A CAÇA Adaptada
3 Capítulo 03
—Maldita seja.
O jipe vermelho se deteve bruscamente atrás do carro de aluguel do Grissom. Quase antes de deter-se, Sara sidle desceu em um salto do carro e, sem que o lodo fosse obstáculo para suas pesadas botas, aproximou-se a grandes passadas. O ajudante Booker foi para ela, mas sara lhe lançou um olhar furioso enquanto, sem deter-se, vestia um agasalho impermeável vermelho sobre sua camisa negra de flanela. Em qualquer outra situação, Nick teria sorrido ao ver como se afastava Booker.
Sara fixou seus penetrantes olhos escuros nele.
O coração de Nick acelerou e sentiu um espasmo no estômago. Oxalá tivesse tido mais tempo para preparar-se para sua iminente chegada. Se soubesse que se dirigia para ali, teria se concentrado para o enfrentamento.
— sara — disse, ao ver que se aproximava
—, eu...
—Maldito seja, Nick! —disse ela, lhe dando com o indicador no peito—. Maldita seja! —Nada intimidava sara.
O normal seria que ele a intimidasse, que qualquer homem lhe desse medo depois do que tinha vivido mas, ao final, não tinha com o que surpreender-se. Sara era uma sobrevivente nata. Não deixava que se notasse seu medo.
— sara , ia chamá-la. Não estava seguro de que fosse Rebecca. Não queria que tivesse que voltar a passar pelo mesmo.
Em seus olhos escuros viu que não acreditava.
—A merda com isso. A merda contigo! Prometeu-me que chamaria. —Passou a seu lado e se aproximou da lona. Ficou olhando o corpo coberto. Tinha os punhos fechados com força e até os ombros tremiam de tensão.
Nick queria detê-la, protegê-la de ter que ver outra garota morta. Sobre tudo queria protegê-la de si mesma.
E ela sempre tinha deixado claro que não queria o amparo de Nick.
Sara fez um esforço por controlar sua ira. Não deveria haver gritado com Nick, mas, porra! Ele tinha prometido. Fazia sete dias que procuravam Rebecca, enquanto os pesadelos a impediam de dormir as poucas horas de sono que se concedia. Nick lhe tinha prometido que seria a primeira saber quando a encontrassem.
Nem ela nem Nick confiavam em encontrar Rebecca com vida.
Ficou olhando a lona amarela em meio dos tons marrons da terra e respirou fundo, com a garganta avivada pela raiva e um medo frio como o gelo. Tinha os punhos tão apertados que as unhas chegaram a fincar-se nas palmas das mãos. Sabia que era Rebecca Douglas, mas tinha que ver com seus próprios olhos, tinha que obrigar-se a ver a última vítima do Açougueiro. Para fazer-se mais forte, para ter valor. Para a vingança.
Embainhou seus longos dedos nas luvas de látex, ajoelhou-se junto à mulher morta e tocou a beira da lona.
—Rebecca — disse, com um sussurro de voz —. Não está sozinha. Prometo-lhe isso, encontrarei-o. Pagará pelo que te fez.
Tragou saliva, vacilou um momento e depois retirou a lona para ver a garota em cuja busca tinha investido vinte horas ao dia durante a última semana.
A princípio, Anahi não viu a cara torcida, o pescoço cortado ou as múltiplas feridas lavadas pela chuva. A imagem da garota de vinte anos na lembrança de sara era bela, como o tinha sido quando estava viva.
Cândi, sua melhor amiga, dizia que Rebecca tinha uma risada contagiosa. Preocupava-se com as pessoas que não tinham nada e, uma noite por semana, acudia como voluntária para ler aos doentes no hospital do Deaconess, conforme tinha informado seu tutor na universidade, Rum Owens. Segundo senhor Marsh, seu professor de biologia, Rebecca era uma estudante com excelentes notas em todas as disciplinas.
Rebecca não era uma pessoa perfeita. Mas durante o tempo que durou seu desaparecimento ninguém tinha falado das histórias menos agradáveis.
E ninguém as repetiria agora que tinha morrido.
Enquanto a olhava, a imagem da Rebecca que tinha guardado tão perto de seu coração durante as horas de busca foi se transformando ante seus olhos até ficar convertida em um corpo desconjuntado.
—É livre —disse —. Por fim livre.
Sharon, sinto tanto.
—Agora ninguém pode te fazer mal.
Inclinou-se e lhe tocou o cabelo, afastou uma mecha a um lado e lhe segurou a face na terrina da mão.
Conserva a calma.
Repetiu seu mantra. Quantas vezes teria que passar pelo mesmo? A quantas garotas teriam que enterrar? Tinha acreditado que com o tempo seria mais fácil. Mas se não conseguia conter suas emoções em um reduto fechado e protegido, temia que os intermináveis êxitos do Açougueiro e sua incapacidade para detê-lo acabariam lhe pesando até afundá-la.
Muito a seu pesar, sara voltou a lhe cobrir o rosto com a lona. O gesto de cobrir o corpo recordou às outras garotas que tinham encontrado. Recordou Sharon.
A manhã em que Sara os conduziu até o corpo de Sharon era tão fria que ela não deixava de tiritar sob a meia dúzia de capas que levava postas. Quis voltar o dia depois de ser resgatada, mas não lhe permitiram sair do hospital. Ao tentar caminhar sem ajuda, seus pés feridos lhe falharam.
Estava muito atordoada para chorar, muito cansada para discutir. Fez um mapa do lugar recordando tudo o que pôde, mas a equipe de resgate não conseguiu encontrar Sharon.
Anahi não suportava a idéia de que o corpo de sua amiga ficasse exposto à intempérie uma noite mais. A mercê de ursos pardos, pumas e abutres. Por isso, à manhã seguinte, a pesar da dor dos pés, conduziu à equipe de resgate e à polícia ao lugar onde jazia Sharon. Tinha que vê-la pela última vez.
Apesar de que ainda estivesse imersa em um estado de choque. Foi o que disse o médico. Mas caminhava com ajuda. Sabia onde tinha caído Sharon, jamais esqueceria. Conduziu-os até o lugar, e aí a encontraram. Tal como tinha caído abatida pelo disparo do assassino.
O silêncio enchia o ar, como se as aves e outros animais chorassem a perda junto aos seres humanos. Nem sequer soprava o vento da primavera. Nenhuma só folha do bosque se moveu enquanto outros compreendiam por fim o que tinham vivido Sara e Sharon.
O repentino grasnido de uma águia rasgou o silêncio e se levantou uma suave rajada de vento.
O paramédico cobriu o corpo de Sharon com uma lona de cor verde gritante enquanto a equipe do xerife começava a busca de pistas. Sara não podia afastar a vista da lona que cobria Sharon, morta, reduzida a um vulto sob um plástico. Era berrante e desumano!
Só então Sara se dobrou e chorado amargamente.
Um agente do FBI a acompanhou os cinco quilômetros de volta ao caminho. Chamava-se Gil Grissom.
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