Notas iniciais
Que a espera tenha valido à pena =) Boa leitura :* PS: Dedicado às Morganettes que gostam dos capítulos de tamanho bíblico (Clau, Sofi, Lara).

— Quando vocês se sentirem prontos, sentem-se em frente à sua primeira dupla, assim poderemos dar início à terceira parte da nossa aula.

Harry estava mais do que pronto. Se ficasse mais um minuto olhando para aquela bacia, sentia que ia acabar mergulhando nela em um coma profundo. Ao se virar, no entanto, ele encontrou Neville encarando intrigado para a sua própria água. Harry espiou também, achando que ele estava vendo um inseto se afogar ou coisa parecida, mas não havia nada lá.

— Neville, tudo bem aí?

— Você vê alguma coisa? — ele perguntou, a voz duvidosa — Além de água, quero dizer?

— Tipo o quê?

— Deixa pra lá — O colega se aprumou, ainda com aparência atarantada — Com certeza foi impressão minha. O que devemos fazer agora mesmo?

— Tentar adivinhar o que o outro está pensando, ao que parece — Harry franziu. Outros colegas já estavam sentando um de frente para o outro com expressões esforço em seus rostos. A professora andava entre eles sussurrando instruções confusas.

— E como, isso? — Neville enrugou a sobrancelha.

— Com a força do pensamento? Não sei. Parece que não tem um feitiço específico.

Era meio como as aulas que eles estavam tendo em DCAT e Feitiços praticando encantamentos não-verbais, com a diferença de que não havia nenhuma palavra em latim que eles deviam se esforçar muito para não dizer em voz alta. Os dois ficaram se encarando, tentando não cair na risada, até que a professora chegou até eles e se agachou ao seu lado na almofada. Ela pousou uma mão no ombro de Harry, outro no de Neville. O garoto sentiu um arrepio morno fluir do seu ombro até sua cabeça, vindo da palma da mão da professora.

— Vocês estão se olhando muito superficialmente, garotos. O melhor jeito de fazer isso é se concentrar numa pergunta e procurar a resposta para ela na mente do seu colega. Pensamentos geram energia mágica que flutua perto da superfície, é fácil de capturá-los quando vocês não estão usando nenhuma defesa. Não tentem bloquear nada agora, não é o propósito da aula de hoje.

— Eu não estou muito certo de que consigo captar energia mágica flutuante, professora — Harry disse, tentando ficar sério. Era muito difícil não rir, por algum motivo.

— Seu ceticismo está ficando no caminho, Harry. Se você não acredita que o que está procurando existe, será muito difícil enxergar-lo.

— Eu acho que estou vendo, professora — Neville se empolgou, os olhos presos em Harry, mas desfocados como se vissem através dele — É uma… é um… uma pessoa?

— Se concentre, Neville — a professora disse, se animando — Em quem Harry está pensando agora?

Neville franziu a testa com tanta intensidade que ela ficou parecendo a de um cachorrinho pug. Harry tentou ficar com uma expressão neutra; ele não estava pensando em ninguém, estava? Bem, mais ou menos, quando a professora mencionara ceticismo ele tinha lembrado por um momento de…

— Hermione! Harry pensou em Hermione!

— Muito bem, Neville! — a professora lhe deu um sorriso genuinamente feliz, seus olhos brilhando de empolgação. — Imagino que Hermione seja uma amiga que vocês tem em comum? É sempre mais fácil captar o que é familiar nas primeiras vezes. Continuem praticando. Se revezem, se vocês tentarem ao mesmo tempo, tudo em que o outro estará pensando é na pergunta que querem responder, e perguntas são mais difíceis de ler do que ideias concretas.

Quando a professora Neveu se afastou para instruir a próxima dupla, Harry olhou chocado para Neville.

Como você fez isso?

— Eu não sei! — o próprio Neville parecia impressionado com sua proeza — Eu só fiz o que ela mandou! Sabe, tem uma energia vindo da sua cabeça. É como eletricidade estática, eu consigo até ouvir os estalos se eu me concentrar.

Harry não tinha ideia do que o amigo estava falando. Algumas tentativas frustradas depois, Harry não conseguiu ouvir nenhum estalo, e agora estava tão chateado que Neville não conseguia mais captar nenhum pensamento dele que fizesse sentido. A professora pediu para que trocassem de duplas com a pessoa à sua direita.

Eles fizeram a mesma coisa pelo resto da aula. Harry teve outras quatro duplas; o setimanista reclamão da Corvinal (com quem ele não tinha nada em comum, o que tornou a tarefa um jogo de quem conseguia ficar mais tempo sem piscar); uma quintanista da Sonserina que Harry já vira circulando com Pansy Parkinson e Blaise Zabine, mas tinha uma vaga ideia de como se chamava (Dandara? Daphne?), e que ficou o tempo todo de olhos fechados, sorrindo maldosamente como se estivesse lendo cada pensamento que passava pela sua mente (Harry sabia que ela estava blefando; não estaria com aquele sorrisinho se lesse os pensamentos que Harry tinha a respeito da sua atitude irritante); depois foi a vez de Parvati, que sentou em sua frente e ficou lhe olhando tão intensamente como se estivesse querendo arrancar sua massa cinzenta pelos olhos. Harry tentou de verdade com Parvati, porque estava ficando constrangido com a sua inutilidade na aula. Fez um esforço para perceber os estalos que Neville mencionara, mas tudo que conseguia sentir era o perfume forte da garota lhe incitando uma dor de cabeça. Então, ele tentou usar o feitiço Legimens de forma não verbal, só para ver se funcionava melhor.

— Ai! — Parvati gritou, se afastando para trás, segurando a têmpora e lhe lançando um olhar acusador — O que é que você está fazendo?

— Desculpe! — ele pediu rápido — Eu–

— Você estava me azarando?

— Não! Eu estava tentando ler sua mente!

A professora Neveu chegou até eles, olhando severa para Harry.

— O que foi que eu disse? Nada de feitiços, Sr. Potter, não ainda! Aqui, Srta. Patil, vá fazer dupla com o Sr. Malfoy. Anne, troque com a Srta. Patil, faça dupla com o Sr. Potter. O restante pode trocar pela última vez. Tente se concentrar no que vocês estão buscando, mais do que o que está na frente dos seus olhos, sim?

Anne veio do outro lado da sala com as mãos estendidas, como se não estivesse enxergando o caminho. Harry observou aquele comportamento com o cenho franzido.

— Harry?

— Aqui — Ele se apressou a lhe guiar, ajudando-a a se sentar na almofada. Esperou que ela estivesse perto o bastante para ouvir sua voz baixa — Você não consegue mais…?

— Consigo. Mas não quero que ela saiba — explicou aos sussurros, acenando na direção da professora que estava de costas para eles, instruindo Luna e Neville com empolgação. Eles até então tinham sido os únicos a demonstrar genuíno resultado na atividade.

— Então você conhece a professora Neveu de fora de Hogwarts — ele comentou, curioso, mas Anne meneou a cabeça.

— Agora não. Se concentre. Descubra o que eu estou pensando. Sem me azarar.

— Eu não azarei– argh. — Harry olhou para ela zangado, mas os estúpidos óculos estavam no caminho. — Será que dá para tirar esses os óculos do rosto? Já é bastante difícil com contato visual, imagina sem.

— Legimência não tem nada a ver com contato visual. Às vezes isso até atrapalha — ela rebateu, mas depois acabou se rendendo — Tudo bem, que seja.

Tirou os óculos escuros, colocando-os cuidadosamente no chão em frente às suas pernas cruzadas. Ergueu o rosto e olhou diretamente para ele; Harry sentiu uma coisa na boca do estômago. Não via os olhos dela desde as férias, tinha esquecido de como podiam ser desconcertantes com aquele tom alienígena de prateado. Percebeu que que algo estava diferente; as pupilas dela estavam maiores do que tinham estado no Departamento de Mistérios em agosto.

Johanne parecia mais jovem e vulnerável sem os óculos cobrindo parte do seu rosto.

— Vamos logo com isso — ela pediu, inquieta. — Você está encarando meus olhos, não meus pensamentos.

— Desculpe — Harry pediu rápido, tentando se concentrar — Você parece saber mais sobre essa coisa que estamos fazendo aqui do que a maioria. Alguma dica?

— Há uma, na verdade — Ela olhou de relance na direção da professora para se certificar de que não eram ouvidos, antes de falar num fio de voz — Há um jeito melhor de se fazer, se estiver sendo muito difícil pra você.

— E porque estamos cochichando? Por acaso é segredo?

— Sim. Sophia não quer que ninguém saiba, é meio que trapaça.

Harry deu uma risadinha.

— Não sabia que corvinais aprendiam a trapacear.

— Parece que estou aprendendo coisas novas na minha nova casa — ela zombou, fazendo Harry rir. Era bom saber que Johanne não estava mais aborrecida com ele pela discussão de dois dias atrás; pelo menos não tanto quanto estava no café da manhã.

— Anda logo, qual o truque? — Harry murmurou. Não queria que a aula acabasse sem que conseguisse fazer nenhum avanço naquela coisa de adivinhar pensamentos.

— Me dê sua mão. É mil vezes mais fácil se estivermos em contato.

Ela tinha estendido sua pequena mão para ele sem nenhuma hesitação, de forma discreta por trás do seu joelho e da almofada. Harry deu mais uma olhada para garantir que a professora não estava prestando atenção neles e segurou a mão dela.

Nada aconteceu de imediato. Ele se sentiu estranho por segurar a mão de alguém com quem não tinha a menor intimidade; nem mesmo durante os seus encontros com Cho ele tinha segurado a mão dela (pensando bem, o quão patético isso era?).

— Harry, você primeiro, se concentre na sua pergunta. No que eu estou pensando?

Ele respirou fundo e tentou, concentrado no lugar que os dedos deles se tocavam. Havia uma sensação correndo através dela para a dele, quase como uma corrente elétrica ou cócegas debaixo da pele; poderia até ser a energia mágica que a professora Neveu mencionara. Ele imaginou que essa energia descia pelo braço dela, vindo de sua cabeça, e que se ele quisesse poderia puxar dali algum pensamento.

No que ela estava pensando?

Uma imagem se formou em sua mente; uma cor. Verde esmeralda brilhante, tão intenso que ardeu seus olhos, só que ele não estava vendo de verdade, só imaginando… podia ser loucura sua, mas havia um sentimento associado com aquele tom específico de verde, e não era um sentimento que vinha dele. Um tipo muito específico de conforto, como o que se tem quando se acorda horas antes da hora de levantar e a cama está tão perfeita e quente, acolhendo seu corpo como um abraço e nada no mundo pode ser mais confortável do que voltar a fechar os olhos e se entregar à semiconsciência por mais alguns minutos, sabendo que tudo estará seguro e tranquilo…

— Muito bom, você conseguiu — Johanne elogiou. Ao mesmo tempo ele sentiu que era retirado delicadamente do pensamento que capturara; o verde se esvaiu e as cores da sala retornaram ao foco. Só então Harry notou seu coração disparado e um calor incomum espalhado em suas entranhas. Anne lhe olhava com atenção. Os lábios dela estavam separados, sua respiração ligeiramente alterada.

Harry olhou para ela com espanto — O que está acontecendo?

— Está tudo bem — ela lhe prometeu, as bochechas ruborizadas. — Minha vez, ok? Não tente usar oclumência, eu não vou procurar por nada muito fundo.

Ele teve um segundo para pensar que aquela promessa soava familiar antes de sentir o formigamento associado a ter alguém em sua cabeça. A diferença foi que a sensação, ao subir por seu braço até sua nuca, arrepiou todos os seus pêlos e, quando se instalou, não foi desagradável de jeito nenhum. Ele esperou sentir a pressão incômoda atrás dos olhos, mas isso também não veio. A única indicação de que ela estava lá, além do arrepio quente fluindo por seu braço, vindo do ponto que suas peles se tocavam, era aquela sensação oca, como se alguém tivesse deixado uma janela aberta no fundo de sua cabeça.

Harry tentou não entrar em pânico com o que ela poderia estar vendo. Não pense em nada comprometedor, não pense em Cho. Não pense em Gina. Droga, eu disse não pense!

Houve um vislumbre do beijo que ele e Gina trocaram no St. Mungus, mas Harry encobriu aquele pensamento rapidamente por outro, qualquer coisa, então ele estava lembrando do pesadelo que tivera durante a noite, do qual acordara assustado e coberto de suor. Não, isso não, você vai assustá-la, idiota…

Torta de caramelo.

O quê? Ele pensou, confuso. De onde isso veio?

Vai ter torta de caramelo hoje no almoço. Você adora torta de caramelo.

Harry arregalou os olhos para Anne, que ele conseguia ver com parte de sua atenção. Ela estava muito claramente segurando uma risada.

— Você está fazendo isso! — ele sibilou, acusatório.

— Eu não estou fazendo nada — murmurou ela, mordendo o lábio para conter um sorriso travesso. A coisa que aquecia as entranhas de Harry quase ferveu naquele momento, lhe deixando com um calor estranho e agitado.

O que é que estava acontecendo?

— Bom trabalho turma, nosso tempo de aula está acabando. Abandonem os pensamentos de seus colegas agora, podemos continuar a partir daí na próxima aula.

Johanne quebrou o contato entre eles de repente, soltando sua mão e saindo de dentro da sua cabeça. Harry se sentiu tonto, como se tivesse acabado de perder algo importante. Sob essa sensação, no entanto, havia outra, mais consistente; uma energia queimando seus nervos, formigando debaixo de sua pele. Ele olhou para Johanne procurando uma explicação e achou as pupilas dela mais dilatadas do que nunca; suas bochechas estavam vermelhas e ela desviou o olhar dele, pegando depressa os óculos no chão.

— Desculpe — pediu, encaixando os óculos depressa no rosto corado.

— Pelo quê? — Harry ainda se sentia meio tonto, como se tivesse acordado bruscamente na melhor parte de um sonho.

— Eu disse que não ia muito fundo e– sinto muito. É que você é tão…

— Johanne — a professora Neveu os interrompeu. Harry e Anne se sobressaltaram; por um segundo os dois tinham se esquecido da existência do resto do mundo, incluindo a professora e os colegas — Quero falar com você em particular antes que saia.

— Já imaginava — ela bufou, se levantando com uso do tato. — Melhor você ir, Harry. Não vai querer se atrasar para o almoço.

Ele segurou o impulso de protestar, apesar de estar curioso pra saber o que ela ia dizer antes de ser interrompida. Ele era tão o quê? Parece que ia ter que esperar para saber. Logo para ele, para quem paciência nunca fora um ponto forte.

— BD —

Blackburn Hill, Lancaster.

— Os aurores já reviraram a mansão inteira. Levaram Aikia para depoimento. E se ela revelar que esse lugar existe? — Charlotte Summers viu-se tagarelando, sua voz absorvida por barris antigos empilhados um em cima do outro e tantas teias de aranha que unidas poderiam tecer um enxoval de casamento. Ela não conseguia aquietar-se desde que o elfo da mansão a aparatara naquele esconderijo aos fundos da antiga casa do seu tio.

— Quieta, Summers, você está me irritando com esse vai e vem incessante. Ninguém tem acesso às adegas de Blackburn a não ser Lestranges legítimos. Qualquer elfo desta casa que trair os segredos dessa propriedade perdem não só a língua mas a vida, e disto eles estão bem informados!

Charlotte parou de circular de um lado para outro no depósito abafado, apoiando-se sobre um barril vazio de uísque Blackburn. Suas mãos – seu corpo todo – ainda estava tenso do encontro com Bervely e com o auror Shadowtamer mais cedo no solário. Lhe custara cada grama do seu ser permanecer impassível uma vez que o auror aparecera e ela vira-se muito perto de ser levada à Azkaban caso o seu plano falhasse.

Mas no fim das contas a comensal da morte estava certa; Bervely trocaria qualquer coisa por uma chance de vingança. Nisso mãe e filha eram muito parecidas.

Bellatrix dera uma gargalhada de triunfo ao saber que Bervely aceitara a maçaneta sumidoura em troca de ficar calada enquanto Charlotte escapava da mansão Lestrange bem diante dos seus olhos, usando a ajuda de um segundo elfo que estivera escondido no solário o tempo todo. O elfo poderia libertar Charlotte dali sem a colaboração de Bervely, mas precisaria de tempo para desfazer o feitiço de contenção do auror que a prendia à cadeira. Se Bervely não ficasse calada, se chamasse a atenção dos aurores antes que o feitiço fosse desfeito, o plano iria por água abaixo. Shadowtamer retornaria ao solário e, vendo que Charlotte tentava fugir, estaria ainda mais disposto a levá-la para uma cela.

Mas Bervely ficara quieta e até mesmo se deixara ser nocauteada para tornar verossímil a versão proposta, na qual não sabia como Charlotte escapara. Deuses, a garota era burra; ou melhor, cega. Cega pela necessidade de vingança que alimentava contra a mãe, necessidade da qual a própria Bellatrix estava tirando proveito.

— O que acontece agora? — Charlotte virou-se e perguntou à comensal, que saboreava uma edição de Blackburn envelhecida em carvalho por quinze anos direto da garrafa, sentada de pernas cruzadas sobre um baú antigo. — Bervely vai atrás da senhora com toda sede de vingança, talvez levando reforço com ela. Como isso a ajuda?

Bellatrix meneou a cabeça, olhando através de Charlotte com tédio. Ela raramente olhava para Charlotte. Era como se a garota não fosse importante o suficiente para ser foco dentro do seu campo visual.

— Ela virá sozinha. Estará com raiva, é certo, mas sua ira é só um lado da moeda. E eu sei exatamente como fazer a moeda cair do lado que desejo — a Comensal piscou uma vez suas pálpebras pesadas, passando rapidamente os olhos por Charlotte antes de desviá-los — Está certa que Shadowtamer acreditou que foi você a cúmplice de Black em Azkaban?

— Eu acho que sim — Charlotte encolheu os ombros, lembrando-se da expressão de desprezo que surgira no rosto do auror logo que a reconhecera no solário — Porque ele não acreditaria? Fui eu quem ele viu na prisão, o meu corpo, pelo menos. Eu confessei o meu crime para ele. Não tem como ser mais óbvio que a culpa da fuga de Black deve ser atribuída à mim.

Bellatrix apertou seus lábios, como se estivesse diante de uma criatura digna de pena com a qual não valia o esforço argumentar.

— Shadowtamer vai continuar procurando você. Deve deixar que ele a encontre.

— O quê? Ele vai me levar para Azkaban se me encontrar! Ele acha que fui eu quem arruinou a carreira dele!

— Não, ele não vai, garota estúpida — Bellatrix rolou os olhos, virando outro gole da bebida antes de se dar ao trabalho de explicá-la o que devia ser óbvio — Você vai colocar essa sua cara de coitada que faz tão bem e dizer-lhe que está terrivelmente arrependida, que foi forçada a fazê-lo, que não quer perder sua alma, que o verdadeiro culpado já está atrás das grades e todo o resto. O idiota tem sentimentos por você, ele vai querer acreditar no que diz.

— Mas se ele não acreditar…

— Faça com que ele acredite, Summers. Precisamos do auror! Sem o auror as suas condições também não poderão ser contempladas, lembra-se?

Charlotte suspirou, mas não discutiu com Bellatrix. No máximo ia conseguir um Cruciatus nas fuças, como tinha acontecido da última vez que tentara questionar a lógica da odiosa esposa do seu tio.

Precisava ficar se lembrando da razão pela qual estava trabalhando com a bruxa – não que lhe tivesse sido oferecida muita escolha. Quando a comensal da morte a encontrara há um mês, Charlotte se preparou para a morte. Tinha atirado em Bellatrix na Rua dos Alfeneiros e a mulher não era conhecida pela sua capacidade de perdoar.

Mas ao invés de um Avada Kedrava, a comensal lhe propusera que se retratasse por meio de uma colaboração. Charlotte lhe obedeceria cegamente nos próximos meses e em troca Bellatrix lhe deixaria viver. Charlie se pegou barganhando mais do que a sua sobrevivência, que na ocasião já não lhe importava tanto assim; disse-lhe que faria o que Bellatrix mandasse, com uma condição. Para a sua surpresa, Bellatrix aceitara ambas. Até agora, tudo indicava que manteria a sua palavra.

— Quanto tempo acha que vai demorar até Bervely lhe procurar? — perguntou ela, o silêncio dando-lhe nos nervos porque então podia escutar as batidas ainda descoordenadas do próprio coração.

A bruxa deu um de seus sorrisos maníacos, cintilante de Blackburn e de satisfação antecipada. Os olhos negros de maldade da mulher eram como duas covas rasas, sempre tinham lhe dado arrepios e pareciam ainda mais loucos quando ela sorria.

— Eu não me espantaria se Bervely aparecesse hoje na estufa, antes mesmo de cair a noite. A inconsequência cega ela herdou do pai, a pobrezinha.

— BD —

A ideia, como de costume, partira de Hermione. Ela enviara o recado através das moedas; os que ainda checavam suas moedas ficaram sabendo da nova data e horário e passaram a informação para os outros membros; de uma forma ou outra, todos os que restaram apareceram na hora marcada.

Harry não soube até o último momento; depois do jantar, Rony e Hermione o tinham arrastado para o sétimo andar, cheios de mistério, não revelando do que se tratava até abrirem a Sala Precisa. A velha sala de treino da Armada de Dumbledore surgiu diante dele, e não só ela, mas uma boa parte dos seus antigos membros, sentados em um círculo no chão em frente aos espelhos. As cabeças se viraram quando ele entrou, a conversa anterior cessando.

— Mas, o quê– ele olhou aturdido para os rostos conhecidos lhe encarando de volta.

— Achamos que seria bom nos reunir mais uma vez — Hermione explicou baixinho ao seu lado — Muita gente veio me perguntar se teríamos encontros esse ano. Mesmo que não fosse uma aula sua, eles só queriam demonstrar apoio, então não se sinta pressionado. Todo mundo se importa com você e se preocupa com o que está acontecendo. O boato da profecia está se espalhando.

— Além do mais, agora todo mundo está pensando em Dino. Ninguém quer ficar de braços cruzados.

Harry reparou que haviam algumas velas acesas flutuando em torno do espelho em que costumavam pregar avisos, lembretes e fotos. Ao lado de uma foto antiga de Cedrico, alguém colocara a foto de Dino que saíra no jornal naquela manhã.

— Sente conosco, Harry — chamou Luna do círculo, sorrindo amplamente para ele — Só estávamos fazendo uma rodada informal de apresentação, afinal tem gente nova no grupo. Espero que não se incomode, todo mundo só trouxe gente de confiança.

Harry assentiu, ocupando o lugar ao lado de Luna no círculo. Os colegas se moveram para dar espaço também à Rony e Hermione, enquanto que Harry identificava os rostos novos em meio aqueles que já eram membros da AD no ano passado. Estavam ali Neville, Colin e Dênis Creevey, Lilá e Parvati. Simas, sentando ao lado dela, tinha mais olheiras do que o próprio Harry, e isso não era pouca coisa. Ao lado dele havia um garotinho muito parecido com Simas, a não ser pelos olhos mais redondos e inocentes que o do grifinório mais velho.

— Esse é Lioc Finnigan, meu primo de primeiro grau. Acabou de entrar no quarto ano, achei que não tinha problema trazer ele comigo. Ele vai assinar a lista e já sabe o que acontece com dedos duros.

Harry acenou para Lioc, enquanto os outros riam. Depois da traição de Marietta Edgecombe no ano anterior, todo mundo sabia o que aconteceria com o rosto de quem decidisse dedurar a Armada de Dumbledore.

Lioc não era o único da Corvinal ali; os antigos membros da Armada, Michael Corner e Terry Boot, a irmã gêmea de Parvati, Padma e até Cho estavam de volta, essa última com o rosto inchado e os olhos muito vermelhos. Isso sem falar na própria Luna, sentada ao lado de — porque ele não estava surpreso? — Johanne Black.

— Achei que você não se importaria, Harry — Luna sorriu feliz — Ela sendo da família e tudo mais.

Harry assentiu, sentindo o rosto esquentar. Anne também evitava olhar para ele, usando a desculpa da cegueira e dos óculos escuros, mas ele desconfiava que ela também estava sem jeito depois daquela… coisa que acontecera na aula de Adivinhação.

Enfim haviam Ernie McMillan, Hannah Abbot, Justin Finch-Fletchey e Susan Bones da Lufa-Lufa. Harry percebeu, e não lamentou, a ausência de Zacharias Smith. Eles tinham aprendido a se aturar no ano passado, mas Harry nunca realmente gostou do garoto. Ele pousou os olhos sob o último rosto não familiar do grupo e com grande dose de choque, percebeu pelas cores do uniforme que se tratava de uma sonserina.

— Sim, Potter, você está vendo corretamente. Tem uma cobra infiltrada na sua armada — disse ela de forma defensiva, cruzando os braços em frente ao corpo — E eu não serei expulsa daqui sem um bom motivo.

— Pare com isso, Tori. Astoria é minha convidada, Harry. Eu confio nela. Ela acredita na mesma coisa em que acreditamos. — disse Susan Bones. Ele deu uma boa olhada para a garota, que continuava lhe encarando de forma desafiadora. Ela tinha o rosto miúdo, oculto por um cabelo que parecia ter sido cortado por uma faca cega. Sua atitude lhe lembrava alguém, mas ele não conseguia lembrar quem.

Harry trocou um olhar rápido com Hermione e com Rony, a primeira parecia prender a respiração; o segundo lhe devolveu um ar de confusão e desconfiança. Ele se voltou para a garota sabendo o que deveria fazer:

— Seja bem vinda, Astoria. Se Susan confia em você, eu também confio — Harry estendeu sua mão para ela. Recebeu de volta um aperto firme. — Mas como todo mundo, você vai ter que assinar a lista de Hermione.

— Eu não sei se ainda precisamos manter a Armada em segredo, Harry — Hermione se pronunciou — Só era secreta por causa do decreto de Umbridge, agora não tem mais problema se todo mundo souber.

— Eu gosto que é secreta — Neville argumentou sua discordância — Faz parecer mais especial.

— Eu concordo. Se sairmos contando, vai acabar virando uma bagunça. Além do mais, pode ser perigoso anunciar que continuamos nos encontrando com o Escolhido para treinar Defesa Contra as Artes das Trevas. — Simas disse — Não que eu tenha nada contra, Harry, de verdade, mas muita gente tem. Poderíamos virar alvos.

— A maioria de nós já é alvo de uma forma ou de outra, Simas — disse Susan num tom sombrio. A tia dela tinha sido assassinada por Voldemort aquele verão, então Harry sabia que a colega falava com conhecimento de causa — Mas eu concordo com Neville. Quanto menos gente souber, mais liberdade nós temos para continuar as reuniões e aprender o que quisermos aqui dentro.

Todo mundo acabou olhando para Harry, deixando claro que a palavra final era dele. Harry tinha orgulho do que aquele grupo se tornara, mas ele sabia o tipo de atenção que atrairia de a mídia descobrisse que “O Escolhido” estava liderando um “grupo de resistência" dentro da escola. Ele podia prever as manchetes e elas já lhe davam dor de cabeça. Conseguia até prever Voldemort fazendo uma lista dos nomes dos seus colegas e tornando cada um deles um alvo como fizera com Sirius no passado, só porque Harry se importava. Sabia que não podia dissuadir os colegas — aprendera isso no ano passado — mas podia mantê-los longe do perigo tanto quanto possível.

— Eu concordo em manter a Armada em segredo — disse por fim — Embora o professor Dumbledore já saiba sobre nós. Não que eu ache que ele será contrário às nossas reuniões — acrescentou, lembrando-se como o diretor fora de certa forma a favor do grupo, quando soube de sua existência no ano anterior — Mas vamos manter só para nós, acho mais seguro desse jeito. Se todos concordarem.

Não pareceu haver objeção, nem mesmo entre os membros novos. Hermione tirou da mochila uma nova lista para que eles assinassem, e o pergaminho encantado foi passando de um em um em torno do círculo. Todo mundo ficou em silêncio nessa hora, como se fosse alguma coisa solene. Depois Hermione pendurou a lista no espelho e a conversa foi restabelecida.

— Eu sinto muito pela sua tia, Susan — Harry disse para a colega quando teve a chance. Susan assentiu, engolindo em seco.

— Ela se foi lutando pelo que acreditava, eu tenho muito orgulho dela. Mas e você, Harry? É verdade que estava no Ministério quando aconteceu o ataque neste verão? Ninguém descobriu ainda o que matou aqueles aurores. É verdade que Voc–, hum, que Voldemort fez um discurso?

— Eu não estava estava presente na hora que o ataque aconteceu, mas sei que ele assumiu a autoria através de uma pessoa que estava controlando com Imperius — disse Harry com economia. Ele estivera na Sala do Véu, resgatando Sirius com a ajuda de Anne, quanto toda a confusão acontecera no salão de festas. Pelo canto de olho, notou que Johanne ficara tensa à menção do incidente.

— Uma das aurores que morreram naquele dia era minha irmã mais velha — Hannah disse com a voz fraca, encarando o chão ao invés dos colegas. — Meus pais estavam lá, disseram que ela caiu tão rápido, nem teve tempo de saber o que a atingiu.

Ernie Macmillan passou um braço em torno do ombro de Hannah, a consolando. Michael Corner se pronunciou na direção de Rony:

— Hey, Ron, e quanto à Gina? Sua mãe não deixou ela voltar para a escola depois do que houve no Ministério em junho?

— Mamãe tem orgulho do que Gina fez no Ministério — Rony disse com fervor, as orelhas ficando cor de rosa. — Ela não veio porque sofreu um acidente no verão.

— E ela está bem? Não respondeu nenhuma das cartas que eu enviei. Fiquei preocupado.

— Quanto a isso eu não sei. Não nem nada de errado com os dedos dela.

Harry sentiu uma satisfação feroz com a resposta de Rony. Gostou de saber que Gina não estava respondendo as cartas do ex-namorado; por outro lado, não é como se ele e ela estivessem se correspondendo também. Harry tentara e falhara em escrever para a garota na noite anterior; não sabia o que dizer pra ela que não soasse extremamente bobo.

Alguém pediu detalhes sobre o que tinha acontecido no Ministério antes das férias, e para seu alívio, Hermione tomou a dianteira para uma explicação. Ela soube se desviar bem de assuntos como a profecia e Sirius, colocando a ênfase da perseguição dos comensais e como eles tinham escapado com a ajuda da Ordem da Fênix e de Dumbledore. Rony exibiu as cicatrizes ainda marcadas em seus braços, onde os tentáculos do cérebro tinham lhe atacado na sala dos aquários. Luna fez uma longa narrativa sobre o tempo em que ela, Gina e Rony ficaram perdidos na sala dos planetas. Por fim, Neville contou os acontecimentos na Sala da Morte, sendo ele o único dos membros da AD presentes além de Harry. Com certo constrangimento, confessou que quebrara acidentalmente a profecia. Nem Rony, nem Hermione nem Harry se preocuparam em corrigir a impressão de que o conteúdo da profecia se perdera para sempre naquela noite.

— Eu não sei bem o que aconteceu depois que Harry saiu correndo atrás de Bellatrix Lestrange, Dumbledore atrás deles — o garoto olhou para Harry, incerto e curioso. Os olhares dos outros lhe seguiram, esperando o desfecho de tal espetacular história. Sabendo que lhes devia a mínima explicação; não só porque aquelas eram informações que podiam lhes ajudar no futuro, mas porque eles estavam ali porque se importavam, fez um esforço.

— Eu e Lestrange duelamos por um tempo no átrio, então Voldemort apareceu. Ele tentou me matar. Dumbledore apareceu e o impediu. Voldemort então me possuiu, esperando que Dumbledore me atacasse para atingi-lo, o que não aconteceu. — Harry umedeceu os lábios secos. Todo mundo parecia ter parado de respirar ouvindo suas palavras; mesmo agora, se lembrando da sensação excruciante, dolorosa e indescritível de ser possuído por Voldemort, ele se sentia mal — Voldemort bateu em retirada quando viu que não ia conseguir seu intento… o Ministro e um monte de gente do Ministério apareceu, eles viram Voldemort saindo e perceberam que estavam sendo idiotas por um ano inteiro, sem acreditar que Voldemort estava de volta.

— Ah, cara, queria estar lá pra ver a cara de Fudge nessa hora — lamentou Ernie, um olhar febril enlevado em seu rosto. — Queria estar lá para ver Dumbledore lutando contra ele também. Deve ter sido uma coisa épica, fora de série.

Harry assentiu, ensaiando um sorriso vago ao colega. Os olhares de admiração dos que não tinham estado no Ministério aquela noite o perturbavam; todos achavam que ele tinha feito alguma coisa grande e impressionante, mas ele só tinha dado sorte e contado com a ajuda de Dumbledore; sem ela, estaria bem morto àquela altura. Além do mais, tinha sido a sua impetuosidade a colocar os amigos em perigo. Nunca se perdoaria por isso.

— Eu e meu pai fomos caçar bufadores de chifre-enrugados no verão. Nós encontramos um ninho de dementadores nas montanhas de Forth. O Ministério não quer admitir, mas eles estão se reproduzindo fora de controle — disse Luna abruptamente. Harry sentiu uma onda de gratidão por ela quebrar aquele silêncio contemplativo em que o grupo mergulhara, todos lhe encarando como se ele fosse uma espécie de herói trágico.

Um por um eles foram comentando sobre as suas férias; logo ficou evidente que ninguém tivera um verão tranquilo. A maioria deles fora afetado de uma forma ou de outra pelos ataques dos comensais, pelos desaparecimentos estranhos, pela sensação geral de medo e insegurança. Os únicos que não compartilharam nada foram Cho, que estava anormalmente calada, Anne, que parecia distante da conversa, enrolando e desenrolando o dedo em torno da corrente que voltara a colocar no pescoço, e Astória Greengrass; essa última, Harry achou que era a mais atenta de todas. Seus astutos olhos castanhos atenção redobrada em cada palavra de seus colegas.

— Astória — Harry chamou quando todo mundo já tinha falado e a conversa estava começando a se compartimentar em grupinhos — E o seu verão, como foi?

A garota lhe olhou de forma enigmática. Harry teve a impressão de que ela sabia exatamente por que razão Harry estava fazendo aquela pergunta; porque ela era uma sonserina, seu verão devia ter sido bem mais tranquilo do que o resto deles. Ele achava que dificilmente alguém estaria perseguindo a sua família ou ameaçando sua integridade, sendo ela parte de uma família puro-sangue.

— Não foi o melhor de todos. Minha irmã mais velha estava cogitando se aliar à… eles. Eu a comuniquei que ela estava tomando a decisão mais estúpida de sua vida e uma coisa levou a outra, acabei saindo de casa.

Ela falou tudo isso sem demonstrar grande emoção, sem desviar os olhos de Harry, quase que o desafiando a dizer que seu verão fora melhor que o dos outros.

— Minha nossa. Sinto muito — Hermione se compadeceu, sensível aos dramas familiares devido às suas próprias questões com os pais nas férias — Onde você passou o resto do verão? Como você está se virando?

— Susan me deixou ficar na casa dela. Eu arranjei um emprego para conseguir pagar meu material escolar. Não foi tão difícil me virar sozinha, não é nenhum fim do mundo.

— Então seus pais também são… você sabe — Neville quis saber, tentando soar natural e não horrorizado com a perspectiva.

— Meus pais não são Comensais da Morte, se é o que está perguntando. Mas eles concordam com tudo o queres dizem e é isso que importa. É ridículo. Eu prefiro trabalhar pelo resto da minha vida como uma elfa doméstica do que fazer parte daquela família de cegos.

Harry sorriu, percebendo a quem ela lhe lembrava: o jovem Sirius de sua imaginação, em toda sua energia e raiva rebelde. Hermione fez uma careta à menção depreciativa de elfos domésticos que fez Harry temer que ela ressuscitasse um dos broches do F.A.L.E. de um dos bolsos do uniforme.

— Se você não se importa que eu pergunte — Katie Bell se dirigiu a ela, intrigada — Como é que os seus amigos estão lidando com o seu posicionamento? Você ter saído de casa e não concordar com essas, hum, essas ideias?

— Como se eu fosse idiota de contar para eles. É claro que não, eles não entenderiam.

Havia um furor queimando no fundo dos olhos de Astoria que fazia Harry pensar que a única razão que ela estava querendo participar da Armada de Dumbledore era para provar a si mesma que não era como o resto da sua família. Mesmo que isso significasse encarar todos aqueles olhares estranhos dos colegas das outras casas, enfrentar desconfiança como a que ele mesmo demonstrara um minuto atrás. Harry viu sua admiração por aquela garota miúda e feroz crescer.

O resto da noite foi gasta da mesma maneira; sentados no círculo, trocando informações sobre a guerra, compartilhando opiniões sobre o que tinham ouvido e presenciado no verão. Houve uma breve discussão sobre o que poderia ter acontecido com Dino, que precisou parar porque Cho irrompeu em lágrimas de novo.

— Eles vão encontrá-lo, Cho, sei que vão — Padma deu tapinhas nas costas dela, tentando consolá-la.

— Eu n-não acho que ele foi s-sequestrado — Cho soluçou, quase ininteligível. — Ele apenas f-foi… ele f-foi…

Ela não conseguiu mais falar, entalada pelos soluços. Padma insistiu para que fossem tomar uma água no corredor até que ela se acalmasse.

— Ela nunca se recuperou depois de Cedrico — disse Luna triste, dizendo em voz alta o que todo mundo estava pensando em silêncio. Harry, que não tinha ideia do que podia fazer para ajudar Cho, pigarreou para chamar a atenção de todos.

— Foi muito bom poder reunir a Armada mais uma vez, mas acho que devemos voltar para os dormitórios agora, antes do toque de recolher. Somos muitos e Filch anda louco para pendurar alguém pelos tornozelos nas masmorras.

— Como assim “foi” muito bom? Não vamos continuar nos reunindo? — Colin protestou — Nós temos que continuar!

— Eu acho que eu já ensinei para vocês tudo que eu sabia — disse Harry, um pouco sem graça — Eu sei que temos gente nova, mas vocês mesmos podem passar o que aprendemos aqui para elas, deve ser fácil, vocês são mais do que capazes de fazer isso.

— Harry, não seja absurdo — foi Rony quem engrossou o coro de protestos —, nós temos que continuar praticando, pelas barbas de Merlin! Snape é o nosso professor de Defesa agora. Snape. E lá fora as Artes das Trevas estão mais ativas do que nunca!

— Eu não vejo Snape adorando a ideia de eu fazer concorrência à sua matéria — Harry argumentou, um sorrisinho nascendo no canto da sua boca sem que conseguisse conter. A ideia de competir com Snape era quase irresistível.

— Eu acho que esse é o maior motivo de todos para continuar a AD — disse Neville, num surto de rebeldia.

— Mesmo horário na próxima semana, então? Não esqueçam de pegar rotas diferentes e garantirem que não estamos sendo seguidos, vocês conhecem o esquema — Hermione disse feliz. — E se não quiserem o pior caso de acne de sua vida, bocas fechadas!

Um por um ou em pares eles fora deixando a sala, com a ajuda de uma espiadinha no Mapa do Maroto para ver se o caminho estava livre. Luna veio se despedir dele antes de ir. Ela estava tão radiante que se esticou e lhe deu um beijo na bochecha.

— É bom estar aqui e ter um monte de amigos de novo. Obrigada, Harry.

— Boa noite, Luna — se despediu dela com aquele sentimento misto de inquietação e afeto que a garota lhe provocava. Harry viu que Johanne estava indo embora também e a deteve num impulso.

— Johanne — a garota se virou surpresa, seu cabelo denso ondulando por cima do ombro com o movimento — Você pode, uh, esperar um pouco? Queria perguntar uma coisa.

Anne anuiu, ficando para trás enquanto Luna ia embora. Parvati e Lilá, que estavam esperando para sair em seguida, trocaram um olhar malicioso de que Harry não gostou nem um pouco.

Hermione lhe deu um tapinha encorajador nas costas. Ela e Rony foram os últimos a sair, deixando Harry e Anne sozinhos na agora vazia Sala Precisa. Ela tinha permanecido perto da porta e estava com a cabeça inclinada para trás, olhando para o teto. Harry fechou o Mapa do Maroto e se aproximou, se sentindo desnecessariamente nervoso.

— Interessante essa sala. Ela não está descrita em Hogwarts, Uma História. Como a achou?

— Dobby me contou sobre ela quando estávamos procurando um lugar seguro para a AD se encontrar.

— Dobby? — ela perguntou, ainda reparando no teto, de forma que o que Harry encarava era o seu pescoço branco e esticado. ao invés do seu rosto.

— Um amigo elfo doméstico, longa história — Harry resumiu com um pouquinho de impaciência. Anne captou o sentimento em sua voz e voltou o rosto para ele.

— Você tinha uma pergunta para mim?

Harry trocou o peso de um pé para o outro, se perguntando porque ela tinha que ser tão direta.

— Você estava anormalmente quieta hoje durante a reunião — ele pontuou para ganhar tempo.

— Jinx desapareceu, estou preocupada. Não o vejo desde de manhã cedo.

— Já tentou na orla da floresta proibida? Gatos gostam daquele lugar.

— Não gosto muito de florestas — ela comentou em tom de conversa.

— Espero que ele apareça.

— Eu também.

Silêncio. Ela devia saberia onde ele queria chegar, tanto quanto ele sabia, mas Harry teve a impressão que Johanne não tocaria no assunto a não ser que ele fosse lá primeiro. Harry resolveu que começaria pelas desculpas, porque prometera isso à Hermione.

— Eu fui meio injusto com você naquela noite, fazendo todas aquelas acusações. Eu não quis– eu não acho que você esteja fazendo nada disso de propósito. Dá pra ver que está confortável com a troca de casas. Acho que só estou tornando as coisas mais difíceis.

— Você chegou a essa conclusão sozinho? — Anne ergueu as sobrancelhas por trás dos óculos. Harry se lembrou que achava irritante aquele tom ligeiramente arrogante, mas totalmente legítimo, que a garota usava quando sabia que estava certa.

— Hermione me ajudou — ele admitiu a contragosto, só para ver um sorriso que incluía dentes surgir no rosto dela.

— Cada dia que passa eu admiro mais essa garota Granger.

— Passarei a mensagem. Então… você aceita minhas desculpas? Não está mais aborrecida?

— Nunca estive, Harry— ela franziu, considerando sua própria resposta. — Chateada sim, mas não aborrecida. Entendo seu ponto de vista, acho que se a minha vida fosse agitada como a sua, eu seria tão ou mais desconfiada quando coisas estranhas começassem a acontecer ao meu redor.

— Humm, ok. Certo. Eu vou… eu vou fazer de tudo para tornar as coisas mais fáceis para você daqui em diante, enquanto não descobrirmos o que pode tornar a volta da sua visão permanente. Podemos combinar as horas de estudar, assim você pode ver os livros. E eu posso até, não sei, ficar parado na porta da sua sala quando você estiver em aula em algum dos meus períodos livres?

Ela deu uma risada bem sonora.

— Certo, porque não seria nada esquisito você parado na porta da sala do quinto ano só para que eu possa ver o que escrevo no meu pergaminho.

— Só estou tentando ajudar — ele retrucou, ofendido. Anne negou com a cabeça, como quem encerra a questão.

— Esqueça isso. Eu estou mais do que acostumada a não ver, Harry. A última coisa que quero é você desviando o seu caminho para me dar mais umas horas de visão, até porque, do que adiantaria? Você não vai poder estar lá todos os momentos. Eu terei de lidar com o escuro eventualmente. Sério, não se preocupe comigo.

Harry bufou. Merlin, ela era teimosa. Filha de Sirius Black sem dúvida alguma. Ele decidiu que não valia a pena chover no molhado; além do mais, ainda havia a coisa que estava lhe inquietando mais do que tudo aquela noite. Anne esperava paciente, sabendo que estavam se aproximando da parte importante.

— Ok, o que foi que aconteceu na aula de Adivinhação hoje mais cedo? — ele finalmente tomou coragem para perguntar. Só de lembrar, um formigamento de constrangimento voltou a mastigar suas entranhas.

— Então você também sentiu — ela disse por entre os dentes cerrados. Como antes, seu rosto começou a ganhar um tom rosado. Harry poderia jurar que Johanne também estava lutando com uma boa dose de embaraço.

— É claro que eu senti, só que eu não sei o quê– o quê é que foi aquilo? Quer dizer, eu pensei que legilimência era suposto a ser desconfortável, certo? Mesmo quando bem executada — acrescentou, se lembrando da Senhora do Lago investigando sua mente — Não é pra ser… não é pra dar…

— Um barato — ela completou, olhando para qualquer lugar menos para ele. — Uma sensação psicológica de euforia, relaxamento, alegria, energia, bem estar físico e despreocupação normalmente relacionada à liberação de endorfina e dopamina, que pode ser provocado pelo uso de drogas estimulantes do sistema nervoso, por embriaguez alcoólica, por chocolate ou por… sexo.

— Sim, eu sei o que significa um barato, obrigado — Harry desejou que um buraco se abrisse no chão da Sala Precisa para que eu pudesse enfiar a cabeça lá dentro e desaparecer. — Eu só não sabia que podia acontecer com legilimência.

— Aparentemente pode.

— Já tinha acontecido com você antes? — ele perguntou se arrependendo em seguida, cada vez mais sem graça. Não tinha certeza se queria saber a resposta. Por que ele tinha que ter trazido o assunto à tona?

— Não, mas eu não fico lendo a mente das pessoas por ai para testar.

— Difícil de acreditar. Você leu a minha no Ministério, para saber em que sala Sirius estava — ele recordou. Aquilo tinha sido bastante assustador e nem um pouco prazeroso, se Harry bem se lembrava.

— Foi diferente, era uma emergência. Você não estava exatamente facilitando as coisas, não é?

— Porque eu achei que você estava recebendo ordens de Voldemort!

Ela suspirou com frustração; Harry fez o mesmo, achando que aquela conversa não estava seguindo o rumo que gostaria, seja lá qual fosse, ele não tinha ideia do que pretendera ao puxar o assunto.

— Não acho que nós devemos trabalhar juntos de novo na próxima aula de Adivinhação Avançada — disse Anne, mordendo o lábio em seguida, os dentes retos afundando na carne macia. Harry sentiu o estômago despencar; seu único avanço naquela aula fora com ela. Sem falar nas sensações envolvidas…

— Ah, tudo bem, c-claro. Tem toda razão.

— Não é nada pessoal, nem é por causa do que aconteceu — ela se apressou a explicar. — É só que você é muito fácil de ler, sua mente parece um livro aberto. Eu mal estava tentando e consegui ver coisas que sei que você não queria que eu visse. Como a sua namorada e o seu pesadelo.

Ah, então ela tinha mesmo chegado até lá. Muito bem. Ótimo. Como se ser acusado de ser “um livro aberto” não fosse humilhante o bastante, uma nova onda de constrangimento lhe atingiu por ela ter visto seu beijo em Gina e o seu sonho daquela manhã.

Anne abriu a boca para dizer alguma coisa, depois desistiu, balançando a cabeça em negativa. Ele bufou.

— Fale logo.

— Ok. É sobre o pesadelo — ele notou que o que ela vira devia tê-la perturbado, como ele imaginou que aconteceria — Você o tem sempre? Já aconteceu antes?

— Não — Harry enfiou as mãos nos bolsos, desviando o olhar para as janelas altas da sala. Seus pesadelos nunca eram seus assuntos preferidos, via de regra. Mas uma vez que ela vira esse, achou que devia abrir uma exceção. — Esse, envolvendo o punhal, foi a primeira vez. Acho que aconteceu porque ontem a noite eu precisei explicar tudo de novo a Hermione e fui dormir com o assunto na cabeça.

— Então você acha que tem que usar o punhal contra Voldemort — ela concluiu. Nos vislumbres de sonho que vira, Harry apunhalava o bruxo das trevas repetidamente no peito, fazendo brotar de suas feridas uma profusa tinta negra. No fim, Harry estava coberto de tinta; a única coisa visível eram seus olhos verdes encolerizados. Seu eu do sonho se encontrava horrorizado, convencido de que aquele sangue-tinta jamais sairia de sua pele, ele estaria para sempre marcado com a evidência do assassinato que acabara de cometer.

— Sim. O que mais eu faria com uma arma afiada contra alguém que odeio?

— Eu gostaria de dar uma olhada nele, se você me deixar.

Harry não entendeu o que ela propunha; sua confusão devia estar estampada em seus olhos, porque ela explicou:

— Às vezes, quando eu toco nas coisas, eu consigo partes de sua história. Objetos guardam memórias, especialmente objetos mágicos. Eu acho que se eu tocar o punhal, posso descobrir alguma coisa sobre sua utilidade, ou quem sabe até sua origem. Você não está curioso para saber quem queria que essa coisa chegasse em suas mãos?

— É claro que estou, mas você não pode tocá-lo, lembra-se? Foi assim que Sirius se queimou. O que acha que ele faria comigo se eu te deixasse chegar perto daquela coisa?

— Você sabe que queimou Sirius, não sabe se queima todo mundo — ela argumentou, teimando.

— O professor Dumbledore não quis tocá-lo — e a Senhora do Lago também não, lembrou-se Harry. Ela tinha preferido ver o punhal através da memória dele ao invés de pessoalmente.

— Harry, me deixe tentar. Naquele dia você me acusou de saber mais do que eu estava contando a você e a verdade é que eu talvez possa saber. Seria injusto da minha parte não fazer o que está ao meu alcance para ajudar a desvendar o mistério do punhal. Além do mais, eu tenho uma intuição de que ele não vai me fazer nenhum dano.

— Tudo bem — Harry cedeu, sua curiosidade vencendo — Mas só se você estiver certa e ele não lhe queimar. Vamos experimentar na ponta de um dedo primeiro. O mindinho, que não serve pra muita coisa. Fechado?

Anne deu risada, assentindo. Com a ajuda do Mapa dos Maroto, eles escolheram um caminho livre até a torre da Grifinória. Harry subiu para pegar a capa da invisibilidade, com a qual Anne se cobriu para subir até o dormitório sem ser vista. Só a cortina em torno da cama de Simas estava fechada; os outros ocupantes do quarto ainda estavam no Salão Comunal. Harry indicou o banheiro, onde eles podiam fazer aquilo sem serem interrompidos.

Só lhe ocorreu que era esquisito se trancar no banheiro do seu dormitório com a filha de seu padrinho quando já era tarde demais. Anne deixou a mochila escorregar dos ombros até o chão, sentou na borda da banheira e apoiou a capa da invisibilidade enrolada no colo.

— Me dê aqui — estendeu uma mão na direção dele, depois a recolheu. — Não, espere.

Com um movimento fluído, ela tirou do pescoço a corrente de prata, que deslizou para fora dos seu cabelo comprido e foi parar em seu colo, sobre a capa. Johanne se sacudiu como se experimentasse um pequeno calafrio.

— Para que isso serve? — perguntou ele com curiosidade, apontando o colar.

— Nada demais. Me dê logo, vamos fazer isso de uma vez.

A mão estendida dela agora tremia ligeiramente. Harry se apressou em tirar o punhal do bolso da calça, sentindo seu peso frio, ainda mais real e agourento desde o pesadelo naquela manhã. Ele quase podia sentir a tinta pegajosa que formava o sangue de Voldemort no sonho empapando sua mão e seu braço até impregnar sua carne. Afastou o pensamento com determinação.

Cuidado — recomendou, segurando o objeto pela lâmina e lhe oferecendo o cabo, em parte convencido de que ela ia retrair a mão no segundo em que tocasse nele. Mas Anne envolveu seus dedos no cabo do punhal seu maiores complicações.

— Eu disse a você — a garota sorriu triunfante. Harry, que achou que aquilo era mais confuso do que esclarecedor, mordeu a língua. Johanne envolveu o objeto com as duas mãos e respirou fundo. Por trás dos óculos, ele achou que os olhos dela estavam fechados. Harry até prendeu a respiração para não atrapalhar a concentração da garota, admirado de que ela pudesse ter uma habilidade como aquela. Poder adivinhar a história de objetos com o toque de suas mãos teria lhe poupado de um bocado de pesquisa na biblioteca naqueles últimos anos…

Foi quando ela gritou.

— BD —

A chaleira assobiou bem na hora em que alguém aparatou na varanda em frente à cabana. Seus instintos apurados com a proximidade da lua cheia, Remus a cheirou antes de vê-la; flor de verbena, essência de murtisco, medo. Ele fez uma pausa nos gestos automáticos de preparar o chá e cerrou os olhos, respirando fundo. Sobre o que quer que aquela visita fosse, uma coisa que não ia ser era fácil. Com ela nunca era.

— Pode entrar, Bervely.

— Como você sabia que era… ah — Bervely bateu os olhos no gato sentado em cima da mesa assim que entrou pela porta da cozinha. Jinx a olhou de volta, suas pupilas estreitas de censura e consternação — Seu pequeno delator.

— Seu familiar apareceu aqui há alguns minutos, não foi difícil deduzir que você estava a caminho. Sente-se, acabei de preparar uma infusão de lís-de-puladinho.

Bervely puxou uma cadeira e sentou; seus lábios estavam secos, sua garganta arranhando quando ela engolia. Jinx veio até ela e deu uma cabeçada afetuosa em seu antebraço, transmitindo-lhe toda a sua preocupação.

Eu sei, Bervely pensou, sabendo que ele estava escutando. Eu sei.

Ela não disse nada enquanto Remus a servia chá e biscoitos caseiros de maçã com canela que ele mesmo fazia, e que ela sabia não serem nada maus. Apesar da hospitalidade, a tensão dos movimentos dele deixava explícito o seu incômodo. O lobisomem sabia não se tratar de uma visita social ordinária. Eles não estavam nos melhores termos desde que Remus acreditara ter sido ela a tentar sequestrar Harry Potter no verão.

— Você veio do hospital?

A pergunta dele demorou a alcançá-la, ela distraída coçando o topo da cabeça de Jinx. O gato tentava tranquilizá-la, enviando ondas de calma através de sua ligação. Jinx também queria que ela lhe deixasse ver o que estava passando por sua cabeça, mas Bervely não lhe permitiu. Precisava se concentrar, o que não ia acontecer se todos aqueles sentimentos entrassem no caminho.

— Sim. Ele está bem, ridiculamente empolgado com a coisa toda de Anne na Grifinória.

— É, pegou todo mundo de surpresa — um sorriso involuntário surgiu no rosto do bruxo. Bervely resistiu ao impulso de rolar os olhos.

— Andrômeda quer dar alta a ele — ela comentou, girando pela asa a xícara lascada em cima do pires. Viu pelo canto do olho Lupin assentir.

— Ele pode ficar aqui, vou manter um olho nele.

— Você sabe sobre a coisa do coração? Do cerne mágico e tudo? — ela arriscou uma olhada direta para capturar sua expressão e viu qualquer sombra de sorriso sumir do rosto do homem, substituída por um ar de gravidade.

— Estou pesquisando o que se pode fazer quanto à isso.

— Porque a equipe extremamente capacitada de medi-bruxos do hospital St. Mungus não consegue achar uma cura, mas você vai encontrar alguma coisa nos seus livros velhos — ela zombou, incapaz de se conter.

Remus não lhe respondeu, apenas lhe lançou um olhar cansado, fazendo com que a reativa não tivesse valido a pena. Bervely suspirou.

— Eu pedi a Andrômeda para mantê-lo mais tempo lá, mas talvez ela não consiga. Se ele tiver mesmo que sair, eu preciso– Bervely parou de falar, sua garganta se apertando de angústia.

Jinx estava distraído pela sua brincadeira com a xícara e deu uma mordinha em seu dedo. Bervely o afastou antes que ele se queimasse com chá quente. Sua cabeça estava rodando, os pensamentos atropelando uns aos outros e ela ficava perdendo a linha de raciocínio, mas fez esforço para recuperá-lo. Remus esperava, encostado à bancada da cozinha, pires em uma mão, xícara na outra. Bervely teve raiva de sua tranquilidade.

— Quero que olhe por ele, garanta que nada vai lhe acontecer — conseguiu dizer, conseguindo engolir o orgulho em pedir-lhe ajuda — Que ele não vai fazer nada idiota, corajoso e potencialmente fatal.

— É claro que eu vou olhar por ele — Lupin endureceu seu rosto, ofendido com a insinuação de que ele talvez não fosse. — Pelo que está dizendo, suponho que você não vai estar por perto, posso saber para onde está indo?

— Eu disse a Sirius que vou voltar para o Instituto Flamel para terminar o meu curso de Alquimia — informou Bervely num tom monótono, encarando a fumaça que subia da sua xícara.

— Mas não é a verdade, é? — O lobisomem estreitou os olhos, inclinando a cabeça para o lado um tantinho.

As espirais de fumaça branca subiam até a altura de seus olhos. Bervely encarou os formatos aleatórios que dançavam no ar, sabendo que carregavam uma mensagem. Ela se sentiu grata de que fosse incapaz de ler o seu próprio futuro na fumaça; naquele momento, não estava particularmente curiosa.

— Preciso que o mantenha acreditando nisso por algumas semanas. O máximo de tempo possível até as coisas se acalmarem.

— Eu não vou mentir para Sirius em seu benefício, Bervely — disse o bruxo em tom de aviso. Ela teve a impressão de ver um brilho amarelo feroz no fundo dos olhos dele, como se a criatura que seu corpo abrigava concordasse. Isso não a intimidou.

— Será em benefício dele. Um desejo que sei que temos em comum, talvez a única coisa — completou com uma nota de deboche. Remus lhe encarou com evidente irritação, facilitada pelo período do mês em que estavam.

— Olhe… — ele pousou sua xícara no balcão e se aproximou da mesa, sem ocultar seu aborrecimento — Por alguma razão, desde que Sirius a conheceu ele a colocou no centro de tudo que ele mais preza, Bervely. Os extremos a que Sirius está disposto a ir para proteger o que ele ama torna esse sentimento perigoso para a integridade dele. Eu imploro a você — O uso da palavra a surpreendeu, tanto que Bervely ergueu o rosto para ele, os olhos bem abertos — Não faça nada impensado que possa machucá-lo. Especialmente não agora que ele está tão vulnerável.

Ela lhe deu um longo olhar em branco. “Por alguma razão”, ele dissera. Como se ela não fosse sua filha, sangue do seu sangue, e isso não fosse motivo o suficiente para Sirius colocá-la no centro de suas prioridades. Mas não, não era como o lobisomem pensava a seu respeito. Na visão dele, ela era a filha da comensal da morte e o maior erro da vida de Sirius Black, e sempre seria. Balançou a cabeça, enviando de volta para dentro aquela vontade ridícula de chorar; fazê-lo na frente de Sirius era uma coisa, mas na frente de Remus Lupin era uma humilhação para a qual não estava preparada.

— Machucá-lo é exatamente o que eu estou tentando evitar — disse-lhe enfim, levantando-se. — Só passei para deixar avisado que talvez ele tente ir atrás de mim. Não deixe. Ele deve ouvir você, entre todas as pessoas. Por alguma razão.

Tinha feito todo o esforço para manter a voz firme naquelas últimas palavras, mas sabia que era hora de ir. Passou uma mão sobre a cabeça de Jinx enquanto recomendava ao gato que ele voltasse para Hogwarts e ficasse de olho em Johanne. Não teria tempo de avisar nada a irmã, mas ela não era impulsiva e estaria a salvo longe da confusão.

Remus assistiu-a sair, tentando controlar a sua forte irritação com Bervely e ver através dela. Seria lua cheia aquela noite e quanto mais se aproximava, mais o lobo pensava por ele, através dele. O lobo pressentia que a garota ia fazer algo que afetaria Sirius. O lobo odiava a ideia e queria vê-la pelas costas. Mas então havia o próprio Sirius sorrindo pra ele de uma cama do hospital, impossivelmente vivo e infinitamente grato: obrigado por cuidar dos filhotes enquanto eu estive ausente, Moony.

Merda. Remus deu um passo à frente, impedindo que ela saísse pela porta da cozinha. Pega de surpresa, Bervely virou o rosto para ele; seus olhos estavam vermelhos. Ele sentiu o cheiro de medo vindo dela de novo, mal disfarçado pelo seu perfume. Seu peito se apertou com culpa.

— Me diga o que está acontecendo — pediu com suavidade, olhando-a nos olhos.

Ela o olhou com um misto de desprezo e desesperança.

— Não vou envolver você nisso. Saia da frente, Lupin.

— Eu sei que não confia em mim, mas eu não posso ignorar o fato de que alguma coisa está lhe aterrorizando e que você pode estar prestes a cometer um erro. Me diga o que está acontecendo, Bervely, eu posso ajudar.

— Não, você não pode — ela balançou a cabeça, resignada de que ele não percebesse. — Em algumas horas, você vai se transformar em uma besta inconsciente da sua condição humana, uma ameaça para qualquer coisa viva à sua frente. Como isso me ajuda? Como isso ajuda qualquer pessoa? Saia do meu caminho.

Ele se afastou, as palavras servindo ao intento que ela pretendera; um chute certeiro no seu orgulho. Bervely ainda se virou uma última vez antes de desaparatar.

— Aconteça o que acontecer, não o deixe ir atrás de mim.

Remus assentiu, o amarelo feral cintilando de volta aos seus olhos. Nada em seu rosto lembrava o doce professor de Hogwarts que acolhia seus alunos no escritório com chá e biscoitos. Era incrível, Bervely pensou com admoestada admiração, como ela tinha o dom de despertar o pior das pessoas.

— No que depender de mim, ele não irá.

Ela assentiu, aliviada. Agora só tinha mais um lugar a visitar antes de desaparecer do mapa.

— BD —

Blackburn Hall, mais cedo naquele dia.

E então, Bervely, o que vai ser? — Theodor insistiu. Ele esperava que ela se entregasse, “se tivesse o mínimo de decência”. Engraçado.

Ela tentou pensar rápido, apesar do horror involuntário comendo suas entranhas com a ideia de voltar à Azkaban, dessa vez para o lado de dentro das grades.

— Você está blefando. Não pode me prender, caçaram a sua permissão de auror.

— Eu ainda posso fazer uma acusação contra você — o tom confiante de Theodor indicava que ele pensara em uma saída alternativa, para o caso de ela não ter decência dentro de si. Rapaz precavido. — Eu posso não ter mais a minha permissão de auror, mas ainda tenho a minha reputação e a minha palavra. Eles vão querer investigar a fundo quando eu lhe denunciar como a responsável pela fuga de Sirius Black.

Ela deu uma risada nervosa de descrença.

— Isso demoraria séculos. Quando eles viessem atrás de mim eu já estaria longe.

— Evadir-se da justiça só comprovaria a sua culpa. Mandariam os dementadores caçar você, eu não iria por aí. Você deve imaginar que os dementadores guardam uma mágoa toda especial por quem por roubou Black bem debaixo do nariz deles.

— Dementadores não têm nariz — lembrou-lhe, mas Theodor não achou graça. Bervely moveu-se impaciente, sabendo que precisava sair dali o mais rápido possível. Enquanto eles conversavam, os aurores que tinham ido atrás de Charlotte poderiam estar fazendo o caminho de volta, com ou sem a cobra abortada. — Me devolva a minha varinha — ordenou a ele — Você não tem o direito de confiscá-la sem nenhuma prova contra mim.

Ele apertou os dentes e a contragosto tirou a varinha dela do seu bolso. O olhar em seu rosto era de aviso.

— Bervely, esse é o movimento errado para se fazer. Se entregue. Vamos esclarecer o que aconteceu em Azkaban. Se Black está vivo como você disse, ele pode ter um julgamento. Se ele for mesmo inocente, a sua pena será reduzida. No fundo você sabe que essa é a decisão certa a se tomar.

— Eu não sou tão profunda como você pensa — ela lhe informou, tomando o caminho da porta. — E fique avisado, você vai precisar de um batalhão para me arrastar de volta àquele inferno.

Ele a assistiu sair sem tentar impedi-la. Suas próximas palavras perseguiram Bervely por cada hora do resto daquele dia.

— Nesse caso, vejo você no inferno.

— BD

Bervely sentiu o corpo entorpecido assim que aparatou no meio das árvores do pomar, aos fundos da propriedade dos Tonks em St. Catchpole. Os tons dramáticos do céu contribuíam àquela sensação; o dia que começara com ela recebendo uma carta de Theodor para que o encontrasse nos fundos da casa, e que se desenrolara de forma tão catastrófica, enfim estava terminando.

Sabia intuitivamente onde ficavam as ruínas da velha estufa. Não lembrava de ter ido àquela parte do pomar antes, mas tinha consciência de que existia; alguma coisa velha, degradada no meio das árvores, quase desaparecendo, coberta por duas décadas de ervas daninhas, trepadeiras, ninhos de passarinho e grama. A achou sem demora; pouco dos vidros turvos, imundos pelo lado de fora e de dentro, era visível através do domínio da natureza. As vigas que sustentavam as paredes da estufa tinham sido corroídas, enferrujaram, se desfizeram e foram substituídas por troncos retorcidos das árvores próximas.

Ela circulou as ruínas da estufa até achar algo que se assemelhava a uma porta. Também era feita, ou fora feita um dia, de ferro e vidro. Estava enterrada no chão como se sucumbisse à fome da terra, coberta de nós de azevinho selvagem; não tinha fechadura nem maçaneta. Bervely tirou do bolso a maçaneta de madeira entalhada em formato de rosa. Prendendo a respiração, a varinha segura na outra mão, a encaixou na porta. Elas se uniram imediatamente, como se uma estivesse aguardando a chegada da outra nas últimas duas décadas.

Não sabia o que ia acontecer; não tinha pensado muito naquilo. Só chegara tão longe em acreditar que era o movimento certo, afinal, por que outra razão aquele objeto que estava Merlin-Sabe-Onde há tantos anos viera parar em suas mãos justo naquele dia em que ela estava precisando de uma rota de fuga?

A estufa de Bellatrix já funcionara como esconderijo para ela um dia. Tinha cinco anos e estava fugindo dos homens nos cavalos, que invadiram Blackburn Hall procurando por sua mãe. Ela e Charlotte haviam se encolhido entre as plantas de Bellatrix o dia inteiro e a noite, sem saber o que mais fazer, tão assustadas que nem conseguiam se mexer. Ironicamente, eram dos mesmos homens dos quais Bervely estava se escondendo agora. E se fosse para ser sincera consigo mesma, a quantidade de medo que gelava seu sangue também era equivalente.

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— Eu tenho em minha posse um objeto mágico que pode levá-la até Bellatrix — Charlotte lhe informou, olhando-a por baixo das pálpebras longas cor de trigo de forma convincente — Eu o encontrei naquela velha caixa na biblioteca onde ela costumava guardar seus artefatos mágicos importantes. Deve ter ficado para trás quando ela foi presa e ela não pode recuperá-lo depois que fugiu.

Ambas continuavam amarradas em suas cadeiras. Theodor retornaria a qualquer momento com o seu reforço. Não havia tempo para profundas discussões.

— O que você ganha com isso? — perguntou-lhe Bervely, desconfiada. A Charlotte que conhecia não fazia um movimento sem que pudesse obter algo em troca; elas tinham isso em comum.

— Eu não serei levada para Azkaban. Com sorte, você se vinga da sua mãe e ela não se retrata comigo pelo nosso encontro no verão. Todo mundo sai ganhando. — Um sorriso de lábios cerrados surgiu em seu rosto. Bervely não estava completamente convencida.

— E como eu posso ter certeza de que isso não é uma armadilha?

— Ora, Bervely, é claro que é uma armadilha. Em que mundo se encontrar com a sua mãe é algo sensato a se fazer? Mas isso é um problema seu e dela; ao menos você está indo avisada e ela será pega de surpresa — a jovem deu de ombros, deixando claro que para ela pouco importava o desfecho daquele encontro, desde que uma das duas partes saísse prejudicada.

Bervely deliberou por um momento e acabou por assentir.

— Feito. Mas não fique pensando que isso é uma retratação. Eu só não quero que você vá parar em Azkaban, Charlie — disse-lhe com suavidade venenosa — Prefiro ter você ao meu alcance. Talvez Bellatrix não vá se retratar com você, mas pode ter certeza que eu vou.

Charlotte assentiu, o sorriso preso em seu rosto e nunca alcançando os seus olhos.

— Acredito que isso seja assunto para o nosso próximo chá, minha cara Bervely.

BD

Bervely não esperava que um alarme estridente cortasse a noite, tão abrupto que fez seu corpo se retesar inteiro.

Afastou rápido, soltando a maçaneta como se pegasse fogo. O alarme só ficava mais alto; com certeza era audível no vilarejo trouxa há oito quilômetros dali e talvez além dele. Parecia o grito de cinco agoureiros sendo torturados por um feitiço cruciatus.

Finite Incantatem! — ordenou para a coisa, sacudindo a varinha. Jamais esperaria que os feitiços de selamento colocados ali há vinte anos ainda estivessem ativos, nem que fossem tão barulhentos. — Finite! Finite Incantatem! Merda! Merd–

Expelliarmus! — alguém bradou atrás dela. Sua varinha saiu voando da sua mão, sumindo na escuridão da floresta.

Bervely se virou a tempo de ver, saindo das sombras de detrás dos troncos das macieiras, vários bruxos e bruxas trajando uniformes roxos, com varinhas em punho apontadas para ela. Um deles se abaixou e pegou a varinha dela no chão; quando se levantou, Bervely percebeu que era Tonks. A prima acabara de lhe reconhecer, pelo olhar de horror que surgiu em seu rosto.

— Não resista, não tente nada insensato, você está cercada — disse outro auror, um homem alto de barba fechada e olhar vidrado, aproximando-se dela com a varinha desrespeitosamente apontada para o seu rosto — Estamos levando a senhorita sobre custódia.

— Howle, essa não é Bellatrix Lestrange! — Tonks veio lhe avisar, avançando à frente do cerco. — Essa é minha prima, Bervel–

— Bervely Black. Eu sei perfeitamente quem ela é, auror Tonks. O DELM recebeu um mandado de prisão preventiva contra ela esta tarde.

Tonks os alcançou, desviando-se das raízes altas do chão e galhos de árvores. Bervely conseguiu ver que os lábios dela estava tremendo, e que, por causa do nervosismo, a raiz de seu cabelo ficava mudando de cor entre o verde e o magenta.

— Qual a acusação contra ela? — disse com a voz controlada, daquele jeito que os aurores eram treinados a falar uns com os outros.

— Cúmplice na fuga do bruxo das trevas Sirius Black em 1993. Mais recentemente, envolvimento em uma tentativa de sequestro de um garoto bruxo, o que resultou em três causalidades. Não qualquer garoto-bruxo: Harry Potter em pessoa.

A certeza com que o auror enumerou seus crimes deixava claro que o uso da palavra “acusação” era mera burocracia; ele estaria feliz em sentenciá-la ali mesmo no pomar dos Tonks e dar a questão como resolvida.

— Eu tenho certeza que é um engano. Ela não é… ela não fez– A firmeza treinada na voz de Tonks deu lugar à um trêmulo tom de medo que não impunha nenhum respeito. Bervely viu-se desejando que a prima não envergonhasse a si mesma entre os colegas, mesmo que para defendê-la; estava claro que seu protesto era inútil diante da deliberação do auror mais velho.

— Saia da frente, auror Tonks, ou terei que enquadrá-la por obstrução da justiça. Bervely Black, você está presa. Você será encaminhada para Azkaban ainda esta noite. Sua varinha será retida e sua sentença será proferida em alguns dias.Vire-se.

Bervely trocou um último olhar com a prima antes de virar de costas; pelo horror nos olhos de Dora, parecia que era ela quem estava indo para uma cela. Quando ficou de frente para a estufa, teve a impressão de ver um vulto se mover atrás da porta. Se deu conta de que deveria ter sido o seu próprio reflexo refletido em alguma parte do vidro sujo.

Seus pulsos foram presos por um feitiço uma segunda vez naquele dia. Em meio ao absurdo da situação unido ao seu surdo pânico, ela se pegou sorrindo.

Você vai precisar de um batalhão para me levar de volta ao inferno.

Theodor Shadowtamer sabia responder à um desafio, precisava lhe dar esse crédito.

— BD –

Anne gritou. Harry deu um salto em sua direção, achando que ela tinha se queimado com o punhal, mas ela balançou a cabeça impedindo-o de tirar o objeto de suas mãos.

— Eu estou b-bem, é só… tantas… tantas coisas… – murmurou, a voz embargada. — O que eu vejo…

Mas o que via era difícil de pôr em palavras. Anos e séculos, dias e meses, rostos e vozes em línguas que ela não conhecia ou que se misturavam a ponto de se tornarem inteligíveis. Toda a informação numa sucessão vertiginosa e quase indiscernível de memórias. Não tinha consciência de que seu corpo tremia, sobrecarregado com a quantidade de energia e conhecimento que filtrava de uma só vez. Ela viu rostos conhecidos… conhecidos demais, doloridos demais para que se detivesse neles, então reuniu suas forças para direcionar sua busca. A origem. Quero saber a origem.

A sua cabeça girava como se tivesse viajado de flú para um lugar do outro lado do continente. Foi então que o tempo esticou, a visão clareou e estagnou como se soubesse, intencionasse mostrar para ela o que queria ver, a resposta da sua pergunta.

A mulher morena de outro tempo lhe sorriu, antes de mergulhar o que tinha em suas mãos nas águas de um lago vítreo. O objeto tinha outro formato, carregado de possibilidades enquanto que caberia ao tempo moldar-lhe. Era o mesmo em essência, no entanto. Inconfundível no brilho branco de sua substância, retornou das profundezas do lago entre as mãos pálidas da sacerdotisa carregando o fardo de um destino consigo.

Anne voltou ao presente, puxando ar e tossindo como se também ela retornasse à tona de um mergulho profundo. Harry, que tinha sentado ao seu lado na banheira, esperava cheio de preocupação e um tanto assustado com o que acabar de presenciar. Mais um minuto e ele estava pronto a levá-la até a enfermaria.

— Você está sangrando! — exclamou, indicando o rosto dela. Anne tocou confusa o sangue que escorria do seu nariz, ainda perdida entre o mundo das lembranças e aquele em que estava trancada em um banheiro com Harry Potter. Harry correu para pegar a toalha de rosto, que ela pressionou distraidamente contra os lábios.

— Não é nada — murmurou para ele, a voz vacilante. Ainda estava tremendo, agora porque sentia frio. O esforço tinha deixado seu corpo fraco como se estivesse sucumbindo a um resfriado.

— O que você viu? — perguntou ele, sem conseguir conter sua curiosidade — Algo que fizesse sentido?

— Eu vi tudo — ela assentiu. Ela vira. Podia não ter entendido tudo, não achava que sua mente era capaz ou algum dia seria, nem mesmo se tentasse desvendar aquelas lembranças para o resto da sua vida — Tudo. Eu vi…

Anne mordeu o lábio. O que ia falar era loucura, mas ela tinha certeza. Como tinha certeza de que era o sol quando o via nascer no horizonte. Mesmo se não conhecesse a mulher da sua visão pelo seu livro de história da magia e em figurinhas de sapo de chocolate, ela a teria reconhecido.

— O quê? — Harry estava se contorcendo em seu lugar, dividido entre a preocupação e ansiedade. Anne olhou para ele através dos óculos escuros, esperando que o garoto acreditasse. Mas se Harry não acreditasse, não faria a menor diferença; era a Verdade, como acontecera e como Ela quisera que Anne soubesse quando chegasse o momento.

— Eu vi Morgana. Morgana Le Fay, a Rainha das Fadas. Foi ela quem mandou o punhal para você, Harry.

(Continua…)

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Notas finais
Ufa. Se me ama deixa comentário (sim, estamos nesse nível :P) Beijo no queijo!