A Canção de Morgana
39 A Nova Senhora de Avalon
Notas iniciais
Anne abriu os olhos, mas só havia escuro. Mãos suaves encontraram os seus ombros; por reflexo ela se contraiu para longe.
— Está tudo bem, querida. Você está segura.
— S-Sophia? — ela ofegou, reconhecendo a voz da madrinha.
— Sim, sou eu. Não tente se levantar — as mãos voltaram a alcançá-la, empurrando Anne contra travesseiros macios. — Você ainda não está forte o bastante. Está com sede?
Anne assentiu. Sua garganta doía como se não bebesse líquidos há muitos dias e havia um gosto metálico, amargo, grudado na sua língua.
Sophia colocou em suas mãos um cálice gelado.
— É água-da-vida, vai fortalecer o seu coração e renovar as suas forças.
Anne obedeceu, dando-se conta de que dobrar os seus braços causava enorme dor em suas articulações. O líquido queimou-lhe a língua, forte, destilado e herbáceo, lhe causando imediato enjoo. Quando a bebida desceu, um forte calor se espalhou a partir do seu estômago vazio para o resto do corpo e ela logo se sentiu mais firme.
— Um pouco mais — Sophia encorajou. — Sente-se melhor?
A garota assentiu, pois a fraqueza tinha diminuído. A dor no entanto ainda estava lá, não só nos braços mas pelo resto do seu corpo, como intensas agulhadas em seus músculos a cada movimento. Os dedos doíam dos nós até as pontas. O pescoço e os ombros, a base da coluna e as pernas também reclamavam. Os joelhos, os maxilares, os quadris, tudo parecia ter sido moído.
— O que aconteceu comigo? — ela perguntou, a voz chorosa. — Onde é que eu estou?
— Você está em Avalon — disse Sophia, retirando o cálice de suas mãos e ajudando Anne a se acomodar melhor nos travesseiros. — Esteve adormecida por três dias, desde o confronto no topo do Monte Tor. A dor em seu corpo é resultado das várias exposições à maldição Cruciatus, eu suponho.
— O monte… — Anne murmurou, tentando se lembrar. O esforço fez a sua cabeça, a única coisa que não estava doendo ainda, começar a latejar.
— Você vai se lembrar — Sophia tentou tranquilizá-la, mas Anne conseguiu perceber a preocupação em sua voz. — Está com frio? Vou aumentar o fogo.
Anne sentiu a madrinha se afastar, o chão abafando seus passos. Logo ouviu o estalar de chamas e o cômodo ficou progressivamente mais quente. Anne pensou no que ela dissera. Estou em Avalon. Como podia estar em Avalon?
Ela apalpou o pescoço e descobriu que a Orbe não estava mais lá. Uma vaga memória de tê-la explodido em estilhaços flutuou na superfície da sua mente, mas fugiu como um passarinho apressado quando Anne tentou agarrar-se a ela.
— Não se esforce — Sophia a advertiu, voltando para perto.
— Eu não consigo mais ver — Anne disse, com medo. — O que... por que...?
Sophia ficou em silêncio. Anne estremeceu.
— Harry… onde é que ele está? Preciso vê-lo! Não consigo… não consigo mais vê-lo!
Nos últimos meses, achar Harry em alguma esquina de sua consciência tinha se tornado quase tão natural quanto respirar. Naquele momento, Anne descobriu que não havia a não ser um vazio onde normalmente a consciência do garoto se encontrava com a sua. Ela tentou se levantar.
— Eu preciso…
— Não — Sophia a impediu, outra mão gentil, mas firme, em seu ombro. — Harry Potter não está ao seu alcance, Anne. Insistir só vai machucar você. Vê?
Anne tateou o espaço sob o nariz, onde sentiu sangue morno escorrer. Ela parou de lutar, se encolhendo contra os travesseiros.
— Eu deveria poder encontrá-lo. Se ele estivesse vivo, eu deveria…
Sophia afagou o topo de sua cabeça, e com o seu toque vieram os seus sentimentos também. Sophia sofria por ela. Aquilo só podia significar uma coisa.
— Ele está morto? — Anne ofegou.
— Eu não sei, Anne.
— Bem, procure saber! Mande uma carta, ou… chame Dumbledore! Contate a Ordem da Fênix! Harry estava com eles, em Godric’s Hollow, Harry estava…
Harry estava comigo no topo do monte Tor.
— Não! — ela disse em voz alta, recuperando as lembranças mais rápido do que podia suportá-las. — Não era ele, era… o Reflexo, eu não… ele me obrigou, Voldemort, ele me fez…
Anne se contraiu, uma forte pontada em sua barriga fazendo com que se dobrasse, mas descobriu que não havia nada em seu estômago para ser vomitado – a água-da-vida pelo visto já se consumira, absorvida pelo seu corpo. Ela gemeu, o movimento de se contrair intensificando as dores em suas costas e pernas. Sophia mais uma vez tentou apaziguá-la, esfregando o seu ombro carinhosamente.
— Eu sinto muito, Anne. Eu gostaria de ter podido impedir o que aconteceu. Deveria ter insistido mais para que viesse comigo à Avalon no início das férias. Deveria tê-la mantido longe de Harry Potter.
— Você sabia que isso ia acontecer? — ela quis saber, a voz embargada.
— Não, mas eu sabia que algo iria. Não previ que seria tão rápido e tão… extremo. Houve uma interferência no que estava destinado a acontecer….
— Hildegard! — Anne ofegou, agarrando-se ao braço de Sophia. — Hildegard estava agindo para Voldemort! Ela era comensal dele, a primeira de todas! Ela traiu Dumbledore, fez uma horcruxe com Voldemort!
— É mais complicado do que parece, querida — disse-lhe Sophia, a voz cheia de pesar, mas sem parecer surpresa. — Mas não devemos falar sobre as decisões da Senhora do Lago, pois ela já não está mais entre nós e o que foi feito está feito.
— Voldemort a matou — Anne apertou os olhos com força, conseguindo se lembrar do estalo do pescoço da Alta Sacerdotisa ao se partir nãos mãos do bruxo das trevas, do seu corpo sem vida desabando frouxo no chão, os olhos abertos virados para ela.
— Sim — Sophia afirmou, e um pesar mais intenso do que Anne já tinha sentido flutuou da madrinha para ela. A mulher percebeu a transferência acidental e afastou as mãos de Anne com rapidez. — Sei que é muito para processar, mas asseguro-lhe de que está segura aqui. Enquanto estiver em Avalon, nada poderá lhe fazer mal. Nem mesmo Voldemort — ela acrescentou, para a pergunta silenciosa da sobrinha.
— Ele queria invadir Avalon — ela se lembrou. — Ele usou o corpo de Hildegard para abrir o portal, eu me lembro disso.
— Avalon é protegida por magia que Voldemort não pode compreender. Ele foi ingênuo em acreditar que matar Hildegard seria o bastante para assumir o seu lugar. Pode-se destruir o corpo da Senhora do Lago, mas nunca tomar o poder que lhe foi concedido. Enquanto houver sacerdotisas ao serviço de Avalon, o poder da Senhora do Lago permanece conosco.
O arrepio que Anne sentiu com as palavras de Sophia fez com que não quisesse fazer mais perguntas. Percebendo o seu silêncio, Sophia se aproximou de novo, tocando-lhe o braço com ternura.
— Eu preciso deixá-la por um tempo. Tenho alguns assuntos a supervisionar, mas quero que descanse e se recupere. Mais tarde, vou enviar uma das sacerdotisas checar você e, se sentir-se bastante forte, pode se levantar e presenciar a cerimônia de nomeação.
Anne lutou contra o sono. Sua mente queria analisar cada detalhe de que se lembrava e desvendar o que poderia ter acontecido no monte Tor, mas o seu corpo discordava. Poucos minutos depois que Sophia deixou o cômodo, e contra a sua vontade, ela adormeceu.
* * *
Ainda estava presa num estado inquieto entre o sono e a vigília, ouvindo os ecos dos seus próprios gritos misturados com pensamentos confusos, e se assustou quando a sua testa foi tocada por uma mão fria.
— Desculpe — disse uma voz feminina com um sotaque rústico. A mão se afastou da sua pele. — A sua madrinha pediu que verificasse se havia febre. Como se sente?
Anne fez um esforço monumental para se sentar, lutando com as suas articulações e músculos doloridos, tentando segurar um lamento de dor.
— Não muito bem.
— Sou Coreen. Estou no meu quarto ano de iniciação — disse a garota. A voz era jovial e animada. — É verdade que você estuda na escola de Hogwarts?
— Uh, sim — Anne assentiu, tentando se orientar. Não fazia a menor ideia de que horas seriam ou por quanto tempo tinha dormido.
— Tem fome?
— Não. — A ideia de comer fazendo o seu estômago se revirar.
— Mas é melhor comer alguma coisa. Aqui, pegue um pouco de pão.
Um pedaço de pão foi empurrado em sua mão. Anne ouviu o movimento de Coreen pelo cômodo e um ruído do que ela achou ser de tecido sendo desdobrado.
— Você deve vestir a cor dos visitantes, o que é uma pena. Não é muito vistosa.
— E que cor seria essa?
Houve um silêncio breve. Coreen devia estar percebendo que Anne não podia ver.
— Bege. Algodão cru, colhido e tecido aqui mesmo, sem tingir. Posso lhe ajudar a se vestir?
— Tudo bem — Anne concordou, sem jeito. Coreen a ajudou a ficar de pé e Anne descobriu que até as solas dos seus pés doíam. Descobriu que usava apenas roupas de baixo – não as suas, com as quais deixara Godric’s Hollow, mas uma camisola larga e algo que poderia ser um short folgado por baixo. A garota, Coreen, a ajudou a entrar em uma túnica áspera e amarrou uma faixa em torno da sua cintura.
— Você deve trançar o seu cabelo para a cerimônia. Está bastante embaraçado, mas conheço um bom encantamento para resolver isso. Se me deixar…?
Anne assentiu. Coreen se aproximou tomou e começou a deslizar os dedos pelo seu cabelo, murmurando algo que parecia uma cantiga de ninar. Os murmúrios trouxeram a Anne uma sensação estranha, fazendo-a se lembrar de outra música… ela estremeceu com a memória e Coreen afastou as mãos, de súbito.
— Desculpe, estou um pouco sem prática. Desde que raspei o meu cabelo para a iniciação ele está curto demais para embaraçar.
— Não foi você — Anne murmurou. — De que… que cerimônia está acontecendo hoje?
— A nomeação da nova Senhora de Avalon, é claro — ela disse, a reverência evidente na entonação de sua voz. — Por toda a noite velamos a nossa antiga Senhora e ao amanhecer o seu corpo ardeu nas chamas do rito de passagem. Hoje a Deusa apontará a próxima Senhora entre as suas sacerdotisas mais experientes. Aquela de maior poder e clarividência, que terá a honra de assumir o seu lugar.
— A Deusa? — Anne franziu. Coreen havia acabado de desembaraçar, e agora trançava o seu cabelo. A sensação era estranha, mas a garota tinha mãos suaves e precisas.
— A Mãe de todas as coisas — ela explicou, ocultando o que Anne sentiu ser uma incredulidade chocada. — A criadora de tudo que existe, a centelha da vida e o sopro da morte, tudo que há entre o nascimento e a partida.
Anne ficou em silêncio, sem saber o que dizer. Coreen deve ter percebido a sua confusão, pois deu uma risadinha.
— De onde acha que a magia vem, se não da própria Deusa?
— Eu não sei… da natureza, como todo o resto?
— Ah, bem! — Coreen sorriu, alívio em sua exclamação. — “Natureza” é um dos Seus muitos nomes, é claro. Ah, por favor, termine seu pão — pediu para Anne, que estivera segurando o pão por todo esse tempo. — Suponho que nunca esteve em Avalon antes?
— Não — Anne deu uma mordida no pão, mastigando sem vontade. Era mais amargo e áspero do que estava acostumada, mas não era ruim.
— Minha nossa. Venha aqui — Coreen a guiou até o outro lado do quarto e colocou as mãos dela em algo frio com uma borda. — É uma bacia com água limpa, para se lavar. Não demore, os ritos vão começar antes que a lua chegue ao seu ponto mais alto no céu.
* * *
Coreen guiou Anne para fora do lugar que estavam – que Anne entendeu ser uma habitação com muitos quartos, pelos sons de outras vozes femininas e pelo eco que se espalhava pelo corredor quando o atravessaram. Logo ela sentiu o ar fresco da noite, mas para a sua surpresa o vento não era gelado e o chão parecia elástico e fofo sobre os seus pés, como se pisasse em grama ainda verde, e não na grama seca e congelada, típica daquela época do ano.
Elas seguiram o fluxo de dezenas de mulheres que murmuravam baixo ou seguiam em silêncio ao redor. Anne não conseguia andar muito rápido, por conta das agulhadas dolorosas em suas pernas, mas Coreen não parecia se importar com o seu ritmo arrastado.
— …faz quase quatro anos que comecei o meu treinamento — ela explicou, sem que Anne tivesse lhe feito nenhuma pergunta. — No próximo verão eu farei o meu voto de silêncio. Mal posso esperar. Vocês têm o voto de silêncio na escola de Hogwarts?
Anne demorou a perceber que Coreen tinha lhe feito uma pergunta. Estava em Avalon. O ar que estava respirando era o do lugar mágico sobre o qual perguntara a Sophia inúmeras vezes, e para o qual desejara ir outras muitas. Um dos lugares onde, segundo a lenda, a magia nascera e renascia a cada ciclo do sol, alimentando todas as criaturas mágicas que existiam. Agora ela estava ali, mas não conseguia processar o fato por completo. Não conseguia afastar da sua mente a urgência do que tinha acontecido no topo de Tor e a sensação de que estava esquecendo de algo muito importante.
— Não, não temos — disse, e então arriscou. — Coreen, você sabe como a Senhora do Lago morreu?
Coreen nada disse por longos segundos. Anne sentiu o ar se adensar de tensão entre elas.
— Não devemos falar sobre isso, pois aconteceu do outro lado das brumas.
— Voldemort tentou tomar Avalon — Anne insistiu. — Sabe quem é Voldemort, não sabe?
O braço da garota, entrelaçado ao seu para que ela não caísse ao andar pelo terreno desconhecido, se retesou.
— Não discutimos esse tipo de assunto em Avalon.
— Esse “tipo de assunto”? — Ela repetiu, parando de andar. — Voldemort não é um “assunto”, ele é um bruxo das trevas que está provocando uma guerra no mundo mágico. Como podem "não falar" sobre algo assim?
Ela ouviu a respiração tensa de Coreen se adensar. Coreen respondeu baixo, como se tivesse medo que as sacerdotisas que viam mais atrás a ouvisse.
— As questões políticas que se desenrolam do lado de fora da ilha não têm importância para Avalon. Elas não podem afetar a ilha e não devemos nos deixar perturbar por elas.
— Como pode dizer isso? Voldemort matou a sua Senhora do Lago! Como isso não interfere em Avalon?
— Você precisa parar de falar agora — disse Coreen, com receio e uma dureza contrariada na voz. — As suas palavras podem perturbar a integridade da cerimônia de nomeação. Sei que não entende, mas deve respeitar as regras. Elas são maiores do que a sua indignação e mais importantes do que os assuntos mundanos que traz consigo.
— Por quê? Por que elas são mais importantes? — Anne se indignou, mas Coreen não lhe respondeu. Ela ficou quieta, deixando claro que aquela era a sua palavra final até que Anne tomou o seu braço de novo, à contragosto.
Coreen a guiou pelo resto do caminho, dessa vez em silêncio. Anne decidiu aproveitar a oportunidade para investigar os arredores com os outros sentidos, já que não podia usar os seus olhos. Subiam um caminho inclinado e ao mesmo tempo ligeiramente circular, o que lhe deu impressão de uma espiral. Quanto mais avançavam, mais frio ficava o ar, mais forte o vento e mais silenciosas as mulheres.
Não havia livros sobre Avalon. Tudo que Anne sabia lhe fora contado por Sophia, nas ocasiões em que a madrinha lhe visitava em St. Sensille, normalmente para o seu aniversário. Sophia lhe contara sobre o lago do tempo, com águas tão paradas quanto o vidro, onde sacerdotisas dotadas da Visão podiam perguntar sobre o passado, o presente e o futuro. Lhe falara também sobre o círculo de pedras no topo do monte, que era tão antigo quanto o tempo, no qual rituais de magia de poder inimagináveis aconteciam. Ela lhe falara sobre o treinamento em magia elemental pelo qual as sacerdotisas passavam – um tipo de magia diferente do que se ensinava em Hogwarts, para o qual varinhas não eram necessárias.
Durante a sua infância, Anne sempre olhara para Sophia com grande admiração. Ela invejava os seus movimentos contidos, a sua seriedade tranquila e a forma como magia fluía de suas mãos, tão natural como a sua respiração ou a sua voz. Ela achava as vestes de sacerdotisa elegantes e a crescente azul em sua testa misteriosa e bonita, e queria aprender o tipo de magia secreta e grandiosa que se fazia em Avalon. Por anos, ir estudar na ilha lhe tentara muito mais do que ir para Hogwarts. Sophia lhe dissera que ela tinha o dom da Visão e que seria treinada para controlá-la, o que a tornaria uma sacerdotisa poderosa.
Mas, quando Anne completou onze anos, Sophia não apareceu em St. Sensille para buscá-la. No verão seguinte, a carta de Hogwarts chegou para Anne e sua avó, que nunca tinha concordado com os planos de Avalon, fez Anne embarcar em Hogwarts contra a sua vontade. Nos seus primeiros meses em Hogwarts, Anne enviara cartas para Sophia sem parar, mas todas as corujas tinham voltado com as patas vazias.
As coisas só tinham melhorado quando Anne e Luna ficaram amigas – num episódio memorável envolvendo um narguilé fugitivo – depois disso, a Corvinal rapidamente se tornou uma segunda casa para Anne. Mais tarde, quando Anne descobriu que tinha uma irmã em Hogwarts, os pensamentos sobre Avalon foram afastados de sua mente de uma vez por todas.
— Chegamos ao círculo cerimonial — murmurou Coreen para Anne quando elas pararam de subir. — Normalmente você não teria permissão de assistir um ritual, já que não é iniciada, mas fui informada de que está aqui sob circunstâncias especiais.
É, eu quase morri, pensou Anne com amargura. Essas são essas as circunstâncias especiais no manual de Sophia.
Estava chateada por não poder enxergar de novo. Tinha passado muitos anos imaginando como seria assistir – ou participar – de um dos rituais mágicos de Avalon. Ela podia sentir o poder mágico do lugar, que vibrava fluindo da terra e eletrizando o ar. Tivera uma amostra daquele poder quando subira ao topo de Tor do outro lado das brumas, com o Reflexo de Harry, mas o que sentia agora era muito mais forte. A magia de Avalon tinha uma presença vinda das pedras e da terra, das árvores e do vento e das sacerdotisas que se reuniam ao redor do círculo.
— Você quer assistir? — perguntou Coreen. O tom de voz dizia que não estava mais chateada com Anne.
— Eu bem que gostaria.
— Vamos tentar uma coisa.
Coreen agarrou a sua mão, encostando palma com palma. Anne sentiu um arrepio familiar fluindo da mão da garota até a sua, um pedido de entrada confiante, muito diferente das tentativas erráticas de legilimência dos seus colegas em Adivinhação Avançada. Anne relaxou as suas defesas e deixou Coreen entrar, arfando de surpresa em seguida.
Ela podia ver pelos olhos da garota.
Estavam muito mais no alto do que pensara. Lá embaixo, a base do monte Tor estava envolto de bruma densa, mas conseguiu divisar o caminho pelo qual tinham subido: espiralava ao redor do monte como uma cobra clara, reluzindo à luz da lua cheia.
Estavam paradas dentro de um amplo círculo de pedras alvas. Cada pedra tinha cinco vezes a sua altura e havia dezenas delas, espalhadas num raio de uns treze metros de diâmetro. Muitas outras sacerdotisas – mulheres de várias idades, vestindo mantos longos e rústicos, alguns negros, outros azuis, compunham o círculo. Algumas tinham o rosto descoberto e Anne podia ver, sob uma iluminação fantasmagórica, as suas expressões sérias e as luas tatuadas no topo de suas testas, perto da linha onde o cabelo começava. Outras tinham os rostos cobertos por véus, e Anne se lembrou do que Sophia lhe dissera uma vez, sobre uma parte do treinamento em que as sacerdotisas não podiam ser vistas.
A iluminação fantasmagórica vinha das pedras, que emitiam um suave brilho mágico e emanavam um calor intenso. Anne notou linhas entalhadas no chão – símbolos mágicos intrincados que ela desconhecia, pulsando de luz e magia desconhecida.
Havia uma expectativa suspensa no ar, reverberando através do grupo. Antes que pudesse adivinhar o que ia acontecer, um silêncio profundo se abateu e a própria Anne prendeu a respiração. Do outro lado do círculo se aproximavam sete mulheres em túnicas cerimoniais muito mais elaboradas do que as vestes das sacerdotisas jovens que a circundavam e tão brancas que pareciam irradiar a mesma luz das pedras. Elas eram altas e majestosas; Anne sentiu uma reverência inexplicável, que beirava o medo – sentia-se diante de uma força familiar e grandiosa, da qual provinham todas as respostas, das perguntas ditas e não ditas. Uma sensação primária se enrolou em seu peito e a palavra mãe flutuou em sua mente, numa tentativa vã de nomear a sensação.
As sete sacerdotisas formaram um círculo menor entre elas e começaram a murmurar um encantamento – ou uma canção? Anne não estava bem certa. As palavras não eram compreensíveis, mas o significado era. Elas estavam pedindo pela próxima escolhida, a próxima mãe, a próxima filha…
Uma chama nasceu no ar, no centro do círculo menor, se alimentando do cântico das sacerdotisas. Não se parecia com nenhum fogo mágico que Anne já tinha visto ou conjurado – era branco-azulado intenso, e dançava como se estivesse vivo. Era senciente, ela soube, sem que ninguém precisasse lhe dizer.
Ao seu lado, Coreen apertava a sua mão com firmeza, a conexão entre as duas tão estável que Anne mal podia discernir os seus olhos dos dela. Virou o rosto, mas o que viu foi o seu próprio, muito surpreso.
No círculo o cântico se tornava mais urgente, alimentando a chama azul que crescia. As outras sacerdotisas começaram a endossá-lo baixinho e Anne se viu repetindo as palavras desconhecidas, que começaram a fluir dos seus lábios como se ela as conhecesse de outra vida. Ela percebeu que não estava só conectada à Coreen, mas também às outras mulheres. Elas buscavam pela mesma coisa, e a mágica de cada uma era a mágica de todas elas.
A próxima, a mãe, a filha, a senhora, a próxima, a mãe, a filha…
Anne sentiu um medo irracional brotar em suas entranhas. Seus pensamentos já não eram seus, ela já não sabia mais onde ela terminava e as outras começavam. Com o seu senso de integridade ameaçado, não tinha mais controle sobre os seus pensamentos ou suas ações… seus lábios se moviam junto com todos os lábios, sua mágica pulsava a serviço do círculo, independente da sua vontade…
Ela tentou se concentrar na chama que dançava, dizendo a si mesmo que não precisava ter medo. Estava em Avalon. Nada de ruim podia acontecer ali. Coreen apertou sua mão mais firme, como se tentasse assegurá-la.
A chama alcançou a altura das mulheres, tão ardente que era quase impossível encará-la. Girava, ardia e queimava seguindo as batidas da canção, oscilando entre as sete sacerdotisas que agora oscilavam em sincronia, mergulhadas em um transe profundo.
O cântico atingiu o seu ápice. As palavras eram gritos e mal se podia respirar entre os versos. A chama gigantesca se expandiu, se contorceu e virou uma flecha de fogo, girando no ar e se desprendendo do centro do círculo, deixando um rastro de luz atrás de si. Então se enrolou no corpo de uma das sete mulheres, transformando-a numa ardente pira humana.
Anne quase gritou, mas Coreen apertou a sua mão de novo, a tempo de impedi-la. A chama desapareceu como surgira, consumida pelo corpo da mulher, e as demais sacerdotisas caíram num silêncio mais escuro. A sacerdotisa escolhida abriu os olhos, saindo do seu transe. O mesmo fogo azul-prateado da chama agora queimava em seus olhos.
Anne, como toda as outras mulheres do círculo, fez uma reverência para a nova Senhora de Avalon. Mas antes de abaixar sua cabeça, ela teve um vislumbre do rosto da escolhida e a reconheceu: era Sophia.
* * *
— O que a perturba? As maçãs não são do seu agrado?
Anne não tinha nenhum problema com as maçãs de Avalon. Eram as melhores que já tinha provado: suculentas e impossivelmente macias, se dissolviam na boca como se tivesse as mesmas propriedades malignas do chocolate branco.
A questão era que, desde a cerimônia de nomeação, ela não vira mais Sophia. Coreen dormia no mesmo quarto que ela, no que Anne descobrira ser a Casa das Moças, o local onde as iniciadas moravam durante o seu treinamento.
Enquanto a acompanhava em passeios ao redor de Avalon, Coreen lhe explicara que Sophia precisaria passar por diversos rituais mágicos após a sua nomeação como a nova Senhora de Avalon. Esses rituais eram secretos – Coreen os chamara de Mistérios – e ninguém podia presenciá-los. Sophia não deveria aparecer em público antes de completá-los.
Anne não conseguia afastar a sensação de aborrecimento que aquilo lhe causava. Ela sabia que a posição de Senhora de Avalon era extremamente importante na ilha e que, em tempos passados já fora igualmente importante do lado de fora, equiparada à de reis e rainhas do mundo trouxa. Mas também lhe parecia que dava à Sophia a desculpa perfeita para deixar Anne no escuro.
Não ajudava que não só Coreen, mas todas as outras sacerdotisas se recusavam a falar com ela sobre os “assuntos mundanos do outro lado”. Anne tentara inquirir outras garotas da Casa das Moças sobre Voldemort e o ataque à Avalon, mas recebera olhares vazios ou ainda pior, silêncios aborrecidos que pareciam implicar que fazer aquelas perguntas era algum tipo de blasfêmia.
Avalon não tinha serviço de correio-corujas ou lareiras conectadas à rede de flú. A “ilha” não era circundada de água, mas de uma espessa parede de névoa através da qual não se via coisa alguma. Coreen as chamava de “brumas”. Eram parte do encantamento que separava Avalon do mundo real, encerrando a ilha num plano diferente daquele em que os outros seres humanos habitavam. Avalon existia no monte Tor, em paralelo com o monte Tor ‘do outro lado’, mas só sacerdotisas muito avançadas podiam afastar as brumas e atravessar de um lado para o outro.
E estava claro que nenhuma delas faria esse favor para Anne. Ela era uma prisioneira não declarada de Sophia, ou melhor dizendo, da nova Senhora de Avalon. Por que aquilo não a surpreendia?
— Talvez você prefira carne? Pessoalmente não posso comer carne, mas podemos caçar alguma coisa na floresta para você.
— Não se preocupe, Coreen, as maçãs estão ótimas — Anne suspirou, impaciente. — Só não estou com fome.
Elas estavam sentadas à beira de uma pequena corredeira de águas borbulhantes. Atrás delas havia um dos muitos pomares de Avalon, que ofereciam mais dos frutos vermelhos e deliciosos a despeito de que, no mundo real, estivessem no ápice do inverno. Coisas mundanas como estações do ano não pareciam afetar Avalon. Anne vira, através dos olhos de Coreen, que a grama era de fato tão verde, exuberante e elástica como ela imaginara ao pisá-la. O céu de Avalon era azul claro como num dia perfeito de verão. Havia um sol luminoso e baixo que não parecia real, e diversos tipos de pássaros cantavam melodias elaboradas o tempo inteiro.
Se Anne não estivesse tão perturbada e ansiosa, talvez ela estivesse apreciando mais essas coisas. Não fossem os pesadelos que tinham lhe acordado no meio das duas últimas noites, não fosse aquele medo pulsante de que Harry estivesse mesmo…
— Me conte sobre os pesadelos — pediu Coreen, que não pela primeira vez parecia estar circulando as bordas dos pensamentos de Anne e adivinhando coisas que ela não tinha dito em voz alta. Anne começava a achar que aquela era uma prática comum em Avalon.
— Você não vai querer ouvi-los. São sobre… coisas do outro lado.
— Mas são só pesadelos, certo? Além do mais, falar sobre eles deve deixá-la mais calma.
Anne descruzou os braços, ajeitando-se melhor contra o tronco da árvore em que estava se apoiando. Ela não achava que falar ia deixar mais calma, mas talvez pudesse influenciar a boa vontade de Coreen em colaborar com ela.
— Há um garoto do outro lado do véu. Ele se chama Harry. Nós somos… amigos.
— Sinto falta de garotos — suspirou Coreen. — Eu tenho três irmãos, mas não os vejo desde o início do meu treinamento. Eram encapetados, mas aqueciam o meu coração. Desculpe, continue.
— Bem — Anne pigarreou, tentando achar as palavras certas. — Harry e eu temos uma conexão estranha. Tudo começou no verão passado, quando nos conhecemos. Eu estava cega na época, mas no momento que ele apareceu, eu voltei a enxergar.
— Por que você estava cega? — Coreen interrompeu, intrigada. — Sua visão estava bloqueada?
Anne franziu.
— Não… eu tive um acidente, há alguns anos. Desde então a minha visão não se recuperou, embora os medibruxos dissessem que não havia nada de errado com os meus olhos. Mas, quando Harry apareceu… de repente eu podia ver de novo. Primeiro só quando ele estava presente, depois eu podia ver mesmo quando ele não estava. Só que, o tempo todo, eu sabia exatamente onde encontrá-lo, então acho que, de certa forma, ele estava sempre presente.
Coreen não disse nada, o que Anne tomou como um encorajamento para que continuasse.
— A nossa conexão permitia outras coisas também — Anne continuou. — Eu podia ouvir os pensamentos dele quando estávamos próximos e podia sentir o que ele estava sentindo só em tocá-lo. Eu podia falar dentro da cabeça dele com facilidade. Era diferente de legimência, era como… como se já existisse uma conexão entre as nossas mentes, só esperando para ser usada. Eu sei, não faz sentido, mas… ah, eu também sonhava os sonhos dele, às vezes. E quando eu aprendi a fazer oclumência, eu descobri que estava protegendo a mente dele da invasão de outras pessoas, mesmo sem querer.
— É mesmo uma conexão e tanto — Coreen disse, pensativa. — E o que ele achava disso?
— Engraçado você perguntar — Anne sorriu, sentindo o rosto esquentar. — No plano físico, a sensação era sempre, uh, agradável. Então eu acho que ele não se importava. Eu eventualmente contei a ele sobre os sonhos e a oclumência. Ele não pareceu chateado.
Anne sentiu o calor do sorriso que se espalhou pelo rosto da jovem aprendiz de sacerdotisa.
— Ele gostava de você.
Anne abraçou a si mesma, esfregando os antebraços, e assentiu.
— Eu acho que sim.
— E você, gostava dele?
— Mais do que eu já gostei de qualquer pessoa antes. Eu acho que eu… bem, é estranho dizer, mas eu acho que eu poderia fazer qualquer coisa por ele.
Dizer as palavras em voz alta a surpreendeu. Quase tinha admitido isso para Harry quando eles conversavam na cozinha da casa dos seus pais, no escuro. Mas, na ocasião, lhe parecera o tipo de pensamento irracional que não se dizia em voz alta.
Coreen, no entanto, não pareceu muito surpresa.
— O que aconteceu com o seu Harry? — ela quis saber.
Anne apertou os dentes, lembrando-se da noite após o natal. Harry indo até o seu quarto em Grimmauld Place e pedindo a moto emprestada. Como ela poderia saber que aquele era o começo da melhor noite e do pior dia da sua vida até então?
— Nós escapamos para visitar um lugar que ele queria – precisava ir. A casa da infância dele. Um monte de coisas aconteceu lá, nós descobrimos… — ela se deteve. Não achava que devia contar sobre a horcruxe de Hildegard para Coreen. — Nós descobrimos coisas importantes, coisas que precisávamos contar para o diretor da nossa escola, Alvo Dumbledore.
— O irmão da nossa Sen– da Senhora Hildegard?
— Sim! Você o conheceu? — Anne perguntou, surpresa.
— Ele visitava a ilha com frequência. Ele poderia ter sido um Merlin, sabe, mas se recusou. Ouvi que a Senhora Hildegard não gostou nada dessa recusa, na época.
— Um Merlin? — Anne franziu o cenho. — Como assim? Merlin não era um bruxo da idade média?
— Quê? Não, não. Merlin é um título mágico concedido a um druida poderoso, quase como o de Senhora de Avalon é para uma sacerdotisa. O papel do Merlin é aconselhar a comunidade mágica nos assuntos importantes para a magia, sempre levando em consideração as orientações de Avalon.
— Então o Merlin de Arthur foi só um dos Merlins?
— Sim. Um dos Merlins de Arthur, na verdade. Ele teve dois, mas o que ficou famoso foi o senhor Taliesin… não ensinam nada disso em Hogwarts? Vocês não têm História da Magia?
— Acho que estudamos uma história um pouco diferente da sua — Anne admitiu, sem graça. — E quem é o Merlin, agora, então? O Ministro da Magia?
— Não há um Merlin agora, e não há nenhum faz muito tempo. O seu Ministério da Magia tem nomeado Ministros sem consultar Avalon desde o estabelecimento do Estatuto do… — Coreen se interrompeu de repente. — Eu não devia estar falando sobre isso com você!
— Assuntos mundanos? — Anne perguntou com ironia, mas Coreen confirmou sem fazer nota da acidez em sua voz.
— Sim! Além do mais, que rude que eu sou, interrompendo a sua história. O que aconteceu, então? Vocês conseguiram passar as informações importantes para o senhor Dumbledore?
— Não. Viemos até o monte Tor tentando achar a entrada de Avalon e falar com o professor Dumbledore, mas houve um… um impasse — Anne já sabia melhor do que tocar no assunto de Hildegard, a essa altura. — E então, Voldemort nos encontrou.
Coreen ficou em silêncio por um longo tempo. Anne achou que ela estava lutando entre a sua resistência para admitir a existência de Voldemort e a sua curiosidade para saber o que tinha acontecido, então esperou, quieta.
— Não entendo o que isso tem a ver com os seus pesadelos — disse Coreen, por fim.
— Eu continuo sonhando com o que aconteceu no monte — Anne explicou, tentando afastar as memórias do sonho, o coração disparado e o fantasma da dor que sentira na ponta da varinha de Voldemort. — E eu fico pensando no que pode ter acontecido com Harry… ele estava comigo no topo do monte, ou melhor, uma espécie de réplica dele estava... e ele ficou em Godric’s Hollow, que estava sendo atacada por dementadores… eu sei, é complicado — acrescentou, ao sentir a surpresa aturdida de Coreen flutuar até ela. — Como eu disse, há uma guerra do outro lado das brumas. E eu não acho… eu não acho que Harry esteja bem.
— O que a faz pensar isso?
— Bem… eu parei de enxergar de novo, não é? Isso só pode significar uma coisa.
— Isso pode significar muitas coisas — Coreen discordou. — Os seus olhos são portais para a sua visão mundana, mas também para a sua Visão interior. Se o seu Harry é o que traz a sua visão física de volta e ele está do outro lado das brumas, como você poderia estar vendo qualquer coisa?
Anne foi pega de surpresa com o raciocínio, que não obstante a permitiu uma lufada de esperança. Coreen podia ter razão! Talvez ela só estivesse cega porque Harry era inacessível através das brumas, no outro plano de existência em que o mundo real ficava. Mas então, porque ela não conseguia afastar aquele aperto persistente em seu peito, que lhe dizia que tinha alguma coisa muito errada?
— Me mostre o seu Harry — pediu Coreen. — Estou curiosa para conhecê-lo.
Anne achou o pedido engraçado. No seu mundo, todos conheciam o Escolhido. Parecia absurdo que houvesse um lugar como Avalon, onde ele não era famoso entre os bruxos da sua idade.
Ela pegou as mãos de Coreen, palma contra palma como tinham feito no círculo cerimonial, mas dessa vez foi Anne quem pediu passagem. Como ela tinha feito com Harry antes, escolheu as lembranças e as ofereceu para Coreen, deixando a garota ver através dos olhos da sua mente.
Ela mostrou a vez em que ela e Harry tinham compartilhado bolinhos de amora no campo de quadribol, antes de um treino, e a que ela tinha colocado a cabeça dele em seu colo e tranquilizando-o, depois da morte de Cho, na Sala Precisa… então ela mostrou mais recentes, os dois em Godric’s Hollow, sorrindo e conversando enquanto comiam o lanche que Sirius tinha arranjado pra eles. Estava prestes a compartilhar aquela em que caminhavam pelos trilhos de trem de Godric’s Hollow, rumo ao cemitério, quando Coreen puxou as mãos das dela, assustada.
Só que antes, Anne teve um vislumbre do rosto de Harry, e não era da sua memória que aquilo tinha vindo.
— Você o conhece! — Ela acusou Coreen. — Como o viu? Quando?
— Não, não — a garota se afastou de Anne, que tentava pegar suas mãos de volta. — Não devo falar sobre isso, não posso falar sobre isso, Anne.
— Coreen!
— Sinto muito! É hora de voltar para a Casa das Moças. A cerimônia do crepúsculo vai começar logo, preciso me preparar.
— Coreen, por favor! — Anne chamou de novo, mas a garota estava irredutível e se recusou a tocá-la no caminho de volta, fazendo Anne segui-la usando apenas o som dos seus passos, tateando pelo caminho, tropeçando por raízes e pedras por todo o caminho até o prédio das aprendizes na base do monte Tor.
* * *
Mais um dia inteiro se passou antes que Anne tivesse qualquer notícia de Sophia. Ela também não viu mais Coreen, que estava “ocupada com o seu treinamento”, o que Anne suspeitou ser um código para ocultar o fato de que ela estava lhe evitando.
Sem Coreen, Anne preferiu passar o dia na Casa das Moças, tentando ouvir conversas que lhe indicassem o que poderia estar acontecendo no mundo do lado de fora. Logo concluiu que era uma tarefa sem propósito: as aprendizes em geral conversavam sobre o seu treinamento e deveres de casa, e se calavam quando Anne chegava perto, as suas vestes de visitante lhe denunciando.
Sophia mandou chamá-la quando o dia escurecia. Uma sacerdotisa mais velha, que talvez tivesse a mesma idade que Bervely, a conduziu silenciosamente por um caminho que Anne ainda não tinha feito com Coreen. Ela ouviu o chacoalhar de uma corredeira à sua esquerda e sentiu a proximidade fria das brumas mais adiante. Atravessaram uma parte mais úmida da grama e chegaram à uma habitação que, se Anne tivesse que adivinhar pelo eco do interior, não podia ser maior do que a cabana de Hagrid em Hogwarts.
— Obrigada, Leonora. Pode nos deixar sozinhas, agora. Aguarde do lado de fora — disse Sophia. Só que sua voz parecia mais imperativa do que Anne se lembrava. Os pelos de seu braço se arrepiaram, e na base do estômago sentiu algo que lembrava medo.
Não seja ridícula. Ela ainda é Sophia, sua madrinha, lembrou a si mesma. A sacerdotisa foi embora tão silenciosamente quanto chegara. Sophia esperou que os seus passos quase inaudíveis desaparecessem antes de falar com Anne.
— Leonora fez o seu voto de silêncio, por isso não pode falar com você.
— Imaginei — disse Anne, sem emoção.
— Sente-se. Há um banco alguns passos atrás de você.
— Estou bem de pé — ela teimou, cruzando os braços.
Não deveria ser novidade para Sophia que Anne estivesse aborrecida com ela, e se fosse, a mulher provavelmente já sentira a sua irritação fluindo dela em ondas a essa altura.
— Sei o que está pensando, mas, não, você não é uma prisioneira aqui. A minha nomeação como Senhora de Avalon foi… eu não estava esperando isso. Tanto aconteceu nos últimos dias e eu não pude voltar para você mais cedo, Anne. Como se sente?
— Estou melhor — disse ela, suavizando um pouco a sua expressão por conta do cansaço que captara na voz da madrinha. — As dores passaram.
— Fico feliz em saber. E o que está achando de Avalon? Ouvi dizer que Coreen tem feito boa companhia a você, nos últimos dias. Ela lhe mostrou os nossos pomares?
— É, ela me mostrou todos os pomares. Mas, engraçado, desde que eu descobri que ela sabe algo sobre Harry, ela tem me evitado.
— Anne... — Sophia começou, mas pareceu desistir do que soara como uma bronca no meio do caminho, seu tom mudando de repreensivo para apologético. — Faz parte dos votos de Coreen não discutir os assuntos para além das brumas, especialmente com visitantes. É injusto que você a coloque em uma posição em que os seus votos sejam desafiados.
— Por que, Sophia? Por que todo mundo aqui tem que fingir que o mundo real não existe? Tem uma guerra acontecendo lá fora! As pessoas estão sendo torturadas, perdendo almas, morrendo ou perdendo membros de suas famílias e Avalon, com todo esse poder, simplesmente prefere não se envolver?
— Eu sei que parece insensível, mas temos bons motivos para nos isolar. Motivos que eu não posso explicá-la antes que você faça os seus próprios votos. Por favor, sente-se.
Embora houvesse um “por favor” em sua frase, soara muito mais como uma ordem. Anne achou-se sentando-se no banco atrás dela muito antes de decidir que queria e ficou se perguntando como aquilo tinha acontecido. Uma vez sentada, porém, ela descobriu que estava mais confortável. Ao contrário do que tinha dito, suas pernas ainda estavam um pouco doloridas.
— Eu entendo a sua indignação. Nos últimos dias você esteve diante de um dos bruxos mais terríveis de que se tem notícia. Ele a submeteu à uma das magias mais cruéis que se pode impor a um ser humano. Se houvesse qualquer coisa que eu pudesse fazer para impedir que isso tivesse acontecido, eu juro a você que eu teria feito. — A frustração de Sophia vazava de suas palavras, bem como a sua impotência, fluindo até Anne como uma lufada de ar rarefeito. — Eu não pude cumprir o meu compromisso mágico como a sua guardiã, não pude protegê-la de Voldemort, bem debaixo do meu nariz. Como acha que eu me sinto?
Anne ficou quieta. Ainda não tinha se dado ao trabalho de se colocar no lugar de Sophia, mas supunha que devia ter sido difícil para ela também.
— Você tentou — disse ela por fim, deixando os ombros caírem. — Tentou me trazer para Avalon com você. Não é sua culpa.
— Quando as nossas crianças se machucam, é sempre a nossa culpa, querida.
Anne ficou calada, cutucando a borda da faixa amarrada em torno da sua cintura. Agora que Sophia lhe deixara ver o seu lado da história, ela se sentia culpada. Quando se tornara tão egoísta com os sentimentos dos outros?
— Você não é egoísta — disse Sophia, respondendo aos seus pensamentos. — Mas precisa entender que há forças muito maiores do que a sua vontade agindo ao seu entorno. Você é muito inexperiente para compreendê-las e ainda não pode resistir a elas. Eu, no entanto, deveria ter tentando mais.
— Do que está falando? — Anne exigiu saber. — Que forças são essas? São as que você mencionou em Hogwarts, as forças que me atraem para Harry? Por que eu não acho que isso faça muito sentido, sempre foi a minha escolha andar com ele…
— Potter — Sophia repetiu com amargura. — Anne, me diga… o que aconteceu no topo do monte Tor, antes que Voldemort tentasse abrir a passagem para Avalon?
Ela foi pega de surpresa pela pergunta. Supusera que Sophia sabia o que tinha acontecido – mas pensando bem, como ela poderia? Os únicos presentes no monte tinham sido ela, o Reflexo de Harry e Hildegard, e Anne estivera inconsciente, Hildegard morta, e o Reflexo…
— Eu ainda não me lembro de tudo, tem uma parte que é… confusa — confessou, inquieta.
— Me conte até onde se lembra, então.
Anne se mexeu no banco, o fundo dos seus olhos pinicando.
— Você não pode olhar em minhas memórias?
— Gostaria de evitar legimência, a sua mente ainda não está recuperada o bastante.
Apesar de ter oferecido, Anne sentiu um alívio com a resposta. Não queria compartilhar as suas memórias com Sophia. Não gostava quando a madrinha fazia legimência nela, mesmo com a sua permissão.
— Bem, eu não quero falar sobre isso.
Pensou que Sophia ia insistir, mas o silêncio se prolongou e a sacerdotisa não o fez.
— Você não se lembra de tudo que aconteceu porque estava sob o feitiço Imperius — disse Sophia com suavidade. — Não é incomum que memórias se percam sob o efeito de certas maldições. Mas, o que quer que ele a tenha forçado a fazer, não foi sua culpa, Anne. Sabe disso, não sabe?
Ela se contraiu.
— Alguns bruxos podem resistir à maldição Imperius.
— Não depois de receberem o Cruciatus diversas vezes e sofrerem legilimência forçada.
Não foi forçada, pensou Anne, mas não disse nada. Seus olhos estavam quentes de lágrimas que não se atrevia a derramar.
— A senhora sabe… sabe o que eu fiz?
— Não. Quando a encontrei você ainda estava amaldiçoada, sob a mira de um dos comensais da morte. Eu a tirei dele e desfiz a maldição. Você desmaiou logo depois. Eu a trouxe para a segurança de Avalon e retornei para a batalha.
— O que aconteceu na batalha? Como vocês… alguém saiu ferido…?
— Voldemort achou que nos encontraria despreparados, mas Avalon tem se resguardado para a possibilidade de uma invasão desde que ele voltou ao poder. Algumas de nossas sacerdotisas se machucaram, mas todas se recuperam bem.
Anne assentiu, limpando os olhos discretamente com a manga áspera da sua túnica.
— Sophia, e quanto ao Harry, você tem notícias dele? Ele está bem?
— Não saberia dizer.
— E quanto ao Sirius? Bervely, Tonks, Remus? Eles também estavam em Godric’s Hollow, houve um ataque de dementadores... Eles estão bem?
— Eu não tenho notícias, mas procurarei saber. Enquanto isso, você deve se fortalecer. Quando recuperar as suas forças, nós poderemos conversar sobre o seu treinamento.
— O meu… treinamento?
— Agora que você está em Avalon, não tem motivo para não iniciarmos você. Cada dia que passa sem que você aprenda a controlar a sua Visão é uma ameaça maior para a sua integridade mágica. Foi ingenuidade minha acreditar que o seu treinamento poderia esperar por tempos mais tranquilos.
— É por isso que eu sangro, não é… quando eu forço a Visão? — Anne disse, lembrando-se de todas as vezes que tivera uma hemorragia ao tentar ver mais do que o que lhe vinha naturalmente.
— Sim. A sua Visão usa energia do seu próprio cerne, e não do cerne da sua varinha. Sem o treinamento apropriado, você lhe causa danos, que se manifestam como danos físicos. Hemorragias, exaustão, febre, desorientação… Você é jovem e o seu cerne ainda pode se regenerar, mas sem o treinamento apropriado, chegará uma hora que os danos serão permanentes.
Anne ficou ali sentada e quieta por um tempo, pensando nos últimos dias. Tivera uma amostra das coisas que as sacerdotisas aprendiam em Avalon. Sentira a confiança com que Coreen, com apenas quatro anos de treinamento mágico, podia fazer magia avançada sem varinha. Quando a garota lhe emprestara seus olhos e compartilhara seus pensamentos com ela, isso não a machucara.
— Sophia… no círculo, durante a sua nomeação… eu pude sentir a minha magia se misturar com a das outras sacerdotisas. Eu pude cantar aquele encantamento mesmo que nunca o tivesse aprendido… como isso é possível?
— Há muitos jeitos de se experienciar magia, mas aquela que vem da coletividade é mais poderosa e complexa do que a magia individual. Uma verdade constantemente ignorada pela comunidade mágica do outro lado, eu receio. Mas em Avalon, a sua magia é parte da ilha. Ao mesmo tempo, a magia da ilha e de todas as sacerdotisas que estão aqui também fazem parte de você. Essa é uma das muitas coisas que vai entender melhor, se ficar e iniciar o seu treinamento.
Anne não disse nada. Não tinha se esquecido da sensação, ao mesmo tempo assombrosa e grandiosa, de fazer parte do círculo sagrado. Nunca tinha experimentado nada como aquilo em Hogwarts.
— Pense a respeito — disse-lhe Sophia, gravitando os seus pensamentos de novo. — Estarei ocupada nos próximos dias, mas vou pedir que Coreen volte a lhe fazer companhia, desde que você prometa parar de perturbá-la com perguntas sobre o lado de fora. Acha que pode fazer isso?
— Sim — Anne disse, a voz baixa e resignada.
— Muito bem, você pode ir descansar agora. Leonora estará lhe esperando perto da entrada para levá-la de volta à Casa das Moças.
Anne murmurou um boa noite e se levantou, tateando com cuidado o caminho em direção à porta.
— E, Anne? — ela se virou, meio rígida. — Eu amo você, nunca se esqueça disso. Sei que às vezes pareço rígida demais, mas tudo que quero é manter você segura, como eu prometi a sua mãe que faria. Talvez agora, com o que aconteceu no topo do monte Tor, você me compreenda melhor.
(Continua…)
Fale com o autor