Notas iniciais
Capítulo correspondente ao episódio 9 da primeira temporada do anime. Desculpem a demora >.

Empenhada em não se atrasar para o seu compromisso com Kogami, Akane acordou mais cedo que de costume. Continuava cansada após passar boa parte da noite em claro. A incômoda sensação de borboletas se debatendo em seu estômago não havia lhe permitido relaxar. Na verdade, aquilo já estava começando a irritá-la.

A inspetora verificou diversas combinações de roupas até encontrar a ideal, quando de repente, Candy — seu acessor holográfico — disparou:

— Você tem um encontro?!

— N-nada disso! — Akane retrucou, corando como consequência, indignada com o atrevimento do holograma.

— Que tal levar um presente pra pessoa? — ele insistiu sugerindo um buquê de flores.

Furiosa, Akane o mandou reiniciar o circuito de especulação. Ela sabia que aquele compromisso não passava de uma simples reunião de trabalho. A captura de Makishima deveria ser a sua prioridade, assim como ela sabia que era a de Kogami.

Ao se encontrar com o executor, juntos seguiram em direção à casa de Saiga Jouji. O silêncio que pairava entre os dois dentro do automóvel incomodava Akane. De soslaio, ela o observou perdido em seus próprios pensamentos, encarando, aparentemente mal-humorado, o mundo por detrás da janela do carro. Decidiu então puxar assunto sobre a entrevista que passava na TV.

— O que você acha de ter juventude eterna e imortalidade se tornando ciborgue?

— Não tenho interesse. Uma vida como criminoso latente não é algo que você queira pra sempre — ele retrucou ríspido.

Akane sentiu como se recebesse um soco no estômago.

— Mas conforme a sociedade progredir, os direitos dos criminosos latentes podem mudar.

Ela agarrou a barra da saia, apreensiva. Por que disse aquilo num tom de esperança? Por dentro, tentava se convencer de que era somente porque gostava de Kogami como um colega de trabalho e achava que ele merecia uma vida melhor, no entanto, ela sabia que aquilo não era totalmente verdade. Na realidade, o que mais lhe incomodava era a barreira que existia entre eles devido às diferenças no status social de ambos. Qualquer um lhe diria que ter consideração por Kogami, ou por qualquer outro criminoso latente, a tornaria tão potencialmente criminosa quanto ele.

Por mais que ninguém dissesse em voz alta, humanizar um criminoso latente era estritamente proibido.

— Não me espanta o seu Psycho-Pass estar sempre tão limpo — ele respondeu enfim, sorrindo de canto.

Aborrecida, Akane preferiu se calar, arrependida por ter dado início àquela conversa. Assim, durante o restante do percurso, nenhum dos dois proferiu mais nenhuma palavra. Somente quando Saiga começou a analisá-la em termos de força física, relações familiares e até mesmo amorosas, Akane entrou no clima da investigação, impressionada com a habilidade do ex-professor.

Quando Kogami e Akane terminaram o que haviam ido fazer naquele lugar, já era tarde demais. Totalmente focada em seus objetivos, ela nem havia percebido como o tempo tinha passado depressa. Ali, dentro daquele carro silencioso, enquanto retornavam à Central, sentiu o peso de todo o cansaço que havia acumulado desde a noite anterior e pregou os olhos por alguns instantes, cochilando ao lado de seu subordinado.

Será que também a recriminariam por abaixar a guarda perto de um criminoso latente?

— Você conseguiu aprender alguma coisa?

Assustada com a pergunta repentina, Akane deu um pulo. Em seguida, piscou freneticamente numa tentativa de fingir estar totalmente acordada.

— S-sim! Ajudou muito! — respondeu desajustada — Ele é um ótimo professor. Não sei porque as aulas dele não estão nos arquivos.

— Nunca guardariam as aulas dele.

— Aconteceu alguma coisa?

Paciente, o coator lhe explicou sobre os problemas ocasionados pelo curso de Saiga no passado, acusado de sujar a matriz de seus próprios alunos ao elevar os seus coeficientes criminais. Em seguida, a tranquilizou ao dizer que Akane não se sujaria tão facilmente, o que a fez abrir um sorriso encabulado.

— Então quer dizer que os seus pais estão preocupados por ainda não ter arrumado um namorado?

A brusca mudança no assunto a fez arregalar os olhos de imediato. Sem acreditar que Kogami estivesse tocando nesse assunto, anteriormente exposto pela análise de Saiga, ela gaguejou durante a resposta.

— B-bem...e-eles...e-eu não...

Ela quase engasgou, enquanto tentava inutilmente formular uma sentença.

— Dá pra entender o porquê eles foram contra sua decisão de trabalhar na Segurança — ele a ignorou — Obviamente querem o melhor pra sua filha. Não encontrará ninguém que presta enquanto estiver trabalhando aqui. Sabe disso, não é?

Atônita, Akane o observou dizer aquilo com uma expressão de divertimento no rosto e voltou a abrir um sorriso ao perceber a mudança no comportamento do executor. Se de manhã estava mal-humorado, agora mostrava-se completamente o oposto, falante e simpático.

— Isso não importa. Eu tenho outras prioridades — o respondeu em seguida.

Naquele momento, a inspetora não podia estar sendo mais sincera. Ela não estava em busca de um romance, mas sim em busca de fazer a diferença naquele mundo. Se apaixonar não estava em seus planos. Na realidade, nunca esteve. Mas se por acaso isso chegasse a acontecer durante a sua jornada, pouco lhe importava se seria por alguém socialmente aceito ou não.

Talvez as suas escolhas preocupassem ou desagradassem as demais pessoas, mas ela estava decidida a não ser um espelho dos desejos e expectativas dos outros.

Determinada a sempre seguir as suas convicções, satisfeita, permaneceu em silêncio até chegarem à Central, sem imaginar que, justamente por esse motivo, travaria uma furtiva discussão com Guinoza em seguida.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.