A Canção de Morgana

13 Nolite Facere Quicquam Stultius¹


Notas iniciais
Aye tripulação! Um tempão sem postar mas aqui estou a me redimir com um capítulo bem robusto. Boa leitura!!


Medo escorre entre os meus dedos,
eu lambo os dedos
e saboreio o meu próprio medo.

(Medo — Pitty)



— Você tem certeza que está bem?

— Eu estou bem, Mione.

— Mas o Rony disse que você acordou encharcado de suor e gritando.

— Eu não disse nada disso. Essa bruxa leu minha mente, pare de ler minha mente, Hermione.

— Eu estou bem, vocês dois. Não, aqui, vamos sentar desse lado hoje.

À medida que as vozes se aproximaram, o arroz-doce no prato de Anne se tornou visível. Ela não demonstrou surpresa; estava ficando muito boa em não se sobressaltar quando de repente o mundo acendia à sua frente. Viu pelo canto dos seus agora funcionais olhos os contornos, ainda um pouco embaçados, de Harry, Rony e Hermione se sentando do outro lado da mesa, mais ou menos na sua direção.

— Bom dia, Johanne — disse Hermione num tom simpático proposital.

— Bom dia, Hermione — ela sorriu com a boca fechada, sem saber se devia ou não erguer o rosto para a garota. Teria Harry contado aos amigos sobre a peculiaridade da sua visão quando ele estava perto? Se ele não tivesse mencionado e ela olhasse para Hermione seria estranho, se ele tivesse e ela não olhasse… igualmente estranho.

Ah, e por falar em estranho, porque o Sr. Não Se Aproxime de Mim optara por sentar daquele lado da mesa onde ela tinha chegado primeiro?

— ‘Dia, Anne — Rony acenou, indicando uma bandeja que ele puxara para si com energia — Você já provou esses rolinhos de canela? Só perdem para o da minha mãe, e olha que isso é muita coisa, mamãe praticamente inventou rolinhos de canela.

— Vou provar, obrigada pela sugestão — prometeu, decidindo por fim erguer o rosto; se eles não soubessem ainda que ela via quando Harry estava presente, iam descobrir de uma forma ou outra.

No entanto não foi para o caçula Weasley, mas para o seu amigo, que ela olhou através dos seus óculos escuros. O garoto de cabelos desgrenhados e olhos impressionantes lhe encarou de volta. As cores eram mais vivas em torno dele do que em qualquer outro ponto; suas vestes escolares distintamente negras, o contraste afiado de vermelho e dourado das listras de sua gravata, e de novo, o verde-esmeralda, tudo retornava ao verde esmeralda inquietante daquele par de íris. Impossível não notar que Harry tinha olheiras marcadas sob os olhos, não parecia ter dormido o suficiente durante a noite.

— Deve ser mais fácil tomar seu café da manhã quando você de fato pode vê-lo — foi o que Harry lhe disse à guisa de bom dia. Era difícil saber pelo seu tom, mas ela teve a impressão de que ele estava tentando ser engraçado.

— Eu tenho me virando sem ver meu café da manhã há dois anos — comunicou, seca. Ele que não achasse que era o salvador do universo porque estava lhe proporcionando um vislumbre do seu arroz doce. Não depois daquela discussão na noite em que tinham chegado à Hogwarts.

Harry apertou levemente seus lábios, mas engoliu o que quer que fosse dizer e capturou um rolinho de canela que Rony lhe poupara. Hermione lançou um olhar meio frustrado na direção dele, depois na de Rony, que deu de ombros. Anne, que estava com a cabeça baixa fingindo concentração ao se servir mais uma porção de arroz-doce, se perguntou o que estaria acontecendo entre aqueles três e toda a comunicação silenciosa. Ser capaz de ver os olhares que as pessoas trocavam fazia uma falta e tanto, mas dois anos sem vê-los a deixara um pouco enferrujada em sua interpretação.

— E a sua, hum, adaptação na Grifinória, como vai indo? — Hermione claramente procurava um motivo para interromper o silêncio. Ela devia ser a embaixadora das boas relações naquele trio.

— Ainda me sinto uma estranha que invadiu a casa de alguém sem ser convidada — confessou, olhando de relance para Harry, que adoçava um copo de suco de mirtilo — Imagino que demore um tempo para acostumar.

— Você não está invadindo lugar nenhum, tem tanto direito de estar aqui quanto nós. Sabe, aposto que o Chapéu teve um bom motivo para fazer essa mudança! Quem sabe você não adquiriu algumas características mais próximas da Grifinória nesse tempo em que ficou fora da escola?

— Eu não acho que seja o caso, contínuo tão corv… continuo como sempre fui — quase tinha dito “tão corvinal como sempre fui”, mas receou soar rude. Ela gostaria de ter um manual de etiqueta para quando se é compulsoriamente mudada para outra casa de Hogwarts. Aparentemente Hermione estava seguindo a sua linha de pensamento, porque a próxima coisa que disse foi:

— Podíamos fazer uma pesquisa na biblioteca para descobrir se isso já aconteceu com outros estudantes, talvez haja alguma explicação ou padrão para mudanças de casa em estudantes que saíram e depois de um tempo retornaram à escola. Não me lembro de ter visto nada a respeito em Hogwarts, uma História, mas há uma seção inteira da biblioteca direcionada a paradigmas e particularidades da educação mágica Britânica.

— E lá vai ela… — Rony suspirou dramático, rolando os olhos para Anne — Não dê ouvidos para a Madame Todas-As-Respostas-Estão-Na-Biblioteca aqui, você a encoraja uma vez e quando vê está passando todos os seus feriados e horas vagas procurando verbete para algum mistério insondável da vida no meio de uma prateleira empoeirada do corretor setenta e sete enquanto a vida passa do lado de fora.

— Na verdade é uma ótima ideia, eu mesma já tinha pensado nisso — Anne considerou. — Eu teria ido ontem a noite, mas demoro horrores para fazer pesquisa sem poder de fato ver os exemplares, então gosto de ir com tempo sobrando.

— Bem, nesse caso talvez o Harry possa ajudar! — Hermione sugeriu prontamente. No segundo de silêncio que se seguiu, Anne sentiu que era uma boa ideia enfiar a própria cabeça na tigela de arroz.

— É, porque eu sou assim tão bom em pesquisa — Harry zombou enfim, bebendo um gole do seu suco.

— Você entendeu o que eu quis dizer – Hermione olhou atravessado pra ele.

— Pessoal — Anne chamou, antes que a coisa toda ficasse ainda mais constrangedora. Como imaginara, eles, ou pelo menos Hermione, já sabia da coisa toda —, não vamos fazer disso maior do que é. Então, eu consigo ver quando Harry está por perto. Aposto que todo o tipo de coisa estranha acontece ao redor dele o tempo todo, essa é só mais uma. Não é por isso que ele precisa desviar o caminho dele nem nada, eu tenho me virado bem, como eu já disse antes.

— Na verdade – Hermione começou, mas Anne já estava deslizando para fora do banco.

— Tenham um bom dia. Vou dar uma olhada na biblioteca antes da minha primeira aula. Sozinha — enfatizou, olhando brevemente para Harry que, ela notou, estava com a boca ligeiramente aberta. — Tchau. Tchau, Rony.

— ‘Au — acenou Rony, que estava com a boca cheia de panqueca.

Eles assistiram Johanne se afastar da mesa em direção à saída, seu cabelo negro denso ondulando às costas. À uma certa distância, ela puxou a varinha e a transformou numa bengala com a qual começou a tatear o caminho à sua frente.

— Ah, não. Sinceramente, vocês! — Hermione resmungou, olhando feio para eles. Ela não sabia bem qual a parte de culpa de Rony na coisa toda, mas estava irritada com o garoto também. Será que não dava para ele parar de mastigar nem se o mundo estivesse acabando?

— “Na verdade” o quê? — quis saber Harry, ignorando a coisa inquieta que ele sentia sacudir dentro do peito ao assisti-la ir embora — O que é que você ia dizer pra ela?

— Que não é porque coisas estranhas acontecem ao seu redor o tempo todo que a gente ficou insensível ao fato. Quer dizer, se a gente puder ajudar a descobrir…

Deixa pra lá, Mione — Rony deu tapinhas no ombro dela. — Apenas deixa pra lá.

— Ah, olha, o correio-coruja! — comemorou Harry, feliz com oportunidade de alguma distração no seu café da manhã. Só por um momento ele esqueceu que corujas traziam o jornal e o jornal trazia as notícias. Notícias do tipo ruim, ultimamente, como comprovou quando pôde ler a manchete menor na segunda página por baixo do braço de Hermione.

— Ah, não — a voz dela tremeu.

Harry logo encontrou o foco de interesse: “Estudante de Hogwarts Oficialmente Desaparecido”. Abaixo disso estava uma foto sorridente de Dino Thomas, tirada provavelmente em algum ponto das férias, porque havia um sol branco brilhando forte acima da sua cabeça e ele usava camiseta sem mangas.

A mãe de Dino Thomas suspeitou do seu desaparecimento depois que colegas do garoto escreveram para a sua casa questionando porque Dino não chegara à escola… tudo indica que Thomas nunca embarcou no Expresso de Hogwarts… a família suspeita de sequestro… qualquer notícia deve ser enviada por correio-coruja para o DELM… isso é horrível, ah não, ah não — Hermione lamentou, fazendo o coro aos pensamentos de Harry.

— Pra que iriam querer sequestrá-lo? — Rony puxou o jornal para ler também — Que interesse eles teriam em Dino?

— Eu não sei, Dino é nascido-trouxa, não é — disse Harry com amargura, imaginando pelo que o colega estaria passando se aquilo fosse mesmo verdade. Já estaria nas mãos dos comensais há mais de um dia, se ainda estivesse vivo, se fosse mesmo um sequestro…

— … Cho, espera! — alguém gritou na mesa da Corvinal, seguido de um barulho de estilhaço agudo. Cho Chang se levantara tão bruscamente do banco que esbarrara na sua xícara, a lançando para longe e em pedaços. Sua amiga tentou alcançá-la, mas a garota de olhos puxados correu para fora do salão como um raio, uma mão cobrindo a boca. Quando ela passou perto da mesa da Grifinória, Harry viu o rosto dela brilhante de lágrimas. Os comentários a acompanharam; o volume de vozes do salão ia se alterando e se tornando mais urgente à medida que mais e mais pessoas encontravam a notícia sobre Dino em seus exemplares.

— Que azar, não é — Rony comentou, olhando para onde Cho tinha ido. — Primeiro Cedrico e agora isso…

Rony — Hermione o chamou com aspereza. O ruivo se virou e olhou para ela com acumulada irritação.

— O que foi? Ela não tem sorte, era o que eu ia dizer! — então ele virou para Harry, que ainda olhava para onde Cho sumira — Caramba, será que devíamos fazer alguma coisa? Por Dino, digo. Se ele está mesmo em apuros…

— Alguma coisa tipo o quê? Ir atrás dele? — Harry cogitou, relendo a notícia. A única informação concreta que sabiam é que Dino não tinha pego o trem para Hogwarts e não voltara para casa.

— É, porque isso deu tão certo da última vez — disse Hermione, logo em seguida lançando um olhar para Harry cheio de culpa — Desculpe Harry, não foi o que eu quis… bem, é só que resgatar Almofadinhas não foi exatamente…

— Tudo bem, Mione — Harry a acalmou — Ele voltou, lembra?

— Que coisa mais insensível de se dizer, no entanto, Hermione — Rony aproveitou a chance, fazendo-se de muito sério e desaprovador. Ele só suavizou a expressão quando viu que os olhos dela estavam marejados — Hey, eu estou brincando!

— Eu não estou– isso não é por sua causa! — exclamou ela, a voz embargada. — É só que é Dino, ele entrou no nosso ano! Era nosso amigo! Todos esses anos bem aqui conosco, e agora…

— Ele não está morto, Mione — Harry disse com firmeza, querendo acreditar que era verdade.

— Eu odeio isso. Essa sensação de impotência, essa, essa… inutilidade! – desabafou ela, empurrando o jornal para longe. — Nós precisamos fazer alguma coisa, eu não quero ficar parada vendo isso acontecer todo dia no jornal.

— Eu também não quero — Harry concordou. Rony assentiu. Mas não parecia haver muito que qualquer um dos três pudessem fazer a respeito naquele momento sem arriscar o mesmo destino que Dino Thomas poderia ter tido, se as suspeitas eram verdadeiras.

— BD –

Havia uma razão pela qual Andrômeda Tonks era estritamente contrária à convivência entre bruxos e dragões, qualquer que fosse a circunstância. Acidentes aconteciam sempre, enquanto que uma plena recuperação, raramente. Naquele momento, enquanto esperava que uma nova e mais forte poção para dor fizesse efeito em Gina Weasley, ela desejou que todas aquelas absurdas reservas de dragão parassem de aceitar estudantes para as férias, como se expor crianças àquelas criaturas letais fosse algum tipo de brincadeira.

— E então, querida? Como se sente?

Gina Weasley apertou os lábios brancos, lidando com o gosto pegajoso que Andrômeda sabia que a poção deixava grudado sobre a língua.

— Um pouco… um pouco melhor.

— De verdade? Não ajuda em nada se fingir de forte, só torna as coisas mais difíceis para você mesma.

A garota ruiva, agora muito mais magra do que quando dera entrada no hospital, lhe ofereceu um sorriso fraco e desanimado. Ao invés de beber o resto da poção, colocou o frasco na bandeja sobre o criado mudo e voltou a recostar na cabeceira da cama, num movimento devagar e calculado.

— Não ligo mais para a dor, meio que já me acostumei. Só quero saber quando vou poder sair daqui com a sua permissão. Não quero ter que pular essa janela, mas eu vou, se tiver que ficar internada por outro mês inteiro.

Andrômeda deu um sorriso triste para uma ameaça tão rebelde vinda de alguém tão frágil. Ela duvidava que Gina Weasley conseguiria suceder em seus planos com aquela ferida mágica em seu peito, que insistia em não cicatrizar apesar de todas as tentativas da equipe de curandeiros e medibruxos daquela ala. Ela era o caso que mais lhe preocupava atualmente, tanto que, apesar de não ser parte da sua ala, que era danos causados por criaturas, ela resolvera acompanhá-lo pessoalmente.

— Eu quero fazer uma nova tentativa — disse Andrômeda, querendo transmitir à paciente a segurança de que daquela vez ia dar certo — Andei pensando em como os próprios dragões se curam de ferimentos, talvez possamos usar algo semelhante e ver como o seu corpo reage.

— Saliva de dragão — Gina lembrou. Aprendera um bocado da reserva de dragões, pelo menos no tempo em que não tinha se enfiado na floresta atrás de um deles ao invés de continuar as palestras institucionais no acampamento da reserva.

— Isso — a medibruxa confirmou, esperançosa — Não encontrei registros de ter sido usado antes na cicatrização de feridas humanas, mas essa não é uma ferida comum. Há evidência de que danos causados por certas criaturas mágicas só reagem a materiais retirados das próprias criaturas. A questão é que raramente um humano que é atacado por um dragão, como você foi, sobrevive tempo o bastante para ser cicatrizado. O que acha? Vamos fazer a tentativa?

— A senhora é persistente, Dra. Tonks, preciso reconhecer isso — Gina sorriu, apesar de ter feito uma careta diante da palavra “atacado” — Quanto tempo até a baba de dragão chegar? Podemos pedir a Carlinhos para trazer direto da reserva, sem passar por toda burocracia do correio-coruja e do Ministério.

— Já fiz o pedido, vamos ter que ficar com a burocracia nesse caso — ela riu, achando graça da sugestão muito “prática” da garota— Um pouco mais de paciência? Estou realmente confiante dessa vez.

— Se você está confiante — Gina deu de ombros. O movimento pinçou o rasgo em seu ombro esquerdo, ao que ela fez outra careta, dessa vez de dor — Droga. Fale para eles se apressarem.

— Eles sabem que é uma urgência. Ah, não esqueça de terminar a sua poção, Gina. Vai lhe ajudar a conseguir um pouco de sono.

A jovem ruiva assentiu, mas não fez movimento para alcançar o frasco. Naquele momento alguém bateu no vidro grosso que separava a ala do corretor principal, visível através da cortina aberta da baía de Gina. Andrômeda conseguiu divisar o contorno e a expressão impaciente de sua sobrinha. Não fazia ideia do que Bervely poderia querer com ela tão cedo, mas não era surpresa a sua presença ali no hospital, ela visitava Sirius todos os dias no primeiro horário.

— Preciso ir. Você precisa de mais alguma coisa? Trouxeram para você aqueles livros de quadribol da nossa biblioteca?— perguntou para sua paciente adolescente, que assentiu, indicando uma pequena pilha de livros do lado de seu travesseiro. De dentro de um deles, ela puxou um envelope fechado.

— Pode enviar isso à Hogwarts? Eu pediria à um dos curandeiros, mas não quero chamar atenção para o destinatário, nunca se sabe.

Andrômeda entendeu ao ver as palavras “Para Harry Potter” escritas no fundo do envelope.

— Vou garantir que chegue até ele discretamente.

— Obrigada — Gina lhe deu o sorriso mais verdadeiro daquela conversa.

Bervely as interrompeu com mais batidas impacientes no vidro. Andrômeda suspirou, recolhendo seus apetrechos de exame e os colocando de volta na maletinha.

— Tenha um bom dia, Gina. Sinalize à nossa equipe se precisar de alguma coisa, e é claro, sua mãe vai chegar aqui para lhe ver em um minuto, eu a vi esperando na recepção.

Ela saiu depois do breve e ligeiramente consternado rolar de olhos da garota. Não passava um dia sem que a Sra. Weasley fosse ao hospital ver a sua garotinha.

Quando chegou do lado de fora da ala, percebeu que Bervely parecia não só inquieta quanto um tanto pálida. Suas roupas não estavam perfeitamente alinhadas como de costume e havia um corte em sua bochecha que ela devia ter tentado encobrir com metamorfomagia, mas que Andrômeda, tendo uma longa experiência com uma criança metamorfomaga muito propensa a acidentes e ferimentos, aprendera a identificar.

— O que você tem? O que aconteceu com seu rosto?

— Quê? Nada — ela cobriu o ponto machucado com a mão, olhando a esmo na direção de que a tia viera — Aquela é Gina Weasley? Como ela está?

— Não está piorando, é tudo que posso dizer no momento. Mas não desvie do assunto, por que você parece que viu um poltergeist? Sirius me disse que você saiu de um jeito meio intempestivo daqui ontem, mas quando cheguei em casa você já estava dormindo e hoje quando acordei, você já tinha saído.

— Não vi nenhum poltergeist — ela disse inquieta — Podemos conversar em sua sala? Eu tenho algumas perguntas.

— Claro — Andrômeda assentiu, preocupada com o estado da sobrinha, sabendo bem que uma Bervely agitada costumava preceder acontecimentos preocupantes ou, no mínimo, decisões impensadas — Eu estou bem no meio da minha ronda matinal, mas posso tirar alguns minutos.

Bervely não parava de olhar para um lado e outro enquanto atravessavam o corredor até sua sala; Andrômeda não sabia dizer se ela estava procurando alguém ou temendo ser vista por alguém. Sua experiência lhe dizia que era inútil confrontá-la; Bervely só lhe diria o que quisesse, quando quisesse.

— Seja honesta comigo — sua sobrinha pediu tão logo Andrômeda fechou a porta da sua sala atrás de si. — O quão ruim é?

— Gina Weasley? — estranhou — Tenho razões para acreditar que estamos avançando–

— Não! Não Weasley, — Bervely balançou a mão, impaciente — Sirius!

— Sirius está bem. Recuperou-se da mal-nutrição e finalmente aquela queimadura em sua mão cicatrizou. Eu passei no quarto dele hoje mais cedo, estava tudo bem.

— Mas você continua mantendo ele internado na ala de cuidados intensivos como se nada tivesse mudado — ela disse séria, procurando os olhos da tia — Como se ele pudesse ter uma daquelas coisas no coração de novo a qualquer momento.

— Porque ele pode. Se ele for submetido à algum estresse extremo, é possível que o coração dele falhe novamente e uma nova parada cardíaca aconteça.

— Então porque você não conserta isso de uma vez? — ela exclamou, impaciente. Andrômeda, que achava que havia mais por trás daquela súbita e urgente preocupação dela com Sirius, usou seu melhor olhar investigativo sobre Bervely.

— O que está acontecendo?

Ao invés de responder, Bervely sacudiu a cabeça, jogou a bolsa no chão perto da cadeira e puxou-a, sentando-se. Reunindo paciência extra que guardava especialmente para momentos com a sobrinha, Andrômeda deu a volta na mesa e sentou na própria cadeira, sem conseguir evitar a sensação de dejà vu. Tudo indicava que essa era uma das conversas nas quais Bervely sairia resmungando impropérios porque não tinha ouvido as respostas que queria.

A medibruxa respirou fundo; parecia o momento certo para ter aquela conversa, se é que havia um.

— Bervely, você sabe como cada varinha tem o cerne de animal mágico em seu interior?

A garota ergueu a sobrancelha com vago interesse. Andrômeda prosseguiu, agora que tinha sua atenção.

— Você provavelmente aprendeu na escola para que eles servem. Cernes são como filtros de energia mágica, permitindo que uma varinha efetue um feitiço na intensidade, frequência e forma desejadas. Filtros de varinha podem se desgastar, embora isso costume levar mais tempo para acontecer do que a duração média da vida de um bruxo. Um bruxo que não usa magia para mais do que feitiços diários dificilmente percebe o desgaste do cerne de sua varinha até já estar bem idoso. Algumas varinhas pouco usadas podem até mesmo ser passadas adiante. Como a sua, que a sua mãe usou por apenas cinco anos antes de substituí-la, e Narcissa guardou para lhe dar quando você fizesse onze anos.

— Eu não vim aqui para uma aula de varinha, Andrômeda. — ela disse, cruzando os braços e deixando as pálpebras pesarem. A medibruxa pensou ter visto vergões vermelhos nos pulsos da sobrinha, mas quando ela piscou eles sumiram como se nunca estivessem lá.

— Sim, mas escute, pois eu estou respondendo o que me perguntou. Há uma razão para bruxos usarem varinhas. Sem elas, a maioria é incapaz de modular a magia que produz, o que pode ser algo perigoso de se ter por ai. Mas pouca gente sabe que bruxos, como toda criatura mágica, também possuem um cerne, um filtro de magia dentro de si. Anatomicamente, para a grande maioria dos bruxos, esse cerne é o coração. As fibras musculares do coração, para ser mais específica.

Ela agora tinha a completa atenção de Bervely. Sua testa franzida e expressão geral de alarme denotavam que ela sabia onde Andrômeda estava querendo chegar com toda a explicação, mas a medibruxa prosseguiu mesmo assim:

— Quando Sirius caiu através do véu, ele deixou para trás a varinha que estava usando. Ele precisou usar quantidades extraordinárias de magia no período que ficou naquele lugar. Talvez toda essa magia tenha sido involuntária, necessária para mantê-lo vivo num ambiente hostil, eu não sei. De toda forma, isso causou um extremo desgaste em seu cerne mágico.

— Mas como… como se recupera um cerne mágico? — Bervely perguntou, a voz incerta, com evidente medo da resposta.

— Não se recupera. Quando os cernes de varinhas se desgastam, elas param de funcionar. Quando o cerne de uma criatura mágica se desgasta até o fim…

— Ela morre — Bervely completou, horrorizada. O tom pálido já presente em seu rosto se tornou ainda mais exangue — Nesse caso, ele não deveria parar de usar magia imediatamente?

Mesmo sugerir aquilo lhe dava um prenuncio de náuseas. Um Black puro sangue obrigado a renunciar à magia para não morrer? O que isso faria à Sirius, o que isso o tornaria?

— Agora você vê o problema. Eu quero ver qualquer um tentar convencer Sirius Black a não usar magia em tempos como esse — Andrômeda apertou seus lábios. vinha lidando com aquele impasse há um tempo e não lhe encontrara solução possível — Eu tenho usado todo tipo de desculpa para não fazer a requisição de uma nova varinha, embora ele me peça isso há semanas.

— Mas ele sabe da coisa toda? Ele sabe que não pode usar magia?

— É claro que sabe, eu disse a ele assim que entendi o que estava acontecendo. Não é tão extremo sabe, eu penso que magias domésticas e simples não apresentam grande perigo. Mas uma vez fora do hospital, e se ele decidir voltar à Ordem da Fênix, vai precisar de muito mais do que magia cotidiana.

— Não! Você não pode dar alta pra ele agora! — ela exclamou num tom agudo, seus olhos se arregalando diante do risco.

— Eu não quero — Andrômeda lhe garantiu, assentindo rápido — Acredite, eu poderia ter dado alta há Sirius há um bom tempo. Não há nada que possamos fazer sobre o coração dele, a não ser recomendar algumas poções calmantes, e ele poderia ter se recuperado da queimadura em casa. Mas eu sei que aqui ele está mais seguro do que em qualquer outro lugar, principalmente enquanto acham que ele é Toquinho Boardman. Mas com Sirius do lado de fora, não acho que o Ministério vá demorar a descobrir que ele está vivo. Não dá pra dizer que Sirius é o rei da discrição… — Andrômeda apertou as pálpebras, o assunto lhe dando uma palpitação no fundo dos olhos. Recebia queixas diárias a respeito de perturbações no corredor da ala de tratamento intensivo, porque Toquinho insistia em receber os fãs e distribuir autógrafos. Ela entendia que Sirius estava terrivelmente entediado e tentava contornar a situação, mas estava difícil manter os jornalistas longe do hospital a medida que os boatos se espalhavam.

— Andrômeda, você não pode dar alta a ele agora. Você tem que me prometer! Prometa que só vai deixá-lo sair do hospital quando as coisas se acalmarem.

— As coisas talvez demorem muito para se acalmar, se estamos mesmo na irrupção de uma nova guerra. Eu jamais conseguiria mantê-lo aqui por todo esse tempo, mesmo se ele fosse colaborar, o que sabemos que não vai acontecer. Não há muito que eu possa fazer, entende. Vamos ter que contar com o bom senso de Sirius para não ir além de seus limites, e no mais, ficar de olho nele.

Bervely fez um ruído de desesperada incredulidade pelo nariz, balançando a cabeça. Algo a inquietava, trouxera um senso de urgência que não estava ali no dia anterior. Andrômeda estava formulando a melhor maneira de insistir no assunto sem espantá-la dali quando a sobrinha lhe interrompeu os pensamentos.

— Tenho algo mais a lhe perguntar — Bervely tirou algo do bolso e colocou sobre a mesa. Andrômeda reconheceu a delicada maçaneta de madeira talhada em formato de rosa que ela não via há quase vinte anos. A visão do objeto lhe causou uma imediata alfinetada de alarme e perigo.

— Mas quem é que foi que lhe deu isso?

— Eu achei — disse Bervely prontamente — no chalé, escondido no sótão.

— No chalé? Tem certeza? Ninguém enviou isso para você ou… ou lhe deu pessoalmente? — perguntou, desejando fervorosamente que estivesse errada. Bervely negou.

— Eu achei por acaso, fazendo uma faxina no meu quarto ontem à noite. Pensei que pudesse ter pertencido a Bellatrix, já que ela tinha essa obsessão estranha por rosas.

Andrômeda pegou e admirou a peça por um momento, sentindo sob os dedos a textura macia do olmo em que seu marido talhara o presente há vinte anos. Procurara por diversas vezes o objeto no chalé, depois que Bellatrix fugira de casa deixando a bebê de quatro dias para trás, mas nunca o achara.

— Você está certa, pertencia. Ted fez isso para ela levar quando fosse embora da nossa casa, depois do seu nascimento. Para que quando ela fosse embora, continuasse tendo acesso à uma estufa que ficava no fundo do chalé, atrás do pomar. Bellatrix passou a maior parte da gravidez enfiada naquela estufa, coberta de terra, cavando buracos e fazendo coisas lindas crescerem. Por mais controverso que pareça, ela sempre foi excepcional com plantas.

— Uau. Isso não deve ter parecido tão boa ideia depois que ela virou comensal da morte — Bervely comentou com zombaria. — E se ela usasse a estufa para chegar até vocês?

— Nós pensamos nisso na época da primeira guerra e avisamos aos aurores. Eles selaram toda a área ao redor de onde a estufa costumava ficar, a deixando inacessível. Então mesmo se Bellatrix tentasse reverter a magia que levava a estufa até ela, de modo que retornasse ao nosso terreno, quando ela tentasse ultrapassar o selamento mágico nós saberíamos. Mas se você diz que achou isso no sótão… — comentou a medibruxa, pensativa — significa que ela nunca levou a maçaneta, no fim das contas. Não precisávamos ter nos preocupado tanto.

— É — Bervely assentiu, pegando a rosa de madeira de volta. — E como funciona?

— Não deve mais funcionar, esses feitiços se desgastam quando não são utilizados. Além do mais não dá pra saber como a estufa está agora, selada há vinte anos, todo tipo de erva daninha perigosa pode ter tomado espaço. Eu não arriscaria.

Pareceu que Bervely ia falar mais alguma coisa, então ela desistiu, enfiando a rosa de madeira de volta no bolso do casaco. Andrômeda sabia por experiência que a cabeça dela deveria estar uma confusão com toda a informação que recebera sobre a situação real de Sirius e estava prestes a pedir que ela não fizesse nada impensado, quando Bervely ficou de pé.

— Preciso ver Sirius antes que acabe o horário de visitas.

— Você tem tempo de sobra.

— Nunca parece tempo o bastante — e com esse comentário enigmático, ela saiu pela porta sem se despedir. Andrômeda encarou com preocupação a retirada, percebendo que deixara-se distrair completamente sobre porquê Bervely tinha uma corte em sua bochecha que não estava lá na noite passada.

— BD —

Harry ficou surpreso ao saber que Adivinhação Avançada aconteceria nas masmorras, que ele se acostumara a associar ao abuso e sofrimento constante das aulas de poções com Snape.

Como nem Hermione nem Rony abraçaram a ideia de pegar a disciplina com ele, o garoto desceu sozinho no segundo horário, tentando achar a sala certa nos corredores labirínticos do subsolo do castelo. Ele estava passando por um corredor em particular pelo que parecia ser a terceira vez quando percebeu que alguém vinha em sua direção; não foi difícil reconhecer a silhueta cheinha de Neville.

— Hey, Harry. Você também está procurando a sala de Adivinhação Avançada?

— Sim! Você está pegando essa? — Harry não lembrava de Neville ter sido um entusiasta das aulas de Sibila nos últimos anos.

O garoto assentiu, soturno.

— Só não conte à minha avó, ela acha que adivinhação é bobagem. Mas eu não concordo, acho que do jeito que as coisas vão não vai mal saber o que nos espera mais adiante, não é? Hey, Luna!

A garota acabara de virar o corredor, só que viera olhando para o teto e quase esbarrou neles. Usava um suéter por cima do uniforme com uma grande lua fluorescente estampada sobre o peito, e o cabelo fora preso num rabo de cavalo alto de bagunçado, mas fora isso, Harry achou que ela parecia quase normal aquele dia.

— Harry, Neville! Vocês também estão procurando a sala de Adivinhação Avançada?

Neville confirmou. Harry sentiu um calorzinho de esperança brotar no peito ao saber que teria os dois amigos naquela aula, o que com certeza tornaria a parte da oclumência mais suportável.

— Pelas instruções deveria ser nesse corredor, mas já passei por aqui umas duas vezes e não encontrei porta nenhuma — Harry disse, olhando para a parede de pedra nua intrigado.

— Talvez seja como a Sala Precisa e a gente tenha que passar três vezes pela frente para abrir — Neville sugeriu.

— Talvez a gente tenha que resolver um enigma ou interagir com um quadro? — Luna esticou-se para ver a parede por cima do ombro dele — Ou então, já que é aula de adivinhação, a gente tem que adivinhar alguma coisa?

— Só uma vez eu queria entrar na sala de aula sem precisar fazer uma ginástica mental — Harry suspirou, já conformado em procurar alguma coisa para desvendar pelo corredor. — Já não basta o esforço que a gente precisa fazer durante as aulas…

— Alguém está mordido essa manhã — Luna achou graça — O que foi, Harry, algum giro-giro perturbou seus sonhos durante a noite?

Ele piscou para Luna, sem saber como responder aquela pergunta peculiar, mas no momento um círculo se dissolveu no chão de pedra e deu origem a uma escadaria estreita para baixo. Uma luz azulada era tudo que eles podiam ver no fim dos degraus irregulares.

— Uau, isso foi fácil — Luna saltitou para dentro do buraco, ficando menor à medida que descia as escadas. Neville e Harry trocaram um olhar incerto, então o segundo deu de ombros e seguiu a colega da corvinal. Não seria a primeira vez que ele atravessaria uma entrada suspeita naquela castelo sem saber bem para onde levava; conhecendo seu histórico, também não seria a última.

À medida que desciam, o ar ao redor se tornava mais e mais frio; Harry teve a impressão de que já estavam bem abaixo do lago. A luz azul também se tornava mais intensa e esbranquiçada à medida que se aproximavam do fim da escada; depois de alguns passos, eles também começaram a ouvir vozes em uma conversa agitada. Ao menos uma delas era conhecida.

— Sabe o que teria sido legal da sua parte? Escrever de vez em quando! Perguntar como vão as coisas! Não aparecer de repente em Hogwarts dando uma de professora e assumindo que eu adoraria pegar sua matéria sem nem me perguntar antes!

— Vir para Hogwarts não foi planejado, Anne, foi uma decisão de última hora. Eu realmente acho que você se beneficiaria da matéria, mas se não quiser ficar, eu não vou obrigar você. O que eu não vou permitir é ter você aqui falando comigo nesse tom…

— Você não vai permitir? Você acha que pode reclamar do meu tom depois de sumir do mapa por todo esse tempo?

— Claro que eu posso lhe cobrar o mínimo de modos, não se esqueça que eu ainda sou sua–

— Ouch — Neville tropeçou no último degrau, esticou-se para se apoiar na porta aberta e fez um barulhão quando esta se chocou contra a parede. As vozes lá dentro cessaram; em seguida, Harry ouviu a segunda voz, que não era de Johanne, soar mais próxima e convidativa do que um minuto antes:

— Podem entrar, vão se acomodando — uma bruxa sorridente apareceu sob o portal, emoldurada pela luz azul e leitosa da sala, acenando. — Sou a professora Neveu. Aqui, querido, você se machucou? Como é seu nome?

— Estou bem. N-Neville — o garoto respondeu, se atrapalhando com seu nervosismo diante da professora nova. Harry olhou com curiosidade para dentro da sala, onde ele primeiro avistou Johanne com os braços cruzados e uma postura defensiva. Ela usava os óculos escuros, então era difícil saber se estava lhe olhando.

Depois reparou na sala, que era ampla, circular e sem janelas. Ao invés de cadeiras, estava repleta de enormes almofadas de aparência macia arrumadas em pares num círculo grande. Era forrada de carpete grosso e tinha um cheiro que lhe lembrava chá, mas de nenhuma outra forma remetia à antiga sala de adivinhação da professora Trelawney na torre norte. Sem jogos de porcelana decorados, echarpes coloridos ou patchuli. Ao invés disso, as paredes nuas de pedra eram um descanso para os olhos e a luz azul, que ele não pode identificar de onde vinha, lhe passava uma sensação de relaxamento.

— E você é? — a professora Neveu perguntou a ele, parando ao seu lado.

— Harry Potter — Harry desviou o olhar da sala para ela, que tinha o rosto arredondado e bondoso. Ele notou uma espécie de marca no topo de sua testa, no formato de uma pequena foice ou lua crescente. Era uma tatuagem estranha para se fazer, pensou, ao mesmo tempo que em ela sorria e assentia, passando o olho pela sua cicatriz.

— É claro que você é. Ache um lugar e fique confortável, Harry. Estamos esperando mais umas nove ou dez pessoas, não seremos uma turma grande de toda maneira.

Harry assentiu e foi procurar uma almofada mais perto do fundo da sala, o que o fez passar pelo local onde Johanne continuava parada. Tendo ouvido parte da conversa que ela estava tendo com a professora Neveu, ele não se surpreendeu ao perceber que a garota parecia tensa e irritada.

— Tudo bem? — ele perguntou baixo, dividido entre não querer se intrometer mais ainda e em seguir os conselhos de Hermione.

— Estou bem, Harry, não precisa se incomodar — foi a resposta seca que recebeu em troca. Mas no segundo seguinte Anne fechou os olhos e suspirou resignada — Desculpe. Isso não tem nada a ver com você.

— Tudo bem. Você, hum, vai ficar para a aula?

Anne virou o rosto na direção da professora Neveu, suas narinas ligeiramente infladas. Pelo canto do olho ela viu Luna acenando na sua direção, chamando-a para se sentar na almofada ao lado da sua. Deixou escapar um segundo suspiro.

— Parece que não tenho escolha. Ah, boa sorte.

Ela foi andando na direção de Luna, sem dar a Harry tempo para saber porque ia precisar de sorte. Ele escolheu uma almofada ao lado de Neville, ainda pensando na conversa que tinham entreouvido antes de entrar (Não se esqueça que eu sou sua… o quê?), e assistiu sem interesse os demais colegas irem chegando na sala de aula, falando baixo e se acomodando nas almofadas. Harry conhecia a maioria de vista, alguns deles mais do que isso; Parvati Patil e Lilá Brown estavam lá e lhe deram tchauzinhos antes de escolherem um par de almofadas ao lado de Johanne e Luna. Zacharias Smith acenou com a cabeça para Harry e Neville, desviando o caminho para o outro lado da sala.

A professora cumprimentava cada um deles e se apresentava. Seus olhos pequenos eram azuis claros, cuidadosos com os detalhes; os cabelos loiros estavam trançados atrás da cabeça e a roupa que ela vestia não se parecia com as tradicionais vestes bruxas; um vestido de lã grosso e comprido, marrom escuro, uma faixa da mesma cor atada à cintura. Os braços do vestido eram largos em forma de sino e, quando ela ficou de costas, Harry percebeu que havia um largo capuz. Foi quando ele notou que as pessoas paradas atrás de Hildegard no dia do jantar de seleção usava vestes parecidas. Talvez a professora Neveu fosse uma delas.

— Ah, não brinca que vamos ter que aguentar ele aqui — Neville resmungou, chamando a atenção de Harry para a porta. Draco Malfoy acabara de entrar, e o que era mais estranho, suas duas sombras não estavam lhe acompanhando. Ele olhou feio na direção de Harry e Neville, mas não pareceu nada surpreso de o encontrar ali.

Harry, por outro lado, foi levado por um choque ao reparar Draco de perto pela primeira vez desde que as aulas tinham começado. Com tudo que vinha acontecendo, ele mal se lembrara da existência do garoto quando este não estava sendo desagradável. Era impressão sua ou o garoto ainda não lhe provocara nenhuma vez nos corredores? Longe de ficar feliz com o fato, Harry percebeu que deveria ser um mau sinal. Com certeza Malfoy estava aprontando alguma coisa. Por que de repente ele estava tão interessado em Adivinhação? Harry fez uma nota mental para prestar mais atenção no que Malfoy andava aprontando nos próximos dias. E era sua impressão, ou o sonserino parecia mais pálido do que de costume?

— Ótimo, acho que estamos todos aqui, já podemos começar — a professora Neveu deslizou até um ponto do circulo na frente da sala e ocupou um dos almofadões. Harry achou que ela se movia como Hildegard, movimentos suaves de dança. Ele se lembrou que ela também era de Avalon; será que era uma coisa que todo mundo da ilha fazia?

A professora Neveu fez um aceno para a porta, que se fechou magicamente. Harry reparou que ela não tinha usado varinha.

— Eu não sei como os seus outros professores gostam de começar, mas eu não vou pedir que vocês se apresentem um ao outro. Ao fim deste ano, vocês se conhecerão de forma muito mais profunda do que poderiam através de nomes. A esse ponto, eu devo dizer que essa não é uma classe de adivinhação do jeito tradicional, acredito que nesse quesito vocês já estão muito bem servidos com os dois professores que Hogwarts emprega — ela deu um sorrisinho. Harry perguntou se ela já tinha sido apresentada a Sibila, e se tinha, como podia falar sério sobre estarem bem servidos. E Firenze não era um professor ruim, mas Harry nunca tinha adivinhado nada de verdade nas aulas dele também.

— Nesta aula nós não vamos usar borras de chá, bolas de cristal, linhas do corpo, fios de cabelo, mapas estelares ou qualquer outro artefato ou objeto a fim de ler o futuro. Sequer estaremos preocupados com o futuro nessa aula, num primeiro momento.

Harry pode ver as caras de decepção de Lilá e Parvati do outro lado da sala. Os outros colegas também tinham níveis diferentes de confusão em seus rostos. A única pessoa além dele que parecia saber mais ou menos do que aquela aula se tratava era Johanne, que ao invés de dúvida, demonstrava uma certa dose de irritação na maneira como o seu nariz estava empinado e os lábios pressionados. Harry se pegou perguntando porque ela ficara, se não queria estar ali.

— O único instrumento que vamos precisar nesta aula será as nossa própria mente — explicou a professora Neveu, embora a afirmação só tivesse servido para aumentar a confusão de seus alunos. — De forma que cada um de vocês já tem todo material didático que precisam bem em cima do pescoço.

— E certamente usaremos as nossas varinhas, não? — Zacharias Smith falou, um tanto arrogante para o gosto de Harry. A professora Neveu colocou seus olhos nele com renovado interesse, como se o visse ali pela primeira vez, apesar de que, como aos outros, ela também o cumprimentara ao entrar.

— Não, Sr. Smith. Mas obrigada, o senhor me lembrou algo importante. Toda vez que entrarem nessa aula a partir de agora, quero que deixem as varinhas numa caixa que colocarei do lado de fora, à porta. Varinhas e qualquer outro artefato mágico que estejam carregando consigo. Qualquer um deles podem causar interferência e dificultar os nossos exercícios, algo que queremos evitar — ela se inclinou e pegou atrás de si uma bacia de pedra de uma pilha que Harry não tinha visto antes. Com um aceno espiral de sua mão, a bacia se transformou numa caixa com tampa. A professora Neveu a entregou para Parvati, que era a primeira pessoa à sua direita, e que agora lhe olhava com desconfiança magoada.

— Então nós não vamos usar magia nessa aula? — Draco perguntou com descrença. Por mais que odiasse o garoto, Harry tinha que concordar com a sua resistência; ele também desconfiava de professores que lhe mandavam colocar a sua varinha de lado, especialmente desde as aulas teóricas e inúteis de DCAT com Umbridge no ano anterior.

— É claro que vamos usar magia! — A professora exclamou, sorrindo amplamente, sem se deixar afetar pelo clima de desconforto que provocara com o pedido — Nós somos seres mágicos até o último fio de cabelo, tudo que fazemos envolve magia, até respirar! Há muitos tipos de magia que não envolvem o uso de uma varinha, confiem em mim. Andem, varinhas e artefatos mágicos nas caixas, por favor, agora.

Enquanto a caixa de pedra passava e de um em um eles iam depositando suas varinhas dentro dela, Harry notou que os colegas cochichavam sua inquietude. “Será que o Ministério está sabendo disso? Eu não sabia que aprovavam isso em Hogwarts”, alguém murmurou atrás dele; pelo canto de olho Harry reconheceu um corvinal do sétimo ano com quem jamais trocara uma palavra. Outros colegas também depositaram pequenos objetos; Neville colocou seu velho Lembrol lá dentro, que por alguma razão estava em seu bolso; Parvati tirou uma série de anéis dos dedos, cada um com uma pedra brilhante diferente, e Luna tirou de detrás da orelha uma coisa que parecia o casco brilhante de um caracol. Anne, com os lábios bem apertados, puxou do pescoço a corrente que ela sempre usava e que Harry a vira sem apenas uma vez, naquela noite no Departamento de Mistérios em que eles tinham resgatado Sirius do véu.

— Perfeito. — Sophia recebeu e fechou a caixa quando esta terminou de dar a sua volta pelo círculo. Com um aceno de sua mão, a caixa foi mandada para fora da sala e a porta se fechou novamente. Harry se perguntou se os colegas se sentiam como ele, estranhamente nu sem a sua varinha. — Agora, quero que cada um pegue a sua bacia de pedra e façam a sua marca nela. Vocês usarão a mesma bacia em todas as aulas, então encontrem uma forma de identificá-las.

A série de bacias rasas de pedra empilhadas atrás dela vieram flutuando para o meio da sala, e se esticando, Harry pegou uma para ele. Os colegas fizeram o mesmo, embora o uso para aquele artefato numa aula de adivinhação fosse um mistério. Em suas aulas de oclumência com Snape eles nunca tinham precisado de uma, a não ser se contasse a Penseira que o professor usava para resguardar os pensamentos que não queria que Harry visse por acidente.

— Eu não entendo — Parvati reclamou, olhando zangada para sua própria bacia de pedra — Por que precisamos disso? Não consigo lembrar de nenhum método de adivinhação que envolva bacias de pedra.

— Como eu disse, Srta. Patil, não vamos fazer nada nessa sala que você encontrará no seu livro-texto. Após marcarem suas bacias, quero que as encham de água pura.

— Como vamos fazer qualquer uma dessas coisas? Você tomou nossas varinhas! — Zacharias Smith reclamou, outros colegas lhe fazendo eco.

Harry teve vontade de socá-lo, mesmo que tivesse a mesma dúvida.

— Lembra-se que eu disse que a única coisa de que precisarão nessa aula é aquilo acima do seu pescoço, Sr. Smith? Use-a a professora disse num tom gentil. O garoto abriu e fechou a boca como um peixe estapeado; tendo seu orgulho alfinetado pela bruxa, ele não protestou mais. Harry ficou olhando para os colegas disfarçadamente, vendo se conseguia uma pista do que devia fazer agora. A maioria encarava a bacia como se esperando que uma resposta saísse lá de dentro. Neville, ao seu lado, tirou uma pena do bolso e começou a tentar escrever seu nome da borda — mas tudo que conseguiu foi um borrão de tinta.

Em sua frente, Luna tinha trazido a sua bacia para bem perto do rosto e estava cantando para ela. Johanne virara a sua ao contrário e, usando uma unha, cavava alguma coisa na pedra.

Harry olhou para a sua própria, confuso. O que, e como, ele poderia marcar aquela bacia comum de pedra para jamais confundí-la com qualquer outra? Ele não tinha uma pena, ou unhas, e não achava que cantar ia surtir resultado. Então ele teve uma ideia que num primeiro momento pareceu estúpida, mas que devia dar resultados.

Harry levantou a bacia nas mãos e com um movimento seguro, bateu uma parte da borda contra o chão de pedra. Como intencionara, uma pequena rachadura se abriu na pedra; ela seria única, mesmo se outras pessoas tivessem a mesma ideia. Afinal coisas inteiras eram todas iguais, mas as coisas quebradas se quebravam cada uma a sua maneira.² Percebeu, surpreendido, que a “sua” rachadura lembrava o formato de um raio como o que trazia na testa. Jamais confundiria aquela bacia com nenhuma outra na sala, isso era certo.

— Muito bem, quem já conseguiu marcar a sua bacia, por favor a encha de água. Não até a borda, mais ou menos uma polegada antes disso, não queremos seus pensamentos transbordando pela sala de aula. E se vocês estão com alguma dúvida de onde vão conseguir água, lembrem-se que estamos bem debaixo de um lago, é uma simples questão de transferência. Um feitiço básico aprendido no terceiro ano, tenho certeza que já fizeram um milhão de vezes.

Sim, com varinhas — o mesmo garoto mais velho da corvinal que falara antes resmungou à direita de Harry, um bocado irritado.

Mas não foi tão difícil. Harry se concentrou no espaço que ele tinha que preencher de água e pensou no feitiço Aguamenti, balançando a sua mão do mesmo jeito que ele teria feito com a varinha. Pareceu meio bobo fazer aquilo com as mãos vazias, mas conseguiu molhar o fundo da bacia na quarta tentativa. Na oitava, ele já a tinha completamente preenchida.

Como você fez isso? — perguntou Neville ao seu lado, já com a cara vermelha de tanta concentração. Harry lhe explicou (“Mas isso é o que eu estou fazendo!”), e no fim acabou disfarçadamente despejando um pouco de sua água na bacia de Neville quando a professora não estava olhando.

A professora não parecia com nenhuma pressa, além do mais, Harry percebeu que ela era mais do tipo “aprenda errando” do que do tipo que os encheria de descrições detalhadas e precisas. Demorou um bocado para todo mundo conseguir encher suas bacias; eles já estavam quase na metade do tempo de aula agora.

— Essa água deve ser usada para purificar o seu fluxo de pensamentos. Isso é importante, porque não queremos que eles estejam muito agitados ou fora de lugar na nossa próxima tarefa. A água tem muito poder organizador, muita mágica — acrescentou, enfatizando a palavra e olhando particularmente para Draco, que parecia prestes a rolar os olhos — Se vocês se concentrarem, podem usar esse poder em benefício de si mesmos. Agora, sentem-se e olhem para a água em suas bacias. Se concentrem. Vocês saberão quando tiverem conseguido utilizar o poder de que estou falando.

A professora ignorou os olhares céticos, embora não fosse tão fácil assim deixar passar os guinchos de inquietação de Lilá.

— Algum problema, Srta. Brown? — a professora perguntou com paciência.

— Então é isso, só vamos encarar o fundo de uma bacia a aula inteira? Como isso é adivinhação?

— Se acha que eu acabei de instruir para que olhassem a bacia, você não estava prestando atenção ao que eu disse — a professora Neveu tinha a voz tranquila, mas isso não fazia as suas palavras menos severas — O poder está na água…

Isso é um monte de besteira — a garota disse com revolta, empurrando a bacia para longe, entornando água do lago no carpete. — Bem que a prof… bem que me disseram que essa aula não valia a pena. Não é adivinhação de verdade. A senhora é sequer uma vidente?

— Eu de fato não sou e nunca afirmei que era — a professora disse sem perder a calma. — E quando ao que chamam de “adivinhação de verdade”–

— Deixe-a, Sophia — rosnou Johanne, a última pessoa que Harry esperava intervir em favor da professora naquele momento — Se ela acha que é muito boa para a aula, deixe-a ir embora daqui.

— Eu nunca disse que eu ia –– Lilá arfou, revoltadíssima — Eu só estava dizendo…

— Já chega — a professora interviu — Srta. Brown, você tem o direito de discordar dos meus métodos, mas eu vou mantê-los porque sei exatamente o que estou fazendo nessa sala. Você fica até o fim e vê se serve aos seus propósitos, ou você sai agora sem nunca descobrir. O que vai ser?

Lilá murchou em sua almofada, abraçando as pernas. De repente, a professora Neveu tinha parecido muito maior e mais autoritária do que momentos antes. A impressão tinha vindo e passado num segundo, mas com certeza Lilá percebera, bem como Harry, do outro lado da sala.

— Eu vou ficar. Desculpe a interrupção, professora. Não vai acontecer de novo.

— Se mais alguém estiver insatisfeito com meu método de dar aula, eu dou a mesma sugestão. Os que ficarem compreenderão com a prática coisas que eu não poderia explicar em teoria sem interferir em seu aprendizado. Ficar nesta sala será sempre um exercício de confiança. Não só em relação a mim, mas aos seus colegas. É bom terem isso em mente desde agora. Estamos entendidos? De volta para as suas bacias então.

Harry, que normalmente tinha problemas com professores autoritários, abaixou a cabeça para a bacia com um sorrisinho. Ele não ligava nem um pouco em olhar para a bacia por uma hora inteira, se isso o ajudaria a aprender a fechar a sua mente em algum momento. Ele decidiu que não ia questionar a professora Neveu ou seus métodos mesmo que parecessem estranhos. Qualquer coisa era melhor do que oclumência com Snape em sua sala das masmorras. Qualquer coisa.

— BD —

— Ah, aí está ela. Nunca mais faça isso ou eu juro pelas calças curtas de Merlin que eu corto a sua mesada pelo resto da sua vida — Sirius ameaçou assim que Bervely entrou na sua baia na ala de cuidados intensivos. Ele parecia estar no meio da produção de uma carta quando ela entrara, havia um ponto de tinta preta em sua bochecha. Isso não era incomum, Sirius e tinta não eram a melhor combinação quando ele estava agitado, o que parecia ser caso.

— Você nunca me deu mesada — ela lhe lembrou, vagarosamente andando até a cadeira e largando lá sua bolsa. Quanto mais o seu sangue esfriava, mais o lado esquerdo do seu rosto latejava, e Bervely tinha que ser muito cuidadosa para esconder o inchaço e o corte com a metamorfomagia o tempo inteiro. Uma coisa era Andrômeda ver, outra bem diferente essa Sirius desconfiar que ela estava machucada.

— Então eu vou começar a lhe dar, só para poder tirar de você quando aprontar de novo comigo!

Ela parou e o olhou com atenção. Sirius estava de pé, barbeado, penteado, bem disposto, falante, com uma coloração saudável no rosto. Não parecia haver nenhum motivo para mantê-lo ali mais tempo; mas ele precisava ficar, ela pensou com pesar. Por que talvez ele precisasse de cuidado médico de emergência muito em breve.

— Você parece bem — ela disse a esmo, se desviando do assunto. Era difícil manter uma cara neutra na frente dele, muito difícil. Sentiu que sua voz falhou um pouquinho no ‘bem’ e esperou que ele não percebesse.

Mas é claro que ele percebeu.

— O que foi que aconteceu?

— Nada aconteceu — disse de prontidão. Ele estreitou os olhos cheio de desconfiança, analisando-a de cima a baixo a procura de alguma pista.

— Você saiu daqui ontem como uma louca depois de concluir que foi Charlotte Summers quem tentou sequestrar Harry no verão. Ela está viva, afinal? Conseguiu achá-la– ela confessou?

Não — Bervely respondeu, dizendo para si mesma que não estava mentindo já que pelo menos uma daquelas perguntas tinha “não” como resposta. Correu os olhos pelo quarto, até parar na carta que ele estava fazendo antes de ela entrar. — Para quem você está escrevendo?

— Não mude de assunto — ele disse com seriedade, parando na frente dela e cruzando os braços. A linha de seu maxilar, que ela podia ver porque a barba dele ainda estava bem curta, se tornou dura, e os olhos negros de hematita se cravaram exigentes dentro dos seus.

E ela percebeu, ela ia sentir tanta falta dele. Tão ruim quanto sentira enquanto estava no Instituto Flamel, com a diferença de que não poderiam se falar quase todos os dias pelo espelho de duas-faces. Desde que Sirius entrara em sua vida, a mera possibilidade da ausência dele era pior do que a falta de uma parte do seu corpo.

Sem aviso, seus olhos se inundaram de lágrimas. Bervely puxou ar, irritada consigo mesma. Tanto para não dar bandeira e ela se derretia em lágrimas estúpidas só de olhar pra aquele filho de uma mãe.

Bervely — Sirius chamou, a seriedade dando lugar à preocupação — O que diabos?

Ela desviou o rosto, fazendo de tudo para não derramar nenhuma. Houvera um tempo em sua vida que chorar era a coisa mais difícil, agora ela parecia uma esponja encharcada o tempo todo. Bastava uma pressãozinha e estava vazando como louca.

— Eu conversei com Andrômeda hoje. Sobre você. Seu coração.

— Ah, porcaria. Eu falei a ela pra não lhe dizer nada. — Ele bufou — Não precisa se preocupar com isso.

— Eu não preciso? Eu não preciso, sério mesmo, Black? — sua voz saiu tão aguda que no fim parecia o pio de um agoureiro. Isso, é claro, era só uma das coisas que estava lhe aterrorizando aquele dia. Mas ela não estava prestes a contar a segunda para Sirius, não queria de forma nenhuma assustá-lo sem necessidade, nas atuais circunstâncias.

— Vamos dar um jeito — ele tentou lhe tranquilizar.

Ela deu um sorriso irônico e infeliz. Era o tipo de coisa que os pais falavam para os filhos mesmo, e principalmente, quando sabiam que não havia jeito nenhum a ser dado. Aquelas palavras não passavam de uma poção para tirar momentaneamente a dor de uma ferida mortal. Ao mesmo tempo que ela gostaria que ele não o fizesse, no fundo estava grata de que ele tentasse assegurá-la. E se tratando de Sirius, talvez ele de fato acreditasse que iam dar um jeito. Grifinórios e a eterna e cega fé de que tudo na vida tinha uma solução mágica, se apenas tentassem o suficiente.

— Sério, pare de pensar nisso. Conheço esse olhar em seu rosto. Não gosto dele — ele mandou, incomodado. — Eu não vou morrer de novo, Bervely.

— Você não se atreveria — ela rosnou por entre os dentes. Sirius riu, e ela também, apesar de si mesma. Uma lágrima escorreu por sua bochecha e foi rapidamente enxuta pela manga de sua blusa.

— Anne me escreveu — disse Sirius, agora claramente tentando distraí-la da sua ruminação obscura. — Você não vai acreditar no que aconteceu.

Pelo tom e pelo brilho nos olhos dele, era alguma coisa que ele achava boa. Mas o julgamento de Sirius para boas notícias nem sempre era confiável.

— O que foi que ela aprontou agora?

— Ela foi re-selecionada. Grifinória! Eu tenho uma filha na Grifinória. Ah, eu poderia cantar!

A informação alcançou a mente já muito cheia de Bervely e demorou a fazer sentido. Re-seleção… Grifinória… como assim?

— Impossível. Ela é mais corvinal que a própria Rowena Ravenclaw, ela come mais livros que comida, pelo amor de Merlin!

— Nah, eu sempre achei que com toda aquela impetuosidade e teimosia ela pertencia aos leões. Aquele chapéu velho finalmente encontrou o próprio bom senso! Meu passarinho, uma Grifinória, você vê? Acho que vou escrever uma música. Estou me sentindo inspirado! Será que ela está considerando entrar para o time de quadribol? Ela poderia ser artilheira. Harry poderia treiná-la! Boa ideia, vou mandar uma carta para Harry. Minha nossa, Grifinória, eu sabia!

Bervely ficou observando-o, seu queixo ligeiramente caído, Sirius praticamente quicava falando aquilo tudo. Muito bem, Johanne fora selecionada para a Grifinória, o que era estranho, mas não era realmente um problema. Ela não estava em perigo de vida. Talvez fosse melhor assim, talvez os grifinórios a fizessem se sentir mais em casa do que os Corvinais faziam. E isso faria Sirius feliz, o que era o mais importante. Manter Sirius feliz era a prioridade.

Bervely forçou um sorriso, que foi provavelmente a coisa mais difícil que ela teve que fazer naquele dia. E olha que ela já tinha sido atada pelos pulsos e tornozelos, ameaçada de prisão e levado uma cadeirada na cara e não eram nem onze da manhã.

— Que ótimo — murmurou, as palavras saindo de seus lábios meio estranguladas.

— Eu sabia que você ia odiar, mas quem sabe se você voltar a Hogwarts e experimentar o chapéu mais uma vez ele também não te coloca na Grifinória? — ele sugeriu com um brilho de diversão nos olhos.

— Não seja absurdo. Eu queimaria aquela velharia se ele se atrevesse.

— Não seja muito dura com ela da próxima vez que se falarem. Não seja com ela, Anne não fez de propósito. Pelo menos eu acho que não. Na verdade, eu ouvi dizer que se você pedir, realmente implorar para o Chapéu Seletor para lhe colocar em uma certa casa da sua opção…

— Sirius — Bervely o interrompeu; ela precisava, por mais que lhe doesse interromper seu momento de êxtase pela filha caçula — Tenho uma coisa para lhe dizer.

Ele parou de divagar, suspirou pesado e assentiu. Parecia já saber que havia algo a ser dito, então ela percebeu que ele estivera tentando lhe distrair ao tagarelar sobre a coisa de Anne e Grifinória. Ele estivera, como ela, tentando adiar o momento. A diferença é que Sirius só desconfiava de que ela tinha algo ruim para lhe dizer; Bervely tinha o amargo conhecimento do quão ruim as coisas estavam prestes a ficar.

— Diga logo. Eu não vou começar a morrer nem nada. Eles me deram poção estabilizadora mais cedo, não consigo aumentar meu ritmo cardíaco nem se eu dançar a polca. Sério, eu testei.

Ela balançou a cabeça. Tivera aquela ideia no caminho para o hospital. Não era a melhor, mas ia ter que servir por enquanto.

— Eu decidi voltar para o Instituto Flamel para terminar minha graduação de Alquimia.

— Ah — ele assentiu, devagar. — É claro. Claro que você tem que voltar. É. Faz sentido.

Bervely cerrou os olhos por um momento, despreparada para a decepção que ele estava tentando ocultar em sua expressão e em sua voz sem muito sucesso.

— Eu sei que eu prometi que não ia para lugar nenhum enquanto você estivesse no hospital, mas–

— Não — ele disse rápido, recuando um passo. Recuando. — Tudo bem, você tem que fazer o que é melhor para você. Além disso eu já estou bem. Andrômeda vai me dar alta a qualquer momento agora, já conversamos sobre isso. Você pode ir… vá sem peso na consciência, eu vou ficar bem. Ótimo. Comportado e tudo. Remus até comprou uma coleira nova pra mim, ele está decidido a me colocar na linha.

Ela sorriu, apesar do pânico daquela conversa pulsando na base da garganta. Odiava desapontá-lo. Odiava fazê-lo pensar que ela preferia estar em qualquer outro lugar que não fosse ali com ele, mesmo que isso envolvesse passar a maior parte do seu tempo no hospital, um dos seus lugares menos favoritos desde a sua traumática estadia ali na adolescência.

— Apenas vá e termine logo com isso — ele disse com um gesto exagerado de impaciência. — Quanto tempo falta, mais um ano? E depois vamos ter uma Alquimista na família?

— Sim, só mais um ano — disse ela com a voz fraca.

— Isso é quase tão bom quanto ter mais uma grifinória — Sirius brincou. Se bem que o conhecendo, talvez não fosse tão brincadeira assim.

— Tome conta de si mesmo quando eu não estiver aqui — Bervely pediu por entre os dentes, esperando que uma vez na vida aquele cão teimoso e cabeça-dura lhe ouvisse — Não faça nada estúpido.

— Bem, garota, eu lhe digo o mesmo. Aliás, acho que esse poderia ser o novo lema da família, o que acha? “Não faça nada estúpido”. Vou pesquisar como fica em latim.

— Acho ótima ideia.

Principalmente considerando o fato de que ela estava prestes a fazer a coisa mais estúpida de todas.

(Continua…)

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Notas finais
¹Nolite Facere Quicquam Stultius: latim para “não faça nada estúpido”. ²Epifania de Harry inspirada na frase de abertura de Leon Tolstoi em Anna Karenina: “Todas as famílias felizes são parecidas; as infelizes são infelizes cada uma a sua maneira”. Será que Bevy vai seguir o novo lema da família Black? E o que será que o Harry vai descobrir nessa aula de Adivinhação Avançada? Cenas para o próximo capítulo! E amanhã (domingo, 30/04/17) teremos o sorteio do Funko da Bella, ainda dá tempo de concorrer! Regulamentos no grupo do face. Te vejo nos comentários! ;*