A Câmara Secreta - Por Rony W. e Hermione G.
3 Capítulo 3 - O sumiço dos garotos
Notas iniciais
Hermione acordou naquele primeiro de setembro muito, muito cedo. Não via a hora de poder voltar a Hogwarts. A visita ao Beco Diagonal dias atrás a fizera relembrar o quanto se sentia bem no mundo bruxo. Já havia lido toda a lista de livros e estava ansiosa para aprender tudo aquilo na prática: é claro que gostava de ficar com seus pais, mas o mundo bruxo era, de fato, o seu lugar.
Depois de conferir três vezes se tinha guardado tudo no malão, deixar o quarto arrumado e estar pronta para ir, ela desceu para o último café da manhã que tomaria com os pais até seu retorno. Não havia combinado horário com os garotos, mas como o trem tinha horário de saída, estava certa de que os encontraria na cabine.
Quando chegou à estação de King's Cross às dez e meia, Hermione se despediu dos pais com abraços apertados e promessas de escrever sempre, e atravessou a barreira da plataforma 9 3/4 como havia feito no ano anterior, empurrando seu carrinho com o malão. Ao chegar do outro lado, procurou para ver se via Harry ou Rony, mas imaginou que talvez estivesse cedo demais e por isso eles ainda não tivessem chegado. Ela então pediu ajuda a um aluno mais velho, para ajudá-la a embarcar o malão, e foi até uma cabine esperar por seus amigos.
A plataforma estava apinhada de gente e ela mal podia distinguir as pessoas quando, faltando apenas cinco minutos para a saída do trem, Hermione viu uma família ruiva se aproximando. "Os Weasley!", pensou ela, animadamente.
Percy vinha primeiro, seguido do Sr. Weasley. Depois, os gêmeos, a Sra. Weasley com Gina, a irmãzinha de Rony — que tinha conhecido no último ano, no dia da volta e depois de novo naquele verão no Beco Diagonal. Logo, Hermione concluiu: Rony e Harry só poderiam vir logo depois.
Mas, segundos passaram e, seguindo a fila da família ruiva com os olhos, ela não os viu. Naquele momento o trem apitou, avisando que estava prestes a sair, e um grupo de alunos entrou de uma vez, impedindo a visão dela. Quando finalmente conseguiu distinguir o Sr. e Sra. Weasley na multidão, o trem começou a andar, então supôs, num lapso de esperança com um resquício estranho de dúvida, que todos estavam a bordo, e parou de olhar pela janela — logo os dois a achariam naquele vagão.
Passados alguns minutos, Hermione estranhou: nenhum dos dois havia chegado à cabine. Ela não demorou a resolver andar pelo trem e ver se os encontrava — andou mais para o meio do trem, onde viu os gêmeos e um amigo deles em uma das cabines, sem surpresa, tramando algo, enquanto Gina olhava pela janela observando tudo.
Hermione lembrou-se então de como se sentiu no ano anterior e soube exatamente o que a menina devia estar sentindo enquanto encarava a paisagem lá fora parecendo, ao mesmo tempo, querer absorver tudo e não reter realmente nada.
Sem hesitar, ela bateu na porta e então perguntou:
—Olá, gente! Vocês por acaso viram Harry e Rony?
—Granger! Olá! — disse Jorge se levantando animadamente, e se virou para trocar um olhar de confirmação com o irmão — Não vimos, na verdade. Eles vieram depois de nós na barreira e como o trem estava saindo acabamos nem os vendo entrar. Mas, devem estar por aí. — ele deu de ombros, sem grande importância, e Fred assentiu.
—Ah, certo, tudo bem! — ela assentiu de volta com certa dúvida, mas sorriu de toda forma — Se eles passarem aqui avisem, por favor, que estou mais para o fundo do trem.
—Certo, nós avisaremos. — Fred confirmou, voltando aos afazeres com o outro garoto antes mesmo que ela deixasse a cabine.
E ainda lá, Hermione percebeu o olhar estranho de Gina para ela quando perguntara dos meninos — mas, logo achou que poderia ser sua imaginação. Voltou então para sua cabine e ficou lá esperando, um pouco impacientemente e preocupada.
Depois de um tempo, Neville apareceu e pediu para se sentar com ela: estava fugindo de Malfoy. Hermione, é claro, não hesitara em compartilhar o espaço com ele — embora a ideia antecipada de Draco Malfoy aparecendo na cabine para os atazanar não fosse exatamente o que imaginara e nunca o que poderia querer para uma viagem tranquila, Neville era mesmo um garoto legal que não merecia ser acuado por ele, e muito menos ficar sem amigos.
Logo, como antecipara Hermione, o garoto loiro e seus dois amigos apareceram na porta e já começaram a zoação.
—Ora, ora, ora... Se não é o panaca do Longbottom e a insuportável da Granger. — disse Draco ao batente da cabine, fazendo Neville o encarar, mas se afundando um pouco na poltrona.
—O que é que você quer aqui, Malfoy? — perguntou Hermione, fechando a cara e antecipadamente empunhando com discrição a varinha que estava na bolsa ao seu lado. O garoto arqueou uma sobrancelha, um riso sádico no rosto bizarramente pálido, quando respondeu como se nunca tivesse ouvido a garota.
—Cadê aqueles seus amiguinhos? O santo Potter e o pobretão Weasley? — ele apontou com o rosto para os lugares vazios, se divertindo, num tom de desdém.
—Não é da sua conta. — ela respondeu rispidamente. Crabbe e Goyle se mexeram atrás de Draco, mas este levantou a mão.
—Nem precisam se importar, garotos. Essa daí não vale a pena. — e com isso ele cedeu um sorriso sarcástico e petulante, saindo de vista no corredor, junto aos dois maiores.
Neville expirou com pesar, soltando o ar como se o estivesse segurando o tempo todo, e só então falou com Hermione.
—Espero que não se importe que eu pergunte... — começou ele, num tom baixo e cuidadoso — Eu quase havia me esquecido. Cadê Harry e Rony? Vocês não viajam juntos?
Hermione inspirou com certo pesar, remexendo nas mãos sobre as pernas nervosamente.
—Não sei onde estão. — confessou ela, soltando o ar dos pulmões — Da última vez viajamos juntos na volta, mas não acho eles, e nem quem saiba para onde foram, em lugar algum.
—Ah... ! — Neville pareceu se assustar um pouco, as sobrancelhas unidas no cenho conforme baixou o tom para perguntar — Será que aconteceu alguma coisa? Quero dizer, eles têm que estar aqui, não é? Nunca ouvi falar de ninguém que tenha ido a Hogwarts de outro jeito. — ele disse de uma vez, nervosamente — Talvez eles só tenham se perdido...
Hermione suspirou, mal digerindo as palavras de Neville — porque já estava preocupada o suficiente. Algo não estava certo, e ela esperava muito que não fosse outra coisa envolvendo aventuras com enigmas ou objetos mágicos desejados por bruxos das trevas.
—Não sei... — ela admitiu — Mas, como os irmãos de Rony estão a bordo, acho que eles devem estar também, só não sei aonde. Espero que não estejam metidos em nenhuma confusão. — e acrescentou sinceramente.
—Mas já? — o garoto Longbottom arregalou os olhos — Nós mal saímos de Londres!
—Tudo é possível, Neville. Com aqueles dois, — Hermione suspirou — tudo é possível. — completou com uma sensação desagradável, torcendo para que não se tratasse de outra aventura perigosa, e se virou para a janela, se perdendo em seus pensamentos ao fitar a paisagem.
Hermione pegou um livro para ler enquanto Neville dormia a sua frente, mas não conseguia realmente se concentrar: ela estava muito preocupada pra conseguir ler de verdade e não tinha com quem falar sobre aquilo. Alguma coisa devia ter acontecido a eles, mas o quê era possível dessa vez?
No dia do Beco Diagonal, Harry tinha lhe contado aquela história estranha sobre o elfo e o aviso que deu a ele, mas como poderia ter alguma coisa a ver com isso?
Os pensamentos da garota dispararam enquanto ela fitava a paisagem do lado de fora, mas não a via realmente. Talvez se tivesse olhado para cima pudesse ver, de tempos em tempos, um estranho pontinho azul ciano no céu que, a depender de sua fé em magia — ou ainda, no potencial de seus amigos para se meter em confusões tão cedo — poderia dar algum amparo de resposta às suas perguntas.
(...)
O trem finalmente começou a desacelerar e parou na estação de Hogsmeade. Desta vez Hermione não iria de barco ao castelo: afinal, estava no segundo ano agora e precisaria pegar uma das carruagens que andavam sozinhas e levavam os alunos, exceto do primeiro ano, ao castelo.
Assim que chegaram ao castelo, Hermione e Neville seguiram para o Salão Principal. O teto encantado, que sempre refletia o céu lá fora, estava pontilhado de estrelas. Uma quantidade considerável de velas pairava no ar sobre as quatro mesas compridas e lotadas, fazendo os pratos e taças de ouro faiscarem.
Os dois foram logo se sentar à mesa da Grifinória. O prof. Dumbledore deu as boas vindas e logo a Profa. McGonagall trazia a fila de iniciantes para a cerimônia de seleção — a irmã de Rony estava entre elas, inconfundível com seus cabelos ruivos.
McGonagall então colocou um banquinho na frente deles e sobre este o Chapéu Seletor, começando a chamar um a um para sentar-se e pôr o chapéu. A cada aluno selecionado a mesa da casa que tinha sido indicada dava vivas e batia palmas. Aos selecionados para Grifinória, Hermione batia palmas também, mas estava tão preocupada com Harry e Rony que nem parecia muito entusiasmada: foi só quando ela ouviu que Gina Weasley tinha ido para Grifinória também e seus irmãos fizeram a algazarra que ela sorriu de verdade, os assistindo.
Terminada a seleção, deu-se início ao banquete — e neste momento os gêmeos Weasley vieram falar com ela.
—Ei, Granger! Cadê Harry e Rony? — Fred quis saber, olhando para os lados — Achamos que estariam aqui com você a essa altura. Eles passaram por você no trem?
Hermione balançou a cabeça negativamente, desanimada, e agora ainda mais preocupada porque sequer os irmãos de Rony sabiam onde é que estavam ele e Harry.
—Não sei deles. Não os vi no trem e nem depois. — ela admitiu, preocupada, e os gêmeos se entreolharam franzindo o cenho.
—Será que tem a ver com o recado do elfo? — cochichou Jorge ao irmão.
—Ah, eu acho que não... — Fred refletiu por um instante e recomeçou a dizer — Entende, provavelmente aquilo foi coisa daquele garoto Malfoy mimado, querendo assustar Harry. Mas, papai já deu um susto nele aquele dia. — ele deu de ombros.
—Bem, é, pode ser... — o outro deu-se um momento para pensar também, mas hesitou — De qualquer forma, é estranho. — e manteve o cenho franzido — Se souber deles nos avise, certo? — pediu Jorge, saindo com o irmão e voltando a seu lugar, perto da irmã mais nova. Hermione assentiu antes que eles dessem as costas.
Prof. Snape esteve ausente durante todo o jantar. Porém, em dado momento, que não passara despercebido por Hermione, ele entrou, falou com a Profa. McGonagall e o Prof. Dumbledore, e saiu acompanhado da professora. A garota os observava e, de repente, uma certeza quase completa a atingiu: aquilo devia ter algo a ver com Harry e Rony.
De toda forma, foi só quando Dumbledore também saiu, minutos depois, que ela teve certeza.
De repente um burburinho começou a se espalhar nas mesas até que finalmente chegara aos ouvidos de Hermione: Harry Potter e Ronald Weasley tinham sido expulsos por terem viajado da estação de King's Cross até Hogwarts com um carro voador, e o batido numa árvore milenar ao aterrissar nos terrenos da Escola. Hermione imediatamente praguejou em sua cabeça, querendo odiá-los por se meterem em algo tão absurdo, e se odiar também por desejar que houvesse uma saída para os amigos que não fosse a expulsão — mesmo tendo plena consciência de que eles provavelmente a mereciam.
Ela mal podia acreditar que aquilo fosse verdade. Por Merlin, o que é que havia dado na cabeça daqueles dois? Já não bastavam as vezes se arriscando tarde da noite pelos corredores da Escola, metendo-se em perigo com Fofo e depois o pior, com toda a coisa perigosíssima da Pedra Filosofal no ano passado? Já não eram "aventuras" o suficiente pra dois segundanistas? E como se não bastasse, se meter com o Salgueiro Lutador — a árvore milenar de que haviam falado e sobre a qual ela havia lido em Hogwarts: uma história, que atacava qualquer um que se aproximasse dela.
Aquilo definitivamente só podia ser mentira — e ela esperava que fosse.
Enquanto Hermione se indignava mentalmente — com a possibilidade daquilo ser real e mais ainda se convencendo de que não era, e que as pessoas estavam ridiculamente dizendo aquilo apenas para chamar atenção -, o barulho começou a aumentar, até que o diretor voltara acompanhado de Snape. Ela viu os alunos da Sonserina, em sua maioria, acompanharem o Diretor de sua casa com os olhos, curiosos e parecendo entusiasmados — exceto por Crabbe e Goyle que, ela notou com desgosto, estavam se empanturrando de todo tipo de doces servidos, de uma maneira grotesca.
Após a sobremesa, finalmente, a Profa. McGonagall também retornara. Foi quando o diretor pediu silêncio e começou a dar os avisos habituais.
Assim que foram liberados, Hermione deixou os outros irem na frente na tentativa de tentar achar Harry e Rony. Ela ouvira Percy dizer que a nova senha da Grifinória era "maçarico" enquanto esperava por uma chance de procurá-los e, passado um tempo, ela imaginou que isso poderia ser muito incerto e arriscado — para ela e para eles também, que se estivessem em algum lugar esperando por alguma decisão de Dumbledore, ou até mesmo cumprindo algum castigo, e poderiam ser ainda mais repreendidos se fossem vistos na companhia dela e pensassem que estavam tramando algo -, então preferiu ir de vez à sala comunal.
O castelo estava silencioso. Ela passou pelos quadros que resmungavam e as armaduras que rangiam e subiu a estreita escada de pedra, até chegarem, finalmente, à passagem onde se escondia a entrada secreta para a Grifinória. Ao se aproximar, viu os dois parados em frente ao retrato e respirou aliviada, correndo para falar com eles.
— Aí estão vocês! Onde se meteram? — ela desatou a dizer sem pausa — Os boatos mais ridículos... Alguém disse que vocês foram expulsos por terem batido com um carro voador.
— Bem, não fomos expulsos – garantiu-lhe Harry.
— Vocês não vão me dizer que realmente chegaram aqui voando? – perguntou Hermione, em tom quase tão severo quanto o da Profa McGonagall.
— Pode poupar o sermão – disse Rony, impaciente – e nos dizer qual é a nova senha.
— É "maçarico" – respondeu Hermione, nervosa –, mas não é isto que está em questão...
Suas palavras, porém, foram interrompidas, pois o retrato da mulher gorda se abriu em meio a uma repentina tempestade de aplausos. Parecia que todos os alunos da Grifinória ainda estavam acordados, espremidos na sala comunal redonda, trepados nas mesas fora de esquadro e nas poltronas que afundavam, esperando os dois chegarem. Braços passaram pela abertura do retrato para puxar Harry e Rony para dentro, deixando Hermione subir depois e sozinha.
— Genial! – berrou Lino Jordan. – Um achado! Que entrada! Aterrissar um carro voador no Salgueiro Lutador, vão comentar isso durante anos!
Rony recebeu várias palmadinhas em suas costas como se ele tivesse acabado de ganhar um jogo de quadribol; Fred e Jorge abriram caminho por entre os colegas aglomerados e perguntaram ao mesmo tempo:
— Por que não viemos no carro, hein? – perguntaram eles, entusiasmados, e Rony, com o rosto tão vermelho quanto a tapeçaria da Grifinória numa parede, sorria constrangido, embora não pudesse deixar de admitir que gostara daquele prestígio todo.
Harry cutucou Rony nas costelas e fez sinal em direção a Percy, que parecia querer se aproximar e ralhar com eles. Rony entendeu na mesma hora.
— Temos que subir... Um pouco cansados – disse ele, subitamente, e os dois começaram a abrir caminho descaradamente em direção à porta do lado oposto da sala, que levava à escada circular e aos dormitórios.
— Boa Noite. – Rony falou pra Hermione, logo após Harry, e subiu rápido. Ela estava com uma cara de quem comera limão, ou mesmo igual à de sua mãe antes de uma bronca.
Os garotos conseguiram chegar ao outro lado da sala comunal, ainda recebendo palmadinhas nas costas, e alcançaram a paz das escadas. Subiram-na correndo, direto para cima e, finalmente, chegaram à porta do antigo dormitório, que agora tinha um letreiro que dizia: "ALUNOS DE SEGUNDA SÉRIE". Entraram no quarto circular que já conheciam, com camas de quatro colunas e cortinas de veludo vermelho, e suas janelas altas e estreitas. Seus malões tinham sido trazidos até o quarto e colocados aos pés das camas.
Rony sorriu com ar de culpa para Harry.
— Sei que não devia ter curtido isso nem nada, mas... — ele suspirou, aproveitando a sensação de ter tido toda aquela atenção, mesmo quebrando sua varinha, cortando a testa e quase sendo expulso. Aquilo estava sendo muito legal.
Harry sorriu e deu um olhar a Rony, que o garoto ruivo soube, quis dizer que ele também sentira aquilo.
De repente, a porta do dormitório se escancarou e por ela entraram os outros segundanistas da Grifinória: Simas Finnigan, Dino Thomas e Neville Longbottom.
— Inacreditável! – exclamou Simas radiante.
— Legal! – disse Dino.
— Um assombro! – acrescentou Neville atônito.
Depois dessa, Harry sorriu também.
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