A Câmara Secreta - Por Rony W. e Hermione G.
9 Capítulo 9 - Herdeiro de Salazar?
Harry ainda estava na ala hospitalar, então Rony e Hermione foram para o salão principal tomar café da manhã. Os dois saíram da sala comunal, desceram as escadas e quando iam virar no corredor para ir ao salão principal, Hermione segurou o braço de Rony. Ele estava prestes a perguntar o que era, quando ela levou o dedo indicador aos lábios, pedindo silêncio e indicou o ouvido, para que ele escutasse também.
— Precisamos dobrar a vigilância, Fílio, desta vez um aluno foi atacado. — a voz da professora McGonagall era inconfundível e parecia muito preocupada.
— E que aluno foi? — respondeu a outra voz.
— Colin Creevey. Aquele aluno que vive batendo fotos. Pela posição que foi encontrado estava fazendo justamente isso quando foi atacado. Alvo tentou ver se tinha alguma foto do atacante, mas o filme estava estranhamente pulverizado.
As vozes pareciam ficar mais perto, então Hermione puxou Rony para um armário de vassouras próximo, bem a tempo, pois os dois professores viraram para o lado do corredor em que estavam.
— Houve um ataque? Colin não é aquele menino fã do Harry? — perguntou Rony aos cochichos.
—Sim, é ele mesmo. E até onde sei, ele é nascido trouxa. — respondeu Hermione no mesmo tom, pensativa — Sabe o que isso significa, não é?
— Que a Câmara foi aberta? — arriscou Rony, sabiamente.
— Sim, exatamente. E que então precisamos começar a poção o quanto antes. Temos que descobrir se Draco está por trás disso antes que haja outro ataque. — ela falou, olhando assustada para Rony.
—Tem razão. — ele assentiu, preocupado — Vamos começar agora mesmo. Os ingredientes que temos servem para um início, depois pensamos no resto. — ele falou decidido, abrindo a porta para ela sair.
Os dois até esqueceram do café da manhã: voltaram aos dormitórios para pegar as coisas necessárias para a Poção e seguiram para o banheiro de Murta. Entraram num dos boxes, onde Hermione conjurou o fogo portátil à prova de água — uma de suas especialidades — dentro do vaso, Rony colocou o caldeirão em cima e eles começaram a preparação.
Passado algum tempo, ouviram a porta se fechando e se calaram no mesmo instante.
— Sou eu – uma voz disse perto da porta.
Os dois ficaram quietos tentando saber que era, mas o conteúdo do caldeirão fez um barulho repentino, assustando Rony, que caiu sobre o cano do vaso que estava solto, derrubando água pelo chão. O garoto exclamou um "Bloody Hell!" sem pensar, e Hermione olhou pela fechadura do box.
— Harry! Você nos deu um baita susto! — ela disse quando o viu — Entre, como está o seu braço?
— Ótimo – respondeu Harry, espremendo-se dentro do boxe.
—Pretendíamos ir ao seu encontro, mas decidimos começar a Poção Polissuco – explicou Rony enquanto Harry, com dificuldade, tornava a trancar o boxe. – Decidimos que este era o lugar mais seguro para escondê-la.
Harry começou a contar aos dois o que acontecera com Colin, mas Hermione o interrompeu.
— Já sabemos, ouvimos a Profa McGonagall contar ao Prof. Flitwick hoje de manhã. Foi por isso que decidimos começar...
— Quanto mais cedo a gente obtiver uma confissão de Draco, melhor – rosnou Rony. – Sabem o que é que eu penso? Ele estava tão furioso depois do jogo de quadribol, que descontou no Colin.
— Mas há outra coisa – disse Harry, observando Hermione picar feixes de sanguinárias e jogá-los na poção. – Dobby veio me visitar no meio da noite.
Rony e Hermione ergueram a cabeça, espantados. Harry contou que Dobby confessou fechar a passagem na estação e enfeitiçar o balaço para tentar fazê-lo voltar para casa. Ele insistiu que Harry corria grande perigo se continuasse na escola, que tramas ruins estavam sendo feitas, mas não disse como sabia e nem quem estava envolvido. Depois contou da chegada de Colin na enfermaria e de que os professores disseram que a câmara foi reaberta. Os dois escutaram, boquiabertos.
— A Câmara Secreta já foi aberta antes?! – exclamou Hermione.
— Isso esclarece tudo – disse Rony em tom triunfante. – Lúcio Malfoy deve ter aberto a Câmara quando esteve aqui na escola e agora ensinou ao nosso querido Draco como fazer o mesmo. É óbvio. Mas eu bem gostaria que Dobby tivesse lhe dito que tipo de monstro tem lá dentro. Quero saber como é que ninguém reparou nele rondando a escola.
— Talvez ele consiga ficar invisível – disse Hermione, empurrando as sanguessugas para o fundo do caldeirão. – Ou talvez possa se disfarçar, fingir que é uma armadura ou uma coisa qualquer, já li a respeito de vampiroscamaleões...
— Você lê demais, Hermione – disse Rony, despejando os hemeróbios mortos por cima das sanguessugas. Amassou o saco vazio e olhou para Harry.
—Então o Dobby impediu a gente de pegar o trem e quebrou o seu braço... — o ruivo refletiu, abanando a cabeça — Sabe de uma coisa, Harry? Se ele não parar de tentar salvar a sua vida vai acabar matando você.
Na manhã de domingo, a escola toda já sabia a notícia sobre Colin Creevey petrificado e as suspeitas e boatos corriam soltos nos corredores e na sala comunal. Alunos do primeiro ano começaram a andar em grupo como se isso os impedisse de serem atacados. Gina era dupla de Colin na aula de feitiços e estava extremamente abalada. Fred e Jorge tentavam animá-la com brincadeiras de sustos, revezando-se para assaltá-la pelas costas, cheios de pelos e pústulas, mas Rony viu que aquilo só estava piorando as coisas. Quando levantou-se para intervir, no entanto, Percy chegou primeiro e ameaçou escrever à Sra. Weasley e contar que Gina estava tendo pesadelos.
Na segunda semana de dezembro a Profa McGonagall passou a lista para saber quais alunos ficariam em Hogwarts durante as festas de Natal e Harry, Rony e Hermione a assinaram; ouviram dizer que Draco ia ficar também e acharam muito suspeito. Além disso, as festas seriam o momento perfeito para usar a Poção Polissuco e tentar extrair do garoto uma confissão. Mas a poção ainda estava na metade, precisavam conseguir o chifre de bicórnio e a pele de araramboia, e o único lugar onde poderiam obtê-los era no estoque particular de Snape.
— O que precisamos – disse Hermione, eficiente, quando se aproximava a aula dupla de Poções na quinta-feira à tarde – é de uma distração. Então um de nós pode entrar escondido na sala de Snape e tirar o que for preciso.
Harry e Rony olharam para ela, nervosos.
— Acho que é melhor eu fazer o roubo propriamente dito – continuou Hermione num tom trivial. – Vocês dois vão ser expulsos caso se metam em mais uma encrenca, mas eu tenho a ficha limpa. Então só o que têm a fazer é causar bastante confusão para distrair Snape por uns cinco minutos.
Harry deu um leve sorriso.
No dia da aula de Poções os alunos preparavam solução para Fazer Inchar e ficou combinado que Hermione daria um sinal para que a distração começasse.
Quando Snape deu as costas para implicar com Neville, Hermione olhou para Harry e fez um aceno com a cabeça. Harry se abaixou depressa por trás do próprio caldeirão, tirou do bolso um dos fogos Filibusteiro de Fred e deu-lhe um leve toque com a varinha. O fogo começou a borbulhar e a queimar. Ele então se levantou, mirou e atirou o fogo no ar; ele caiu dentro do caldeirão de Goyle.
A poção de Goyle explodiu, chovendo sobre a classe inteira. Os alunos gritaram quando os borrifos da Solução para Fazer Inchar caiu neles. Draco ficou com a cara coberta de poção e seu nariz começou a inchar como um balão; Goyle saiu esbarrando nas coisas, as mãos cobrindo os olhos, que tinham inchado até atingir o tamanho de um prato – Snape tentava restaurar a calma e descobrir o que estava acontecendo. Na confusão, Hermione entrou discretamente na sala do professor.
— Silêncio! SILÊNCIO! – Hermione ouviu Snape falar da outra sala, enquanto pegava o que precisava o mais rápido que podia. – Os que receberam borrifos, venham aqui tomar uma Poção para Fazer Desinchar, quando eu descobrir quem foi o autor disso...
Ela tremia da cabeça aos pés, mas não hesitou: colocou tudo o que precisava por baixo das vestes e saiu logo dali, retornando a seu lugar, passando os ingredientes para a mochila.
Depois que todos tomaram uma dose do antídoto e seus inchaços murcharam, Snape foi até o caldeirão de Goyle e pescou os restos retorcidos e negros do fogo de artifício. Fez-se um silêncio repentino.
— Se eu um dia descobrir quem jogou isso – sussurrou Snape – vou garantir que esse aluno seja expulso. — o professor falava olhando diretamente para Harry.
A sineta tocou dez minutos depois e os três respiraram aliviados.
— Ele sabia que fui eu – disse Harry a Rony e a Hermione enquanto corriam para o banheiro da Murta Que Geme. – Eu senti.
Ao chegar lá, Hermione jogou os novos ingredientes no caldeirão e começou a misturá-los febrilmente.
— Vai ficar pronto daqui a duas semanas – anunciou ela, alegremente.
— Snape não pode provar que foi você – disse Rony tranquilizando Harry. – Que é que ele pode fazer?
— Conhecendo Snape, uma maldade – disse Harry, enquanto a poção espumava e borbulhava.
Uma semana mais tarde, Harry, Rony e Hermione viram uma pequena aglomeração em torno do quadro de avisos. Simas Finnigan e Dino Thomas fizeram sinal para eles se aproximarem, com ar excitado.
— Vão reabrir o Clube dos Duelos! – disse Simas. – A primeira reunião é hoje à noite! Eu não me importaria de tomar aulas de duelo; poderiam vir a calhar um dia desses...
— Quê, você acha que o monstro da Sonserina sabe duelar? – perguntou Rony, mas também leu o aviso com interesse.
— Poderia vir a calhar – disse ele a Harry e Hermione quando entraram para jantar. – Vamos?
Os amigos concordaram e naquela noite foram ao Salão Principal na hora marcada. Em vez das mesas, havia um palco dourado encostado a uma parede, cuja iluminação era produzida por milhares de velas que flutuavam no alto.
— Quem será que vai ser o professor? – disse Hermione enquanto se reuniam aos alunos que tagarelavam sem parar. – Alguém me disse que Flitwick foi campeão de duelos quando era moço, talvez seja ele.
— Desde que não seja... – Harry começou, mas terminou com um gemido: Gilderoy Lockhart vinha entrando no palco, resplandecente em suas vestes ameixa-escuras, acompanhado por ninguém mais do que Snape, em sua roupa preta habitual.
Lockhart acenou um braço pedindo silêncio e disse em voz alta:
— Aproximem-se, aproximem-se! Todos estão me vendo? Todos estão me ouvindo? Excelente!
"O Prof. Dumbledore me deu permissão para começar um pequeno Clube de Duelos, para treiná-los, caso um dia precisem se defender, como eu próprio já precisei...
A essa altura, Rony nem prestava mais atenção no que ele dizia: era tanta baboseira que preferia ficar olhando em volta, e até mesmo observando Draco para analisar suas atitudes suspeitas.
"Deixem-me apresentar a vocês o meu assistente, Prof. Snape", disse Lockhart, dando um largo sorriso. "Ele me conta que sabe alguma coisa de duelos..." — Rony não pôde evitar de pensar que não fazia ideia de para quem torceria naquela situação, enquanto voltava a ignorar o que quer que Lockhart dizia.
— Não seria bom se os dois acabassem um com o outro? – cochichou Rony ao ouvido de Harry.
Lockhart e Snape se viraram um para o outro e se cumprimentaram com uma reverência; pelo menos, Lockhart cumprimentou com muitos meneios, enquanto Snape curvou a cabeça, irritado. Em seguida, os dois ergueram as varinhas como se empunhassem espadas.
— Como vocês veem, estamos segurando nossas varinhas na posição de combate normalmente adotada – disse Lockhart aos alunos em silêncio. – Quando contarmos três, lançaremos os primeiros feitiços. Nenhum de nós está pretendendo matar, é claro.
— Eu não teria certeza disso – murmurou Harry, observando Snape arreganhar os dentes.
— Um... dois... três...
Os dois ergueram as varinhas acima da cabeça e as apontaram para o oponente; Snape exclamou:
— Expelliarmus! – Viram um lampejo vermelho ofuscante e Lockhart foi lançado para o alto: voou para os fundos do palco, colidiu com a parede, foi escorregando e acabou estatelado no chão.
Draco e outros alunos da Sonserina deram vivas. Hermione dançava nas pontas dos dedos para ver melhor.
— Vocês acham que ele está bem? – guinchou ela, tampando a boca com a mão.
— Quem se importa? – responderam Harry e Rony juntos.
Lockhart foi-se levantando tonto. Seu chapéu caíra e os cabelos ondulados estavam em pé.
— Muito bem! – disse, cambaleando de volta ao palco. – Isto foi um Feitiço de Desarmamento, como viram, perdi minha varinha, ah, muito obrigado, Srta. Brown... sim, foi uma excelente demonstração, Prof. Snape, mas se não se importa que eu diga, ficou muito óbvio o que o senhor ia fazer. Se eu tivesse querido detê-lo teria sido muito fácil, mas achei mais instrutivo deixá-los ver...
Snape tinha uma expressão assassina no rosto. Lockhart possivelmente notou porque acrescentou:
— Chega de demonstrações! Vou me reunir a vocês agora e separá-los aos pares. Prof. Snape, se o senhor quiser me ajudar...
Snape chegou até Harry e Rony primeiro.
— Acho que está na hora de separar a equipe dos sonhos – caçoou. – Weasley, você luta com Finnigan. Potter...
Harry virou-se automaticamente para Hermione.
— Acho que não – disse Snape, sorrindo estranhamente. – Sr. Malfoy, venha cá. Vamos ver o que o senhor faz com o famoso Potter. E a senhorita, pode fazer par com a Srta. Bulstrode.
A garota da Sonserina era grande e atarracada, e seu queixo pesado se projetava para a frente, agressivamente. Hermione lhe deu um breve sorriso que ela não retribuiu.
— De frente para os seus parceiros! – mandou Lockhart, de volta ao tablado. – E façam uma reverência!
— Preparar as varinhas! – gritou Lockhart. – Quando eu contar três, lancem seus feitiços para desarmar os oponentes, apenas para desarmá-los, não queremos acidentes, um... dois... três...
Rony foi mais rápido e atingiu Simas, mas sua varinha quebrada não produziu o feitiço corretamente e Simas caiu branco. Rony correu para segurá-lo.
— Desculpa, cara! Desculpa! Maldita varinha. — ele falava apertando a varinha na mão.
Já Hermione teria ganho da garota da Sonserina se esta não tivesse largado a varinha e partido pra cima dela antes mesmo da contagem acabar, fazendo sua varinha cair no chão também. Emília dera uma chave de cabeça em Hermione, que choramingava de dor. Harry deu um salto à frente e fez Emília soltar Hermione. Foi difícil: a garota era muito maior do que ele.
Mas, quando conseguiu, Hermione se levantou e, ao ajustar suas vestes enquanto agradecia a Harry, percebeu um fio de cabelo de Emília Bulstrode em seu uniforme. Ao invés de se livrar dele, pensando na Poção Polissuco que estava em andamento e em como precisaria pensar em alguma garota Sonserina na qual se transformar, ela tomou-o nas mãos discretamente e o colocou num dos bolsos das vestes, fazendo uma nota mental de guardá-lo em algum frasco em seu malão mais tarde.
— Ai, ai-ai, ai-ai! – exclamou Lockhart, passando por entre os duelistas, para ver o resultado das lutas. – Levante, Macmillan... Cuidado, Miss Fawcett... Aperte com força, vai parar de sangrar em um segundo, Boot...
—Acho que é melhor ensinar aos senhores como se bloqueia feitiços hostis — disse Lockhart, parando no meio do salão. Ele olhou para Snape, cujos olhos negros brilhavam, e desviou rápido o seu olhar — Vamos arranjar um par voluntário, Longbottom e Finch-Fletchley, que tal vocês...
— Uma má ideia, Prof. Lockhart – disse Snape, deslizando até ele como um enorme morcego malévolo. – Longbottom causa devastação até com o feitiço mais simples. Vamos ter que mandar o que sobrar de Finch-Fletchley para a ala hospitalar em uma caixa de fósforos. – O rosto redondo e rosado de Neville ficou ainda mais rosado. – Que tal Malfoy e Potter? – sugeriu Snape com um sorriso enviesado.
— Ótima ideia! – disse Lockhart, fazendo um gesto para Harry e Draco irem para o meio do salão, enquanto os demais alunos se afastavam para lhes dar espaço.
Lockhart falou algo a Harry, fez um floreio estranho com a varinha e a deixou cair. Snape aproximou-se de Draco, curvou-se e sussurrou alguma coisa em seu ouvido. Após alguns sussurros dos dois lado Lockhart fez a contagem.
— Três... dois... um... agora! – gritou ele.
Draco ergueu a varinha depressa e berrou:
— Serpensortia!
A ponta de sua varinha explodiu. E uma comprida cobra preta se materializou e caiu pesadamente no chão entre os dois se erguendo, pronta para atacar. Os alunos gritaram recuando rapidamente, abrindo espaço.
— Não se mexa, Potter – disse Snape tranquilamente, sentindo visível prazer de ver Harry parado imóvel, cara a cara com a cobra irritada. – Vou dar um fim nela...
— Permita-me! – gritou Lockhart. E brandiu a varinha para a cobra, ao que se ouviu um grande baque; a cobra, em lugar de desaparecer, voou três metros no ar e tornou a cair no chão com um estrondo. Enraivecida, sibilando furiosamente, ela deslizou direto para Justino Finch-Fletchley e se levantou de novo, as presas expostas, armada para o bote.
Harry foi até a cobra, fez um som muito estranho, como um silvo, e a cobra desabou no chão, dócil como uma mangueira grossa e preta de jardim, seus olhos agora em Harry. Rony estremeceu num calafrio, de olhos vidrados no amigo, que então olhou para Justino, sorrindo, e este visivelmente zangado e apavorado, falou:
— De que é que você acha que está brincando? – gritou, e antes que Harry pudesse responder alguma coisa, Justino virou-lhe as costas e saiu do salão enfurecido.
Snape se adiantou, acenou a varinha e a cobra desapareceu com uma pequena baforada de fumaça preta. Snape, também, olhou Harry de modo inesperado: era um olhar astuto e calculista. Os alunos começaram a cochichar e Rony achou melhor tirar Harry logo dali. Hermione só teve tempo de olhar de Harry, incrédula e fixamente como estivera pelos últimos instantes, para Rony, e se colocar a acompanhá-los assim que Rony se moveu.
— Vamos – disse Rony no ouvido do amigo com urgência – Mexa-se, vamos...
Rony guiou-o para fora do salão, Hermione corria para acompanhá-los. Quando atravessaram o portal, as pessoas de cada lado recuaram como se tivessem medo de apanhar uma doença. Rony arrastou Harry até a sala comunal, sem dizer nada.
Pensando bem no momento, ele sabia o que fora aquilo. Harry falava com cobras, era ofidioglota. Mas, como é que nunca souberam, até ali? Nem ele, nem Hermione, pelo visto — com quem trocou um olhar discreto no caminho para a Torre da Grifinória. Havia maneiras e momentos melhores de se descobrir do que em meio a um grande período de caos sobre a Câmara Secreta, que, pelo visto, tinha a ver com Slytherin — assim como a capacidade de falar com cobras que Harry tinha.
Quando chegaram à sala comunal, ele empurrou Harry para uma poltrona e disse:
— Você é um ofidioglota. Por que não nos contou?
— Eu sou o quê? – perguntou Harry.
— Um ofidioglota! – disse Rony. – Você é capaz de falar com as cobras!
— Eu sei. Quero dizer, é a segunda vez que faço isso. Uma vez no zoológico atirei, por acaso, uma jiboia contra o meu primo Duda, uma longa história... Ela estava me contando que nunca tinha estado no Brasil e eu meio que a soltei sem querer, isso foi antes de saber que era bruxo...
— Uma jiboia contou a você que nunca tinha ido ao Brasil? – repetiu Rony, baixinho.
— E daí? Aposto que um monte de gente aqui pode fazer isso.
— Ah, não. De jeito nenhum. Isto não é um dom muito comum. Harry, isto não é legal.
— O que não é legal? – disse Harry, começando a ficar com muita raiva. – Qual é o problema com todo mundo? Escuta aqui, se eu não tivesse dito àquela cobra para não atacar Justino...
— Ah, então foi isso que você disse?
— Que quer dizer com isso? Vocês estavam lá, vocês me ouviram...
— Ouvi você falar esquisito – disse Rony. – Língua de cobra. Você podia ter dito qualquer coisa, não admira que o Justino tenha entrado em pânico, parecia que você estava convencendo a cobra a fazer alguma coisa, deu arrepios, sabe...
Harry ficou de boca aberta.
— Eu falei uma língua diferente? Mas, eu não percebi, como posso falar uma língua sem saber que posso falá-la?
Rony sacudiu a cabeça. Tanto ele quanto Hermione estavam preocupados com o que acabara de acontecer.
— Querem me dizer o que há de errado em impedir uma enorme cobra de arrancar a cabeça do Justino? Que diferença faz como foi que eu fiz isso, desde que o Justino não precise se associar ao clube dos Caçadores Sem Cabeça?
— Faz diferença, sim – disse Hermione, falando, afinal, num tom abafado. Ela não queria muito dizer aquilo, porque seria muito fácil para Harry relacionar ao que significava, em voz alta. –, porque a capacidade de falar com cobras foi o dom que tornou Salazar Slytherin famoso. É por isso que o símbolo da Sonserina é uma serpente.
— Exatamente – confirmou Rony. – E agora a escola inteira vai pensar que você é o tetra-tetra-tetra- tetraneto ou coisa parecida...
— Mas eu não sou – disse Harry, em pânico.
— Você vai achar difícil provar isso – falou Hermione. – Ele viveu há mil anos; pelo que se sabe, você podia muito bem ser descendente dele.
Harry ficou quieto. Rony e Hermione se entreolharam sem saber mais o que dizer. Os dois sabiam que a partir dali Harry iria ser considerado o herdeiro de Salazar e, com a coisa toda da Câmara, isso traria sérios problemas.
(...)
Na manhã seguinte, uma nevasca forçou o cancelamento da aula de Herbologia. Então os três amigos ficaram na sala comunal. Harry parecia muito preocupado e pensativo, tinha dito aos amigos que queria falar com Justino e explicar tudo, mas com o cancelamento da aula não poderia fazer isso. Rony e Hermione resolveram deixá-lo quieto e jogar xadrez bruxo.
Vendo que Harry estava se consumindo de preocupação, Hermione não aguentou ficar calada:
— Pelo amor de Deus, Harry – disse ela, exasperada, quando um bispo de Rony desmontou um cavalo dela e o arrastou para fora do tabuleiro. – Vá procurar o Justino se isso é tão importante para você.
Provavelmente Harry só precisava desse empurrãozinho para fazer o que estava pensando em fazer. Ele se levantou, sem dizer nada, e saiu pelo buraco do retrato, deixando Rony e Hermione sozinhos com seu jogo.
— Ele foi atrás do Justino, não é? — comentou Rony, embora estivesse mais do que certo da resposta, movendo uma peça no tabuleiro.
— Com toda a certeza. Ele não vai se conformar que pensem isso dele, é claro.
—Bom, eu também não me conformaria. — Rony deu de ombros — Mas, também entendo o lado do Justino, sabe. Foi bem assustador...
— Rony! — Hermione o repreendeu — Estamos falando do Harry. Você não acha que... — ela tirou os olhos do tabuleiro e olhou pra ele, sugerindo, sem querer dizer.
—Não, não! É claro que não! — ele negou rapidamente — Só quero dizer que para quem não o conhece bem como nós, pode pensar mesmo que ele é o herdeiro.
—É, pode ser. — ela concordou, infeliz com a ideia, e moveu sua peça — Mas, sabe, deviam lembrar que Harry perdeu a família por causa de Você-sabe-quem e sobreviveu a ele. Não é muito inteligente pensar que logo ele faria algo do tipo. — ela arqueou as sobrancelhas, como se fosse óbvio, e olhou do tabuleiro para Rony, que parecia muito concentrado.
—Mione, nem todos são inteligentes como você. — ele retrucou naturalmente, os olhos fixos no tabuleiro, arquitetando sua jogada final, e não a viu corar, com um sorriso tímido. — As pessoas só interpretam o que veem.- e concluiu, antes de dizer — Xeque-mate! — e recostou-se na cadeira, satisfeito.
Hermione odiava perder, sobretudo num jogo de lógica: então teria ficado emburrada, se não fosse o comentário que ele acabara de fazer ecoando em sua cabeça.
Os dois jogaram mais uma partida e, como se aproximava o horário da próxima aula, guardaram o jogo e ficaram esperando Harry voltar para irem juntos. Quando o retrato abriu, ao contrário de suas expectativas, não foi Harry que entrou, mas dois alunos do primeiro ano.
— Potter... foi ele... estava lá na cena! Desta vez foi um tal de Justino e o fantasma do Nick. Nem sabia que isso era possível.
Rony e Hermione se entreolharam na mesma hora e correram porta afora para chegar até o andar dos ataques. O corredor estava cheio de gente — Pirraça ria de se acabar. Quando os dois chegaram, só conseguiram ver a Professora Minerva levar Harry, sabe-se lá pra onde.
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