A Canção de Morgana

44 Delações e Descarrilhamentos


Notas iniciais
Acabei dividindo o cap em dois, pra não jogar 20K assim na cara de vcs (e tbm não tinha condição de revisar tudo de vez, o bicho tá pegando). O próximo sai logo! Boa Leitura

— Sinto muito, mas não acho que a gente deva fazer isso. Eu andei pensando melhor e parece muito irresponsável da nossa parte.

Harry olhou de volta para ela, a boca meio aberta, surpresa e indignação misturando-se em seu rosto de Dino Thomas. Ele olhou para um lado e outro do corredor, assegurando-se de que não estavam sendo observados, antes de se inclinar mais sobre a mesa da biblioteca em que Anne estava e abaixar a voz para um sussurro chateado:

— Eu pensei que você também estava querendo passar um tempo juntos, fora do armário.

— E eu estou — Anne concordou, pressionando os lábios. — É só que… bem, os boatos são de Dino está saindo com Gina, não são?

O rosto dele se torceu em surpresa, depois confusão, seguido de indignação pungente:

— Você não pode estar acreditando nisso.

Anne desviou o olhar para a janela ao seu lado, respirando fundo, e depois de volta para ele.

— Não. Bem… vocês têm passado bastante tempo juntos ultimamente, não tem?

— Temos, por causa do quadribol. Gina tem me ajudado com o meu lançamento e eu tenho dado a ela umas dicas sobre capturar o pomo, em retorno. Não que ela precise, ela é uma ótima… — ele viu a expressão no rosto de Anne se agravar, e abortou o comentário, o rosto quente. — Olhe, Gina e eu somos só amigos.

— Eu sei disso — Anne deixou a pena na mesa e ergueu as mãos para o rosto, esfregando os olhos com impaciência. O gesto confirmou a impressão que Harry tivera ao avistá-la, de que ela parecia cansada. — Eu sei, desculpe. Eu só estou… tem sido uma longa semana.

— Falar em longa semana, você não tem aparecido em meus sonhos, já faz um tempo — ele comentou, esperando que não soasse muito carente.

— É — ela mordeu o lábio, abaixando os olhos para a pilha de livros em sua frente. — Tenho estudado até tarde, acabo dormindo um sono pesado depois. Os N.O.M.s estão se aproximando em velocidade alarmante.

— Os N.O.M.s só serão em três meses, Anne — ele disse, rolando os olhos. E depois, mais baixo, quase que implorando. — Anne, anda. Tem alguma coisa errada? Alguma coisa que você não está me contando?

Anne ergueu os olhos para ele, a pergunta lhe pegando de guarda baixa. Ela abriu a boca para responder que estava tudo bem, de onde ele tinha tirado aquela ideia?, mas viu algo por sobre o seu ombro e seus olhos se alargaram com alarme.

— Colin está vindo para cá, combinamos de estudar durante o horário vago. Escute… ainda podemos nos encontrar na festa. Podemos passar algum tempo lá, mas sem chegar juntos e esfregar na cara de todo mundo que estamos… você sabe.

Não, Harry não sabia. Ele não achava que sabia de mais nada, só que havia algo que Anne não estava lhe dizendo. Ela abriu um livro de sua pilha e começou a correr o dedo pelo sumário, e Harry soube que aquela conversa estava acabada. Ele se ajeitou, chateado.

— Eu sinto sua falta, Anne.

Os ombros dela se tencionaram sob o uniforme e Anne mordeu o lábio inferior, assentindo para o seu livro empoeirado.

— Eu também sinto a sua. Isso não muda o fato de que temos que fazer o melhor para o seu disfarce, até Dumbledore voltar.

Harry exalou devagar e com frustração, assentindo. Colin apareceu em seu campo de visão, o cabelo loiro gema bem escovado para o lado e um sorriso amplo no rosto arredondado.

— Hei, Dino! Joinha?

— Colin — Harry cumprimentou, de má vontade. Colin olhou de um para outro e suas sobrancelhas muito loiras e excepcionalmente simétricas se franziram.

— O que eu perdi?

— Uh, nada. Só estávamos conversando sobre…

— ...os N.O.M.s de Tratos das Criaturas Mágicas— Anne completou, a voz falsamente animada, sorrindo para Colin. — Dino conseguiu “Excede Expectativas” no dele, acredita? Ele estava dizendo que é melhor estudar animais alados por Purves, não por Odilho Escamas. Obrigada pela dica, Dino!

— Disponha — Harry disse, lançando para ela um olhar longo e chateado. Anne retribuiu com um de desculpas, disfarçando a fisgada de culpa em seu peito.

— Dino já estava indo. Bom treino mais tarde, Dino. Diga à Gina que eu mandei um olá.

Harry girou seus calcanhares e foi embora sem dar tchau, e Anne se arrependeu do último comentário. Talvez ela estivesse pegando pesado demais, mas não tinha culpa se seu peito ardia toda vez que pensava no tempo que ele estava passando com Gina, e não com ela.

Colin, ainda com ar de curiosidade especulativa, deu a volta na mesa para se sentar ao seu lado.

— O que acabou de acontecer aqui? Dava pra espetar a tensão no ar com a ponta de uma varinha.

Anne deu de ombros, voltando ao livro que estava folheando, procurando a página sobre quimeras.

— Nada demais.

— Ah meu Merlin — ele deu um gritinho agudo. — Ele veio convidar você para a festa de Katie?

Anne girou o pescoço, assombrada.

— Como você soube?

— Ah, por favor. Eu não sou cego, não dá pra ignorar o jeito que ele estava te olhando na última reunião da AD, dava? E esses boatos dele com a Gina? Completamente exagerados. É verdade que eles deram uns amassos no trem no ano passado, mas ela me contou em primeira mão que agora eles são só bons amigos. Se você me perguntar, parece que ela ainda está pendurada na coisa toda com o Harry.

— Coisa toda com Harry? — Anne perguntou casual, virando uma página, apesar do gosto amargo emergindo no fundo da garganta.

— Ah, é. Eu não quis dizer a você antes, porque você e ele… mas bem, Gina a vida toda teve uma queda por ele, e parece que eles tiverem qualquer coisa no verão. E Harry era suposto a visitá-la no natal, antes de… você sabe, desaparecer misteriosamente e causar A Grande Úlcera do mundo mágico.

— Como você sabe dessas coisas? — Anne gemeu, esperando que o seu incômodo não soasse muito óbvio.

— Bem, eu ouço, não é? Ao menos quando as pessoas estão dispostas a me contar.

Anne ignorou a alfinetada. Colin vinha insistindo para saber o que acontecera com ela no feriado. Anne não tinha contado nada a ele; nada sobre a cabeça decepada que Bervely recebera à guisa de presente de natal, nada sobre Malfoy sangrando e Narcisa Malfoy morrendo, sobre ela e Harry escapando na noite na moto voadora para Godric’s Hollow, ou sobre a duplicata de Harry, ou seu encontro com Voldemort. Por tudo que Colin sabia, Anne tinha passado um natal tranquilo, senão ligeiramente enfadonho, com Bervely e Remus, e ela preferia desse jeito. Amava Colin, mas ele nunca tinha aprendido a segurar aquela língua inquieta dele.

— Eu suponho, pela cara com que ele saiu, que você recusou o convite? Pena, Dino é um pedaço de mal caminho. Uh, aquelas covinhas, e aquele traseiro…

Anne ergueu o rosto tempo o bastante para lançar a ele um olhar de repreensão, que Colin devolveu com outro, indignado:

— O que foi, estou mentindo? Além do mais, já é o segundo que você recusa essa semana. Certo não querer ir com o Dino, mas e quanto ao Miguel Corner? Eu sei que ele convidou você ontem depois da aula de Herbologia, não se faça de rogada.

— Miguel não quer nada comigo, Colin — Anne dispensou, finalmente achando a página que precisava e folheando o livro até encontrá-la. — Ele só acha que quer, porque eu lembro a falecida namorada dele. Ele ainda não superou a Cho, todo mundo sabe disso1.

— Mas também, quem supera uma coisa dessas? Ugh — Colin se sacudiu, como quem afasta um arrepio. — Uma pena, porque minha amiga não é substituta de defunta.

Anne franziu o cenho para o comentário insensível.

— Você vai pro inferno, Colin.

Colin fez um ruído de desimportância, ir para o inferno não era a maior das suas preocupações, no momento.

— Mas e com quem você vai? Não me diga que está pensando em não ir, isso seria o suicídio social do século.

— Na verdade eu estava pensando em ir sozinha… quem disse que preciso de um par para me divertir?

— É uma festa de dia dos namorados, Anne. Além do mais, não sei sobre se divertir, mas você precisa de um para entrar. Katie enfeitiçou os convites para só revelarem a passagem secreta para a festa se forem mordidos por um casal. Você não leu as instruções na caixa?

Anne ergueu os olhos do livro, largos como pratos. Não, ela não tinha.

— Sério?

— Seríssimo.

— Merda.

Colin riu, balançando a cabeça numa atitude de o-que-eu-farei-com-você-garotinha, e puxou a pilha de livros que Anne tinha selecionado para eles os estudos daquela tarde, passando um por um com desinteresse, até se deter em um em particular.

— Uh, familiares? Pensei que isso não ia cair nos N.O.M.s! Hagrid não disse que era só uma aula extra, para matar nossa “curiosidade”? — Colin fez aspas irônicas no ar. Anne puxou o livro da pilha, guardando-o com pressa embaixo da bolsa.

— Desculpe, esse é para uma pesquisa pessoal, coloquei na pilha por engano.

— Nerd — Ele rolou os olhos. — Olhe… você sempre pode ir comigo para a festa, se vai mesmo dispensar todas as delícias que estão se acabando por sua atenção.

Ela o olhou, piscando.

— Você não ia com Cormac?

— Oh, por favor. Ele amarelou, o grande covarde, nem sei o que está fazendo na Grifinória. Não estamos mais saindo.

— Sinto muito, Col — Anne disse, apesar de que nunca vira o sentido em Cormac com Colin. Ela, na verdade, quase tinha colocado fogo na cadeira que estava transfigurando em baú, quando Colin lhe contara muito casualmente que eles estavam saindo, durante uma aula de Transfiguração.

— Não sinta. Era mais físico do que qualquer coisa. Então, vamos juntos? Só devo avisá-la que você tem que estar no mínimo fabulosa, para fazer jus à camisa que encomendei da Trapobelo especialmente para sexta.

— Ai, meu deus — Anne nem tinha concordado ainda e já estava se arrependendo. Ela puxou um livro da pilha que ele tinha inspecionado e dispensado e empurrou na frente dele. — Anda, Colin, quimeras. É para isso que estamos aqui, foco, foco.

***

Uma batida hesitante na porta tirou a atenção de Bervely de uma pilha de relatórios do sexto ano sobre os Dez Métodos para Cozinhar Unguentos Peçonhentos. A pausa foi bem-vinda, a removendo do sofrimento flagrante de ler o que alguns alunos tinham inventado para preencher a lista até o fim. Se ela tivesse que ler mais um “coloque o caldeirão no ninho de um dragão”, ia ter que se afogar no lago negro com urgência.

— Entre — disse, supondo que fosse algum aluno com dúvidas sobre algum dever de casa. Com a adição das agora quatro turmas que estava ensinando, também estava cobrindo algumas horas de “atendimento” para Severus. O único ganho daquela tortura lenta era poder trabalhar no escritório dele, que era muito mais interessante e confortável do que o seu próprio.

Era de fato um aluno: Draco. O seu primo parou na entrada da sala, parecendo incerto sobre se queria mesmo entrar. Bervely fez um aceno para encorajá-lo.

— Draco, a que devo a honra?

Draco analisou-a criticamente, as suas vestes negras até o pescoço, sua postura sentada atrás da escrivaninha de Snape, usando a pena de agoureiro dele para fazer a correção, e fez uma careta:

— Por um segundo achei que Severus tinha tomado uma poção de troca de sexo para se distrair do tédio.

— A-há. O que quer que você esteja querendo, me elogiar certamente é o caminho — Bervely zombou, indicando a cadeira à sua frente.

Draco se aproximou, os braços cruzados em frente ao peito. Quando estava perto o bastante para ser iluminado pelas velas em cima da mesa, ela viu o tom arroxeado das olheiras de cansaço sob os olhos cinzentos do primo. O fato de que ele não estava dormindo bem a preocupava, mas não surpreendia. Não tanto quanto a sua visível perda de peso, ou o cabelo mais desalinhado do que o normal, como se alinhá-lo perfeitamente para trás, algo que fazia desde que tinha oito anos de idade, fosse de repente um grande esforço.

— Trabalhos do sexto ano? — Ele perguntou, se esticando para espiar a pilha que Bervely estivera corrigindo. Ela negou, virando o pergaminho do topo para que ele não pudesse ver o nome do aluno para o qual ela acabara de dar a nota “Trasgo”.

— Você não tem autorização para espiar o trabalho de outros alunos.

— Ouch. Seria de se pensar que você seria menos chata com os membros da família, prima.

Bervely o sondou, desconfiada. Não era com frequência que Draco trazia o seu parentesco à tona, e para ser sincera, não era com nenhuma frequência que Draco a procurava nas masmorras. No último par de semanas ela seguira o conselho de Regulus e dera espaço ao garoto, preferindo observá-lo de longe do que perguntar se tudo ia bem. Parece que a estratégia tinha surtido efeito, se Draco estava ali de bom grado.

— Em que posso ser útil, primo? — Ela perguntou, num tom neutro. Desconfiava que ser muito receptiva acabaria por espantá-lo de novo.

Draco se sentou na cadeira, os movimentos calculados, e ela sabia que ele estava repassando o que viera fazer ali mais uma vez mentalmente, só para ter certeza. Bervely lutou para reprimir um sorriso, pensando no quanto eles eram parecidos.

— Eu acho que algo ruim vai acontecer amanhã à noite — disse Draco por fim, olhando não para ela, mas para as prateleiras cheia de frascos de ingredientes, através do seu ombro esquerdo.

Bervely sentiu um presságio de mau agouro já conhecido. Parece que não conseguia viver um mês sem que “algo ruim” viesse à tona.

— Vai precisar ser mais específico do que isso, Draco.

O garoto se mexeu desconfortável na cadeira, os dedos compridos da mão direita tamborilando impacientes no encosto acolchoado.

— Alguns grifinórios imbecis estão organizando uma festa nas masmorras, amanhã à noite. Ouvi que alguns sonserinos bem aborrecidos com a ousadia podem estar planejando uma retaliação — ele disse, num tom de irritação que podia ser com qualquer uma das partes mencionadas, ou provavelmente com ambas. — Só não quero que ninguém pense que estive metido na coisa toda — ele completou com um olhar sóbrio, senão ligeiramente arredio.

Bervely assentiu, escondendo a surpresa de que Draco tinha vindo até ali para delatar seus colegas de casa.

— Sabe que preciso de nomes, e que me diga o que eles estão planejando, se quer mesmo que eu faça alguma coisa.

Draco exalou, resistente. Bervely o pressionou com um olhar que dizia “sério, mesmo?”, e depois de alguns segundos de conflito interno ele se rendeu, deixando as pálpebras caírem.

— São Daphne e Blaise. Eu entreouvi uma conversa deles, quando não sabiam que eu estava por perto.

— Daphne Greengrass e Blaise Zabini, não é isso? Os mesmos que ajudaram você com os doces envenenados?

Draco se contraiu como quem recebe a espetada de uma agulha quente. Ele continuava olhando por cima do ombro de Bervely, o cenho franzido, como se aquela conversa lhe causasse um incômodo físico persistente.

— Foi Daphne quem conseguiu contrabandear o veneno para dentro da escola, ela tem contatos do lado de fora. Ouvi ela dizendo que tinha recebido alguma coisa, mas não faço ideia do que seja. Nada bom, pode apostar. Ela já anda furiosa com a irmã faz tempo, porque parece que Astória está saindo com um grifinório. — Draco terminou a sentença com uma careta de desgosto que quase fez Bervely rir, se não estivesse surpresa com a informação.

Qual grifinório?

O rosto de Draco se retorceu, como se ofendido pessoalmente com a pergunta.

— Como eu vou saber? Acha que eu fico me inteirando das fofocas das trocas de fluído inter-casas?

— Você me parece excepcionalmente bem informado, para quem não está “se inteirando” — Bervely zombou, recebendo um olhar maligno em retorno.

— Só não quero que a culpa caia sobre mim, se algum sangue-ruim cair duro de novo. Eles estão com raiva de mim, Daphne e Blaise — Draco completou, num tom mais abafado, voltando as cruzar os braços e desviar o olhar para as prateleiras.

— Por quê? — Bervely perguntou. — Eles descobriram sobre Chang? Estão com medo de serem apontados como cúmplices, se descobrirem que ela comeu o doce envenenado?

— Não — Draco franziu o rosto, enjoado. — Bem, eu contei a eles que recusei a marca-negra. Agora eles acham que eu… traí o movimento.

Bervely não conseguiu reprimir um bufo de irritação, que fez com que Draco finalmente a encarasse, a expressão incerta.

— Você não concorda com eles?

Bervely abriu a boca para perguntar como ele poderia achar que ela concordaria, mas percebeu que ela nunca dera a Draco nenhum motivo para acreditar que estava contra “o movimento” de Voldemort. Bem, a não ser pela longa lista de “traidores” com a qual Bervely se relacionava, ou tinha ajudado a fugir da cadeia. Bervely fechou a boca, pressionando os lábios juntos e pensando melhor em suas palavras.

— Eu sou da posição de que ninguém deveria ser marcado como uma propriedade. Eu acho que você fez foi a coisa certa.

— Como pode ter sido a coisa certa, se acabou… você sabe como — Ele disse, o tom de irritação ocultando o que claramente ainda era uma ferida aberta. Bervely suspirou, sem saber como responder a pergunta. Ela mesma já tinha se perguntado algo na mesma linha várias vezes. Só que, dessa vez, a resposta veio à sua mente na voz de Sirius. “Tem coisas pelas quais vale a pena morrer.”

Não foi o que ela disse para Draco. Ao invés disso, olhou nos olhos dele e afirmou, séria, porque sabia que era verdade:

— Narcisa estaria orgulhosa de você, agora.

A irritação no rosto de Draco se transformou em descrença, e então em conformação. Conformação silenciosa e impotente. Ele assentiu, os olhos ligeiramente mais vermelhos do que antes, e começou a se levantar.

— Bem. Vai fazer algo a respeito de Daphne e Zabini?

Bervely assentiu.

— Vou falar com Severus. Ele provavelmente vai dar um jeito de cancelar a festa.

Draco assentiu, já de pé. Bervely achou que ele parecia um pouquinho menos tenso do que entrara, mas podia ser só a sua imaginação.

— Obrigada por avisar — ela disse. Draco deu de ombros, como se não fosse grande coisa.

— Só não quero ver mais ninguém morrendo. Perde a graça, depois de um tempo.

* * *

— Sinto muito, Bervely, mas creio que vá ter que lidar com a situação por si mesma. Vou precisar me ausentar do castelo hoje e devo ficar fora pela duração do fim de semana — disse-lhe Snape, quando Bervely lhe contou o que Draco dissera.

Bervely quis manter a compostura, mas ela não foi capaz de reprimir a onda de indignação que a atingiu ao ouvir a notícia.

— Você vai se ausentar do castelo? E quanto às suas aulas de amanhã? E quanto à análise das poções de Animar do sétimo ano? Eu disse que ia assumir a turma, mas não posso fazer tudo! Se o senhor não estiver aqui, vou precisar trabalhar o fim de semana inteiro!

Severus ergueu as sobrancelhas para a explosão, mas ao invés de reagir com o costumeiro “sei que estará à altura da tarefa, pare de drama”, ele ergueu uma mão e pinçou a ponte do nariz, como quem sente uma dor de cabeça emergindo. Bervely se deu conta do quão cansado ele parecia. Severus demorou alguns segundos no ato de pinçar o topo do seu nariz adunco, os olhos fechados, antes de olhar para ela de novo.

— Acredite em mim, se eu tivesse opção, escolheria ficar no castelo e analisar as poções do sétimo ano. Diabos, eu até escolheria lidar com a estupidez hormonal exacerbada que acomete essa escola todo ano, durante esse feriado obnóxio. Mas, há um preço a se pagar por aceitar a minha carreira dupla. Ou eu deveria dizer, tripla? Bem, quem está contando.

Bervely percebeu sobre o que aquilo era. Carreira dupla. Agente duplo. Os olhos dela se alargaram, e quando voltou a falar foi com a voz mais baixa, apesar de estarem sozinhos no escritório dele:

— Você tem que ir em uma missão? Para Dumbledore?

— Não para Dumbledore — ele respondeu em um tom sombrio e aborrecido.

— Oh. Certo — ela mordeu o lábio inferior.

Na maioria das vezes, Bervely conseguia relegar ao fundo da sua mente o fato de que o padrinho também estava trabalhando como um comensal da morte.

— Isso é… tem a ver com… o "sumiço" de Potter?

Severus olhou para ela com repreensão. Embora Bervely ainda o estivesse ajudando na produção incessante de polissuco para Potter, que estava perpetuamente cozendo num caldeirão em seu laboratório, eles nunca conversavam sobre o assunto. Não significava que ela não estivesse pensando constantemente no fato, se perguntando por que, depois de um mês e meio, Voldemort ainda não tinha anunciado para o mundo que matara o Escolhido em dezembro.

Severus foi até um armário pequeno sob a sua prateleira de livros e puxou de lá uma garrafa de conhaque. De uma bandeja que ficava ao lado da pia, pegou dois copos empoeirados e os limpou com um gesto de sua varinha. Ele se serviu de uma dose e colocou outra para ela.

— Ele quer um corpo — disse-lhe então, como se tivesse lido a pergunta em sua mente.

Ela se surpreendeu com a informação entregue de bom grado, junto com o copo. Mas, numa segunda análise, percebeu que não era tanto “bom grado” e sim exaustão o que o levara a confessar o fato. Severus tinha olheiras quase tão profundas quanto as de Draco, sob os seus olhos pequenos e tensos, e ela achou que até as rugas nos cantos dos olhos dele pareciam mais acentuadas.

— Suponho que faça sentido — ela disse, sorvendo um gole da bebida amarga. Não gostava de conhaque, mas não ousaria recusar uma dose de álcool oferecida por seu padrinho com tanta naturalidade. — Então o senhor vai…?

— Continuar procurando — ele assentindo, amargo.

Severus se sentou na cadeira em frente à sua escrivaninha e eles beberam em silêncio por um tempo. Bervely se perguntou o que fizera para merecer a aquele nível de confiança. Não que ela pretendesse traí-lo, pensou. Não se sentia especialmente leal aos segredos de Dumbledore ou de Potter, mas jamais entregaria qualquer confissão que Severus lhe fizesse, porque sabia que ele jamais lhe daria uma segunda chance.

— É melhor voltar aos seus aposentos, Bervely, você parece ter se excedido além do razoável para um único dia — ele disse, indicando a pilha de redações que ela tinha corrigido e agora estavam sobre a mesa dele, prontas para entrega.

Bervely assentiu. Seu corpo inteiro começara a pesar, como se ele tivesse acabado de lhe dar permissão para perceber o quanto estava cansada. Terminou a sua bebida com uma careta, mas antes de ir, tomou coragem para lhe fazer uma pergunta que estava na sua mente já há algum tempo.

— O senhor tem visto Lucius? Ele voltou à comparecer às, uh, reuniões, e coisa do tipo?

Severus a olhou por um segundo, considerando cuidadosamente a sua resposta.

— Malfoy está vivo, se é o que está perguntando. Ele anda, no entanto, afastado de suas atividades normais, até segunda ordem.

— Ah — ela mordeu a língua, incerta sobre como processar a informação. Apesar da sua vontade de que Lucius ardesse no sétimo nível do inferno pelo assassino que era, uma parte dela ficou aliviada de que Bellatrix não o tivesse torturado até a morte, como pareceu que pretendera.

— Greengrass e Zabini. Pode lidar com isso para mim, Bervely? — Severus buscou confirmar.

— É claro. Não se preocupe com isso.

* * *

— Seu arremesso está evoluindo — elogiou Gina, passando uma perna para fora da vassoura e jogando o rabo de cavalo ruivo por cima de um ombro. — Mais um pouco e Katie vai ter que parar de dizer que você arremessa como uma velhinha esclerosada.

Harry soltou uma risada irônica para o elogio, pousando ao lado dela no campo banhado com a luz dourada do fim da tarde.

— Ao menos assim ela vai ter mais tempo para gritar com você por torrar todas as vassouras da escola.

O sorriso de Gina vacilou, oscilando para um franzir preocupado, e Harry se arrependeu do comentário. Gina entrara em combustão nada menos que duas vezes no treino daquele dia, depois de semanas sem pegar fogo. As combustões interferiram menos na concentração do resto do time daquela vez, e ela conseguira apagá-las sem nem mesmo parar de voar, mas era verdade que as vassouras não tinham sobrevivido tão bem ao teste de fogo.

— Desculpe. Vamos pensar em alguma solução até o jogo, tenho certeza.

— A não ser que você tenha uma Firebolt dando sopa, não sei mais o que pode ser feito. É a única vassoura à prova de fogo no mercado, no momento.

Harry esperou que seu sorriso de resposta não fosse muito amarelo. Se ele apenas tivesse uma Firebolt dando sopa…

— Eu estive pensando sobre isso — disse Rony, surgindo entre os dois do mais absoluto nada, meio ofegante. — Acho que na pior das hipóteses, podemos usar você como a nossa arma secreta contra a Sonserina.

— Como é? — Gina olhou para o irmão como se ele tivesse uma sopa de verme-cegos no lugar do cérebro. — Quer que eu ponha fogo no time da sonserina? Não que eu me oponha, veja bem, mas tenho uma desconfiança de que isso não vai nos render uma vitória limpa.

— Não, é claro que não — disse Rony, um brilho perigoso nos olhos indicando que ele não achava que fosse uma ideia assim tão ruim, mas que não ia admitir em voz alta. — Só para assustá-los, sabe. Vamos dizer que você e Malfoy estão cabeça-à-cabeça atrás do pomo, e que parece que ele vai pegá-lo antes… se você pudesse, não sei, explodir em chamas bem ao lado dele, isso com certeza iria lhe dar uma vantagem. Bônus se ele cair da vassoura de cabeça para baixo…

Harry riu, admitindo que não era totalmente uma ideia ruim. Mas ele precisou corrigir Rony em uma coisa:

— Vai ser Astória. Gina vai jogar contra Astória, não Malfoy. Ouvi dizer que ela vai substituí-lo em definitivo.

— Droga — Rony xingou. — Ferrou, Gina. Ela é muito melhor do que a doninha albina.

— Um pouco de fé na sua irmã, se não se importa? — Gina retrucou, ofendida, e olhou para Harry, buscando apoio. — Eu sou melhor que ela, não sou, Dino?

Harry hesitou. Não queria desencorajar Gina, que tinha a técnica e ótimos reflexos, mas Astória era… Harry nunca tinha visto ninguém voar daquele jeito.

— Dino não estava aqui na primeira partida, esqueceu, cabeçuda? — Rony veio em seu auxílio, para o enorme alívio de Harry. — Mas eu estava, e vou ser sincero, aquela coisinha miúda deu um show e tanto. Não quero ser estraga prazeres, mas se eu fosse você, começava a descobrir como pegar fogo de propósito, só por garantia. Ah, ali está Mione. Preciso falar com ela antes da reunião dos monitores… Hermione!

Rony se adiantou para a entrada do castelo, deixando-os sozinhos de novo. Gina estava bufando e olhando feio na direção do irmão, alguns metros adiante.

— Com um irmão desses, quem precisa de inimigos?

— Ele não faz por mal, só é um grande tapado — disse Harry, sorrindo. Gina rolou os olhos para o céu, como quem se pergunta o que fez para merecer Rony como irmão.

Eles seguiram para o castelo num silêncio confortável, até ela perguntar, olhando para ele de relance:

— Uh… Dino? Você está pensando em ir à festa da Katie amanhã à noite?

Harry, que não estava esperando a mudança brusca de assunto, tentou deixar a expressão casual, mas a verdade é que ainda estava chateado com o assunto.

— Acho que sim. Não decidi ainda.

— Mas já está com alguém em mente? Para ir com você, digo.

Ele encolheu os ombros.

— Estava pensando em ir sozinho, na verdade.

— Ah, então você não sabe? Parece que os convites de Katie só vão revelar a entrada para quem estiver em casal. É parte do clima de “comunhão” que ela quer incentivar — Gina fez umas aspas irritadas no ar.

Harry não disse nada, mas seu coração afundou um pouco com a informação. Lá iam as suas chances de se encontrar com Anne naquela noite, porque já estava claro que ela não ia voltar atrás na decisão, e ele não estava a fim de convidar mais ninguém. Desde o quarto ano, Harry tinha um trauma sobre toda aquela coisa de arranjar um par para uma festa.

— Nós podíamos ir juntos — Gina disse, depois de vários passos em silêncio. — Como amigos, digo. Se você estiver mesmo pensando em ir.

— É… — ele hesitou. Gina o espiou, achando graça.

— Não precisa decidir agora, nem nada. Só me deixe saber, em algum momento antes de amanhã à noite. Agora anda, vamos adiantar… ainda preciso tomar um banho antes do jantar, e estou com tanta fome que poderia comer um boi inteiro!

* * *

Começava sempre do mesmo jeito. Sirius, Anne, Draco, Nymphadora e Severus dentro do último vagão vermelho do Expresso de Hogwarts, dividindo uma pilha gigantesca de doces. Sapos de chocolate, diabinhos de pimenta, bolos de caldeirão, acidinhas, pirulitos delirantes…

O trem seguia o seu caminho, trepidando, mas ao passar pelo viaduto de Glenfinnan, subitamente descarrilhava. Bervely via a cauda do trem deslizar em direção à ribanceira em câmera lenta, os sapos de chocolate sendo os primeiros a caírem pela janela, suas perninhas finas esticadas no ar com desamparado. Depois eram as fadinhas de açúcar, depois os diabinhos, e então, um por um, os tripulantes do vagão.

— Mas que droga, se segurem! — Bervely gritou. E acordou, ofegante, o suor frio colando-a ao travesseiro.

É só um sonho. Um sonho estúpido e sem sentido, avisou para o próprio coração que batia feito louco no peito.

Bervely?

Bervely pressionou uma mão sobre a boca ao ouvir a voz de Regulus vindo do espelhinho em seu criado-mudo. Ela olhou de relance e viu uma luz amarelada fluindo através da superfície, uma luz que não pertencia ao seu próprio quarto.

Merda. Reprimiu o impulso de se esticar para pegar o espelho e trazer até a frente do rosto, tentando acalmar a sua respiração primeiro.

— Bervely, está tudo bem? Posso ouvir a sua respiração alterada.

Ela pegou o espelho e o trouxe para a frente do rosto. A luz que fluía do lado dele foi o suficiente para iluminá-la e o rosto pálido de Regulus apareceu do outro lado.

— Olá — ela disse, numa voz que achou ser neutra e controlada.

As pupilas dele se dilataram, ajustando-se à pouca luz em seu quarto. Regulus investigou o rosto dela com atenção. Ela, por sua vez, identificou uma prateleira cheia de livros acima e atrás dele, luz do que pareciam velas iluminando o seu entorno.

— O que está fazendo? — Perguntou ela, a fim de distraí-lo de sua inspeção cuidadosa e desconcertante.

— Estudando alguns documentos. Teve um pesadelo?

Então ele tinha ouvido. Bervely tentou fingir que as entranhas não estavam queimando de constrangimento.

— Posso ouvir seu coração batendo disparado — ele insistiu. — Acalme-se.

— Pensei que gostava de ouvir o meu coração disparado — ela provocou, mudando de posição, deitandos-se ao lado do corpo e apoiando a cabeça na palma da mão, o cotovelo no colchão, e ajustando o espelho em sua frente.

— Não de medo.

— Não estou com medo — retorquiu, recebendo como resposta um menear de cabeça descrente. Bervely notou um pequeno, mas importante detalhe, que a fez esticar os lábios num sorriso zombeteiro.

— Sempre leva o espelho com você, quando vai “estudar uns documentos”?

Regulus sorriu culpado, como quem fora pego no flagra.

— Tentei falar com você mais cedo, mas percebi pela sua respiração que estava dormindo. Achei que podia tentar minha sorte, mantendo o espelho por perto.

— Você é um voyeur depravado, sabia? Ouvindo as minhas aulas da gaveta, e agora a minha respiração quando durmo.

— Bem, você sabe a solução para isso, se está incomodada — ele respondeu sem abalo, voltando ao que quer que estivesse lendo, apesar do sorriso no canto pontudo da boca. — É só parar de me carregar por aí o tempo todo.

Ela girou os olhos nas órbitas, sabendo que aquela não era uma possibilidade. Se alguma coisa acontece com Sirius ela queria estar com o espelho em mãos para saber imediatamente… muito embora Sirius, ao que parecia, estava indo perfeitamente bem, obrigada.

— Vai me contar o que sonhou? — Regulus perguntou, sem tirar os olhos da leitura.

— Depende. Vai me contar o que está lendo?

— Uma resposta é potencialmente interessante, a outra mortalmente enfadonha.

Ela fez uma careta de frustração que Regulus perdeu, atento aos seus papéis. Não era a primeira vez que Bervely perguntava o que ele fazia em Gomorra, e não era a primeira vez que ele desconversava.

Bervely suspirou, ajeitando a alça de sua camisola, que deslizava ombro abaixo por causa da sua posição. Com a frequência daquelas conversas noturnas, ela passara a usar mais regularmente as suas camisolas de cetim macio, que acompanhavam o contorno do seu corpo quando se movia, mas que escorregavam fácil do seu corpo em certas posições.

Não que importasse. Regulus continuava lendo, e pelo visto tinha apoiado o espelho na mesa para livrar as mãos. Ela podia ver o vinco concentrado entre as sobrancelhas escuras, e uma impaciência ácida começou a queimar em seu peito. O que havia de tão interessante naqueles documentos, afinal de contas?

— Todo mundo morre. No meu sonho. — Ela disse, numa voz entediada. — Acidente de trem.

— Todo mundo, é? — Regulus ergueu uma sobrancelha escura, olhando para ela um momento antes de voltar aos papéis e fazer uma nota.

— Sim… todo mundo com quem eu me importo. Mas não se preocupe, você não estava nele — ela alfinetou, de propósito.

— Suponho que faça sentido, afinal já “morri”, não é? Por que o seu inconsciente ia querer me matar de novo?

Bervely se mexeu na cama com impaciência, sentando-se. A adrenalina remanescente do pesadelo havia levado o seu sono embora, e a sobressalente irritação com a falta de atenção dele não ajudava.

— Bem, houve um sonho, uma vez. Mas não foi num trem — disse, em tom de conversa.

— É mesmo? — Ele replicou distraído, sem olhá-la. — Onde foi?

— Na minha cama.

Regulus ergueu o rosto para o espelho com renovado interesse e espiou com curiosidade.

— Não um pesadelo, eu espero?

Bervely mordiscou o lábio inferior, negando.

— Não… gritos e mordidas estiveram envolvidos, mas definitivamente não foi um pesadelo.

Ele estreitou os olhos, desconfiado.

— Teve mesmo um sonho comigo, ou só está tentando me desconcentrar do trabalho?

Ela brincou, distraída, com a alça escorregadia da sua camisola, expondo mais pele, e esperando que daquele ângulo ele pudesse ver o suficiente para interessá-lo.

— Talvez eu não estivesse dormindo. Eu sonho acordada, às vezes.

Bervely — Regulus a advertiu, a voz mais rouca do que antes. Bervely sentiu um arrepio subir pela coluna à menção do seu nome naquele tom; um arrepio do tipo que nenhum pesadelo podia provocar.

— O quê? Foi você quem perguntou sobre os meus sonhos.

— Não faça isso — ele advertiu, perigo na voz baixa. — Esse maldito espelho. Não posso atravessá-lo e chegar até você.

— Você quer chegar até mim? — perguntou com fingida inocência, feliz em perceber que os documentos tinham sido devidamente deixados de lados.

— Bev — ele pediu de novo. Suas pupilas eram dois riscos, o tom da voz lhe lembrou mais um rosnado do que um pedido.

— É uma pena que você não possa atravessar o espelho — ela comentou, pesarosa. — Há tanta coisa que poderíamos fazer juntos, do lado de cá do espelho.

Ele não disse nada de imediato, mas pareceu estar tendo um momento de conflito interno. Bervely esperou, enfrentando a sua própria luta, que era física e tinha a ver com o seu corpo queimando e a pulsação de necessidade entre as suas pernas.

— Você está livre amanhã à noite? — ele perguntou, a voz um pouco abafada. Ela o encarou e achou calor nas pupilas azul-fantasma. Sentiu uma onda de expectativa, mas que foi logo abafada pela lembrança de que, de fato, não estava livre na noite seguinte. Precisava cobrir a ausência de Severus e garantir que nenhum aluno ia morrer na festa idiota dos grifinórios.

— … não. Não amanhã à noite.

Regulus hesitou por um segundo, então assentiu de forma educada.

— Esqueça que eu perguntei, então.

Ele voltou aos seus documentos, muito compenetrado. Bervely apertava o espelho com tanta força que a mão começava a perder a sensibilidade.

— Por quê? O que você– o que tinha em mente? — Ela quis saber, um aperto de angústia pulsando na base de sua garganta. Regulus fez um aceno de dispensa com a mão que segurava a pena, sem olhar de volta para ela.

— Nada demais. Eu preciso voltar ao trabalho, Bervely, e você devia voltar a dormir, também. Parece cansada.

* * *

Um burburinho incomum de excitação rondava o salão comunal naquela noite de sexta, por conta da festa de dia dos namorados dali em algumas horas. A maioria dos alunos mais velhos estavam na lista de convidados de Katie. Neville ficou surpreso quando Harry (Dino, até onde Neville sabia) lhe disse que não estava pensando em ir.

—Uau, sério? Achei que você estava levando a Gina. Vocês não estão saindo?

Harry olhou para Gina, sentada numa das mesas do salão comunal a alguns metros deles, concentrada em uma edição de Quadribol Hoje. Ele fez uma careta; por que as pessoas continuavam repetindo aquilo?

— Não, não estamos, somos só amigos.

— Bem, que pena. Achei que íamos todos em casais, agora eu tenho a… — Neville se interrompeu, as bochechas ficando rosadas. — Quero dizer, agora que estou levando alguém.

— Quem é que você convidou? — perguntou Harry. Neville estivera muito quieto desde o retorno do feriado, e era uma surpresa para Harry que o garoto estivesse saindo com alguém. Não que Harry gastasse muito tempo se inteirando na vida amorosa dos colegas, mas ainda assim, como ele tinha perdido uma coisa dessas?

Neville se inclinou para frente e abaixou a voz, como quem divide um segredo perigoso.

— Convidei Astória e ela aceitou. Dá para acreditar?

— Astória Greengrass? — Harry estranhou, dividido entre completa confusão pelo par improvável e admiração por Neville ter tido coragem de convidar a garota, que parecia do tipo que mordia quando contrariada. — Mas ela não é, tipo… muito mais nova que você?

— Não, na verdade são só uns meses de diferença. Astória repetiu um ano, mas ela não gosta de falar sobre o assunto.

— Ah. Bem, certo. Espero que vocês se divirtam.

Neville assentiu, parecendo mais apreensivo agora que confessado o seu par em voz alta, e subiu para o dormitório para se arrumar. Harry assistiu Rony e a maioria dos colegas mais velhos irem fazer o mesmo. Ele ficou ali sentado, num conflito interno massacrante, imaginando se Anne ia mesmo, e se ela ia, com quem, considerando que precisava de um par para entrar. Ele deu uma olhada furtiva para Gina do outro lado do salão; ela continuava absorvida em sua revista. Mas, quando percebeu que estava sendo observada, levantou os olhos e deu um tchauzinho para ele.

Harry sentiu o nervosismo queimando na base do estômago, e voltou os olhos para o fogo crepitante na lareira.

Meia hora mais tarde, ele viu Rony e Hermione saindo de braços dados, embora Hermione parecesse ligeiramente incerta sobre o seu destino, e os sussurros de Rony em seu ouvido pareciam assegurá-la de que não tinha problema quebrar o toque de recolher para se distrair um pouco.

Cormac McLaggen e Parvati Patil também saíram de braços dados, a garota usando um bonito sari azul safira no lugar do uniforme, o cabelo em uma trança intercalada com pedrinhas brilhantes. Colin Creevey deixou o salão comunal sozinho, numa camiseta branca com dizeres brilhantes no peito que Harry não teve tempo de ler; ele imaginou que o colega ia buscar alguém em outra casa, do mesmo jeito que Neville. Este último deu um aceno nervoso na sua direção antes de sair, quase tropeçando no batente do buraco do retrato.

A cada casal ou colega que deixava o salão, o aperto de aflição de Harry aumentava um pouco. Enfim foi o bastante para fazê-lo pular do sofá e ir até Gina.

Ele se sentou na cadeira em frente a ela e respirou fundo.

— Oi.

— Olá — disse Gina, baixando a revista. — O que ‘tá pegando?

— Você, uh… já arranjou companhia para a festa?

Ela soltou uma risada pelo nariz.

— O que lhe parece?

Harry olhou para a capa da revista que ela segurava, e que tinha Rufus Locke, o apanhador de quadribol dos Chudley Cannon, na capa. Ele ia fazer uma piadinha sobre isso, mas achou melhor não.

— Então, a proposta para irmos juntos ainda está de pé?

Os olhos dela se acenderam, mas Gina inclinou a cabeça, desconfiada.

— Você me cozinhou em banho maria até agora, Thomas? Eu por acaso sou a sua última opção?

— Quê? Não! Eu só não tinha certeza se queria mesmo ir… até agora. — Ele deu um sorriso sem graça. — Desculpe. Entendo se não quiser, você pediu pra te avisar com antecedência, não com meia hora de atraso.

Gina deliberou por um momento longo, por fim assentiu.

— Não, tudo bem. Não é como se a minha revista não vá estar aqui quando eu voltar. Vou vestir algo mais festivo. Nos encontramos aqui de novo em uns quinze minutos?

— Gina, espera — ele pediu, respirando fundo. — Acho que precisa saber de uma coisa, antes.

Ela esperou, piscando seus olhos castanhos para ele.

— Eu não… eu não estou sendo completamente sincero com você. Tem coisas sobre mim– tem coisas ao meu respeito que não estou contando. Sei que foi sincera comigo, e quero ser com você, mas ainda não posso. Não completamente.

Para a surpresa de Harry, Gina abriu um sorriso amplo.

— Quem foi que disse que eu contei tudo da minha vida para você, Dino? Também tenho meus segredos. Relaxa. — Ela se levantou, enrolando a revista em um canudo e recolhendo a mochila do chão. — Te encontro aqui em quinze?

Harry concordou e assistiu Gina subir as escadas do dormitório feminino, imaginando de que segredos ela estaria falando.

* * *

— Você mandou o seu gato me chamar? — Draco disparou, indignado, quando Bervely abriu a porta para deixá-lo entrar no seu laboratório. Ela assentiu, deixando a porta aberta e voltando para o caldeirão onde a polissuco borbulhava. Desde que Potter resolvera dar uma de morto-sem-corpo, polissuco tinha que ser iniciada toda semana para manter o estoque, e para quem é que a tarefa tinha sobrado?

Draco franziu o nariz para o cheiro de lama ardente que se desprendia do caldeirão.

— Temos um problema — disse Bervely, indo direto ao ponto enquanto ajustava a chama para diminuir a temperatura de fervura da poção. — Severus não está na escola essa noite, e McGonagall aprovou a festa nas masmorras, então não há nada que possamos fazer para impedi-la de acontecer, no momento.

— Bem, você tentou. Suponho que algumas covas vão ter que ser cavadas, amanhã de manhã.

Bervely o olhou atravessado, por cima do vapor amarelo que começou a se desprender da poção.

— Você tem alguma prova do que Daphne e Zabini estão aprontando?

— Não. Ela é muito esperta para deixar alguma ponta solta.

— Eu vou colocar Jinx na cola dela essa noite, mas só por garantia devíamos ficar de olho na festa, para o caso de ela ter preparado alguma coisa com antecedência.

— Certo. Espera aí… devíamos? — Draco se deteve, questionando a conjugação coletiva do verbo. — Não me envolva nisso, eu já fiz a minha parte, disse a você o que eu sabia!

Bervely o fuzilou por cima da polissuco, reprimindo uma vontade de chamá-lo de merdinha egoísta. Ela respirou fundo e se decidiu por outra via de argumentação, menos conflituosa.

— Pensei que estava preocupado que Daphne poderia usar você como bode expiatório.

— Ela vai, se tiver a chance — ele assentiu, inquieto. — Mas eu já disse a você que não tenho nada a ver com isso.

— Você disse, mas não tem provas, tem?

— Bem… não no momento.

— Então a não ser que você seja visto com as suas mãos limpas e longe de confusão quando “algo ruim” acontecer, a sua única defesa será a sua própria palavra. Pelo que entendi, ela não está em alta no momento.

Draco ia começar uma defesa indignada de sua palavra, mas pensou melhor e deixou as pálpebras caírem, com cansaço impaciente.

— Onde está querendo chegar, Bervely?

— Fico feliz que perguntou, caro primo. Preciso que vá se trocar, porque eu e você estamos indo para a festa.

Draco fez uma cara horrorizada. Por tudo que Bervely sabia, ela podia ter acabado de dizer que estavam indo para o fundo do lago, onde se ofereceriam de lanche para a lula-gigante.

— Não. Não, não, não, não.

— Sim. Eu não posso ir sem um par, vou chamar muita atenção sozinha, mesmo usando um disfarce.

— Eu não vou ser seu par numa festa xexelenta organizada por grifinórios! — reclamou Draco, a voz subindo várias oitavas indignadas.

— Não seja um crianção. Só vamos manter um olho nas coisas. Você sobreviveu à um Sectumsempra, vai sobreviver à uma festa.

— Eu sei que vou sobreviver, mas é indigno e degradante da mesma maneira. Onde fica a integridade do meu orgulho próprio?

— Foi você mesmo quem disse que eles estão usando as nossas masmorras. A única coisa indigna e degradante que eu vejo é presumir que não podemos ir para uma festa organizada em nosso próprio quintal.

Draco bufou, longe de estar convencido, mas esvaziado de argumentos para continuar lutando.

Ele voltou quinze minutos mais tarde, em vestes formais bruxas e uma cara amarrada, que só piorou quando ele viu Bervely em seu “disfarce”.

— Você está de brincadeira comigo. Você vai assim?

Por quê, qual o problema? — Bervely olhou para si mesma, procurando o que estava errado. Até onde sabia, estava impecável em seu vestido preto e suas botas de salto e seu cabelo cuidadosamente enrolado nas pontas.

— Pensei que ia usar um disfarce!

— Isso é um disfarce.

— Se transfigurar numa versão mais nova de si mesma dificilmente é um disfarce — ele rebateu, ainda contrariado com o plano. — Acha que os seus próprios alunos não vão te reconhecer só porque colocou um vestido curto?

— Não vão, não. — Bervely apontou para o distintivo de monitora que colocara no vestido, que era antigo, do tempo em que fora de fato monitora em Hogwarts. — Esse broche tem um feitiço de distração embutido, ninguém com quem eu não falar diretamente vai prestar atenção em mim por tempo o suficiente para me reconhecer, não se preocupe.

— Por que não mudar a sua aparência por completo? Você é uma metamorfomaga, pelo amor de Merlin.

— Porque feições familiares vão chamar muito menos atenção do que feições completamente novas, e o feitiço de distração não faria efeito desse jeito. Você não sabe nada sobre disfarces, Draco, está tudo na sutileza da coisa. Anda — Ela disse, oferecendo o braço para ele.

Draco lançou um olhar de profundo desânimo para a oferta.

— Não acredito que está fazendo isso comigo — ele gemeu, acompanhando Bervely para onde, segundo a própria McGonagall, os alunos tinham recebido autorização para arranjar a festa.

(Continua...)

Notas finais
Ficarei bem feliz com comentários! Quais as suas expectativas para a festa? O que acham que Daphne e Blaise estão aprontando? Qual seria o segredo de Gina? Até! ;*