pensei que tinha pago pela sua transformação. Não foi o que disse a Sirius, da primeira vez? Que gastou a sua herança com isso?

Ele estreitou os olhos.

— Você espionou a minha conversa com Sirius?

— Não soe tão surpreso. Você teria feito o mesmo, no meu lugar.

Ele meneou a cabeça, como se ela fosse um caso perdido.

— O pagamento é só uma parte da coisa toda. É complicado.

— Sei — Bervely estalou os lábios. — Vocês dormem juntos?

— Quê? Não. Eu não acabei de dizer que não é romântico?

— Sexo e romance são coisas bem diferentes.

Ele bufou.

Não. Não é esse tipo de dívida, tampouco.

— Hm. Certo.

Bervely relaxou a cabeça no próprio braço. Mordiscou o lábio, pensativa. Regulus falou:

— Preciso ir. Estou com fome, e olhar para você não está ajudando em nada. — Ele lhe deu uma piscadela, rindo do olhar ultrajado que surgiu em seu rosto. — Boa noite, Bervely.

— Boa noite, Regulus. E, boa caça.

(Continua…)

Notas finais
Olá, amores! Para incentivar comentários, quem comentar nesse capítulo vai ganhar uma cena extra de bônus ;) Vou considerar comentários contextualizados, que incluam o que gostou/não gostou, sentiu, achou, teorizou... capricha! A cena extra desse capítulo tem o ponto de vista do Sirius, para quem está curioso sobre o que está rolando com ele ;) ¹O Tônico Memorizador é propriedade intelectual de João Pedro Prado Artiaga Moreno, um (antigo) leitor da série que a inventou para um desafio, o qual deu origem ao spin-off Laboratório de Poções (ache-a no meu perfil se estiver curios@). ;*