A Cada Dia Que Passa
5 Prioridades
Notas iniciais
Empenhada em não se atrasar para o seu compromisso com Kogami, Akane acordou mais cedo que de costume. Continuava cansada após passar boa parte da noite em claro. A incômoda sensação de borboletas se debatendo em seu estômago não havia lhe permitido relaxar. Na verdade, aquilo já estava começando a irritá-la.
A inspetora verificou diversas combinações de roupas até encontrar a ideal, quando de repente, Candy — seu acessor holográfico — disparou:
— Você tem um encontro?!
— N-nada disso! — Akane retrucou, corando como consequência, indignada com o atrevimento do holograma.
— Que tal levar um presente pra pessoa? — ele insistiu sugerindo um buquê de flores.
Furiosa, Akane o mandou reiniciar o circuito de especulação. Ela sabia que aquele compromisso não passava de uma simples reunião de trabalho. A captura de Makishima deveria ser a sua prioridade, assim como ela sabia que era a de Kogami.
Ao se encontrar com o executor, juntos seguiram em direção à casa de Saiga Jouji. O silêncio que pairava entre os dois dentro do automóvel incomodava Akane. De soslaio, ela o observou perdido em seus próprios pensamentos, encarando, aparentemente mal-humorado, o mundo por detrás da janela do carro. Decidiu então puxar assunto sobre a entrevista que passava na TV.
— O que você acha de ter juventude eterna e imortalidade se tornando ciborgue?
— Não tenho interesse. Uma vida como criminoso latente não é algo que você queira pra sempre — ele retrucou ríspido.
Akane sentiu como se recebesse um soco no estômago.
— Mas conforme a sociedade progredir, os direitos dos criminosos latentes podem mudar.
Ela agarrou a barra da saia, apreensiva. Por que disse aquilo num tom de esperança? Por dentro, tentava se convencer de que era somente porque gostava de Kogami como um colega de trabalho e achava que ele merecia uma vida melhor, no entanto, ela sabia que aquilo não era totalmente verdade. Na realidade, o que mais lhe incomodava era a barreira que existia entre eles devido às diferenças no status social de ambos. Qualquer um lhe diria que ter consideração por Kogami, ou por qualquer outro criminoso latente, a tornaria tão potencialmente criminosa quanto ele.
Por mais que ninguém dissesse em voz alta, humanizar um criminoso latente era estritamente proibido.
— Não me espanta o seu Psycho-Pass estar sempre tão limpo — ele respondeu enfim, sorrindo de canto.
Aborrecida, Akane preferiu se calar, arrependida por ter dado início àquela conversa. Assim, durante o restante do percurso, nenhum dos dois proferiu mais nenhuma palavra. Somente quando Saiga começou a analisá-la em termos de força física, relações familiares e até mesmo amorosas, Akane entrou no clima da investigação, impressionada com a habilidade do ex-professor.
Quando Kogami e Akane terminaram o que haviam ido fazer naquele lugar, já era tarde demais. Totalmente focada em seus objetivos, ela nem havia percebido como o tempo tinha passado depressa. Ali, dentro daquele carro silencioso, enquanto retornavam à Central, sentiu o peso de todo o cansaço que havia acumulado desde a noite anterior e pregou os olhos por alguns instantes, cochilando ao lado de seu subordinado.
Será que também a recriminariam por abaixar a guarda perto de um criminoso latente?
— Você conseguiu aprender alguma coisa?
Assustada com a pergunta repentina, Akane deu um pulo. Em seguida, piscou freneticamente numa tentativa de fingir estar totalmente acordada.
— S-sim! Ajudou muito! — respondeu desajustada — Ele é um ótimo professor. Não sei porque as aulas dele não estão nos arquivos.
— Nunca guardariam as aulas dele.
— Aconteceu alguma coisa?
Paciente, o coator lhe explicou sobre os problemas ocasionados pelo curso de Saiga no passado, acusado de sujar a matriz de seus próprios alunos ao elevar os seus coeficientes criminais. Em seguida, a tranquilizou ao dizer que Akane não se sujaria tão facilmente, o que a fez abrir um sorriso encabulado.
— Então quer dizer que os seus pais estão preocupados por ainda não ter arrumado um namorado?
A brusca mudança no assunto a fez arregalar os olhos de imediato. Sem acreditar que Kogami estivesse tocando nesse assunto, anteriormente exposto pela análise de Saiga, ela gaguejou durante a resposta.
— B-bem...e-eles...e-eu não...
Ela quase engasgou, enquanto tentava inutilmente formular uma sentença.
— Dá pra entender o porquê eles foram contra sua decisão de trabalhar na Segurança — ele a ignorou — Obviamente querem o melhor pra sua filha. Não encontrará ninguém que presta enquanto estiver trabalhando aqui. Sabe disso, não é?
Atônita, Akane o observou dizer aquilo com uma expressão de divertimento no rosto e voltou a abrir um sorriso ao perceber a mudança no comportamento do executor. Se de manhã estava mal-humorado, agora mostrava-se completamente o oposto, falante e simpático.
— Isso não importa. Eu tenho outras prioridades — o respondeu em seguida.
Naquele momento, a inspetora não podia estar sendo mais sincera. Ela não estava em busca de um romance, mas sim em busca de fazer a diferença naquele mundo. Se apaixonar não estava em seus planos. Na realidade, nunca esteve. Mas se por acaso isso chegasse a acontecer durante a sua jornada, pouco lhe importava se seria por alguém socialmente aceito ou não.
Talvez as suas escolhas preocupassem ou desagradassem as demais pessoas, mas ela estava decidida a não ser um espelho dos desejos e expectativas dos outros.
Determinada a sempre seguir as suas convicções, satisfeita, permaneceu em silêncio até chegarem à Central, sem imaginar que, justamente por esse motivo, travaria uma furtiva discussão com Guinoza em seguida.
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