A Canção de Morgana

20 Como (não) Perder Sua Alma


Notas iniciais
Dois meses sem att, a minha alma não tem salvação, isso é certeza. NO CAPÍTULO ANTERIOR >> Em flashback, Bervely se recorda de um dos seus momentos com Theo no Instituto Flammel, quando ele lhe apoiou em um de seus projetos de alquimia. De volta ao presente, Theodor 'resgata' Charlotte e a coloca num lugar seguro, onde eles começam a brincar de casinha. Em Azkaban, Bervely faz um novo amigo durante o banho de sol, e também reencontra um velho inimigo. A mãe de Theodor, Ellis Agrippa, visita o filho e não fica nada satisfeita com os novos arranjos dele e Charlotte. Lupin sugere usar o depoimento de algumas pessoas do passado de Bervely para aumentar suas chances no julgamento, mas ela recusa a ideia. De volta à cela, Bervely engasga com uma medalha do Olho de Hórus colocada em sua comida e é salva da morte no último momento por Bellatrix Lestrange. Boa Leitura!

and they scream
the worst things in life come free to us¹

Charlotte Summers rolou o corpo e se aconchegou no cobertor, confortável demais para se levantar e dar início ao dia. Tinha a vaga noção de que Theodor não estava em casa; notou quando ele saíra há algumas horas antes – tinha murmurado “bom dia, minha flor” em seu ouvido antes de se levantar, se arrumar e deixar o apartamento, fechando a porta da frente com cuidado para não incomodá-la.

Com os olhos fechados, ela ouviu a porta clicar de novo algum tempo depois. Incomum: normalmente ele saía pela manhã e só voltava no fim da tarde. Imaginando o que podia ter acontecido para modificar a rotina do rapaz, ela se forçou a abrir os olhos. O encontrou parado à porta do quarto, olhando-a com um sorriso amplo e arteiro no rosto, segurando uma caixa de papelão enorme nos braços. A caixa de papelão se mexia. Ela franziu as sobrancelhas:

— O que é isso?

— Um presente para ocupar as horas que você passa aqui sozinha. Não quero que fique entediada.

A caixa se sacudiu impaciente nas mãos dele e soltou um ganidinho. Charlotte se sentou na cama, esquecendo a preguiça.

— Isso por acaso está vivo?

Seu sorriso arteiro se intensificando, Theodor andou até a cama e pousou a caixa sobre o colchão. As abas soltas foram empurradas para fora e o conteúdo do interior da caixa saltou para fora: um filhote de cão com grandes orelhas cor de baunilha, espertos olhos azuis e um focinho cor de rosa. Não era um cão comum: a sua extremidade final era arrematada por uma cauda bifurcada que não parava quieta.

— Theo! — ela gritou, suspendendo o bichinho por baixo da barriga gorda e o trazendo à altura dos olhos. Ele não parou de espernear um segundo, tentando morder os seus dedos com os dentinhos minúsculos.

— Considere o seu novo cão de guarda. Ele é meio-crupe, o suficiente para ser um guardião mágico de competência quando crescer um pouco. Vou treiná-lo como fiz com os cães de Azkaban e ele vai ser leal à você até a morte.

Ela lhe deu um sorriso genuíno, sentindo um calor inesperado no peito. O cãozinho era adorável, a coisa mais pura que caía em suas mãos há muito tempo. Uma onda de afeição por Theodor lhe tomou de assalto diante do presente.

Theo se inclinou para brincar com ele, provocando-o com a ponta do lençol, e Charlotte teve a oportunidade de observar o jovem bruxo iluminado pela luz branca da manhã que entrava pela janela, a sua natureza gentil transbordando pelos olhos cor de grafite. Charlotte sentiu uma mistura agridoce de afeição e remorso.

— Você gostou do presente?

— Sim, eu amei, obrigada. Ele é um amor — disse com sinceridade. Podia ver que o algo o estava perturbando, mas aquelas duas semanas morando com Theodor lhe ensinaram que ele falaria o que tinha em mente quando estivesse pronto.

— Como quer chamá-lo?

Ela olhou para o bichinho, pensativa. Ele lhe lembrava outra coisa pura em seu passado, algo que há muito tempo atrás lhe trouxera alegria e que coincidentemente possuía um contraste semelhante de branco e azul.

— Dragão — disse, mordendo o lábio em seguida como se a mera ideia fosse uma blasfêmia. A sugestão fez Theodor rir.

— Dragão é bom o bastante — ele disse gentil. — Se tudo der certo, ele vai fazer jus ao nome quando crescer.

Ela teve um furtivo calafrio ao imaginar Bellatrix lendo sua mente e descobrindo que nomeara um cão em homenagem ao seu sobrinho. Logo em seguida experimentou uma onda de rebeldia inconsequente; Bellatrix não entrava em contato desde que ela se mudara para Walshpool com Theodor. Talvez o ex-auror pudesse mesmo mantê-la fora do alcance da comensal da morte…

— Você teve pesadelos de novo essa noite? — Theodor voltou a perguntar, olhando-a com atenção. Charlotte percebeu que estivera com o olhar distante e se consertou enquanto ele justificava a pergunta. — Ouvi você murmurando.

— Nada demais — disse distraída, atraindo o filhote com a ponta de sua trança, que ele imediatamente começou a tentar capturar. — Os mesmos fantasmas de sempre.

— Queria que eu pudesse fazer algo a respeito. — se lamentou, deixando escapar um suspiro frustrado. — Se ao menos você aceitasse tomar a Poção do Sono Sem Sonhos, sabe que se livraria deles num minuto.

— Não, Theo, não precisa. Eu já estou acostumada, além do mais estão ficando mais esparsos. Uma hora vão terminar por si mesmos.

Ele sorriu para ela, uma mão vindo de encontro à sua bochecha e fazendo um afago.

— Admiro você, Charlie. Você é forte. A maioria das bruxas sucumbiria às poções no minuto em que começassem a ter pesadelos com o Olho de Hórus.

Ela lhe deu um sorriso amarelo, Theodor só estava meio certo; os seus sonhos eram com Thor, mas não se tratavam de pesadelos. E não tinha nenhuma intenção de se livrar deles.

Ela se distraiu com o pequeno Dragão, fazendo-o girar e girar em perseguição à sua trança, sentindo que Theodor a observa atentamente. Ela já o pegara fazendo isso antes, quando achava que ela estava distraída com outra coisa. Mas dessa vez pareceu que ele não estava apenas lhe admirando, tinha algo a mais em mente:

— Eu o trouxe de Azkaban, na verdade. Passei para conversar com meu pai sobre os preparativos para o julgamento e por acaso descobri que eles estão cheio de filhotes, mas não sabem o que fazer com eles. Acho que estão perdendo o controle dos cães desde que eu saí — disse ele em tom de recriminação.

Charlotte só estava ouvindo com metade da sua atenção; o cachorrinho agora descobrira a própria cauda bifurcada e tentava perseguí-la, era a coisa mais adorável do mundo.

— Não sabia que eles tinham cães em Azkaban.

— É claro que não sabia. Vivo me esquecendo que você não esteve realmente lá, que foi Bervely o tempo todo — ele suspirou. — Os cães são a primeira linha de defesa da prisão; são treinados para vigiar o perímetro exterior e não deixar nada cruzar a ilha. Eles são mantidos sempre famintos, então qualquer coisa que tentar fazer o caminho entre a costa e a fortaleza vira refeição. Eles comem literalmente qualquer coisa, mas tem uma predileção especial por carne humana.

Um alarme soou no fundo da cabeça de Charlotte, atraindo sua completa atenção para a conversa. Eles são a primeira linha de defesa de Azkaban. Ela umedeceu os lábios com cuidados, sem parar de brincar com Draco para que Theodor não percebesse que de repente ela estava muito mais interessada no assunto.

— Ainda assim Black conseguiu cruzar a ilha até a costa, não foi? O que ele fez com os cães? Ou isso foi Bervely?

Ela viu pelo canto de olho que ele fazia uma careta. Theodor odiava discutir a maior falha de sua carreira como chefe da segurança da prisão, que custara seu emprego e distintivo.

— Demorei um tempo para descobrir essa parte — ele bufou. — Black é um animago ilegal que por acaso toma a forma de cão. Os crupes costumam ser amigáveis com outros cães e semelhantes, é uma característica da espécie. Eu nunca podia ter previsto, quer dizer, mesmo se eu soubesse que ele era um animago, nunca ia imaginar, entre todas as possibilidades…

— É claro que não — ela o tranquilizou, sorrindo para ele enquanto olhava nos seus olhos através dos cílios. Um dia Hector lhe dissera que aquele seu jeito de olhar para ele ofuscava o seu cérebro, fazia com que ele perdesse o rumo do próprio raciocínio e só tivesse vontade de beijá-la.

Theodor sorriu de volta. Não a beijou, mas pareceu distraído por um momento e mudou de assunto.

— Tive notícias de Bervely. Parece que ela teve um encontro inesperado com Carmichael durante um banho de sol e desde então a sua saúde tem se deteriorado significativamente.

As mãos se Charlotte congelaram no meio do movimento de coçar a barriga de Dragão. Theo continuou como se não tivesse percebido.

— Ela se recusa a comer e também não está dormindo. Os quarters acham que ela está se sentindo ameaçada com a proximidade dele e isso a está deixando doente. Mentalmente doente, sabe?

— Por que está me dizendo isso? — perguntou ela, sem conseguir evitar soar aborrecida.

— Achei que você gostaria de saber. Da última vez que conversamos sobre Bervely, você disse que nunca quis que ela se acabasse em Azkaban, que achava que ela só estava perdida, em busca de atenção, uma vítima como você também foi. Mas pelo jeito que as coisas vão, é possível que ela seja indiciada por ambos os crimes. O DELM anda louco para enquadrar culpados, meu pai acha que eles vão aproveitar a oportunidade para usá-la como bode expiatório, ela pode até pegar uma prisão perpétua…

Charlotte, que tinha encolhido os ombros mais e mais a cada palavra dele, agora olhava pela janela com nítido desconforto. Theodor não podia ver seu rosto, mas via as mãos brancas dela apertadas, a brincadeira com o filhote esquecida.

— Não há nada que a gente possa fazer agora. Bervely precisa pagar pelos crimes que cometeu.

— Ela vai pagar pelos delas, isso é certo. E então ela vai pagar por outros também… por tudo que ela foi manipulada a fazer sob a influência de Carmichael, por exemplo. Só que ninguém tem como separar o joio do trigo, Carmichael se recusa a confessar e as poucas pessoas que podem testemunhar contra ele estão com medo de falar. Tudo bem pra você se ela passar o resto da vida na prisão, enquanto que você fica aqui fora, livre, sabendo que é uma das únicas pessoas que têm informações suficientes para incriminá-lo?

— Pare com isso! — Charlotte guinchou, se afastando dele com um olhar ferido. — Foi por isso que me trouxe um presente? Está tentando me amolecer para eu testemunhar a favor de Bervely e livrar a pele dela? Você só quer me usar, eu confiei em você!

Charlotte se levantou em um rompante; cruzou o quarto e bateu a porta atrás de si, evadindo para a sala. Dragão ganiu assustado, correndo de volta para dentro da caixa. Theodor colocou a mão dentro da caixa e afagou a cabeça do filhote para tranquilizá-lo, ao mesmo tempo em que dava um suspiro resignado; muito maduro, Summers.

Ele levantou e andou até a porta recém-batida, abrindo-a. Por um momento achou que Charlotte tinha deixado o apartamento, mas ela estava encarando a janela estreita da sala, de costas para ele e com os braços cruzados.

— Charlie, por favor. Eu não estou usando você.

— Então eu não sei o que mais você quer. Me deixe em paz.

— Eu sei que você tem medo.

— Você está do lado dela, sempre esteve desde o começo!

— Não seja absurda, fui eu quem a denunciou! — ele bufou, procurando em seguida se controlar. Não podia perder a paciência com Charlotte; ela era como um bichinho selvagem, escaparia entre os seus dedos se a pressionasse demais. Suavizou a voz, se aproximando dela devagar. — Não tem lados aqui, Charlie, eu só quero justiça. Só que cada um pague pelos seus erros na medida certa, sem mentiras, sem mais sofrimento do que o necessário.

— Então eu preciso pagar pelos meus também, é isso? Senão essa sua teoria não funciona. E todas as coisas ruins que eu fiz quando estava com ele? E tudo... e Hector… e–

A voz dela quebrou num soluço, seus ombros magros se sacudindo. Ele colocou uma mão em cada ombro dela e devagar a trouxe para si; ela se deixou mover sem resistência.

— Eu acredito que você já pagou, o seu karma se encarregou disso. Você perdeu tudo. O amor da sua vida. O seu filho. A sua paz de espírito, a sua liberdade de ir e vir. — Theodor inclinou o rosto perto do seu ouvido e murmurou com suavidade — Você não quer que tudo isso acabe?

Sim. — Sentiu ela suspirar contra o seu peito.

— Eu prometi que vou proteger você. Eu amo você, Charlotte Summers. Nada de ruim vai lhe acontecer, nunca mais. Mas você precisa confiar em mim. Por favor.

Theodor esperou, concentrado na respiração agitada dela contra seu peito. Seu instinto de auror lhe dizia que aquela era uma situação crítica; fizera seu movimento e precisava esperar a reação. Os duelos sem varinhas eram sempre os mais complicados.

Por fim ela se virou, erguendo o rosto para olhar para ele; seus olhos estavam vermelhos, a expressão mista de choque e esperança.

— O que você disse?

— Que precisa confiar em mim — ele repetiu, sustentando o olhar dela. Charlotte negou impaciente, os olhos claros feito poças.

— Antes disso.

— Que não vou deixar nada de ruim lhe acontecer.

Antes, Theo.

Ele deu um sorriso fraco, depois repetiu com segurança:

— Que eu amo você.

Ela engoliu em seco, em seguida assentiu. Não pulou nos braços dele nem disse que o amava de volta. O olhar em seu rosto era quase triste.

— Tem algo que você precisa saber sobre mim. Depois que eu lhe explicar, você vai entender porque não posso depor contra Thor Carmichael.

***

— Nunca fui uma grande fã de cães. Eles fedem.

A voz carregada de sarcasmo arrancou Charlotte do seu sono, bem aninhada entre os braços de Theodor. Ela divisou a comensal da morte sentada ao peitoril da janela, as pernas longas cruzadas, metida num vestido de corte bruxo cor de vinho tinto arrematado com um espartilho e mangas de renda francesa. Erguia o filhote de cachorro pela pele do pescoço, o observando com o nariz franzido em desprezo. Dragão gania baixinho.

A totalidade da visão fez o coração de Charlotte perder um batimento, como se experimentasse um pequeno ataque cardíaco.

— Como entrou aqui? — perguntou aos sussurros assim que conseguiu recuperar a voz. Theodor inexplicavelmente ainda dormia ao seu lado.

— De nada adianta se esconder nesse recôndito trouxa depressivo se você continua usando magia negra, queridinha — Bella indicou com uma unha pontuda a área geral do peito de Charlotte, onde o pingente do seu colar como sempre palpitava — Essa coisa se acende como uma árvore de natal sob um feitiço de rastreamento, sabia?

Charlotte se sentou cuidadosamente na cama, tendo dificuldade de escapar do aperto justo dos braços de Theodor em torno da sua cintura.

— Se Theodor acordar e ver você aqui…

— Nem mesmo um Cruciatus bem aplicado acordaria o seu aurorzinho no momento. Posso demonstrar se quiser.

Charlotte olhou preocupada na direção dele, mas não conseguiu ver nada de errado.

— O que você fez com ele?

— Azaração Tranca-Sono. Ele vai sobreviver… dessa vez. — A bruxa completou com uma concessão cruel. Continuava segurando Dragão suspenso no ar pela pele da nuca. O cão gania agoniado, as patinhas gordas sacudindo no ar. Estava deixando Charlotte louca.

— Deixe ele ir — pediu. Bellatrix a ignorou.

— Você tem falhado em me enviar seus relatórios nas últimas semanas, Summers. Deveria saber melhor do que me deixar irritada.

Bellatrix cuidadosamente depositou o cão em seu colo, os dedos compridos girando em torno do pequeno pescoço como se fizesse uma carícia. Charlotte sentiu sua espinha se arrepiar; Dragão ficou bem quieto como se soubesse o tamanho do apuro em que estava.

— Eu sinto muito, eu quis enviar uma carta mas Theodor proibiu corujas aqui, ele desconfiaria se eu desobedecesse!

Bellatrix estreitou os olhos em sua direção, pouco convencida. Seus dedos se apertaram em torno da pequena garganta do seu refém, que se encolheu e choramingou. Charlotte se encolheu também.

— Eu tenho certeza que estou fazendo avanço — ela se apressou a dizer. Sentiu lágrimas de medo embaçarem seus olhos, odiando como aquela mulher era capaz de fazê-la se sentir tão indefesa como quando ela tinha nove anos e fora arrancada da casa dos seus pais adotivos, após ouvir os gritos de suas horas finais, escondida debaixo da mesa.

— Você é lenta, Summers. Não vejo razão para eu não invadir a mente do garoto agora mesmo e arrancar o que preciso, depois mandar para o inferno qualquer acordo que fizemos.

Não! — ela exclamou. As últimas pessoas de quem Bellatrix varrera as mentes, segundo soubera, não passavam de vegetais babando em uma ala do St. Mungus por mais de uma década — Ouça, eu acho que descobri algo que pode lhe interessar. Você queria informações sobre Azkaban, não é? Você sabia que eles têm cachorros na ilha? Meio crupes, na verdade…

A comensal lhe lançou um olhar de tédio. O cãozinho em seu colo soltou um ganido sofrido, querendo se livrar das garras dela mas sem coragem de se mover.

— Theodor disse que eles são a primeira linha de defesa da prisão; são mantidos famintos para devorar qualquer coisa que tente passar entre a costa e a fortaleza.

Sim, Summers, qualquer idiota que tenha pesquisado sobre Azkaban sabe disso, você só está sendo, como sempre, redundante e inútil, desperdiçando o meu tempo! Me dá vontade de esmagar alguma coisa — Bellatrix rosnou entre os dentes, deixando suas pálpebras pesadas caírem, os dedos se apertando em torno do pescoço do filhote com mais intensidade.

— Mas não é só isso! Euachoqueseicomopassarporeles — despejou de uma vez só, sentindo como se as garras da mulher estivessem na verdade em torno da sua garganta, num aperto férrico.

Os olhos de Bellatrix apareceram de novo por detrás das pálpebras. Uma sobrancelha fina e arqueada se ergueu, enquanto ainda mantinha a vida do animalzinho por um fio sob o aperto de seus dedos.

Continue.

Charlotte contou o que sabia. Talvez um dia Theodor lhe perdoasse, embora ela desconfiasse que ser traído de novo por uma Charlotte na mesma vida seria demais até para ele.

***

white lips, pale face
breathing in snowflakes
burnt lungs, sour taste
light’s gone, day’s end¹

Quando Bervely entrou na alcova de visitas para a última reunião que teriam após o julgamento, Remus teve um calafrio.

Ela está morrendo, foi o primeiro pensamento que cruzou a sua cabeça. A diferença entre a Bervely que encontrara uma semana antes e a de agora era alarmante; seu rosto tinha a cor doente de cera, exceto pelas olheiras sob os olhos, que pareciam um par de hematomas velhos, amarelando lentamente a partir das bordas. Os lábios não tinham cor; brancos e ressecados, eram mantidos semi-abertos para deixar passar uma respiração rasa. O caminho que levou para chegar até o balcão de pedra em que deveriam se sentar, ela atravessou arrastando os pés. Também parecia incapaz de manter as costas reta – Remus reconheceu a postura de quem sentia dor para respirar. Lembrou de ter ouvidos que muitos prisioneiros em Azkaban eram acometidos por pneumonia… a doença dificilmente afetava bruxos saudáveis, cujo sistema imunológico era mais forte do que o do trouxa comum, mas na prisão a abstinência de magia enfraquecia o corpo e o deixara vulnerável a infecções. Pela primeira vez, teve um medo real de que Bervely não iria sobreviver até o julgamento.

Alheia à perturbação em seu olhar, ela se sentou à sua frente com cuidado, como se temesse se quebrar caso fizesse movimentos bruscos. Remus foi surpreendido por um olhar febril em seu rosto; havia um novo tipo de energia queimando por trás das íris negras, que em nada condizia com o estado vulnerável que ele via em seu corpo. Então ele lembrou da assustadora proporção de pessoas que ficavam loucas em Azkaban… e uma nova onda de receio lhe acometeu, ainda pior que a anterior.

— Lupin — Bervely cumprimentou, a voz limpa e distante. Ela cruzou as mãos sobre a mesa em frente ao corpo. Um gesto de resguardo; uma barreira entre os dois. O que ela não queria que ele alcançasse? A sua vulnerabilidade? O seu estado mental deteriorado?

Enquanto o lobisomem a observava, Bervely virou o rosto para o canto esquerdo da cela, como se quisesse confirmar algo captado pelo canto dos olhos. Demorou a voltar.

— Uh… como você está? — ele perguntou, sentindo-se redundante. Só havia uma resposta para aquela pergunta e estava bem diante dos seus olhos.

— Nunca estive melhor. Você? — A ironia escorria dos seus lábios descamados como mel, mais fácil do que nunca.

Remus comprimiu a boca, desaprovando a regressão. Não tinham tempo para alfinetadas e rodeios. Decidiu que ia segurar qualquer comentário sobre o seu estado a fim de não deixá-la toda espinhosa e dificultar ainda mais a conversa. Ao invés disso ia falar mais tarde com o chefe da ala dela, perguntar o que diabos estavam fazendo para que a saúde dela se deteriorasse tanto no espaço de uma semana. Ele pigarreou.

— Eu estou bem na medida do possível, obrigado por perguntar. Você vai ficar feliz em saber que eu tenho uma mensagem de Almof...

— Não — ela o cortou abruptamente. — Vamos direto ao que importa. Fale-me do julgamento.

O bruxo a fitou com renovada estranheza, confuso em porque ela recusaria uma mensagem de Sirius, mas Bervely evitou contato visual, olhando insistente por cima do ombro dele. O temor de Remus a respeito do estado mental dela se intensificou.

— O-okay. — Ele pegou sua pasta e retirou dela alguns pergaminhos com anotações, vendo pelo canto de olho Bervely encarar a mesma quina de antes, dessa vez rolando os olhos com indignação. Quando ele ergueu a cabeça ela o encarou de volta, disfarçando.

Remus voltou os olhos para as suas anotações, começando a enumerar:

— Alvo Dumbledore, Ellisadora Agrippa von Nettesheim, Olívio Wood e Severus Snape serão suas testemunhas de defesa na primeira acusação, cúmplice na evasão do prisioneiro de segurança máxima Sirius Black de Azkaban em 1993. Infelizmente não fui capaz de encontrar sua amiga, Holmes, é como se ela tivesse se dissolvido em pleno ar. Pelo que soube, as testemunhas de acusação serão o próprio diretor de Azkaban, o seu filho, Theodor Shadowtamer, e um auror que estava aqui na ocasião da fuga, Victor Olleant.

Bervely arfou ao ouvir o último nome, depois virou rápido para o canto e negou com a cabeça, irritadiça.

— Não! Eu não vou dizer nada!

— Bervely? — Remus chamou, alarmado. — O que é que você não vai dizer?

Ela se sobressaltou. Sua expressão era confusa, o brilho febril ainda queimando nas íris negras.

— Com quem você está falando? — ele perguntou preocupado. Olhou de novo para o canto que ela continuava relanceando, mas não havia nada lá além do encontro entre as paredes de pedra.

Bervely coçou o braço esquerdo por cima do uniforme, balançando a cabeça em negativa.

— Com ninguém. Com você. O que mais? Isso é tudo que eles têm? — Ela pareceu ansiosa para fazer a conversa prosseguir. Remus estreitou os olhos, mas acatou a deixa.

— A medibruxa que estava trabalhando na enfermaria da prisão na época, Pheida McGrath, também foi chamada como testemunha de acusação. E eles estão procurando alguém mais, uma garota que pelos registros está morta, mas que o Quarter Olleant jura que estava colaborando com Summers na ocasião... Vindemiatrix Allure, que ela se chama.

Bervely lhe deu um olhar vazio. Propositalmente vazio, se os seus instintos não lhe mentiam.

— Eu me pergunto se deveríamos, hum, nos preocupar com essa Vindemiatrix, se ela estiver, hum, viva.

A garota lhe ofereceu um rígido dar de ombros.

— Ela não deverá causar problema, eu não acho.

Ele abaixou a cabeça, discretamente fazendo uma nota no canto do pergaminho.

— Isso encerra o grupo de testemunhas para a primeira acusação, contando que eles não tenham nenhuma carta na manga. Até o momento não vejo nenhuma prova concreta do seu envolvimento, só a palavra de Shadowtamer e das outras testemunhas, mas também temos palavras do nosso lado, certo, acaba sendo uma questão de em quem o júri vai acreditar...

— Thor Carmichael não vai ser chamado? — ela perguntou de repente, encarando a mesa, a respiração curta.

— Não. Ele continua se recusando a comparecer em corte. Como não temos provas do envolvimento dele, ele não pode ser obrigado a testemunhar.

Esperou alguma reação de alívio dela, mas tudo que via era seu peito magro subindo e descendo no ritmo acelerado de sua respiração.

— E quanto à Summers? Alguém sabe onde ela está?

— Estão procurando por ela, mas nada ainda. Achamos que alguém a está ajudando a se esconder, um bruxo, afinal como um aborto ela não duraria tanto tempo fora do alcance dos aurores. Isso ou eles não estão fazendo muito esforço para tal, afinal com você em custódia não há mais acusações reais contra ela.

Ele viu os punhos magros de Bervely se cerraram firmes sobre a mesa. Remus não conhecia os pormenores da relação de Bervely com Summers, mas imaginava que havia muito mais entre as duas do que Sirius lhe resumira um dia desses.

— E quanto à outra acusação?

— Sim, é aí que as coisas ficam mais interessantes. Do seu lado temos Andrômeda, com os documentos do hospital atestando que você estava internada no dia da tentativa de sequestro de Harry. Eles vão analisar a sua varinha e notar que nenhum dos feitiços usados aquela noite, especialmente as maldições imperdoáveis que mataram os dois trouxas, vieram dela. Ainda podem alegar que os documentos são falsos e que você usou outra varinha, mas precisam de provas para sustentar isso. Eu tentei chamar os Dursley como testemunhas, mas eles se recusam terminantemente, e também não temos Harry...

— Potter não vai testemunhar no julgamento do seu próprio sequestro? — ela interrompeu, contrariada.

— Tecnicamente ele não é obrigado. Ele nunca prestou queixa oficial e é menor de idade, logo não pode ser compulsoriamente levado ao tribunal a não ser para responder uma acusação direcionada à ele mesmo. Ah, e o mais importante, ele recebeu um convite para testemunhar contra você, vinda do próprio DELM, e a recusou.

— É mesmo? — Bervely estranhou, tamborilando as unhas de forma distraída na superfície de pedra.

— É bom que ele fique de fora. Significa menos exposição para o caso, para você e para ele. Merlin sabe que nenhum de vocês precisa de mais mídia à essa altura, atenção ao caso só nos atrapalha.

Ele notou que Bervely tinha parado de ouví-lo; estava distraída, a cabeça inclinada levemente para a esquerda, os olhos perdidos em algum ponto além dele. Coçava sem parar o braço esquerdo como quem tenta se livrar de uma dor persistente.

— Bervely? Está tudo bem?

— Se isso é tudo, creio que nos vemos no julgamento. — Ela se levantou de repente, pronta para ir embora. Remus a encarou, perplexo.

— Você não quer saber quais são as suas chances?

— Vamos descobrir amanhã de um jeito ou de outro, não é?

Ela saiu do seu raio de alcance antes que ele pudesse dizer mais, se aproximando da porta e oferecendo os pulsos ao Quarter que aguardava do lado de fora para que ele pudesse colocar suas correntes mágicas de volta.

Remus se deu conta de que ela não tinha olhando em seus olhos uma vez sequer durante aquela conversa. Ele se perguntou o que diabos diria a Sirius naquela noite, quando o amigo lhe perguntasse como Bervely estava – tinha a impressão de que dizer a verdade seria uma má ideia.

***

De retorno à sua cela, a prisioneira número doze encontrou Bellatrix Lestrange sentada na ponta do bloco de pedra que fazia as vezes de cama, as pernas cruzadas e as costas retas como se ela estivesse ao invés disso em uma das poltronas de couro negro de Blackburn Hall. Há um par de minutos estivera na alcova de visitas, interferindo em sua conversa com Lupin com comentários maldosos enquanto discutiam o julgamento.

Estalou os lábios quando Bervely entrou e as grades mágicas estalaram atrás dela.

— Mas que tortura para os sentidos. Eu devia ter posto fim àquela patética desculpa de lobisomem quando tive a chance.

Bervely nem olhou na direção da comensal. Atravessou a cela – o que lhe custou um total de três passos – e escorregou as costas pela parede áspera até cair no chão, onde cruzou os braços em frente ao corpo e ficou encarando a tubulação enferrujada na base da pia.

Se sentia miserável. Sabia que as suas chances no julgamento eram ruins, apesar de Lupin gostar de fingir que tinha esperanças. Somando-se a isso, ao contrário do que pensara há uma semana, Bellatrix não estava ali para lhe tirar daquele inferno. A comensal não passava de uma assombração que fora produzida pela sua mente em pânico quando quase morrera de engasgo e que agora resolvera ficar rondando, lhe perseguindo para todo lado, invisível para todos que não ela.

Não podia negar que ao menos lhe servia de companhia. Já havia decidido que ia refletir sobre a pateticidade de alucinar com sua mãe comensal da morte e homicida se sobrevivesse ao julgamento e fosse inocentada. Ou seja, talvez nem tivesse que se dar ao trabalho de fazer aquela reflexão, nunca.

— Não aprovo o seu posicionamento derrotista — informou Bellatrix, lendo seus pensamentos como só uma boa alucinação poderia. Bervely bufou.

— O que preciso fazer para você me deixar em paz?

— Você não quer realmente isso, querida.

— Você não sabe o que eu quero — resmungou de mau humor.

— Oh, mas eu sei. — A mulher ergueu as pálpebras pesadas para ela como quem se prepara para revelar um segredo capcioso, dragando-o para a escuridão daqueles olhos sem fundo — Você quer morrer. Você quer que isso acabe. Você sente raiva e agonia o tempo todo, queimando em seu peito como um ácido, subindo pela sua garganta e deixando a sua língua amarga. Você quer estraçalhar, destruir, despedaçar alguma coisa, você quer sangue nas suas mãos para se sentir viva. Você quer se jogar no centro do sol e se afogar no mar, tudo ao mesmo tempo, enquanto você grita. Quando você fecha os olhos, você não sabe onde você termina, e onde começa o escuro.

Bervely começou a chorar; no começo só lágrimas pesadas escorrendo do seu rosto sem esforço. Às vezes não sabia se a voz que ouvia era de Bellatrix ou a sua própria. Se estava falando em voz alta ou só pensando. Acordada ou sonhando?

— Venha jogar um pouco, criança. Você precisa manter a mente afiada.

Por trás das pálpebras fechadas queimando com as lágrimas, Bervely viu um tabuleiro de xadrez se materializar entre as duas. Bellatrix se sentou do outro lado, detrás das peças brancas. Bervely tinha o chão gelado sob as pernas, mas a mulher preferia ocupar uma suntuosa poltrona de veludo vermelho com brocados.

— Por que você continua aparecendo? — ela choramingou, sentindo que seu cérebro funcionava com lentidão arenosa. Sabia que não era a primeira vez que fazia aquela pergunta, mas não tinha qualquer lembrança de que uma resposta plausível lhe fora dada em algum momento. — Por que tem que ser você, entre todas as pessoas?

Bellatrix sorriu ladina, movendo um peão para frente apenas com a sugestão de sua vontade.

— Só estou devolvendo um favor. Sua vez, Bervely, ande.

— Que favor?

Que favor? A cela rodava. Ora ela estava atrás das peças pretas, ora atrás das brancas, no espaço de tempo de um piscar de olhos. As peças estavam lá, depois eram pedrinhas no chão, depois se moviam com a força do seu pensamento, sem nunca precisar tocá-las.

Ia ganhar e perder aquela partida, jogara-a várias vezes, sempre começava e terminava do mesmo jeito.

— Afiada — Bellatrix repetia sem mover a boca — É preciso se manter afiada. Sua vez.

— Eu vou morrer aqui, sabe — murmurou Bervely baixinho.

Uma vez, não há muito tempo, seu maior medo fora pela vida de outra pessoa. Mas Azkaban lhe ensinara naquelas poucas semanas que não havia nada igual a vislumbrar a sua própria finitude, sem que pudesse fazer nada à respeito, apenas esperar e assistir sua própria degradação.

— Nada aqui tem o cheiro da sua morte, caso não tenha percebido — ela tinha dito isso para o escuro, ou fora a voz de Bellatrix que ouvira dizer?

E que diferença fazia?

Seu braço não parava de coçar; já estava em carne viva, suas unhas se enterrando na carne perturbada por debaixo na manga larga do uniforme e arrancando sangue, manchando o tecido escuro.

— Não se preocupe, criança — disse a comensal tranquilamente. Por que Bellatrix estava em sua cela, sentada na ponta de sua cama, as pernas cruzadas, as longas garras vermelhas pinçando o escuro? — Vamos jogar. Uma partida de xadrez bruxo lhe apetece? Lembre-se, é preciso manter-se...

— Afiada — completou, anuindo àquele loop infinito. Ainda assim, tinha a sensação de que algo importante lhe escapava. Precisava odiar Bellatrix. Mas não se lembrava... não se lembrava porquê.

— Sua jogada, Bervely — requisitou a bruxa, impaciente. Os espinhos em seu braço pinicaram e Bervely se forçou a prestar atenção.

Moveu as peças pretas. Depois moveu as brancas. De novo e de novo.

— Hora do jantar, número doze.

Se virou sobressaltada esperando ver o Quarter Bob, mas não era ele quem lhe encarava no corredor escuro para além das grades. O auror loiro e familiar, que graças a Lupin ela agora lembrava se chamar Victor Olleant, lhe deu um sorriso retorcido. Bervely percebeu que ele não trazia nenhuma comida; tinha sua varinha em punho apontando para baixo e um dementador à tiracolo.

Ela se levantou, o coração disparando sem aviso. O auror lhe fitou com interesse crítico.

— Olha só para você, um coelhinho assustado, acuado em sua jaula.

— Eu não faria isso se fosse você, Olleant. — A voz dela tremeu sem querer, o levando sorrir com particular divertimento.

— Você não sabe o que eu vou fazer, coelhinho. — Olleant entrou na cela, o dementador flutuou atrás dele. A grade se fechou atrás de ambos com um estalo seco.

Afiada. Afiada… Bervely recuou, tateando atrás de si. Qualquer coisa poderia ser uma arma… se houvesse qualquer coisa. Nenhuma peça de xadrez de mármore, só pequenas pedras que um dia tinham se desgarrado do chão e eram inofensivas.

— Olleant, eu sei que você está trabalhando para Carmichael. Eu sei que colocou aquela coisa na minha comida na semana passada, mas fique sabendo que eu contei tudo ao meu oficial de lei. Se algo acontecer comigo, ele vai saber que foi você! Você vai pagar caro e Carmichael não vai poder te proteger, não daqui de dentro!

O auror sorriu sem se impressionar com o que Bervely lhe dizia, se aproximando mais um passo. O dementador deslizou para perto… e tudo ficou frio. Bervely recuou sem jeito; suas costas atingindo a parede atrás de si. Como uma boa alucinação, Bellatrix não estava mais à vista quando precisava.

— Coelhinho mentiroso. Mentir nunca foi o seu maior talento, Bervely. Entrar na minha casa, enganar meus elfos, fingir ser minha filha… se você fosse uma mentirosa só um pouquinho melhor, não estaria nesse apuro agora. Ah, minha garota… eles dizem que a vingança é um prato que se come frio, mas esquecem de mencionar que é de fato uma apetitosa sobremesa.

Bervely sentiu os joelhos fraquejarem, ao mesmo tempo em que uma vertigem varria tudo dentro de sua barriga e a deixava oca. Aquele jeito de falar, aquele olhar faminto e predador, nada daquilo era Olleant. O auror era nada mais do que uma casca àquela altura.

Thor — murmurou o que agora lhe era óbvio. Ele assentiu com prazer refletido nas lascas de vidro dos seus olhos. Letais e prontos para cortá-la, da cor do mar que uma vez tentara lhe afogar e estava ali para terminar o serviço.

— Fico honrado que me reconheça no meu novo corpo. — Ele aprovou com satisfação. Estava tão perto agora que ela sentia a respiração azeda dele contra o rosto. O dementador em sua companhia garantia que ela não tinha nenhuma chance de defesa, mesmo se houvesse força o suficiente em seu corpo para subjugá-lo. Seu coração estava frio, sua vontade de lutar congelada pela a certeza do desfecho.

— Você toca nela e eu arranco fora seus olhos, escória — Bervely ouviu seus lábios produzirem, embora não tivesse formulado a frase ela mesma.

— Finalmente enlouqueceu e está falando de si mesma na terceira pessoa? — Thor-Olleant chegou tão perto que ela teve que virar o rosto para conseguir respirar algo que não fosse o gás carbônico venenoso vindo das entranhas dele. — Eu preciso admitir, esse tempo todo em que estive esperando a minha chance de acertar as contas, minhas ideias de como dar um fim em você se tornaram bem criativas. Mas acabei decidindo que o que mais quero é sentir sua vida se esvaindo em minhas mãos. Você devia ficar honrada, eu normalmente não sujo as minhas mãos, mas nesse caso — ele deu um suspiro prazeroso de antecipação — Nesse caso eu faço questão.

Ele avançou mais; tão perto agora que se Bervely respirasse fundo, seu peito tocaria o dele; ela prendeu a respiração travando os maxilares, a ideia de encostar naquele monstro lhe provocando repulsa ardente. Uma mão dele, fina como a de um violinista, se enrolou em torno da garganta dela, pressionando só o bastante para sentir a pulsação de sua jugular.

Bervely teve um vislumbre de Sirius, muitos anos antes, tentando estrangulá-la numa cela como aquela, e desejou que tivesse morrido pelas mãos dele ao invés das de Carmichael. Nem pensou em resistir. Lutar era inútil; seu corpo não aguentaria, só ficaria mais cansada para o fim.

— Ela é sua — disse Thor por cima do seu ombro. Bervely entendeu que ele não pretendia matá-la. Ia esvaziá-la, como sempre quisera. O dementador lhe ajudaria a cumprir o propósito, uma vez que ele não tinha o seu laboratório de desencarnação ao alcance.

Afiada. Se mantenha afiada...

O dementador subiu, pairando no ar acima dela; podia jurar que a criatura estava desfrutando o momento, tomando seu tempo; dançava ao som do seu medo. O capuz negro foi se abaixando… Bervely se acovardou, fechando os olhos. Tinha certeza de que não havia nada que pudesse impedi-lo àquela altura. Estava sem a sua varinha. Estava louca, estava sangrando, estava exausta.

— Isso mesmo, minha boa garotinha — Thor sussurrou em seu ouvido, soando mais e mais como Thor, menos como Olleant, à medida que o seu momento final se aproximava; segurando-a firme, mas nunca o suficiente para cortar sua respiração — Não resista. Entregue sua alma para ele e depois seu corpo para mim… amanhã quando eles levarem você daqui para o julgamento, serei eu, caminhando para o lado de fora. Acho que é mais do que justo, não? Você arruinou minha vida, você a devolve. E isso vai ser. tão. doce.

As palavras dele foram abafadas pelo estalar excitado do dementador pairando sobre as suas cabeças. Mesmo com os olhos fechados era como se ela pudesse ver a criatura: o buraco que tomava a frente da sua cabeça não tinha fundo, pronto para sugar tudo o que a fazia humana. A sensação de sucção a atingiu em seu íntimo como se a criatura tivesse encontrado os pontos dentro dela nos quais se enganchar a fim de virá-la do avesso, arrancar seu forro, tornar-lhe numa capa vazia a qual Thor pudesse vestir mais tarde.

Engraçado, pensou Bervely, estranhamente alheia à extração lenta da sua essência. Algo nascia através da entrega, algo inesperado: raiva. Era tóxica e ardente como um fogo negro lhe consumindo. De todas as coisas que sentira em sua vida, nada jamais fora tão escuro.

"Carmichael seu desgraçado, eu avisei a você."

Foi a última coisa que Bervely escutou, antes de mergulhar numa escuridão misericordiosa.

***

Havia um gosto forte de ferrugem. Flutuava, ia e voltava; no fim foi o gosto ruim colado à sua língua que a trouxe de volta. Estava drogada? Era como se alguém tivesse lhe dado litros e litros de liquor Cabeça de Vento de uma vez só, para além da dose aconselhada pelo fabricante.

Eventualmente começou a sentir que tinha um corpo… exceto pelo braço esquerdo. Nada. Era como se aquela parte do seu corpo tivesse deixado de existir. Estranho.

— Merda — ela tentou usar o braço direito para checar, mas ele pesava uma tonelada. Alguma coisa começou a apitar bem perto do seu ouvido, tendo o efeito de uma agulhada em seu cérebro flutuante.

— Não se mexa ainda. Vai demorar alguns minutos para que retome o controle total do seu corpo. Não há razão para pânico.

— Pânico? — Só que ao invés de palavras, o que saiu de sua boca foi um murmúrio incompreensível e saliva; sua língua também pesava dentro da boca, semi-adormecida.

Ela parou de tentar falar. Um rosto surgiu em seu campo de visão, seus contornos borrados, a sombra do que ela podia jurar ser um chapéu branco pontudo.

— Olá, senhorita Black. Tente não se preocupar, você está segura agora.

— Onde eu estou? — balbuciou. O que saiu foi mais ou menos “obobidou?”, mas o que ela supunha ser um medibruxo (por causa do chapéu) devia ser letrado na linguagem dos pacientes dopados.

— Você está na enfermaria de Azkaban. Houve um incidente em sua cela e foi necessário estuporá-la para a sua própria segurança. Nada com que se preocupar de imediato.

Um incidente. Sim, como Thor Carmichael dentro do corpo de um Quarter, usando um dementador para tentar desalmá-la, agora se lembrava. E porque ele não terminara o serviço? Bervely lembrou da sensação da sua alma se descolando do seu corpo com vívida agonia. Depois disso, nada.

— Victor Olleant — ela balbuciou (“viv’ooleann’”). O medibruxo deu uma olhada para o lado, onde havia outra maca.

— O Sr. Olleant não será mais um problema, senhorita Black.

Bervely conseguiu inclinar a cabeça o suficiente para ver o formato de um corpo estendido sobre a maca, coberto por um lençol dos pés à cabeça. Uma sensação estranha de contentamento lhe assomou, dissociada do seu sentimento predominante de desorientação completa.

— Caso esteja se perguntando porque não pode sentir o seu braço esquerdo, eu precisei aplicar um anestésico forte para aplacar a sua dor quando acordasse. Essa tatuagem que você tem, suponho que seja uma espécie de amuleto de proteção? Acho que saiu pela culatra essa noite. Estava subindo pela sua garganta quando chegaram até você, mais um minuto e desconfio que teria cortado a suas vias aéreas. Você deveria pensar em remover isso quando tiver a chance.

A sugestão lhe causou um desconforto, mas ela logo se deu conta de que haviam coisas mais urgentes com que se preocupar.

— O julgamento! Que horas são? — arfou, seus olhos se arregalando com a realização. Será que o tinha perdido? Por quanto tempo estivera desacordada? Será que sequer faziam um julgamento na ausência da acusada?

— Acalma-se, o seu julgamento não é até pela manhã, se lembra? Em algumas horas. Se bem que, considerando as atuais circunstâncias, talvez haja de fato um adiamento.

Bervely piscou e enfim conseguiu focar o rosto do medibruxo, um estranho com cara de pai de família que se entupia de guisado no domingo e cochilava no sofá ouvindo Celestina Warbeck. Ele com certeza não estivera em Azkaban no tempo em que estivera infiltrada.

— Quem é você? — perguntou, fazendo um esforço para que o cérebro funcionasse direito. O bruxo estava prestes a responder, mas batidas nas portas duplas de metal o interrompeu. Ele deixou entrar um par de Quarters; a visão dos homens fardados fez Bervely se encolher, lembrando-se imediatamente do falso Olleant e dos momentos em que acreditara que ele seria o último rosto que ela veria antes de morrer.

— A Srta. Black tem uma visita.

— Isso é extremamente inapropriado. A minha paciente não está em condições de receber ninguém — disse o homem, soando mais defensivo do que ela poderia esperar para um medibruxo de uma prisão.

Uma parte ingênua e delirante de Bervely desejou que a sua visita fosse Sirius. Era louco e impossível, mas ela daria o seu outro braço para ter a chance de vê-lo agora mais do que em todo tempo em que estivera presa. Sentia que só ele poderia aplacar aquela sensação de terribilidade rodando suas entranhas.

— Ela tem a opção de recusar a visita — o Quarter sugeriu. Bervely teve a impressão de que era exatamente o que ele queria que ela fizesse.

O segundo palpite de Bervely era Lupin, o que a fez pensar que talvez algo muito ruim tivesse acontecido fora de Azkaban. Por qual outro motivo ele teria voltado para vê-la no meio da noite, na véspera do julgamento? Ou alguém já o teria avisado dos recentes acontecimentos…?

Os dois aurores foram autorizados a entrar na ala e vir até ela. Bervely tentou segurar a sua reação de repulsa, dizendo a si mesma que não eram Thor disfarçados e não estavam ali para lhe matar, mas ainda assim o seu coração disparou doloroso e ela sentiu uma necessidade visceral de correr para longe deles.

— Senhorita Black — chamou um dos Quarters, que Bervely tinha a vaga lembrança de guardar os portões da frente da prisão. — O Sr. Shadowtamer deseja vê-la. A visita é extra-oficial e não será monitorada ou mencionada em seu julgamento.

Bervely franziu desconfiada. O que o diretor da prisão poderia querer com ela numa visita “extra-oficial e não monitorada”? Talvez se desculpar por um de seus dementadores ter tentado sugar a sua alma? Ameaçá-la para que não trouxesse o assunto à tona e sujasse ainda mais a reputação da prisão diante na mídia bruxa?

— Bervely — ouviu uma voz familiar por detrás dos dois aurores. Seu coração deu um pulo incerto ao identificar Theodor, e não o seu pai, como esperara. Ficou tão aliviada ao ver uma face conhecida que demorou um par de segundos para se lembrar de que só estava em Azkaban por causa dele, para começo de conversa. — Você está bem?

Com um olhar significativo de Theodor, os dois Quarters os deixaram a sós e o medibruxo, após um segundo de resistência, saiu para a direção oposta, para o fundo da enfermaria.

Theodor avançou em sua direção; Bervely, que se sentara na maca à entrada dos aurores, recuou, encolhendo o corpo. Theodor parou onde estava.

— Desculpe. Eu só ia... desculpe. Será que eu posso–?

— Não se aproxime de mim — ela o advertiu, mesmo sabendo que se ele quisesse machucá-la, não tinha como se defender. — O que você está fazendo aqui? Não devia estar se preparando para o seu momento de gloriosa vingança amanhã?

Theo a olhou com uma expressão nublada, difícil de interpretar. Culpa? Remorso? Pena? Receio? O que quer que fosse, ela não gostava. Não parecia um bom sinal naquelas circunstâncias.

— Você está em sério apuro, Beverly. Eu não sei como conseguiu fazer o que fez, mas eles não vão entender como legítima defesa, se é isso que está pretendendo alegar.

— Como é? Do que você está falando? — e com mais impaciência exausta, ao perceber que não se importava de verdade com as respostas dele: – Theodor, o que é que você está fazendo aqui?

Ele olhava sem parar para o rosto e depois para as mãos dela. Ignorou sua pergunta.

— ...mesmo se eu tentar convencê-los de que eu vi que você agiu em defesa própria, vai ser difícil acreditarem em mim. Quer dizer, eu sei o que eu vi, mas como sempre, as provas...

— Defesa própria? De quê? — Ele não estava fazendo o menor sentido. Bervely deu outra olhada para a forma do que devia ser o corpo de Olleant debaixo do lençol. Depois, pela primeira vez, para si mesma. Seu uniforme estava coberto de sangue seco. O gosto ruim que sentira na boca era sangue, percebeu.

E não era seu sangue.

— Não fale com ninguém, entendeu? — Theodor continuou, falando baixo e rápido. — Não importa o que lhe perguntarem. Se você disser a verdade vão achar que está louca, o que não lhe fará favor algum.

A cabeça dela Bervely estava rodando. Ou melhor, a enfermaria estava; girava, girava e sempre parava no corpo de Victor Olleant coberto pelo lençol. Theodor ainda estava balbuciando coisas, mas Bervely só tinha uma preocupação em mente no momento:

— Theodor... você sabe o que aconteceu na cela hoje, depois que eu desmaiei?

Ele olhou para ela sem entender.

— Você não desmaiou; fui eu que estuporei você. Eu estava passando pelo corredor próximo a sua ala quando ouvimos os gritos.

— Eu não lembro de ter gritado.

— Você não gritou — ele disse. Foi quando ela reparou que ele estava muito pálido. — Foi Olleant.

— Quando o dementador sugou a alma dele? Eu ainda não entendo porque o dementador se virou contra ele no último momento, isso não faz sentido.

O olhar de Theodor estava cheio de gravidade quando ele, devagar, se sentou na ponta da cama dela. Quando percebeu que ela não ia impedi-lo, pegou a sua mão direita, a que não estava coberta com ataduras, e a virou de palma para cima. Bervely não se esquivou, distraindo-se ao ver que a sua mão também estava coberta de sangue até os cotovelos, sua palma tão vermelha que parecia a pele de uma salamandra.

— O dementador não fez nada com Olleant, Bervely… você fez. Ouvimos os gritos dele e quando chegamos lá você tinha acabado de arrancar os olhos dele com as suas mãos nuas. Havia tanto sangue que mal compreendemos no início, mas você avançou para uma nova investida e eu a contive. Logo em seguida ele caiu morto.

Beverly sentiu uma pontada estranha no peito, que veio junto com uma sensação engraçada nas pontas dos dedos. Acabara de recuperar uma memória muscular, como o fantasma de um movimento que realizara num passado recente. A sensação virou seu estômago do avesso. Um aperto insuportável foi crescendo pela sua garganta.

— Você está dizendo que eu fiz isso? — perguntou, a voz estrangulada pelas implicações da sua constatação.

— Ele sei que ele levou o dementador para beijar você, eu não a culpo… mas vai ser difícil convencer o júri

— Ele era Carmichael — ela disse afobada, num fio de voz, o corpo todo tremendo. Havia tanto sangue que mal compreendemos no início.

Pedi para checarem Carmichael logo depois que deixamos você aqui. Ele está em sua própria cela, curiosamente sofrendo com febre e delírios, mas esteve lá o tempo todo como o Quarter da ala dele me garantiu.

Bervely estendeu o braço direito e alcançou um balde de latão ao lado da cama bem em tempo de vomitar bile verde nele, o único conteúdo do seu estômago outrossim vazio. Se afastou fraca, luzes negras piscando na frente dos seus olhos.

Eu acredito em você — Theodor repetiu num sussurrando bem baixo, dando um apertão em seu ombro. — Mas parece ruim, entende? Um auror morreu em sua cela na véspera do seu julgamento, não qualquer um, mas um que iria testemunhar contra você amanhã. É provável que o julgamento seja adiado para que façam uma investigação interna.

— Por favor, vá embora — ela pediu com a voz vacilante. Queria deitar em posição fetal e morrer, mas não podia fazer isso com ele ali parado.

No entanto parecia que Theodor ainda não terminara sua agenda para o dia:

— Escute. Você deve saber que estou cuidando de Charlotte.

A mudança brusca de assunto adicionou um pouco de tontura ao seu estado geral.

Cuidando? — não teve forças para ir além; o mundo estava girando fora dos eixos.

Matara um homem com as suas próprias mãos. Olhou para elas e percebeu que havia algo escuro, nojento, debaixo de suas unhas. Pedacinhos mortos de Victor Olleant. Bervely quis dar um grito de horror, mas tudo o que saiu foi um choramingo de repulsa.

— Eu a coloquei em um lugar seguro, longe da influência de Bellatrix. Ela me contou toda a verdade, tudo o que aconteceu com vocês duas, com Hector, todas as mágoas do passado que trouxeram vocês duas ao ponto em que estão agora. Eu acredito que ela ainda se importa com você, só está com medo de tomar a decisão certa.

— Ela lhe contou “tudo” e você a colocou num lugar seguro? — Bervely torceu o rosto, sentindo que uma nova onda de náusea estava a caminho. — Você é um idiota.

— Vocês não precisam ser inimigas! Não vê como são parecidas? Eu tenho tentado convencê-la a testemunhar contra Carmichael já que ela é a única pessoa que pode endossar um julgamento para filho da mãe mesmo sem a colaboração dele, ela sabe o suficiente para isso e com certeza pode achar as provas se quiser!

— Ah, é? — Bervely queria morrer. Só morrer. Se apenas o ex-auror e ex-parceiro de alquimia colaborasse...

— Acho que atingimos um ponto importante há algumas noites. Ela me confidenciou uma coisa que jamais contaria se não confiasse em mim. Na verdade, foi isso que me trouxe aqui hoje.

— O que aquela cobra venenosa lhe disse? — perguntou num assomo de humor descarnado. Queria arrancar os olhos dele por ser tão idiota. Pena que um de seus braços ainda estava inútil.

— Não posso contar, prometi a ela que guardaria segredo. Mas acredite em mim, Bervely, eu vou resolver isso. Eu não posso negar que guardo mágoa por tudo o que fez com a minha carreira e pela forma como traiu a minha confiança, mas eu não quero que você morra aqui dentro, e o que aconteceu hoje à noite…

— É tarde para se arrepender, Theo. Agora eles também vão me julgar por assassinato e você mesmo disse, não vão acreditar que agi em legítima defesa.

— Eu tenho um plano. Vou convencer Charlotte a colaborar. Ele parecia tão confiante de si mesmo, tão ingênuo. Bervely meneou a cabeça, porque teve um vislumbre de como aquilo se desenrolaria. Era como se visse o passado se repetir à sua frente. Em seu estado ainda dopado, só conseguiu sentir uma terrível melancolia.

— Sabe o que aconteceu com a última pessoa que confiou em Charlotte?

Ele percebeu o que ela queria dizer e negou com a cabeça.

— Eu não sou nada como o seu primo. Preciso ir. Tente não perder sua alma até o amanhecer, sim? Vai dar tudo certo.

***

Quando acordou de novo os cães latiam ao longe, na borda mais externa da ilha. Estava tão atordoada, arrancada de um pesadelo confuso em que era julgada e a sua sentença era passar o resto da vida em uma jarra na prateleira de ingredientes de Snape, que ficou deitada vários minutos tentando se orientar.

Ah, sim. Enfermaria de Azkaban, ataque de Thor-Olleant, estuporação, pacote completo. Não entendia porque agora que estava ‘bem’ não tinha sido devolvida à sua cela; certamente preferia voltar do que ficar deitada ali, ao lado do corpo do homem que aparentemente enoculara e assassinara mais cedo.

Nova onda de náuseas com aquele pensamento furtivo. Estava se levantando para alcançar o balde de latão quando um longo uivo cortou a noite, arrepiando os pêlos de sua nuca e lhe despertando um incômodo visceral que ela rapidamente dispensou. Cães infelizes, resmungou, decidindo que a tontura era maior que a vontade de vomitar e se deitando de novo. Aquela noite não podia terminar rápido o suficiente.

Os cães silenciaram todos de uma vez. Bervely fechou os olhos e se concentrou no barulho do mar, tentando pensar em outra coisa que não fosse o corpo de Thor-Olleant há poucos metros.

Legítima defesa, ele ia matar você.

Havia tanto sangue que mal compreendemos no início.

Não demorou muito tempo para alguma coisa mudar no ar; de repente, como uma tempestade se aproxima, tudo ficou frio. O ar de Azkaban, que por si só já era pesada e difícil de respirar, se tornou ainda mais denso e carregado em desesperança. Por um momento achou que estava delirando, mas começou a ouvir vozes alteradas vindas do lado de fora da enfermaria.

Vozes dos aurores, uma movimentação estranha. Um grito. Alguém exclamou; ela ouviu distintamente apesar das paredes abafadas: expecto patronum!

Bervely voltou a se sentar, dessa vez alerta. Os gritos, vozes e confusão pareciam vir de distinto lugares da prisão, a diferentes volumes, exclamações, gritos e ordens viajando pelos corredores, reverberando pelas pedras, mais abafadas ou mais claras a depender de sua proveniência.

— Não saia da cama — disse uma voz atrás dela, a sobressaltando quando sua perna estava a meio caminho do chão. Ela virou para ver o medibruxo de mais cedo vindo dos fundos da enfermaria. Ele trazia a varinha em punho, o que não era de jeito nenhum protocolo da prisão: staff não era autorizado a carregar suas varinhas, elas eram deixadas na entrada junto com qualquer outro artefato mágico em que prisioneiros pudessem pôr suas mãos num momento de distração.

— O que está acontecendo? — exigiu saber, mas o homem estava tão perdido quanto ela.

— Vou verificar. Não saia da sua cama.

Ela fez cara feia e o assistiu atravessar a enfermaria até as portas duplas de metal. Quando a empurrou, as vozes alteradas do lado de fora ficaram mais claras. Ela viu um vulto prateado passar voando através da brecha, mas ser engolido por uma escuridão inexplicável aguardando no fim do corredor. Um gemido agoniante – um baque surdo. O frio e o barulho de matracas estalando lhe deram uma noção do que compunha aquela escuridão.

O medibruxo voltou a fechar as portas, muito pálido.

Diabos, “de volta ao controle” meu traseiro…! — murmurou consigo mesmo, correndo para um armário ao fundo e vasculhando uma gaveta, sem achar o que procurava.

— O que está acontecendo? São os dementadores?

Ele quicou até o cadáver de Olleant, puxou o lençol sem aviso e arrancou alguma coisa brilhante do pescoço dele, que estendeu na direção de Bervely com um tom urgente.

— Coloque isso, mas eu não sei se vai ajudar, diabos.

Era um dos porta-patronos que os quarters usavam para uma moderada proteção contra os efeitos dos dementadores, mas que até onde ela sabia, não os afastava nem protegia de um possível beijo. Bervely aceitou mas não colocou o colar.

— O que é que está acontecendo lá fora? — perguntou de novo, com mais impaciência dessa vez. Aquela noite longa e cheia de eventos estava perdendo a graça, e ela gostaria de poder evitar uma nova tentativa de desalmamento se pudesse.

— O quartel de segurança da prisão achou que havia recuperado o controle dos dementadores que permaneceram na ilha após a conjuração de Você-Sabe-Quem no verão — disse ele afobado, voltando a revolver gavetas e armários com urgência, enquanto a movimentação lá fora se tornava cada vez menos ordens e feitiços e cada vez mais gritos agonizantes e caos — Pelo que parece, os dementadores só estavam esperando o momento certo para se revoltar. Estão limpando a prisão — completou com um tremor visível. — Preciso enviar uma mensagem, mas conjurar um patrono pode atrair os dementadores para cá.

Ela piscou surpresa.

— Uma mensagem para a o DELM? — ela perguntou, tentando ignorar os gritos dos quarters do lado de fora. Não era tarefa fácil; seu corpo todo tremia – Acha que eles vão chegar a tempo de fazer alguma coisa, com todos os feitiços de anti-aparatação ao redor da ilha?

— Não, não para o DELM. Coloque seu porta-patrono se não pretende perder sua alma, Srta. Black!

Ela se apressou a obedecer, estranhando a proatividade do medibruxo e se perguntando se ele tinha treinamento de auror também. Assistiu quando ele conjurou um patrono corpóreo que tinha a forma de um animal de quatro patas e o enviou pela janela.

Foi quando percebeu que agora tudo estava silencioso do lado de fora. Sem mais gritos. Sem mais luta. de certa forma, era ainda pior, porque significava que os aurores não estavam mais resistindo. E que muitos dementadores agora tinham as suas barrigas cheias…

— Vamos selar as portas — ela sugeriu, preocupada de que fossem os próximos aperitivos. — Me dê uma varinha, eu posso me defender!

Sabia que era estúpido pedir; ainda era uma prisioneira, o medibruxo não ia lhe dar uma varinha mesmo naquelas circunstâncias, mas o que recebeu ao invés disso foi um olhar frustrado:

— O que acha que estou procurando esse tempo todo? Eu tinha uma sobressalente em algum lugar, específica para magias de cura, mas não consigo encontrar–

Alguma coisa entrou pelas janelas altas da enfermaria, um vulto negro furtivo que obliterou a luz e mergulhou-os num profundo e enregelante desespero, que se inflou de uma só vez como um balão. Bervely ficou paralisada enquanto a criatura — o dementador mais ágil que já vira na vida – flutuou num arco gracioso direto para a garganta do medibruxo, sem lhe dar tempo de reagir.

O grito ficou preso em sua garganta, enquanto assistia em primeira mão a alma do homem ser devorada. O corpo dele tremeu inteiro, mantido firme e pendurado pelo aperto da mão podre em torno de sua garganta, e com um longo gemido ele amoleceu e relaxou. A criatura o soltou em poucos segundos; um saco sem essência, vivo porém oco, caindo sentado no chão com um baque surdo.

Em seguida, o dementador se virou para ela, o capuz ainda abaixado. Dessa vez Bervely teve a chance de encarar seu buraco sugador de alma escancarado, estalando como se cheirasse o ar até ela e tentasse descobrir que gosto ela teria.

Ela se preparou para correr, o porta-patrono lhe dando alguma vantagem em relação ao seu último encontro com um dementador na cela, mas a criatura pareceu mudar de ideia. Recuando no ar, deu a volta e saiu pela janela.

Bervely olhou boquiaberta, quase ofendida. Será que sua alma era tão sombria que nem um dementador a queria?

Você matou um homem hoje. Talvez a sua alma esteja com o mesmo gosto de sangue que está em sua língua…

Ainda numa nuvem de incredulidade e choque, Bervely se arrastou até a casca vazia do medi-bruxo e procurou a sua varinha, sem saber direito porque. Pretendia tentar fugir da prisão? Deveria esperar ali até que o DELM chegasse? Será que o próximo dementador a encontrá-la seria tão seletivo quanto aquele último? Ela achava que não… mas a varinha do bruxo desalmado estava carbonizada. Ela percebeu que o cerne fora queimado, como se a alma da varinha também tivesse sido sugada pelo dementador no processo.

— Infernos — se permitiu praguejar pela primeira vez na noite. A rosa, que até então estava anestesiada, começou a formigar de novo, lhe distraindo e incomodando. — Péssima hora, mamãe. Não estou com humor para xadrez agora, abrigada.

Como se fosse uma resposta, alguma espécie de luz verde irradiou através da janela gradeada no topo da enfermaria. Era estranhamente familiar e lhe trouxe uma palavra à mente: um chamado. Curiosa, Bervely se moveu até que ficasse no ângulo certo para ver exatamente qual a fonte da luz no céu pesado de nuvens. Não foi difícil achar a projeção, alinhada com o topo da torre central de Azkaban, como uma cereja macabra flutuando no topo de um bolo:

Tratava-se de uma caveira monumental, e da cavidade negra da sua boca saía uma ser. Era a marca-negra de Voldemort.

Enfim.

— SENHORAS E SENHORES, SEJAM BEM VINDOS À LIBERDADE DE UMA NOVA ERA NO MUNDO DA MAGIA — o som magicamente amplificado de uma voz masculina crua retumbou na noite, audível em todos os cantos da ilha, e consequentemente penetrando em todas os recantos da fortaleza — NOSSOS ALIADOS TIVERAM A BONDADE DE LIMPAR O CAMINHO E EM BREVE AS SUAS CELAS SERÃO DESTRANCADAS. AQUELES QUE DESEJAREM SE JUNTAR À MIM DE CORAÇÃO PURO, ESTAREI OS RECEBENDO NO CAIS. AOS DEMAIS… BOA SORTE COM OS DONOS DE DIREITO DA ILHA, QUE A PARTIR DE AGORA ESTARÃO DE VOLTA AO CONTROLE.

Lord Voldemort está recrutando, ela pensou com assombro. “De coração puro” era decerto um eufemismo para “comprometidos com a missão de limpar o mundo bruxo da escória impura”, como ela ouvira muitas vezes falar em sua infância.

Ouviu estalos; como prometido, por toda a prisão os feitiços de encarceramento foram cancelados e as grades se abriam, dando a chance aos prisioneiros de escolherem se aliar às fileiras de Voldemort ou “negociar” a alma nas mãos dos “donos de direito da ilha”.

Bervely não soube quanto tempo ficou parada na enfermaria encarando a marca-negra, numa mão a varinha queimada do medi-bruxo que ela nunca soubera o nome, na outra a rosa formigando, e o seu coração palpitando na garganta.

***

Quando Bervely pisou no pátio externo da prisão, uma brisa inesperadamente gentil envolveu seu rosto e seus cabelos sujos, se infiltrou pelo uniforme folgado e arrepiou seu corpo.

Haviam cerca de trinta prisioneiros acumulados num pequeno círculo no centro do pátio. Daquela distância ela só via suas silhuetas contra a luz verde da marca-negra; muitos deles a encaravam embasbacados. Os dementadores estavam fora de vista; o que deixava o ar muito mais leve e respirável. Era estranho; ela se sentia quase eufórica.

Havia também três silhuetas encapuzadas perto do grupo, usando máscaras; comensais da morte, reconheceu de imediato, sem saber como. Nunca os vira pessoalmente… mas tinha uma vaga lembrança de cruzar uma ou duas vezes com a máscara de Bellatrix quando era criança. Será que ela estaria entre eles? Seu coração se acelerou de repente.

— Se aproxime, docinho! Venha dizer oi para a sua nova família — disse uma voz irônica e gutural vinda de um dos encapuzados maior; a voz de um monstro comedor de criancinhas.

Bervely respirou fundo, ordenou às pernas que funcionassem e começou a atravessar o pátio em passos incertos. Quando chegou mais perto, um dos prisioneiros reunidos ali deu uma risada bem humorada:

— Não é a nova família dela, Fenrir é a primeira e única. Olha só o que temos aqui, Bella, quem diria?

A outra figura encapuzada se virou; estivera conversando com um dos prisioneiros, alto, magro e gatuno, que Bervely custou a reconhecer; era Rodolphus Lestrange, que um dia fora, a contragosto, seu pai adotivo. O que significava que a comensal só podia ser…

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— A criança indigna enfim dá o ar da graça — a voz de Bellatrix flutuou até ela por trás da máscara, carregada em sua costumeira zombaria — Você tomou seu tempo, não tomou, estava querendo fazer um suspense?

O homem que a anunciara para Fenrir deu uma risadinha; ela estreitou os olhos, tentando descobrir de onde o conhecia… ah, Rabastan Lestrange, o irmão mais velho de Rodolphus. Mal se lembrava de que ele também estava em Azkaban, e a última memória que tinha dele em nada se assemelhava com a sua feição descarnada de agora. Havia uma profunda cicatriz cortando seu rosto da têmpora esquerda até o queixo.

— Eu… estava na enfermaria — ela disse debilmente, depois percebeu que aquilo não justificava nada. A enfermaria era mais perto do pátio externo do que todas as celas, e se tivesse vindo imediatamente após o chamado, teria sido a primeira a chegar. Ela arfou, sem saber o que dizer agora que estava frente em frente à mãe.

— Aqui, senhorita Black — o terceiro comensal avançou na direção dela e jogou uma capa sobre os seus ombros. Era negra e pesada, exatamente como a que os outros comensais usavam. Ele tinha um sotaque francês, e ela viu olhos escuros por trás da máscara — É um prazer finalmente conhecê-la. Bellatrix, você deveria dar uma melhor assistência à sua filha, tudo pelo que ela acabou de passar deve ter sido bastante traumático.

— Não me diga o que fazer com a minha filha, Neveu — disse Bellatrix friamente ao homem.

— Além do mais, não subestime a bastarda, Neveu. Ela puxou bem à mãe, é capaz das maiores atrocidades sem nem mesmo piscar. Eu mesmo a vi queimar um homem vivo… aliás, ouvi dizer que você andou arrancando uns olhos mais cedo, sobrinha querida?

Bervely recuou e girou para encarar a frieza cínica de Lucius Malfoy e tomou um choque. Ele parecia terrível, como um cachorro de madame que de repente fora forçado a viver nas ruas revirando latas de lixo. De toda forma, Bervely estremeceu com a menção do evento de mais cedo. Como Lucius poderia saber daquilo, pela varinha sagrada de Slytherin?

— De nada, à propósito — Bellatrix sussurrou maldosamente ao seu ouvido. Ela se sobressaltou:

— Foi você que…?

— É claro que fui eu, criança, por favor. Acha mesmo que estava em condições de se defender de Carmichael? Eu tive que tomar o assunto nas minhas próprias mãos… literalmente.

Ela podia imaginar o sorriso malicioso de Bellatrix por trás da máscara. Não sabia se ficava aliviada por não ser culpada direta da morte de Olleant ou terrificada de que Bellatrix tivera tão fácil acesso ao seu corpo e a controlara para cometer um assassinato.

— Por falar no diabo… — Lucius murmurou por entre os dentes amarelados, indicando a porta da prisão que Bervely atravessara há poucos minutos.

Bellatrix se aprumou, erguendo sua varinha arqueada e pontuda como a garra de uma fera. Bervely, para seu horror, percebeu que Lucius estava certo; alguém vinha mancando na direção deles e logo que a luz verde atingiu seu rosto, Bervely reconheceu as cicatrizes na face desfigurada do bruxo de seus pesadelos.

— MAS COMO OUSA–

— Bella — uma voz suave atrás dela pareceu tentar lhe apaziguar os instintos. Era Rodolphus, ou ainda, o que Azkaban fizera dele, uma carcaça magra, como de um gato selvagem que lutara por cada pedaço de carne nas profundezas da selva por anos à fio — Lembre-se–

— Eu me lembro, Rod. Diabos. Mas como ele se atreve, Milord vai usar o couro dele para cobrir seu túmulo quando enterrá-lo vivo.

A despeito da ira de Bellatrix, Thor Carmichael mancou até o grupo devagar mas com certa dignidade. Não foi até ele chegar perto Bervely percebeu que ele estava se guiando pelo som; seus olhos estavam lá, porém opacos e desfocados. Estava cego. De alguma forma o dano que ela – não, que Bellatrix fizera no corpo de Olleant o atingira. Ela sentiu uma estranha satisfação em saber. Ao mesmo tempo, recuara para a sombra de Bellatrix e puxara o capuz sobre a cabeça, sem querer que Thor lhe visse.

— Lady Lestrange — Carmichael disse assim que estava perto o bastante para ser ouvido, fazendo uma leve reverência com a cabeça. Bellatrix mantinha a varinha apontada para ele e atrás da máscara, seus olhos estavam franzidos com desprezo. — Gostaria de poder dizer que é um prazer reencontrá-la depois de tantos anos, mas não me parece uma noite para hipocrisias.

— Me dê uma razão para não abrir você em uma poça de sangue e entranhas agora mesmo nesse pátio, seu verme — a comensal disse entre os dentes — Parece o tipo certo de noite para isso.

Carmichael não pareceu especialmente atemorizado diante da ameaça. Bervely gostaria de supor que ele estaria mais humilde depois de falhar em seu ataque e tentativa de escape mais cedo; por outro lado, aquela postura indiferente devia ser tudo que lhe restava.

— Eu tenho informações privilegiadas que acredito que o seu Lord gostaria de obter em troca de trégua…

— ATRASADO QUINZE ANOS – Bellatrix se alterou, a mão da varinha tremendo, a ponta soltando fagulhas perigosas. Então com a voz subitamente mais controlada, sibilou: — O lord pouco se importa com as suas informações privilegiadas, ele achou outros meios, você se tornou obsoleto.

— Eu insisto em discordar…

— CRUCCIO! — a comensal o amaldiçoou, perdendo a paciência. O bruxo desmontou, joelhos e mãos no chão, de quatro e tremendo. Bella prolongou o feitiço até ouvi-lo gritar, então pareceu satisfeita e o interrompeu, deixando que ele desabasse pateticamente no chão de pedra, semi-morto sob a marca negra.

Rodolphus se inclinou e sussurrou alguma coisa no ouvido da esposa. Bervely teve a impressão que ela rolava os olhos.

— Muito bem, podemos terminar essa festa no barco. O lord nos aguarda! — ela parecia feliz de novo, agora que Carmichael era uma massa acabada no chão. Bervely não podia negar que também estava satisfeita. Bellatrix fez um sinal para um prisioneiro de rosto longo e mau, com uma barba emaranhada e olhos cruéis.

— Macnair, recolha essa carcaça e traga conosco, eu ainda não acabei com ele.

O grupo seguiu para os portões; Bervely tomou um pouco de distância do grupo principal de comensais e se misturou aos demais prisioneiros, querendo um pouco de ar e quem sabe organizar os seus pensamentos agitados. O homem chamado Macnair, que ela lembrava agora ser um dos velhos comensais que retornara à prisão após a batalha no ministério, estava arrastando Carmichael como se fosse um pacote de carne, enquanto esse parecia semi-acordado. Bervely pessoalmente preferia que ele fosse deixado em Azkaban para ser devorado pelos dementadores, mas se estes não tinham querido a sua alma, certamente não iam arriscar devorar algo imundo como a dele…

— Hey, eu conheço você! Garota do banho de sol!

Bervely virou o rosto espantada, identificando quem lhe sussurrara; era Lalau, o ex-condutor do Nôitibus Andante que ela conhecera há uma semana no pátio de Azkaban. Ele era uma das últimas pessoas que esperava ver num grupo de recrutamento de Voldemort, mas então, como poderia julgá-lo? Também estava ali…

— Essa é Yasi — ele apontou para uma garota esquelética de olhos tristes que seguia ao seu lado — Ela era minha vizinha de cela.

— Olá — acenou a garota, apática. Ela correu seus olhos devagar pela capa negra de Bervely e perguntou: — Você é um deles?

Bervely não respondeu, mas as palavras de Rabastan no pátio queimaram em seus ouvidos: não é a nova família dela, Fenrir, é a primeira e única.

Então ela lembrou de Sirius, o que ele pensaria se a visse ali, a caminho do barco de Voldemort, rumo à “uma nova era no mundo da magia”? Teve vontade de cobrir a cabeça com o capuz de novo, mas agora estavam atravessando os portões externos do pátio rumo ao caminho estreito que levava até o cais de visitantes.

Bervely ficou apreensiva por um instante; sem os quarters para guardar as entradas, quem estaria controlando os cães carniceiros da prisão? Theodor a levara para vê-los uma vez, as famintas criaturas, metade cães, metade crupes, que eles mantinham famintas para devorar desertores. Lembrou de tê-los ouvido latir mais cedo… duvidava que três comensais pudessem dar conta de centenas de cães mágicos famintos que eram resistentes à maioria das magias conhecidas pelos bruxos. Ela atrasou o passo a fim de ficar na traseira do grupo que seguia se arrastando pelo caminho, liderado pelos comensais, pensando que se fossem atacados, ainda teria alguma chance de fugir.

— É desse jeito que você está tentando não perder a sua alma? Não me parece muito eficiente.

Bervely virou para o lado em choque. O último dos prisioneiros seguindo com eles tinha o rosto sujo; ela custara a reconhecê-lo nos trajes da prisão.

Theodor! O que diabos-?

Até ali, tinha suposto que Theodor havia deixado a prisão muito mais cedo, pegando o barco na última viagem que ele fazia até o continente, no fim da tarde. Theodor em roupas de prisioneiro era um contra-senso, e mais uma vez ela quis bater nele por ser estúpido. Quando Voldemort descobrisse que um auror estava em seu grupo…

— Como você escapou dos dementadores? — Bervely perguntou quase sem emitir ruído, com medo de que Bellatrix ou outro comensal a ouvisse, mas eles estavam todos na dianteira, alguns metros à frente.

— Eu percebi que algo estava estranho, me disfarcei de prisioneiro e ocupei uma cela vazia. Os dementadores tinham um acordo com os comensais; pouparam os prisioneiros. Acreditaram que eu era um deles, já que não tenho mais o meu distintivo…

— Então no fim das contas perder o seu emprego salvou a sua vida — ela disse com inevitável presunção — De nada por isso.

Theodor não achou graça. Na verdade, o rosto dele estava duro e o olhar intenso; ela conhecia aquela expressão. Ele estava pronto para o combate, provavelmente pensando em um plano. Era uma má ideia, o que quer que fosse, mas antes que Bervely pudesse lhe dizer isso, ele pousou uma mão em seu ombro e perguntou com a voz esperançosa:

— Bervely, você está mesmo se alistando? Ou só está aqui para escapar dos dementadores?

Ela engoliu em seco, olhando mais adiante. O cais já era visível agora, uma longa ponte de madeira se estendendo sobre a água na direção do barco característico de Azkaban, Caronte II. Ela mordeu os lábios.

— Que diferença isso faz?

— Faz diferença pra mim — ele disse quietamente. Bervely suspirou com impaciência.

— Theodor, se você veio aqui atrás de redenção, da sua ou da minha, preciso informá-lo de que é tarde demais para ambos. Voldemort vai matar ou deixar para trás quem não estiver com o coração puro, então eu espero que você tenha pensado bem antes de entrar nessa fila.

— Há pessoas inocentes aqui, se alistando por desespero — ele murmurou, olhando furtivo para Lalau, que estava logo adiante, e sua colega triste — Eu acredito que você é uma delas. Se eu estiver certo sobre isso… bem, eu tenho um plano. Mas vou precisar de ajuda.

— Não banque o herói — ela se viu pedindo por entre os dentes.

— Distraia Bellatrix. Só preciso de dois minutos.

Eles trocaram um longo olhar. Bervely se lembrou de todas as vezes — inúmeras vezes — que eles tinham ficado até tarde cozinhando poções impossíveis juntos, no Instituto Flamel. Todas as descobertas que tinham feito sozinhos. Seu grandioso projeto de conclusão de curso no qual ela estivera trabalhando com a ajuda dele, e que provavelmente nunca terminariam. Então ela lembrou de um Theodor mais jovem e mais inocente pintando as runas no corpo seu corpo (embora ele achasse que fosse Charlotte, na época), apenas porque queria protegê-la, mantê-la segura, à despeito de sua própria carreira.

— Dois minutos.

Bervely apertou o passo e atravessou o grupo até a frente novamente, a cabeça baixa sob o capuz, bem na hora em que subiram ao cais onde o barco esperava. Voldemort estava à proa — sua figura alta e majestosa aguardando calmamente, como se invadir Azkaban e entregá-la aos dementadores fosse coisa corriqueira em seu currículo de maldades. Bervely pensou em todas as pessoas que tinham ficado para trás, e com as quais os dementadores iriam se banquetear, e se sentiu tonta. A maioria deles tinham cometido crimes, mas em sua opinião poucos crimes mereciam ser pagos com a própria alma…

— Experimentando hesitação, criança? — Bellatrix lhe perguntou quando Bervely parou ao seu lado. Ainda era estranho tê-la ali depois de todos aqueles anos, especialmente depois que Bellatrix a tinha rechaçado em seu último encontro em Azkaban, quando ainda estava presa. Era como se a bruxa estivesse lhe dando uma chance de redenção, mas Bervely não sabia o que fizera para merecer isso.

— Eu só queria... obrigada — ela disse sob a respiração. — Por me defender de Carmichael mais cedo.

— Eu não podia deixar aquela escória de gente encostar as mãos sujas em sangue Black, é claro — ela sibilou. Bervely assentiu, amargando. É claro, não fora nada pessoal. Bellatrix estava defendendo a linhagem, não ela. Sempre a linhagem.

Bervely respirou fundo, controlando qualquer coisa que estivesse querendo emergir de seu âmago para torná-la sentimental naquele momento crítico, e se concentrou e outra pergunta:

— Então foi você o tempo todo? Na cela comigo, na última semana?

— Naturalmente — a comensal assentiu, depois suspirou entediada. — Seu amigo vai acabar se matando… pior pra ele, menos um para me irritar mais tarde.

Bervely se alarmou com a afirmação desprovida de emoção de Bellatrix e virou para trás; percebeu que Theodor estava correndo na direção oposta, deixando o cais e pisando na areia fofa da praia. Os prisioneiros e comensais tinham parado para assistir; os comensais liderando o grupo também, mais intrigados do que preocupados. Ela viu quando Theodor tirou de dentro do uniforme alguma coisa em torno do seu pescoço; achou que era um porta-patrono, mas ele o levou até a boca e soprou, emitindo um silvo longo e fino, quase inaudível para o ouvido humano, mas irresistível para os ouvidos caninos.

— Oh, ele não vai – rosnou o comensal grandalhão ao lado de Bervely, que tinha a voz de um animal selvagem. Havia satisfação incrédula em seu tom, quase como se estivesse torcendo por isso.

Bellatrix deu uma gargalhada.

— E pensar que íamos entrar e sair sem derramar sangue…

— Qual a graça disso? — Ferir completou num rosnado feliz.

Pares de olhos amarelos começaram a surgir em meio à escuridão da mata fechada que separava a fortaleza da praia. Um par, depois uma dezena… focinhos longos, corpos igualmente longos e amarelos foram brotando do escuro, cães enormes e magros se reunindo ao redor de Theodor, obedecendo ao seu chamado. Ele pareceu feliz por um momento; Bervely viu seu rosto de acender ao ver seus amados cães retornarem para ele – e por um momento ela acreditou que ia funcionar, que os cães iam lhe obedecer como fizeram no passado e que ele conseguiria cumprir o seu intento de salvar os inocentes que caminhavam para a armadilha de Voldemort.

Mas, ao seu lado, Fenrir soltou um assobio longo e agourento. Era uma ordem, e os cães, aqueles pobres cães que tinham se visto em abandono desde a expulsão de Theodor, ansiando por um novo ‘mestre’ por tempo demais e tendo achado na figura bestial de Fenrir uma autoridade maior do que a do bondoso humano que lhes adestrara, prontamente obedeceram.

Avançaram.

Rosnaram.

Cercaram.

— NÃO! — Theodor gritou para eles, a alegria do seu rosto varrida e dando lugar à confusão. — SOU EU! VOCÊS PRECISAM ME RECONHECER!

Os cães de Azkaban comem qualquer coisa. Mas tem especial gosto pela carne humana.

Eles são mantidos famintos para devorar qualquer um que se atreva a invadir seu território entre a praia e a fortaleza.

A poção do aurora de Theodor tinha cheiro de cães.

Bervely desviou o rosto; ela ouviu tudo mesmo assim.

Os gritos.

A carne se estraçalhando, sendo arrancada dos ossos.

Os ossos sendo separado das articulações.

O mar trouxe o cheiro metálico de sangue fresco e o azedo de pêlo úmido até o seu nariz, o qual ela nunca esqueceria.

Quando eles terminaram, Bervely estava tremendo, as unhas enterradas tão fundo nas mãos que abriram cortes em suas palmas. Bellatrix, ao seu lado, gargalhava e batia palmas. Aquele era o inesperado grand finale para o seu show.

Lá em cima, Voldemort estava indiferente ao espetáculo que se desenrolava. Bervely podia jurar que ele estivera analisando as unhas nas pontas dos dedos esquálidos de aranha com um ar de tédio.

— Mais alguém quer bancar o herói? Aposto que os cães ainda tem um espacinho — provocou Fenrir, esperando no silêncio terrificado dos prisioneiros que ainda tinham algum resquício de alma para se importar. — Muito bem, para cima então, camaradas.

Uma escada se desenrolou magicamente de Caronte II até embaixo, pousando no cais diante deles. O grupo foi encorajado a começar a subir. Bervely hesitou, principalmente porque não conseguia mover as pernas. Nem ver nada à sua frente. Nem respirar.

— Ele pagou por sua própria estupidez, não acha? — Bellatrix provocou em seu ouvido, quase uma canção de vitória.

Bervely mandou cerca de cinquenta ordens para que as pernas se movessem, querendo acompanhar os demais em direção ao barco antes que caísse na tentação de olhar para a praia. Quando conseguiu dar o primeiro passo a comensal a deteve, uma mão em seu ombro.

— Ainda não. Cheque os seus bolsos.

Surpresa, as mãos tremendo tanto que quase não conseguiu, Bervely colocou uma mãos em cada bolso da capa negra que lhe fora entregue mais cedo. A direita tocou em um objeto longo e familiar; sua varinha, a qual lhe fora tomada quando fora detida pelos quarters, quase um mês antes. A esquerda envolveu um objeto arredondado e duro, de formato irregular, que ela custou a reconhecer.

— Preparada para a sua primeira missão, criança?

This time, now we'll fade out tonight
Straight down the line
Straight down the line¹

(Continua…)

Notas finais
1. Vou respondendo todos os comentários do cap anterior devagarinho, tenham paciência comigo. Obrigada pra quem deixou comentário, continuem sendo lindas assim! 2. Estou dando doce virtual pra quem me apontar erros de continuidade. Se verem algum não deixem passar, pode chamar atenção na cara dura que eu aguento. 3. Música do capítulo: ¹The A Team - Ed Sheeran.