A Canção de Morgana

62 O Sagrado Vinte e Oito


Notas iniciais
Bem vin@d de volta e boa leitura!

A carruagem da família Lestrange pousou nos vastos jardins iluminados à beira de uma das mais opulentas mansões que Bervely já tinha visto. Ela olhou pela janelinha e viu outras carruagens surgindo ao redor, a maioria puxadas por cavalos invisíveis, uma ou outra com um brasão de família adornando as portas, embora no lusco-fusco do por-do-sol ela não pudesse identificar a que famílias elas pertenciam.

— Coloque isso— O som de sua própria voz na boca da comensal da morte forçou a atenção de Bervely de volta ao interior da carruagem. Bellatrix, vestida na pele de Bervely por conta da polissuco misturada aos fios roubados de seu cabelo, lhe estendeu uma máscara cromada.

Bervely hesitou, achando que se tratava de uma das máscaras que os comensais da morte usavam em seus ataques– mas esta parecia uma caveira estilizada, feita de forma a cobrir apenas a metade superior do rosto. Com um suspiro resignado, ela colocou a máscara sobre o próprio rosto transfigurado, o metal gelado aderindo à sua pele por magia. Através das órbitas vazias da caveira, assistiu Bellatrix colocar a sua– uma delicada máscara negra de vinhas e rosas que lhe pareceu vagamente familiar. O negro da máscara fez contraste dramático com a palidez do rosto roubado, e com o batom vermelho-escuro que Bellatrix tinha escolhido como única maquiagem para a noite. Não, ela devia ter feito algo nos olhos também. Através dos rasgos oblíquos da máscara, os olhos de Bervely pareciam maiores, os cílios mais cheios emoldurando as pupilas negras.

Bellatrix conjurou um espelho de mão e espiou a si mesma. Dando-se por satisfeita, ela guardou o espelho num bolso oculto entre as dobras do vestido e tirou de lá uma varinha, estendendo-a a Bervely:

— Vai precisar disso também. E é melhor me dar a sua.

Bervely reconheceu a varinha anormalmente longa de Lucius Malfoy e imediatamente sentiu uma onda de mal-pressentimento.

— Quê? Por quê?

Bellatrix franziu os olhos de gazela com impaciência por trás da máscara.

— Draco dificilmente será levado à sério hoje à noite se não carregar a varinha que é suposto a herdar do pai, e eu obviamente preciso da sua para confirmar a minha identidade!

Bervely teria preferido beber um galão de poção para furúnculos a entregar a sua varinha para Bellatrix, mas ela percebeu que não tinha muita escolha no assunto. Não se ia de fato prosseguir com aquele plano de se passar por Draco — e deixar Bellatrix se passar por ela - durante o baile do Sagrado Vinte e Oito.

— Bervely? Eu não tenho a noite inteira.

Bervely aceitou a varinha de Lucius e, com os dentes apertados, entregou a sua à Bellatrix, assistindo-a desaparecer facilmente num coldre oculto do vestido da comensal.

— Eu espero que saiba como se comportar adequadamente num evento dessa magnitude — Bellatrix ameaçou, espiando pela janela do seu lado da carruagem, de onde ela tinha uma visão melhor do palácio do que Bervely. Ela arrumara o cabelo de Bervely em um coque elaborado que deixava o pescoço exposto, alguns fios cascateando dramáticos em cachos produzidos por alguma magia capilar avançada.

— Um pouco tarde para se preocupar com isso, não? — Bervely retorquiu. Bellatrix a ignorou.

— Não se esqueça do é esperado de você essa noite.

— Representar uma das grandes casas puro-sangue com a dignidade requerida da família Malfoy. Recuperar a reputação de Draco e fazê-lo ser respeitado e temido pelos seus pares, e deixar claro que o que aconteceu com Lucius não tem impacto na reputação da família — Ela recitou mecanicamente na voz enfadada do primo.

Bellatrix lhe ofereceu um sorriso sardônico.

— Exato. Agora, ande, seja um cavalheiro e me ajude a sair da carruagem.

* * *

Lado a lado, Bellatrix e Bervely cobriram a distância entre o estacionamento de carruagens e a entrada do suntuoso palácio Grisaille, misturando-se aos demais convidados que faziam o mesmo caminho em vestes elegantes de baile e máscaras das mais diversas cobrindo seus rostos.

O caminho através do jardim, que era entremeado de estátuas de mármore em tamanho real de bruxos famosos aliados à causa puro-sangue, fora iluminado com orbes mágicas flutuantes que brilhavam na noite como pequenos sóis. A luz refletia os filigranas do vestido de Bellatrix— a saia volumosa era repleta de bordados intrincados em fio de prata que lembravam constelações. O vestido, justo no torso, tinha um corselet ricamente bordado e desprovido de mangas, deixando os ombros e colo expostos. Um par de longas luvas de cetim brilhante cobria os braços de Bellatrix— incluindo a marca-negra e a rosa— até os cotovelos.

Assistindo de canto de olho a saia do vestido de Bellatrix flutuar com seus passos, Bervely não conseguiu afastar um queimor de irritação sob as costelas. Bellatrix estava usando o seu corpo aquela noite com muito mais competência do que Bervely se lembrava de ter usado antes, deslumbrante no chamativo vestido de baile, o tipo de coisa que ela, Bervely, nunca teria aceitado vestir.

Elas alcançaram a entrada do palácio sem que Bervely tivesse tempo de identificar as grandes estátuas de mármore de famosos bruxos puro-sangue ladeando o caminho, ou qualquer um dos convidados que avançavam ao redor delas. As máscaras e iluminação difusa contribuíam para uma atmosfera de anonimato que ela desconfiou ser intencional. Música suave de violino fluía através das massivas portas duplas de entrada, mas antes que pudessem cruzá-las, um dos dois bruxos estacionados à porta em fraques cor de grafite fez um gesto na direção do par, a palma para cima.

— Identificação, por obséquio, senhor e senhora…

— Senhorita — Corrigiu Bellatrix, deslizando a varinha de Bervely do bolso oculto da saia e oferecendo ao guarda.

O guarda aceitou a varinha e a passou pelo interior uma espécie de máquina encantada sobre um púlpito ao lado da porta. As teclas mecânicas se moveram sozinhas e um único nome foi produzido na base de um pergaminho que fluía de uma de suas extremidades, ao fim de uma longa lista: Black. Toujours Pur.

— Seja bem vinda, Senhorita Black — Disse o guarda, devolvendo a varinha a Bellatrix e junto com ela, um pequeno broche de ouro que Bellatrix prendeu ao vestido.

— E o senhor…?

Bervely entregou a varinha de Lucius ao guarda. Malfoy,Sanctimonia Vincet Semper, regurgitou a máquina, sob o Black, Toujours Pur de Bellatrix. Ela recebeu a varinha e um dos broches de ouro que, uma vez em sua palma, percebeu ser uma reprodução do símbolo do Sagrado Vinte-e-Oito: uma abelha pousada sobre uma flor-de-lis, entremeada por três ramos de louro.

— Seja bem-vindo, Sr. Malfoy.

Bervely deixou o broche se pregou à lapela das vestes de gala, e Bellatrix voltou a encaixar o braço enluvado na curva do seu, puxando-a para dentro do salão.

O palácio Grisaille, que Bervely sabia ter sido dedicado à causa puro-sangue depois da criação do diretório puro-sangue nos anos 1930, tinha como principal característica o seu interior por completo talhado em granito cinza-pálido, em estilo barroco. O primeiro conjunto de portas as levou até a rotunda, onde a grande escadaria se derramava sobre o patamar como uma cascata de pedra. As vinte e oito colunas se uniam ao teto em arcos dignos de uma catedral, sustentando os quatro andares de mezaninos visíveis do patamar central. Bervely, acostumada aos corredores claustrofóbicos e escuros de Blackburn, sentiu vertigem ao olhar para cima e tentar absorver a vastidão arquitetônica do átrio. Os demais convidados fluíam porta-adentro, suas vestes de cores exuberantes em contraste com a vastidão cinza-claro do átrio, e subiam a escadaria principal em direção ao salão de baile mais adiante, de onde vinha o som dos violinos.

Ela sentiu um impulso urgente de retornar ao seu sótão escuro em Blackburn, aos seus caldeirões e ao conforto poeirento da sua estufa de galhos e plantas mortas. Tinha acabado de lhe ocorrer que a alta sociedade bruxa estaria em peso naquele evento; e Bellatrix seria vista, usando a sua aparência, por cada um deles. De fato, ela suspeitou que aquele era exatamente o plano de Bellatrix: garantir que toda a sociedade bruxa soubesse, sem sombra de dúvidas, de qual lado da questão puro-sangue Bervely Black estava alinhada.

Talvez porque Bellatrix não confiasse nela, na sua lealdade para a causa? Ou porque qualquer confiança que Bellatrix fosse capaz de dedicar a outro ser humano precisava vir atada em uma cláusula irreversível, como a declaração pública de Bervely naquele evento, comparecendo ao baile de braços dados com o primo puro-sangue?

Bervely sentiu bile amarga queimar em sua garganta, mas era tarde para recuar. Bellatrix agarrou-se ao seu braço para atravessar as portas do salão de baile, o rosto erguido e os passos seguros, chamando o máximo de atenção possível para a sua própria e exuberante figura.

O vasto salão retangular já estava relativamente cheio, muitos rostos mascarados se virando na direção de Bellatrix quando ela foi anunciada como “Senhorita Bervely Black, representando a casa Black” por um mestre de cerimônias parado ao lado da porta, vestido em dourado da cabeça aos pés.

Ela foi introduzida como “Sr. Draco Malfoy representando a Casa Malfoy”, e muitas cabeças se viraram em sua direção, cochichos entre os convidados mascarados os quais Bervely ignorou, sua atenção em Bellatrix, que as paradeava pelo salão sustentando um sorriso arrogante nos lábios vermelho-sangue. Ela acenava para um ou outro bruxo em seu caminho- gente que Bervely não fazia ideia de quem era, mas que também usava broches de ouro na lapela.

— Não esperei que a Casa Malfoy fosse atender ao nosso convite esse ano, mas estou satisfeita que tenha vindo, jovem Draco — Disse uma bruxa à esquerda de Bervely, também em vestes douradas– um vestido justo cauda de sereia e uma expansiva máscara de ouro replicando raios de sol contra a pele negra. Bervely fez uma breve e educada reverência, tentando se lembrar quem raios era a mulher com atitude de realeza diante dela.

— Draco não seria insano de fazer diferente, Madame Selwyn — Disse Bellatrix ao seu lado, numa cortesia afável que Bervely nunca tinha ouvido sair da boca da comensal antes.

— E a senhorita, seria…? — Os olhos negros franziram por trás da máscara, que cobriam apenas metade do seu rosto.

— Bervely Black, ao seu dispor — Disse Bellatrix com um sorriso afetado.

— Ah! A protegida de Narcissa Malfoy, não era mesmo? A menção de Narcissa, em conjunto com a falsa amabilidade da declaração, fez os ouvidos de Bervely zumbirem. Mas Bellatrix fez um pequeno gesto autodepreciativo como se estivesse embaraçada com a sua falta de participação na cena puro-sangue nos últimos anos.

— Draco insistiu para que eu o acompanhasse hoje à noite. Entendo que a minha casa não tem sido corretamente representada há algum tempo, mas estou mais do que disposta a remediar a questão.

— De fato, de fato — Disse Mme. Selwyin, cuja voz lembrava a de uma cantora de ópera, grave e musical. — Bem, divirtam-se, meus queridos. E imagino que nos veremos na cerimônia de juramento?

— Certamente, eu mal posso esperar — disse Bellatrix, como se nada lhe desse mais prazer na vida.

Quando a bruxa vestida em ouro pediu licença e se desviou para ir cumprimentar outros convidados, Bellatrix desfez a expressão amigável no rosto, deixando as pálpebras pesarem e os lábios se torcerem em desdém.

— Mulherzinha pedante — Sussurrou sob a respiração, carregando Bervely para o outro lado do salão. — Só porque fez um bom casamento com Selwyin, acha que é alguma coisa de importante, e agora está metida em organizar o baile do Sagrado Vinte e Oito como se ela mesma tivesse inventado a causa puro-sangue.

— Vai haver uma cerimônia de juramento esta noite? — Bervely cortou Bellatrix, preocupada.

— Acho que estou vendo os Greengrass — Bellatrix disse, indicando o canto oposto da porta, onde uma família de exemplares loiros estava reunida, conversando com um bruxo atarracado portando uma máscara que poderia ter sido a cabeça de um urso empalhada. — Você faz bem em cumprimentá-los.

Bervely franziu, se deixando levar por Bellatrix através do salão de baile.

— Lucius e Grio Greengrass estavam negociando um acordo de matrimônio entre uma de suas filhas e Draco, que se for adiante trará bastante benefício para ambas as casas. Você deve fazer o possível para reforçar a possibilidade essa noite.

— Como é? — Bervely quis ter ouvido errado. — Lucius estava negociandoo casamento de Draco com uma das Greengrass?

— A sua necessidade de evocar surpresa com as informações mais mundanas é exaustiva — Bellatrix suspirou — Ah, sim, ali estão eles. Comporte-se.

Os Greengrass eram um conjunto de cabeças loiro-palha na borda do salão de baile. O Sr. Greengrass, um homem baixo em vestes de veludo fino, sua esposa mais alta e régia num diáfano vestido de tafetá creme, e as duas filhas eram cópias da mãe em cada detalhe, dos ossos protuberantes do rosto até os olhos estreitos, oblíquos e perpetuamente irritados.

Bervely conhecia bem ambas as garotas. Olga Greengrass tinha sido do seu ano em Hogwarts, e dividira um quarto de dormitório com ela por algum tempo. Daphne, a filha do meio, era do mesmo ano de Draco, e fora suspensa de Hogwarts naquele ano por contrabandear o colar da família – e ocasionar a explosão de cobras multiplicadoras que tinham aterrorizado as masmorras e vitimado estudantes mestiços e nascidos trouxa em fevereiro. Considerando que fora Draco a delatar a garota, Bervely não ficou surpresa ao ver uma expressão de desagrado em seu rosto ao avistar o que ela achava ser Draco se aproximando de sua família.

Olga Greengrass, por sua vez, viu Bellatrix-em-corpo-de-Bervely primeiro – um reconhecimento alarmado aparecendo em seu rosto, logo substituído por algo mais neutro e desinteressado quando elas chegaram perto o bastante para serem ouvidas através da música.

— Sr. Greengrass. Sra. Greengrass. Acho que ainda não fomos apresentados oficialmente. Bervely Black — Bellatrix fez uma pequena reverência graciosa para os pais de Olga e Daphne. Era difícil reconciliar aquela versão de Bellatrix, um perfeito exemplar de herdeira puro-sangue bem educada, com a comensal que oferecia sessões educativas de cruciatus à própria filha nos fundos de sua propriedade em Lancaster.

— Ah, sim, Bervely. Olga nos contou tudo sobre você, do seu tempo em Hogwarts — A Sra. Greengrass disse em um tom educado, enquanto o Sr. Greengrass fingia beijar o dorso da mão de Bellatrix à uma distância respeitosa. — Olga, é uma vergonha que vocês duas não tenham mantido contato!

Olga Greengrass estava tendo dificuldade em despregar os olhos da figura de Bellatrix. Bervely, que a observava sem ser observada, achou que os ossos do rosto da garota pareciam mais pronunciados do que antes. Havia uma expressão assombrada em seu rosto, a postura ainda mais tensa do que Bervely se lembrava de ter sido em Hogwarts.

— Eu não sabia que Bervely ainda estava… por essas partes — Olga disse, em tom vago de desculpas, olhando para o que ela achava ser Bervely, sem de fato fazer contato visual.

— É sempre tempo de retomar velhos laços — Disse Bellatrix, o epítome nauseante dos bons modos. A resposta fez ambas, Daphne e Bervely, franzirem. Bellatrix se voltou para Bervely com um floreio. — E vocês certamente conhecem o meu primo, Draco Malfoy? Eu ouvi que Draco e Daphne tem sido bons amigos em Hogwarts.

Bervely forçou uma expressão levemente entediada no rosto de Draco.

O esforço de Daphne para manter a expressão neutra diante da declaração foi tamanho que os seus olhos pareceram lacrimejar. Bervely teve a impressão de que os Greengrass desconheciam o fato de que Draco fora o culpado pela suspensão de Daphne.

— Draco e eu também não temos nos falado muito, ultimamente — Disse Daphne por fim, com um sorriso que poderia ter sido cavado em pedra.

— Tudo isso pode ser remediado essa noite — Bellatrix disse com a suavidade de uma lâmina. — Draco, você deve convidar Daphne para a sua primeira dança. Estou certa de que ela ficará honrada.

Daphne, cujo sorriso vacilou só um milímetro, parecia pronta para matar Draco se ele ousasse. Mas Bervely sabia melhor do que contrariar Bellatrix tão cedo na noite.

— Será um prazer.

Bellatrix ficou olhando em sua direção, seus olhos prometendo Cruciatus se ela não tomasse a diretiva da situação no próximo segundo. Bervely tentou de novo.

— Daphne, uh, aceita uma bebida?

Daphne olhou para o pai, que a devolveu o tipo de expressão que lhe prometia uma parcela do inferno se ela recusasse o convite do distinto herdeiro e seu futuro-possivelmente-prometido Draco Malfoy. Sem opção, a garota assentiu e fez um aceno para uma das mesas de bebida próxima.

Bervely hesitou, sem querer deixar Bellatrix sozinha, tardiamente percebendo que aquela era uma armadilha. Sem opção, sob os olhares dos demais Greengrass e do sorriso psicopata de Bellatrix, ela ofereceu o braço à Daphne e tomou o rumo da mesa.

Paganini Caprice nº 5. tocava nos violinos invisíveis. Composta por Neil Black, um ancestral Black que não deixara herdeiros, Paganini não era uma música agradável– era mais como um lamento agonizante de um violino sendo torturado, o que ela achou propício para a ocasião

Daphne a seguiu num silêncio contrariado e aceitou uma taça de champagne de gnomos. Bervely lhe entregou uma das longas taças bico-de-cisne e pegou uma para si, tentando manter os olhos no grupo composto pelos Greengrass restantes e Bellatrix. Bellatrix estava de costas, de forma que Bervely não podia ler seus lábios nem as expressões enganadoras do seu rosto. Mas ela podia ver o pai de Daphne assentindo, sério, e não precisava ser um gênio para adivinhar que ela estava vendendo a alma de Draco para a família Greengrass como quem passa adiante um pegasus de raça.

— Eu ainda estou furiosa com você, caso não tenha percebido — Daphne quebrou o silêncio, desgostosa, depois de três ou quatro goles.

— Eu percebi — Disse Bervely, distraída. Daphne fez uma careta e passou a mão sobre a saia do diáfano vestido branco-perolado, desfazendo uma prega invisível.

— Eu ia escrever, sabe. Quando ouvi sobre o seu pai. Mas então me lembrei que você me fez ser expulsa da escola e nunca se incomodou em pedir desculpas, então mudei de ideia. Não achei que merecia os meus pêsames.

Bervely estava ouvindo com metade da atenção, ainda observando a interação de Bellatrix com os Greengrass. Olga permanecera ao lado da mãe, as faces fundas, os olhos pregados em Bellatrix – que ela pensava ser Bervely – como quem via um fantasma.

— O que há de errado com a sua irmã?

— Astória? — Daphne perguntou, girando para ele, preocupação mal-disfarçada em sua voz. — Por que, o que ela fez agora? Ela se recusa a voltar para casa, prefere ficar naquele castelo com o resto dos traidores, ignora todas as corujas…

— Não. Olga — Bervely fez um sinal impaciente na direção dos Greengrass. Bervely e Olga nunca tinham sido especialmente próximas na escola. Quando ela tinha visto Olga pela última vez? Na formatura de Hogwarts, supunha. Mas Olga devia ter ouvido sobre ela outras vezes desde então. Sobre a sua prisão em Azkaban, talvez. Sobre os boatos de sua suposta morte durante o levante dos dementadores. Talvez por isso estivesse agindo tão surpresa com a sua presença ali, paradeando seu orgulho-puro sangue como se nada mais tivesse acontecido.

— Nunca tem nada de errado com Olga, tem? — Daphne chispou. — Ela continua sendo a mais perfeita criatura a jamais pisar sobre a terra, ao menos no que concerne aos meus pais.

Bervely franziu para o comentário amargo, e para o fato de que, a despeito da irritação de Daphne com Draco, ela estava disposta a se abrir muito mais do que Bervely teria esperado. Querendo adiantar o assunto, Bervely se virou e pregou os olhos azul acinzentados de Draco em sua suposta pretendente:

— Eles estão arranjando o nosso casamento, você sabe.

E daí? — Daphne retorquiu, o nariz crispado. Bervely tentou se manter no personagem. Ela não tinha gostado de Daphne como aluna em Hogwarts, e ela certamente não gostava agora, como um suposto par para o seu primo.

Mas naquela noite, ela devia ser “um bom garoto”, como prescrito por Bellatrix, e seguir o script. Naquela noite, se ela irritasse Bellatrix, a comensal da morte tinha a arma perfeita para lhe retaliar– o total controle da sua identidade e reputação na sociedade bruxa.

— E eu acredito que o nosso casamento possa ser benéfico para ambas as nossas famílias — ela se ouviu dizer na voz de Draco, num tom propositalmente desinteressado.

A expressão no rosto de Daphne mudou, genuína surpresa por trás da máscara de seda translúcida. Uma sombra mal-disfarçada de esperança cruzou os olhos azuis-gelo da garota, e Bervely se deu conta de que havia ali genuíno interesse. — Bem. Se é o que acha — Ela se empertigou, ficando séria de novo, as bochechas ligeiramente coradas. — Papai acha que as nossas famílias se complementam bem, do ponto de vista político. Ou ao menos ele concordava… antes da coisa toda com o seu pai acontecer. Agora, acho que vai precisar de alguma garantia extra.

Ela olhou em dúvida por cima do ombro, em direção à sua família. Bellatrix ainda estava fazendo o seu número com os Greengrass. Bervely supôs que era a sua vez de fazer o seu, com Daphne.

— O que aconteceu com o meu pai foi um infortúnio, mas eu garanto a você que a casa Malfoy não foi impactada.

— E que garantia disso você tem? — Ela se voltou para ele, incrédula. — Por que da última vez que eu o vi, você parecia um tanto perdido em suas prioridades.

Aquela devia ter sido a reunião na sala de McGonagall em Hogwarts, na qual Bervely também estivera. Draco denunciara o crime de Daphne, ocasionando a sua expulsão.

Bervely ergueu a mão que segurava a taça na altura de seu rosto, mostrando-lhe o anel de Duas Serpentes em seu indicador e dedo médico.

— Eu me alinhei com as minhas prioridades desde então.

Os olhos azuis de Daphne cintilaram sobre o anel com interesse, e um sorriso mais otimista, se não um pouco forçado, enfeitou seus lábios estreitos. Ela teria sido bonita, pensou Bervely. Mas o interesse dela era no sobrenome de Draco, e aquela era uma falha de caráter suficiente para desfigura-la aos olhos de Bervely.

Você só vai se casar com o meu primo por cima do meu cadáver, filhote Greengrass

Para Daphne, ela abriu o sorriso atravessado que Draco usava quando estava se sentindo especialmente convencido de que era o último feijãozinho de menta do pacote.

— Estou perdoado pelo que aconteceu em Hogwarts, então?

— Não tão rápidoDaphne disse, sem querer dar o braço a torcer muito embora ela tivesse perceptivelmente amolecido depois de bater os olhos em Duas Serpentes. — Mas eu estou disposta a lhe dar o benefício da dúvida, já que parece tão empenhado em se redimir dos seus pecados.

Após terminarem suas bebidas, Bervely tentou devolver Daphne para os Greengrass, só para descobrir que Bellatrix não estava mais com eles– nem em qualquer outro lugar à vista daquele canto do salão. Bervely se desculpou da família loura alegando ter visto alguém que precisava cumprimentar, e deslizou por entre os convidados mascarados na direção oposta.

O salão de baile ocupava uma área tão grande quanto o salão principal de Hogwarts. Ela inclinou a cabeça para o alto e encontrou o teto coberto de espelhos – ou magia reflexiva – duplicando o baile num efeito vertiginoso. Os convidados circulavam em suas vestes luxuosas – veludos e cetins, bordados intrincados de ouro e prata, jóias reluzentes e pesadas em dedos, pescoços e orelhas, máscaras elaboradas sobre os rostos, fazendo muito ou pouco para ocultar a sua identidade, a depender da intenção do seu portador. Bervely viu luas e sois, aves de rapina, criaturas de focinhos longos e orelhas pontudas, outras mais clássicas em cetim e pedras preciosas com rasgos dramáticos para os olhos, perfeito ajustes sobre bocas emoldurando sorrisos exagerados, falsos ou perigosos.

A música clássica fluía de visantos, pianos e violinos num palco lateral semi-oculto por longas cortinas. Instrumentos encantados reproduziam as melodias dos musicomancistas mais talentosos dos últimos séculos, bruxos tão geniais que sua fama transcendia as barreiras do estatuto de sigilo, tornando-os famosos igualmente entre bruxos e trouxas. Vivaldi, Bach, Chopin, Mozart…

O cheiroimpregnado no ar, rico e doce, vinha das flores de lis que dominavam a decoração, em buquês tao grandes quanto copas de árvores, decorando as colunas de sustentação ao redor do salão. Oito candelabros pendiam do teto espelhado, seus inúmeros braços de metal e vidro, cada um como o trono de uma centena de fadinhas brilhantes que cintilavam como estrelas.

Bervely flagrou uma estranha sensação de nostalgia florescendo em seu peito, a despeito da manipulação de Bellatrix e o uso do seu corpo, e do fato de que ela mesma estava usando a identidade de Draco como peão do lorde das trevas. Ela tinha esperado que a reunião puro-sangue anual seria pesada de más-intenções e manipulação e política – e certamente devia ser, por detrás das máscaras e dos sorrisos forçados de alguns– mas também havia beleza e celebração naquele salão, haviam pessoas cujas vidas não eram inteiramente miseráveis, nem cujas intenções eram totalmente nefastas, e que tinham vindo ali aquela noite para aproveitar a festa.

Nem todo puro-sangue era umvilão, ela precisou se lembrar, observando um casal se divertir nas proximidades, tão absorvidos um pelo outro que o restante dos convidados podia muito bem não existir.

Absorvida pelo casal e tentando aplacar um ardor em seu peito – quando ela poderia sequer esperar romance em sua vida de novo, em seu novo status de servidora do lorde das trevas? – Bervely foi distraída pelo vislumbre de alguém se esgueirava para fora do salão, tentando ser discreta– Olga Greengrass. Bervely acompanhou com os olhos a garota caminhar de cabeça baixa perto da parede, em direção à porta oposta àquela pela qual Bervely e Bellatrix tinham usado.

Bervely franziu, intrigada com a atividade suspeita da antiga colega de escola. Ela estava debatendo entre seguir Olga ou não quando um cutucão em suas costelas lhe trouxe de volta à realidade.

— Por onde você andou? Está quase na hora da cerimônia de juramento! — Bellatrix rosnou ao seu lado, um borrão de anáguas prateadas e lábios vermelhos crispados em impaciência.

Bervely acompanhou pelo canto de olho Olga desaparecer por uma nesga da porta e se voltou para Bellatrix, sem se dar ao trabalho de contestar que fora ela quem tinha desaparecido primeiro.

A caminho do que ela supunha ser a Sala do Juramento, Bervely se deu conta de que ainda lembrava de todos os nomes que tinha decorado em ordem alfabética a partir do Signo Negro, o grande almanaque de conhecimento puro-sangue que usara como sua biblia particular antes mesmo de ter idade para segurar uma varinha.

Abbot. Avery. Black. Bulstroid. Burke. Carrow. Crouch. Fawley. Flint. Gaunt. Greengrass. Lestrange. Longbottom. McMillan. Malfoy. Nott. Ollivander. Parkinson. Prewett. Rosier. Rowle. Selwyin. Shacklebolt. Shafiq. Slughorn. Travers. Weasley. Yaxley.

Em sua infância, Bervely tinha estudado a lista do Sagrado Vinte e Oito com a mesma dedicação que Draco tinha estudado dragões, e Charlotte, seus contos de fadas trouxas. Ela colecionara as histórias e memorizara os brasões das vinte e oito famílias puro-sangue europeias que ainda se mantinham puras no século vinte. Ou ao menos, as que ainda prezavam pela pureza de sangue o suficiente para se proclamarem imaculadas e consistentemente desonrarem os membros desviantes, mantendo a sua genealogia limpa.

Apenas um representante de cada família figurada na lista era admitido na cerimônia de juramento. No coração do palácio Grisaille, em uma sala circular no fim de uma longa escadaria em caracol que se desenrolava acima do salão de baile, para onde Bellatrix a conduziu como quem já tinha feito o caminho outras vezes. O teto era feito de painéis de vidro perfeitamente alinhados, o centro adornado com uma estátua de Salazar Slytherin sete vezes maior que o seu tamanho real. Era estranho ver a imagem de Salazar fora do contexto de Hogwarts, mas não era inesperado. Salazar fora, mais proeminente, senão o principal defensor da pureza de sangue entre os bruxos.

Pelo menos, até Voldemort.

Bervely imaginou se, caso Voldemort se tornasse o imperador supremo do mundo mágico como parecia almejar, ele exigiria a substituição de todas as estátuas de Salazar pelas suas. A imagem deu a Bervely um calafrio de repulsa – já bastava ver as fuças do lorde das trevas um domingo por mês em Blackburn Hall, ela certamente não precisava de mais lembretes dele espalhados pelo mundo mágico.

Aos pés da estátua de Salazar havia uma fonte de serpentes entrelaçadas– vinte e oito serpentes, Bervely supôs. Sob a cabeça de cada uma, um pequeno prato cerimonial plano, feito do mesmo mármore cinza que constituía as colunas e escadarias do Palácio Grisaille. Quando ela se aproximou – seguindo os passos de outros bruxos e bruxas mascarados que tinham silenciosamente se reunido ao caminho, se desvencilhando das festividades no salão– ela viu que cada prato trazia o brasão de uma das casas sangue-puro supostas renovarem o seu juramento de pureza aquela noite.

Bervely passou pelo prato com o brasão da família Black – o corvo, as espadas e as rosas – e foi a contragosto se posicionar diante do brasão da Casa Malfoy, dois pratos adiante. Tensa, ela reconheceu os brasões dos pratos que a ladeavam– o da Casa Lestrange, e o da casa Selwyn. Bellatrix se posicionou orgulhosamente diante do prato da Casa Black, lançando um olhar satisfeito para Bervely, e lhe dando uma piscadela que fez os seus intestinos se revirarem.

Quando os demais representantes se posicionaram diante dos seus respectivos brasões, as portas longas da sala se fecharam sozinhas. Mas, eles não eramvinte e oito a total. Bervely contou dezessete bruxos e bruxas tomando lugares diante dos pratos, incluindo ela mesma e Bellatrix. A sub-representação era esperada, já que desde a compilação da lista em 1930, algumas casas tinham sido extintas por falta de herdeiros puros (a Prewett e a Gaunt eram bons exemplos), e outras já não coadunavam com as noções de purismo defendidas pela lista (como a Weasley e a Longbottom). Finalmente, algumas tinham como único representante vivo bruxos procurados pelo Ministério que supostamente não arriscariam aparecer na festa: lista que incluía os Lestrange, razão pela qual o prato com o brasão da casa, à direita de Bervely, estava desocupado.

O mestre de cerimônias da noite – tradicionalmente, o membro mais velho a representar uma família no círculo – subiu uma escadaria lateral escondida nas dobras da capa de mármore da estátua de Salazar e se posicionou no pequeno patamar elevado aos pés da estátua. A máscara que cobria a metade superior do seu rosto era a do crânio escurecido de um grande pássaro, olhos azuis-vítreos visíveis através dos buracos, um bico comprido e sinuoso adornado com filigranas azuis. Ele retirou a máscara e se revelou um homem velho e vigoroso, que Bervely não conhecia. Espiando o brasão no local que ele deixara, ela enfim reconheceu o padrão da família Burke.

— Eu devo lembrá-los que a câmara de juramento é protegida pelo feitiço Sigilus, e que as identidades dos aqui presentes não poderão ser disseminadas fora desta sala. Portanto, sintam-se livres para removerem as suas máscaras antes de darmos prosseguimento à cerimônia.

Alguns o fizeram, e à medida que máscaras foram removidas, Bervely reconheceu alguns rostos. O do ex-ministro Bartô Crouch, oposto a ela no semicírculo, o do Sr. Greengrass, pai de Daphne e Olga… e – aqui ela gelou de surpresa– o auror e membro da Ordem da Fênix Kinsgley Shacklebolt, um bruxo que Bervely já achava intimidador em circunstâncias normais, mas que naquela noite mandou calafrios de alarme pelo seu corpo. Os olhos do auror estavam em Bellatrix, que é claro, tinha retirado orgulhosamente a sua máscara, revelando o rosto de Bervely por detrás.

Bellatrix fez um aceno irônico na direção de Shacklebolt, e lhe deu uma piscadela.

Bervely cerrou os olhos, lidando em silêncio com o renovado impulso de matá-la.

A sua intenção deve ter passado pela rosa, porque Bellatrix se virou para ela e ergueu as sobrancelhas quando viu que Bervely ainda estava usando a própria máscara.

Contrariada, Bervely a removeu, evitando contato visual com qualquer outro bruxo no círculo. Não que já não tivesse sido reconhecida ou identificada por Bellatrix no salão, mas ao menos com a máscara havia um certo senso de anonimidade geral que ela teria gostado de manter.

Burke prosseguiu com a cerimônia, dessa vez em latim. O latim de Bervely estava mais enferrujado do que a sua dignidade, mas ela conseguiu seguir a noção geral das proclamações. Reunidos ali aquela noite, eles juravam por mais um ano zelar pela pureza e primazia do sangue dos seus antepassados, em nome da permanência e preservação do sangue bruxo e da própria magia. Eles eram defensores da magia e expurgadores da impureza e da mácula dos sangue-ruins que infectavam as suas linhagens e diluiam a magia em seu sangue. Etc, etc..

A Bervely de seis anos atrás teria ficado feliz em se embriagar daquelas palavras como se fossem uma generosa taça do seu vinho de fadas favorito; essa noite, ela só queria que a coisa toda terminasse o mais rápido possível. Sob a voz monótona de Burke, ela deixou a atenção vagar.

Draco” não era o único bruxo presente no círculo que parecia ter acabado de completar a maioridade. Um pouco adiante, Bervely reconheceu Theodor Nott. Nott, um garoto de bochechas fundas e olhos saltados, tinha as mãos fechadas atrás das costas e também parecia decidido a evitar contato visual com os demais. Ao lado dele estava Marcus Flint. Um pouco mais velho do que Nott, Marcus frequentara Hogwarts no mesmo ano que ela. Bervely sempre o achara um tanto asqueroso, com sua personalidade truculenta e sorriso de tubarão. Agora, mais homem que garoto, ela ainda preferia que ele tivesse mantido a máscara de demônio azul que estivera usando.

Dois lugares vazios à direita de Flint estava uma garota que parecia jovem demais para fazer o juramento– Bervely teria lhe dado quatorze, ou quinze anos no máximo. Ela mantivera a máscara – uma peça delicada, feita de algum mineral perolado e iridescente que lembrava uma concha, abraçava cada lado da sua têmpora, se erguendo aos lados da sua cabeça em pequenos chifres espiralados. Espiando através da máscara, seus olhos eram de um tom tão pálido quanto o seu vestido.

A garota ergueu os olhos para Bervely ao perceber-se observada. Podia ser um efeito da sua máscara, mas os olhos pareciam grande demais em seu rosto, como se ela fosse uma das bonecas na estante do quarto de infância de Bervely.

Bervely desviou os olhos da garota; Burke anunciou que ia começar a proferir o juramento em voz alta e eles eram supostos a repetir depois dele.

Burke ergueu a mão esquerda, a palma virada na direção do brasão de sua casa, a varinha deitada na palma da mão direita, voltada para cima. Os demais o imitaram. Bervely equilibrou a varinha de Lucius Malfoy na palma pálida de Draco e voltou a palma da outra mão para o brasão da família Malfoy.

O perjúrio da situação lhe causou um enjoo quase físico, pesando os seus braços e pernas. Ela não tinha certeza se teria feito o juramento diante do brasão da família Black, se dada a opção, mas fazê-lo no corpo de Draco, diante do brasão de uma casa que não era a sua – e de um sangue que não era o que corria em suas veias – parecia tão doentio como reavivar cadáveres ou controlar pessoas com a maldição Imperius.

Burke começou o juramento em latim. Bervely e os demais repetiram depois dele, suas vozes se misturando num murmúrio único, ecoando nas paredes circulares em direção ao teto de vidro, como uma só vibração mágica, cujo senso geral ela compreendeu à medida que o repetia:

Eu juro manter pura a minha linhagem, e aquela dos meus descendentes.

Eu juro defender os interesses da minha Casa, e os interesses da magia que a minha Casa representa.

Eu juro defender a pureza do meu sangue da ameaça da mestiçagem, juramento que tem primazia sobre a minha mente, o meu coração e a minha alma.

Eu juro pelo útero da minha mãe e pela semente do meu pai.

Eu juro pelo cerne da minha varinha.

Eu juro e aceito que o perjúrio pode custar o meu sobrenome e a dignidade da minha família.

As cobras de mármore aos pés da estátua de Salazar Slytherin começaram a se mover, como se as palavras fossem a senha para despertá-las de seu sono de pedra. Aquela bem acima da cabeça de Bervely mergulhou lentamente na direção da sua mão estendida. As serpentes diante os demais bruxos e bruxas fizeram o mesmo, como em uma dança ensaiada– as serpentes sob os lugares vazios continuaram imóveis.

Bervely entendeu um segundo antes de acontecer que ela estava prestes a fazer a segunda oferenda de sangue da noite, e trancou os dentes quando a serpente cravou as presas na palma da sua mão, uma dor súbita que arrancou ar dos seus pulmões de uma só vez. O animal de pedra recuou tão rápido quanto atacara, a ponta das presas manchadas de vermelho. Bervely sentiu a palma queimar, mas não a moveu, copiando a imobilidade dos demais membros adultos do círculo.

Sangue quente escorreu da sua palma e pingou no prato, deslizando pelas linhas em baixo relevo do brasão Malfoy, colorindo-o de vermelho escuro. Bervely temeu que o prato reconheceria a sua farsa– talvez cuspisse o seu sangue de volta ao perceber que não era legítimo sangue Malfoy. Talvez mandasse a serpente atacá-la.

Ao invés disso, o seu sangue foi absorvido e a serpente voltou a se enrolar, satisfeita, aos pés de Salazar. Bervely olhou de relance na direção de Bellatrix e viu que a comensal sorria amplamente, a mesma expressão que ela usava depois de uma sessão de tortura produtiva.

Burke fez um aceno com a varinha e a base da fonte se encheu de um líquido leitoso-prateado. Ele se inclinou e mergulhou a outra mão sangrenta, que a serpente tinha perfurado, no líquido leitoso. Quando a retirou, sua mão enrugada voltou limpa.

Bervely seguiu o exemplo, mergulhando a própria mão no líquido – que era morno e mais denso do que parecia – e quando a retirou, o ferimento tinha parado de pulsar. Ela esticou a palma para a luz das tochas e descobriu que, no lugar das feridas que a serpente lhe causara, havia duas pequenas cicatrizes rosadas.

Resistindo em colher uma amostra do líquido leitoso e levar para análise em seu laboratório, ela seguiu os demais de volta para a festa, tentando conter a sensação pesada de náusea que se instalara na base da sua garganta.

* * *

A música, alguma sonata dramática de Beethoven, chegou ao fim com um estrondo, e os instrumentos no palco semi-oculto ficaram silenciosos. A conversa também foi morrendo, e em poucos minutos o salão mergulhou num silêncio preenchido pelas centenas de respirações e do farfalhar de vestes dos convidados. A bruxa coberta em dourado, que que tinha falado com Bervely e Bellatrix na entrada, conjurou e subiu num pequeno palco circular no centro do salão, nas mãos uma lista de pergaminho amarelo.

— Madame Selwyn — Daphne, que tinha se materializado ao lado de Bervely assim que os primeiros boatos da valsa começaram a soar, suspirou a informação em seu ouvido, num tom de admiração reverente. — Dizem que ela é a bruxa mais rica da Grã-Bretanha.

Os braços de madame Selwyn estavam descobertos– seu vestido era um tomara que caia que só podia ser sustentado por magia– e é claro que não havia sinal da Marca Negra no seu antebraço, mas Bervely já ouvira o nome Selwyn mencionado o suficiente em conversas sob o teto Lestrange para saber que ela era uma suportadora da causa.

— A minha família tem tido a honra de organizar esse indescritível e importantíssimo evento por décadas, e nada me deixa mais honrada do que dar prosseguimento a tamanho espetáculo esta noite. Como manda a tradição, eu convoco ao salão de baile os herdeiros que completaram a maioridade desde o último baile, para que tenham a oportunidade de iniciar, simbolicamente, os seus passos para a vida adulta no seio da nossa comunidade puro-sangue. Esta noite eles são…

Madame Selwyn começou a ler da sua lista, a voz clara e musical alcançando cada canto do salão.

“Theodore Nott”, e o garoto franzino e mal-encarado que Bervely vira na câmara de juramento caminhou para o centro livre do salão de bailes, o rosto franzido por trás de uma máscara vagamente felina.

“Edward Rowle”, e um garoto loiro e musculoso se juntou a Nott, o peito estufado, o que tinha como efeito de evidenciar as camadas de babado de sua camisa vitoriana.

“Minha querida Isabella”, Madame Selwyn conjurou e uma garota de rosto anguloso e metida num fabuloso vestido azul meia-noite, que se posicionou diante de Rowle.

Madame Selwyin continuou chamando nomes, e um por um os adolescentes tomaram a posição no palco, um de frente para o outro, formando duas fileiras.

“Pansy Parkinson”, Gregory Goyle”.

Bervely percebeu que na sua distração com a nova demanda social ela tinha perdido Bellatrix de vista mais uma vez. Ela se virou para procurar algum indício da mãe entre os convidados, mas todos estavam apertados num anel justo em torno do salão para assistir a dança, e Bellatrix não parecia estar entre eles.

“Daphne Greengrass.”

Ugh — Daphne gemeu, mas quando pisou no salão para ir se posicionar na frente de Goyle, ela era só sorrisos.

“Draco Malfoy”,“Maeve Rosier”.

Maeve, pensou Bervely, arrastando-se na passada presunçosa de Draco e tentando ignorar as centenas de pares de olhos sobre ela. Onde ela tinha ouvido aquele nome?

Maeve Rosier era a garota pálida e estranha que jurara em nome da familiar Rosier na cerimônia. Maeve parou diante de Bervely com um sorriso vago por baixo da máscara perolada de chifres de bicórnio.

Curiosa– os Rosier e os Black tinham laços genealógicos antigos– Bervely se posicionou ao lado de Daphne para que a garota fosse a sua primeira dança, só para o caso de Bellatrix ainda estar assistindo.

As primeiras notas de Lacrymosa, de Mozart, deslizaram dos violinos enfeitiçados, arrepiando os seus braços. Aquela fora uma das músicas favoritas de Hector, e uma das primeiras que ele tinha aprendido a tocar no seu visanto.

Bervely cerrou os olhos. Respirou fundo.

É só uma dança. Você já fez coisas muito piores nas últimas semanas.

Mas não na frente de uma considerável parcela mascarada da alta comunidade bruxa, num corpo que não era o seu, enquanto em algum lugar do salão, Bellatrix circulava em seu corpo, em completa impunidade.

Graças a um cuidadoso encantamento pé-de-valsa lançado nos sapatos de Draco, cortesia de Bellatrix quando Bervely lhe informara que ela não fazia a menor ideia de como guiar a valsa– a dança com Daphne correu a contento, com mínima interação, pois a própria Daphne parecia concentrada em não tropeçar na barra do vestido.

O baile debutante era orquestrado de forma que eles trocariam de pares e dançariam de novo, e de novo, até que tivessem coberto todas as combinações possíveis em seu pequeno grupo de puros-sangues recém-adultificados. Aquela era, afinal de contas, uma cerimônia de pré-acasalamento, pensada para encorajar a nova geração a se interessar uns pelos outros e, quem sabe, torná-los mais maleáveis quando os seus casamentos fossem arranjados pelos familiares.

Bervely dançou com Pansy Parkinson, que manteve uma postura rígida e evitou seus olhos durante todas as notas de Solfreggio e com Isabella, a melhor parceira em termos de ritmo, mas que não parava de torcer o pescoço na direção de Rowle a cada giro, fazendo parecer que ela tinha uma espécie estranha de torcicolo.

Por fim, ela chegou à Maeve Rosier– que era tão pequena que mal alcançava o ombro de Draco. A garota também não parecia ter peso, uma mão gelada na de Draco, a outra em sua cintura, seguindo os movimentos de Bervely como se fosse feita de algodão.

— Você é diferente do que eu imaginava — Disse a garota Rosier, inclinando a cabeça ligeiramente ao retornar de um giro em torno do próprio eixo e voltar a se encaixar nos braços de Bervely, antes mesmo que ela pudesse elaborar qualquer pergunta.

— O que você imaginava?— Bervely perguntou, tentando descobrir o sentido do comentário.

— Faz tempo que eu quero conhecer você, é só isso. Nós somos parentes… em algum grau — Ela completou, sorrindo candidamente.

Bervely viu uma série de dentinhos pontiagudos por detrás dos lábios pálidos. Ela só percebeu que estava encarando quando Maeve franziu as sobrancelhas completamente brancas para ela:

— Você está tentando descobrir o que há de errado comigo.

— Eu… não quis ser indelicado — Ela se desculpou, franzindo. — É só que achei que não havia nenhum Rosier na minha geração.

Maeve deu um pequeno sorriso e não contestou a informação, ao invés disso deitou a cabeça sobre o peito de Draco, seguindo o seu rodopio como se ela fosse uma extensão dele, desprovida de matéria. Os outros casais estavam dançando com variados graus de desenvoltura, e Bervely suspeitou que alguns deles também estivessem usando magia; ninguém era tão competente em valsa aos dezessete anos.

— Eu nasci com um caso raro de albinismo — Disse Maeve, e Bervely voltou a sua atenção para a garota. Apesar de a sua mão segurar a de Maeve a mais de um minuto, a palma da garota continuava fria e inerte na sua. — Corre na família.

— Você não frequentou Hogwarts — Bervely disse. Ela se lembraria de alguém como Maeve na escola.

Os olhos violeta cintilaram, como se o interesse de Draco nela a divertisse.

— Eu fui educada em casa.

— Seus pais não puderam vir essa noite? — Bervely supunha que essa era a única razão para a garota tomar o lugar dele na cerimônia de Juramento.

— Meus pais morreram há muito tempo.

De novo, os olhos violeta cintilaram com diversão juvenil. Como se ela estivesse relatando uma travessura, não a morte da própria família.

— Eu vim com o meu consorte — Maeve completou, indicando um ponto do salão, fora do círculo de dança. Bervely teve outro vislumbre daqueles pequenos dentes afiados como navalhas, o que a distraiu de olhar na direção indicada. — Talvez você o tenha visto por aí? Ele serve a família há muitos anos.

— O seu consorte?

— Sim. Sanguini.

O nome lhe trouxe uma familiaridade vaga, parecida com aquela que o nome de Maeve evocava. Talvez ela tivesse ouvido o nome de ambos no mesmo contexto. Talvez em alguma leitura distraída sobre a família Rosier? Uma pontada de dor nas suas têmporas a distraiu do pensamento, fazendo-a se contrair.

Maeve percebeu o movimento e inclinou a cabeça de novo.

— Você está bem?

— Eu não gosto de dançar — Ela justificou, lutando contra o início do que parecia outro surto de enxaqueca.

— Você finge a contento — Disse Maeve, e voltou a pousar a cabeça sobre o peito de Draco, ficando em silêncio pelo resto da música, pelo que Bervely ficou imensamente agradecida.

* * *

Bervely não teve grande dificuldade de localizar Bellatrix no salão ao fim da valsa quando a última dança debutante chegou ao fim. Ela só precisou seguir o som de uma comoção na lateral do palco, onde um pequeno círculo de convidados chocados estava abrindo espaço e a voz de Bellatrix– bem, a voz de Bervely— se projetava através da música.

— Eu o aconselho a não se aproximar novamente, senhor, ou eu vou arrancar fora a sua coleção de dentes!

Bervely abriu caminho entre os convidados, a altura de Draco ajudando na tarefa. Encontrou Bellatrix em frente as cortinas negras, a varinha apontada para um convidado. Num vislumbre rápido da audiência que estava se reunindo ao redor, Bervely identificou a figura alta do auror Sharklebolt, assistindo ao espetáculo com interesse.

Ótimo. Tudo que ela precisava era um auror vendo “ela” causar comoção num baile puro sangue.

— Bel– Bervely — Bervely chamou, ao mesmo tempo em que o bruxo que Bellatrix ameaçava ergueu as mãos pálidas no ar, uma expressão de alarme nos olhos mascarados.

— Bervely, sou eu

— Eu não vou dizer outra vez, criatura — Bellatrix rosnou, a ponta da varinha faiscando vermelha. — Se afaste

— Sanguini! — Uma voz aguda e chateada veio detrás de Bervely. Ela se virou e percebeu que Maeve tinha lhe seguido, e agora estava abrindo caminho até o bruxo que irritara Bellatrix. — O que eu lhe disse sobre incomodar os convidados?

Bervely deu uma boa olhada no bruxo pela primeira vez. Alto e pálido, com vestes clássicas escuras e cachos negros. Ela não podia ver as feições do desconhecido, cobertas por uma máscara simples de couro negro, a não ser pela boca de lábios finos, no momento pressionados em confusão.

O estranho desviou o olhar de Bellatrix com relutância; ele e Maeve trocaram um olhar tão pesado de significado que poderiam estar tendo uma discussão via legilimência. Bervely se voltou para Bellatrix, tentando ignorar o retorno de sua enxaqueca.

— Qual é o problema? — Ela murmurou para Bellatrix, mais impaciência na voz de Draco do que pretendera.

— Esse cavalheiro — Bellatrix apontou a varinha na direção do rapaz, a voz pesada de desprezo. — Aludiu à sua intenção de me convidar para uma dança.

— E você ameaçou arrancar-lhe os dentes?

— A mera ideia de que eu aceitaria o convite de algo como–

— Eu peço desculpas, Srta. Black — Disse Maeve, se voltando para Bellatrix com uma espécie de reverência.

Bervely tinha bastante certeza que ninguém nunca tinha se curvado para ela nos vinte e um anos que viera usando aquele corpo, como Bellatrix conseguiu o feito em algumas horas?

— Eu prometo mantê-lo sob as minhas vistas daqui por diante — Maeve assegurou, num tom de quem está pronta para um Voto Perpétuo.

As narinas infladas, uma expressão de profundo desagrado no rosto, Bellatrix lentamente abaixou a varinha. Bervely achou por bem se colocar entre ela e o tal Sanguini, deixando parecer aos espectadores como se Draco estivesse protegendo a prima, quando na verdade o que ela pretendia era proteger todo o resto da festa—e o que restava da sua reputação— da fúria injustificada de Bellatrix.

Quando ela se posicionou diante dele, os olhos do bruxo pálido deslizaram para ela, e as narinas dele se alargaram, como se a estivesse… farejando? O contato visual com o consorte de Maeve Rosier fez as têmporas de Bervely arderam em resposta. Ela piscou, abaixando o rosto, fingindo ajeitar a máscara enquanto lutava contra uma onda de náusea.

Quando ergueu os olhos de novo, viu que a expressão no rosto do estranho mudara. Era difícil ler por detrás da máscara, mas ele parecia ainda mais confuso do que quando Bellatrix estivera tentando azará-lo.

Bervely teria adorado uma explicação, mas Maeve já estava puxando o bruxo para longe dela e de Bellatrix.

— Vem, Sam. Já chega, eu estou exausta, vamos embora desse lugar.

Sanguini resistiu, os olhos pregados em Bervely como âncoras por mais um longo par de segundos. Então ele aceitou a pequena mão de Maeve, deu as costas e se dissolveu no meio dos convidados.

— Qual é o seu problema? — Bervely se voltou para Bellatrix, chispando, quando a multidão ao redor delas enfim se dissolveu, parecendo concluir que o drama chegara ao fim.

A expressão perigosa no rosto da comensal lhe lembrou com quem ela estava falando, mas Bervely não recuou. Por mais furiosa que Bellatrix parecesse, Bervely não achava que ela usaria uma maldição imperdoável nela no meio do salão.

— Aquele vampiro conhece você — Ela sibilou para Bervely, as palavras pesadas de acusação.

— Ele é um vampiro? — Bervely se virou mais uma vez na direção para onde Sanguini sumira. Os convidados agora se moviam em direção à pista de dança em pares. Nem ele, nem Maeve, estavam mais à vista.

Bervely percebeu que Bellatrix tinha abaixado a varinha, mas não a guardara, e agora a estava apontando discretamente na direção da barriga de Bervely.

— Não ouse mentir para mim. Você tem se relacionado com todo tipo de escória nos últimos anos, o tipo de ranço que pode interferir em seus serviços para a nossa causa. Se está em conluio com vampiros, é melhor me dizer agora, antes que eu precise arrancar essa informação à força da sua cabeça.

Outra pontada dolorosa em suas têmporas fez Bervely se contrair, apertando os olhos.

Bellatrix piscou também, surpresa. Bervely teve a impressão de que a mãe sentira a dor em sua cabeça, através da rosa.

— Eu não sei quem ele é — Bervely sibilou, os olhos lacrimejando.

Num movimento só Bellatrix arrancou a luva do braço direito e fechou as garras livres ao redor do braço de Bervely, as unhas cravando-se na rosa sob as vestes de gala, a outra mão, ainda segurando a varinha e apontando-a discretamente à sua nuca. Daquele ângulo devia parecer um abraço afetuoso entre primos, mas Bervely sentiu a invasão brusca à sua mente com um desagradável calafrio.

— De onde conhece o vampiro? O que ele significa para você?

As notas dramáticas de Danse Hangroise nº 5 abafaram a exclamação de dor de Bervely, a presença de Bellatrix cavando espaço em sua mente como quem esburaca solo compacto com a ponta de uma faca.

Eu já disse que não faço a mínima ideia de quem ele é — Bervely ofegou, o coração disparando, as mãos suando frio sob o ataque em sua mente.

Finalmente Bellatrix a largou, deixando para trás uma sensação de ruptura e desorientação. Bervely inclinou-se sobre a borda do palco, as mãos úmidas encontrando a superfície gelada de mármore, a cabeça latejando como se abrigasse uma estrela furiosa. Pontos negros dançaram sob suas pálpebras ao ritmo irritado dos violinos.

Ela tentou recuperar o fôlego sem chamar muita atenção. Algo quente deslizou de sua narina esquerda– sangue. Bervely se apressou a limpar, antes que manchasse a gola muito branca de sua camisa.

Quando Bervely conseguiu se erguer de novo, Bellatrix tinha sumido entre os convidados, aparentemente satisfeita com a resposta que lhe arrancara.


Notas finais
Gostou do capítulo? Me deixa um comentário! Beiiijo!